Mostrando postagens com marcador incêndio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador incêndio. Mostrar todas as postagens

domingo, 30 de junho de 2024

 


O que as paisagens antigas predizem sobre as mudanças climáticas

Um arqueólogo que estudou os restos carbonizados de vidas de pessoas históricas reflete sobre o que o passado pode nos dizer sobre desastres e mudanças climáticas.
Uma casa fica em ruínas queimadas após um incêndio.

Os restos de uma casa perdida num incêndio devastador na Califórnia são uma lembrança tangível das nossas escolhas.

Robert Frizzell

Este artigo foi publicado originalmente no  The Conversation  e foi republicado sob Creative Commons.

✽

A IMAGEM ACIMA do trágico “ Camp Fire ”, o incêndio florestal mais destrutivo da história da Califórnia, mostra uma casa incendiada até os alicerces. Tais imagens são difíceis de processar, especialmente com 86 pessoas mortas.

A imagem me fez pensar sobre o que a pesquisa arqueológica pode nos dizer sobre desastres e mudanças climáticas. Como arqueólogo, procuro responder a perguntas sobre as escolhas que fazemos e as coisas que possuímos e amamos.

Os potes de barro enegrecido da imagem significam muito para os proprietários; eles são uma lembrança dos dois anos que seus pais passaram na Etiópia na década de 1960 e dos muitos outros objetos familiares que não sobreviveram ao incêndio.

Em meu trabalho de campo nos altos Andes, escavei muitas casas queimadas, muitas vezes com camadas de cinzas e potes quebrados e queimados que estudo em meu laboratório na Universidade McMaster. Embora as pessoas que estudo tenham morrido há muito tempo, ainda me pergunto como os habitantes se sentiram quando as suas casas foram queimadas e sobre as coisas que ficaram para trás.

Panelas quebradas e enegrecidas estão dentro dos restos de uma casa incendiada de 1.600 anos nas terras altas da Bolívia.

Andrew Roddick

Apesar da dificuldade de estudar objetos comuns, mas significativos, associados a eventos traumáticos, os arqueólogos há muito estudam o impacto de desastres, como tsunamis, eventos El Niño em larga escala e erupções vulcânicas . Pesquisadores têm trabalhado para entender tragédias em larga escala, como 11 de setembro de 2001 e o  incêndio da boate Station em 2003, em Rhode Island .

Os arqueólogos podem ajudar na recuperação e explorar como as comunidades podem mudar após desastres. Por exemplo, Shannon Dawdy explorou os efeitos e as consequências de um desastre. Dawdy estudou a recuperação em Nova Orleans pós-Katrina para considerar os processos materiais, políticos e emocionais que continuam a impactar os lugares após o desastre. Ela observa que a arqueologia da maioria afro-americana do Lower 9th Ward é distinta e revela estruturas de poder em Nova Orleans, onde casas destruídas ficaram expostas por muitos meses, permitindo que artefatos afundassem nas camadas da Terra.

Podemos considerar similarmente as populações vulneráveis ​​na Califórnia antes e depois dos incêndios. Embora a Califórnia seja um dos mercados imobiliários mais caros do país, a comunidade destruída de Paradise foi considerada um “oásis no punitivo mercado imobiliário do estado”. Relatórios sugerem que os incêndios na Califórnia produziram uma nova crise imobiliária .

ARQUEOLOGIA DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Os incêndios na Califórnia não foram causados ​​apenas pelas mudanças climáticas, mas foram um fator importante . Arqueólogos estudam as mudanças climáticas há mais de 150 anos; muitos dos nossos dados são um “ arquivo paleoclimático e paleoambiental ”. Desastres climáticos podem revelar o passado e ameaçar o passado, seja no  derretimento de geleiras , incêndios florestais ou secas .

A arqueologia na sequência dos desastres climáticos mais recentes é difícil e está a levar alguns a desenvolver novos métodos arqueológicos e técnicas interdisciplinares inovadoras. Mas a interpretação das nossas descobertas é igualmente desafiadora. Embora as mudanças climáticas graduais sejam constantes, os desastres climáticos podem causar danos ao longo de dias, ou mesmo horas.

Como relacionamos os indicadores climáticos de alta resolução – aqueles indicadores físicos das condições passadas – com a vida quotidiana do passado?

Na região do Lago Titicaca, na Bolívia, pesquisadores continuam a modelar histórias climáticas da América do Sul . Aqui, o surgimento (por volta de 400 d.C.) e o “colapso” (por volta de 1100 d.C.) da antiga cidade de Tiwanaku (um Patrimônio Mundial da UNESCO) se sobrepõem a períodos de mudança climática.

Os arqueólogos basearam-se em núcleos de sedimentos para determinar os níveis dos lagos, em dados de núcleos de gelo do glaciar Quelccaya, que está a desaparecer devido às alterações climáticas, e num grande número de datas de radiocarbono de locais da região para compreender os impactos do clima.

Alguns argumentam que a seca, a salinização dos solos e um cisto na batata podem ter prejudicado o sistema de campos elevados do qual o estado dependia.

Uma reconstrução do sistema de campo elevado fora de Tiwanaku.

Andrew Roddick

Esta paisagem também mostra os resultados das escolhas humanas mais recentes , incluindo a urbanização e a poluição, e os impactos das alterações climáticas provocadas pelo homem. Por exemplo, os picos glaciais que há muito têm um significado espiritual para os indígenas aimarás estão agora sem neve.

A região também sofreu secas perigosas, nas quais os pobres urbanos e rurais eram particularmente vulneráveis .

ARQUEOLOGIA DO FUTURO

Os arqueólogos consideram essas ameaças contínuas. Com o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas a alertar que temos 12 anos para evitar consequências terríveis , os arqueólogos reconhecem a importância de comunicar a sua compreensão das paisagens antigas e das ameaças que enfrentam populações particularmente vulneráveis. Os arqueólogos trabalham no presente para compreender o passado, mas também para falar sobre crises futuras.

Por exemplo, o arqueólogo Ken Sassaman estuda como os antigos povos indígenas da costa norte do Golfo da Flórida viveram durante 5.000 anos de mudanças climáticas. Eles navegaram por subidas dramáticas do nível do mar e recuos da costa (a uma velocidade de um campo de futebol a cada cinco anos), deslocando os seus antepassados ​​(no que deve ter sido um evento emocional), mudando as suas dietas e até sinalizando ameaças climáticas aos futuros habitantes.

Avisos explícitos enviados do passado também são vistos nas “pedras da fome” do século XVII ao longo do rio Elba, na República Checa, que alertam para futuras secas .

Tal como as pessoas há milhares de anos, os arqueólogos usam o seu conhecimento do passado para alertar sobre futuras crises climáticas. Por exemplo, Sassaman reuniu-se com legisladores na Florida, um estado que nega oficialmente a realidade das alterações climáticas causadas pelo homem.

ESCOLHENDO NOSSO FUTURO

Uma equipe interdisciplinar de arqueólogos, ecologistas, geomorfólogos, botânicos e a Amah Mutsun Tribal Band de Berkeley, Santa Cruz e o San Francisco Estuary Institute mostra que os povos indígenas da Califórnia têm uma longa história de queimadas em paisagens , muitas vezes escolhendo queimar para criar e manter paisagens produtivas de pastagens/arbustos. Parte desse trabalho está informando discussões políticas e novas formas de gerenciamento de incêndios . Esta pesquisa mostra que a biodiversidade, as topografias e as histórias indígenas da Califórnia exigem soluções locais.A conversa

Os arqueólogos têm um papel a desempenhar na tomada de decisões sobre como responderemos a futuros desastres climáticos. No nosso trabalho, ao considerarmos a relação entre acontecimentos de curto prazo e processos de longo prazo, podemos ajudar a navegar nos nossos futuros incertos. Como demonstram os exemplos antigos da Bolívia e da Florida, o clima não determina o nosso futuro. Nossas escolhas sempre foram importantes e ainda são.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

'Estou em luto profundo', diz o 'pai' de Luzia após perda de fóssil em museu

Crânio mais antigo do Brasil estava no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, durante o incêndio




Karina Gomes - Paris 
 
Há 20 anos, o antropólogo e arqueólogo Walter Alves Neves revelava Luzia ao mundo. Foi esse o apelido que o pesquisador deu ao esqueleto humano mais antigo do Brasil e que revolucionou as teorias científicas sobre a ocupação do continente a partir de 1998.

O crânio de Luzia, ícone da pré-história brasileira, estava no Museu Nacional do Rio de Janeiro durante o incêndio no último domingo (2). O fóssil estaria sob uma área com escombros, e técnicos do museu não conseguiram acessar o local. 

​ “É uma perda irreparável”, diz Neves ao ressaltar o impacto devastador da destruição do acervo nas pesquisas sobre a evolução humana nas Américas e no Brasil.
O crânio do fóssil Luzia e a imagem de sua face reconstituída
O crânio do fóssil Luzia e a imagem de sua face reconstituída - Associated Press
O fóssil de mais de 11.000 anos encontrado entre 1974 e 1975 na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, garantiu reconhecimento internacional à teoria de Neves de que o continente americano foi ocupado por duas levas migratórias de homo sapiens vindos do nordeste da Ásia –a primeira dos antepassados de Luzia, que tinham traços africanos e australianos, e a segunda, de ameríndios com morfologia mongoloide, semelhante a dos indígenas atuais.

Com o chamado ‘modelo dos dois componentes biológicos’, Neves desafiou o modelo hegemônico de ocupação única do continente pelo povo de Clóvis, a partir do Novo México, nos Estados Unidos. “A popularidade que a Luzia ganhou na mídia fez com que a comunidade científica levasse a sério a minha teoria sobre os primeiros americanos”, diz o professor aposentado do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

O nome dado à jovem paleoamericana, que morreu com cerca de 20 anos de idade, seria uma versão abrasileirada de Lucy, o fóssil de hominídeo mais antigo do mundo, com 3,2 milhões de anos. O “pai de Luzia” diz estar em luto profundo pela “tragédia anunciada” no Museu Nacional, que descreve como um “crime contra o Brasil e a humanidade”. 

Folha - Qual é o impacto da perda do crânio de Luzia para a ciência? 

Walter Alves Neves - Esse incêndio representa um crime contra o Brasil e contra a própria humanidade. Além da Luzia, o museu tinha a maior coleção de esqueletos dos primeiros americanos oriundos da região de Lagoa Santa. O estudo sobre esses povos precisa passar necessariamente por esse material, e a maior parte dele estava no museu. Isso vai afetar negativamente o trabalho de gerações de cientistas que queiram entender a evolução humana no continente.

Como a análise do fóssil de Luzia ajudou a confirmar a sua teoria sobre o povoamento das Américas, que já vinha sendo formulada desde a década de 1980? 

A Luzia deu visibilidade para as nossas pesquisas no Brasil e no exterior. Antes, acreditava-se que a América tinha sido povoada por apenas um tipo de população, sob o modelo da migração única. A partir dos meus estudos com os esqueletos de Lagoa Santa e também outros na América do Sul e Mesoamérica, ficou claro que a América foi ocupada por duas populações com morfologias completamente distintas e em momentos diferentes. Os antepassados de Luzia –com formato craniano semelhante ao de africanos e australianos– chegaram às Américas há 14.000 anos pelo nordeste da Ásia através do Estreito de Bering, que liga os oceanos Pacífico e Ártico, mas não deixaram descendentes. Dois milênios mais tarde, vieram os ameríndios com morfologia mongoloide, que é a da maior parte dos índios atuais.
O bioantropólogo Walter Neves
O bioantropólogo Walter Neves - Karime Xavier/Folhapress
O esqueleto de Luzia foi encontrado na gruta Lapa Vermelha 4, no município de Pedro Leopoldo (MG) a 12 metros de profundidade. Por que ele é tão singular? 

O esqueleto de Luzia não foi encontrado por mim, mas pela missão franco-brasileira liderada pela arqueológoga francesa Annette Laming-Emperaire, que morreu de forma repentina poucos anos depois da descoberta. O esqueleto de Luzia ficou guardado por duas décadas no acervo do Museu Nacional sem que houvesse estudos ou publicações relevantes. Em 1995, eu comecei a analisar a morfologia craniana de Luzia. Em Lagoa Santa, encontramos mais de 40 esqueletos datados entre 8.000 e 10.000 anos, que são raríssimos. O da Luzia, com mais de 11.000 anos, era singular. É uma perda irreparável.

Há outras pesquisas recentes com os fósseis de Lagoa Santa? 

Sim. Um ex-estudante do instituto está tentando extrair o DNA de fósseis encontrados no local. Se ele conseguir extrair bem esse material de DNA, poderá ou não –mas estou otimista– confirmar o meu modelo de ocupação das Américas. A Luzia e outros crânios que foram encontrados nas Américas confirmaram a minha hipótese. O sucesso midiático de Luzia permitiu que a minha teoria chegasse à comunidade científica internacional, que passou a levar a sério o que vinha sendo dito por mim desde a década de 1980.

Restou algum material relacionado ao crânio de Luzia? 

Tenho uma cópia da reconstituição facial e que está comigo na USP. A reconstituição feita pelo antropólogo britânico Richard Neave confirmou a minha análise de que Luzia tinha traços africanos e australianos com uma morfologia craniana muito diferente da dos indígenas atuais. Há três meses, o Museu Nacional doou uma réplica do crânio de Luzia feita com impressoras 3D à Prefeitura de Pedro Leopoldo. Houve uma solenidade para marcar o ‘Dia de Luzia’ [a homenagem instituída em 2016 é feita todos os anos no dia 14 de junho]. Mas é só uma réplica. Não dá para extrair DNA, por exemplo. Diante dessa catástrofe, o crânio de Luzia é só um pequeno exemplo do que perdemos.

 O incêndio no Museu Nacional era uma tragédia anunciada?

Foi uma negligência de décadas de ausência do poder público e, portanto, uma tragédia anunciada. Todos os que conheciam o museu por dentro sabiam que essa não era uma questão de se aconteceria, mas de quando iria ocorrer. O museu foi relegado às traças pelo poder público. Estou em luto profundo. Todos os que fizeram pesquisas no acervo sabiam que o museu não tinha condições de funcionar em termos de infraestrutura. O incêndio é resultado do acúmulo do descaso do poder público.