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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Ancestralidade dispersa

Mestiços dos estados do Sul têm mais linhagens de DNA ameríndio do que os grupos indígenas atuais da região
Ilustração do chefe dos extintos Charruas selvagens, povo indígena do Sul cujo DNA mitocondrial foi estudadoReprodução Debret e o Brasil, Capivara

A maior parte da diversidade genética dos povos pré-colombianos que habitaram os três estados do Sul e o Uruguai está conservada nas atuais populações urbanas miscigenadas, com ascendência tanto ameríndia como europeia, e desapareceu entre os membros de comunidades que hoje vivem em reservas indígenas. 

Os mestiços apresentam quase cinco vezes mais linhagens de DNA mitocondrial, material genético herdado apenas do lado materno, originárias desses povos ancestrais do que os índios. 

A situação, aparentemente paradoxal, pode ser explicada por duas circunstâncias associadas ao processo de colonização empreendido pelo europeu na ponta meridional da América do Sul a partir do século XVI: a extinção da imensa maioria da população indígena, levando ao desaparecimento de muitas linhagens de DNA mitocondrial entre a pequena parcela atual de remanescentes desses povos, e a geração frequente de filhos mestiços, de pai europeu e de mãe indígena, em cujos descendentes foi preservado um número elevado de linhagens genéticas maternas de origem ameríndia.

Esse cenário é descrito em um estudo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) divulgado em 23 de abril deste no ano no periódico científico American Journal of Human Biology

O trabalho analisou dados publicados sobre o DNA mitocondrial de 309 indivíduos miscigenados que moram nos estados do Sul e no Uruguai e de 396 indígenas vivos dos troncos linguísticos Tupi-guanani e Jê. Essas sequências foram ainda comparadas com aquela, já publicada, de um indivíduo da extinta etnia Charrua

As amostras genéticas da população mestiça, que não se reconhece mais como índia, são originárias de cidades situadas em áreas originalmente ocupadas por esses grupos indígenas cerca de 20 gerações atrás. O trabalho encontrou apenas 27 linhagens de DNA mitocondrial, denominadas tecnicamente haplótipos, entre a população indígena e 131 nos indivíduos miscigenados.

“A única explicação para essa grande diversidade genética entre os mestiços é que ela deve refletir a situação que existia entre os povos nativos pré-colombianos antes do contato com os europeus”, explica a geneticista Maria Cátira Bortolini, da UFRGS, uma das autoras de estudo, baseado em parte na dissertação de mestrado de seu ex-aluno Gustavo Tavares. Cerca de 95% das linhagens de DNA mitocondrial dos povos ameríndios, que iniciaram o povoamento das Américas por volta de 15 mil anos atrás, estão reunidas em quatro grandes grupos, os chamados haplogrupos A2, B2, C1, D1. Das poucas linhagens presentes nos índios hoje vivos da região Sul, quase dois terços delas são do haplogrupo A2. 

Entre a população miscigenada, as linhagens do haplogrupo A2 representam apenas um quarto do total e as do haplogrupo C1, as mais frequentes, respondem por mais de 40% das amostras.

A diversidade genética abrange a quantidade de mudanças e mutações no DNA que caracterizam as diferenças entre os indivíduos de um grupo populacional. O material genético de populações maiores tende a apresentar mais variações do que o de pequenas parcelas de indivíduos. “Uma população maior tem mais gente e, portanto, mais linhagens segregando e mais mutações sendo introduzidas”, diz Bortolini. 

O grupo gaúcho optou por analisar o DNA mitocondrial porque esse segmento do genoma permite diferenciar claramente as linhagens europeias e africanas nos membros de uma população, facilitando o isolamento da contribuição indígena do material genético. Como a taxa de ocorrência de mutações no DNA mitocondrial é conhecida, esse tipo de material genético pode ser usado como um relógio molecular do passado e fornece pistas sobre o tamanho de uma população ancestral em um dado período e a evolução, em termos numéricos, de seus descendentes.

De acordo com os cálculos dos pesquisadores gaúchos, teriam sido necessários alguns milhares de anos para que o DNA mitocondrial acumulasse todas as mutações e variações encontradas atualmente na população de mestiços que vive nos três estados do Sul. As análises das amostras genéticas dos indivíduos miscigenados indicam que teria havido um processo de expansão populacional entre os ameríndios cerca de 15 mil anos atrás, mais ou menos quando o Homo sapiens fincou pé nas Américas. 

Elas também sugerem que, há cerca de 500 anos, quando o colonizador europeu chegou às Américas, a população feminina ameríndia vivendo nos atuais territórios do Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná poderia ter chegado a quase 200 mil mulheres.

Não há consenso entre os historiadores sobre quantos índios, homens e mulheres, viveram no Sul antes do desembarque do conquistador europeu. A estimativa mais aceita sugere uma população indígena de 250 mil indivíduos. Se esse número estiver certo, o DNA mitocondrial hoje presente nos índios do Sul reflete o material genético de apenas 0,3% da população ameríndia pré-colombiana. “A baixa diversidade genética dos indígenas atuais sinaliza que o tamanho da população ameríndia ancestral se reduziu 300 vezes depois da chegada do europeu”, comenta Bortolini.

Para o antropólogo Ruben Oliven, também da UFRGS, mas que não participou do estudo, o resultado do trabalho se alinha com a história e a construção da identidade cultural gaúcha. “A figura do indígena foi incorporada de uma maneira ambígua à imagem do gaúcho”, explica Oliven. “O indígena sempre foi retratado como um tipo heroico, que andava a cavalo, era bravo e se relacionava com a natureza. Muitos gaúchos costumam dizer que têm ‘sangue’ indígena, o que provavelmente é verdade.” 

O reconhecimento da cultura Guarani como formadora da sociedade gaúcha, porém, é recente. “Na década de 1940, por exemplo, muita gente não aceitava como herói regional a figura do Sepé Tiaraju (1723 -1756)”, diz o antropólogo, em referência ao líder indígena rebelde dos Sete Povos das Missões, no século XVIII. Os pesquisadores da UFRGS estimam que 20% dos gaúchos atuais tenham linhagens mitocondriais indígenas.

Artigo científico

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Ancestralidade dispersa

Mestiços dos estados do Sul têm mais linhagens de DNA ameríndio do que os grupos indígenas atuais da região
Ilustração do chefe dos extintos Charruas selvagens, povo indígena do Sul cujo DNA mitocondrial foi estudadoReprodução Debret e o Brasil, Capivara

A maior parte da diversidade genética dos povos pré-colombianos que habitaram os três estados do Sul e o Uruguai está conservada nas atuais populações urbanas miscigenadas, com ascendência tanto ameríndia como europeia, e desapareceu entre os membros de comunidades que hoje vivem em reservas indígenas. 

Os mestiços apresentam quase cinco vezes mais linhagens de DNA mitocondrial, material genético herdado apenas do lado materno, originárias desses povos ancestrais do que os índios. A situação, aparentemente paradoxal, pode ser explicada por duas circunstâncias associadas ao processo de colonização empreendido pelo europeu na ponta meridional da América do Sul a partir do século XVI: a extinção da imensa maioria da população indígena, levando ao desaparecimento de muitas linhagens de DNA mitocondrial entre a pequena parcela atual de remanescentes desses povos, e a geração frequente de filhos mestiços, de pai europeu e de mãe indígena, em cujos descendentes foi preservado um número elevado de linhagens genéticas maternas de origem ameríndia.

Esse cenário é descrito em um estudo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) divulgado em 23 de abril deste no ano no periódico científico American Journal of Human Biology. O trabalho analisou dados publicados sobre o DNA mitocondrial de 309 indivíduos miscigenados que moram nos estados do Sul e no Uruguai e de 396 indígenas vivos dos troncos linguísticos Tupi-guanani e Jê. Essas sequências foram ainda comparadas com aquela, já publicada, de um indivíduo da extinta etnia Charrua. As amostras genéticas da população mestiça, que não se reconhece mais como índia, são originárias de cidades situadas em áreas originalmente ocupadas por esses grupos indígenas cerca de 20 gerações atrás. O trabalho encontrou apenas 27 linhagens de DNA mitocondrial, denominadas tecnicamente haplótipos, entre a população indígena e 131 nos indivíduos miscigenados.

“A única explicação para essa grande diversidade genética entre os mestiços é que ela deve refletir a situação que existia entre os povos nativos pré-colombianos antes do contato com os europeus”, explica a geneticista Maria Cátira Bortolini, da UFRGS, uma das autoras de estudo, baseado em parte na dissertação de mestrado de seu ex-aluno Gustavo Tavares. Cerca de 95% das linhagens de DNA mitocondrial dos povos ameríndios, que iniciaram o povoamento das Américas por volta de 15 mil anos atrás, estão reunidas em quatro grandes grupos, os chamados haplogrupos A2, B2, C1, D1. Das poucas linhagens presentes nos índios hoje vivos da região Sul, quase dois terços delas são do haplogrupo A2. Entre a população miscigenada, as linhagens do haplogrupo A2 representam apenas um quarto do total e as do haplogrupo C1, as mais frequentes, respondem por mais de 40% das amostras.

A diversidade genética abrange a quantidade de mudanças e mutações no DNA que caracterizam as diferenças entre os indivíduos de um grupo populacional. O material genético de populações maiores tende a apresentar mais variações do que o de pequenas parcelas de indivíduos. “Uma população maior tem mais gente e, portanto, mais linhagens segregando e mais mutações sendo introduzidas”, diz Bortolini. 

O grupo gaúcho optou por analisar o DNA mitocondrial porque esse segmento do genoma permite diferenciar claramente as linhagens europeias e africanas nos membros de uma população, facilitando o isolamento da contribuição indígena do material genético. Como a taxa de ocorrência de mutações no DNA mitocondrial é conhecida, esse tipo de material genético pode ser usado como um relógio molecular do passado e fornece pistas sobre o tamanho de uma população ancestral em um dado período e a evolução, em termos numéricos, de seus descendentes.
De acordo com os cálculos dos pesquisadores gaúchos, teriam sido necessários alguns milhares de anos para que o DNA mitocondrial acumulasse todas as mutações e variações encontradas atualmente na população de mestiços que vive nos três estados do Sul. 

As análises das amostras genéticas dos indivíduos miscigenados indicam que teria havido um processo de expansão populacional entre os ameríndios cerca de 15 mil anos atrás, mais ou menos quando o Homo sapiens fincou pé nas Américas. Elas também sugerem que, há cerca de 500 anos, quando o colonizador europeu chegou às Américas, a população feminina ameríndia vivendo nos atuais territórios do Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná poderia ter chegado a quase 200 mil mulheres.

Não há consenso entre os historiadores sobre quantos índios, homens e mulheres, viveram no Sul antes do desembarque do conquistador europeu. A estimativa mais aceita sugere uma população indígena de 250 mil indivíduos. Se esse número estiver certo, o DNA mitocondrial hoje presente nos índios do Sul reflete o material genético de apenas 0,3% da população ameríndia pré-colombiana. “A baixa diversidade genética dos indígenas atuais sinaliza que o tamanho da população ameríndia ancestral se reduziu 300 vezes depois da chegada do europeu”, comenta Bortolini.

Para o antropólogo Ruben Oliven, também da UFRGS, mas que não participou do estudo, o resultado do trabalho se alinha com a história e a construção da identidade cultural gaúcha. “A figura do indígena foi incorporada de uma maneira ambígua à imagem do gaúcho”, explica Oliven. “O indígena sempre foi retratado como um tipo heroico, que andava a cavalo, era bravo e se relacionava com a natureza. Muitos gaúchos costumam dizer que têm ‘sangue’ indígena, o que provavelmente é verdade.” O reconhecimento da cultura Guarani como formadora da sociedade gaúcha, porém, é recente. “Na década de 1940, por exemplo, muita gente não aceitava como herói regional a figura do Sepé Tiaraju (1723 -1756)”, diz o antropólogo, em referência ao líder indígena rebelde dos Sete Povos das Missões, no século XVIII. 

Os pesquisadores da UFRGS estimam que 20% dos gaúchos atuais tenham linhagens mitocondriais indígenas.

Artigo científico

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Estudos genéticos dão nova cara ao Povo de Luzia

Representação do fóssil humano mais famoso do Brasil estava equivocada, segundo um novo estudo que sequenciou o DNA de vários esqueletos pré-históricos de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Segundo os pesquisadores, Luzia e seus conterrâneos não tinha feições africanas; eram tão ameríndios quanto qualquer outra população primitiva das Américas

Herton Escobar
08 Novembro 2018 | 15h45
Comparação entre a reconstrução facial de Luzia feita por Richard Neave em 1999, e de um outro crânio de Lagoa Santa, feita agora por Caroline Wilkinson, com base em novas evidências genéticas de ancestralidade do povo de Lagoa Santa. Modelagem 3D feita por André Strauss/MAE-USP

Dados genéticos extraídos do DNA de esqueletos enterrados numa caverna de Minas Gerais estão dando uma nova cara à pré-história brasileira e, de quebra, ajudando a reescrever 20 mil anos de história do povoamento das Américas.

O resultado mais surpreendente diz respeito ao chamado Povo de Luzia, que habitou a região de Lagoa Santa, próximo a Belo Horizonte, entre 12 mil e 9 mil anos atrás, e cujo nome do grupo faz referência à sua personagem mais ilustre, Luzia, uma mulher de 20 e poucos anos, cujo crânio foi encontrado por arqueólogos na década de 1970 — e quase destruído no incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, dois meses atrás.

Contrariando algo que vinha sendo proposto há mais de duas décadas, com base principalmente em análises morfológicas do crânio de Luzia, as novas evidências genéticas sugerem “de forma categórica”,  segundo os pesquisadores, que não há qualquer relação de parentesco entre o Povo de Luzia e populações antigas da África ou da Austrália.

“Portanto, a hipótese de que o Povo de Luzia representaria uma leva migratória anterior aos ancestrais dos indígenas atuais não se confirma”, afirmam os autores brasileiros do estudo, publicado hoje na revista Cell. “Pelo contrário, o DNA mostra que o Povo de Luzia tem genética totalmente ameríndia”

Aquela famosa reconstrução facial do crânio de Luzia, concebida na década de 1990, com características notadamente negroides, portanto, está equivocada, diz o pesquisador André Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, que há anos realiza escavações arqueológicas em Lagoa Santa e é um dos coordenadores do estudo.

Para substituí-la, os pesquisadores encomendaram uma nova reconstrução, baseada num outro crânio de Lagoa Santa (registrado como Sepultamento 26) e levando em conta as novas evidências genéticas. O resultado foi um rosto com uma uma morfologia muito mais “genérica”, da qual teriam se originado “inúmeras variantes intra-continentais”. “É uma espécie da tábula rasa, ou tela branca, que com o passar dos milênios foi sendo moldada de diversas formas em diferentes populações”, afirma Strauss.

As reconstruções faciais arqueológicas são baseadas em características morfológicas do crânio e da mandíbula, mas também levam em conta as hipóteses de ancestralidade do indivíduo — que vão influenciar, por exemplo, características como a grossura dos lábios e o formato do nariz. Assim, um mesmo crânio pode dar origem a rostos completamente diferentes.
Reconstrução facial do Povo de Luzia feita por Caroline Wilkinson, da Liverpool John Moores University, na Inglaterra, com base em um modelo digital retrodeformado de um crânio do sítio arqueológico da Lapa do Santo. O crânio utilizado como referência é de um homem jovem, catalogado como Sepultamento 26.

A dúvida sobre a origem do Povo de Luzia surgiu na década de 1990, quando o antropólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo, descreveu o crânio de Luzia (até então esquecido nos arquivos do Museu Nacional) como dotado de uma morfologia predominantemente negroide e com 11,5 mil anos de idade — mais antigo do que qualquer outro encontrado nas Américas até então. Para explicar isso, Neves postulou que Luzia e seu povo eram representantes de uma onda migratória anterior à que deu origem ao ameríndios modernos. Essa primeira migração, segundo ele, teria chegado pela mesma rota do Estreito de Bering — ou seja, também da Ásia —, mas seria composta de indivíduos que ainda preservavam uma morfologia negroide, em vez das feições mongoloides que predominam nos povos indígenas atuais. Foi essa hipótese que norteou a reconstrução facial de Luzia feita pelo britânico Richard Neave, em 1999, conferindo a ela uma aparência mais africana do que asiática.
Naquela época, ainda não havia a possibilidade de se analisar o DNA de fósseis humanos, como se faz agora com a chamada “arqueogenética”. As análises, portanto, eram baseadas apenas na morfologia dos ossos e nas informações arqueológicas associadas a eles. Neves foi procurado pela reportagem, mas preferiu não se pronunciar.

Segundo Strauss, Neves (que foi seu orientador de mestrado no Instituto de Biociências da USP) estava certo ao propor que o Povo de Luzia representava uma população diferenciada e que eventualmente desapareceu, substituída pelos ancestrais dos ameríndios modernos. A genética associada ao Povo de Luzia, de fato, desaparece do continente 9 mil anos atrás. A diferença, segundo Strauss, é que a origem dela não estava na África, mas na América do Norte.

Outra descoberta surpreendente do trabalho diz respeito ao povo da cultura Clóvis, que floresceu na região dos Estados Unidos cerca de 13 mil anos atrás e ficou famosa pela confecção de pontas de lança de pedra lascada. Acreditava-se que essa população tinha ficado restrita à América do Norte, mas os dados genéticos de Lagoa Santa e outros dois sítios arqueológicos (Los Rieles, no Chile; e Mayahak Cab Pek, em Belize) revelam que o povo de Clóvis migrou também para as Américas Central e do Sul, a partir de 12 mil anos atrás, dando origem a novas populações — entre elas, o Povo de Luzia.

As pontas de pedra lascada aparentemente ficaram para trás, já que nenhuma até hoje foi encontrada mais ao sul do que o México, mas a genética Clóvis seguiu em frente. Essa é a grande vantagem da arqueogenética, segundo Strauss: “Ela nos permite enxergar coisas que não são invisíveis para a arqueologia clássica”, diz o pesquisador. “Evidências que só são visíveis nos genes.”
Lapa do Santo, sítio arqueológico onde foram encontrados os esqueletos usados na pesquisa, na região de Lagoa Santa (MG). Foto: Mauricio de Paiva

O trabalho na Cell tem mais de 70 autores, de diversos países, dos quais 17 são brasileiros. 
Um outro trabalho publicado hoje, na revista Science, também com autores brasileiros, também analisou o DNA de esqueletos de Lagoa Santa e outros sítios arqueológicos das Américas. Os resultados, em sua maior parte, concordam com os resultados apresentados na Cell, mostrando que o continente foi povoado por uma única onda migratória, e que a dispersão e diversificação dessa população pelo continente ocorreu de forma bastante rápida. Em menos de 2 mil anos, já havia gente vivendo desde o norte do Canadá até o sul do Chile.

Uma diferença é que, neste caso, os pesquisadores encontraram um “sinal genético” de origem australiana (negroide) na população de Lagoa Santa, porém extremamente sutil e em apenas um dos cinco esqueletos analisados. Algo que, segundo eles, não tem relação com a morfologia do Povo de Luzia.
Escavação arqueológica na Lapa do Santo. Foto: André Strauss

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Pesca pré-histórica

Ameríndios capturavam tubarões e corvinas, talvez de forma excessiva, 5 mil anos atrás na costa do Rio de Janeiro
MARCOS PIVETTA | ED. 247 | SETEMBRO 2016

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Sambaqui_247A costa brasileira apresenta mais de 2 mil sambaquis conhecidos, um tipo de vestígio arqueológico que remete às práticas funerárias e à dieta dos primeiros habitantes do litoral. Em tupi, sambaqui quer dizer amontoado de conchas. Pescadores-coletores pré-históricos, que ocuparam as margens do Atlântico, enterravam seus mortos em covas rasas, recobertas por conchas e restos de peixes, acompanhadas de artefatos de pedra e de osso. Com o tempo, os lugares mais usados para sepultamentos acumularam grande quantidade de materiais e formaram montes, alguns com até 30 metros (m) de altura, como se verifica em sítios arqueológicos de Santa Catarina. Segundo um estudo feito por pesquisadores do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Rio Grande do Sul, a pesca conduzida pelos ameríndios em trechos do litoral fluminense, cujos vestígios se encontram registrados nos sambaquis, pode ter representado a primeira ameaça significativa aos estoques naturais de certos peixes, como corvinas e tubarões.
Os autores do trabalho examinaram mais de 6 mil fragmentos ósseos, dentes e otólitos (cálculos calcários formados no ouvido interno) de peixes encontrados em 13 sambaquis da costa do Rio de Janeiro. Os sítios se localizam entre as baías da Ilha Grande, em Angra dos Reis, e da Ilha do Cabo Frio, em Arraial do Cabo, com idade de 5.600 a 700 anos (ver mapa). A análise desse material, que faz parte do acervo arqueológico do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN-UFRJ), levou-os a ter uma ideia aproximada da quantidade e do tamanho dos exemplares capturados ao longo de alguns milhares de anos. Também serviu de base para concluírem que a captura de peixes era uma atividade muito desenvolvida e diversificada antes da chegada dos europeus ao Brasil. No acervo, foram identificadas 97 espécies de peixe. “Esse número representa 37% de todas as espécies de peixe registradas até hoje naquele trecho do litoral fluminense”, comenta o paleontólogo marinho Orangel Aguilera, da Universidade Federal Fluminense (UFF), de Niterói, coordenador do estudo, publicado em 29 de julho no periódico Plos One. “Os sambaquieiros realmente dominavam a arte da pesca.”
© ELIAS LEVY / FLICKR
Tubarão-branco: umas das mais de 20 espécies desses peixes que os povos dos sambaquis pescavam
Tubarão-branco: umas das mais de 20 espécies desses peixes que os povos dos sambaquis pescavam
As características do registro arqueológico de algumas espécies marinhas comumente encontradas em sambaquis indicam que certos tipos de peixe teriam sido capturados em excesso ou na forma de exemplares muito jovens, pescados, às vezes, em áreas que funcionavam como berçários desses animais. Essa prática teria inaugurado o processo de vulnerabilidade ou até de diminuição das populações costeiras de alguns peixes. Segundo Aguilera, os povos concheiros, também denominados sambaquieiros, pescavam em distintos ambientes marinhos, rasos e mais profundos, desde praias arenosas coladas à costa até o leito rochoso do oceano repleto de peixes. Apesar de haver registros arqueológicos de que o homem pesca há pelo menos 40 mil anos, existem poucos estudos sobre eventuais impactos ambientais da captura de peixes na pré-história. Um raro trabalho, feito em 2010 pelo Centro de Investigaciones Pesqueras de Cuba, sugere até que os ameríndios não disporiam da tecnologia necessária para explorar a maior parte dos estoques de seres marinhos do Caribe — conclusão agora refutada pelo pesquisador da UFF.
Os vestígios marinhos recuperados nos sambaquis fluminenses atestam que a pesca era uma atividade dominante naquela região. A espécie com maior número de registros, e provavelmente a mais intensamente capturada pelos pescadores-coletores do litoral fluminense, é a corvina (Micropogonias furnieri). Foram estudados 5.532 otólitos da espécie, que habita fundos lodosos e arenosos de águas costeiras ou de estuários e pode chegar a 70 centímetros (cm) de comprimento. “A corvina é atualmente a segunda espécie mais pescada no litoral brasileiro, atrás apenas da sardinha”, informa o oceanógrafo Acácio Tomás, pesquisador do Instituto de Pesca de Santos, coautor do estudo. “Os povos ancestrais também devem ter pescado sardinhas, mas infelizmente não temos registros da espécie no material coletado nos sambaquis fluminenses”, explica Tomás. Onze dos 13 sítios arqueológicos estudados apresentavam vestígios deM. furnieri. A ubiquidade da espécie nos sambaquis possibilitou estimar o impacto causado pela pesca nos estoques de corvina nos últimos 5 mil anos. Segundo os cálculos dos pesquisadores, houve uma redução de 28% no tamanho médio das corvinas desde aquela época até hoje, em razão da exploração continuada da espécie.
Sambaqui_Mapa_247A presença marcante de vestígios de tubarões adultos e de filhotes, sobretudo de algumas espécies de ocorrência oceânica (longe da costa), também chamou a atenção de Aguilera e seus colaboradores. Eles examinaram 660 vértebras fossilizadas, além de dentes e ossos do crânio, de mais de 20 espécies diferentes desse peixe, como o tubarão-branco (Carcharodon carcharias), a mangona (Carcharias taurus), o tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier) e o tubarão-martelo (Sphyrna lewini). A abundância de registros é interpretada pelos autores do trabalho como um indício de que as populações dos sambaquis tinham uma grande capacidade de pesca.
De acordo com estimativas dos pesquisadores, os ossos estudados pertenceram a exemplares cujo comprimento variava de 30 cm, no caso de filhotes, a 2,5 m, entre os espécimes maduros. Os tubarões capturados pelos sambaquieiros eram quase sempre menores do que o tamanho médio estimado atualmente para essas mesmas espécies, consideradas hoje vulneráveis ou em risco de extinção. Eles provavelmente são fruto de uma pesca excessiva em áreas de berçário, importante para a manutenção da capacidade reprodutiva dos animais. Entre os resquícios de arraias presentes nos sambaquis, os mais abundantes foram da arraia-pintada (Aetobatus narinari).
© CLÁUDIO D. TIMM / WIKIPEDIA
Corvina: espécie era a mais pescada entre os sambaquieiros fluminenses
Corvina: espécie era a mais pescada entre os sambaquieiros fluminenses
Canoas e redes de pesca?A localização dos sítios arqueológicos é um indicador de que os ameríndios não se instalaram por acaso nessas latitudes. Os 13 sambaquis se espalham por uma faixa de cerca de 270 quilômetros do litoral fluminense conhecida por ser uma área de ressurgência, em que águas mais profundas, ricas em nutrientes, afloram. Nos pontos do litoral onde ocorre esse fenômeno oceanográfico tende a haver maiores concentrações de peixes. “Os sambaquieiros eram grandes coletores de mariscos, mas esse alimento não era suficiente para alimentá-los. Eram os peixes que basicamente os sustentavam”, diz a arqueóloga Tania Andrade Lima, do MN-UFRJ, outra coautora do estudo. “Eles conheciam bem o ambiente marinho e pescavam tanto na costa como perto do alto-mar.” Além de serem a base da dieta dos sambaquieiros, os seres marinhos capturados também podiam ser usados em rituais funerários, como as conchas enterradas com os mortos, ou na confecção de objetos decorativos. Dentes de tubarão eram perfurados e usados como peças de colares, um tipo de adorno comumente encontrado em sambaquis.
Embora todos os sambaquis analisados no estudo se situem sob a influência de uma zona de ressurgência, os sítios podem ser agrupados de acordo com algumas particularidades geográficas. O sambaqui de Acaiá se situa na Ilha Grande. Os sítios do Algodão, Major, Bigode, Caieira e Peri ficam em ilhotas ou em áreas costeiras rochosas da baía do Ribeira, em Angra dos Reis. Camboinhas se encontra em uma planície arenosa costeira dominada por lagoas na região oceânica de Niterói. Os sambaquis de Saquarema, Beirada, Manitiba e Ponte do Girau ocupam uma parte da planície arenosa, também pontuada por lagoas costeiras, da região de Saquarema. Por fim, a Ilha do Cabo Frio, no município de Arraial do Cabo, abriga dois sítios: Usiminas, em um assentamento rochoso, e o homônimo Ilha do Cabo Frio, em área de dunas.
© LOPES ET AL. 2016. PLOS ONE.
Dentes de tubarão: usados como adorno de colar
Dentes de tubarão: usados como adorno de colar
Para explorar essa diversidade de ambientes marinhos, os pesquisadores sustentam a hipótese de que os povos do passado desenvolveram estratégias e ferramentas de pesca. A captura de seres marinhos se beneficiava provavelmente do emprego de linhas e redes de espera (emalhe) feitas de fibras vegetais, anzóis e arpões confeccionados com ossos de animais. A busca por espécies que viviam longe da costa ou por ilhas estratégicas para a pesca em mar aberto requeria o emprego de alguma forma de embarcação. “Não temos registros arqueológicos de canoas ou redes, que eram feitas de madeira e fibras vegetais que não se preservam com o tempo”, explica Aguilera, que contou com o apoio de duas alunas da pós-graduação da UFF na produção do artigo, Mariana Lopes e Thayse Bertucci. No entanto, há evidências indiretas de que os ameríndios eram bons de pesca: projéteis feitos de ossos, encontrados em sambaquis, parecem ter sido usados para dar o golpe final em espécimes de grande porte; artefatos de pedra, também presentes em alguns sítios, podem ter sido empregados na confecção de canoas.
Estudioso dos sambaquis da costa brasileira, em especial os de Santa Catarina, o arqueólogo Paulo DeBlasis, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), elogia o trabalho de Aguilera e seus colegas. “O artigo adota uma abordagem muito interessante sobre a relação dos sambaquieiros com a pesca marinha”, afirma. Segundo o arqueólogo do MAE, ainda hoje alguns pesquisadores mais tradicionalistas acreditam que, devido à abundância de conchas nos sambaquis, a base da dieta dos habitantes pré-históricos do litoral eram frutos do mar. “Em Santa Catarina, também há sítios arqueológicos em ilhas. Há tempos, temos a percepção de que eles eram grandes pescadores, além de caçar mamíferos marinhos e terrestres.”
© LOPES ET AL. 2016. PLOS ONE.
Vestígios de outros peixes dos sambaquis fluminenses: mais de 6 mil peças foram analisadas
Vestígios de outros peixes dos sambaquis fluminenses: mais de 6 mil peças foram analisadas
Não se sabe até que ponto plantas e cultivos agrícolas também fizeram parte do cardápio dos ameríndios da beira-mar. Cinco anos atrás, a bioantropóloga Sabine Eggers, do Instituto de Biociências (IB) da USP, reconstituiu a dieta de Luzio, um ameríndio que habitou há aproximadamente 10 mil anos em um sambaqui de rio do Vale do Ribeira (SP), distante cerca de 100 quilômetros da costa atual. O resultado do estudo foi surpreendente: Luzio comia carne de caça, tubérculos, frutas e quase nenhum peixe ou crustáceo, seja de água doce ou marinha. Mas, a julgar pelo novo trabalho feito com material dos sambaquis do Rio de Janeiro, os povos antigos da costa fluminense gostavam mesmo era de um bom pescado.
Artigo científico

Os povos de Lagoa Santa

Sepultamentos humanos em Minas Gerais revelam uma sucessão de costumes entre 10 mil e 8 mil anos atrás
MARIA GUIMARÃES | ED. 247 | SETEMBRO 2016

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© MAURICIO DE PAIVA
Um abrigo em meio ao Cerrado, Lapa do Santo parece ter sido um importante centro de rituais ligados à morte
Um abrigo em meio ao Cerrado, a Lapa do Santo parece ter sido um importante centro de rituais ligados à morte
Uma abertura na face de um penhasco em meio ao Cerrado na região de Lagoa Santa, Minas Gerais, tem revelado surpresas a arqueólogos, biólogos e antropólogos. Essa caverna, a Lapa do Santo, já foi um importante centro de rituais ligados à morte, como revelam escavações descritas em artigo em processo de publicação na revista Antiquity, uma das mais prestigiadas da área. Padrões de sepultamento complexos, com desmembramento de corpos e disposição seguindo regras precisas, revelam uma sucessão de culturas muito distintas em um período que se considerava homogêneo, por volta de 10 mil anos atrás. “O maior mérito foi enxergar essas transformações culturais ao longo do tempo, que por algum motivo ninguém tinha percebido”, avalia o arqueólogo brasileiro André Strauss, professor visitante na Universidade de Tübingen e doutorando no Instituto Max Planck, ambos na Alemanha, autor principal do artigo. O estudo vai além da morte e permite uma espiadela em como viviam e quem eram essas pessoas.
Strauss sentiu que ali havia algo especial no primeiro ano do curso de geologia na Universidade de São Paulo (USP), quando teve sua primeira expedição de campo como estagiário do bioantropólogo Walter Neves, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), em 2005. “Eu ficava no fundo de uma trincheira de 2 metros de profundidade, cavando e peneirando o que encontrava.” Foi desse posto que Strauss se encantou com o que havia por descobrir ali e queria fazer algo diferente de se concentrar na medição de crânios e na busca por indícios de coexistência com grandes animais, a megafauna. Esse era o foco das pesquisas realizadas ainda no século XIX, quando o naturalista dinamarquês Peter Lund descobriu ossos humanos associados aos de grandes animais numa caverna de Lagoa Santa e iniciou uma tradição de escavação no que se tornou uma das mais longevas regiões arqueológicas no país. Cinco anos depois, já no mestrado sob a orientação de Neves, Strauss viu que havia alguma ordem na confusão aparente do sítio: o que parecia uma mistura de ossos sem sentido na verdade seguia um padrão. “É difícil perceber as sutilezas, os sepultamentos são muito complexos.”
Arqueologia_Mapa_247“Isso foi possível porque o Walter inverteu a ordem habitual dos procedimentos de campo”, afirma Strauss. A arqueologia brasileira, segundo ele, concentra-se em artefatos, de maneira geral, e apenas chama especialistas em fósseis humanos quando ossos são encontrados. “Muitos esqueletos são danificados no processo.” Nos projetos de Neves, que desde 1988 analisa a evolução humana na América, com estudo de caso nessa região, são os bioantropólogos que coordenam a escavação e documentam tudo o que aparece, com especialistas para analisar os artefatos – na Lapa do Santo, lascas de pedra e ferramentas de osso como espátulas, buris e (raramente) anzóis.
Nessa caverna, onde há paredes decoradas com desenhos em relevo que indicam rituais de fertilidade (imagens fálicas), o resultado foi marcante. Strauss, Neves e colegas identificaram três períodos distintos de ocupação humana, o mais antigo entre 12,7 mil e 11,7 mil anos atrás. Entre 2001 e 2009, foram exumados e analisados 26 sepultamentos humanos ocorridos aproximadamente entre 10.500 e 8 mil anos atrás que revelam práticas mortuárias altamente variáveis e nunca antes descobertas nas terras baixas da América do Sul, descritas no artigo da Antiquity e em outro assinado apenas por André Strauss, publicado na edição de janeiro-abril do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi.
“Existiram práticas funerárias altamente sofisticadas nos Andes”, conta Neves, “mas as múmias chilenas já estudadas são mais recentes do que o material da Lapa do Santo”. Outra distinção é que na caverna mineira não há oferendas mortuárias, enquanto a prática habitual de caçadores-coletores era sepultar os mortos acompanhados ao menos de seus pertences. “A complexidade das práticas da Lapa do Santo não reside nos objetos, mas numa alta manipulação do corpo e do esqueleto de maneira muito sofisticada”, afirma o professor da USP.
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Rituais de morte
O padrão de sepultamento mais antigo, datado entre 10.600 e 9.700 anos atrás, foi descrito com base em um homem e uma criança de cerca de 5 anos, ambos enterrados inteiros. A criança foi posta sentada, com as pernas dobradas e os joelhos próximos à cabeça. A mandíbula afastada, como se a boca estivesse aberta, indica que a cova não foi completamente preenchida.
A remoção de partes dos cadáveres em seguida à morte caracteriza o período seguinte, entre 9.600 e 9.400 anos atrás. Representado por sete sepultamentos, mais alguns ossos avulsos, esse conjunto ficou descrito como o segundo padrão. Alguns dos esqueletos estavam articulados, mas com partes faltando. Um caso marcante foi o de um homem cuja cabeça parece ter sido removida horas depois da morte e enterrada com as duas mãos (também decepadas, como atestam marcas de corte em ossos do punho) cobrindo o rosto – uma voltada para cima e outra para baixo, como Strauss e colaboradores descreveram em 2015 na revista PLoS One.
Outros esqueletos estavam completamente desmembrados e arrumados em fardos, indicando que os ossos foram armazenados juntos, talvez embrulhados, e enterrados apenas depois de descarnados e secos. Muitos dos ossos isolados também passaram por alterações como queima, cortes, aplicação de pigmento vermelho e remoção dos dentes. Em alguns casos, eram combinados ossos de criança (uma ou duas) com o crânio de um adulto, ou vice-versa, de uma maneira que sugere regras muito precisas de como esse sepultamento deveria acontecer. Dentes removidos também eram sepultados com os restos mortais de outra pessoa.
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Crânio com dentes removidos ...
Crânio com dentes removidos
O terceiro padrão de sepultamento, datado entre 8.600 e 8.200 anos atrás, envolve nove ossadas dispostas completamente desarticuladas em covas circulares (entre 30 e 40 centímetros de diâmetro) e apenas 20 centímetros de profundidade. Cada cova, preenchida por inteiro, abrigava um único indivíduo. No caso dos adultos, os ossos mais longos em geral eram quebrados após a morte e só assim cabiam nas exíguas tumbas.
Mesmo em meio a tantos desmembramentos, não há indícios de que a violência em vida fosse uma prática corrente. “Nós lemos os ossos, tudo fica registrado neles”, conta Strauss. E eles guardam níveis muito baixos de fraturas recompostas, que indicariam terem acontecido em vida. De maneira geral, Strauss considera que os achados representam uma mudança no paradigma de como se vê a habitação humana por ali nesse período, o início do Holoceno. “Por muito tempo a grande questão era se a Luzia era a mais antiga da América e se era parecida com africanos”, afirma, referindo-se ao crânio de 11 mil anos descrito por Neves e que redefiniu como se deveria pensar a ocupação humana dessa região. “Agora sabemos que não houve um povo de Luzia em Lagoa Santa; foi uma sucessão de povos que habitaram a região com transformações culturais muito claras.” Afinal, trata-se de um período de cerca de 5 mil anos, tempo suficiente para povoamentos muito diversos, mesmo que fossem até certo ponto descendentes uns dos outros.
Estudos com DNA devem em breve começar a render resultados e trazer algumas respostas sobre como esses grupos se sucederam e qual o parentesco entre eles. “A morfologia craniana mostra que eles tinham a mesma ‘arquitetura’ geral”, conta Walter Neves. Há uma variação contínua nesse grande grupo que ele define como paleoamericano. De acordo com sua teoria, de que duas migrações distintas deram origem aos habitantes da América, as primeiras pessoas com características asiáticas teriam chegado por ali há cerca de 7 mil anos – e não há resquícios humanos em Lagoa Santa datados entre 7 mil e 2 mil anos atrás. Mesmo assim, o que há de indícios de lá e de outros lugares aos poucos vem refinando a hipótese. “Eu achava que a segunda leva migratória teria substituído o povo de Luzia”, admite. “Mas hoje temos evidências muito fortes de que aquela morfologia sobreviveu praticamente intacta até o século XIX.” É o caso, por exemplo, dos índios Botocudos (que foram dizimados no período colonial), de acordo com crânios armazenados no Museu Nacional do Rio de Janeiro, como defendem Strauss, Neves e colegas em artigo publicado em 2015 na revista American Journal of Physical Anthropology.
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...anzóis feitos de osso ...
Anzóis feitos de osso
Práticas de vida
Desde o início do doutorado, em 2011, Strauss coordena os trabalhos na Lapa do Santo, com financiamento alemão. A riqueza arqueológica garante o interesse da colaboração pelos dois países, que inclui parcerias para estudos genéticos. A contrapartida brasileira no projeto é Walter Neves, e seu Laboratório de Estudos Evolutivos e Ecológicos Humanos (LEEEH) recebe todo o material coletado nas expedições. Nos últimos anos, não foram encontrados vestígios de cerâmica no local, um indício forte de que eram populações de caçadores-coletores que moravam ali uma parte do tempo, e não agricultores, corroborando o que já se acreditava. Os animais caçados eram peixes, lagartos, roedores, tatus, porcos selvagens e pequenos cervos, todos carregados inteiros para a caverna. Nada de bichos um pouco maiores, como antas, e dos imensos mamíferos representantes da megafauna, que se acreditava associada aos humanos de Lagoa Santa desde que Peter Lund encontrou essa associação em outra caverna da região, entre 1835 e 1844. Nem sempre, pelo jeito.
“Eles comiam até mocó”, exclama Neves, referindo-se ao roedor pouco maior do que um porquinho-da-índia. Para ele, não há nada mais precário do que incluir esses animais na dieta, indicação de que os grupos de Lagoa Santa não tinham melhores fontes de proteína à disposição e viviam numa situação limite para garantir a subsistência. É uma teoria apenas, mas a escassez de pertences nos sepultamentos pode ser sinal de que não havia espaço para desperdício, e as ferramentas – como anzóis, de que só foram encontrados sete na Lapa do Santo – eram necessárias aos vivos. “O tempo deles era dedicado a viabilizar a existência do grupo”, especula Neves. E eram grandes grupos, estima ele.
© ANDRÉ STRAUSS/UNIVERSIDADE DE TÜBINGEN
Rodrigo Elias de Oliveira trabalha na exumação do crânio decapitado
Rodrigo Elias de Oliveira trabalha na exumação de crânio decapitado…
O modo de vida pode estar agora mais definido, mas a conclusão também propõe um enigma: análises químicas que refletem a dieta por meio da quantificação de isótopos de carbono e nitrogênio, feitas pelo biólogo brasileiro Tiago Hermenegildo como parte do doutorado na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, mostraram que os habitantes da região comiam muitos vegetais e complementavam a dieta com caça. Esse alto grau de consumo de vegetais é inesperado para caçadores-coletores, sobretudo com a dieta rica em carboidratos indicada pelas frequentes cáries nos dentes encontrados.
O dentista Rodrigo Elias de Oliveira, pesquisador do grupo de Neves, é coautor de um artigo liderado por Pedro Tótora da Glória, também do LEEEH, sobre a saúde dental na Lapa do Santo, a ser publicado na revista Annals of the Brazilian Academy of Sciences. Parceiro de Strauss desde 2006 nas escavações da Lapa do Santo, Elias explica as discrepâncias entre a incidência de cáries que tem observado e a documentada para outras populações de caçadores-coletores por ser Lagoa Santa uma região de clima tropical, com vegetação de Cerrado. “Os outros exemplos que temos são de climas temperados”, compara. “Aqui os alimentos naturalmente disponíveis – muitas frutas e tubérculos – podem gerar mais cáries.” Ele aposta no pequi e no jatobá, muito usados até hoje na região, como uma fonte alimentar já naquele tempo. São frutos ricos em carboidratos e fragmentos carbonizados foram encontrados nos sítios de Lagoa Santa.
Elias, que fez doutorado com Walter Neves e agora realiza estágio de pós-doutorado em periodontia na Faculdade de Odontologia da USP, traz ao projeto um detalhamento no estudo dos dentes, cujo material mais resistente do que os ossos os torna abundantes em sítios arqueológicos. “O dente é como uma cápsula, acaba virando nosso cofrinho”, afirma. Ele explica que os ossos se renovam constantemente, a ponto de se dizer que a cada 10 anos uma pessoa substitui seu esqueleto por inteiro. Os dentes de um adulto, no entanto, são testemunho do período da vida em que se formam os dentes permanentes. Ele espera que estudos com isótopos, em andamento agora em colaboração com Hermenegildo, ajudem a aprofundar aspectos da dieta até o detalhe de que tipos de planta comiam, de migrações ao longo da vida, de quanto tempo as crianças eram alimentadas com leite materno. O dentista adianta que isótopos de estrôncio, assim como o formato do fêmur, que responde à ação da musculatura, indicam que as pessoas encontradas na Lapa do Santo eram nativas de Lagoa Santa. “Eles tinham mobilidade, mas não eram errantes.”
© MAURICIO DE PAIVA
... e analisa ossadas no LEEH
… e analisa ossadas no LEEEH
Chão de cinzas
A inferência de intensa ocupação humana vem da confirmação de que muitas fogueiras foram acesas na Lapa do Santo. “Eles usavam fogo o tempo todo, sabiam o que estavam fazendo”, afirma a arqueóloga Ximena Villagran, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP. Ela fez análises ao microscópio do sedimento da caverna e mostrou uma grande quantidade de cinzas até uma profundidade de 1 metro, conforme mostra em artigo publicado em julho no site da revista Journal of Archaeological Science. Mais do que controlar o fogo, os habitantes da região aparentemente planejavam seu uso, armazenando madeira em processo de decomposição. Esse nível de detalhe é possível graças a análises de petrologia orgânica, uma técnica que recentemente passou a ser usada em arqueologia, à qual Ximena teve acesso por meio da parceria com o geólogo francês Bertrand Ligouis durante estágio de pós-doutorado na Universidade de Tübingen, onde ele dirige o Laboratório de Petrologia Orgânica Aplicada.
Outra técnica de ponta usada por ela foi a Espectrometria de Infravermelho por Transformada de Fourier (FTIR), normalmente usada para analisar sedimento solto. Ximena dispôs suas amostras em lâminas de vidro, de maneira que conseguia investigar com precisão por que o sedimento é composto por agregados de vários tons de amarelo, laranja e vermelho. Ao caracterizar o sedimento dentro da caverna e em torno dela, ficou claro que a produção de cinzas acontecia dentro do abrigo. Ela também identificou fragmentos de cupinzeiros, indicando que por algum motivo o material era trazido para dentro da caverna. “Talvez eles os usassem como pedras quentes para cozinhar ou como forno do lado de fora, como os xavantes usam para fazer seu bolo de milho”, especula. Depois da revelação na escala microscópica, passou a dar-se conta de que os campos de Lagoa Santa são repletos de cupinzeiros.
Um enigma surgiu ao verificar que a coloração vermelho-escura que observava em certas partes do sedimento teria exigido altas temperaturas, mais de 600 graus Celsius (°C). Em experimentos nos quais acendia fogueiras e inseria nas chamas um termômetro de cabo bem longo, Ximena verificou que o solo embaixo do fogo não era sujeito a tão altas temperaturas. A explicação literalmente lhe caiu na cabeça na segunda vez em que visitou o sítio arqueológico. “Percebi que uma chuva de sedimento cai do paredão de rocha acima da entrada da caverna”, conta. Se caíssem diretamente sobre uma fogueira, essas partículas encontrariam temperaturas entre 800 °C e 1000 °C.
© ADRIANO GAMBARINI
André Strauss em sua mesa de trabalho na Lapa do Santo
André Strauss em sua mesa de trabalho na Lapa do Santo
Ao analisar a microestrutura do sedimento em torno dos sepultamentos, Ximena percebeu uma continuidade perturbada em certos pontos, como se alguém tivesse cavado para fazer uma cova. Ela pretende continuar as análises para detalhar como os sepultamentos eram feitos. Strauss também quer saber se as práticas funerárias sofisticadas só existiam na Lapa do Santo: ele aposta que era uma cultura mais disseminada. “Fui olhar as publicações passadas e os sinais estão lá, faltou analisar dessa maneira”, afirma o arqueólogo, que quer ampliar os estudos para outras regiões do país.
Uma limitação é que o que já foi escavado não pode ser recuperado, a não ser que a documentação tenha sido extremamente meticulosa. E até recentemente os registros eram falhos, até por falta de recursos. “Fazer uma escavação é como ler um livro e queimar as páginas”, compara Strauss, que se especializou em documentação arqueológica. Ele conta que retirar um sepultamento leva de 20 a 25 dias, nos quais o sedimento é retirado aos poucos enquanto se gera um modelo tridimensional dos achados e registra-se tudo com fotos e vídeo. As cadernetas de campo dos arqueólogos, segundo ele, devem trazer as informações e observações detalhadamente e serem públicas: nada de diário pessoal. “Essa percepção ainda está crescendo na arqueologia brasileira.”
De 2011 para cá mais 11 sepultamentos foram exumados, corroborando os padrões descritos anteriormente, e estão em processo de estudo. As escavações continuam na Lapa do Santo e prometem revelar ainda outras camadas de tempo e costumes. De acordo com o arqueólogo norte-americano Kurt Rademaker, professor na Universidade do Norte de Illinois e especialista em caçadores-coletores, o trabalho em Lagoa Santa está se somando ao que é feito na região dos Andes em revelar uma grande diversidade cultural. “Strauss e sua equipe interdisciplinar estão fazendo ciência arqueológica de ponta e enriquecendo nosso conhecimento sobre a aparência física, a ancestralidade e os modos de vida dos sul-americanos antigos, em particular suas interessantíssimas práticas rituais”, afirma. É impossível saber o que se passava na cabeça desses antigos habitantes do que hoje é Minas Gerais, mas a equipe envolvida nos estudos está empenhada em construir um retrato aproximado.
Projeto
Origens e microevolução do homem na América: Uma abordagem paleoantropológica (III) (nº 2004/01321-6); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Temático; Pesquisador responsável Walter Alves Neves (IB-USP); Investimento R$ 2.032.930,19.
Artigos científicos

STRAUSS, A. et al. Early Holocene funerary complexity in South America: The archaeological record of Lapa do Santo (east-central Brazil). Antiquity. No prelo.

DA-GLORIA, P. J. T. et al. Dental caries at Lapa do Santo, central-eastern Brazil: An Early Holocene archaeological site. Annals of the Brazilian Academy of Sciences. No prelo.

STRAUSS, A. et al. Os padrões de sepultamento do sítio arqueológico Lapa do Santo (Holoceno Inicial, Brasil)Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas. v. 11, n. 1, p. 243-76. jan.-abr. 2016.

STRAUSS, A. et al. The cranial morphology of the Botocudo indians, BrazilAmerican Journal of Physical Anthropology. v. 157, n. 2, p. 202-16. jun. 2015.

VILLAGRAN, X. S. et al. Buried in ashes: Site formation processes at Lapa do Santo rockshelter, east-central BrazilJournal of Archaelogical Science. On-line. 26 jul. 2016.