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segunda-feira, 20 de maio de 2019

A estufa de Araguainha

Queda de meteorito no Mato Grosso há 250 milhões de anos pode ter liberado metano suficiente para provocar um aquecimento global e causar a maior extinção de espécies conhecida
Sandro Castelli
 
No último meio bilhão de anos houve cinco grandes extinções em massa na Terra. A mais recente e também mais famosa ocorreu cerca de 65 milhões de anos atrás, matou 75% de todas as espécies de vida e incluiu entre suas vítimas fatais os dinossauros. Os impactos climáticos causados pela queda de um meteorito que abriu uma cratera de 180 quilômetros perto da costa do que hoje é o México costumam ser apontados como a provável causa dessa mortandade em larga escala, que marca o fim do período Cretáceo. Mas esse não foi o episódio mais traumático para a biodiversidade do planeta.
 
Há pouco mais de 250 milhões de anos, quando ainda não havia dinossauros ou mamíferos e todos os continentes atuais estavam unidos no antigo supercontinente Pangeia, 96% das espécies da Terra sucumbiram em razão de um ou vários eventos trágicos e misteriosos

Segundo um estudo recém-publicado por pesquisadores da Austrália, Reino Unido e Brasil na revista científica Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, a maior extinção conhecida, que sinaliza o término do período Permiano, pode ter sido desencadeada pelos efeitos indiretos decorrentes da abertura de uma cratera de 40 quilômetros de diâmetro no território hoje dividido pelas cidades de Araguainha e Ponte Branca, no sudeste do Mato Grosso, perto da divisa com Goiás.
 
A colisão em si do meteorito de aproximadamente 4 quilômetros de diâmetro que criou essa enorme cicatriz no relevo do Brasil Central, conhecida como domo ou cratera de Araguainha, não tinha potencial para acabar com a vida numa escala global. 

A energia produzida pelo impacto da rocha celeste com a superfície terrestre deve ter destruído imediatamente tudo que estava a até 250 quilômetros ao seu redor. “A queda do meteorito em Araguainha não tinha capacidade para provocar uma extinção global em massa”, afirma o geólogo Eric Tohver, da University of Western Australia, primeiro autor do trabalho, no qual colabora com uma equipe da Universidade de São Paulo (USP). “Mas seus efeitos indiretos sim.”

Terremotos e tsunamis
 
Uma sucessão de eventos decorrentes do impacto pode ter provocado em questão de dias um rápido e fatal aquecimento global. A natureza e a abrangência da área de ocorrência de certos depósitos sedimentares parecem indicar que eles foram originados por tsunamis. Outras evidências geológicas sugerem que podem ter ocorrido muitos terremotos com magnitude de até 9,9 graus na escala Richter num raio de mil quilômetros em torno da cratera. Os intensos tremores de terra teriam fraturado as rochas ricas em carbono orgânico da Formação Irati, da qual faz parte a região de Araguainha, e liberado uma quantidade descomunal de um gás de efeito estufa, o metano.
carlos roberto de souza filho / unicamp 
 
De acordo com os cálculos dos pesquisadores, em questão de dias podem ter sido liberadas na atmosfera 1.600 gigatoneladas de metano, quase cinco vezes mais do que o despejado no planeta desde o início da Revolução Industrial, há 250 anos. Essa ideia se apoia numa descoberta recente feita pelos pesquisadores. As rochas da região apresentam uma assinatura isotópica estranha: são empobrecidas em carbono 12 e ricas em carbono 13. 
 
A explicação para essa anomalia é que elas liberaram uma grande quantidade de metano, que tem carbono em sua composição, para a atmosfera.
Se o ar foi repentinamente tomado por esse gás, o aquecimento global em Pangeia – que já tinha como marca registrada um clima de extremos, em especial em suas áreas áridas mais centrais, onde as temperaturas ultrapassavam os 60ºC – teria sido tão brusco que poucas formas de vida conseguiram se adaptar às novas condições ambientais. “Em geral, a grande extinção do fim do Permiano costuma ser atribuída a alterações decorrentes de vulcanismos e da liberação de lava”, diz o geólogo Ricardo Trindade, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, outro autor do estudo, parcialmente financiado pela FAPESP. “Mas nossa hipótese indica que a cratera de Araguainha pode ter tido um papel importante, ainda que indireto, nesse processo.”

Num primeiro momento, a possibilidade de um meteorito ter sido o agente detonador de uma mudança climática global que levou ao maior processo de extinção de vida na Terra faz lembrar a saga do fim dos dinossauros. Então, a mesma história se repetiu nas duas extinções, na do Permiano e na do Cretáceo? Em ambas as situações há semelhanças: rochas caídas do espaço e as respectivas crateras terrestres podem ter ocasionado mudanças climáticas que estariam envolvidas nos dois processos de extinção. Mas nem tudo teria sido exatamente igual. A dinâmica de cada evento teria sido única.
Vista da área da cratera: região rica em depósitos de carbono orgânicoeric tohver 

O meteorito que, há 65 milhões de anos, caiu na península mexicana de Yucatán tinha pelo menos 10 quilômetros de diâmetro e deu origem a uma cratera, a de Chicxulub – quase cinco vezes maior do que a de Araguainha. A energia produzida apenas pelo impacto da rocha celeste foi milhões de vezes maior do que a de uma bomba atômica. Por si só, a queda do meteorito representou uma grave alteração na dinâmica do planeta. A quantidade de poeira produzida pela explosão deve ter bloqueado a chegada dos raios solares sobre a Terra e jogado o planeta num cenário de inverno nuclear, de escuridão e de frio intenso.

O quadro da grande extinção de Pangeia teria algumas peculiaridades, a se levar em conta a nova hipótese formulada por Tohver, Trindade e seus colegas. O impacto direto do meteorito de Araguainha teria tido apenas um efeito destrutivo regional. As consequências sobre o clima global teriam sido causadas pela série de terremotos que fez as rochas da Formação Irati liberarem metano e provocarem o efeito estufa exacerbado. Nesse caso, a grande extinção do Permiano teria sido causada pelo aquecimento do clima, enquanto a do Cretáceo seria decorrente do esfriamento. “Foi azar o meteorito ter caído numa região rica em carbono orgânico”, afirma Tohver.
Cones de estillhaçamento em Araguainha: evidências de que meteorito abriu a cratera
Cones de estillhaçamento em Araguainha: evidências de que meteorito abriu a crateraeric tohver 

A nova idade da cratera
 
Até o ano passado, seria impensável sequer associar a grande extinção do Permiano a eventuais alterações decorrentes do surgimento do domo de Araguainha, a maior e mais antiga cratera brasileira confirmadamente aberta pela queda de um meteorito (ver texto na página 21 sobre as crateras até hoje descobertas no país). A idade estimada de Araguainha era de 245 milhões de anos, ou seja, os geólogos acreditavam que a cratera teria se formado depois da grande mortandade de espécies. No entanto, uma datação por técnicas mais modernas, feita por Tohver e os brasileiros e publicada na revista Geochimica et Cosmochimica Acta de junho de 2012, chegou a uma idade mais precisa para a cicatriz deixada pelo meteorito no Brasil Central: 254,7 milhões de anos, com uma margem de erro de 2,5 milhões de anos para cima ou para baixo. Como a extinção do Permiano ocorreu há 252,2 milhões de anos, a cratera de Araguainha talvez tenha se originado um pouco antes da grande mortandade de espécies. “Não há nenhuma outra cratera no mundo que seja dessa mesma época, da transição do Permiano para o Triássico”, explica o geólogo Cristiano Lana, da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), outro autor do trabalho.

Procurar as origens de um fenômeno de escala tão grande como o aniquilamento de quase toda a vida sobre a Terra há 250 milhões de anos não é uma tarefa trivial e qualquer hipótese aventada sempre é passível de críticas e polêmicas. O geólogo Alvaro Penteado Crósta, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos maiores estudiosos de crateras no país, acredita que ainda são necessários mais dados para realmente associar a extinção do Permiano a efeitos indiretos do surgimento do domo de Araguainha. “Trata-se de uma hipótese interessante. Contudo, não há evidências de que a quantidade de matéria orgânica presente nas rochas da região (Formação Irati) tenha sido suficiente para liberar tamanha quantidade de metano”, diz Crósta. “Além disso, o processo de liberação do metano a partir de ondas sísmicas proposto pelos autores necessitaria ser mais bem estudado, assim como a proposta de que tsunamis de grande magnitude teriam se propagado a distâncias de vários milhares de quilômetros em um ambiente marinho de águas rasas, o que não seria de se esperar.” Segundo o geólogo Claudio Riccomini, do Instituto de Geociências (IGc) da USP, outro autor do trabalho sobre o possível papel de Araguainha na extinção do Permiano, a Formação Irati apresenta teores de até 20% de carbono orgânico que tornam razoável formular essa hipótese.
Ossos fossilizados: amostra da vida local
Ossos fossilizados: amostra da vida localeric tohver 

Alguns estudiosos sustentam que a extinção não teve uma causa, mas talvez várias, como a queda de meteoritos, a atividade vulcânica e variações no nível do mar. “Para os que defendem uma multicausalidade para o fenômeno, teria sido justamente a somatória dos efeitos, e não necessariamente a intensidade de cada um, a responsável pela magnitude dessa grande extinção. Nesse caso, porém, a principal dificuldade é demonstrar o sincronismo entre as várias causas e determinar o momento em que foi atingido o limiar que levou à extinção”, diz o paleontólogo Cesar Schultz, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Nesse tipo de contexto, qualquer uma das causas poderia ter sido ‘a gota d’água’ que fez o copo transbordar. Mesmo que se possa questionar se a intensidade do impacto de Araguainha teria sido suficiente para, isoladamente, causar a extinção, ele poderia ter sido essa ‘gota d’água’.” Entretanto, Schultz ressalta que a diferença de tempo entre a idade atribuída à queda do meteorito em Araguainha e a grande mortandade de espécies do Permiano está no limite da margem de erro do método utilizado por Tohver e o grupo da USP. Isso ainda é um complicador, diz o paleontólogo, uma vez que os autores propõem uma relação imediata de causa e efeito entre o impacto da rocha extraterrestre e as mudanças climáticas que levaram à extinção.

Projeto
 
Caracterização geofísica e petrofísica da estrutura de impacto de Araguainha (nº 2005/51530-3); Modalidade Linha Regular de Auxílio a Projeto de Pesquisa; Coord. Yára Regina Marangoni/IAG-USP; Investimento R$ 217.201,69 (FAPESP).

Artigos científicos
 
TOHVER, E. et al. Shaking a methane fizz: Seismicity from the Araguainha impact event and the Permian-Triassic global carbon isotope record. Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology. Publicado on-line em 18 jun. 2013.
TOHVER, E. et al. Geochronological constraints on the age of a Permo-Triassic impact event: U-Pb and 40Ar/39Ar results for the 40 km Araguainha structure of central Brazil. Geochimica et Cosmochimica Acta. v. 86, n. 1, p. 214-27. jun. 2012.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Homo sapiens no centro da América do Sul

Sítio perto de Cuiabá indica presença do homem há 27 mil anos em Mato Grosso
MARCOS PIVETTA | ED. 259 | SETEMBRO 2017

Distante cerca de 80 quilômetros (km) a noroeste de Cuiabá, o município mato-grossense de Jangada está colado ao centro geográfico da América do Sul. Para qualquer lado que se ande, a visão do oceano, seja o Pacífico ou o Atlântico, somente aparece depois de percorridos ao menos 1.500 km. Nessa porção do Cerrado, a vegetação é mais densa e a serra das Araras, com altitudes entre 500 metros (m) e 800 m, pontua a paisagem. Em um abrigo sob rochas de difícil acesso, situado em um vale na parte sudeste da cadeia de montanhas, dois paredões calcários preservam um pedaço pouco conhecido da pré-história do Brasil e das Américas. Entre 1984 e 2004, o casal de arqueólogos Denis Vialou e Águeda Vilhena Vialou, do Museu Nacional de História Natural da França, coordenou escavações em duas áreas contíguas de 80 metros quadrados desse refúgio rupestre e encontrou indícios de que o homem moderno teria habitado a região em dois momentos: por volta de 27 mil anos e entre 12 mil e 2 mil anos atrás. Não há ossadas de Homo sapiens no local, mas uma série de vestígios indiretos de sua presença. Como a espécie humana teria se estabelecido em um ponto tão distante do litoral em tempos tão remotos é, no entanto, uma pergunta ainda sem resposta.

Uma síntese dos achados de duas décadas e dos estudos posteriores feitos com material obtido no abrigo Santa Elina, nome do sítio paleoarqueológico, ganhou as páginas da edição de agosto da revista científica Antiquity. As informações do artigo já tinham sido apresentadas em textos e até em livros escritos em português ou francês, mas não em inglês, e em uma revista internacional de peso da arqueologia. No trabalho, a brasileira Águeda e o francês Denis, com o auxílio de colaboradores, resumem os três tipos de vestígios da presença humana encontrados na região e as datações associadas a eles.

O primeiro são fragmentos de pedra que exibem marcas, como serrilhados, retoques e riscos, que só poderiam ter sido produzidas de forma artificial pela mão do homem com o auxílio de alguma ferramenta lítica. O segundo são ossos de dois exemplares de preguiças-gigantes do gênero Glossotherium descobertos em camadas geológicas com grande quantidade de artefatos de pedra trabalhados pelos habitantes do abrigo. “Encontramos dois adornos, com furos nas extremidades, feitos de osteodermas de preguiça”, comenta Águeda. Osteodermas são placas ósseas, semelhantes a escamas, que ficavam no dorso do animal. O terceiro tipo de vestígios compreende restos de fogueiras, de origem antrópica, presentes ao longo das camadas associadas à ocupação humana.



O material obtido em Santa Elina está guardado no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), onde o casal de arqueólogos dá aulas durante dois meses por ano como professores convidados. Alguns de seus colaboradores brasileiros são também pesquisadores da instituição paulista, como os arqueólogos Levy Figuti e Veronica Wesolowski de Aguiar e Santos. O acervo do abrigo rupestre conta com 4 mil peças da indústria lítica, além de mais de 200 ossos de preguiças-gigantes. “O sítio apresenta, ainda, cerca de mil pinturas rupestres”, destaca Denis.

Nos paredões que protegem o abrigo, os desenhos, geralmente de figuras humanas, animais ou seres disformes, apresentam tons avermelhados, decorrentes do uso de hematita, principal forma do minério de ferro. A hematita era levada para o interior do sítio e esfregada contra blocos de pedra que formavam uma espécie de calçamento interno. Dessa forma, o homem pré-histórico obtinha o pigmento para seus desenhos. Esses blocos, alguns deles guardados no MAE-USP, apresentam ainda hoje manchas da cor do minério de ferro.
Diferentes amostras retiradas de Santa Elina, cujas escavações atingiram em alguns pontos 4 m de profundidade, foram submetidas a três técnicas de datação e os resultados foram convergentes. Mais de 50 amostras de carvão, restos de fogueiras por humanos encontrados nas camadas mais superficiais do sítio, foram datadas por carbono 14. A idade da maioria das amostras variou entre 2 mil e 12 mil anos e seis atingiram entre 10 mil e 20 mil anos. Lascas de madeira e microcarvões, provenientes de escavações mais profundas, também foram datados por esse método clássico e atingiram por volta de 27 mil anos. Dois ossos da megafauna, um retirado de uma camada mais superficial e outro oriundo de sedimentos mais profundos, foram submetidos ao chamado método urânio/tório. O primeiro obteve a idade de 13 mil anos e o segundo, de 27 mil anos. Três amostras de sedimentos contendo quartzo de camadas distintas (2,30 m, 3 m e 3,85 m de profundidade) foram datadas por termoluminescência óptica. As idades atingiram, respectivamente, 18 mil, 25 mil e 27 mil anos.

Escritos de índios
 
O casal franco-brasileiro tomou conhecimento da existência do abrigo Santa Elina no início dos anos 1980. Durante os meses que costumam passar no Brasil, Águeda e Denis foram convidados por um conhecido de Cuiabá para visitar sua fazenda em Mato Grosso, onde havia “escritos de índios” em pontos isolados da serra das Araras. A viagem foi proveitosa e rendeu a descoberta do abrigo rupestre recheado de pinturas e com rico material paleoarqueológico. Paralelamente às escavações em Santa Elina, a dupla, sempre com a colaboração de colegas e alunos de universidades brasileiras e francesas, também iniciou trabalhos de campo em outra parte de Mato Grosso. Perto de Rondonópolis, cerca de 300 km ao sul do município de Jangada, há um conjunto de mais de 170 sítios líticos denominado Cidade de Pedra. Além de pinturas, a região tem cerâmicas, adornos feitos com pedaços de hematita e uma abundância de resquícios de fogueiras antrópicas da pré-história. “Datamos carvões dessas fogueiras e os resultados indicam uma presença humana na Cidade de Pedra entre 6 mil e 2 mil anos atrás”, esclarece Águeda.

© REPRODUÇÃO DO LIVRO PRÉ-HISTÓRIA DE MATO GROSSO – VOL. 1 – SANTA ELINA | LÉO RAMOS CHAVES 
Adorno de 25 mil anos feito com osso de preguiça e artefato lítico modificado pelo homem.

A cronologia proposta por Águeda e Denis para os sítios mato-grossenses, em especial para o abrigo Santa Elina, sinaliza que o Homo sapiens pode ter se estabelecido muito antes do que se pensava no centro da América do Sul. No Brasil, apenas a região do Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, no Piauí, apresenta indícios da presença humana tão ou mais antigos do que os de Santa Elina.

Desde a década de 1980, a arqueóloga brasileira Niède Guidon sustenta que essa região do Nordeste, onde existem 1.350 sítios arqueológicos conhecidos, teria sido povoada pelo homem algumas dezenas de milhares de anos ou até mesmo 100 mil anos atrás.

Durante muito tempo, as datações mais antigas defendidas por Niède, que se baseavam em análises de carvão de fogueira e posteriormente de material lítico trabalhado pelo homem, foram alvo de grande polêmica. Nos últimos anos, novos estudos apontam que a presença humana no Piauí parece realmente ultrapassar ao menos os 20 mil anos. “Não há nenhum problema em haver datações muito antigas em vários pontos das Américas, como é o caso de Santa Elina”, comenta Niède, diretora-presidente da Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), entidade civil que administra o parque em cooperação com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Mudança de paradigma
 
A cronologia da chegada do Homo sapiens às Américas, o último continente a ser conquistado pelo homem moderno, tem passado por grandes revisões nos últimos 15 anos. “Houve uma mudança de paradigma”, explica a arqueóloga Adriana Schmidt Dias, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “A ideia difundida por colegas norte-americanos de que a chamada cultura Clovis fora a primeira das Américas atualmente se mostra superada pela descoberta de sítios mais antigos em várias partes do continente. Hoje as revistas científicas estão mais abertas a trabalhos que reforçam essa linha.” Conhecida fundamentalmente por meio das pontas de pedra resgatadas em localidades do estado do Novo México, a cultura Clovis apresenta sítios que foram datados em, no máximo, 13 mil anos. Sua suposta primazia em termos de antiguidade se casava com a hipótese da chegada, mais ou menos nessa mesma época, do Homo sapiens ao continente americano via Beríngia, antiga porção de terra firme que conectava a Sibéria ao Alasca, e sua posterior dispersão pelas Américas por rotas internas.

© REPRODUÇÃO DO LIVRO PRÉ-HISTÓRIA DE MATO GROSSO – VOL. 2 – CIDADE DE PEDRA
Pintura rupestre de um dos 170 sítios pré-históricos da Cidade de Pedra, perto de Rondonópolis.

Enquanto essa abordagem predominou, sítios arqueológicos com indícios de serem mais antigos do que Clovis ou que não reforçavam a visão da entrada do homem moderno nas Américas pelo Alasca eram vistos com extrema desconfiança. O sítio chileno de Monte Verde tem sido, por exemplo, alvo de discussões acaloradas entre os arqueólogos desde a década de 1970, quando saíram os primeiros dados insinuando a presença do homem no sul do continente há 14,5 mil anos. A mais recente revisão do status de Monte Verde ocorreu em novembro de 2015, quando um estudo na revista PLOS ONE datou artefatos de pedra modificados por humanos em 18,5 mil anos.

Águeda e Denis evitam falar sobre como o homem teria chegado a Santa Elina, no coração da América do Sul, há mais de 25 mil anos. Devido à sua localização, o abrigo funciona como um refúgio natural em meio às elevações da cadeia de montanhas. É provável que a região tenha sido acessível por navegação fluvial desde tempos remotos, pois a serra das Araras está a 30 km do rio Cuiabá, um importante afluente da bacia do Paraná-Paraguai. “Não temos sítios arqueológicos de 25 mil anos em número suficiente nas Américas para esboçar uma rota provável”, diz Denis. “O que sabemos é que, há 10 mil anos, o homem já estava presente em todo o continente.”

Um levantamento publicado em 2013 na revista científica Quaternary International indica que, entre 13 mil e 8 mil anos atrás, o homem tinha se estabelecido em todas as grandes regiões e biomas do Brasil. O trabalho contabilizou dados de 90 sítios e 277 datações. “O homem provavelmente entrou nas Américas há pelo menos 18 mil anos”, sugere Adriana Dias, autora do estudo ao lado dos arqueólogos Lucas Bueno, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e James Steele, do University College London, no Reino Unido. “Mas a ocupação efetiva de todo o continente ocorreu por volta de 12 mil anos. Santa Elina é uma luzinha piscando no painel da colonização que atesta a possibilidade de ter havido um povoamento antigo no centro da América do Sul.”

Artigo científico
 
VIALOU, D. et al. Peopling South America’s centre: The late Pleistocene site of Santa Elina. Antiquity. vol. 91, 358, p. 865-84. ago. 2017

Vermes nada insignificantes

Túneis fossilizados sugerem que organismos complexos surgiram antes da explosão de diversidade do período Cambriano
MARIA GUIMARÃES | ED. 260 | OUTUBRO 2017

Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: Juliana Leme
00:00 / 10:51
Marcas muito discretas, como fiapos embutidos em rochas retiradas de pedreiras na região de Corumbá, em Mato Grosso do Sul, por anos passaram despercebidas. “Nem enxergávamos”, lembra a paleontóloga Juliana Leme, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc-USP). Ela começou a trabalhar com esse material em 2010, estudando os fósseis dos primeiros seres vivos com esqueleto do planeta (ver Pesquisa FAPESP nº 199). Nos últimos anos, porém, ficou claro que ali há um tesouro ainda mais valioso: os tais fiapos são pistas deixadas por seres mais complexos do que se esperava entre 541 milhões e 555 milhões de anos atrás, quando se imaginava existir apenas organismos bem mais simples.

Os fiapos são, de acordo com artigo publicado em setembro na revista Nature Ecology & Evolution, túneis deixados por vermes muito pequenos conhecidos como nematoides. Naquele momento de evolução da vida, caracterizado por organismos moles habitando a superfície, foi uma surpresa encontrar indícios de vermes que se locomoviam por contração muscular e escavavam o sedimento, mesmo que chegassem apenas a alguns milímetros (mm) de profundidade. É o registro mais antigo de fósseis de animais conhecidos como meiofauna, seres de no máximo 1 mm que habitam o sedimento no fundo do mar ou em corpos de água doce.

A região de Corumbá, agora parte do Pantanal, naquela época era mar. As rochas da região já eram muito procuradas pelos paleontólogos por conterem vestígios da fauna conhecida como biota de Ediacara, que começou a surgir entre 580 milhões e 560 milhões de anos atrás, como os gêneros Corumbella e Cloudina. Por isso, quando o paleobiólogo britânico Martin Brasier, da Universidade de Oxford (Reino Unido), veio à USP em 2012 como professor visitante, ele foi visitar a área e levou seu então aluno de mestrado, Luke Parry. Eles também não enxergaram os sutis riscos nas amostras de rocha que levaram para continuar e aprofundar os estudos.

De volta à Inglaterra, Parry examinou as amostras usando a técnica de microtomografia tridimensional por raios X e então enxergou os túneis que chegam a mergulhar 7 mm na superfície, atravessando camadas de sedimento. Mais do que isso, as marcas feitas pelos antigos moradores dos túneis indicam o tipo de movimento que faziam, deixando espaços ligeiramente mais alargados, como se fossem gomos. Trata-se, segundo os pesquisadores, de cicatrizes de contrações musculares, marcas de organismos classificados como bilaterais, já portadores de certa complexidade morfológica. Os túneis são preenchidos com pirita, um material diferente da camada de sedimentos externa, indicando que ali havia muco orgânico.

O achado era surpreendente em rochas da Formação Guaicurus, do início do Cambriano. Nessa época, 541 milhões de anos atrás, começou a grande diversificação conhecida como Explosão Cambriana da Vida, quando surgiu boa parte dos filos que deram origem à biodiversidade atual. O orientador, Brasier, faleceu em 2014 em um acidente, mas Parry continuou o trabalho e este ano terminou o doutorado. É ele o primeiro autor do artigo agora publicado.

Em 2016, em parceria com o paleobiólogo Alex Liu, da Universidade de Cambridge, Parry e os pesquisadores brasileiros encontraram vestígios dos mesmos organismos em amostras retiradas de outra camada, mais antiga, na Formação Tamengo. A descoberta foi mais surpreendente ainda, já que os fósseis ali armazenados são mais antigos e, ainda por cima, podem ser datados graças à presença de cinzas vulcânicas coletadas pelo geólogo Paulo Boggiani, do IGc. Essa datação, considerada confiável, também foi feita na Inglaterra e atesta a existência desses organismos antes do Cambriano. Camadas de cinzas vulcânicas ainda não foram encontradas na Formação Guaicurus, o que torna mais complicada a datação de fósseis encontrados nela.

De volta ao passado
 
Como não se pode falar em comprovação em ciência, sobretudo quando se trata de acontecimentos tão antigos, os pesquisadores são cautelosos. “Se nossa interpretação estiver correta, significa que já havia organismos complexos antes da Explosão Cambriana da Vida”, sugere Juliana, da USP. Esses animais já estariam modificando o ambiente ao perfurar o sedimento e assim levar oxigênio para as camadas internas, possivelmente tornando o meio mais hospitaleiro para a colonização por outras formas de vida. É o que o biólogo Cleber Diniz pretende investigar mais a fundo durante o doutorado em curso, sob orientação de Juliana. “Eu estava estudando Corumbella, mas descobri que havia algo muito mais desconhecido para explorar”, conta. Ele já fez uma coleta detalhada, camada por camada, em pedreiras da região, e já sabe onde estão os vestígios de nematoides.

Nos próximos anos, um grupo de cerca de 15 docentes brasileiros e estrangeiros, e seus estudantes, devem esmiuçar esses achados no âmbito de um projeto de pesquisa coordenado pelo geólogo Ricardo Trindade, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. Por enquanto, Juliana comemora o fato de hoje o Brasil estar no mapa dos estudos do Pré-Cambriano. Literalmente: no início da colaboração entre o grupo da USP e os colegas do Reino Unido, Mato Grosso do Sul não era considerado importante para se entender esse momento geológico.

Projeto
 
O Sistema Terra e a evolução da vida durante o Neoproterozoico (nº 16/06114-6). Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Ricardo Ivan Ferreira da Trindade (USP); Investimento R$ 4.305.689,93.

Artigo científico
 
PARRY, L. A. et al. Ichnological evidence for meiofaunal bilaterians from the terminal Ediacaran and earliest Cambrian of Brazil. Nature Ecology & Evolution. n. 1, p. 1455-64. 11 set. 2017.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mais um galho na árvore dos primatas

Descoberta nova espécie de macaco, restrita a uma pequena área no noroeste do Mato Grosso. Pesquisadores apontam que o achado pode ajudar a valorizar a única reserva extrativista do estado.
Por: Mariana Ferraz
Publicado em 14/11/2011 | Atualizado em 14/11/2011
Mais um galho na árvore dos primatas
Cauda de tons laranjas e marrons chamou a atenção do pesquisador, que logo imaginou que se tratava de uma nova espécie de macaco. (foto: Julio Dalponte) 
 
A descoberta de uma nova espécie de macaco na Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt, noroeste do Mato Grosso, é mais uma confirmação da enorme diversidade de primatas na Amazônia e do quanto essa diversidade permanece pouco explorada.
De distribuição aparentemente restrita à reserva, a espécie integra o gênero Callicebus, conhecido localmente como zogue-zogue, e ainda não recebeu seu nome científico, uma vez que o processo de descrição continua em andamento.

Os créditos da descoberta vão para os biólogos Júlio Dalponte, diretor executivo de uma empresa de serviços ambientais, e José de Souza e Silva Jr., do Museu Paraense Emílio Goeldi.
Dalponte conta que os tons laranjas e marrons da cauda do animal chamaram sua atenção em meio a folhagem. "Quando vamos para o campo, temos uma imagem na cabeça do que pode ser encontrado no local e ficamos atentos a essas características. Assim, quando vi as cores da cauda do animal imaginei logo que se tratava de uma nova espécie."

O macaco recém-descoberto é de pequeno porte, como saguis e micos, o que o torna incapaz de atravessar rios com margens distantes cujas árvores não se encostam nas copas. Os pesquisadores acreditam que o fato pode ajudar a entender a distribuição do animal.

"Espécies do gênero Callicebus são restritas a interflúvios e a reserva está exatamente entre os rios Roosevelt e Guariba. Sabemos que o rio Roosevelt impede a passagem dos animais, mas ainda precisamos confirmar se o mesmo acontece com o Guariba", explica Dalponte, completando que há suspeita de que a margem direita deste último rio possa abrigar outra espécie de macaco nova para a ciência.

De olho na reserva

A Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt é parte de um pequeno mosaico de unidades de conservação em meio a uma área sob forte pressão da expansão agropecuária. Com 138 mil hectares e 52 famílias, trata-se da única reserva extrativista do Mato Grosso.
Para Dalponte, a descoberta pode ajudar a valorizar o trabalho na reserva. "É uma descoberta que pode dar visibilidade ao local, ajudando a atrair recursos. Trata-se de uma área com forte interferência humana e poucas partes protegidas. Sua existência é um alento."
Unidades de conservação
Mosaico de unidades de conservação visitadas pela expedição Guariba-Roosevelt. O objetivo da expedição era subsidiar o plano de manejo das unidades localizadas no noroeste do Mato Grosso, área sobre forte pressão do agronegócio.
O pesquisador pretende voltar para o campo o mais brevemente possível para conhecer melhor a distribuição do animal e compará-la com a das outras espécies de macaco que ocorrem no local. Enquanto isso não acontece, Dalponte e o pesquisador do Museu Goeldi, José de Sousa e Silva Jr., pensam em como batizar a espécie.

"Pensamos em homenagear um dos mais antigos e importantes primatólogos do Brasil, o pesquisador Milton Thiago de Melo. Quase centenário, ele ainda não conta com animais batizados em sua homenagem."
A expedição na qual se descobriu a nova espécie foi promovida pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Mato Grosso, a empresa Mapsmut e a WWF-Brasil com o intuito de subsidiar a construção do plano de manejo da área.

Mariana FerrazCiência Hoje On-line/ AM

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Cientistas encontram nova espécie de macaco em Mato Grosso

26/08/2011

Uma expedição formada por unidades de conservação da Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt, no noroeste do Mato Grosso, descobriu uma nova espécie de macaco.

O novo primata Callicebus –conhecido como zogue-zogue– foi encontrado entre os rios Guariba e Roosevelt pelo biólogo Júlio Dalponte.
Novo zogue-zogue possui padrão de coloração de pelo diferente de todas as outras espécies similares
Novo zogue-zogue possui padrão de coloração de pelo diferente de todas as outras espécies similares. Foto:Júlio Dalponte 

Segundo ele, uma “barreira” criada pelos dois rios e seus afluentes pode separar ao menos três espécies diferentes do mesmo gênero de macacos.
“Cada espaço desses tem uma espécie. Então é difícil encontrarmos este mesmo macaco em outros lugares, por exemplo. Daí a importância de conservar essas áreas”, disse o biólogo à BBC Brasil.

“Este zogue-zogue, que encontramos entre as margens direita do rio Roosevelt e esquerda do rio Guariba, possui um padrão de coloração de pelo diferente de todas as outras espécies conhecidas do mesmo gênero naquela região.”
Dalponte acrescentou que uma possível segunda nova espécie de macaco foi avistada perto do rio Guariba, mas ainda é preciso fotografá-la.

CLASSIFICAÇÃO

Um dos macacos da nova espécie, encontrado morto, está sendo estudado no museu Emílio Goeldi, em Belém, no Pará, e classificado de acordo com as normas internacionais de taxonomia.
“Precisamos comparar as características desses animais com os que já conhecemos. Mas temos certeza de que se trata de uma nova espécie”, explicou Dalponte.
A descrição completa das características do novo zogue-zogue deve levar pelo menos seis meses para ser concluída.
Mais um ano pode ser necessário para que um estudo sobre ele seja aprovado pelos comitês de publicações científicas especializadas.

A descoberta do animal é um trabalho da organização de proteção animal WWF Brasil, em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso.
A expedição reuniu nove pesquisadores, que percorreram quatro unidades de conservação ambientais do Estado para colher informações e elaborar um novo plano de manejo destas áreas.

Fonte: BBC Brasil

Quatro novas espécies de peixes podem ter sido descobertas em MT

05/09/2011

Levantamento científico ocorreu durante expedição no Noroeste do estado.
Primeiro estudo na área foi da expedição Roosevelt-Rondon, em 1913.


Quatro novas espécies de peixes podem ter sido descobertas durante a expedição Guariba-Roosevelt, que reuniu pesquisadores e cientistas em uma área de preservação no estado do Mato Grosso. O grupo também teria registrado uma nova espécie de macaco do gênero Callicebus – conhecido como zogue-zogue.
A descoberta das quatro espécies de peixes foi realizada em rios de cabeceira. Os animais que mais chamaram a atenção dos pesquisadores durante os trabalhos em campo foram um lambari pescado numa região de campinarana (áreas de campos amazônicos), próxima ao rio Roosevelt, e um bagre coletado nas imediações do rio Madeirinha. O que leva os pesquisadores a crer que são espécies novas são suas características físicas.

“Essas espécies indicam um alto endemismo na região, o que pode nos ajudar a compreender o padrão de evolução das espécies na área. E também levantar hipóteses sobre o que pode estar fazendo algumas dos peixes coletados estarem desaparecendo e ameaçados de extinção”, diz Machado. Os peixes coletados foram levados aos laboratórios da Unemat, em Alta Floresta, a 830 quilômetros da capital Cuiabá. Lá, estudos mais detalhados vão comprovar se são de fato novas espécies.
A pesca ilegal e os garimpos foram as principais ameaças à biodiversidade encontradas na região. A Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Mato Grosso chegou a fazer uma autuação na área durante a expedição. “Apesar disso, ainda constatamos que muitas das áreas permanecem intacta, apesar da proximidade e da facilidade de acesso pelas cidades no entorno”, diz Machado.
“Todas essas descobertas indicam a grande biodiversidade que ainda há para ser descoberta na região”, diz Mauro Armelin, diretor do Programa Amazônia do WWF-Brasil. ‘”São muito raras para a ciência essas novas descobertas, mas acredito que isso ocorra pela escassez de pesquisas. Perdemos a chance de conhecer espécies antes mesmo que estas desapareçam pelo desmatamento”. O último levantamento de fauna e flora que ocorreu na região foi nas décadas de 1970 e 80.

Expedição Roosevelt
A expedição percorreu quatro unidades de conservação no Noroeste do Mato Grosso, que envolvem o rio Roosevelt. A região abriga os últimos remanescentes de floresta do Estado, que hoje é um dos campeões no crescimento do desmatamento, segundo dados do governo federal.
“São regiões pouco estudadas. A grande maioria dos levantamentos de ictiofauna hoje acontece em grandes rios, ou no mar”, afirma James Machado, um dos biólogos responsáveis pela coleta e pelos estudos que comprovam a descoberta – feita em parceria com os pesquisadores Solange Arrolho, da Universidade Estadual de Mato Grosso, e Rosalvo Rosa Duarte do Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBIO) do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT).
O primeiro levantamento científico na região aconteceu quase cem anos atrás. A expedição foi coordenada pelo marechal Cândido Rondon e pelo ex-presidente americano Theodore Roosevelt, entre 1913 e 1914. Eles foram responsáveis pelo mapeamento do rio batizado em homenagem a Roosevelt. Muitos animais coletados na região fazem parte hoje da coleção científica do museu Smithsonian, em Washington, nos EUA.
Peixes coletados durante expedição que pode ter descoberto quatro novas espécies de peixes (Foto: Juvenal Pereira/WWF-Brasil)
Peixes encontrados durante expedição que pode ter coletado quatro novas espécies de peixes (Foto: Juvenal Pereira/WWF-Brasil)
Fonte: Juliana Arini, Globo Natureza, São Paulo