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quarta-feira, 10 de agosto de 2022

 

Datação indica que esqueleto encontrado no Piauí tem 9,6 mil anos

Apelidado de Zuzu, indivíduo foi contemporâneo dos grupos humanos mais antigos da América do Sul

Crânio reconstituído de Zuzu, exposto no Museu do Homem Americano, em São Raimundo Nonato, no Piauí

Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

Zuzu, um esqueleto humano bastante antigo encontrado no interior do Piauí, já esteve envolvido em algumas polêmicas arqueológicas. Uma, aparentemente resolvida agora, é sobre quando esse indivíduo teria vivido. Zuzu habitou a região onde hoje é o sudeste do Piauí há cerca de 9,6 mil anos, aproximadamente 1.400 anos depois do que o estimado anteriormente. Mesmo assim, está entre os exemplares humanos mais antigos achados até o momento na América do Sul. A outra, ainda em aberto, é sobre seu sexo: o esqueleto já foi indicado por alguns estudos como sendo de uma mulher, enquanto outros sugerem que seria de um homem, opção favorecida pelas análises mais recentes, mas com constituição corpórea que sugere um esqueleto feminino.


“O valor obtido na nova datação de Zuzu está dentro do esperado”, afirma a arqueóloga argentina Lumila Menéndez, pesquisadora das universidades de Bonn, na Alemanha, e de Viena, na Áustria, e primeira autora do artigo publicado em 12 de maio na Scientific Reports apresentando os resultados. “Esse valor é semelhante ao obtido por meio de datação direta para outros esqueletos antigos da América do Sul. Nenhum deles tem muito mais do que isso.” Baseando-se na análise de fogueiras e material lítico supostamente produzidos por seres humanos, a arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon, coautora do trabalho atual e líder por quase cinco décadas das pesquisas no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, onde foi achado o esqueleto de Zuzu, defende desde os anos 1980 que o Homo sapiens se instalou na região dezenas de milhares de anos atrás. No entanto, o valor obtido na nova datação de Zuzu é o mais antigo para um esqueleto humano da região.

Determinar quando viveram os exemplares humanos mais antigos do continente é fundamental para compreender como se deu a ocupação das Américas. A datação de materiais biológicos com milhares de anos, no entanto, é desafiadora no Brasil. O clima tropical, com alta umidade, e os solos muitas vezes ácidos dificultam a preservação adequada de ossos e outros tecidos que contêm material genético e elementos úteis para determinar a idade dos corpos. Como alternativa, os arqueólogos tentam obtê-la de forma indireta, por meio da datação de materiais associados ao esqueleto, como a camada de sedimento da qual foi retirado ou fragmentos de carvão associados a ele.

Foi possível agora estabelecer em que período Zuzu viveu a partir da datação direta de íons de carbonato (CO3) do esmalte do dente. Isótopos radioativos de carbono encontrados em dois molares permitiram afirmar que o esqueleto tem entre 9.526 e 9.681 anos. Essa, no entanto, seria uma idade mínima, afirmam os pesquisadores. É possível que Zuzu tenha algumas centenas de anos a mais, uma vez que carbonato de materiais do ambiente, mais jovem do que o do esqueleto, pode ter se integrado aos dentes após a morte.


“A ausência de datações diretas de esqueletos encontrados no Parque Nacional Serra da Capivara levava os pesquisadores estrangeiros que trabalham com o povoamento das Américas a desconsiderar os dados da região”, relata a antropóloga física argentina Ana Solari, pesquisadora da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), entidade responsável pela preservação do patrimônio cultural e natural do parque, e coautora do trabalho publicado na Scientific Reports.

Localizado no sudeste do Piauí, a cerca de 530 quilômetros da capital, Teresina, o Parque Nacional Serra da Capivara ocupa uma área de aproximadamente 130 mil hectares de Caatinga nos municípios de São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias. Ali está uma das maiores concentrações no país de sítios arqueológicos do Holoceno superior, época geológica que durou de 11,7 mil anos atrás a 8,2 mil anos. Vinte e sete deles abrigam esqueletos humanos, sepultados solitariamente, como Zuzu, ou em grupos de até 20 indivíduos. Idades obtidas por meio de datação indireta, feita a partir da análise de materiais encontrados junto aos esqueletos, indicam que alguns são contemporâneos de Zuzu e outros possivelmente até um pouco mais antigos.

A ossada de Zuzu foi encontrada em julho de 1997 em escavações realizadas em um pequeno abrigo rochoso conhecido como Toca dos Coqueiros, no município de Coronel José Dias, pela equipe de Guidon. O local é um paredão de rocha inclinado, coberto por pinturas rupestres, que oferecia proteção contra sol e chuva – o clima na região era mais úmido naquela época. Zuzu estava em posição fetal, deitado sobre seu lado esquerdo, com a mão esquerda sob a face e a direita à frente do rosto.

Depois de algumas tentativas de datação direta do esqueleto, frustradas pela ausência de colágeno nos ossos, Guidon e a bioarqueóloga Andrea Lessa conseguiram em 2002 estabelecer a idade de um carvão incrustado no calcanhar direito do esqueleto. O material tinha aproximadamente 11 mil anos, a primeira idade atribuída ao esqueleto. “Sempre que possível, tenta-se privilegiar a datação direta do esqueleto, capaz de definir em que período o indivíduo viveu”, explica a bioantropóloga Mercedes Okumura, da Universidade de São Paulo (USP), estudiosa do povoamento pré-histórico do Brasil, que não participou do trabalho atual.

Zuzu na posição em que foi originalmente encontrado na Toca dos Coqueiros em 1997FUMDHAM

A primeira datação, apresentada em um artigo publicado no American Journal of Physical Anthropology, era mais próxima à de outro esqueleto humano famoso, considerado até hoje o mais antigo da América do Sul: Luzia, uma mulher adulta que morreu entre 12,5 mil e 13 mil anos atrás nos arredores do atual município de Lagoa Santa, na região central de Minas Gerais. “Com exceção de Luzia e um ou outro caso, a quase totalidade do material humano encontrado em Lagoa Santa tem entre 9 mil e 10 mil anos, a mesma atribuída agora a Zuzu”, conta o bioantropólogo Walter Neves, criador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP, responsável nos anos 1990 pela análise detalhada do crânio de Luzia e de outros esqueletos de Lagoa Santa.

No trabalho de 2002, Lessa e Guidon propuseram que Zuzu teria tido entre 1,40 e 1,60 metro em vida e morrido entre 35 e 45 anos de idade. Características dos ossos da pélvis indicavam que o esqueleto era de uma mulher, assim como os resultados de uma análise de DNA extraído de dois ossos da mão direita e de uma vértebra da coluna.

Era o início de outra polêmica envolvendo o esqueleto da Toca dos Coqueiros, uma vez que o resultado da análise genética gerou ceticismo entre os arqueólogos por causa da dificuldade de preservação do colágeno nos esqueletos da serra da Capivara.

Anos mais tarde, o arqueólogo Albert Russell Nelson, então pesquisador das universidades de Michigan e Wyoming, nos Estados Unidos, reconstituiu o crânio de Zuzu, encontrado bastante fraturado, e reanalisou suas características. Comparou ainda estruturas de sua pélvis com as de dois esqueletos femininos – um quase contemporâneo a ele e outro bem mais recente – encontrados na serra da Capivara.

Nelson concluiu que Zuzu teria sido um homem, embora com feições mais delicadas. Outro achado arqueológico apoiava a ideia: a presença de duas pontas de lança de pedra lascada encontradas junto ao corpo – acredita-se que esse tipo de oferenda só fosse feito para homens. Em um comentário publicado em 2005 também no American Journal of Physical Anthropology, ele sugeriu ainda, com base na forma e em medições de estruturas do crânio, que Zuzu teria uma aparência próxima à de Luzia e dos outros indivíduos do povo que habitou a região de Lagoa Santa há cerca de 10 mil anos. A conclusão seria reforçada dois anos mais tarde por outra análise, publicada na mesma revista, feita por Neves e pelo bioantropólogo brasileiro Mark Hubbe, hoje professor na Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, em colaboração com Guidon. No trabalho, eles afirmaram: “Em relação ao sexo de Zuzu, nossas análises corroboram a ideia defendida por Nelson em 2005 de que esse esqueleto pertence a um homem grácil”.


Quando analisou os crânios do povo de Lagoa Santa no final dos anos 1980, Neves verificou que esses indivíduos, assim como os outros esqueletos do mesmo período encontrados nas Américas, apresentavam feições semelhantes às dos africanos e dos aborígenes da Austrália e da Melanésia – e distinta das de grupos indígenas atuais, com traços asiáticos. Chamados de paleoíndios, os indivíduos daquele grupo, ao qual pertenceriam Luzia e Zuzu, apresentam o crânio mais estreito e alongado no sentido ântero-posterior, com as órbitas mais baixas, do que o dos indígenas atuais. Eles seriam descendentes do primeiro grupo humano a entrar nas Américas, vindo a partir da Ásia e com traços australo-melanésios, de acordo com o modelo de ocupação do continente proposto em 1989 por Neves e pelo bioantropólogo argentino Héctor Pucciarelli. Essa morfologia teria existido até tempos históricos, em indivíduos de povos como os Botucudos. Os demais grupos indígenas, segundo o modelo, seriam descendentes de uma segunda leva migratória, composta por indivíduos com características asiáticas.

“O trabalho é muito elegante, mas já era esperado que Zuzu tivesse feições australo-melanésias, assim como os demais paleoíndios, como já havia sido indicado”, afirma Neves, que não participou do presente estudo. Ele atribui a presença disseminada dessa característica naquela época à história evolutiva dos seres humanos. Como o Homo sapiens surgiu na África e possivelmente passou por um processo relativamente recente de transformação morfológica do crânio, essas características mais antigas se tornaram disseminadas pelo planeta. “Até 10 mil anos atrás vários grupos em todo o mundo apresentavam essa morfologia que chamo de pan-africana”, afirma o bioantropólogo.

Além de estabelecer um valor obtido por datação direta para o esqueleto de Zuzu, no trabalho da Scientific Reports, Menéndez, Solari e colaboradores analisaram 10 medidas de seu crânio e compararam com as de outros 108 esqueletos – 39 de indivíduos que viveram no Holoceno superior e 69 no Holoceno inferior (últimos 4,2 mil anos) – encontrados em diferentes regiões do Brasil. Os resultados mostraram que Zuzu tem uma similaridade muito maior com os crânios do primeiro grupo, quase todos paleoíndios de Lagoa Santa, do que com os dos indivíduos de períodos mais recentes, mesmo os que vivem ou viveram em locais geograficamente mais próximos da serra da Capivara, como o povo Guajajara, do Maranhão.

Ao confrontar as formas do crânio de Zuzu com as de indivíduos dos dois períodos, os pesquisadores concluíram que o esqueleto provavelmente seria de uma mulher. Já na comparação com os crânios apenas do Holoceno superior, período ao qual pertence, Zuzu é homem com feições delicadas. “Possivelmente o dimorfismo sexual, ou seja, as diferenças na fisionomia externa entre homens e mulheres, mudou ao longo do tempo. Essas diferenças podem ter sido menos acentuadas ou, simplesmente, esses povos podem ter apresentado características morfológicas diferentes no passado”, supõe Menéndez. “Talvez seja por esse motivo que temos dificuldade em saber se era um esqueleto masculino ou feminino.” O dimorfismo sexual, no entanto, era bem marcado entre os habitantes antigos de Lagoa Santa, contemporâneos de Zuzu.

Artigos científicos
MENÉNDEZ, L. P. et alMorphometric affinities and direct radiocarbon dating of the Toca dos Coqueiros’ skull (Serra da Capivara, Brazil). Scientific Reports. v. 12, n. 7807. 12 mai. 2022.
LESSA, A. e GUIDON, N. Osteobiographic analysis of skeleton I, sítio Toca dos Coqueiros, Serra da Capivara National Park, Brazil, 11,060 bp: first results. American Journal of Physical Anthropology. v. 118, n. 8, p. 99-110. jun. 2002.
NELSON, A. R. “Osteobiographics” of dos Coqueiros paleoindian reconsidered: Comment on Lessa and Guidon (2002). American Journal of Physical Anthropology. v. 126, n. 4, p. 401-3. abr. 2005.
HUBBE, M. et al“Zuzu” strikes again – Morphological affinities of the early Holocene human skeleton from Toca dos Coqueiros, Piaui, BrazilAmerican Journal of Physical Anthropology. v. 134, n. 2, p. 285-91. out. 2007.



sexta-feira, 13 de agosto de 2021

 


A antropologia física dos “vis aimorés” Estudo que busca desvendar a origem dos índios botocudos coloca em dúvida a tese de que eles seriam descendentes diretos de uma primeira e hipotética migração para as Américas ( Foto: Índios botocudos, Santa Leopoldina (ES)/ Walter Garbe, 1909/Biblioteca Nacional Digital )

A antropologia física dos “vis aimorés”

Peter Moon | Agência FAPESP – Um dos principais mistérios da Antropologia Física brasileira – e que já dura 150 anos – está prestes a ser elucidado. 

Afinal, quem eram os índios botocudos? Seriam eles descendentes diretos de uma primeira onda migratória de paleoíndios com traços negroides que teria povoado a América do Sul há 13 mil anos, no final da Idade do Gelo? Ou seriam os botocudos uma etnia diferente de todas as demais etnias brasileiras, por possuírem DNA polinésio no seu caldo hereditário? Ou carregariam injustamente a pecha de “primitivos” desde os tempos do Brasil Colônia, já que seriam descendentes da mesma migração humana que derivou em todas as etnias indígenas do Novo Mundo?

Em um trabalho publicado em 2015 no American Journal of Physical Anthropology, os antropólogos físicos André Strauss, pesquisador associado do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos e do Laboratório de Antropologia Biológica do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, Alemanha; Danilo V. Bernardo, da Universidade Federal do Rio Grande; e Mark Hubbe, da Universidade Estadual de Ohio, em Columbus, Estados Unidos, entre outros, se propõem a eliminar uma daquelas possibilidades. No caso, a que prega que os botocudos seriam descendentes diretos de uma primeira e hipotética migração para as Américas. A pesquisa teve apoio da FAPESP nas modalidades bolsa de doutorado e mestrado.

A onda migratória da qual os botocudos seriam os seus herdeiros modernos é simbolizada pelo chamado “Povo de Lagoa Santa”, nome coletivo dado aos 30 esqueletos fossilizados de paleoíndios descobertos pelo naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund em uma gruta inundada de Lagoa Santa, Minas Gerais, em 1844.

A hipótese de que os crânios dos botocudos teriam uma morfologia distinta da dos tupis, e talvez parecida com a do homem de Lagoa Santa, foi levantada pela primeira vez por antropólogos do Museu Nacional do Rio de Janeiro ainda nos idos de 1870.

Desde então, a busca de uma resposta para a questão tem impulsionado as investigações arqueológicas em Lagoa Santa. Um dos pontos altos desta pesquisa foi a missão franco-brasileira que encontrou, nos anos 1970, um crânio com cerca de 12.500 anos, apelidado carinhosamente de Luzia, a “primeira brasileira”, por Walter Neves, do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP.

Outro ponto alto da pesquisa foram as escavações realizadas entre 2003 e 2009 em diversas grutas e abrigos da região de Lagoa Santa. O trabalho foi liderado pelo próprio Neves, com apoio da FAPESP, no âmbito do Projeto Temático “Origins and microevolution of man in the Americas: a paleoanthropological approach”. Durante o trabalho de campo, Neves, que foi orientador de Strauss e Hubbe, escavou 23 crânios de paleoíndios com idades de até 8 mil a 10 mil anos. Foram esses crânios que forneceram a base principal de comparação para o estudo agora publicado.

A análise multivariada consistiu na comparação dos 32 crânios de botocudos da coleção do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro com a morfologia craniana de 3 mil crânios humanos modernos e pré-históricos de todo o mundo (incluídos aí 19 crânios de paleoíndios de Lagoa Santa e 66 de paleoíndios da Colômbia).

O objetivo dos pesquisadores foi chegar a um veredicto sobre a pretensa ancestralidade dos botocudos. O resultado comprovou o que os estudiosos do século 19 suspeitavam. “Nosso artigo confirma que a morfologia craniana dos botocudos era mais parecida com a dos crânios de Lagoa Santa do que com a dos tupis,” afirma Strauss.

O estudo sugere que a morfologia dos antigos paleoíndios foi conservada por milhares de anos nos ancestrais dos botocudos e sobreviveu até o século 19, apesar da existência de grupos tupis-guaranis ocupando a mesma região.

Daí se infere que a baixa afinidade morfológica entre os tupis-guaranis e os botocudos é sinal de um fluxo genético muito limitado entre os dois grupos. Em outras palavras, apesar de ocuparem as mesmas regiões por milhares de anos, praticamente não houve cruzamento entre os ancestrais dos botocudos e os dos tupis-guaranis.

Indo além, o fato de haver dois componentes genéticos, os ancestrais dos botocudos e os dos tupis, indicaria a existência de duas ondas migratórias distintas que teriam povoado o nosso continente – hipótese defendida por Neves desde os anos 1980.

Polinésios nas Américas?

Em 2014, um estudo internacional realizado a partir de DNA extraído dos crânios de botocudos do Museu Nacional e publicado no Current Biology, chegou a conclusões surpreendentes. Entre os crânios estudados, dois deles (os de números 15 e 17) revelaram ser 100% polinésios, enquanto os demais crânios da coleção eram 100% ameríndios.

A hipótese mais aceita para o povoamento das Américas prega que os primeiros grupos humanos que adentraram o Novo Mundo o fizeram através de uma ponte terrestre, hoje submersa, que existia no estreito de Behring. Essa ponte ligou a Ásia ao Alasca durante a Idade do Gelo, quando o nível dos mares era 130 metros mais baixo do que o nível atual.

Desde os tempos da expedição Kon-Tiki, do norueguês Thor Heyerdahl, que saiu do Peru em 1947 numa jangada para, três meses depois, atingir a Polinésia francesa, especulava-se se o povoamento das Américas teria ocorrido no sentido contrário, da Polinésia para o Novo Mundo.

Os autores do estudo entendem a surpresa do achado e procuram explicá-la por meio das seguintes suposições: o DNA polinésio poderia ter se imiscuído nas tribos dos botocudos do tempo do Império pelo tráfico de escravos entre a Polinésia e o Peru, ou entre Madagascar e o Brasil. Outras possibilidades seriam a vinda de polinésios ao Brasil como tripulantes de navios europeus – ou via travessias oceânicas realizadas pelos próprios polinésios.

“Como explicar que, à exceção daqueles dois crânios com DNA francamente polinésio, todos os demais possuem DNA ameríndio?”, questiona Strauss. “Como explicar DNA polinésio na costa atlântica do Brasil se jamais se encontrou nenhuma evidência neste sentido em nenhum outro ponto da América do Sul?”, complementa Hubbe. Se houvesse de fato ocorrido uma antiga migração polinésia para as Américas, por menor que esta fosse, seria de esperar que todos, ou pelo menos uma parte considerável dos crânios pesquisados, tivessem traços genéticos polinésios, o que não acontece.

Para Strauss e Hubbe, uma vez eliminadas todas as possíveis explicações para a chegada do DNA polinésio no Brasil, a única probabilidade que resta, e que deve ser verdadeira, é o fato de aqueles dois crânios com DNA polinésio não serem de botocudos. Em outras palavras, em algum momento nos últimos 150 anos ocorreu um erro no registro daqueles crânios.

“Fui ao Museu Nacional, pesquisei o tombo da coleção. Pude verificar que mais ou menos na mesma época da aquisição dos crânios de botocudos, na década de 1870, também foram adquiridos crânios da Polinésia para a montagem de uma exposição antropológica”, afirma Strauss. “Como o tombo do museu como conhecemos hoje só foi feito 30 anos mais tarde, já no início do século 20, tudo leva a crer que possa ter ocorrido um equívoco no registro daqueles dois crânios polinésios, que inadvertidamente acabaram rotulados como botocudos.”

Pesquisador com múltipla formação, Strauss irá concluir na Alemanha em 2016 um duplo doutorado em evolução humana, em Leipzig, e arqueologia, na Universidade de Tübingen. “Em museus alemães já vi crânios de gorilas classificados como sendo de chimpanzés. Esse tipo de troca pode ter ocorrido no Museu Imperial de Dom Pedro II no século 19.”

Com a palavra o geneticista Sergio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, um dos líderes do trabalho com DNA polinésio. “No nosso artigo tínhamos como coautores excelentes antropólogos cranianos, como o próprio Walter Neves, e provavelmente o maior especialista mundial na origem dos polinésios, Mark Stoneking. Nenhuma pista deixou de ser investigada”, afirma Pena. “É lógico que a possibilidade de troca no Museu Nacional foi extensivamente investigada, mas nenhuma evidência a seu favor foi encontrada.”

A suspeita de erro no tombo dos crânios faz sentido, porém jamais poderá ser comprovada. Não há forma de saber com certeza a origem e a real identidade daqueles dois crânios polinésios. O que é possível, e que está de fato em vias de ser conhecida, é a real ancestralidade dos índios botocudos.

Desde 2011, Strauss dá continuidade aos trabalhos iniciados por Neves na Lapa do Santo, dirigindo as escavações arqueológicas naquele abrigo rochoso. Ele revela que foram achados mais cinco crânios antigos, dos quais se procura, neste exato momento, extrair material genético no Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva – a instituição responsável por inventar as técnicas que revolucionaram o estudo de DNA fóssil e onde foi sequenciado o genoma dos neandertais. De acordo com Strauss, os resultados parecem promissores.

Afinal, quem eram os botocudos?

Os índios botocudos, também conhecidos como aimorés ou aimberês, eram assim chamados pelos colonizadores portugueses por causa dos discos de madeira (os botoques) que costumavam usar no lábio inferior e nas orelhas. No início do século 19, as tribos de botocudos viviam no vale do rio Doce, entre o Espírito Santo e a Bahia. Não eram tupis, mas pertencentes ao grupo linguístico macro-jê. Guerreiros, eles evitavam o contato com o colonizador branco, daí terem recebido a alcunha de “índios ferozes” ou “de vis aimorés”, como declama o poema I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias.

Em 1808, Dom João VI transferiu a sua Corte de Lisboa para o Rio de Janeiro. No mesmo ano, além de fundar o Banco do Brasil, a Casa da Moeda e o Jardim Botânico, o monarca assinou duas cartas régias deflagrando uma guerra ofensiva contra os botocudos. A primeira carta permitia o cativeiro de indígenas por até dez anos, ou enquanto durasse a “fereza” e a “antropofagia” entre eles. A segunda afirmava a intenção de colonizar o vale do rio Doce graças à guerra, tornando os territórios conquistados terra devoluta, própria para distribuição aos novos colonos.

A campanha militar contra os botocudos se estendeu por todo o século 19. Os que conseguiram sobreviver ao massacre fugiram para os vales do Mucuri e do Jequitinhonha. Os pouquíssimos remanescentes só foram declarados oficialmente pacificados em 1912.

Ao longo de um século de perseguição, que resultou no extermínio dos botocudos, a alcunha conferida a eles como sendo índios “ferozes” foi aos poucos virando sinônimo de feiúra, de seres primitivos. A partir daí, foi natural os botocudos despertarem o interesse científico dos antropólogos do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

O artigo, assinado por André Strauss, Mark Hubbe, Walter A. Neves, Danilo V. Bernardo e João Paulo V. Atui, The cranial morphology of the Botocudo Indians, Brazil, publicado no American Journal of Physical Anthropology, está acessível no endereço http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ajpa.22703/abstract;jsessionid=60C5158D2873DCB73B13B0E4CB603A7D.f04t04.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Two ancient human genomes reveal Polynesian ancestry among the indigenous Botocudos of Brazil

Summary

Understanding the peopling of the Americas remains an important and challenging question. Here, we present 14C dates, and morphological, isotopic and genomic sequence data from two human skulls from the state of Minas Gerais, Brazil, part of one of the indigenous groups known as ‘Botocudos’. We find that their genomic ancestry is Polynesian, with no detectable Native American component. Radiocarbon analysis of the skulls shows that the individuals had died prior to the beginning of the 19th century. Our findings could either represent genomic evidence of Polynesians reaching South America during their Pacific expansion, or European-mediated transport.

Main Text

A recent study of skeletal remains from Brazil belonging to the indigenous Botocudo peoples found that two male individuals presented a combination of mitochondrial DNA (mtDNA) variants common in present day Oceanian populations [
]. Although it was argued that these genetic traits were likely to be derived from runaway slaves brought to Brazil by Europeans, no direct-dating or genomic analyses were used to support this conclusion. The Botocudos, named after the wooden disks (‘botoques’) in their lower lips and ear lobes, were an indigenous group with presumably Native American origins occupying the coast and the interior of Eastern-Central Brazil until the late 18th century, when most were exterminated by European colonists after decades of violence. The population size and origin of the Botocudos remain unclear, but they are likely to have comprised several tribes who spoke a common Macro-Jê language at the time of European contact [
]. We conducted a variety of genomic, morphological and isotopic analyses of skeletal remains attributed to the Botocudos of Brazil.
We confined our analyses to four Botocudo individuals (Bot13, Bot15, Bot17 and Bot65; Supplemental information) after careful review of all available records at the Museu Nacional in Rio de Janeiro, Brazil, including an extensive archival study that pointed to the four crania being bona fide Botocudo, a designation which is also corroborated by the labels on the skulls (Figure 1A).
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Figure 1Radiocarbon and genetic evidence for Polynesian ancestry among Botocudos.
We performed an initial DNA screening by shotgun sequencing the four individuals, finding that only Bot15 and Bot17 yielded a endogenous human DNA content higher than 1% (5.6% and 12.5%, respectively), thus allowing for whole genome sequencing (Supplemental information). In total, we obtained genetic data from the following experiments: mtDNA capture for Bot15; single nucleotide polymorphism (SNP) capture for 6,000 ancestry informative markers (AIMs) for Bot15; and whole genome shotgun sequencing for Bot15 and Bot17 (to an average genomic depth of 1.2X and 1.5X, respectively). We found features in the data characteristic of ancient DNA (Supplemental information). All the genetic data point towards two individuals with Polynesian ancestry and no detectable Native American ancestry. For example, when conducting a classical multidimensional scaling (MDS) analysis on identity-by-state (IBS) distance-of-genotype data of worldwide populations, including the Botocudo whole genome data, we found that the ancient genomes fall within the Polynesian populations (Figure 1C). Moreover, clustering analyses suggest that Bot15 and Bot17 have no detectable Native American ancestry and share the same components as the Polynesian population. When assuming seven ancestral populations (K = 7), the Polynesians form their own cluster and more than 99.9% of the genomes of Bot15 and Bot17 were assigned to this Polynesian cluster (Figure 1D).
Accelerator mass spectrometry (AMS) radiocarbon dating of five teeth from the four Botocudo individuals was carried out in two independent laboratories. When calibrating the 14C dates with the Southern Hemisphere curve [
], the 95% highest posterior density regions (HPD) were 1452–1510 AD and 1579–1620 AD for Bot15 (bimodal distribution), and 1419–1477AD for Bot17. While there is a general lack of baseline isotope data for the relevant areas and from archaeological remains, the combined evidence from the δ13C, δ15N and δ34S values when compared to Brazilian fauna and flora, as well as archaeological and modern human bone samples, suggests that a marine reservoir effect cannot be fully excluded (Supplemental information). The 95% HPDs of the marine corrected dates are 1479–1708 AD and 1730–1804 AD for Bot15, and 1496–1842 AD for Bot17 (Figure 1B). More work on foodwebs and carbon cycling in the Minas Gerais area is needed to determine if a marine reservoir correction for the 14C dates is indeed required; hence, the marine-corrected age estimates presented must be considered highly conservative. Strontium analysis and craniometry results are detailed in the Supplemental information.
Several scenarios have been previously proposed that are of potential relevance for explaining our result that two Botocudo individuals have Polynesian ancestry for both the mitochondrial and nuclear genomes [
]: the Polynesia–Peru slave trade [
], the Madagascar–Brazil slave trade, voyaging on European ships either as crew, passengers, or stowaways, and Polynesian voyaging. Regardless, the scenario must necessarily invoke a certain number of Polynesian migrants — presumably more than two, as we detected Polynesian ancestry in two out of 35 Botocudo individuals in the Museu Nacional collection. A detailed investigation of these possibilities can be found in the Supplemental information. The 1862–1864 AD Peru–Polynesia slave trade can be excluded, given that the 14C calibrated dates for the skulls predate the beginning of this trade. The Madagascar–Brazil slave trade is of relevance, as Madagascar is known to have been peopled by Southeast Asians [
]. However, we can further exclude this hypothesis as recent genomic data have demonstrated that the Malagasy ancestors admixed with African populations prior to the slave trade [
], and no such ancestry is detected in our Botocudo sample (Supplemental information). Furthermore, Madagascar was peopled by Southeast Asian and not Polynesian populations.
While Fernão de Magalhães (Magellan) first spotted some seemingly uninhabited Polynesian islands in 1521 AD, the lack of precise navigational techniques [
], as well as war between European nations, meant that many of those islands were not visited by Europeans again for at least another 200 years. Therefore, trade involving Euroamerican ships in the Pacific only began after 1760 AD [
]. By 1760 AD, Bot15 and Bot17 were already deceased with a probability of 0.92 and 0.81, respectively (Supplemental information), making this scenario unlikely. Although improbable also because it would involve both individuals making it to the interior of Brazil, we cannot exclude this scenario.
Polynesian ancestors originated from East Asia and on their migration eastwards interacted with and admixed with local New Guineans before colonizing the Pacific. In recent years, evidence has continued to accumulate in favor of a Polynesian and South American contact [
], although the issue has remained mired in controversy (e.g., [
]). It has been established that the Polynesian Pacific expansion from Southeast Asia covered distances of thousands of kilometers, reaching New Zealand, Hawaii and Easter Island — an area approximately the size of North America — between ca. 1200 and 1300 AD [ ]. It is hard to explain how the first possible genomic evidence of such Polynesian contact with South America would be found in Brazil rather than on the west coast of South America, yet we cannot exclude this scenario either.
Whether brought by Europeans or the result of the Polynesian expansion, the fact remains that some Brazilian Botocudos carried distinctive Polynesian genetic signatures. We hope that further sampling will provide a more definitive answer to this intriguing finding.

Acknowledgments

We would like to thank the laboratory technicians at the Danish National High-throughput DNA Sequencing Centre for technical assistance; Martin Kircher, Thorfinn Sand Korneliussen, Johannes Krause, David Reich, Erik Thorsby for helpful discussion; Toomas Kivisild, Jinchuan Xing, Andreas Wollstein, David Reich for early access and/or assistance with their data. GeoGenetics members were supported by the Lundbeck Foundation, the Danish National Research Foundation (DNRF94) and the European Union (FP7/2007-2013/317184 and 319209). A.S.M. was supported by a fellowship from the Swiss National Science Foundation (PBSKP3_143529); M.D. by the US National Science Foundation (grant DBI-1103639); P.L.J. by the National Institutes of Health (grant K99 GM104158); V.F.G. by a Strategic Training for Advanced Genetic Epidemiology (STAGE) fellowship, University of Toronto.

Supplemental Information

References

  • Gonçalves V.F.
  • Stenderup J.
  • Rodrigues-Carvalho C.
  • Silva H.P.
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Figures

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    Figure 1Radiocarbon and genetic evidence for Polynesian ancestry among Botocudos.

A antropologia física dos “vis aimorés”

07 de junho de 2016

Peter Moon | Agência FAPESP – Um dos principais mistérios da Antropologia Física brasileira – e que já dura 150 anos – está prestes a ser elucidado. Afinal, quem eram os índios botocudos? Seriam eles descendentes diretos de uma primeira onda migratória de paleoíndios com traços negroides que teria povoado a América do Sul há 13 mil anos, no final da Idade do Gelo? Ou seriam os botocudos uma etnia diferente de todas as demais etnias brasileiras, por possuirem DNA polinésio no seu caldo hereditário? Ou carregariam injustamente a pecha de “primitivos” desde os tempos do Brasil Colônia, já que seriam descendentes da mesma migração humana que derivou em todas as etnias indígenas do Novo Mundo?

Em um trabalho publicado em 2015 no American Journal of Physical Anthropology, os antropólogos físicos André Strauss, pesquisador associado do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos e do Laboratório de Antropologia Biológica do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, Alemanha; Danilo V. Bernardo, da Universidade Federal do Rio Grande; e Mark Hubbe, da Universidade Estadual de Ohio, em Columbus, Estados Unidos, entre outros, se propõem a eliminar uma daquelas possibilidades. No caso, a que prega que os botocudos seriam descendentes diretos de uma primeira e hipotética migração para as Américas. A pesquisa teve apoio da FAPESP nas modalidades bolsa de doutorado e mestrado.

A onda migratória da qual os botocudos seriam os seus herdeiros modernos é simbolizada pelo chamado “Povo de Lagoa Santa”, nome coletivo dado aos 30 esqueletos fossilizados de paleoíndios descobertos pelo naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund em uma gruta inundada de Lagoa Santa, Minas Gerais, em 1844.
A hipótese de que os crânios dos botocudos teriam uma morfologia distinta da dos tupis, e talvez parecida com a do homem de Lagoa Santa, foi levantada pela primeira vez por antropólogos do Museu Nacional do Rio de Janeiro ainda nos idos de 1870.

Desde então, a busca de uma resposta para a questão tem impulsionado as investigações arqueológicas em Lagoa Santa. Um dos pontos altos desta pesquisa foi a missão franco-brasileira que encontrou, nos anos 1970, um crânio com cerca de 12.500 anos, apelidado carinhosamente de Luzia, a “primeira brasileira”, por Walter Neves, do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP.
Outro ponto alto da pesquisa foram as escavações realizadas entre 2003 e 2009 em diversas grutas e abrigos da região de Lagoa Santa. O trabalho foi liderado pelo próprio Neves, com apoio da FAPESP, no âmbito do Projeto Temático “Origins and microevolution of man in the Americas: a paleoanthropological approach”. 

Durante o trabalho de campo, Neves, que foi orientador de Strauss e Hubbe, escavou 23 crânios de paleoíndios com idades de até 8 mil a 10 mil anos. Foram esses crânios que forneceram a base principal de comparação para o estudo agora publicado.
A análise multivariada consistiu na comparação dos 32 crânios de botocudos da coleção do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro com a morfologia craniana de 3 mil crânios humanos modernos e pré-históricos de todo o mundo (incluídos aí 19 crânios de paleoíndios de Lagoa Santa e 66 de paleoíndios da Colômbia).

O objetivo dos pesquisadores foi chegar a um veredicto sobre a pretensa ancestralidade dos botocudos. O resultado comprovou o que os estudiosos do século 19 suspeitavam. “Nosso artigo confirma que a morfologia craniana dos botocudos era mais parecida com a dos crânios de Lagoa Santa do que com a dos tupis,” afirma Strauss.

O estudo sugere que a morfologia dos antigos paleoíndios foi conservada por milhares de anos nos ancestrais dos botocudos e sobreviveu até o século 19, apesar da existência de grupos tupis-guaranis ocupando a mesma região.
Daí se infere que a baixa afinidade morfológica entre os tupis-guaranis e os botocudos é sinal de um fluxo genético muito limitado entre os dois grupos. Em outras palavras, apesar de ocuparem as mesmas regiões por milhares de anos, praticamente não houve cruzamento entre os ancestrais dos botocudos e os dos tupis-guaranis.
Indo além, o fato de haver dois componentes genéticos, os ancestrais dos botocudos e os dos tupis, indicaria a existência de duas ondas migratórias distintas que teriam povoado o nosso continente – hipótese defendida por Neves desde os anos 1980.

Polinésios nas Américas?

Em 2014, um estudo internacional realizado a partir de DNA extraído dos crânios de botocudos do Museu Nacional e publicado no Current Biology, chegou a conclusões surpreendentes. Entre os crânios estudados, dois deles (os de números 15 e 17) revelaram ser 100% polinésios, enquanto os demais crânios da coleção eram 100% ameríndios.

A hipótese mais aceita para o povoamento das Américas prega que os primeiros grupos humanos que adentraram o Novo Mundo o fizeram através de uma ponte terrestre, hoje submersa, que existia no estreito de Behring. Essa ponte ligou a Ásia ao Alasca durante a Idade do Gelo, quando o nível dos mares era 130 metros mais baixo do que o nível atual.

Desde os tempos da expedição Kon-Tiki, do norueguês Thor Heyerdahl, que saiu do Peru em 1947 numa jangada para, três meses depois, atingir a Polinésia francesa, especulava-se se o povoamento das Américas teria ocorrido no sentido contrário, da Polinésia para o Novo Mundo.
Os autores do estudo entendem a surpresa do achado e procuram explicá-la por meio das seguintes suposições: o DNA polinésio poderia ter se imiscuído nas tribos dos botocudos do tempo do Império pelo tráfico de escravos entre a Polinésia e o Peru, ou entre Madagascar e o Brasil. Outras possibilidades seriam a vinda de polinésios ao Brasil como tripulantes de navios europeus – ou via travessias oceânicas realizadas pelos próprios polinésios.

“Como explicar que, à exceção daqueles dois crânios com DNA francamente polinésio, todos os demais possuem DNA ameríndio?”, questiona Strauss. “Como explicar DNA polinésio na costa atlântica do Brasil se jamais se encontrou nenhuma evidência neste sentido em nenhum outro ponto da América do Sul?”, complementa Hubbe. Se houvesse de fato ocorrido uma antiga migração polinésia para as Américas, por menor que esta fosse, seria de esperar que todos, ou pelo menos uma parte considerável dos crânios pesquisados, tivessem traços genéticos polinésios, o que não acontece.
Para Strauss e Hubbe, uma vez eliminadas todas as possíveis explicações para a chegada do DNA polinésio no Brasil, a única probabilidade que resta, e que deve ser verdadeira, é o fato de aqueles dois crânios com DNA polinésio não serem de botocudos. Em outras palavras, em algum momento nos últimos 150 anos ocorreu um erro no registro daqueles crânios.

“Fui ao Museu Nacional, pesquisei o tombo da coleção. Pude verificar que mais ou menos na mesma época da aquisição dos crânios de botocudos, na década de 1870, também foram adquiridos crânios da Polinésia para a montagem de uma exposição antropológica”, afirma Strauss. “Como o tombo do museu como conhecemos hoje só foi feito 30 anos mais tarde, já no início do século 20, tudo leva a crer que possa ter ocorrido um equívoco no registro daqueles dois crânios polinésios, que inadvertidamente acabaram rotulados como botocudos.”

Pesquisador com múltipla formação, Strauss irá concluir na Alemanha em 2016 um duplo doutorado em evolução humana, em Leipzig, e arqueologia, na Universidade de Tübingen. “Em museus alemães já vi crânios de gorilas classificados como sendo de chimpanzés. Esse tipo de troca pode ter ocorrido no Museu Imperial de Dom Pedro II no século 19.”

Com a palavra o geneticista Sergio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, um dos líderes do trabalho com DNA polinésio. “No nosso artigo tínhamos como coautores excelentes antropólogos cranianos, como o próprio Walter Neves, e provavelmente o maior especialista mundial na origem dos polinésios, Mark Stoneking. Nenhuma pista deixou de ser investigada”, afirma Pena. “É lógico que a possibilidade de troca no Museu Nacional foi extensivamente investigada, mas nenhuma evidência a seu favor foi encontrada.”

A suspeita de erro no tombo dos crânios faz sentido, porém jamais poderá ser comprovada. Não há forma de saber com certeza a origem e a real identidade daqueles dois crânios polinésios. O que é possível, e que está de fato em vias de ser conhecida, é a real ancestralidade dos índios botocudos.
Desde 2011, Strauss dá continuidade aos trabalhos iniciados por Neves na Lapa do Santo, dirigindo as escavações arqueológicas naquele abrigo rochoso. Ele revela que foram achados mais cinco crânios antigos, dos quais se procura, neste exato momento, extrair material genético no Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva – a instituição responsável por inventar as técnicas que revolucionaram o estudo de DNA fóssil e onde foi sequenciado o genoma dos neandertais. De acordo com Strauss, os resultados parecem promissores.

Afinal, quem eram os botocudos?

Os índios botocudos, também conhecidos como aimorés ou aimberês, eram assim chamados pelos colonizadores portugueses por causa dos discos de madeira (os botoques) que costumavam usar no lábio inferior e nas orelhas. No início do século 19, as tribos de botocudos viviam no vale do rio Doce, entre o Espírito Santo e a Bahia. Não eram tupis, mas pertencentes ao grupo linguístico macro-jê. Guerreiros, eles evitavam o contato com o colonizador branco, daí terem recebido a alcunha de “índios ferozes” ou “de vis aimorés”, como declama o poema I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias.

Em 1808, Dom João VI transferiu a sua Corte de Lisboa para o Rio de Janeiro. No mesmo ano, além de fundar o Banco do Brasil, a Casa da Moeda e o Jardim Botânico, o monarca assinou duas cartas régias deflagrando uma guerra ofensiva contra os botocudos. A primeira carta permitia o cativeiro de indígenas por até dez anos, ou enquanto durasse a “fereza” e a “antropofagia” entre eles. A segunda afirmava a intenção de colonizar o vale do rio Doce graças à guerra, tornando os territórios conquistados terra devoluta, própria para distribuição aos novos colonos.

A campanha militar contra os botocudos se estendeu por todo o século 19. Os que conseguiram sobreviver ao massacre fugiram para os vales do Mucuri e do Jequitinhonha. Os pouquíssimos remanescentes só foram declarados oficialmente pacificados em 1912.
Ao longo de um século de perseguição, que resultou no extermínio dos botocudos, a alcunha conferida a eles como sendo índios “ferozes” foi aos poucos virando sinônimo de feiúra, de seres primitivos. A partir daí, foi natural os botocudos despertarem o interesse científico dos antropólogos do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

O artigo, assinado por André Strauss, Mark Hubbe, Walter A. Neves, Danilo V. Bernardo e João Paulo V. Atui, The cranial morphology of the Botocudo Indians, Brazil, publicado no American Journal of Physical Anthropology, está acessível no endereço http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ajpa.22703/abstract;jsessionid=60C5158D2873DCB73B13B0E4CB603A7D.f04t04.