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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Descoberta arqueológica em Minas Gerais revela práticas funerárias pré-históricas no Brasil

17/12/2019
 
 
 
https://ichef.bbci.co.uk/news/624/cpsprodpb/9489/production/_102152083_tcnicolimpaesqueletoandrestrauss.jpg

Direito de imagem André Strauss
Image caption Os esqueletos encontrados na Lapa do Santo indicam que os povos que viviam ali eram muito mais complexos do que se imaginava
A descoberta de 39 esqueletos humanos, com idades entre 8 mil e 11 mil anos na região metropolitana de Belo Horizonte, está ajudando a redefinir o que se sabia sobre os primeiros brasileiros. O achado ocorreu na Lapa do Santo, uma pequena caverna no município de Matozinhos.
São os ossos mais antigos do Brasil e revelam que, ao contrário do que se pensava até agora, os povos que viviam no local naquela época eram complexos e tinham práticas funerárias altamente elaboradas.

A novidade é resultado do projeto Morte e vida na Lapa do Santo: uma biografia arqueológica dos povos de Luzia, coordenado pelos pesquisadores André Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), e Rodrigo de Oliveira, do Instituto de Biociências (IB), ambos da Universidade de São Paulo (USP). 

É um trabalho de pesquisa interdisciplinar, que tem como objetivo caracterizar como viviam as populações que estavam no Brasil central durante o Holoceno Inicial (Holoceno é o período geológico que começou há 11.500 anos e se estende até o presente).

De acordo com Strauss, os esqueletos descobertos eram de idosos, crianças, homens e mulheres. "Todos tinham sinais de rituais mortuários", revela.

"Alguns estavam queimados, outros pintados de vermelho e alguns combinavam crânios de crianças com corpos de adultos, ou dentes de uma pessoa com a arcada de outra. O que chamou a atenção também é que esses sinais variavam dependendo da idade arqueológica dos ossos. Isso pode significar que os povos que habitavam a região alteraram sua forma de tratar os corpos dos mortos ao longo do tempo. Essa descoberta é inédita na arqueologia brasileira."

Os primeiros americanos

 
 
 https://ichef.bbci.co.uk/news/624/cpsprodpb/E2A9/production/_102152085_pesquisadoresemstioarqueolgico.jpg
 Direito de imagem André Strauss
Image caption A região tem dezenas de sítios arqueológicos que vêm sendo escavados e pesquisados desde 1843
A região onde trabalham os arqueólogos, Lagoa Santa, está entre as mais ricas em restos de culturas pré-históricas do Brasil. Ali, dezenas de sítios arqueológicos vêm sendo escavados e pesquisados desde 1843, quando o naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1801-1880), considerado o pai da paleontologia brasileira, descobriu ossadas humanas misturadas com as de animais já extintos. Desde então, centenas de crânios e outros ossos humanos foram desenterrados do local.

Entre eles, o mais antigo de que se tem registro no Brasil, com 11.300 anos, descoberto em 1974, pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire, no sítio chamado Lapa Vermelha 4, que fica no município de Pedro Leopoldo.

Como era de um indivíduo do sexo feminino, o esqueleto foi batizado de Luzia pelo bioantropólogo Walter Alves Neves, também da USP, que foi orientador de Strauss e Oliveira, que agora dão continuidade ao seu trabalho.

Em 1995, ele fez medidas antropométricas do crânio, que mostraram que Luzia tinha mais a ver com os africanos do que com os índios atuais.
Com base nisso e em outras descobertas, ele elaborou sua hipótese para a ocupação das Américas, apresentada no livro O povo de Luzia - em busca dos primeiros americanos, em coautoria com o geógrafo Luís Beethoven Piló.

A hipótese propõe que os primeiros americanos chegaram ao continente em duas levas migratórias, uma há 14 mil anos e a segunda há 11 mil, vindas da Ásia pelo estreito de Bering. A primeira seria composta por uma população com traços semelhante aos dos africanos e aborígenes australianos. A segunda era de indivíduos parecidos com asiáticos e índios americanos atuais.
Ao longo do tempo, os dois povos se miscigenaram no novo mundo.

Para outros estudiosos, no entanto, os indígenas atuais ou ameríndios e os primeiros que chegaram à região de Lagoa Santa fazem parte de um mesmo tipo, cujas diferenças morfológicas podem ser explicadas pela variabilidade natural que existe dentro de qualquer população. A pesquisas de Strauss e Oliveira poderão ajudar a elucidar a questão.
Segundo Strauss, o projeto segue em pleno andamento com a escavação da Lapa do Santo e a análise do material encontrado. "Isso inclui estudos morfológicos, de microvestígios, isótopos, datação, antropologia virtual, micromorfologia e DNA", conta.
"Até o momento, nossos estudos não dialogam diretamente com o tema dos primeiros americanos. Quando sair o resultado do DNA poderemos determinar se o modelo dos dois componentes está correto ou não."
Direito de imagem André Strauss
Image caption As escavações realizadas até agora já revelaram vários aspectos dos grupos, desconhecidos até agora

Práticas funerárias surpreendentes

As escavações realizadas até agora já revelaram, no entanto, vários aspectos dos grupos que eram desconhecidos até agora. "Apesar das centenas de esqueletos exumados em Lagoa Santa em quase dois séculos de pesquisa, muito pouco foi discutido em relação às práticas funerárias na região", diz Strauss.

"De acordo com as poucas descrições disponíveis na literatura, elas sempre foram caracterizadas como simples e homogêneas, incluindo apenas enterros primários de um único indivíduo e sem nenhum tipo de acompanhamento funerário."
As descobertas de Strauss e Oliveira mudam radicalmente esse quadro. De acordo com eles, os sepultamentos da Lapa do Santo tinham uma alta variabilidade, o que contradiz a visão tradicional sobre as práticas mortuárias na região.

"Além dessa retificação histórica, a diversidade delas no local ganha relevância, porque contraria a homogeneidade de outros componentes do sítio, tais como os artefatos de pedra, os remanescentes faunísticos, a morfologia craniana e a própria composição da matriz sedimentar."

Segundo Strauss, os sepultamentos também permitem inferir que ao longo do Holoceno Inicial grupos distintos que, possivelmente, não se reconheciam como parte de um mesmo povo habitaram a região. "Na ausência de mais datações diretas para os esqueletos, não é possível descartar a hipótese de que, em um mesmo momento, diferentes povos tenham ocupado a região", acrescenta.

Simplificando, ele diz que é possível que, durante o Holoceno Inicial, não tenha existido "um único 'povo de Luzia'", expressão cunhada por Walter Neves para se referir aos grupos humanos que habitaram a região de Lagoa Santa na época, "mas sim muitos 'povos' e muitas 'Luzias', cada um único em suas idiossincrasias simbólicas, culturais e, por que não, linguísticas".

"Assim, o registro funerário da Lapa do Santo contribui para retratar uma pré-história plural e dinâmica, onde a diversidade é a regra e elemento interpretativo fundamental", diz.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

A nova face de Luzia e do povo de Lagoa Santa

08 de novembro de 2018


Peter Moon  |  Agência FAPESP – A história do povoamento das Américas acaba de ganhar uma nova interpretação. O maior e mais abrangente estudo já feito a partir de DNA fóssil, extraído dos mais antigos restos humanos achados no continente, confirmou a existência de um único contingente populacional ancestral de todas as etnias ameríndias, passadas e presentes. 

A nova face de Luzia e do povo de Lagoa Santa Trabalho de 72 pesquisadores de oito países conclui que o povo de Lagoa Santa descende dos migrantes da cultura Clóvis, da América do Norte. Fisionomia marcadamente africana atribuída à Luzia estava incorreta (imagens: André Strauss e Caroline Wilkinson)

Há mais de 17 mil anos, os membros daquele contingente original cruzaram o estreito de Bering, da Sibéria para o Alasca, para então povoar o Novo Mundo. O DNA fóssil indica que os integrantes daquela corrente migratória tinham afinidade com os povos da Sibéria e do norte da China, ou seja, não possuíam DNA africano ou da Australásia, como indicava a teoria tradicional.
Uma vez na América do Norte, é o que revela o novo estudo, os descendentes daquela corrente migratória ancestral se diversificaram em duas linhagens há cerca de 16 mil anos. Os membros de uma das linhagens cruzaram o istmo do Panamá e povoaram a América do Sul em três levas consecutivas e distintas. 

A primeira dessas levas ocorreu entre 15 mil e 11 mil anos atrás e a segunda se deu há no máximo 9 mil anos. Há registros do DNA fóssil de ambas as migrações em todo o continente sul-americano. Uma terceira leva é bem mais recente e de influência restrita, pois se deu há 4,2 mil anos, e seus membros se fixaram nos Andes centrais.

O estudo foi publicado na revista Cell por um grupo de 72 pesquisadores de oito países,  pertencentes a instituições como a Universidade de São Paulo (USP), a Harvard University, nos Estados Unidos, e o Instituto Max Planck, na Alemanha.
Os resultados da pesquisa sugerem que, na linhagem de humanos a executar o trajeto norte-sul entre 16 mil e 15 mil anos atrás, seus membros pertenciam à chamada cultura Clóvis, o nome dado a um conjunto de sítios arqueológicos que têm entre 13,5 mil e 11 mil anos, todos situados no oeste dos Estados Unidos. 
Clóvis é o nome da pequena cidade no Novo México onde foram descobertas, nos anos 1930, as primeiras pontas de flecha de pedra lascada cujo formato se tornou um identificador da cultura homônima. Na América do Norte, a cultura Clóvis está associada à caça da megafauna pleistocênica, como preguiças gigantes e mamutes. 
Com o declínio e a extinção da megafauna, há 11 mil anos, aquela cultura eventualmente desapareceu. Muito antes disso, entretanto, bandos de caçadores-coletores, ao explorar novas áreas de caça cada vez mais ao sul, eventualmente acabaram por ocupar a América Central, como comprova o DNA fóssil de 9,4 mil anos de um humano de Belize analisado no novo estudo. 

Posteriormente, talvez em perseguição a manadas de mastodontes, bandos de caçadores-coletores Clóvis cruzaram o istmo do Panamá para invadir e se espalhar pela América do Sul, como evidenciam os registros genéticos de enterramentos humanos no Brasil e no Chile agora revelados. Tal evidência genética vem corroborar evidências arqueológicas conhecidas, como o sítio Monte Verde, no sul do Chile, onde humanos esquartejavam mastodontes há 14,8 mil anos.
Entre os diversos sítios Clóvis conhecidos, o único enterramento humano associado às ferramentas da cultura fica no estado de Montana. Lá foram achados os restos de um menino – apelidado de Anzick-1 – com cerca de 12,6 mil anos. O DNA extraído de seus ossos está relacionado ao DNA dos esqueletos do povo de Lagoa Santa, um grupo de humanos antigos que habitou o Brasil central – mais especificamente as grutas no entorno de Lagoa Santa (MG) – entre 10 mil e 9 mil anos atrás. Em outras palavras, o povo de Lagoa Santa descende em parte dos migrantes da cultura Clóvis da América do Norte. 

"Do ponto de vista genético, o povo de Lagoa Santa descende dos primeiros ameríndios”, disse o arqueólogo André Menezes Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, que coordenou a parte brasileira do trabalho. 
"Surpreendentemente, os membros daquela primeira linhagem de sul-americanos não deixaram descendência identificável entre os povos ameríndios atuais. Em torno de 9 mil anos atrás, seu DNA desapareceu completamente das amostras fósseis. Foi substituído pelo DNA da primeira leva migratória, anterior à cultura Clóvis, da qual descendem todos os ameríndios vivos. Ainda não sabemos os motivos que levaram ao desaparecimento do estoque genético do povo de Lagoa Santa", disse. 

Uma possibilidade para o sumiço do DNA da segunda migração, encontrado no DNA do povo de Lagoa Santa, é que tenha se diluído em meio ao DNA dos ameríndios descendentes dos integrantes da primeira leva populacional, tornando-se não identificável pelos métodos atuais da pesquisa genética. 

De acordo com a geneticista Tábita Hünemeier, do Instituto de Biociências (IB) da USP, que participou da pesquisa, "um dos principais resultados do trabalho foi a identificação do povo de Luzia como sendo uma população geneticamente relacionada à cultura Clóvis, o que desfaz a ideia dos dois componentes biológicos, da possibilidade de ter havido duas migrações para as Américas, uma com traços mais africanos e a outra com traços mais asiáticos”. 

"O povo de Luzia seria resultado de uma leva populacional originária da Beríngia", disse, referindo-se à ponte de terra hoje submersa que, durante a era do gelo, quando o nível dos mares era muito mais baixo, ligava a Sibéria ao Alasca.

"De 9 mil anos para cá, os dados moleculares sugerem que houve uma substituição populacional na América do Sul. Os membros do povo de Luzia desapareceram, sendo substituídos pelos ameríndios atuais, muito embora ambos tenham tido uma origem comum, na Beríngia", disse Hünemeier.

Contribuição brasileira

O trabalho dos pesquisadores brasileiros contribuiu de forma fundamental para o estudo. Entre 49 indivíduos dos quais se extraiu DNA fóssil, sete esqueletos com idades entre 10,1 mil e 9,1 mil anos são provenientes da Lapa do Santo, um abrigo rochoso em Lagoa Santa. 
Aqueles sete esqueletos, ao lado de dezenas de outros, foram achados e desenterrados em campanhas arqueológicas sucessivas no local, lideradas primeiramente pelo antropólogo físico Walter Alves Neves, do IB-USP, e desde 2011 por Strauss. As campanhas arqueológicas movidas por Neves entre 2002 e 2008 foram financiadas pela FAPESP.

Ao todo, o novo estudo investigou o DNA fóssil de 49 indivíduos, provenientes de 15 sítios arqueológicos situados na Argentina (2 sítios, 11 indivíduos com idades entre 8,9 mil e 6,6 mil anos), Belize (1 sítio, 3 indivíduos, idades entre 9,4 mil e 7,3 mil anos), Brasil (4 sítios, 15 indivíduos, idades entre 10,1 mil e 1 mil anos), Chile (3 sítios, 5 indivíduos, idades entre 11,1 mil e 540 anos) e Peru (7 sítios, 15 indivíduos, idades entre 10,1 mil e 730 anos).

Os esqueletos brasileiros são provenientes dos sítios arqueológicos Lapa do Santo (7 indivíduos com cerca de 9,6 mil anos), do sambaqui Jabuticabeira 2 (5 indivíduos com cerca de 2 mil anos), que fica em Santa Catarina, e de dois sambaquis fluviais do Vale do Ribeira, no estado de São Paulo: Laranjal (2 indivíduos com cerca de 6,7 mil anos) e Moraes (1 indivíduo com cerca de 5,8 mil anos).
O arqueólogo Paulo Antônio Dantas de Blasis, do MAE-USP, foi o responsável pelo trabalho arqueológico no sambaqui Jabuticabeira 2, que também teve apoio da FAPESP por meio de um Projeto Temático.

As pesquisas nos sambaquis fluviais paulistas ficaram sob a responsabilidade do arqueólogo Levy Figuti, do MAE-USP, também com apoio da FAPESP
“O esqueleto de Moraes (5,8 mil anos) e o de Laranjal (6,7 mil anos) estão entre os mais antigos do Sul-Sudeste brasileiros. Eles apresentam uma situação estrategicamente singular ao estar entre o planalto e a costa, contribuindo significativamente para a compreensão do processo de povoamento da região Sudeste do Brasil”, disse Figuti. 

Esses esqueletos foram encontrados entre 2000 e 2005. Desde o início, representavam uma questão complexa, com mistura de características culturais interioranas e costeiras, e com análises sobre os esqueletos geralmente com resultados variados, exceto em um esqueleto, que foi diagnosticado como paleoíndio (ele ainda não teve sua análise de DNA completada).

“O estudo agora publicado representa um grande avanço na pesquisa arqueológica, aumentando exponencialmente o que sabíamos há poucos anos sobre a arqueogenética do povoamento da América”, disse Figuti. Mais recentemente, destaca-se a contribuição para a reconstrução da história humana na América do Sul por meio da paleogenômica, realizada por Hünemeier.

Genética ameríndia

Nem todos os restos humanos fósseis achados em alguns dos mais antigos sítios arqueológicos das Américas Central e do Sul pertencem a indivíduos geneticamente descendentes da cultura Clóvis. Há diversos sítios cujos habitantes não tinham o DNA associado à Clóvis.
"Isso mostra que, além da contribuição genética, a segunda leva migratória para a América do Sul, e que era relacionada à Clóvis, possivelmente também trouxe consigo princípios tecnológicos que seriam expressos nas famosas pontas rabo de peixe que são encontradas em grande parte da América do Sul", disse Strauss.

Até agora não se sabia quantas correntes migratórias humanas originárias da Ásia teriam adentrado as Américas no final da era do gelo, há mais de 16 mil anos. A teoria tradicional, formulada nos anos 1980 por Walter Neves e outros pesquisadores, dava conta de que teria havido uma primeira leva de humanos, cujos membros possuíam características africanas ou semelhantes aos aborígenes da Austrália. 

Foi de acordo com essa hipótese que se modelou a famosa reconstrução facial de Luzia, nome dado ao crânio de uma mulher que viveu em Lagoa Santa há 12.500 anos e, por isso, carinhosamente chamada de “a primeira brasileira”. 

O busto de Luzia com feições africanas foi composto a partir da morfologia de seu crânio, em trabalho realizado pelo especialista britânico Richard Neave, na década de 1990.
"Entretanto, a forma do crânio não é um marcador confiável de ancestralidade ou de origem geográfica. A genética, por outro lado, é a técnica que se presta por excelência a esse tipo de inferência", disse Strauss.

"Os resultados genéticos do novo estudo mostram de forma categórica que não existiu nenhuma conexão significativa entre as populações de Lagoa Santa e grupos da África ou da Austrália. Portanto, a hipótese de que o povo de Luzia representaria uma leva migratória anterior aos ancestrais dos indígenas atuais não se confirma. Pelo contrário, o DNA mostra que o povo de Luzia tem genética totalmente ameríndia”, disse. 

Um novo busto substitui o de Luzia no panteão científico brasileiro. Caroline Wilkinson, da Liverpool John Moores University, na Inglaterra, especialista em reconstrução forense e discípula de Richard Neave, realizou a reconstrução facial de um dos indivíduos desenterrados na Lapa do Santo. O trabalho foi feito a partir do modelo digital retrodeformado do crânio.

"Por mais acostumados que estejamos com a tradicional reconstrução facial de Luzia, com traços fortemente africanos, essa nova reconstrução facial reflete de forma muito mais precisa a fisionomia dos primeiros habitantes do Brasil, apresentando traços generalizados e indistintos a partir dos quais, ao longo dos milhares de anos, a grande diversidade ameríndia se estabeleceu”, disse Strauss.
O arqueólogo explica que o estudo publicado na Cell também apresenta os primeiros dados genéticos para os sambaquis da costa brasileira. 

"Esses monumentais montes de conchas foram construídos há cerca de 2 mil anos por sociedades populosas que ocupavam a faixa costeira do Brasil. O estudo do DNA fóssil de esqueletos enterrados nos sambaquis de Santa Catarina e de São Paulo mostra que esses grupos têm uma relação de proximidade genética com os indígenas atuais do Sul do Brasil, especialmente os grupos Kaingang”, disse. 

Segundo Strauss, a extração do DNA fóssil encontra muitos desafios técnicos, especialmente para material encontrado em clima tropical. A fragmentação extrema e a alta incidência de contaminação fizeram com que durante quase duas décadas diferentes grupos de pesquisas tentassem sem sucesso extrair o material genético dos ossos de Lagoa Santa. 
Foi graças a avanços metodológicos desenvolvidos pelo Instituto Max Planck que agora foi possível realizar a extração de DNA do povo de Lagoa Santa. E a depender do entusiasmo com que Strauss fala de sua pesquisa, ainda há muito por descobrir. 

"A partir de 2019, terá início a construção do primeiro laboratório de Arqueogenética do Brasil, uma parceria na USP entre MAE e IB, com financiamento da FAPESP. Quando estiver pronto, dará novo impulso às pesquisas sobre o povoamento da América do Sul e do Brasil", disse Strauss.  

"De certo modo, este trabalho muda não somente o que sabíamos sobre o povoamento, mas também muda consideravelmente o modo como estudar os restos esqueletais humanos”, disse Figuti.
Os primeiros restos humanos de Lagoa Santa, cerca de 30 esqueletos, foram encontrados em 1844, no fundo de uma gruta inundada, pelo naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1801-1880). Quase todos esses fósseis se encontram hoje no Museu de História Natural de Copenhagen, na Dinamarca. Um único crânio ficou no Brasil, doado por Lund ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro.

Povoamento aos saltos

No mesmo dia em que foi publicado o artigo na Cell (08/11), outro trabalho foi divulgado na revista Science, igualmente versando sobre DNA fóssil e as primeiras migrações humanas pelo continente americano. André Strauss é um dos autores.

Entre os 15 esqueletos antigos dos quais foi coletado material genético, cinco pertencem à Coleção Lund, de Copenhagen. Suas idades situam-se entre 10,4 mil e 9,8 mil anos. São os mais antigos da amostra, ao lado de um indivíduo de Nevada, com 10,7 mil anos. 

A amostra reúne material fóssil de restos humanos antigos achados no Alasca, Canadá, Brasil, Chile e Argentina. O resultado da investigação molecular sugere que o povoamento das Américas pelos primeiros grupos humanos vindos do Alasca não foi simplesmente um movimento de ocupação gradual do território simultâneo à expansão populacional. 

Segundo os pesquisadores responsáveis pelo estudo, os dados moleculares sugerem que os primeiros humanos a invadir o Alasca, ou então o vizinho Yukon, dividiram-se em dois grupos. Isso ocorreu entre 17,5 mil e 14,6 mil anos atrás. Um grupo colonizaria a América do Norte e a América Central. O outro dominaria a América do Sul.

A seguir, a ocupação das Américas teria ocorrido de forma rápida e aos saltos, com pequenos bandos de caçadores-coletores percorrendo grandes distâncias para se fixarem em novos ambientes até atingirem a Terra do Fogo. Todo esse movimento durou um ou no máximo dois milênios.
Entre os 15 indivíduos que tiveram seu DNA analisado, três dos cinco de Lagoa Santa guardam em seu material genético traços de DNA da Australásia – como sugere a teoria da ocupação da América do Sul defendida por Walter Neves. Os pesquisadores não sabem explicar a origem daquele DNA australásio e como ele foi parar apenas e tão somente em alguns indivíduos de Lagoa Santa. 
"O fato de a assinatura genômica da Australásia estar presente há 10,4 mil anos no Brasil, mas ausente em todos os genomas testados até hoje, tão antigos ou mais antigos, e achados mais ao norte, apresenta um desafio ao considerar sua presença em Lagoa Santa”, disseram. 

Para Strauss, a existência desse traço de DNA australásio é difícil de explicar. "O componente australásio nos três indivíduos de Lagoa Santa é quase negligenciável. É menos de 2% do DNA amostrado. No momento, é muito difícil dizer qual a sua origem”, disse. 

Ao longo do século 20, outros fósseis foram coletados, entre eles o crânio de Luzia, nos anos 1970. Quase uma centena de crânios escavados por Neves e Strauss nos últimos 15 anos se encontram atualmente na USP. Outros tantos fósseis estão guardados na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. 

Mas a grande maioria dessas preciosidades osteológicas e arqueológicas, talvez mais de 100 indivíduos, estava depositada no Museu Nacional, e foi presumivelmente consumida no incêndio que devastou aquela instituição em 2 de setembro.
O crânio de Luzia estava exposto no Museu Nacional ao lado do busto com suas feições feito por Neave. Temia-se que o crânio tivesse sido destruído no incêndio, mas felizmente foi uma das primeiras peças do museu recuperadas dos escombros. Mesmo que fragmentado, o crânio de Luzia sobreviveu. Já o busto original (do qual há várias cópias), esse se perdeu no fogo.

O artigo Reconstructing the Deep Population History of Central and South America, de Cosimo Posth, André Strauss e outros, pode ser lido em: www.cell.com/cell/fulltext/S0092-8674(18)31380-1.

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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Descoberta arqueológica em Minas Gerais revela práticas funerárias pré-históricas no Brasil

A descoberta de 39 esqueletos humanos na região de Lagoa Santa indica que os povos que viviam no território do país tinham hábitos mais complexos do que se imaginava.

Por BBC

  Os esqueletos encontrados na Lapa do Santo indicam que os povos que viviam ali eram muito mais complexos do que se imaginava — Foto: André Strauss/Divulgação 
Os esqueletos encontrados na Lapa do Santo indicam que os povos que viviam ali eram muito mais complexos do que se imaginava — Foto: André Strauss/Divulgação 

A descoberta de 39 esqueletos humanos, com idades entre 8 mil e 11 mil anos na região metropolitana de Belo Horizonte, está ajudando a redefinir o que se sabia sobre os primeiros brasileiros. O achado ocorreu na Lapa do Santo, uma pequena caverna no município de Lagoa Santa.
São os ossos mais antigos do Brasil e revelam que, ao contrário do que se pensava até agora, os povos que viviam no local naquela época eram complexos e tinham práticas funerárias altamente elaboradas. 

A novidade é resultado do projeto Morte e vida na Lapa do Santo: uma biografia arqueológica dos povos de Luzia, coordenado pelos pesquisadores André Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE), e Rodrigo de Oliveira, do Instituto de Biociências (IB), ambos da Universidade de São Paulo (USP). 

É um trabalho de pesquisa interdisciplinar, que tem como objetivo caracterizar como viviam as populações que estavam no Brasil central durante o Holoceno Inicial (Holoceno é o período geológico que começou há 11.500 anos e se estende até o presente).
De acordo com Strauss, os esqueletos desencavados eram de idosos, crianças, homens e mulheres. "Todos tinham sinais de rituais mortuários", revela. 

"Alguns estavam queimados, outros pintados de vermelho e alguns combinavam crânios de crianças com corpos de adultos, ou dentes de uma pessoa com a arcada de outra. O que chamou a atenção também é que esses sinais variavam dependendo da idade arqueológica dos ossos. Isso pode significar que os povos que habitavam a região alteraram sua forma de tratar os corpos dos mortos ao longo do tempo. Essa descoberta é inédita na arqueologia brasileira."

Os primeiros americanos

  A região tem dezenas de sítios arqueológicos que vêm sendo escavados e pesquisados desde 1843 — Foto: André Strauss/Divulgação 
A região tem dezenas de sítios arqueológicos que vêm sendo escavados e pesquisados desde 1843 — Foto: André Strauss/Divulgação 

A região onde trabalham os arqueólogos, Lagoa Santa, está entre as mais ricas em restos de culturas pré-históricas do Brasil. Ali, dezenas de sítios arqueológicos vêm sendo escavados e pesquisados desde 1843, quando o naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund (1801-1880), considerado o pai da paleontologia brasileira, descobriu ossadas humanas misturadas com as de animais já extintos. Desde então, centenas de crânios e outros ossos humanos foram desenterrados do local. 

Entre eles, o mais antigo de que se tem registro no Brasil, com 11.300 anos, descoberto em 1974, pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire, no sítio chamado Lapa Vermelha IV.
Como era de um indivíduo do sexo feminino, foi batizada de Luzia pelo bioantropólogo Walter Alves Neves, também da USP, que foi orientador de Strauss e Oliveira, que agora dão continuidade ao seu trabalho. 

Em 1995, ele fez medidas antropométricas do crânio, que mostraram que Luzia tinha mais a ver com os africanos do que com os índios atuais.
Com base nisso e em outras descobertas, ele elaborou sua hipótese para a ocupação das Américas, apresentada no livro O povo de Luzia - em busca dos primeiros americanos, em coautoria com o geógrafo Luís Beethoven Piló. 

A hipótese propõe que os primeiros americanos chegaram ao continente em duas levas migratórias, uma há 14 mil anos e a segunda há 11 mil, vindas da Ásia pelo estreito de Bering. A primeira seria composta por uma população com traços semelhante aos dos africanos e aborígines australianos. A segunda era de indivíduos parecidos com asiáticos e índios americanos atuais.
Ao longo do tempo, os dois povos se miscigenaram no novo mundo. 

Para outros estudiosos, no entanto, os indígenas atuais ou ameríndios e os primeiros que chegaram à região de Lagoa Santa fazem parte de um mesmo tipo, cujas diferenças morfológicas podem ser explicadas pela variabilidade natural que existe dentro de qualquer população. A pesquisas de Strauss e Oliveira poderão ajudar a elucidar a questão. 

Segundo Strauss, o projeto segue em pleno andamento com a escavação da Lapa do Santo e a análise do material encontrado. "Isso inclui estudos morfológicos, de microvestígios, isótopos, datação, antropologia virtual, micromorfologia e DNA", conta. 

"Até o momento, nossos estudos não dialogam diretamente com o tema dos primeiros americanos. Quando sair o resultado do DNA poderemos determinar se o modelo dos dois componentes está correto ou não."
  
As escavações realizadas até agora já revelaram vários aspectos dos grupos, desconhecidos até agora — Foto: André Strauss/Divulgação 
 
As escavações realizadas até agora já revelaram vários aspectos dos grupos, desconhecidos até agora — Foto: André Strauss/Divulgação

Práticas funerárias surpreendentes

As escavações realizadas até agora já revelaram, no entanto, vários aspectos dos grupos que eram desconhecidos até agora. "Apesar das centenas de esqueletos exumados em Lagoa Santa em quase dois séculos de pesquisa, muito pouco foi discutido em relação às práticas funerárias na região", diz Strauss. 

"De acordo com as poucas descrições disponíveis na literatura, elas sempre foram caracterizadas como simples e homogêneas, incluindo apenas enterros primários de um único indivíduo e sem nenhum tipo de acompanhamento funerário." 

As descobertas de Strauss e Oliveira mudam radicalmente esse quadro. De acordo com eles, os sepultamentos da Lapa do Santo tinham uma alta variabilidade, o que contradiz a visão tradicional sobre as práticas mortuárias na região. 

"Além dessa retificação histórica, a diversidade delas no local ganha relevância, porque contraria a homogeneidade de outros componentes do sítio, tais como os artefatos de pedra, os remanescentes faunísticos, a morfologia craniana e a própria composição da matriz sedimentar."
Segundo Strauss, os sepultamentos também permitem inferir que ao longo do Holoceno Inicial grupos distintos que, possivelmente, não se reconheciam como parte de um mesmo povo habitaram a região. "Na ausência de mais datações diretas para os esqueletos, não é possível descartar a hipótese de que, em um mesmo momento, diferentes povos tenham ocupado a região", acrescenta.
Simplificando, ele diz que é possível que, durante o Holoceno Inicial, não tenha existido "um único 'povo de Luzia'", expressão cunhada por Walter Neves para se referir aos grupos humanos que habitaram a região de Lagoa Santa na época, "mas sim muitos 'povos' e muitas 'Luzias', cada um único em suas idiossincrasias simbólicas, culturais e, por que não, linguísticas".
"Assim, o registro funerário da Lapa do Santo contribui para retratar uma pré-história plural e dinâmica, onde a diversidade é a regra e elemento interpretativo fundamental", diz.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Estudos genéticos dão nova cara ao Povo de Luzia

Representação do fóssil humano mais famoso do Brasil estava equivocada, segundo um novo estudo que sequenciou o DNA de vários esqueletos pré-históricos de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Segundo os pesquisadores, Luzia e seus conterrâneos não tinha feições africanas; eram tão ameríndios quanto qualquer outra população primitiva das Américas

Herton Escobar
08 Novembro 2018 | 15h45
Comparação entre a reconstrução facial de Luzia feita por Richard Neave em 1999, e de um outro crânio de Lagoa Santa, feita agora por Caroline Wilkinson, com base em novas evidências genéticas de ancestralidade do povo de Lagoa Santa. Modelagem 3D feita por André Strauss/MAE-USP

Dados genéticos extraídos do DNA de esqueletos enterrados numa caverna de Minas Gerais estão dando uma nova cara à pré-história brasileira e, de quebra, ajudando a reescrever 20 mil anos de história do povoamento das Américas.

O resultado mais surpreendente diz respeito ao chamado Povo de Luzia, que habitou a região de Lagoa Santa, próximo a Belo Horizonte, entre 12 mil e 9 mil anos atrás, e cujo nome do grupo faz referência à sua personagem mais ilustre, Luzia, uma mulher de 20 e poucos anos, cujo crânio foi encontrado por arqueólogos na década de 1970 — e quase destruído no incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, dois meses atrás.

Contrariando algo que vinha sendo proposto há mais de duas décadas, com base principalmente em análises morfológicas do crânio de Luzia, as novas evidências genéticas sugerem “de forma categórica”,  segundo os pesquisadores, que não há qualquer relação de parentesco entre o Povo de Luzia e populações antigas da África ou da Austrália.

“Portanto, a hipótese de que o Povo de Luzia representaria uma leva migratória anterior aos ancestrais dos indígenas atuais não se confirma”, afirmam os autores brasileiros do estudo, publicado hoje na revista Cell. “Pelo contrário, o DNA mostra que o Povo de Luzia tem genética totalmente ameríndia”

Aquela famosa reconstrução facial do crânio de Luzia, concebida na década de 1990, com características notadamente negroides, portanto, está equivocada, diz o pesquisador André Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, que há anos realiza escavações arqueológicas em Lagoa Santa e é um dos coordenadores do estudo.

Para substituí-la, os pesquisadores encomendaram uma nova reconstrução, baseada num outro crânio de Lagoa Santa (registrado como Sepultamento 26) e levando em conta as novas evidências genéticas. O resultado foi um rosto com uma uma morfologia muito mais “genérica”, da qual teriam se originado “inúmeras variantes intra-continentais”. “É uma espécie da tábula rasa, ou tela branca, que com o passar dos milênios foi sendo moldada de diversas formas em diferentes populações”, afirma Strauss.

As reconstruções faciais arqueológicas são baseadas em características morfológicas do crânio e da mandíbula, mas também levam em conta as hipóteses de ancestralidade do indivíduo — que vão influenciar, por exemplo, características como a grossura dos lábios e o formato do nariz. Assim, um mesmo crânio pode dar origem a rostos completamente diferentes.
Reconstrução facial do Povo de Luzia feita por Caroline Wilkinson, da Liverpool John Moores University, na Inglaterra, com base em um modelo digital retrodeformado de um crânio do sítio arqueológico da Lapa do Santo. O crânio utilizado como referência é de um homem jovem, catalogado como Sepultamento 26.

A dúvida sobre a origem do Povo de Luzia surgiu na década de 1990, quando o antropólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo, descreveu o crânio de Luzia (até então esquecido nos arquivos do Museu Nacional) como dotado de uma morfologia predominantemente negroide e com 11,5 mil anos de idade — mais antigo do que qualquer outro encontrado nas Américas até então. Para explicar isso, Neves postulou que Luzia e seu povo eram representantes de uma onda migratória anterior à que deu origem ao ameríndios modernos. Essa primeira migração, segundo ele, teria chegado pela mesma rota do Estreito de Bering — ou seja, também da Ásia —, mas seria composta de indivíduos que ainda preservavam uma morfologia negroide, em vez das feições mongoloides que predominam nos povos indígenas atuais. Foi essa hipótese que norteou a reconstrução facial de Luzia feita pelo britânico Richard Neave, em 1999, conferindo a ela uma aparência mais africana do que asiática.
Naquela época, ainda não havia a possibilidade de se analisar o DNA de fósseis humanos, como se faz agora com a chamada “arqueogenética”. As análises, portanto, eram baseadas apenas na morfologia dos ossos e nas informações arqueológicas associadas a eles. Neves foi procurado pela reportagem, mas preferiu não se pronunciar.

Segundo Strauss, Neves (que foi seu orientador de mestrado no Instituto de Biociências da USP) estava certo ao propor que o Povo de Luzia representava uma população diferenciada e que eventualmente desapareceu, substituída pelos ancestrais dos ameríndios modernos. A genética associada ao Povo de Luzia, de fato, desaparece do continente 9 mil anos atrás. A diferença, segundo Strauss, é que a origem dela não estava na África, mas na América do Norte.

Outra descoberta surpreendente do trabalho diz respeito ao povo da cultura Clóvis, que floresceu na região dos Estados Unidos cerca de 13 mil anos atrás e ficou famosa pela confecção de pontas de lança de pedra lascada. Acreditava-se que essa população tinha ficado restrita à América do Norte, mas os dados genéticos de Lagoa Santa e outros dois sítios arqueológicos (Los Rieles, no Chile; e Mayahak Cab Pek, em Belize) revelam que o povo de Clóvis migrou também para as Américas Central e do Sul, a partir de 12 mil anos atrás, dando origem a novas populações — entre elas, o Povo de Luzia.

As pontas de pedra lascada aparentemente ficaram para trás, já que nenhuma até hoje foi encontrada mais ao sul do que o México, mas a genética Clóvis seguiu em frente. Essa é a grande vantagem da arqueogenética, segundo Strauss: “Ela nos permite enxergar coisas que não são invisíveis para a arqueologia clássica”, diz o pesquisador. “Evidências que só são visíveis nos genes.”
Lapa do Santo, sítio arqueológico onde foram encontrados os esqueletos usados na pesquisa, na região de Lagoa Santa (MG). Foto: Mauricio de Paiva

O trabalho na Cell tem mais de 70 autores, de diversos países, dos quais 17 são brasileiros. 
Um outro trabalho publicado hoje, na revista Science, também com autores brasileiros, também analisou o DNA de esqueletos de Lagoa Santa e outros sítios arqueológicos das Américas. Os resultados, em sua maior parte, concordam com os resultados apresentados na Cell, mostrando que o continente foi povoado por uma única onda migratória, e que a dispersão e diversificação dessa população pelo continente ocorreu de forma bastante rápida. Em menos de 2 mil anos, já havia gente vivendo desde o norte do Canadá até o sul do Chile.

Uma diferença é que, neste caso, os pesquisadores encontraram um “sinal genético” de origem australiana (negroide) na população de Lagoa Santa, porém extremamente sutil e em apenas um dos cinco esqueletos analisados. Algo que, segundo eles, não tem relação com a morfologia do Povo de Luzia.
Escavação arqueológica na Lapa do Santo. Foto: André Strauss

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Cenas de um sítio arqueológico

30 de janeiro de 2017

Maria Guimarães | Revista Pesquisa FAPESP – “Posso tirar este ossinho?” A bióloga petropolitana Lisiane Müller aponta para um fragmento sustentado por palitos de dente sobre um esqueleto ainda enterrado. Curvada sobre a quadra de escavação, por horas a fio ela separa grãos de sedimento com um pincel e os empurra para uma garrafa de plástico cortada à guisa de pá.


Cenas de um sítio arqueológico Sistema meticuloso permite compilar informações sobre a vida e a morte há 10 mil anos em caverna de Lagoa Santa (Foto: Léo Ramos Chaves/Revista Pesquisa FAPESP)

 
O arqueólogo André Strauss, professor visitante brasileiro na Universidade de Tübingen, na Alemanha, verifica que é impossível avançar na exumação sem retirar o osso. Strauss é um dos coordenadores da equipe composta por uma média de 25 voluntários, com variedade de especialidade (e sotaques), e nada acontece no sítio arqueológico sem a sua autorização ou de seu colega Rodrigo Elias de Oliveira, dentista e bioantropólogo ligado ao Laboratório de Estudos Evolutivos e Ecológicos Humanos (LEEEH), da Universidade de São Paulo (USP).

A cena acontece na Lapa do Santo, uma caverna na região de Lagoa Santa, Minas Gerais, que nos últimos anos vem se revelando um importante centro de rituais ligados à morte em um período entre 10 mil e 8 mil anos atrás, conforme relata artigo publicado em dezembro na revista Antiquity (ver Pesquisa FAPESP nº 247).

Antes de serem retirados, todos os achados precisam ser localizados no espaço com ajuda de um aparelho de topografia, conhecido como estação total, que fornece coordenadas ao longo de três eixos. Todos os dias, e antes que modificações sejam feitas em qualquer trecho da escavação, a equipe também faz um registro fotográfico detalhado do avanço na exposição de cada ossada. Essas fotos são impressas ali mesmo, e sobre elas o responsável por cada exumação vai anotando observações. Pequenos quadrados vermelhos de plástico posicionados em vários pontos do sepultamento também são localizados (ou plotados) e incluídos na fotografia, e depois ajudam a reconstruir um modelo tridimensional de cada esqueleto.

O trabalho é feito com imenso cuidado, solenidade até, não só porque qualquer deslize pode representar milhares de anos perdidos – só se pode pisar de meias na quadra de escavação, para evitar danos às ossadas. Mais marcante é a presença dos habitantes antigos que foram sepultados por seus companheiros, como a criança que morreu com cerca de 8 anos de idade e foi posta deitada de lado, com as pernas dobradas e os braços entre elas. Olhar de perto esse esqueleto, cuidadosamente sepultado a ponto de estar na mesma posição há cerca de 10 mil anos, provoca forte emoção. Ainda mais perturbador é perceber hoje uma atenção equivalente de parte de um grupo tão distante no tempo e em procedência. Além dos inúmeros sotaques brasileiros, em 2016 a equipe também contou com a mexicana María López Sosa e a alemã Franziska Mandt, ambas estudantes da Universidade de Tübingen.

A sensação da expedição era o esqueleto de uma mulher acompanhado de minúsculos ossos que, à medida que foram expostos, revelaram compor o esqueleto de um feto ou bebê recém-nascido. Ali ficava Oliveira durante praticamente o dia todo, retirando grão por grão de sedimento, enquanto mantinha um olho nas outras exumações em curso. De acordo com ele, a mulher foi acomodada de joelhos na cova, com o corpo dobrado por cima das pernas em posição fetal, provavelmente com o tronco torcido de maneira que, caso ainda estivesse grávida, a barriga ficaria para o lado e não abaixo das costelas. Isso, e mais a pedra que servia de lápide, explicaria o fato de o diminuto esqueleto estar afastado dos ossos da suposta mãe.

Rigor exaustivo

“Só vou saber se era bebê ou feto quando examinarmos este dente no laboratório”, explicou o dentista ao encontrar um fragmento recuperado graças às exaustivas práticas de busca. O sedimento retirado com ajuda de um pincel, ou de uma pera de borracha usada para assoprar, é passado por pequenas peneiras de cozinha – daquelas que se põe em cima da caneca para separar a nata do leite fervente – com ajuda de um regador de água, de maneira a separar os fragmentos menores.

Quando um pequeno recipiente, chamado de petisqueira, foi levado de volta ao dentista supostamente sem nada relevante dentro, ele pinçou o dente. De volta a São Paulo, as análises não permitiram uma resposta conclusiva. “É bem típico da época em torno do nascimento, com alguma margem de erro, de maneira que poderia estar no fim da gestação ou ter nascido”, explica. Os dentes de leite começam a se formar entre o segundo e o terceiro mês de gestação.

Além dos coadores para o material delicado, boa parte do sedimento retirado da escavação passa por uma grande peneira pendurada em um tripé, para separar fragmentos que escaparam ao crivo do pincel. Nessa função que requer atenção constante e uma boa resistência à poeira que enche o ar, era frequente encontrar Gabriel Francisco Pereira, voluntário que vive em Lagoa Santa e que “sabe tudo da região”, segundo Strauss, e a veterinária Nina Hochreiter, que pouco depois dos 50 anos se aposentou e passou a dedicar-se à paixão por arqueologia – era sua quarta participação como voluntária na Lapa do Santo.
Leia a íntegra da reportagem em http://revistapesquisa.fapesp.br/2017/01/10/cenas-de-um-sitio-arqueologico/?cat=ciencia.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Os povos de Lagoa Santa

Sepultamentos humanos em Minas Gerais revelam uma sucessão de costumes entre 10 mil e 8 mil anos atrás
MARIA GUIMARÃES | ED. 247 | SETEMBRO 2016

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© MAURICIO DE PAIVA
Um abrigo em meio ao Cerrado, Lapa do Santo parece ter sido um importante centro de rituais ligados à morte
Um abrigo em meio ao Cerrado, a Lapa do Santo parece ter sido um importante centro de rituais ligados à morte
Uma abertura na face de um penhasco em meio ao Cerrado na região de Lagoa Santa, Minas Gerais, tem revelado surpresas a arqueólogos, biólogos e antropólogos. Essa caverna, a Lapa do Santo, já foi um importante centro de rituais ligados à morte, como revelam escavações descritas em artigo em processo de publicação na revista Antiquity, uma das mais prestigiadas da área. Padrões de sepultamento complexos, com desmembramento de corpos e disposição seguindo regras precisas, revelam uma sucessão de culturas muito distintas em um período que se considerava homogêneo, por volta de 10 mil anos atrás. “O maior mérito foi enxergar essas transformações culturais ao longo do tempo, que por algum motivo ninguém tinha percebido”, avalia o arqueólogo brasileiro André Strauss, professor visitante na Universidade de Tübingen e doutorando no Instituto Max Planck, ambos na Alemanha, autor principal do artigo. O estudo vai além da morte e permite uma espiadela em como viviam e quem eram essas pessoas.
Strauss sentiu que ali havia algo especial no primeiro ano do curso de geologia na Universidade de São Paulo (USP), quando teve sua primeira expedição de campo como estagiário do bioantropólogo Walter Neves, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), em 2005. “Eu ficava no fundo de uma trincheira de 2 metros de profundidade, cavando e peneirando o que encontrava.” Foi desse posto que Strauss se encantou com o que havia por descobrir ali e queria fazer algo diferente de se concentrar na medição de crânios e na busca por indícios de coexistência com grandes animais, a megafauna. Esse era o foco das pesquisas realizadas ainda no século XIX, quando o naturalista dinamarquês Peter Lund descobriu ossos humanos associados aos de grandes animais numa caverna de Lagoa Santa e iniciou uma tradição de escavação no que se tornou uma das mais longevas regiões arqueológicas no país. Cinco anos depois, já no mestrado sob a orientação de Neves, Strauss viu que havia alguma ordem na confusão aparente do sítio: o que parecia uma mistura de ossos sem sentido na verdade seguia um padrão. “É difícil perceber as sutilezas, os sepultamentos são muito complexos.”
Arqueologia_Mapa_247“Isso foi possível porque o Walter inverteu a ordem habitual dos procedimentos de campo”, afirma Strauss. A arqueologia brasileira, segundo ele, concentra-se em artefatos, de maneira geral, e apenas chama especialistas em fósseis humanos quando ossos são encontrados. “Muitos esqueletos são danificados no processo.” Nos projetos de Neves, que desde 1988 analisa a evolução humana na América, com estudo de caso nessa região, são os bioantropólogos que coordenam a escavação e documentam tudo o que aparece, com especialistas para analisar os artefatos – na Lapa do Santo, lascas de pedra e ferramentas de osso como espátulas, buris e (raramente) anzóis.
Nessa caverna, onde há paredes decoradas com desenhos em relevo que indicam rituais de fertilidade (imagens fálicas), o resultado foi marcante. Strauss, Neves e colegas identificaram três períodos distintos de ocupação humana, o mais antigo entre 12,7 mil e 11,7 mil anos atrás. Entre 2001 e 2009, foram exumados e analisados 26 sepultamentos humanos ocorridos aproximadamente entre 10.500 e 8 mil anos atrás que revelam práticas mortuárias altamente variáveis e nunca antes descobertas nas terras baixas da América do Sul, descritas no artigo da Antiquity e em outro assinado apenas por André Strauss, publicado na edição de janeiro-abril do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi.
“Existiram práticas funerárias altamente sofisticadas nos Andes”, conta Neves, “mas as múmias chilenas já estudadas são mais recentes do que o material da Lapa do Santo”. Outra distinção é que na caverna mineira não há oferendas mortuárias, enquanto a prática habitual de caçadores-coletores era sepultar os mortos acompanhados ao menos de seus pertences. “A complexidade das práticas da Lapa do Santo não reside nos objetos, mas numa alta manipulação do corpo e do esqueleto de maneira muito sofisticada”, afirma o professor da USP.
Arqueologia_247
Rituais de morte
O padrão de sepultamento mais antigo, datado entre 10.600 e 9.700 anos atrás, foi descrito com base em um homem e uma criança de cerca de 5 anos, ambos enterrados inteiros. A criança foi posta sentada, com as pernas dobradas e os joelhos próximos à cabeça. A mandíbula afastada, como se a boca estivesse aberta, indica que a cova não foi completamente preenchida.
A remoção de partes dos cadáveres em seguida à morte caracteriza o período seguinte, entre 9.600 e 9.400 anos atrás. Representado por sete sepultamentos, mais alguns ossos avulsos, esse conjunto ficou descrito como o segundo padrão. Alguns dos esqueletos estavam articulados, mas com partes faltando. Um caso marcante foi o de um homem cuja cabeça parece ter sido removida horas depois da morte e enterrada com as duas mãos (também decepadas, como atestam marcas de corte em ossos do punho) cobrindo o rosto – uma voltada para cima e outra para baixo, como Strauss e colaboradores descreveram em 2015 na revista PLoS One.
Outros esqueletos estavam completamente desmembrados e arrumados em fardos, indicando que os ossos foram armazenados juntos, talvez embrulhados, e enterrados apenas depois de descarnados e secos. Muitos dos ossos isolados também passaram por alterações como queima, cortes, aplicação de pigmento vermelho e remoção dos dentes. Em alguns casos, eram combinados ossos de criança (uma ou duas) com o crânio de um adulto, ou vice-versa, de uma maneira que sugere regras muito precisas de como esse sepultamento deveria acontecer. Dentes removidos também eram sepultados com os restos mortais de outra pessoa.
© MAURICIO DE PAIVA
Crânio com dentes removidos ...
Crânio com dentes removidos
O terceiro padrão de sepultamento, datado entre 8.600 e 8.200 anos atrás, envolve nove ossadas dispostas completamente desarticuladas em covas circulares (entre 30 e 40 centímetros de diâmetro) e apenas 20 centímetros de profundidade. Cada cova, preenchida por inteiro, abrigava um único indivíduo. No caso dos adultos, os ossos mais longos em geral eram quebrados após a morte e só assim cabiam nas exíguas tumbas.
Mesmo em meio a tantos desmembramentos, não há indícios de que a violência em vida fosse uma prática corrente. “Nós lemos os ossos, tudo fica registrado neles”, conta Strauss. E eles guardam níveis muito baixos de fraturas recompostas, que indicariam terem acontecido em vida. De maneira geral, Strauss considera que os achados representam uma mudança no paradigma de como se vê a habitação humana por ali nesse período, o início do Holoceno. “Por muito tempo a grande questão era se a Luzia era a mais antiga da América e se era parecida com africanos”, afirma, referindo-se ao crânio de 11 mil anos descrito por Neves e que redefiniu como se deveria pensar a ocupação humana dessa região. “Agora sabemos que não houve um povo de Luzia em Lagoa Santa; foi uma sucessão de povos que habitaram a região com transformações culturais muito claras.” Afinal, trata-se de um período de cerca de 5 mil anos, tempo suficiente para povoamentos muito diversos, mesmo que fossem até certo ponto descendentes uns dos outros.
Estudos com DNA devem em breve começar a render resultados e trazer algumas respostas sobre como esses grupos se sucederam e qual o parentesco entre eles. “A morfologia craniana mostra que eles tinham a mesma ‘arquitetura’ geral”, conta Walter Neves. Há uma variação contínua nesse grande grupo que ele define como paleoamericano. De acordo com sua teoria, de que duas migrações distintas deram origem aos habitantes da América, as primeiras pessoas com características asiáticas teriam chegado por ali há cerca de 7 mil anos – e não há resquícios humanos em Lagoa Santa datados entre 7 mil e 2 mil anos atrás. Mesmo assim, o que há de indícios de lá e de outros lugares aos poucos vem refinando a hipótese. “Eu achava que a segunda leva migratória teria substituído o povo de Luzia”, admite. “Mas hoje temos evidências muito fortes de que aquela morfologia sobreviveu praticamente intacta até o século XIX.” É o caso, por exemplo, dos índios Botocudos (que foram dizimados no período colonial), de acordo com crânios armazenados no Museu Nacional do Rio de Janeiro, como defendem Strauss, Neves e colegas em artigo publicado em 2015 na revista American Journal of Physical Anthropology.
© MAURICIO DE PAIVA
...anzóis feitos de osso ...
Anzóis feitos de osso
Práticas de vida
Desde o início do doutorado, em 2011, Strauss coordena os trabalhos na Lapa do Santo, com financiamento alemão. A riqueza arqueológica garante o interesse da colaboração pelos dois países, que inclui parcerias para estudos genéticos. A contrapartida brasileira no projeto é Walter Neves, e seu Laboratório de Estudos Evolutivos e Ecológicos Humanos (LEEEH) recebe todo o material coletado nas expedições. Nos últimos anos, não foram encontrados vestígios de cerâmica no local, um indício forte de que eram populações de caçadores-coletores que moravam ali uma parte do tempo, e não agricultores, corroborando o que já se acreditava. Os animais caçados eram peixes, lagartos, roedores, tatus, porcos selvagens e pequenos cervos, todos carregados inteiros para a caverna. Nada de bichos um pouco maiores, como antas, e dos imensos mamíferos representantes da megafauna, que se acreditava associada aos humanos de Lagoa Santa desde que Peter Lund encontrou essa associação em outra caverna da região, entre 1835 e 1844. Nem sempre, pelo jeito.
“Eles comiam até mocó”, exclama Neves, referindo-se ao roedor pouco maior do que um porquinho-da-índia. Para ele, não há nada mais precário do que incluir esses animais na dieta, indicação de que os grupos de Lagoa Santa não tinham melhores fontes de proteína à disposição e viviam numa situação limite para garantir a subsistência. É uma teoria apenas, mas a escassez de pertences nos sepultamentos pode ser sinal de que não havia espaço para desperdício, e as ferramentas – como anzóis, de que só foram encontrados sete na Lapa do Santo – eram necessárias aos vivos. “O tempo deles era dedicado a viabilizar a existência do grupo”, especula Neves. E eram grandes grupos, estima ele.
© ANDRÉ STRAUSS/UNIVERSIDADE DE TÜBINGEN
Rodrigo Elias de Oliveira trabalha na exumação do crânio decapitado
Rodrigo Elias de Oliveira trabalha na exumação de crânio decapitado…
O modo de vida pode estar agora mais definido, mas a conclusão também propõe um enigma: análises químicas que refletem a dieta por meio da quantificação de isótopos de carbono e nitrogênio, feitas pelo biólogo brasileiro Tiago Hermenegildo como parte do doutorado na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, mostraram que os habitantes da região comiam muitos vegetais e complementavam a dieta com caça. Esse alto grau de consumo de vegetais é inesperado para caçadores-coletores, sobretudo com a dieta rica em carboidratos indicada pelas frequentes cáries nos dentes encontrados.
O dentista Rodrigo Elias de Oliveira, pesquisador do grupo de Neves, é coautor de um artigo liderado por Pedro Tótora da Glória, também do LEEEH, sobre a saúde dental na Lapa do Santo, a ser publicado na revista Annals of the Brazilian Academy of Sciences. Parceiro de Strauss desde 2006 nas escavações da Lapa do Santo, Elias explica as discrepâncias entre a incidência de cáries que tem observado e a documentada para outras populações de caçadores-coletores por ser Lagoa Santa uma região de clima tropical, com vegetação de Cerrado. “Os outros exemplos que temos são de climas temperados”, compara. “Aqui os alimentos naturalmente disponíveis – muitas frutas e tubérculos – podem gerar mais cáries.” Ele aposta no pequi e no jatobá, muito usados até hoje na região, como uma fonte alimentar já naquele tempo. São frutos ricos em carboidratos e fragmentos carbonizados foram encontrados nos sítios de Lagoa Santa.
Elias, que fez doutorado com Walter Neves e agora realiza estágio de pós-doutorado em periodontia na Faculdade de Odontologia da USP, traz ao projeto um detalhamento no estudo dos dentes, cujo material mais resistente do que os ossos os torna abundantes em sítios arqueológicos. “O dente é como uma cápsula, acaba virando nosso cofrinho”, afirma. Ele explica que os ossos se renovam constantemente, a ponto de se dizer que a cada 10 anos uma pessoa substitui seu esqueleto por inteiro. Os dentes de um adulto, no entanto, são testemunho do período da vida em que se formam os dentes permanentes. Ele espera que estudos com isótopos, em andamento agora em colaboração com Hermenegildo, ajudem a aprofundar aspectos da dieta até o detalhe de que tipos de planta comiam, de migrações ao longo da vida, de quanto tempo as crianças eram alimentadas com leite materno. O dentista adianta que isótopos de estrôncio, assim como o formato do fêmur, que responde à ação da musculatura, indicam que as pessoas encontradas na Lapa do Santo eram nativas de Lagoa Santa. “Eles tinham mobilidade, mas não eram errantes.”
© MAURICIO DE PAIVA
... e analisa ossadas no LEEH
… e analisa ossadas no LEEEH
Chão de cinzas
A inferência de intensa ocupação humana vem da confirmação de que muitas fogueiras foram acesas na Lapa do Santo. “Eles usavam fogo o tempo todo, sabiam o que estavam fazendo”, afirma a arqueóloga Ximena Villagran, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP. Ela fez análises ao microscópio do sedimento da caverna e mostrou uma grande quantidade de cinzas até uma profundidade de 1 metro, conforme mostra em artigo publicado em julho no site da revista Journal of Archaeological Science. Mais do que controlar o fogo, os habitantes da região aparentemente planejavam seu uso, armazenando madeira em processo de decomposição. Esse nível de detalhe é possível graças a análises de petrologia orgânica, uma técnica que recentemente passou a ser usada em arqueologia, à qual Ximena teve acesso por meio da parceria com o geólogo francês Bertrand Ligouis durante estágio de pós-doutorado na Universidade de Tübingen, onde ele dirige o Laboratório de Petrologia Orgânica Aplicada.
Outra técnica de ponta usada por ela foi a Espectrometria de Infravermelho por Transformada de Fourier (FTIR), normalmente usada para analisar sedimento solto. Ximena dispôs suas amostras em lâminas de vidro, de maneira que conseguia investigar com precisão por que o sedimento é composto por agregados de vários tons de amarelo, laranja e vermelho. Ao caracterizar o sedimento dentro da caverna e em torno dela, ficou claro que a produção de cinzas acontecia dentro do abrigo. Ela também identificou fragmentos de cupinzeiros, indicando que por algum motivo o material era trazido para dentro da caverna. “Talvez eles os usassem como pedras quentes para cozinhar ou como forno do lado de fora, como os xavantes usam para fazer seu bolo de milho”, especula. Depois da revelação na escala microscópica, passou a dar-se conta de que os campos de Lagoa Santa são repletos de cupinzeiros.
Um enigma surgiu ao verificar que a coloração vermelho-escura que observava em certas partes do sedimento teria exigido altas temperaturas, mais de 600 graus Celsius (°C). Em experimentos nos quais acendia fogueiras e inseria nas chamas um termômetro de cabo bem longo, Ximena verificou que o solo embaixo do fogo não era sujeito a tão altas temperaturas. A explicação literalmente lhe caiu na cabeça na segunda vez em que visitou o sítio arqueológico. “Percebi que uma chuva de sedimento cai do paredão de rocha acima da entrada da caverna”, conta. Se caíssem diretamente sobre uma fogueira, essas partículas encontrariam temperaturas entre 800 °C e 1000 °C.
© ADRIANO GAMBARINI
André Strauss em sua mesa de trabalho na Lapa do Santo
André Strauss em sua mesa de trabalho na Lapa do Santo
Ao analisar a microestrutura do sedimento em torno dos sepultamentos, Ximena percebeu uma continuidade perturbada em certos pontos, como se alguém tivesse cavado para fazer uma cova. Ela pretende continuar as análises para detalhar como os sepultamentos eram feitos. Strauss também quer saber se as práticas funerárias sofisticadas só existiam na Lapa do Santo: ele aposta que era uma cultura mais disseminada. “Fui olhar as publicações passadas e os sinais estão lá, faltou analisar dessa maneira”, afirma o arqueólogo, que quer ampliar os estudos para outras regiões do país.
Uma limitação é que o que já foi escavado não pode ser recuperado, a não ser que a documentação tenha sido extremamente meticulosa. E até recentemente os registros eram falhos, até por falta de recursos. “Fazer uma escavação é como ler um livro e queimar as páginas”, compara Strauss, que se especializou em documentação arqueológica. Ele conta que retirar um sepultamento leva de 20 a 25 dias, nos quais o sedimento é retirado aos poucos enquanto se gera um modelo tridimensional dos achados e registra-se tudo com fotos e vídeo. As cadernetas de campo dos arqueólogos, segundo ele, devem trazer as informações e observações detalhadamente e serem públicas: nada de diário pessoal. “Essa percepção ainda está crescendo na arqueologia brasileira.”
De 2011 para cá mais 11 sepultamentos foram exumados, corroborando os padrões descritos anteriormente, e estão em processo de estudo. As escavações continuam na Lapa do Santo e prometem revelar ainda outras camadas de tempo e costumes. De acordo com o arqueólogo norte-americano Kurt Rademaker, professor na Universidade do Norte de Illinois e especialista em caçadores-coletores, o trabalho em Lagoa Santa está se somando ao que é feito na região dos Andes em revelar uma grande diversidade cultural. “Strauss e sua equipe interdisciplinar estão fazendo ciência arqueológica de ponta e enriquecendo nosso conhecimento sobre a aparência física, a ancestralidade e os modos de vida dos sul-americanos antigos, em particular suas interessantíssimas práticas rituais”, afirma. É impossível saber o que se passava na cabeça desses antigos habitantes do que hoje é Minas Gerais, mas a equipe envolvida nos estudos está empenhada em construir um retrato aproximado.
Projeto
Origens e microevolução do homem na América: Uma abordagem paleoantropológica (III) (nº 2004/01321-6); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Temático; Pesquisador responsável Walter Alves Neves (IB-USP); Investimento R$ 2.032.930,19.
Artigos científicos

STRAUSS, A. et al. Early Holocene funerary complexity in South America: The archaeological record of Lapa do Santo (east-central Brazil). Antiquity. No prelo.

DA-GLORIA, P. J. T. et al. Dental caries at Lapa do Santo, central-eastern Brazil: An Early Holocene archaeological site. Annals of the Brazilian Academy of Sciences. No prelo.

STRAUSS, A. et al. Os padrões de sepultamento do sítio arqueológico Lapa do Santo (Holoceno Inicial, Brasil)Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas. v. 11, n. 1, p. 243-76. jan.-abr. 2016.

STRAUSS, A. et al. The cranial morphology of the Botocudo indians, BrazilAmerican Journal of Physical Anthropology. v. 157, n. 2, p. 202-16. jun. 2015.

VILLAGRAN, X. S. et al. Buried in ashes: Site formation processes at Lapa do Santo rockshelter, east-central BrazilJournal of Archaelogical Science. On-line. 26 jul. 2016.