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sexta-feira, 3 de maio de 2019

Estudo descarta chegada de humanos às Américas pelo Estreito de Bering

Pesquisa aponta que rota só seria 'biologicamente viável' mais de 400 anos após chegada dos primeiros povos; hipótese é de caminho pela orla do Pacífico

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo
10 de agosto de 2016 | 19h55

A principal teoria para explicar como os humanos chegaram às Américas é inviável do ponto de vista biológico, de acordo com um novo estudo realizado por um grupo internacional de cientistas e publicado nesta quarta-feira, 10, na revista Nature.

Por muito tempo, a ciência considerou que a rota mais provável das populações que saíram da Sibéria e chegaram ao atual Alasca para se espalharem pelo continente americano, há pelo menos 13 mil anos, teria sido uma ponte terrestre que ligava a Ásia à América do Norte, onde hoje fica o Estreito de Bering. 
Migração
Com o baixo nível do mar na Era do Gelo, a Ásia e a América do Norte (áreas em cinza) eram ligadas por uma ponte terrestre. O estudo mostra que a travessia pelo corredor (seta vermelha) existente entre dois mantos de gelo intransponíveis (em branco) só se tornou viável há 12,6 mil anos. Mas a migração pode ter sido feita pelo litoral há mais de 14,7 mil anos (seta amarela). Foto: Mikkel Winther Pedersen
Com a última glaciação chegando ao fim, a retração de duas enormes geleiras que cobriam essa área teria formado um corredor - na região oeste do atual Canadá -, que teria permitido a passagem dos povos asiáticos, antes que a elevação do nível do mar deixasse o caminho submerso, formando o Mar de Bering.

O novo estudo, no entanto, aponta que o corredor entre as geleiras, formado há 15 mil anos, não poderia ter sido atravessado antes de 12,6 mil anos atrás, já que não era colonizado por plantas e animais, impossibilitando a longa viagem migratória. A conclusão da pesquisa é que esse não foi o caminho dos primeiros povos que chegaram à América, já que existem vestígios que confirmam a presença humana no continente há pelo menos 13 mil anos.

De acordo com os autores do estudo, coordenado por Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague (Dinamarca), a hipótese mais plausível agora é que os povos da Ásia tenham migrado para a América viajando ao longo da costa do Oceano Pacífico - pela orla, ou por mar. Além dos pesquisadores dinamarqueses, o grupo inclui cientistas do Canadá, Reino Unido e Estados Unidos. 
"Embora o corredor físico já estivesse aberto há 13 mil anos, apenas vários séculos depois tornou-se possível usá-lo como passagem. Isso significa que os primeiros povos a entrar nas Américas devem ter tomado uma rota diferente. Eles simplesmente não poderiam passar pelo corredor, como foi alegado por muito tempo", declarou Willerslev.
Migração
Cientistas preparam a coleta dos testemunhos de gelo nos sedimentos sob um lago no Canadá, na região onde existiu o corredor por onde teriam passado os primeiros habitantes das Américas. Analisando o DNA encontrado, eles descobriram que só apareceram plantas e animais na região há 12,6 mil anos. Foto: Mikkel Winther Pedersen
"O que ninguém havia estudado até agora é quando o corredor se tornou biologicamente viável. Sem plantas e animais disponíveis, como eles poderiam ter sobrevivido à longa e difícil viagem por aquele caminho?", disse Willerslev. O cientista afirmou, no entanto, que a passagem pode ter sido usada mais tarde, em migrações mais recentes. 

Análise genética. Para descobrir que não existiam plantas ou animais no corredor por onde teria passado a onda migratória, os cientistas analisaram os sedimentos no fundo dos lagos Charlie e Spring, nas províncias de British Columbia e Alberta, no Canadá. As duas regiões são as últimas áreas do corredor a terem ficado livres do gelo que o bloqueava.

A partir dos sedimentos locais, os cientistas conseguiram reconstruir a história do ambiente local, analisando o DNA de animais e plantas que viveram ali no passado. A análise demonstrou que a paisagem só começou a ser colonizada por vegetação há 12,6 mil anos. Só a partir de então começaram a aparecer animais, incluindo bisões e mamutes, que foram essenciais na dieta dos caçadores que migraram para as Américas.
 
Com a hipótese da migração pelo corredor descartada, os cientistas acreditam que o caminho mais provável para os primeiros colonizadores das Américas tenha sido uma travessia ao longo da orla do Oceano Pacífico, caminhando pelas margens livres de gelo e expostas pelos baixos níveis do mar naquela época, ou por navegação costeira. 

A hipótese, no entanto, será de difícil confirmação, porque as linhas costeiras da América do Norte naquela época foram inundadas com a elevação do nível do mar, após o fim da última glaciação, deixando as evidências arqueológicas submersas.

https://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,estudo-descarta-chegada-de-humanos-as-americas-pelo-estreito-de-bering,10000068506

domingo, 21 de abril de 2019

Geneticista afirma: Povo de Luzia veio da América do Norte

O geneticista Nathan Nakatsuka conta como suas descobertas mudam o que sabemos sobre o povoamento da América do Sul e os ancestrais dos índios

Alana Sousa Publicado em 07/02/2019, às 17h00 - Atualizado às 17h13
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A descoberta utilizou também de análise de DNA para sua conclusão
Getty Images
A questão de como os seres humanos colonizaram a América gera controvérsias há décadas. Enquanto a teoria mais aceita é de que vieram há 14 mil anos pelo estreito de Bering, uma outra hipótese, defendida principalmente no Brasil, defende que os humanos já habitavam estas terras há 36 mil anos e a migração asiática, da qual descendem os índios atuais, veio depois.

Parte dessa hipótese é de que Luzia, fóssil humano mais antigo encontrado na América do Sul, com cerca 13 mil anos, é originada de migrações vindas da Austrália ou da África . Agora, um estudo que reuniu importantes estudiosos pretende mostrar que, na verdade, a origem dos povos da América Central e do Sul vem da “Civilização de Clóvis”, uma cultura que originou os índios nativos da América do Norte e que serve como principal prova da hipótese asiática.
Lapa do Santo Reprodução

Cultura Clóvis

A civilização de Clóvis foi chamada assim por causa de “pontas de lança” encontradas perto da cidade de Clóvis (Novo México). Esses artefatos eram usados para caçar mamutes. A tese tradicional é que o povo de Clóvis consistiu nos primeiros habitantes do Novo Mundo.

Um dos principais autores do estudo, Nathan Nakatsuka, aluno de doutorado no David Reich - Laboratório da Escola Médica de Harvard, conversou com a AH sobre as recentes descobertas. “Acreditava-se que a cultura de Clóvis fosse restrita apenas à América do Norte. Nosso estudo mostrou que a ancestralidade genética do povo chegou até a América do Sul”, conta o autor.

O estudo

O estudo usou de amostras do sítio da Lapa do Santo, um dos maiores do Brasil, para provar que os indivíduos vindos de lá não são geneticamente relacionados a qualquer grupo de fora da América. Sobre a possibilidade do sítio de Lagoa Santa, local onde o fóssil de Luzia foi encontrado, ter uma semelhança genética com a Lapa do Santo, Nakatsuka diz: “Os indivíduos da Lapa do Santo e, provavelmente, também os indivíduos de Lagoa Santa tinham afinidade genética com o indivíduo associado à cultura Clovis. Ainda não podemos ter certeza, pois não temos o DNA de Luzia. Se ela está relacionada com os indivíduos da Lapa do Santo, então seria verdade que ela tem uma relação genética mais próxima com o indivíduo Anzick-1 associado à cultura Clovis”.

Seria então Luzia uma descendente da cultura Clovis? Essa hipótese foi levantada e descartada por arqueólogos algumas vezes, há ainda muitas lacunas a serem preenchidas, para afirmar que Luzia está ligada ao grupo da Lapa do Santo, os arqueólogos precisariam saber a rota exata da chegada das primeiras pessoas ao Brasil.
Lagoa SantaReprodução
A pesquisa de Nathan Nakatsuka tem uma grande importância para o mundo arqueológico, como o autor nos conta, foi primeira vez que algumas das pessoas iniciais na América Central e na América do Sul tinham uma afinidade distinta com o indivíduo Anzick-1, da cultura Clóvis: “Fornecemos mais evidências de que as pessoas iniciais que entravam na América do Sul irradiavam rapidamente, elas eram caçadores-coletores, provavelmente se separando rapidamente em busca de novas fontes de alimento”. E complementa que foi possível observar que o povoamento da América do Sul foi muito complexo: “As pessoas provavelmente eram muito inovadoras, adaptando-se rapidamente a novos ambientes para conseguir comida e sobreviver em condições muito diferentes”.

Um grande aliado dos estudiosos nessa descoberta foi o avanço tecnológico, que em ambientes difíceis se torna essencial, permitindo analisar dados para determinar as mudanças biológicas que aconteceram ao longo do tempo e começar a colher melhores amostras de regiões com condições ambientais extremas.

“Estamos procurando amostras de novos lugares e diferentes períodos de tempo na América do Sul, como Caribe, Colômbia, outras partes e períodos de tempo do Brasil, Argentina, Equador, os maiores impérios no Peru e na Bolívia, Chile e muitas outras regiões”, finaliza em tom otimista o autor.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Two ancient human genomes reveal Polynesian ancestry among the indigenous Botocudos of Brazil

Summary

Understanding the peopling of the Americas remains an important and challenging question. Here, we present 14C dates, and morphological, isotopic and genomic sequence data from two human skulls from the state of Minas Gerais, Brazil, part of one of the indigenous groups known as ‘Botocudos’. We find that their genomic ancestry is Polynesian, with no detectable Native American component. Radiocarbon analysis of the skulls shows that the individuals had died prior to the beginning of the 19th century. Our findings could either represent genomic evidence of Polynesians reaching South America during their Pacific expansion, or European-mediated transport.

Main Text

A recent study of skeletal remains from Brazil belonging to the indigenous Botocudo peoples found that two male individuals presented a combination of mitochondrial DNA (mtDNA) variants common in present day Oceanian populations [
]. Although it was argued that these genetic traits were likely to be derived from runaway slaves brought to Brazil by Europeans, no direct-dating or genomic analyses were used to support this conclusion. The Botocudos, named after the wooden disks (‘botoques’) in their lower lips and ear lobes, were an indigenous group with presumably Native American origins occupying the coast and the interior of Eastern-Central Brazil until the late 18th century, when most were exterminated by European colonists after decades of violence. The population size and origin of the Botocudos remain unclear, but they are likely to have comprised several tribes who spoke a common Macro-Jê language at the time of European contact [
]. We conducted a variety of genomic, morphological and isotopic analyses of skeletal remains attributed to the Botocudos of Brazil.
We confined our analyses to four Botocudo individuals (Bot13, Bot15, Bot17 and Bot65; Supplemental information) after careful review of all available records at the Museu Nacional in Rio de Janeiro, Brazil, including an extensive archival study that pointed to the four crania being bona fide Botocudo, a designation which is also corroborated by the labels on the skulls (Figure 1A).
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Figure 1Radiocarbon and genetic evidence for Polynesian ancestry among Botocudos.
We performed an initial DNA screening by shotgun sequencing the four individuals, finding that only Bot15 and Bot17 yielded a endogenous human DNA content higher than 1% (5.6% and 12.5%, respectively), thus allowing for whole genome sequencing (Supplemental information). In total, we obtained genetic data from the following experiments: mtDNA capture for Bot15; single nucleotide polymorphism (SNP) capture for 6,000 ancestry informative markers (AIMs) for Bot15; and whole genome shotgun sequencing for Bot15 and Bot17 (to an average genomic depth of 1.2X and 1.5X, respectively). We found features in the data characteristic of ancient DNA (Supplemental information). All the genetic data point towards two individuals with Polynesian ancestry and no detectable Native American ancestry. For example, when conducting a classical multidimensional scaling (MDS) analysis on identity-by-state (IBS) distance-of-genotype data of worldwide populations, including the Botocudo whole genome data, we found that the ancient genomes fall within the Polynesian populations (Figure 1C). Moreover, clustering analyses suggest that Bot15 and Bot17 have no detectable Native American ancestry and share the same components as the Polynesian population. When assuming seven ancestral populations (K = 7), the Polynesians form their own cluster and more than 99.9% of the genomes of Bot15 and Bot17 were assigned to this Polynesian cluster (Figure 1D).
Accelerator mass spectrometry (AMS) radiocarbon dating of five teeth from the four Botocudo individuals was carried out in two independent laboratories. When calibrating the 14C dates with the Southern Hemisphere curve [
], the 95% highest posterior density regions (HPD) were 1452–1510 AD and 1579–1620 AD for Bot15 (bimodal distribution), and 1419–1477AD for Bot17. While there is a general lack of baseline isotope data for the relevant areas and from archaeological remains, the combined evidence from the δ13C, δ15N and δ34S values when compared to Brazilian fauna and flora, as well as archaeological and modern human bone samples, suggests that a marine reservoir effect cannot be fully excluded (Supplemental information). The 95% HPDs of the marine corrected dates are 1479–1708 AD and 1730–1804 AD for Bot15, and 1496–1842 AD for Bot17 (Figure 1B). More work on foodwebs and carbon cycling in the Minas Gerais area is needed to determine if a marine reservoir correction for the 14C dates is indeed required; hence, the marine-corrected age estimates presented must be considered highly conservative. Strontium analysis and craniometry results are detailed in the Supplemental information.
Several scenarios have been previously proposed that are of potential relevance for explaining our result that two Botocudo individuals have Polynesian ancestry for both the mitochondrial and nuclear genomes [
]: the Polynesia–Peru slave trade [
], the Madagascar–Brazil slave trade, voyaging on European ships either as crew, passengers, or stowaways, and Polynesian voyaging. Regardless, the scenario must necessarily invoke a certain number of Polynesian migrants — presumably more than two, as we detected Polynesian ancestry in two out of 35 Botocudo individuals in the Museu Nacional collection. A detailed investigation of these possibilities can be found in the Supplemental information. The 1862–1864 AD Peru–Polynesia slave trade can be excluded, given that the 14C calibrated dates for the skulls predate the beginning of this trade. The Madagascar–Brazil slave trade is of relevance, as Madagascar is known to have been peopled by Southeast Asians [
]. However, we can further exclude this hypothesis as recent genomic data have demonstrated that the Malagasy ancestors admixed with African populations prior to the slave trade [
], and no such ancestry is detected in our Botocudo sample (Supplemental information). Furthermore, Madagascar was peopled by Southeast Asian and not Polynesian populations.
While Fernão de Magalhães (Magellan) first spotted some seemingly uninhabited Polynesian islands in 1521 AD, the lack of precise navigational techniques [
], as well as war between European nations, meant that many of those islands were not visited by Europeans again for at least another 200 years. Therefore, trade involving Euroamerican ships in the Pacific only began after 1760 AD [
]. By 1760 AD, Bot15 and Bot17 were already deceased with a probability of 0.92 and 0.81, respectively (Supplemental information), making this scenario unlikely. Although improbable also because it would involve both individuals making it to the interior of Brazil, we cannot exclude this scenario.
Polynesian ancestors originated from East Asia and on their migration eastwards interacted with and admixed with local New Guineans before colonizing the Pacific. In recent years, evidence has continued to accumulate in favor of a Polynesian and South American contact [
], although the issue has remained mired in controversy (e.g., [
]). It has been established that the Polynesian Pacific expansion from Southeast Asia covered distances of thousands of kilometers, reaching New Zealand, Hawaii and Easter Island — an area approximately the size of North America — between ca. 1200 and 1300 AD [ ]. It is hard to explain how the first possible genomic evidence of such Polynesian contact with South America would be found in Brazil rather than on the west coast of South America, yet we cannot exclude this scenario either.
Whether brought by Europeans or the result of the Polynesian expansion, the fact remains that some Brazilian Botocudos carried distinctive Polynesian genetic signatures. We hope that further sampling will provide a more definitive answer to this intriguing finding.

Acknowledgments

We would like to thank the laboratory technicians at the Danish National High-throughput DNA Sequencing Centre for technical assistance; Martin Kircher, Thorfinn Sand Korneliussen, Johannes Krause, David Reich, Erik Thorsby for helpful discussion; Toomas Kivisild, Jinchuan Xing, Andreas Wollstein, David Reich for early access and/or assistance with their data. GeoGenetics members were supported by the Lundbeck Foundation, the Danish National Research Foundation (DNRF94) and the European Union (FP7/2007-2013/317184 and 319209). A.S.M. was supported by a fellowship from the Swiss National Science Foundation (PBSKP3_143529); M.D. by the US National Science Foundation (grant DBI-1103639); P.L.J. by the National Institutes of Health (grant K99 GM104158); V.F.G. by a Strategic Training for Advanced Genetic Epidemiology (STAGE) fellowship, University of Toronto.

Supplemental Information

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Figures

  • Figure thumbnail gr1
    Figure 1Radiocarbon and genetic evidence for Polynesian ancestry among Botocudos.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

'Estou em luto profundo', diz o 'pai' de Luzia após perda de fóssil em museu

Crânio mais antigo do Brasil estava no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, durante o incêndio




Karina Gomes - Paris 
 
Há 20 anos, o antropólogo e arqueólogo Walter Alves Neves revelava Luzia ao mundo. Foi esse o apelido que o pesquisador deu ao esqueleto humano mais antigo do Brasil e que revolucionou as teorias científicas sobre a ocupação do continente a partir de 1998.

crânio de Luzia, ícone da pré-história brasileira, estava no Museu Nacional do Rio de Janeiro durante o incêndio no último domingo (2). O fóssil estaria sob uma área com escombros, e técnicos do museu não conseguiram acessar o local. 

​ “É uma perda irreparável”, diz Neves ao ressaltar o impacto devastador da destruição do acervo nas pesquisas sobre a evolução humana nas Américas e no Brasil.
O crânio do fóssil Luzia e a imagem de sua face reconstituída
O crânio do fóssil Luzia e a imagem de sua face reconstituída - Associated Press
O fóssil de mais de 11.000 anos encontrado entre 1974 e 1975 na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, garantiu reconhecimento internacional à teoria de Neves de que o continente americano foi ocupado por duas levas migratórias de homo sapiens vindos do nordeste da Ásia –a primeira dos antepassados de Luzia, que tinham traços africanos e australianos, e a segunda, de ameríndios com morfologia mongoloide, semelhante a dos indígenas atuais.

Com o chamado ‘modelo dos dois componentes biológicos’, Neves desafiou o modelo hegemônico de ocupação única do continente pelo povo de Clóvis, a partir do Novo México, nos Estados Unidos. “A popularidade que a Luzia ganhou na mídia fez com que a comunidade científica levasse a sério a minha teoria sobre os primeiros americanos”, diz o professor aposentado do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

O nome dado à jovem paleoamericana, que morreu com cerca de 20 anos de idade, seria uma versão abrasileirada de Lucy, o fóssil de hominídeo mais antigo do mundo, com 3,2 milhões de anos. O “pai de Luzia” diz estar em luto profundo pela “tragédia anunciada” no Museu Nacional, que descreve como um “crime contra o Brasil e a humanidade”. 

Folha - Qual é o impacto da perda do crânio de Luzia para a ciência? 

Walter Alves Neves - Esse incêndio representa um crime contra o Brasil e contra a própria humanidade. Além da Luzia, o museu tinha a maior coleção de esqueletos dos primeiros americanos oriundos da região de Lagoa Santa. O estudo sobre esses povos precisa passar necessariamente por esse material, e a maior parte dele estava no museu. Isso vai afetar negativamente o trabalho de gerações de cientistas que queiram entender a evolução humana no continente.

Como a análise do fóssil de Luzia ajudou a confirmar a sua teoria sobre o povoamento das Américas, que já vinha sendo formulada desde a década de 1980? 

A Luzia deu visibilidade para as nossas pesquisas no Brasil e no exterior. Antes, acreditava-se que a América tinha sido povoada por apenas um tipo de população, sob o modelo da migração única. A partir dos meus estudos com os esqueletos de Lagoa Santa e também outros na América do Sul e Mesoamérica, ficou claro que a América foi ocupada por duas populações com morfologias completamente distintas e em momentos diferentes. Os antepassados de Luzia –com formato craniano semelhante ao de africanos e australianos– chegaram às Américas há 14.000 anos pelo nordeste da Ásia através do Estreito de Bering, que liga os oceanos Pacífico e Ártico, mas não deixaram descendentes. Dois milênios mais tarde, vieram os ameríndios com morfologia mongoloide, que é a da maior parte dos índios atuais.
O bioantropólogo Walter Neves
O bioantropólogo Walter Neves - Karime Xavier/Folhapress
O esqueleto de Luzia foi encontrado na gruta Lapa Vermelha 4, no município de Pedro Leopoldo (MG) a 12 metros de profundidade. Por que ele é tão singular? 

O esqueleto de Luzia não foi encontrado por mim, mas pela missão franco-brasileira liderada pela arqueológoga francesa Annette Laming-Emperaire, que morreu de forma repentina poucos anos depois da descoberta. O esqueleto de Luzia ficou guardado por duas décadas no acervo do Museu Nacional sem que houvesse estudos ou publicações relevantes. Em 1995, eu comecei a analisar a morfologia craniana de Luzia. Em Lagoa Santa, encontramos mais de 40 esqueletos datados entre 8.000 e 10.000 anos, que são raríssimos. O da Luzia, com mais de 11.000 anos, era singular. É uma perda irreparável.

outras pesquisas recentes com os fósseis de Lagoa Santa? 

Sim. Um ex-estudante do instituto está tentando extrair o DNA de fósseis encontrados no local. Se ele conseguir extrair bem esse material de DNA, poderá ou não –mas estou otimista– confirmar o meu modelo de ocupação das Américas. A Luzia e outros crânios que foram encontrados nas Américas confirmaram a minha hipótese. O sucesso midiático de Luzia permitiu que a minha teoria chegasse à comunidade científica internacional, que passou a levar a sério o que vinha sendo dito por mim desde a década de 1980.

Restou algum material relacionado ao crânio de Luzia? 

Tenho uma cópia da reconstituição facial e que está comigo na USP. A reconstituição feita pelo antropólogo britânico Richard Neave confirmou a minha análise de que Luzia tinha traços africanos e australianos com uma morfologia craniana muito diferente da dos indígenas atuais. Há três meses, o Museu Nacional doou uma réplica do crânio de Luzia feita com impressoras 3D à Prefeitura de Pedro Leopoldo. Houve uma solenidade para marcar o ‘Dia de Luzia’ [a homenagem instituída em 2016 é feita todos os anos no dia 14 de junho]. Mas é só uma réplica. Não dá para extrair DNA, por exemplo. Diante dessa catástrofe, o crânio de Luzia é só um pequeno exemplo do que perdemos.

 O incêndio no Museu Nacional era uma tragédia anunciada?

Foi uma negligência de décadas de ausência do poder público e, portanto, uma tragédia anunciada. Todos os que conheciam o museu por dentro sabiam que essa não era uma questão de se aconteceria, mas de quando iria ocorrer. O museu foi relegado às traças pelo poder público. Estou em luto profundo. Todos os que fizeram pesquisas no acervo sabiam que o museu não tinha condições de funcionar em termos de infraestrutura. O incêndio é resultado do acúmulo do descaso do poder público.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Estudos genéticos dão nova cara ao Povo de Luzia

Representação do fóssil humano mais famoso do Brasil estava equivocada, segundo um novo estudo que sequenciou o DNA de vários esqueletos pré-históricos de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Segundo os pesquisadores, Luzia e seus conterrâneos não tinha feições africanas; eram tão ameríndios quanto qualquer outra população primitiva das Américas

Herton Escobar
08 Novembro 2018 | 15h45
Comparação entre a reconstrução facial de Luzia feita por Richard Neave em 1999, e de um outro crânio de Lagoa Santa, feita agora por Caroline Wilkinson, com base em novas evidências genéticas de ancestralidade do povo de Lagoa Santa. Modelagem 3D feita por André Strauss/MAE-USP

Dados genéticos extraídos do DNA de esqueletos enterrados numa caverna de Minas Gerais estão dando uma nova cara à pré-história brasileira e, de quebra, ajudando a reescrever 20 mil anos de história do povoamento das Américas.

O resultado mais surpreendente diz respeito ao chamado Povo de Luzia, que habitou a região de Lagoa Santa, próximo a Belo Horizonte, entre 12 mil e 9 mil anos atrás, e cujo nome do grupo faz referência à sua personagem mais ilustre, Luzia, uma mulher de 20 e poucos anos, cujo crânio foi encontrado por arqueólogos na década de 1970 — e quase destruído no incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, dois meses atrás.

Contrariando algo que vinha sendo proposto há mais de duas décadas, com base principalmente em análises morfológicas do crânio de Luzia, as novas evidências genéticas sugerem “de forma categórica”,  segundo os pesquisadores, que não há qualquer relação de parentesco entre o Povo de Luzia e populações antigas da África ou da Austrália.

“Portanto, a hipótese de que o Povo de Luzia representaria uma leva migratória anterior aos ancestrais dos indígenas atuais não se confirma”, afirmam os autores brasileiros do estudo, publicado hoje na revista Cell. “Pelo contrário, o DNA mostra que o Povo de Luzia tem genética totalmente ameríndia”

Aquela famosa reconstrução facial do crânio de Luzia, concebida na década de 1990, com características notadamente negroides, portanto, está equivocada, diz o pesquisador André Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, que há anos realiza escavações arqueológicas em Lagoa Santa e é um dos coordenadores do estudo.

Para substituí-la, os pesquisadores encomendaram uma nova reconstrução, baseada num outro crânio de Lagoa Santa (registrado como Sepultamento 26) e levando em conta as novas evidências genéticas. O resultado foi um rosto com uma uma morfologia muito mais “genérica”, da qual teriam se originado “inúmeras variantes intra-continentais”. “É uma espécie da tábula rasa, ou tela branca, que com o passar dos milênios foi sendo moldada de diversas formas em diferentes populações”, afirma Strauss.

As reconstruções faciais arqueológicas são baseadas em características morfológicas do crânio e da mandíbula, mas também levam em conta as hipóteses de ancestralidade do indivíduo — que vão influenciar, por exemplo, características como a grossura dos lábios e o formato do nariz. Assim, um mesmo crânio pode dar origem a rostos completamente diferentes.
Reconstrução facial do Povo de Luzia feita por Caroline Wilkinson, da Liverpool John Moores University, na Inglaterra, com base em um modelo digital retrodeformado de um crânio do sítio arqueológico da Lapa do Santo. O crânio utilizado como referência é de um homem jovem, catalogado como Sepultamento 26.

A dúvida sobre a origem do Povo de Luzia surgiu na década de 1990, quando o antropólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo, descreveu o crânio de Luzia (até então esquecido nos arquivos do Museu Nacional) como dotado de uma morfologia predominantemente negroide e com 11,5 mil anos de idade — mais antigo do que qualquer outro encontrado nas Américas até então. Para explicar isso, Neves postulou que Luzia e seu povo eram representantes de uma onda migratória anterior à que deu origem ao ameríndios modernos. Essa primeira migração, segundo ele, teria chegado pela mesma rota do Estreito de Bering — ou seja, também da Ásia —, mas seria composta de indivíduos que ainda preservavam uma morfologia negroide, em vez das feições mongoloides que predominam nos povos indígenas atuais. Foi essa hipótese que norteou a reconstrução facial de Luzia feita pelo britânico Richard Neave, em 1999, conferindo a ela uma aparência mais africana do que asiática.
Naquela época, ainda não havia a possibilidade de se analisar o DNA de fósseis humanos, como se faz agora com a chamada “arqueogenética”. As análises, portanto, eram baseadas apenas na morfologia dos ossos e nas informações arqueológicas associadas a eles. Neves foi procurado pela reportagem, mas preferiu não se pronunciar.

Segundo Strauss, Neves (que foi seu orientador de mestrado no Instituto de Biociências da USP) estava certo ao propor que o Povo de Luzia representava uma população diferenciada e que eventualmente desapareceu, substituída pelos ancestrais dos ameríndios modernos. A genética associada ao Povo de Luzia, de fato, desaparece do continente 9 mil anos atrás. A diferença, segundo Strauss, é que a origem dela não estava na África, mas na América do Norte.

Outra descoberta surpreendente do trabalho diz respeito ao povo da cultura Clóvis, que floresceu na região dos Estados Unidos cerca de 13 mil anos atrás e ficou famosa pela confecção de pontas de lança de pedra lascada. Acreditava-se que essa população tinha ficado restrita à América do Norte, mas os dados genéticos de Lagoa Santa e outros dois sítios arqueológicos (Los Rieles, no Chile; e Mayahak Cab Pek, em Belize) revelam que o povo de Clóvis migrou também para as Américas Central e do Sul, a partir de 12 mil anos atrás, dando origem a novas populações — entre elas, o Povo de Luzia.

As pontas de pedra lascada aparentemente ficaram para trás, já que nenhuma até hoje foi encontrada mais ao sul do que o México, mas a genética Clóvis seguiu em frente. Essa é a grande vantagem da arqueogenética, segundo Strauss: “Ela nos permite enxergar coisas que não são invisíveis para a arqueologia clássica”, diz o pesquisador. “Evidências que só são visíveis nos genes.”
Lapa do Santo, sítio arqueológico onde foram encontrados os esqueletos usados na pesquisa, na região de Lagoa Santa (MG). Foto: Mauricio de Paiva

O trabalho na Cell tem mais de 70 autores, de diversos países, dos quais 17 são brasileiros. 
Um outro trabalho publicado hoje, na revista Science, também com autores brasileiros, também analisou o DNA de esqueletos de Lagoa Santa e outros sítios arqueológicos das Américas. Os resultados, em sua maior parte, concordam com os resultados apresentados na Cell, mostrando que o continente foi povoado por uma única onda migratória, e que a dispersão e diversificação dessa população pelo continente ocorreu de forma bastante rápida. Em menos de 2 mil anos, já havia gente vivendo desde o norte do Canadá até o sul do Chile.

Uma diferença é que, neste caso, os pesquisadores encontraram um “sinal genético” de origem australiana (negroide) na população de Lagoa Santa, porém extremamente sutil e em apenas um dos cinco esqueletos analisados. Algo que, segundo eles, não tem relação com a morfologia do Povo de Luzia.
Escavação arqueológica na Lapa do Santo. Foto: André Strauss

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Dispersões humanas precoces nas Américas

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Science  08 Nov 2018:
eaav2621
DOI: 10.1126/science.aav2621


Estudos sobre o povoamento das Américas se concentraram no momento e no número de migrações iniciais. Menos atenção foi dada à subsequente disseminação de pessoas nas Américas. Sequenciamos 15 genomas humanos antigos, abrangendo o Alasca até a Patagônia; seis são ≥10.000 anos (até ~ 18 × cobertura). 

Todos estão mais intimamente relacionados aos nativos americanos, incluindo um indivíduo da antiga Beringeia, e dois "paleoamericanos" morfologicamente distintos. Encontramos evidências de rápida dispersão e diversificação precoce, incluindo grupos previamente desconhecidos, à medida que as pessoas se mudavam para o sul. Isso resultou em múltiplas migrações independentes, geograficamente desiguais, incluindo uma que fornece pistas de um sinal genético australasiano do Pleistoceno Superior e uma posterior expansão relacionada à Mesoamérica. Estes levaram a histórias populacionais complexas e dinâmicas do Norte para a América do Sul.