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segunda-feira, 6 de março de 2017

Pesquisa com geoglifos indica que Amazônia teve uso sustentável há milhares de anos

06 de março de 2017


Peter Moon  |  Agência FAPESP – O desmatamento no leste do Acre para a expansão da pecuária tem revelado, nos últimos 30 anos, centenas de grandes estruturas geométricas de terra construídas por povos pré-colombianos.

Pesquisa com geoglifos indica que Amazônia teve uso sustentável há milhares de anos 
  Pesquisa feita em grandes estruturas geométricas de terra construídas por povos pré-colombianos indica atividade agrícola com prática de recuperação de florestas (foto: vista aérea do sítio Jacó Sá, com geoglifos em destaque/Salman Kahn)

Tais estruturas são chamadas de geoglifos. O fato de terem sido construídas pelo homem implica a existência de um grande povoamento na região há milhares de anos, assim como sugere que, no passado, a floresta havia sido parcialmente derrubada para o uso da terra pela agricultura. A arqueóloga inglesa Jennifer Watling, atualmente bolsista de pós-doutorado da FAPESP, estudou em seu doutorado – defendido na University of Exeter, no Reino Unido – qual teria sido o impacto ambiental das populações pré-históricas decorrente da construção dos geoglifos.

Ela estudou dois locais com geoglifos, o Sítio Arqueológico Jacó Sá e a Fazenda Colorada. O trabalho foi publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences e ganhou imediatamente visibilidade internacional, com reportagem publicada em veículos como The New York Times.
Saindo de Rio Branco, a capital do Acre, pega-se a BR 317 em direção a Boca do Acre (AM). Leva-se cerca de uma hora de carro para percorrer os 50 quilômetros até o sítio Jacó Sá. Ao longo do trajeto a estrada passa por pastos com gado nelore onde antes havia Floresta Amazônica primária, cujas franjas ainda são visíveis dos dois lados da rodovia lá na linha do horizonte.

Toda aquela porção do extremo ocidental do Acre era coberta por floresta primária até os anos 1980 e vem sendo desflorestada para a criação de gado. Metade da cobertura florestal na região já se perdeu.
Por ironia, não fosse o aumento da ocupação humana no Acre, os mais de 450 geoglifos 
 pré-históricos hoje catalogados continuariam ocultos pela mata. A floresta evidentemente esconde muitos outros. Os geoglifos se espalham pelos vales dos rios Acre, Iquiri e Abunã, entre Rio Branco e Xapuri, e também ao norte de Rio Branco, na direção do Estado do Amazonas.

Do solo não é possível visualizar suas formas nem as suas dimensões. Em um avião, voando a 500 metros do solo, os geoglifos se tornam visíveis. Eles têm o formato de círculos, quadrados, retângulos, círculos concêntricos ou ainda círculos circunscritos no interior de grandes quadrados.
As dimensões são colossais: variam de 50 a 350 metros de diâmetro. No solo, os geoglifos são como grandes valas de até 11 metros de largura por 4 metros de profundidade. É impressionante o imenso volume de terra que teve que ser removido para a sua construção, o que implica um grande contingente populacional.
No sítio de Jacó Sá há dois geoglifos, ambos na forma de quadrados com cerca de 100 metros de lado, sendo que um deles tem um círculo perfeito circunscrito em seu interior. Quem quiser pode usar o Google Maps e entrar com as coordenadas 9°57′38"S 67°29′51”W para apreciar os dois geoglifos das alturas.
Watling queria entender como seria a vegetação naquela região na época em que os geoglifos foram construídos. O local, antes do desmatamento, era dominado por bambuzais.

Watling se propôs a responder uma série de questões. “Será que a floresta de bambu predominava antes de haver geoglifos? Qual foi a extensão do impacto ambiental associado à construção dos geoglifos?”, pergunta a arqueóloga.

“Será que a região era coberta por florestas antes da chegada dos povos que construíram os geoglifos ou seria originalmente uma região de cerrado? Se era floresta, por quanto tempo as áreas desmatadas permaneceram abertas? O que aconteceu com a vegetação quando os geoglifos foram abandonados? Como foi o processo de regeneração da floresta?”, são outras questões levantadas.

Manejo florestal

Watling atualmente se dedica ao pós-doutorado, sob orientação do arqueólogo Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP).
A pesquisadora passou seis meses escavando nos sítios do Acre, entre 2011 e 2012. Usou técnicas de paleobotânica para obter respostas. Suas escavações em Jacó Sá e na Fazenda Colorada demonstraram que o ecossistema de bambuzais existe no local há pelo menos 6.000 anos, o que sugere que o bambu não foi introduzido pelos índios, mas fazia parte da composição paisagística original.

A presença do homem no local data de pelo menos 4.400 anos atrás. Já a presença de partículas de carvão, principalmente a partir de 4.000 anos antes do presente, implica a intensificação do desmatamento e/ou do manejo florestal pelos índios.
O maior acúmulo de carvão coincide com a época da construção dos geoglifos, entre 2.100 e 2.200 anos atrás. Apesar da relativa facilidade com que se removem bambuzais (quando comparado a mognos e castanheiras, por exemplo), Watling não achou evidências de desmatamentos significativos em qualquer período.

Segundo ela, isso quer dizer que os geoglifos não ficavam dentro de uma área totalmente desmatada. “Ao contrário, eles eram cercados pela copa das árvores. A vegetação local jamais foi mantida completamente aberta durante todo o período pré-Colombiano. Esta dedução é consistente com evidências arqueológicas indicando que os geoglifos eram usados em bases esporádicas em vez de continuamente habitados”, disse Watling.

“As escavações arqueológicas não revelaram grande quantidade de artefatos, o que indica que os geoglifos não eram locais de habitação permanente. Os índios não moravam lá”, disse.
Outra constatação é que os geoglifos não foram construídos sobre floresta virgem que foi derrubada. Os dados paleobotânicos coletados por Watling sugerem que as estruturas foram erigidas em terrenos previamente ocupados, ou seja, em florestas antropogênicas, que foram derrubadas ou tiveram sua composição alterada pela ação humana ao longo de milhares de anos.

Isso faz sentido quando agora se sabe que a região era ocupada desde há 4.000 anos. Em outras palavras, seus habitantes tiveram 2.000 anos de manejo da floresta antes da construção dos geoglifos. Graças às pesquisas em outros geoglifos sabe-se que o povo que construía aquelas enormes estruturas cultivava milho e abóbora.

Os dados coletados por Watling indicam que a derrubada da floresta por meio de queimadas realizada entre 4.000 e 3.500 anos atrás foi seguida pelo aumento significativo da quantidade de palmeiras na composição da floresta.

Não existe nenhuma explicação natural para o aumento da quantidade de palmeiras, já que o clima na região era (e continua sendo) úmido e portanto favorável à colonização por parte de árvores de grande porte e o consequente adensamento da mata. A proliferação das palmeiras está ligada, segundo Watling, ao aumento do uso da terra pelo homem, o que é corroborado pelo depósitos de partículas de carvão.
As palmeiras têm diversos usos. Seus cocos são alimento, seus troncos servem para construir ocas e suas folhas para cobri-las. Segundo Watling, isso sugere que, após a limpeza da mata pelos primeiros habitantes da região, eles teriam passado a permitir a proliferação apenas das espécies vegetais que faziam uso. Em outras palavras, os antigos habitantes do local fizeram uso de técnicas primitivas de manejo florestal por milhares de anos.

A ausência de carvão a 500 metros de distância dos geoglifos significa que seu entorno não foi desmatado. “Isso sugere que os geoglifos não foram projetados para ser visíveis a distância, mas para ficar escondidos da vista, o que não deixa de ser uma conclusão inesperada”, disse.

Geoglifos

Os geoglifos estudados por Watling e colegas do Brasil e do Reino Unido foram abandonados há cerca de 650 anos, portanto antes da chegada dos europeus nas Américas. Em concomitância com o abandono dos geoglifos observa-se o declínio da participação de palmeiras no meio ambiente.
Os geoglifos impressionam pela beleza e precisão de suas linhas. Qual foi o povo responsável pela construção daquelas estruturas? Que técnicas usaram para erigir formas tão perfeitas?
A primeira imagem que vem à mente é a dos animais esculpidos no solo do deserto de Nazca, no Peru. Descobertos em 1927, eles teriam sido feitos há 3.000 anos. Vistos do solo, as figuras peruanas parecem linhas sem-fim que se perdem no horizonte.

Só de bem alto, a 1.500 metros de altura, suas formas começam a fazer sentido. Compõem um beija-flor, uma abelha e um macaco. Tais figuras ficaram famosas nos anos 70, quando o escritor suíço Erich von Daniken publicou o livro – que vendeu milhões de exemplares e foi transformado em filme – Eram os Deuses Astronautas?.

Von Daniken defendia a teoria de que certas civilizações, como a dos astecas, teriam sido visitadas por alguma forma de vida extraterrestre inteligente. Daí a justificativa de figuras que só fazem sentido quando vistas de grandes altitudes.
Contam os antropólogos, porém, que a intenção dos índios autores daquelas obras de arte milenares era enternecer os deuses, convencendo-os a fazer chover. Os geoglifos acreanos situam-se mil quilômetros a nordeste do desértico vale de Nazca. E no Acre, como se sabe, a falta de chuva não é um problema.

No pós-doutorado, Watling também estuda o impacto exercido sobre a floresta de um povoamento indígena no sítio arqueológico de Teotônio, na região do Alto Rio Madeira, em Rondônia. “Teotônio possui algumas das datações mais antigas da pré-história amazônica. Foi ocupado por pelo menos 5 mil anos”, disse.

O artigo Impact of pre-Columbian “geoglyph” builders on Amazonian forests (doi: 10.1073/pnas.1614359114), de Jennifer Watling, José Iriarte, Francis E. Mayle, Denise Schaan, Luiz C. R. Pessenda, Neil J. Loader, F. Alayne Street-Perrott, Ruth E. Dickau, Antonia Damasceno e Alceu Ranzi, publicado pela PNAS, pode ser lido por assinantes em: www.pnas.org/content/114/8/1868.abstract

sábado, 23 de julho de 2016

Macacos-prego já usavam ferramentas no período pré-colombiano

Estudo arqueológico no Piauí revela pedras usadas para quebrar castanhas com idades até 700 anos
MARIA GUIMARÃES | Edição Online 13:00 11 de julho de 2016
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© TIAGO FALÓTICO/IP-USP
Macaco-prego (Sapajus libidinosus) usa pedra para quebrar fruto na serra da Capivara
Macaco-prego (Sapajus libidinosus) usa pedra para quebrar fruto na serra da Capivara

Novos indícios indicam que, por volta de 700 anos atrás, macacos-prego já usavam ferramentas para quebrar castanhas de caju e extrair a parte comestível. As caravelas portuguesas ainda não tinham chegado à costa brasileira com utensílios mais sofisticados, que de qualquer maneira até hoje não estão à disposição dos animais na serra da Capivara, no Piauí. “É o primeiro relato de ferramentas de macacos-prego no registro arqueológico”, conta o biólogo Tiago Falótico, pesquisador de pós-doutorado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP).

Falótico e o colega Eduardo Ottoni, seu supervisor, há tempos estudam o comportamento de macacos-prego e especificamente o uso de ferramentas por esses primatas da espécie Sapajus libidinosus (ver Pesquisa FAPESP nº 196). Nos últimos três anos, em parceria com o arqueólogo Michael Haslam, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, eles aprofundaram os estudos no tempo.

O grupo fez escavações em uma área no Parque Nacional da Serra da Capivara e descobriu que as mesmas configurações de ferramentas observadas hoje aparecem em camadas correspondentes a período que chegam ao século XIII, como mostra artigo publicado hoje (11/7) na revista Current Biology. “Os macacos escolhem pedras maiores para bater nas castanhas e as deixam acumuladas junto aos cajueiros”, conta o pesquisador. Segundo ele, as datações por radiocarbono são bem precisas e permitem esse refinamento de datas. Camadas ainda mais antigas, que podem chegar a 3 mil anos atrás, ainda estão sendo analisadas.
© TIAGO FALÓTICO/IP-USP
Macho adulto procura comida com ajuda de graveto
Macho adulto procura comida com ajuda de graveto.

As 69 ferramentas encontradas são muito semelhantes às usadas hoje: pedras achatadas servem como base e são pelo menos quatro vezes mais pesadas do que aquelas usadas como martelos – também pelo menos quatro vezes mais pesadas do que a média dos pedregulhos encontrados por perto (ver comportamento em vídeo). Análises químicas confirmaram que manchas escuras nas rochas indicam que foram usadas para quebras castanhas de caju. A constância indica que a transmissão de conhecimento, hoje evidente entre macacos mais experientes e mais jovens, vem acontecendo há pelo menos uma centena de gerações.

Até agora, o uso pré-moderno de ferramentas por não humanos só tinha sido descoberto em chimpanzés na Costa do Marfim. No período pré-colombiano, os macacos da Caatinga brasileira conviviam, até certo ponto, com pessoas que habitam a região há pelo menos 10 mil anos. Mas não há indícios de atividade humana no sítio arqueológico primata. “Todos os fragmentos de carvão que analisamos têm origem em queimadas naturais”, afirma Falótico. Brasas são a forma comum de humanos processarem as castanhas de caju para eliminar as substâncias indigestas. Quem gosta de uma castanha torrada sabe. Falótico, que já deu uma mordida cautelosa numa castanha crua, também.

Projetos
 
Uso de ferramentas por macacos-prego (Sapajus libidinosus) selvagens: ecologia, aprendizagem socialmente mediada e tradições comportamentais (n° 2014/04818-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Temático; Pesquisador responsável Eduardo Benedicto Ottoni (USP); Investimento R$ 439.536,00.

2. Uso de ferramentas por macacos-prego: aprendizagem e tradição (nº 2013/05219-0); Modalidade Bolsa no país – Pós-doutorado; Pesquisador responsável Eduardo Benedicto Ottoni (USP); Bolsista Tiago Falótico (USP); Investimento R$ 178.512,00 (FAPESP).

Artigo científico
 
HASLAM, M. et al. Pre-Columbian monkey tools. Current Biology, v. 26, n. 13, p. R521–R522. 11 jul 2016.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Quintais de outros tempos- Arqueologia em foco

Pesquisa investiga quintais de populações amazônicas em busca de vestígios de culturas do passado. 
 
Por: Everton Lopes
Publicado em 02/07/2015 | Atualizado em 02/07/2015
Quintais de outros tempos
Casa e quintal na beira do rio Urubu, na Amazônia. A região era ocupada por índios desde muito antes da colonização portuguesa – alguns vestígios arqueológicos encontrados ali datam dos séculos 6 a 9. (Foto: Katja Schulz / Flickr / CC BY NC 2.0).
 
Os hábitos e costumes dos primeiros habitantes da Amazônia não são apenas vestígios arqueológicos enterrados no passado: ao contrário, renovam-se com atuais moradores da região. Nos quintais das casas de comunidades contemporâneas, brotam várias espécies que já faziam parte do dia a dia dos índios que viveram naqueles mesmos locais há centenas de anos – como o mamão e a macaxeira. Esta foi a conclusão da bióloga Juliana Lins durante sua pesquisa de mestrado, realizada no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e recém-publicada na Plos One.

Instigada pelas marcas que os antigos índios deixaram, a estudante decidiu investigar quintais de casas atuais que se localizam sobre sítios arqueológicos, precisamente aqueles instalados em terras pretas de índio – solos antropogênicos ricos em nutrientes como fósforo, cálcio e magnésio, além de um tipo de carvão vegetal muito eficiente em reter nutrientes. Essas áreas frequentemente apresentam, também, vestígios mais concretos de populações passadas, como cerâmicas.
Quintal de casa na Amazônia
Quintal sobre sítio arqueológico na região do rio Urubu. Alguns autores relacionam cerâmicas encontradas nessa região com uma ocupação por povos falantes de línguas do tronco Arawak, famosos por sua agricultura. (Foto: Juliana Lins / Arquivo pessoal)
“É difícil explicar como ou por que, mas os índios, de alguma forma, criaram esses solos. Não sabemos se foi intencional, mas sabemos que eles estão nos locais onde as pessoas moravam e que eles existem por causa do lixo – restos de comida, excrementos etc. – que a comunidade produzia”, conta Lins. As terras pretas de índio estão espalhadas pela Amazônia, quase sempre em lugares privilegiados para a ocupação humana, como o topo de barrancos ou à beira dos rios. Depois dos nativos, viveram sobre elas os imigrantes europeus, que viram nesses locais paragens férteis e seguras, e a ocupação teve continuidade até os dias atuais.

Casas de hoje, plantas de ontem

Por definição, os solos com terras pretas de índios são sítios arqueológicos. Lins concentrou sua pesquisa em uma região de alta incidência dessas condições – às margens do rio Urubu, que desemboca no Amazonas. Visitou, então, 40 quintais em cinco comunidades diferentes, levantando as espécies florais encontradas e buscando explicações para a seleção das mesmas para compor os quintais.
Casa às margens do rio Urubu
Em cinco comunidades, foram encontrados vestígios cerâmicos da tradição Borda Incisa. Em três delas, a pesquisa identificou também outra fase cerâmica, a Saracá, típica da região e datada em torno da época da conquista europeia. Nas casas onde foram encontrados vestígios arqueológicos de tradições diferentes, a composição dos quintais também foi mais variada. (Foto: Juliana Lins / Arquivo pessoal)
A pesquisadora analisou a fertilidade dos solos, a localização e a distância entre os quintais, o tamanho dessas áreas e, ainda, o contexto arqueológico, avaliado pelas fases e tradições de cerâmicas arqueológicas existentes nas camadas do solo estudado. De todos esses fatores, o contexto arqueológico foi o mais capaz de explicar a composição florística dos quintais contemporâneos. Aqueles localizados sobre sítios arqueológicos onde houve mais de uma ocupação no passado pré-colombiano apresentaram composição mais variada. “As pessoas de hoje dialogam com as pessoas do passado através das plantas que brotam nesses quintais”, resume Lins.

Conhecer o passado, fazer o futuro

Para Newton Paulo de Souza Falcão, engenheiro agrônomo do Inpa, investigações como a desenvolvida por Lins têm importância para além da descoberta de detalhes sobre a história da Amazônia. “Essas pesquisas são importantes não só para a preservação do que ainda temos, mas também para a recuperação de recursos genéticos de espécies nativas que estão desaparecendo”, afirma o engenheiro.
Pesquisadores de várias partes do mundo tentam recriar o que os índios brasileiros fizeram ao longo de muitos anos
Falcão, nascido e criado no estado do Amazonas, viu muitas espécies nativas perderem espaço com o tempo. Há mais de dez anos, estuda as terras pretas de índio da Amazônia central, procurando aprender com os povos do passado maneiras de enriquecer solos pobres e transformar áreas degradadas em produtivas. Ele não está sozinho. De fato, pesquisadores de várias partes do mundo tentam recriar o que os índios brasileiros fizeram ao longo de muitos anos. “Intriga o fato de esse solo manter a fertilidade por períodos tão longos, que chegam a até dois mil anos”, comenta o cientista.
O impacto das populações antigas sobre a floresta amazônica vem sendo abordado em pesquisas internacionais e, claro, brasileiras. No quebra-cabeças da história da maior floresta tropical do mundo, há muitas peças ainda sem encaixe, mas uma certeza já desponta: a de que ainda hoje construímos e habitamos sobre a obra de nossos antepassados.

Everton Lopes
Instituto Ciência Hoje/ RJ

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Cientistas pesquisam passado para ajudar na preservação da Mata Atlântica

09/10/2013
Agência FAPESP – Uma equipe internacional de cientistas terá quase US$ 4 milhões para desenvolver, durante cinco anos, uma ampla pesquisa multidisciplinar que permitirá conhecer melhor a distribuição de espécies animais e vegetais na Mata Atlântica brasileira.

 
 
Conduzido por pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos, estudo tem apoio da FAPESP e da NSF (foto: Carlos Grohmann/USP)

 
O projeto, coordenado por Ana Carnaval, do City College of New York, Estados Unidos, e Cristina Miyaki, da Universidade de São Paulo, tem financiamento da FAPESP e da National Science Foundation (NSF), tendo sido selecionado na segunda chamada de propostas de projetos de cooperação científica por meio dos programas BIOTA-FAPESP e Dimensions of Biodiversity-NSF.

“Por meio do estudo da Mata Atlântica e das mudanças em sua paisagem e clima nos últimos 120 mil anos, entenderemos melhor como as espécies da floresta responderam a repetidas alterações ambientais no passado. Essa compreensão poderá se revelar importante para estimar como as espécies responderão a futuras mudanças no clima e ambiente”, disse Carnaval, que nasceu no Rio de Janeiro e é professora assistente de Biologia no City College, em notícia divulgada pela instituição.

O projeto, que tem também apoio da Nasa, a agência espacial norte-americana, conta com cientistas de diversas outras instituições, como a State University of New York, o New York Botanical Garden, o American Museum of Natural History, a University of California Santa Cruz, a University of North Carolina, o Institut de Recherche pour le Developpement (France) e a Australian National University.

No período pré-Colombiano, a Mata Atlântica brasileira tinha cerca de 3 mil quilômetros de extensão e formava uma cadeia de florestas contida entre o Oceano Atlântico e as áreas mais secas e mais elevadas no território.

Desde então, estima-se que a floresta tenha se reduzido a 11% de sua área. Apesar da devastação, a Mata Atlântica ainda contém fragmentos com algumas das mais elevadas concentrações de espécies nativas, que não são encontradas em nenhum outro local no planeta.

Os pesquisadores testarão hipóteses para reconstruir cenários de mudanças climáticas no passado. Serão utilizados modelos climatológicos baseados no que se conhece atualmente sobre os ciclos terrestres, além de informações de registros fósseis e de inferências de níveis antigos de umidade com base na geoquímica de depósitos encontrados em cavernas. Dados genéticos de populações atuais serão empregados para compreender como as espécies da Mata Atlântica reagiram a tais alterações.
Ao relacionar dados da distribuição atual de espécies com dados ambientais de análises climatológicas e dados de sensoriamento remoto, os cientistas pretendem caracterizar os ambientes onde ocorrem determinadas espécies.

Segundo Carnaval, a pesquisa poderá fornecer pistas de como animais e plantas responderão às rápidas mudanças ambientais antropogênicas esperadas para os próximos 50 a 100 anos.
Com os resultados da pesquisa, poderá ser possível estimar a ocorrência de espécies e como essa distribuição mudará em resposta a diferentes cenários de mudanças climáticas e ambientais. Isso poderá ajudar a identificar, por exemplo, espécies mais prováveis de se tornarem ameaçadas ou áreas com maior necessidade de proteção ou de pesquisa.

“Por meio dessa colaboração entre o BIOTA-FAPESP e o Dimensions of Biodiversity, estamos estabelecendo uma grande rede de pesquisadores que buscam trabalhar de modo colaborativo e integrado para gerar dados relevantes para a conservação da Mata Atlântica e para divulgar a sua importância para a sociedade”, disse Miyaki à Agência FAPESP.

O projeto apoiado pela FAPESP e NSF prevê a produção de uma exibição científica itinerante para levar os resultados ao público geral interessado em São Paulo e em Nova York. Os pesquisadores ainda planejam desenvolver produtos didáticos, voltados ao ensino médio.

O programa Dimensions of Biodiversity, da NSF, está voltado aos mais desconhecidos aspectos da biodiversidade e apoia pesquisas em um amplo espectro que abrange de genes a espécies e ecossistemas, de modo a integrar tanto aspectos descritivos como funcionais da biodiversidade do planeta.
A seleção de propostas FAPESP-NSF está baseada em uma chamada mais ampla publicada anualmente pelo Dimensions of Biodiversity, voltada à participação de cientistas de instituições nos Estados Unidos em oportunidades financiadas pela NSF ou lançada em parceria com outras instituições.

A relação dos projetos apoiados na mais recente chamada do Dimensions of Biodiversity foi publicada pela NSF em www.nsf.gov/news/news_summ.jsp?cntn_id=129242 (página temporariamente indisponível por conta da paralisação de diversos órgãos do governo dos Estados Unidos).