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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Cultura de uso de ferramentas por macacos-prego variou ao longo de 3 mil anos

Estudos de arqueologia e etologia se encontram na serra da Capivara, no Piauí, e revelam o primeiro registro conhecido de mudanças culturais em primatas não humanos
Macho adulto quebra castanha-de-caju, observado de perto por um jovem (primeiro plano) e uma fêmea (ao fundo)
Tiago Falótico / USP
Enquanto arqueólogos escavam o solo duro e seco da Caatinga no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, em busca de vestígios do passado, macacos-prego logo ao lado usam pedras para quebrar cocos, sementes e castanhas-de-caju. Provavelmente de modo semelhante ao que fazem há pelo menos 3 mil anos, como revela parceria entre pesquisadores da Inglaterra e do Brasil. “Eles vão se tornando um pouco primatólogos, enquanto nós viramos um pouco arqueólogos”, conta o biólogo Tiago Falótico, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), que coordenou as escavações mais recentes. Há seis anos ele e seu antigo supervisor Eduardo Ottoni, do Instituto de Psicologia da USP, trabalham em parceria com os arqueólogos britânicos Michael Haslam e Tomos Proffitt, do University College London, na investigação de como viviam os macacos. Descobriram que, assim como acontece hoje entre diferentes grupos de primatas, no passado a cultura de uso de ferramentas variou, como descreve artigo publicado nesta segunda (24/6) na revista Nature Ecology & Evolution. “É a primeira vez que se constata essa variação cultural em registros arqueológicos de primatas não humanos”, afirma Falótico.

Entrevista: Tiago Falótico
 
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Há alguns anos as escavações por lá revelaram que os macacos-prego da serra da Capivara (Sapajus libidinosus) já usavam pedras para quebrar castanhas-de-caju em tempos pré-colombianos. Chimpanzés, que desbancaram o uso de ferramentas como característica definidora dos seres humanos, já manejavam pedras há 4 mil anos de acordo com escavações na Costa do Marfim, na África. Mas lá não há sinais de que tenham alterado o comportamento.
Escavação arqueológica acontece debaixo de cajueirosTiago Falótico / USP


Os macacos-prego são ricos em variações de comportamento, que alguns especialistas chamam de culturas. Há grupos que usam pedras, outros preferem gravetos. 

Depende do tipo de alimento disponível em cada área, mas também do que os jovens de cada população aprendem com os mais velhos. Da mesma maneira, à medida que foram escavando mais fundo – e regredindo no tempo – os pesquisadores encontraram variação. O material depositado entre 2.400 e 3 mil anos atrás revela o uso extenso de pedras pequenas, cheias de quebras causadas por impactos repetidos


Provavelmente eram usadas para processar alimentos menos duros do que castanhas-de-caju. “Hoje eles usam pedras semelhantes para quebrar sementes e frutos como os da maniçoba [Manihot pseudoglaziovii], uma planta da família da mandioca”, conta Falótico, que interpreta as marcas no material arqueológico com base no que os macacos fazem hoje. Infelizmente não foi possível detectar resíduos dos alimentos nas pedras encontradas, mas ele ainda não desistiu. “Outras áreas podem ter condições de preservação diferentes que um dia nos permitam identificar resíduos.”

Na fase seguinte, entre aproximadamente 565 e 640 anos atrás, conforme datação de fragmentos de carvão resultantes de queimadas e presentes no sedimento, os macacos ainda usavam pedras pequenas, mas já existiam mais bigornas – superfícies planas onde apoiam o alimento no momento da quebra. Mais recentemente, eles parecem ter começado a usar pedras maiores que permitem processar castanhas bem duras e disseminaram o uso de bigornas. Eles chegam a erguer acima da cabeça pedras de cerca de 3 quilogramas, semelhante ao próprio peso. Também usam pedras para cavar e paquerar, entre outras utilidades.
Duas pedras usadas por macacos na fase mais antiga mostram variedade de formatos, tamanhos e marcas de usoTiago Falótico / USP

É impossível estabelecer os motivos dessa variação no registro arqueológico. Será que começavam a desenvolver as técnicas e aos poucos foram descobrindo que funcionava e explorando fontes alimentares antes inacessíveis? 

Ou grupos da mesma época já tinham costumes variáveis, transmitidos de uma geração para outra, e a escavação de outros sítios revelará uma diversidade cultural já nos tempos mais antigos? Ou, ainda, em certos momentos os alimentos disponíveis não exigiam maiores esforços? Todas são possibilidades plausíveis, embora a análise de amostras de pólen fossilizado revele que há 7 mil anos já havia cajueiros na região. Não significa, porém, que estivessem constantemente em todos os lugares, pode ter havido variação na abundância dessa árvore.

O trabalho – dos macacos no manejo das pedras e das pessoas que os estudam – continua, e Falótico divide seu tempo de trabalho de campo entre as escavações e a observação do comportamento atual. “Gosto mais de seguir os macacos do que de ficar agachado cavando”, confessa. Ele tem se concentrado em estudar os padrões das lascas obtidas pela quebra das pedras batidas umas contra as outras, que alguns anos atrás se mostraram indistinguíveis daquelas produzidas pelos homens das cavernas. A região, onde registros da ocupação humana podem estar entre os mais antigos do continente, ainda parece ter muito a revelar sobre as atividades de pessoas e macacos ao longo de milhares de anos.
Jovem macho esmaga uma frutinha de grão-de-galo (Cordia rufescens)Tiago Falótico / USP

“Pode haver sítios ainda não encontrados relacionados a primatas”, diz a arqueóloga Mercedes Okumura, do Instituto de Biociências da USP, que não tem conhecimento de outro sítio comparável em termos de documentação de arqueologia envolvendo tanto seres humanos como outros primatas. Ela é coautora de um artigo publicado em 2018 na revista Quaternaire que descreve a formação das camadas arqueológicas do boqueirão da Pedra Furada, no Parque Nacional da Serra da Capivara, levando em conta as contribuições de pessoas e macacos (contou para isso com acesso aos dados do grupo de Falótico). 

Entre os achados das escavações é difícil dizer quem produziu as lascas mais simples, ela conta, mas atribui com segurança a seres humanos estruturas mais complexas de pedra lascada. Ela vê como frutífera a relação com os arqueólogos-primatólogos. “Me refiro realmente a uma via de mão dupla: quem faz arqueologia ‘humana’ pode aprender muito também ao estudar esses casos relacionados a outros primatas.”

Projetos
 
1. Uso de ferramentas por macacos-prego (Sapajus libidinosus) selvagens: ecologia, aprendizagem socialmente mediada e tradições comportamentais (nº 2014/04818-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa — Temático; Pesquisador responsável Eduardo Benedicto Ottoni (USP); Investimento R$ 611.005,29.

2. Uso de ferramentas por macacos-prego: aprendizagem e tradição (nº 2013/05219-0); Modalidade Bolsa de pós-doutorado; Pesquisador responsável Eduardo Benedicto Ottoni (USP); Beneficiário Tiago Falótico; Investimento R$ 423.450,88.

Artigos científicos

FALÓTICO, T. et al. Three thousand years of wild capuchin stone tool use. Nature Ecology & Evolution. on-line. 26 jun. 2019.

PARENTI, F. et al. Genesis and taphonomy of the archaeological layers of Pedra Furada rock-shelter, Brazil. Quaternaire. v. 29, n. 3, p. 255-69. nov. 2018.

sábado, 23 de julho de 2016

Macacos-prego já usavam ferramentas no período pré-colombiano

Estudo arqueológico no Piauí revela pedras usadas para quebrar castanhas com idades até 700 anos
MARIA GUIMARÃES | Edição Online 13:00 11 de julho de 2016
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© TIAGO FALÓTICO/IP-USP
Macaco-prego (Sapajus libidinosus) usa pedra para quebrar fruto na serra da Capivara
Macaco-prego (Sapajus libidinosus) usa pedra para quebrar fruto na serra da Capivara

Novos indícios indicam que, por volta de 700 anos atrás, macacos-prego já usavam ferramentas para quebrar castanhas de caju e extrair a parte comestível. As caravelas portuguesas ainda não tinham chegado à costa brasileira com utensílios mais sofisticados, que de qualquer maneira até hoje não estão à disposição dos animais na serra da Capivara, no Piauí. “É o primeiro relato de ferramentas de macacos-prego no registro arqueológico”, conta o biólogo Tiago Falótico, pesquisador de pós-doutorado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP).

Falótico e o colega Eduardo Ottoni, seu supervisor, há tempos estudam o comportamento de macacos-prego e especificamente o uso de ferramentas por esses primatas da espécie Sapajus libidinosus (ver Pesquisa FAPESP nº 196). Nos últimos três anos, em parceria com o arqueólogo Michael Haslam, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, eles aprofundaram os estudos no tempo.

O grupo fez escavações em uma área no Parque Nacional da Serra da Capivara e descobriu que as mesmas configurações de ferramentas observadas hoje aparecem em camadas correspondentes a período que chegam ao século XIII, como mostra artigo publicado hoje (11/7) na revista Current Biology. “Os macacos escolhem pedras maiores para bater nas castanhas e as deixam acumuladas junto aos cajueiros”, conta o pesquisador. Segundo ele, as datações por radiocarbono são bem precisas e permitem esse refinamento de datas. Camadas ainda mais antigas, que podem chegar a 3 mil anos atrás, ainda estão sendo analisadas.
© TIAGO FALÓTICO/IP-USP
Macho adulto procura comida com ajuda de graveto
Macho adulto procura comida com ajuda de graveto.

As 69 ferramentas encontradas são muito semelhantes às usadas hoje: pedras achatadas servem como base e são pelo menos quatro vezes mais pesadas do que aquelas usadas como martelos – também pelo menos quatro vezes mais pesadas do que a média dos pedregulhos encontrados por perto (ver comportamento em vídeo). Análises químicas confirmaram que manchas escuras nas rochas indicam que foram usadas para quebras castanhas de caju. A constância indica que a transmissão de conhecimento, hoje evidente entre macacos mais experientes e mais jovens, vem acontecendo há pelo menos uma centena de gerações.

Até agora, o uso pré-moderno de ferramentas por não humanos só tinha sido descoberto em chimpanzés na Costa do Marfim. No período pré-colombiano, os macacos da Caatinga brasileira conviviam, até certo ponto, com pessoas que habitam a região há pelo menos 10 mil anos. Mas não há indícios de atividade humana no sítio arqueológico primata. “Todos os fragmentos de carvão que analisamos têm origem em queimadas naturais”, afirma Falótico. Brasas são a forma comum de humanos processarem as castanhas de caju para eliminar as substâncias indigestas. Quem gosta de uma castanha torrada sabe. Falótico, que já deu uma mordida cautelosa numa castanha crua, também.

Projetos
 
Uso de ferramentas por macacos-prego (Sapajus libidinosus) selvagens: ecologia, aprendizagem socialmente mediada e tradições comportamentais (n° 2014/04818-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Temático; Pesquisador responsável Eduardo Benedicto Ottoni (USP); Investimento R$ 439.536,00.

2. Uso de ferramentas por macacos-prego: aprendizagem e tradição (nº 2013/05219-0); Modalidade Bolsa no país – Pós-doutorado; Pesquisador responsável Eduardo Benedicto Ottoni (USP); Bolsista Tiago Falótico (USP); Investimento R$ 178.512,00 (FAPESP).

Artigo científico
 
HASLAM, M. et al. Pre-Columbian monkey tools. Current Biology, v. 26, n. 13, p. R521–R522. 11 jul 2016.