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domingo, 28 de julho de 2019

Brasil ancestral: Quem foram os primeiros brasileiros?

A primeira certidão de nascimento do país é um crânio de 11 mil anos encontrado em 1975. Mas há quem diga que estamos por aqui há mais tempo
Rui Dantas Publicado em 23/07/2019, às 14h30 - Atualizado às 15h00
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Martha Werneck
Durante quase 500 anos o Brasil praticamente ignorou uma parte do seu passado. A maior delas. Na escola, a primeira aula de história começa com o descobrimento do Brasil como se nada tivesse acontecido antes. No entanto, quando os portugueses chegaram, em 1500, civilizações avançadas e poderosas estavam no auge, outras já haviam desaparecido, mas deixado vestígios de passagem e de história no Brasil.

O naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, em 1836, foi o primeiro a se interessar pelo Brasil pré-cabralino e tornou-se uma espécie de patrono da arqueologia e da paleontologia no país. Sua descoberta mais importante aconteceu na Gruta do Sumidouro, perto de Lagoa Santa, MG. Em meio aos ossos de grandes mamíferos, ele achou os primeiros fósseis humanos no Brasil.
Em busca do primeiro brasileiro, Peter encontrou mais perguntas que respostas (algumas ainda sem solução). A primeira – e talvez a mais controversa de todas – é como e quando o homem passou a ocupar o território americano e, por extensão, o brasileiro?

A teoria mais aceita é que os primeiros grupos humanos a chegar por aqui atravessaram da Ásia para a América pela Beríngia (região no extremo norte do continente, que há 15 mil anos, durante o fim da era glacial, ligava os dois continentes). A pé, os novos habitantes começaram a migrar para o sul, em busca de regiões mais quentes. Até a Patagônia, no limite sul da América, eles teriam levado algo em torno de 2 mil anos.

Mas há quem discorde. A arqueóloga brasileira Niède Guidon, que há mais de 40 anos estuda os vestígios da presença humana na região da Serra da Capivara, no Piauí, acredita que o homem americano já ocupava o Brasil há mais de 60 mil anos. Sua pesquisa, que tem base em vestígios humanos cujas datações indicaram ter 48 mil anos de idade, é fruto do documentário Niède, de Tiago Tambelli, que acaba de ser lançado no país.

Segundo a arqueóloga, a ocupação das Américas começou entre 80 e 100 mil anos atrás e o primeiro americano teria vindo da  região da Austrália em embarcações simples – uma tese questionada dentro e fora do Brasil. Para os críticos, esperar que um aborígine de mais de 50 mil anos atrás atravessasse o Pacífico seria como pedir a Cristóvão Colombo que, em vez de cruzar o Atlântico para vir ao Novo Mundo, fincasse a bandeira na Lua.

Mas Niède Guidon não está sozinha quando marca o início da presença humana no Brasil, além dos paradigmais 15 mil anos. O trabalho da arqueóloga Águeda Vilhena Vialou, entre o Museu de Arqueologia da USP e o Museu de História Natural de Paris, indicou a existência do homem no Mato Grosso, na Fazenda Santa Elina, há cerca de 23 mil anos. Lá, foram encontradas pinturas nas paredes e grande quantidade de pedras trabalhadas. “Fizemos três datações diferentes, em três materiais distintos: ossos, sedimentos e carvão. Todos à mesma data, entre 22 e 23 mil anos”, contou.

Homens da Lagoa Santa

A arqueóloga Adriana Schmidt Dias, da UFRGS, acredita que o primeiro brasileiro descende de uma das várias correntes migratórias vindas da Ásia, que ocorreram a partir de 15 mil anos atrás. A mais antiga dessas levas de humanos teria chegado ao Brasil há cerca de 12 mil anos e ficado conhecida como Os Homens da Lagoa Santa, nome dado em homenagem ao sítio arqueológico onde foram localizados – o mesmo pesquisado pelo dinamarquês Lund. Desse povo, faz parte o fóssil humano descoberto em 1975, que viveu por aqui há cerca de 11,5 mil anos e foi batizado pelos cientistas de Luzia, a mais antiga brasileira descoberta até hoje.
Mais antiga pintura rupestre da América, encontrada em Lagoa Santa / Crédito: Reprodução

Luzia era uma caçadora e coletora de vegetais, com traços bem distintos dos índios que Pero Vaz de Caminha descreveu em sua carta, em 1500. Em 1999, a Universidade de Manchester, na Inglaterra, reconstituiu o rosto de Luzia: ficaram óbvios os traços negroides, típicos de populações africanas e da Oceania.

Luzia e seus amigos viviam em pequenos grupos e eram nômades, sempre procurando encontrar vegetais e animais de pequeno porte, como o porco-do-mato e a paca, que eles caçavam com a ajuda de lanças e de flechas com pontas feitas de pedras lascadas. Não ficavam mais que duas semanas no mesmo lugar. Por isso, não costumavam enterrar seus mortos. O corpo de Luzia foi encontrado jogado no fundo de uma caverna.

Por volta de 6 mil anos atrás esse povo desapareceu. A explicação para isso é o surgimento de outro grupo de humanos, dessa vez, parecidos com os índios atuais. Eles chegaram em muito maior número e passaram a ocupar a região. As populações se misturaram, segundo Adriana, mas com o tempo as características dos Homens da Lagoa Santa submergiram. Essa nova leva de viajantes chegou a ocupar toda a costa brasileira e o Planalto Central até 2 mil anos atrás.
“Esses bandos chegavam a uma região, montavam acampamento, geralmente em grupos de cinco a dez famílias em pequenas faixas de terra”, diz a pesquisadora. De acordo com ela, eles retiravam da região tudo o que podiam: vegetais, peixes e animais. Assim que esgotavam esses recursos e que os acampamentos apresentavam problemas sanitários, como o aparecimento de insetos em grandes quantidades, iam embora.

Civilização das Conchas

Alguns dos descendentes desses novos habitantes criaram, no litoral do Brasil, uma das civilizações mais características e inusuais do período pré-cabralino. Eles ocuparam do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul entre 6 mil e mil anos atrás, e ficaram conhecidos pelas edificações que erguiam para sepultar seus mortos: os sambaquis. São pilhas de sedimentos, principalmente conchas e ossos de animais, cuidadosamente empilhados e que chegavam a ter 40 metros de altura e mais de 500 metros de comprimento.

A princípio, os arqueólogos acreditavam tratar-se de grandes depósitos funerários, mas, com a descoberta sistemática de novos sítios, ficou provado que os sambaquis eram o centro da vida social desses povos, chamados sambaquieiros. Ali, eles sepultavam seus mortos, realizavam rituais e construíam suas casas.
Crédito: Martha Werneck

“Eles se alimentavam basicamente da pesca e da coleta de frutos do mar, feitas com o auxílio de canoas e redes”, explica o arqueólogo Paulo de Blasis, da USP. O sambaquieiro era baixo, no máximo 1,60 metro. A mortalidade infantil era altíssima, entre 30 e 40% dos corpos encontrados eram de crianças. Quem chegava à idade adulta também não ia muito longe: para os homens a perspectiva de vida era de 25 anos e as mulheres chegavam, no máximo, aos 35. Outro mito que as pesquisas vêm derrubando é que os sambaquieiros eram nômades, indo de um lugar para outro assim que se encerravam os recursos naturais.

“Era uma civilização com estabilidade territorial e populacional. Um conjunto de sambaquis como os do sul de Santa Catarina podia reunir até 3 ou 4 mil habitantes”, conta Paulo. Para ele, uma ocupação dessa montada, por tanto tempo, só seria viável com um alto grau de complexidade social, que deveria incluir a divisão de tarefas e instituição de chefias regionais.
Nos sambaquis foram encontrados também esculturas e ornamentos feitos de pedra polida, que eram colocados junto aos corpos sepultados. Representando animais como o tatu e a baleia, esses objetos demonstram um delicado senso estético, que exigia habilidade especial.

Segundo Dione Bandeira, do Museu Nacional do Sambaqui, em Joinville, SC, é possível que houvesse pessoas designadas para produzi-los, até como algum tipo de ritual. Os sambaquieiros desapareceram há cerca de mil anos, com a chegada de povos agricultores vindos do planalto. “Eles provavelmente foram se afastando cada vez mais de seu local de origem, esquecendo suas tradições e se misturando ao conquistador”, descreve o arqueólogo da USP.

Os povos da Amazônia

A Amazônia foi o berço de culturas avançadas, que viveram mais de mil anos antes de Cabral chegar ao Brasil. Os registros mais antigos da presença dos homens na região foram descobertos pela arqueóloga norte-americana Anna Roosevelt, em 1996. Ela encontrou pinturas rupestres datadas de 11 mil anos, na região de Monte Alegre, PA.

 Na região da Ilha de Marajó, uma importante civilização se desenvolveu entre os anos 400 e 1300 d.C. A civilização marajoara dominava a agricultura e possuía aldeias que chegaram a abrigar 5 ou 6 mil habitantes. Os marajoaras eram excelentes engenheiros e construíram aterros artificiais que se elevavam até 12 metros acima do solo.

“Esses aterros exigiam a mobilização de um grande contingente de mão de obra e uma liderança constituída e respeitada”, afirmou o arqueólogo Eduardo Neves, da USP. Tal requinte se refletia na criação de sua cerâmica. De caráter cerimonial, seus desenhos correspondem ao mundo simbólico e religioso dos marajoaras. Eles desapareceram misteriosamente por volta de 1300.
Crédito: Reprodução

Mas a superpotência da época era a civilização tapajônica, que ocupava a região da atual cidade de Santarém, PA. Mesmo depois do contato com os europeus, ainda era uma das maiores e mais poderosas nações indígenas da Amazônia. Objetos de sua cerâmica foram localizados em lugares distantes, o que indica que havia contato intenso entre os tapajós e tribos vizinhas, incluindo comércio. Segundo Eduardo, havia um poder central exercido por chefe tapajó, reunindo várias tribos vizinhas. E algumas aldeias eram tão populosas que seus caciques podiam mobilizar até 60 mil homens para o combate.

 A Amazônia também foi o ponto de partida para a migração de um povo tecnologicamente avançado e conquistador, que levou ao declínio os brasileiros coletores e caçadores, e que se espalhou de forma inédita pelo país: os tupi. Partindo de onde hoje ficam os estados de Rondônia e do Amazonas, eles deixaram a região em duas levas principais: os tupi-guarani desceram o Rio Paraná e chegaram à região sul; os tupinambá seguiram pelo Rio Amazonas até sua foz e, dali, rumo ao sul pela costa.

Eles viviam em grandes aldeias, cujas populações chegavam a ter milhares de pessoas. “Se organizavam em chefaturas, isto é, uma reunião de tribos em que algumas aldeias seriam mais importantes e teriam influência sobre outras”, explica o professor e historiador Paulo Jobim. Segundo ele, as aldeias funcionavam como cidades, com famílias inteiras, com tios, primos, pais, avós e filhos vivendo numa mesma casa.

“A hierarquia das tribos era baseada no parentesco”, diz. Os espaços comuns desses lugares, normalmente na área central, eram dedicados às práticas religiosas e sociais. Eles conheciam a agricultura, principalmente a de hortaliças, de mandioca e de milho, e produziam cerâmicas práticas, principalmente para cozinhar. A guerra, além de demarcar territórios, era tida como oportunidade para o desenvolvimento de lideranças, que se baseavam sobretudo na coragem, na oratória e nos laços familiares.

 A expectativa de vida era curta, não ultrapassando os 40 anos de idade em média. Por isso, os mais idosos eram muito respeitados, ocupando papel de destaque na sociedade. A divisão do trabalho também era feita por sexos: os homens caçavam, as mulheres coletavam, cuidavam das crianças e do preparo do solo para a agricultura. Além disso, eram as responsáveis pela produção da arte em cerâmica.

 “Os guarani eram um povo conquistador e exclusivista”, descreve o historiador Pedro Schmitz. “Seus parentes tornavam-se aliados, mas outros povos eram considerados inimigos e expulsos, dizimados ou incorporados, às vezes, literalmente, já que eram antropófagos.” Os nossos descendentes que estavam na praia, naquela manhã de 22 de abril de 1500.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Homo sapiens no centro da América do Sul

Sítio perto de Cuiabá indica presença do homem há 27 mil anos em Mato Grosso
MARCOS PIVETTA | ED. 259 | SETEMBRO 2017

Distante cerca de 80 quilômetros (km) a noroeste de Cuiabá, o município mato-grossense de Jangada está colado ao centro geográfico da América do Sul. Para qualquer lado que se ande, a visão do oceano, seja o Pacífico ou o Atlântico, somente aparece depois de percorridos ao menos 1.500 km. Nessa porção do Cerrado, a vegetação é mais densa e a serra das Araras, com altitudes entre 500 metros (m) e 800 m, pontua a paisagem. Em um abrigo sob rochas de difícil acesso, situado em um vale na parte sudeste da cadeia de montanhas, dois paredões calcários preservam um pedaço pouco conhecido da pré-história do Brasil e das Américas. Entre 1984 e 2004, o casal de arqueólogos Denis Vialou e Águeda Vilhena Vialou, do Museu Nacional de História Natural da França, coordenou escavações em duas áreas contíguas de 80 metros quadrados desse refúgio rupestre e encontrou indícios de que o homem moderno teria habitado a região em dois momentos: por volta de 27 mil anos e entre 12 mil e 2 mil anos atrás. Não há ossadas de Homo sapiens no local, mas uma série de vestígios indiretos de sua presença. Como a espécie humana teria se estabelecido em um ponto tão distante do litoral em tempos tão remotos é, no entanto, uma pergunta ainda sem resposta.

Uma síntese dos achados de duas décadas e dos estudos posteriores feitos com material obtido no abrigo Santa Elina, nome do sítio paleoarqueológico, ganhou as páginas da edição de agosto da revista científica Antiquity. As informações do artigo já tinham sido apresentadas em textos e até em livros escritos em português ou francês, mas não em inglês, e em uma revista internacional de peso da arqueologia. No trabalho, a brasileira Águeda e o francês Denis, com o auxílio de colaboradores, resumem os três tipos de vestígios da presença humana encontrados na região e as datações associadas a eles.

O primeiro são fragmentos de pedra que exibem marcas, como serrilhados, retoques e riscos, que só poderiam ter sido produzidas de forma artificial pela mão do homem com o auxílio de alguma ferramenta lítica. O segundo são ossos de dois exemplares de preguiças-gigantes do gênero Glossotherium descobertos em camadas geológicas com grande quantidade de artefatos de pedra trabalhados pelos habitantes do abrigo. “Encontramos dois adornos, com furos nas extremidades, feitos de osteodermas de preguiça”, comenta Águeda. Osteodermas são placas ósseas, semelhantes a escamas, que ficavam no dorso do animal. O terceiro tipo de vestígios compreende restos de fogueiras, de origem antrópica, presentes ao longo das camadas associadas à ocupação humana.



O material obtido em Santa Elina está guardado no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), onde o casal de arqueólogos dá aulas durante dois meses por ano como professores convidados. Alguns de seus colaboradores brasileiros são também pesquisadores da instituição paulista, como os arqueólogos Levy Figuti e Veronica Wesolowski de Aguiar e Santos. O acervo do abrigo rupestre conta com 4 mil peças da indústria lítica, além de mais de 200 ossos de preguiças-gigantes. “O sítio apresenta, ainda, cerca de mil pinturas rupestres”, destaca Denis.

Nos paredões que protegem o abrigo, os desenhos, geralmente de figuras humanas, animais ou seres disformes, apresentam tons avermelhados, decorrentes do uso de hematita, principal forma do minério de ferro. A hematita era levada para o interior do sítio e esfregada contra blocos de pedra que formavam uma espécie de calçamento interno. Dessa forma, o homem pré-histórico obtinha o pigmento para seus desenhos. Esses blocos, alguns deles guardados no MAE-USP, apresentam ainda hoje manchas da cor do minério de ferro.
Diferentes amostras retiradas de Santa Elina, cujas escavações atingiram em alguns pontos 4 m de profundidade, foram submetidas a três técnicas de datação e os resultados foram convergentes. Mais de 50 amostras de carvão, restos de fogueiras por humanos encontrados nas camadas mais superficiais do sítio, foram datadas por carbono 14. A idade da maioria das amostras variou entre 2 mil e 12 mil anos e seis atingiram entre 10 mil e 20 mil anos. Lascas de madeira e microcarvões, provenientes de escavações mais profundas, também foram datados por esse método clássico e atingiram por volta de 27 mil anos. Dois ossos da megafauna, um retirado de uma camada mais superficial e outro oriundo de sedimentos mais profundos, foram submetidos ao chamado método urânio/tório. O primeiro obteve a idade de 13 mil anos e o segundo, de 27 mil anos. Três amostras de sedimentos contendo quartzo de camadas distintas (2,30 m, 3 m e 3,85 m de profundidade) foram datadas por termoluminescência óptica. As idades atingiram, respectivamente, 18 mil, 25 mil e 27 mil anos.

Escritos de índios
 
O casal franco-brasileiro tomou conhecimento da existência do abrigo Santa Elina no início dos anos 1980. Durante os meses que costumam passar no Brasil, Águeda e Denis foram convidados por um conhecido de Cuiabá para visitar sua fazenda em Mato Grosso, onde havia “escritos de índios” em pontos isolados da serra das Araras. A viagem foi proveitosa e rendeu a descoberta do abrigo rupestre recheado de pinturas e com rico material paleoarqueológico. Paralelamente às escavações em Santa Elina, a dupla, sempre com a colaboração de colegas e alunos de universidades brasileiras e francesas, também iniciou trabalhos de campo em outra parte de Mato Grosso. Perto de Rondonópolis, cerca de 300 km ao sul do município de Jangada, há um conjunto de mais de 170 sítios líticos denominado Cidade de Pedra. Além de pinturas, a região tem cerâmicas, adornos feitos com pedaços de hematita e uma abundância de resquícios de fogueiras antrópicas da pré-história. “Datamos carvões dessas fogueiras e os resultados indicam uma presença humana na Cidade de Pedra entre 6 mil e 2 mil anos atrás”, esclarece Águeda.

© REPRODUÇÃO DO LIVRO PRÉ-HISTÓRIA DE MATO GROSSO – VOL. 1 – SANTA ELINA | LÉO RAMOS CHAVES 
Adorno de 25 mil anos feito com osso de preguiça e artefato lítico modificado pelo homem.

A cronologia proposta por Águeda e Denis para os sítios mato-grossenses, em especial para o abrigo Santa Elina, sinaliza que o Homo sapiens pode ter se estabelecido muito antes do que se pensava no centro da América do Sul. No Brasil, apenas a região do Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, no Piauí, apresenta indícios da presença humana tão ou mais antigos do que os de Santa Elina.

Desde a década de 1980, a arqueóloga brasileira Niède Guidon sustenta que essa região do Nordeste, onde existem 1.350 sítios arqueológicos conhecidos, teria sido povoada pelo homem algumas dezenas de milhares de anos ou até mesmo 100 mil anos atrás.

Durante muito tempo, as datações mais antigas defendidas por Niède, que se baseavam em análises de carvão de fogueira e posteriormente de material lítico trabalhado pelo homem, foram alvo de grande polêmica. Nos últimos anos, novos estudos apontam que a presença humana no Piauí parece realmente ultrapassar ao menos os 20 mil anos. “Não há nenhum problema em haver datações muito antigas em vários pontos das Américas, como é o caso de Santa Elina”, comenta Niède, diretora-presidente da Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), entidade civil que administra o parque em cooperação com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Mudança de paradigma
 
A cronologia da chegada do Homo sapiens às Américas, o último continente a ser conquistado pelo homem moderno, tem passado por grandes revisões nos últimos 15 anos. “Houve uma mudança de paradigma”, explica a arqueóloga Adriana Schmidt Dias, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “A ideia difundida por colegas norte-americanos de que a chamada cultura Clovis fora a primeira das Américas atualmente se mostra superada pela descoberta de sítios mais antigos em várias partes do continente. Hoje as revistas científicas estão mais abertas a trabalhos que reforçam essa linha.” Conhecida fundamentalmente por meio das pontas de pedra resgatadas em localidades do estado do Novo México, a cultura Clovis apresenta sítios que foram datados em, no máximo, 13 mil anos. Sua suposta primazia em termos de antiguidade se casava com a hipótese da chegada, mais ou menos nessa mesma época, do Homo sapiens ao continente americano via Beríngia, antiga porção de terra firme que conectava a Sibéria ao Alasca, e sua posterior dispersão pelas Américas por rotas internas.

© REPRODUÇÃO DO LIVRO PRÉ-HISTÓRIA DE MATO GROSSO – VOL. 2 – CIDADE DE PEDRA
Pintura rupestre de um dos 170 sítios pré-históricos da Cidade de Pedra, perto de Rondonópolis.

Enquanto essa abordagem predominou, sítios arqueológicos com indícios de serem mais antigos do que Clovis ou que não reforçavam a visão da entrada do homem moderno nas Américas pelo Alasca eram vistos com extrema desconfiança. O sítio chileno de Monte Verde tem sido, por exemplo, alvo de discussões acaloradas entre os arqueólogos desde a década de 1970, quando saíram os primeiros dados insinuando a presença do homem no sul do continente há 14,5 mil anos. A mais recente revisão do status de Monte Verde ocorreu em novembro de 2015, quando um estudo na revista PLOS ONE datou artefatos de pedra modificados por humanos em 18,5 mil anos.

Águeda e Denis evitam falar sobre como o homem teria chegado a Santa Elina, no coração da América do Sul, há mais de 25 mil anos. Devido à sua localização, o abrigo funciona como um refúgio natural em meio às elevações da cadeia de montanhas. É provável que a região tenha sido acessível por navegação fluvial desde tempos remotos, pois a serra das Araras está a 30 km do rio Cuiabá, um importante afluente da bacia do Paraná-Paraguai. “Não temos sítios arqueológicos de 25 mil anos em número suficiente nas Américas para esboçar uma rota provável”, diz Denis. “O que sabemos é que, há 10 mil anos, o homem já estava presente em todo o continente.”

Um levantamento publicado em 2013 na revista científica Quaternary International indica que, entre 13 mil e 8 mil anos atrás, o homem tinha se estabelecido em todas as grandes regiões e biomas do Brasil. O trabalho contabilizou dados de 90 sítios e 277 datações. “O homem provavelmente entrou nas Américas há pelo menos 18 mil anos”, sugere Adriana Dias, autora do estudo ao lado dos arqueólogos Lucas Bueno, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e James Steele, do University College London, no Reino Unido. “Mas a ocupação efetiva de todo o continente ocorreu por volta de 12 mil anos. Santa Elina é uma luzinha piscando no painel da colonização que atesta a possibilidade de ter havido um povoamento antigo no centro da América do Sul.”

Artigo científico
 
VIALOU, D. et al. Peopling South America’s centre: The late Pleistocene site of Santa Elina. Antiquity. vol. 91, 358, p. 865-84. ago. 2017