A disputada conquista das Américas
Análises sugerem que humanos chegaram ao continente entre 23 mil e 15
mil anos atrás e que alguns indígenas do Brasil têm DNA oriundo de
povos da Oceania
RICARDO ZORZETTO |
ED. 234 | AGOSTO 2015
Um
tema controverso voltou à cena no final de julho: a chegada dos seres
humanos às Américas. No dia 21, duas equipes independentes publicaram
estudos em duas revistas concorrentes, a
Science e a
Nature,
comparando as características genéticas de populações nativas
americanas com as de povos de outras regiões do mundo. Os trabalhos
analisaram o mais amplo conjunto de informações genéticas disponíveis de
povos do Novo Mundo para tentar reconstruir a história da ocupação do
último continente, exceto a Antártida, em que o
Homo sapiens se
estabeleceu. Os artigos chegaram a conclusões aparentemente distintas,
mas ambos indicam que alguns grupos indígenas atuais do Brasil
apresentam algum grau de parentesco com povos da Oceania.
No estudo da
Science, o grupo do biólogo Eske Willerslev, da
Universidade de Copenhague, na Dinamarca, afirma que os primeiros
humanos chegaram às Américas em uma única leva migratória. Eles teriam
partido do leste da Ásia em algum momento nos últimos 23 mil anos e
alcançado o Novo Mundo depois de ter permanecido quase 8 mil anos na
Beríngia, uma vasta extensão de terras (hoje submersa) que conectava a
Sibéria, na Ásia, ao Alasca, na América do Norte.
Willerslev e seus colaboradores – entre eles a arqueóloga Niède
Guidon, da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), no Piauí –
chegaram a essa conclusão depois de sequenciar o genoma de 31 indivíduos
de 11 populações atuais nativas das Américas, da Sibéria e da Oceania e
de comparar esses dados com os do genoma de 23 indivíduos de povos
extintos das Américas do Norte e do Sul e com variações genéticas de
outras 28 populações.
Os resultados sugerem que, uma vez no Novo Mundo, essa população
ancestral teria se separado em duas, por volta de 13 mil anos atrás. Uma
delas teria permanecido no norte do continente e originado o povo
Atabascano, do Alasca, e os grupos indígenas Chipewyan, Cree e Ojibwa,
do Canadá. A outra teria se espalhado pelo sul da América do Norte e
pelo restante do continente, gerando a maior parte das demais etnias.
Mesmo com mais dados à disposição, Willerslev não propõe algo
totalmente novo. Nos últimos 15 anos, outros grupos, brasileiros
inclusive, já haviam sugerido que os primeiros humanos a chegar às
Américas poderiam ter vindo do leste da Ásia em um único deslocamento,
até mesmo com uma parada na Beríngia (
ver Pesquisa FAPESP
nº 77 e nº 149). Tanto a proposta apresentada na
Science
como suas versões anteriores confrontam ideias mais antigas, segundo as
quais duas, três ou até mais levas teriam sido necessárias para
originar a diversidade genética e de feições de crânio encontrada nas
Américas (
ver infográfico acima).
Como a maior parte dos trabalhos que falam de uma só entrada no
continente americano, o modelo de Willerslev funciona bem para explicar
como surgiram os povos nativos das Américas geneticamente mais próximos
dos asiáticos atuais, com os quais compartilham algumas características
anatômicas, como a face mais plana e o crânio arredondado. Mas falha em
outros pontos. A ideia de uma só viagem torna difícil justificar, por
exemplo, a semelhança genética encontrada entre os índios Suruí, da
Amazônia brasileira, os Atabascanos e os nativos das ilhas Aleutas, no
Alasca, e os povos nativos da Oceania, no Pacífico Sul.
Diferente, mas quanto?
Para Willerslev e seus colegas, esses dados podem indicar que houve um
intercâmbio genético posterior ao povoamento inicial. Uma leva mais
modesta de indivíduos aparentados dos aborígines da Austrália e da
Melanésia teria se miscigenado com populações asiáticas que, mais tarde,
teriam entrado nas Américas, possivelmente a partir das ilhas Aleutas.
Enquanto Willerslev e seus colaboradores falam em uma chegada, talvez
complementada por uma segunda, o geneticista David Reich, da
Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e seus colegas dizem ter
evidências de que foi necessária a entrada de duas populações distintas
em momentos diferentes para explicar a diversidade genética dos nativos
americanos. Não estariam os dois grupos fazendo a mesma afirmação? Bem,
sim e não.
No artigo da
Nature, Reich e seus colaboradores, quatro
deles brasileiros, argumentam que só a vinda de duas levas com
características distintas ajudaria a entender por que os Suruí e outros
grupos indígenas brasileiros guardam uma afinidade genética com povos do
Pacífico Sul. Mas essa não é toda a história.
O estudo deste ano é um refinamento de um trabalho anterior. Em 2012,
Reich e os pesquisadores Maria Cátira Bortolini e Francisco Salzano, da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Maria Luiza Petzl-Erler, da
Universidade Federal do Paraná, e Tábita Hünemeier, da Universidade de
São Paulo (USP), além de outros colaboradores, compararam cerca de 365
mil trechos do genoma de 493 indivíduos de 52 populações nativas das
Américas com os de 245 integrantes de 17 povos da Sibéria e os de 1.613
pessoas de 52 populações do restante do mundo. Na época, em artigo
também publicado na
Nature, concluíram que as Américas haviam
sido povoadas por três levas migratórias diferentes: uma primeira e mais
densa, com indivíduos de características genéticas e traços asiáticos,
que teria chegado às Américas, via Beríngia, há pelo menos 15 mil anos e
originado a maior parte das populações americanas extintas e atuais;
uma segunda, que, ao se miscigenar com a inicial, contribuiu para gerar
os esquimós, na Groenlândia, e os habitantes das ilhas Aleutas, no
Alasca; e uma terceira, que, ao chegar, misturou-se com os primeiros
habitantes do continente e levou ao surgimento dos grupos indígenas
canadenses.
Agora, ao analisar mais trechos (cerca de 600 mil) do genoma de mais
populações nativas (25) das Américas Central e do Sul e comparar com os
dados de 197 populações de outras partes do mundo, eles encontraram algo
semelhante ao que Willerslev observou e propuseram mais uma migração – a
quarta, que teria alcançado a América do Sul há mais de 6 mil anos –
para justificar a diversidade étnica do continente.
Além dos Suruí, que vivem na floresta amazônica em Rondônia, essa
migração mais recente teria originado também o povo Karitiana, de
Rondônia, e os índios Xavante, do Cerrado do Mato Grosso. Esses três
grupos compartilham de 1% a 2% do seu genoma com os povos da Oceania.
“Essa proporção parece ser pequena, mas é importante”, afirma Tábita.
“Temos de imaginar que ela era muito mais elevada na população ancestral
que chegou às Américas e depois se diluiu ao longo de centenas de
gerações”, explica.
Filhos de Ypykuéra
Essa leva migratória mais recente – a quarta segundo o artigo de 2012 ou
segunda no de 2015 – não seria composta por indivíduos com
características genéticas exclusivas dos povos do Pacífico Sul. Esses
viajantes seriam descendentes de uma população mestiça, resultante do
cruzamento de nativos da Oceania com asiáticos. Os pesquisadores deram a
esse grupo o nome de população Y, inicial da palavra
Ypykué
ra,
que significa ancestral em tupi. Para Reich e seus colaboradores
brasileiros, os Suruí, os Karitiana e os Xavante atuais seriam
descendentes da tal população Y, que ainda não se sabe dizer como teria
chegado por aqui.
“O fato de que os Suruí, os Karitiana e os Xavante compartilharem
características genéticas com povos do Pacífico Sul sugere que houve uma
miscigenação em uma área menos restrita do que se pensava”, explica
Tábita, coautora dos artigos da
Nature. Afinal, os dois
primeiros vivem em Rondônia, na Floresta Amazônica, a centenas de
quilômetros dos Xavante, que são do Cerrado, em Mato Grosso. Além da
distância física, há também uma divergência cultural. Os Karitiana e os
Suruí falam tupi; os Xavante, jê. “Essa miscigenação tem de ter
acontecido antes de 6 mil anos atrás, quando esses troncos linguísticos
se separaram”, diz Tábita.
A possível existência de uma população Y não surpreendeu alguns
antropólogos físicos que estudam a ocupação das Américas. “Indiretamente
esses resultados publicados na
Nature são favoráveis à ideia
que defendo, há 25 anos, da vinda de duas migrações para as Américas”,
afirma o bioantropólogo Walter Neves, da USP. Com base na análise da
morfologia de crânios de populações atuais e extintas de diferentes
regiões das Américas – entre elas a do povo que viveu entre 12 mil e 7
mil anos atrás na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais –, Neves e o
arqueólogo argentino Héctor Pucciarelli propuseram que as Américas foram
colonizadas por duas levas migratórias: a primeira, há 14 mil anos,
integrada por indivíduos com morfologia semelhante à dos nativos da
África e da Austrália, seguida por outra com traços asiáticos, que teria
substituído o grupo inicial.
Para Rolando González-José, antropólogo físico e diretor do Centro
Nacional Patagônico, em Puerto Madryn, Argentina, as evidências
apresentadas nos artigos da
Science e da
Nature são de
certo modo semelhantes. “O parentesco com os australo-melanésios que
eles encontraram já era esperado havia anos, pois indica que as
populações das Américas compartilharam ancestrais comuns”, afirma. “Os
dados são interessantes, mas, nesses artigos, são pouco discutidos e não
levam em conta todos os cenários possíveis.” Em 2008, González e
colegas brasileiros apresentaram a hipótese de que as Américas teriam
sido colonizadas por uma população inicial de indivíduos com alta
diversidade genética e de morfologia de crânio, seguida de outra menor,
que deu origem aos esquimós. Segundo essa versão, contestada há cerca de
três anos por Walter Neves, durante os milhares de anos que existiu a
Beríngia teria havido contato entre populações da Ásia e das Américas.
Artigos científicos
SKOGLUND, P.
et al. Genetic evidence for two founding populations of the Americas.
Nature. 21 jul. 2015.
RAGHAVAN, M.
et al. Genomic evidence for the Pleistocene and recent population history of Native Americans. Science. 21 jul. 2015.