Brasil ancestral: Quem foram os primeiros brasileiros?
A
primeira certidão de nascimento do país é um crânio de 11 mil anos
encontrado em 1975. Mas há quem diga que estamos por aqui há mais tempo
Rui Dantas Publicado em 23/07/2019, às 14h30 - Atualizado às 15h00
Martha Werneck
Durante
quase 500 anos o Brasil praticamente ignorou uma parte do seu passado. A
maior delas. Na escola, a primeira aula de história começa com o
descobrimento do Brasil como se nada tivesse acontecido antes. No
entanto, quando os portugueses chegaram, em 1500, civilizações avançadas
e poderosas estavam no auge, outras já haviam desaparecido, mas deixado
vestígios de passagem e de história no Brasil.
O naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, em 1836, foi o primeiro a se interessar pelo Brasil pré-cabralino
e tornou-se uma espécie de patrono da arqueologia e da paleontologia no
país. Sua descoberta mais importante aconteceu na Gruta do Sumidouro,
perto de Lagoa Santa, MG. Em meio aos ossos de grandes mamíferos, ele
achou os primeiros fósseis humanos no Brasil.
Em busca do primeiro
brasileiro, Peter encontrou mais perguntas que respostas (algumas ainda
sem solução). A primeira – e talvez a mais controversa de todas – é
como e quando o homem passou a ocupar o território americano e, por
extensão, o brasileiro?
A
teoria mais aceita é que os primeiros grupos humanos a chegar por aqui
atravessaram da Ásia para a América pela Beríngia (região no extremo
norte do continente, que há 15 mil anos, durante o fim da era glacial,
ligava os dois continentes). A pé, os novos habitantes começaram a
migrar para o sul, em busca de regiões mais quentes. Até a Patagônia, no
limite sul da América, eles teriam levado algo em torno de 2 mil anos.
Mas
há quem discorde. A arqueóloga brasileira Niède Guidon, que há mais de
40 anos estuda os vestígios da presença humana na região da Serra da
Capivara, no Piauí, acredita que o homem americano já ocupava o Brasil
há mais de 60 mil anos. Sua pesquisa, que tem base em vestígios humanos
cujas datações indicaram ter 48 mil anos de idade, é fruto do
documentário Niède, de Tiago Tambelli, que acaba de ser lançado no país.
Segundo
a arqueóloga, a ocupação das Américas começou entre 80 e 100 mil anos
atrás e o primeiro americano teria vindo da região da Austrália em
embarcações simples – uma tese questionada dentro e fora do Brasil. Para
os críticos, esperar que um aborígine de mais de 50 mil anos atrás
atravessasse o Pacífico seria como pedir a Cristóvão Colombo que, em vez
de cruzar o Atlântico para vir ao Novo Mundo, fincasse a bandeira na
Lua.
Mas
Niède Guidon não está sozinha quando marca o início da presença humana
no Brasil, além dos paradigmais 15 mil anos. O trabalho da arqueóloga
Águeda Vilhena Vialou, entre o Museu de Arqueologia da USP e o Museu de
História Natural de Paris, indicou a existência do homem no Mato Grosso,
na Fazenda Santa Elina, há cerca de 23 mil anos. Lá, foram encontradas
pinturas nas paredes e grande quantidade de pedras trabalhadas. “Fizemos
três datações diferentes, em três materiais distintos: ossos,
sedimentos e carvão. Todos à mesma data, entre 22 e 23 mil anos”,
contou.
Homens da Lagoa Santa
A arqueóloga
Adriana Schmidt Dias, da UFRGS, acredita que o primeiro brasileiro
descende de uma das várias correntes migratórias vindas da Ásia, que
ocorreram a partir de 15 mil anos atrás. A mais antiga dessas levas de
humanos teria chegado ao Brasil há cerca de 12 mil anos e ficado
conhecida como Os Homens da Lagoa Santa, nome dado em homenagem ao sítio
arqueológico onde foram localizados – o mesmo pesquisado pelo
dinamarquês Lund. Desse povo, faz parte o fóssil humano descoberto em
1975, que viveu por aqui há cerca de 11,5 mil anos e foi batizado pelos
cientistas de Luzia, a mais antiga brasileira descoberta até hoje. Mais antiga pintura rupestre da América, encontrada em Lagoa Santa / Crédito: Reprodução
Luzia
era uma caçadora e coletora de vegetais, com traços bem distintos dos
índios que Pero Vaz de Caminha descreveu em sua carta, em 1500. Em 1999,
a Universidade de Manchester, na Inglaterra, reconstituiu o rosto de
Luzia: ficaram óbvios os traços negroides, típicos de populações
africanas e da Oceania.
Luzia e seus amigos viviam em pequenos
grupos e eram nômades, sempre procurando encontrar vegetais e animais de
pequeno porte, como o porco-do-mato e a paca, que eles caçavam com a
ajuda de lanças e de flechas com pontas feitas de pedras lascadas. Não
ficavam mais que duas semanas no mesmo lugar. Por isso, não costumavam
enterrar seus mortos. O corpo de Luzia foi encontrado jogado no fundo de
uma caverna.
Por volta de 6 mil anos atrás esse povo desapareceu.
A explicação para isso é o surgimento de outro grupo de humanos, dessa
vez, parecidos com os índios atuais. Eles chegaram em muito maior número
e passaram a ocupar a região. As populações se misturaram, segundo
Adriana, mas com o tempo as características dos Homens da Lagoa Santa
submergiram. Essa nova leva de viajantes chegou a ocupar toda a costa
brasileira e o Planalto Central até 2 mil anos atrás.
“Esses
bandos chegavam a uma região, montavam acampamento, geralmente em grupos
de cinco a dez famílias em pequenas faixas de terra”, diz a
pesquisadora. De acordo com ela, eles retiravam da região tudo o que
podiam: vegetais, peixes e animais. Assim que esgotavam esses recursos e
que os acampamentos apresentavam problemas sanitários, como o
aparecimento de insetos em grandes quantidades, iam embora.
Civilização das Conchas
Alguns
dos descendentes desses novos habitantes criaram, no litoral do Brasil,
uma das civilizações mais características e inusuais do período
pré-cabralino. Eles ocuparam do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul
entre 6 mil e mil anos atrás, e ficaram conhecidos pelas edificações que
erguiam para sepultar seus mortos: os sambaquis. São pilhas de
sedimentos, principalmente conchas e ossos de animais, cuidadosamente
empilhados e que chegavam a ter 40 metros de altura e mais de 500 metros
de comprimento.
A princípio, os arqueólogos acreditavam tratar-se
de grandes depósitos funerários, mas, com a descoberta sistemática de
novos sítios, ficou provado que os sambaquis eram o centro da vida
social desses povos, chamados sambaquieiros. Ali, eles sepultavam seus
mortos, realizavam rituais e construíam suas casas. Crédito: Martha Werneck
“Eles
se alimentavam basicamente da pesca e da coleta de frutos do mar,
feitas com o auxílio de canoas e redes”, explica o arqueólogo Paulo de
Blasis, da USP. O sambaquieiro era baixo, no máximo 1,60 metro. A
mortalidade infantil era altíssima, entre 30 e 40% dos corpos
encontrados eram de crianças. Quem chegava à idade adulta também não ia
muito longe: para os homens a perspectiva de vida era de 25 anos e as
mulheres chegavam, no máximo, aos 35. Outro mito que as pesquisas vêm
derrubando é que os sambaquieiros eram nômades, indo de um lugar para
outro assim que se encerravam os recursos naturais.
“Era uma
civilização com estabilidade territorial e populacional. Um conjunto de
sambaquis como os do sul de Santa Catarina podia reunir até 3 ou 4 mil
habitantes”, conta Paulo. Para ele, uma ocupação dessa montada, por
tanto tempo, só seria viável com um alto grau de complexidade social,
que deveria incluir a divisão de tarefas e instituição de chefias
regionais.
Nos sambaquis foram encontrados também esculturas e
ornamentos feitos de pedra polida, que eram colocados junto aos corpos
sepultados. Representando animais como o tatu e a baleia, esses objetos
demonstram um delicado senso estético, que exigia habilidade especial.
Segundo
Dione Bandeira, do Museu Nacional do Sambaqui, em Joinville, SC, é
possível que houvesse pessoas designadas para produzi-los, até como
algum tipo de ritual. Os sambaquieiros desapareceram há cerca de mil
anos, com a chegada de povos agricultores vindos do planalto. “Eles
provavelmente foram se afastando cada vez mais de seu local de origem,
esquecendo suas tradições e se misturando ao conquistador”, descreve o
arqueólogo da USP.
Os povos da Amazônia
A
Amazônia foi o berço de culturas avançadas, que viveram mais de mil anos
antes de Cabral chegar ao Brasil. Os registros mais antigos da presença
dos homens na região foram descobertos pela arqueóloga norte-americana
Anna Roosevelt, em 1996. Ela encontrou pinturas rupestres datadas de 11
mil anos, na região de Monte Alegre, PA.
Na região da Ilha de
Marajó, uma importante civilização se desenvolveu entre os anos 400 e
1300 d.C. A civilização marajoara dominava a agricultura e possuía
aldeias que chegaram a abrigar 5 ou 6 mil habitantes. Os marajoaras eram
excelentes engenheiros e construíram aterros artificiais que se
elevavam até 12 metros acima do solo.
“Esses aterros exigiam a
mobilização de um grande contingente de mão de obra e uma liderança
constituída e respeitada”, afirmou o arqueólogo Eduardo Neves, da USP.
Tal requinte se refletia na criação de sua cerâmica. De caráter
cerimonial, seus desenhos correspondem ao mundo simbólico e religioso
dos marajoaras. Eles desapareceram misteriosamente por volta de 1300. Crédito: Reprodução
Mas
a superpotência da época era a civilização tapajônica, que ocupava a
região da atual cidade de Santarém, PA. Mesmo depois do contato com os
europeus, ainda era uma das maiores e mais poderosas nações indígenas da
Amazônia. Objetos de sua cerâmica foram localizados em lugares
distantes, o que indica que havia contato intenso entre os tapajós e
tribos vizinhas, incluindo comércio. Segundo Eduardo, havia um poder
central exercido por chefe tapajó, reunindo várias tribos vizinhas. E
algumas aldeias eram tão populosas que seus caciques podiam mobilizar
até 60 mil homens para o combate.
A Amazônia também foi o ponto
de partida para a migração de um povo tecnologicamente avançado e
conquistador, que levou ao declínio os brasileiros coletores e
caçadores, e que se espalhou de forma inédita pelo país: os tupi.
Partindo de onde hoje ficam os estados de Rondônia e do Amazonas, eles
deixaram a região em duas levas principais: os tupi-guarani desceram o
Rio Paraná e chegaram à região sul; os tupinambá seguiram pelo Rio
Amazonas até sua foz e, dali, rumo ao sul pela costa.
Eles viviam
em grandes aldeias, cujas populações chegavam a ter milhares de pessoas.
“Se organizavam em chefaturas, isto é, uma reunião de tribos em que
algumas aldeias seriam mais importantes e teriam influência sobre
outras”, explica o professor e historiador Paulo Jobim. Segundo ele, as
aldeias funcionavam como cidades, com famílias inteiras, com tios,
primos, pais, avós e filhos vivendo numa mesma casa.
“A hierarquia
das tribos era baseada no parentesco”, diz. Os espaços comuns desses
lugares, normalmente na área central, eram dedicados às práticas
religiosas e sociais. Eles conheciam a agricultura, principalmente a de
hortaliças, de mandioca e de milho, e produziam cerâmicas práticas,
principalmente para cozinhar. A guerra, além de demarcar territórios,
era tida como oportunidade para o desenvolvimento de lideranças, que se
baseavam sobretudo na coragem, na oratória e nos laços familiares.
A
expectativa de vida era curta, não ultrapassando os 40 anos de idade em
média. Por isso, os mais idosos eram muito respeitados, ocupando papel
de destaque na sociedade. A divisão do trabalho também era feita por
sexos: os homens caçavam, as mulheres coletavam, cuidavam das crianças e
do preparo do solo para a agricultura. Além disso, eram as responsáveis
pela produção da arte em cerâmica.
“Os guarani eram um povo
conquistador e exclusivista”, descreve o historiador Pedro Schmitz.
“Seus parentes tornavam-se aliados, mas outros povos eram considerados
inimigos e expulsos, dizimados ou incorporados, às vezes, literalmente,
já que eram antropófagos.” Os nossos descendentes que estavam na praia,
naquela manhã de 22 de abril de 1500.
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
Homo sapiens no centro da América do Sul
Sítio perto de Cuiabá indica presença do homem há 27 mil anos em Mato Grosso
Distante
cerca de 80 quilômetros (km) a noroeste de Cuiabá, o município
mato-grossense de Jangada está colado ao centro geográfico da América do
Sul. Para qualquer lado que se ande, a visão do oceano, seja o Pacífico
ou o Atlântico, somente aparece depois de percorridos ao menos 1.500
km. Nessa porção do Cerrado, a vegetação é mais densa e a serra das
Araras, com altitudes entre 500 metros (m) e 800 m, pontua a paisagem.
Em um abrigo sob rochas de difícil acesso, situado em um vale na parte
sudeste da cadeia de montanhas, dois paredões calcários preservam um
pedaço pouco conhecido da pré-história do Brasil e das Américas. Entre
1984 e 2004, o casal de arqueólogos Denis Vialou e Águeda Vilhena
Vialou, do Museu Nacional de História Natural da França, coordenou
escavações em duas áreas contíguas de 80 metros quadrados desse refúgio
rupestre e encontrou indícios de que o homem moderno teria habitado a
região em dois momentos: por volta de 27 mil anos e entre 12 mil e 2 mil
anos atrás. Não há ossadas de Homo sapiens no local, mas uma
série de vestígios indiretos de sua presença. Como a espécie humana
teria se estabelecido em um ponto tão distante do litoral em tempos tão
remotos é, no entanto, uma pergunta ainda sem resposta.
Uma síntese dos achados de duas décadas e dos estudos posteriores
feitos com material obtido no abrigo Santa Elina, nome do sítio
paleoarqueológico, ganhou as páginas da edição de agosto da revista
científica Antiquity. As informações do artigo já tinham sido
apresentadas em textos e até em livros escritos em português ou francês,
mas não em inglês, e em uma revista internacional de peso da
arqueologia. No trabalho, a brasileira Águeda e o francês Denis, com o
auxílio de colaboradores, resumem os três tipos de vestígios da presença
humana encontrados na região e as datações associadas a eles.
O primeiro são fragmentos de pedra que exibem marcas, como
serrilhados, retoques e riscos, que só poderiam ter sido produzidas de
forma artificial pela mão do homem com o auxílio de alguma ferramenta
lítica. O segundo são ossos de dois exemplares de preguiças-gigantes do
gênero Glossotherium descobertos em camadas geológicas com
grande quantidade de artefatos de pedra trabalhados pelos habitantes do
abrigo. “Encontramos dois adornos, com furos nas extremidades, feitos de
osteodermas de preguiça”, comenta Águeda. Osteodermas são placas
ósseas, semelhantes a escamas, que ficavam no dorso do animal. O
terceiro tipo de vestígios compreende restos de fogueiras, de origem
antrópica, presentes ao longo das camadas associadas à ocupação humana.
O
material obtido em Santa Elina está guardado no Museu de Arqueologia e
Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), onde o casal de
arqueólogos dá aulas durante dois meses por ano como professores
convidados. Alguns de seus colaboradores brasileiros são também
pesquisadores da instituição paulista, como os arqueólogos Levy Figuti e
Veronica Wesolowski de Aguiar e Santos. O acervo do abrigo rupestre
conta com 4 mil peças da indústria lítica, além de mais de 200 ossos de
preguiças-gigantes. “O sítio apresenta, ainda, cerca de mil pinturas
rupestres”, destaca Denis.
Nos paredões que protegem o abrigo, os
desenhos, geralmente de figuras humanas, animais ou seres disformes,
apresentam tons avermelhados, decorrentes do uso de hematita, principal
forma do minério de ferro. A hematita era levada para o interior do
sítio e esfregada contra blocos de pedra que formavam uma espécie de
calçamento interno. Dessa forma, o homem pré-histórico obtinha o
pigmento para seus desenhos. Esses blocos, alguns deles guardados no
MAE-USP, apresentam ainda hoje manchas da cor do minério de ferro.
Diferentes amostras retiradas de Santa Elina, cujas escavações
atingiram em alguns pontos 4 m de profundidade, foram submetidas a três
técnicas de datação e os resultados foram convergentes. Mais de 50
amostras de carvão, restos de fogueiras por humanos encontrados nas
camadas mais superficiais do sítio, foram datadas por carbono 14. A
idade da maioria das amostras variou entre 2 mil e 12 mil anos e seis
atingiram entre 10 mil e 20 mil anos. Lascas de madeira e microcarvões,
provenientes de escavações mais profundas, também foram datados por esse
método clássico e atingiram por volta de 27 mil anos. Dois ossos da
megafauna, um retirado de uma camada mais superficial e outro oriundo de
sedimentos mais profundos, foram submetidos ao chamado método
urânio/tório. O primeiro obteve a idade de 13 mil anos e o segundo, de
27 mil anos. Três amostras de sedimentos contendo quartzo de camadas
distintas (2,30 m, 3 m e 3,85 m de profundidade) foram datadas por
termoluminescência óptica. As idades atingiram, respectivamente, 18 mil,
25 mil e 27 mil anos.
Escritos de índios
O casal franco-brasileiro tomou conhecimento da existência do abrigo
Santa Elina no início dos anos 1980. Durante os meses que costumam
passar no Brasil, Águeda e Denis foram convidados por um conhecido de
Cuiabá para visitar sua fazenda em Mato Grosso, onde havia “escritos de
índios” em pontos isolados da serra das Araras. A viagem foi proveitosa e
rendeu a descoberta do abrigo rupestre recheado de pinturas e com rico
material paleoarqueológico. Paralelamente às escavações em Santa Elina, a
dupla, sempre com a colaboração de colegas e alunos de universidades
brasileiras e francesas, também iniciou trabalhos de campo em outra
parte de Mato Grosso. Perto de Rondonópolis, cerca de 300 km ao sul do
município de Jangada, há um conjunto de mais de 170 sítios líticos
denominado Cidade de Pedra. Além de pinturas, a região tem cerâmicas,
adornos feitos com pedaços de hematita e uma abundância de resquícios de
fogueiras antrópicas da pré-história. “Datamos carvões dessas fogueiras
e os resultados indicam uma presença humana na Cidade de Pedra entre 6
mil e 2 mil anos atrás”, esclarece Águeda.
Adorno de 25 mil anos feito com osso de preguiça e artefato lítico modificado pelo homem.
A cronologia proposta por Águeda e Denis para os sítios mato-grossenses, em especial para o abrigo Santa Elina, sinaliza que o Homo sapiens pode
ter se estabelecido muito antes do que se pensava no centro da América
do Sul. No Brasil, apenas a região do Parque Nacional Serra da Capivara,
em São Raimundo Nonato, no Piauí, apresenta indícios da presença humana
tão ou mais antigos do que os de Santa Elina.
Desde a década de 1980, a
arqueóloga brasileira Niède Guidon sustenta que essa região do
Nordeste, onde existem 1.350 sítios arqueológicos conhecidos, teria sido
povoada pelo homem algumas dezenas de milhares de anos ou até mesmo 100
mil anos atrás.
Durante muito tempo, as datações mais antigas defendidas por Niède,
que se baseavam em análises de carvão de fogueira e posteriormente de
material lítico trabalhado pelo homem, foram alvo de grande polêmica.
Nos últimos anos, novos estudos apontam que a presença humana no Piauí
parece realmente ultrapassar ao menos os 20 mil anos. “Não há nenhum
problema em haver datações muito antigas em vários pontos das Américas,
como é o caso de Santa Elina”, comenta Niède, diretora-presidente da
Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), entidade civil que
administra o parque em cooperação com o Instituto Chico Mendes de
Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
Mudança de paradigma
A cronologia da chegada do Homo sapiens às Américas, o último
continente a ser conquistado pelo homem moderno, tem passado por grandes
revisões nos últimos 15 anos. “Houve uma mudança de paradigma”, explica
a arqueóloga Adriana Schmidt Dias, da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS). “A ideia difundida por colegas norte-americanos
de que a chamada cultura Clovis fora a primeira das Américas atualmente
se mostra superada pela descoberta de sítios mais antigos em várias
partes do continente. Hoje as revistas científicas estão mais abertas a
trabalhos que reforçam essa linha.” Conhecida fundamentalmente por meio
das pontas de pedra resgatadas em localidades do estado do Novo México, a
cultura Clovis apresenta sítios que foram datados em, no máximo, 13 mil
anos. Sua suposta primazia em termos de antiguidade se casava com a
hipótese da chegada, mais ou menos nessa mesma época, do Homo sapiens ao
continente americano via Beríngia, antiga porção de terra firme que
conectava a Sibéria ao Alasca, e sua posterior dispersão pelas Américas
por rotas internas.
Pintura rupestre de um dos 170 sítios pré-históricos da Cidade de Pedra, perto de Rondonópolis.
Enquanto essa abordagem predominou, sítios arqueológicos com indícios
de serem mais antigos do que Clovis ou que não reforçavam a visão da
entrada do homem moderno nas Américas pelo Alasca eram vistos com
extrema desconfiança. O sítio chileno de Monte Verde tem sido, por
exemplo, alvo de discussões acaloradas entre os arqueólogos desde a
década de 1970, quando saíram os primeiros dados insinuando a presença
do homem no sul do continente há 14,5 mil anos. A mais recente revisão
do status de Monte Verde ocorreu em novembro de 2015, quando um estudo na revista PLOS ONE datou artefatos de pedra modificados por humanos em 18,5 mil anos.
Águeda e Denis evitam falar sobre como o homem teria chegado a Santa
Elina, no coração da América do Sul, há mais de 25 mil anos. Devido à
sua localização, o abrigo funciona como um refúgio natural em meio às
elevações da cadeia de montanhas. É provável que a região tenha sido
acessível por navegação fluvial desde tempos remotos, pois a serra das
Araras está a 30 km do rio Cuiabá, um importante afluente da bacia do
Paraná-Paraguai. “Não temos sítios arqueológicos de 25 mil anos em
número suficiente nas Américas para esboçar uma rota provável”, diz
Denis. “O que sabemos é que, há 10 mil anos, o homem já estava presente
em todo o continente.”
Um levantamento publicado em 2013 na revista científica Quaternary International
indica que, entre 13 mil e 8 mil anos atrás, o homem tinha se
estabelecido em todas as grandes regiões e biomas do Brasil. O trabalho
contabilizou dados de 90 sítios e 277 datações. “O homem provavelmente
entrou nas Américas há pelo menos 18 mil anos”, sugere Adriana Dias,
autora do estudo ao lado dos arqueólogos Lucas Bueno, da Universidade
Federal de Santa Catarina (UFSC), e James Steele, do University College
London, no Reino Unido. “Mas a ocupação efetiva de todo o continente
ocorreu por volta de 12 mil anos. Santa Elina é uma luzinha piscando no
painel da colonização que atesta a possibilidade de ter havido um
povoamento antigo no centro da América do Sul.”