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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Descoberta arqueológica em Minas Gerais revela práticas funerárias pré-históricas no Brasil

17/12/2019
 
 
 
https://ichef.bbci.co.uk/news/624/cpsprodpb/9489/production/_102152083_tcnicolimpaesqueletoandrestrauss.jpg

Direito de imagem André Strauss
Image caption Os esqueletos encontrados na Lapa do Santo indicam que os povos que viviam ali eram muito mais complexos do que se imaginava
A descoberta de 39 esqueletos humanos, com idades entre 8 mil e 11 mil anos na região metropolitana de Belo Horizonte, está ajudando a redefinir o que se sabia sobre os primeiros brasileiros. O achado ocorreu na Lapa do Santo, uma pequena caverna no município de Matozinhos.
São os ossos mais antigos do Brasil e revelam que, ao contrário do que se pensava até agora, os povos que viviam no local naquela época eram complexos e tinham práticas funerárias altamente elaboradas.

A novidade é resultado do projeto Morte e vida na Lapa do Santo: uma biografia arqueológica dos povos de Luzia, coordenado pelos pesquisadores André Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), e Rodrigo de Oliveira, do Instituto de Biociências (IB), ambos da Universidade de São Paulo (USP). 

É um trabalho de pesquisa interdisciplinar, que tem como objetivo caracterizar como viviam as populações que estavam no Brasil central durante o Holoceno Inicial (Holoceno é o período geológico que começou há 11.500 anos e se estende até o presente).

De acordo com Strauss, os esqueletos descobertos eram de idosos, crianças, homens e mulheres. "Todos tinham sinais de rituais mortuários", revela.

"Alguns estavam queimados, outros pintados de vermelho e alguns combinavam crânios de crianças com corpos de adultos, ou dentes de uma pessoa com a arcada de outra. O que chamou a atenção também é que esses sinais variavam dependendo da idade arqueológica dos ossos. Isso pode significar que os povos que habitavam a região alteraram sua forma de tratar os corpos dos mortos ao longo do tempo. Essa descoberta é inédita na arqueologia brasileira."

Os primeiros americanos

 
 
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 Direito de imagem André Strauss
Image caption A região tem dezenas de sítios arqueológicos que vêm sendo escavados e pesquisados desde 1843
A região onde trabalham os arqueólogos, Lagoa Santa, está entre as mais ricas em restos de culturas pré-históricas do Brasil. Ali, dezenas de sítios arqueológicos vêm sendo escavados e pesquisados desde 1843, quando o naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1801-1880), considerado o pai da paleontologia brasileira, descobriu ossadas humanas misturadas com as de animais já extintos. Desde então, centenas de crânios e outros ossos humanos foram desenterrados do local.

Entre eles, o mais antigo de que se tem registro no Brasil, com 11.300 anos, descoberto em 1974, pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire, no sítio chamado Lapa Vermelha 4, que fica no município de Pedro Leopoldo.

Como era de um indivíduo do sexo feminino, o esqueleto foi batizado de Luzia pelo bioantropólogo Walter Alves Neves, também da USP, que foi orientador de Strauss e Oliveira, que agora dão continuidade ao seu trabalho.

Em 1995, ele fez medidas antropométricas do crânio, que mostraram que Luzia tinha mais a ver com os africanos do que com os índios atuais.
Com base nisso e em outras descobertas, ele elaborou sua hipótese para a ocupação das Américas, apresentada no livro O povo de Luzia - em busca dos primeiros americanos, em coautoria com o geógrafo Luís Beethoven Piló.

A hipótese propõe que os primeiros americanos chegaram ao continente em duas levas migratórias, uma há 14 mil anos e a segunda há 11 mil, vindas da Ásia pelo estreito de Bering. A primeira seria composta por uma população com traços semelhante aos dos africanos e aborígenes australianos. A segunda era de indivíduos parecidos com asiáticos e índios americanos atuais.
Ao longo do tempo, os dois povos se miscigenaram no novo mundo.

Para outros estudiosos, no entanto, os indígenas atuais ou ameríndios e os primeiros que chegaram à região de Lagoa Santa fazem parte de um mesmo tipo, cujas diferenças morfológicas podem ser explicadas pela variabilidade natural que existe dentro de qualquer população. A pesquisas de Strauss e Oliveira poderão ajudar a elucidar a questão.
Segundo Strauss, o projeto segue em pleno andamento com a escavação da Lapa do Santo e a análise do material encontrado. "Isso inclui estudos morfológicos, de microvestígios, isótopos, datação, antropologia virtual, micromorfologia e DNA", conta.
"Até o momento, nossos estudos não dialogam diretamente com o tema dos primeiros americanos. Quando sair o resultado do DNA poderemos determinar se o modelo dos dois componentes está correto ou não."
Direito de imagem André Strauss
Image caption As escavações realizadas até agora já revelaram vários aspectos dos grupos, desconhecidos até agora

Práticas funerárias surpreendentes

As escavações realizadas até agora já revelaram, no entanto, vários aspectos dos grupos que eram desconhecidos até agora. "Apesar das centenas de esqueletos exumados em Lagoa Santa em quase dois séculos de pesquisa, muito pouco foi discutido em relação às práticas funerárias na região", diz Strauss.

"De acordo com as poucas descrições disponíveis na literatura, elas sempre foram caracterizadas como simples e homogêneas, incluindo apenas enterros primários de um único indivíduo e sem nenhum tipo de acompanhamento funerário."
As descobertas de Strauss e Oliveira mudam radicalmente esse quadro. De acordo com eles, os sepultamentos da Lapa do Santo tinham uma alta variabilidade, o que contradiz a visão tradicional sobre as práticas mortuárias na região.

"Além dessa retificação histórica, a diversidade delas no local ganha relevância, porque contraria a homogeneidade de outros componentes do sítio, tais como os artefatos de pedra, os remanescentes faunísticos, a morfologia craniana e a própria composição da matriz sedimentar."

Segundo Strauss, os sepultamentos também permitem inferir que ao longo do Holoceno Inicial grupos distintos que, possivelmente, não se reconheciam como parte de um mesmo povo habitaram a região. "Na ausência de mais datações diretas para os esqueletos, não é possível descartar a hipótese de que, em um mesmo momento, diferentes povos tenham ocupado a região", acrescenta.

Simplificando, ele diz que é possível que, durante o Holoceno Inicial, não tenha existido "um único 'povo de Luzia'", expressão cunhada por Walter Neves para se referir aos grupos humanos que habitaram a região de Lagoa Santa na época, "mas sim muitos 'povos' e muitas 'Luzias', cada um único em suas idiossincrasias simbólicas, culturais e, por que não, linguísticas".

"Assim, o registro funerário da Lapa do Santo contribui para retratar uma pré-história plural e dinâmica, onde a diversidade é a regra e elemento interpretativo fundamental", diz.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

'Estou em luto profundo', diz o 'pai' de Luzia após perda de fóssil em museu

Crânio mais antigo do Brasil estava no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, durante o incêndio




Karina Gomes - Paris 
 
Há 20 anos, o antropólogo e arqueólogo Walter Alves Neves revelava Luzia ao mundo. Foi esse o apelido que o pesquisador deu ao esqueleto humano mais antigo do Brasil e que revolucionou as teorias científicas sobre a ocupação do continente a partir de 1998.

crânio de Luzia, ícone da pré-história brasileira, estava no Museu Nacional do Rio de Janeiro durante o incêndio no último domingo (2). O fóssil estaria sob uma área com escombros, e técnicos do museu não conseguiram acessar o local. 

​ “É uma perda irreparável”, diz Neves ao ressaltar o impacto devastador da destruição do acervo nas pesquisas sobre a evolução humana nas Américas e no Brasil.
O crânio do fóssil Luzia e a imagem de sua face reconstituída
O crânio do fóssil Luzia e a imagem de sua face reconstituída - Associated Press
O fóssil de mais de 11.000 anos encontrado entre 1974 e 1975 na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, garantiu reconhecimento internacional à teoria de Neves de que o continente americano foi ocupado por duas levas migratórias de homo sapiens vindos do nordeste da Ásia –a primeira dos antepassados de Luzia, que tinham traços africanos e australianos, e a segunda, de ameríndios com morfologia mongoloide, semelhante a dos indígenas atuais.

Com o chamado ‘modelo dos dois componentes biológicos’, Neves desafiou o modelo hegemônico de ocupação única do continente pelo povo de Clóvis, a partir do Novo México, nos Estados Unidos. “A popularidade que a Luzia ganhou na mídia fez com que a comunidade científica levasse a sério a minha teoria sobre os primeiros americanos”, diz o professor aposentado do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

O nome dado à jovem paleoamericana, que morreu com cerca de 20 anos de idade, seria uma versão abrasileirada de Lucy, o fóssil de hominídeo mais antigo do mundo, com 3,2 milhões de anos. O “pai de Luzia” diz estar em luto profundo pela “tragédia anunciada” no Museu Nacional, que descreve como um “crime contra o Brasil e a humanidade”. 

Folha - Qual é o impacto da perda do crânio de Luzia para a ciência? 

Walter Alves Neves - Esse incêndio representa um crime contra o Brasil e contra a própria humanidade. Além da Luzia, o museu tinha a maior coleção de esqueletos dos primeiros americanos oriundos da região de Lagoa Santa. O estudo sobre esses povos precisa passar necessariamente por esse material, e a maior parte dele estava no museu. Isso vai afetar negativamente o trabalho de gerações de cientistas que queiram entender a evolução humana no continente.

Como a análise do fóssil de Luzia ajudou a confirmar a sua teoria sobre o povoamento das Américas, que já vinha sendo formulada desde a década de 1980? 

A Luzia deu visibilidade para as nossas pesquisas no Brasil e no exterior. Antes, acreditava-se que a América tinha sido povoada por apenas um tipo de população, sob o modelo da migração única. A partir dos meus estudos com os esqueletos de Lagoa Santa e também outros na América do Sul e Mesoamérica, ficou claro que a América foi ocupada por duas populações com morfologias completamente distintas e em momentos diferentes. Os antepassados de Luzia –com formato craniano semelhante ao de africanos e australianos– chegaram às Américas há 14.000 anos pelo nordeste da Ásia através do Estreito de Bering, que liga os oceanos Pacífico e Ártico, mas não deixaram descendentes. Dois milênios mais tarde, vieram os ameríndios com morfologia mongoloide, que é a da maior parte dos índios atuais.
O bioantropólogo Walter Neves
O bioantropólogo Walter Neves - Karime Xavier/Folhapress
O esqueleto de Luzia foi encontrado na gruta Lapa Vermelha 4, no município de Pedro Leopoldo (MG) a 12 metros de profundidade. Por que ele é tão singular? 

O esqueleto de Luzia não foi encontrado por mim, mas pela missão franco-brasileira liderada pela arqueológoga francesa Annette Laming-Emperaire, que morreu de forma repentina poucos anos depois da descoberta. O esqueleto de Luzia ficou guardado por duas décadas no acervo do Museu Nacional sem que houvesse estudos ou publicações relevantes. Em 1995, eu comecei a analisar a morfologia craniana de Luzia. Em Lagoa Santa, encontramos mais de 40 esqueletos datados entre 8.000 e 10.000 anos, que são raríssimos. O da Luzia, com mais de 11.000 anos, era singular. É uma perda irreparável.

outras pesquisas recentes com os fósseis de Lagoa Santa? 

Sim. Um ex-estudante do instituto está tentando extrair o DNA de fósseis encontrados no local. Se ele conseguir extrair bem esse material de DNA, poderá ou não –mas estou otimista– confirmar o meu modelo de ocupação das Américas. A Luzia e outros crânios que foram encontrados nas Américas confirmaram a minha hipótese. O sucesso midiático de Luzia permitiu que a minha teoria chegasse à comunidade científica internacional, que passou a levar a sério o que vinha sendo dito por mim desde a década de 1980.

Restou algum material relacionado ao crânio de Luzia? 

Tenho uma cópia da reconstituição facial e que está comigo na USP. A reconstituição feita pelo antropólogo britânico Richard Neave confirmou a minha análise de que Luzia tinha traços africanos e australianos com uma morfologia craniana muito diferente da dos indígenas atuais. Há três meses, o Museu Nacional doou uma réplica do crânio de Luzia feita com impressoras 3D à Prefeitura de Pedro Leopoldo. Houve uma solenidade para marcar o ‘Dia de Luzia’ [a homenagem instituída em 2016 é feita todos os anos no dia 14 de junho]. Mas é só uma réplica. Não dá para extrair DNA, por exemplo. Diante dessa catástrofe, o crânio de Luzia é só um pequeno exemplo do que perdemos.

 O incêndio no Museu Nacional era uma tragédia anunciada?

Foi uma negligência de décadas de ausência do poder público e, portanto, uma tragédia anunciada. Todos os que conheciam o museu por dentro sabiam que essa não era uma questão de se aconteceria, mas de quando iria ocorrer. O museu foi relegado às traças pelo poder público. Estou em luto profundo. Todos os que fizeram pesquisas no acervo sabiam que o museu não tinha condições de funcionar em termos de infraestrutura. O incêndio é resultado do acúmulo do descaso do poder público.