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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A ocupação do continente americano à luz dos novos dados genéticos e o sensacionalismo midiático

Por JuCa //
Novos dados corroboram a ideia de que a genética ameríndia já estava presente em grupos paleoíndios, mas o registro arqueológico como um todo deve ser considerado.
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A rota de vários dos primeiros grupos humanos que chegaram no continente americano foi o estreito de Bering.
Dia 08 de Novembro de 2018 (ontem, caso você esteja lendo essa matéria no dia de sua publicação), foram publicados dois artigos científicos – um na revista prestigiada revista Science e outro na também prestigiada revista Cell – que geraram muito material para a mídia jornalística usufruir e, como é de costume, distorcer boa parte do discurso científico com matérias cujas manchetes são bastante sensacionalistas (com algumas exceções de algumas poucas reportagens muito bem elaboradas).  Mas afinal, o que foi realmente que os cientistas publicaram?

Os novos dados genéticos de povos paleoíndios e a “reconstrução” de sua história

Os novos artigos publicados apresentam dado da análise genética de mais de 60 esqueletos (alguns deles perdidos recentemente no incêndio do Museu Nacional) datados do final do Pleistoceno e do Holoceno Médio (entre 13 mil e 5 mil anos atrás, aproximadamente) e indicam dados bastante similares. Os dois artigos defendem que há similaridades de traços genéticos entre os primeiros grupos paleoíndios e os grupos ameríndios.
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Reconstituição artística da caça durante o período paleoíndio.

Paleoíndio é como são chamadas as culturas arqueológicas do continente americano que antecedem o advento da agricultura e cerâmica, geralmente datados entre 13 mil e 5 mil anos, sendo que alguns poucos sítio arqueológicos (como os da região de Lagoa Santa) mostram uma persistência desse grupos até cerca de 1 mil anos atrás.

Ameríndio é como são chamadas as culturas arqueológicas do continente americano cujos traços culturais remetem a atividades horticultoras e a presença de  indústrias cerâmicas, que se espalharam pelo continente há menos de 4 mil anos atrás, ainda que alguns poucos sítios arqueológicos apresentem evidências que remontem a até 6 mil anos atrás na Amazônia. Basicamente, esses traços culturais ameríndios são aqueles que também observamos na grande maioria das populações indígenas existentes atualmente e nas outras registradas nos últimos séculos desde a chegada dos europeus a partir do ano de 1492.

Em resumo, os artigos mostram que os grupos paleoíndios já possuíam a genética que os grupos ameríndios apresentavam (e ainda apresentam). Ainda que diferenças possam ser apontadas no genes paleoíndios e ameríndios e diversas linhagens tenham surgido desde o primeiros paleoíndios, a similaridade genética ainda é maior entre paleoíndios e ameríndios do que entre paleoíndios e outros grupos humanos de fora do continente americano. Os novos dados são extremamente importantes para a arqueologia do nosso continente.

Essa descoberta não é exatamente inédita. Outros artigos científicos já apresentaram dados que chegavam a essa conclusão, incluindo dados de esqueletos do Alasca, de modo que estes novos artigos apenas corroboram para esta ideia, comparando os novos dados com os dados anteriormente publicados e ampliam a nossa gama de conhecimento acerca da ocupação inicial do continente americano.

Um problema por trás dos novos artigos, ou mais especificamente daquele publicado na revista Cell, seja o seu título “Reconstructing the Deep Population History of Central and South America” (em português: Reconstruindo a História Profunda da América Central e do Sul). O titulo lembra aquelas manchetes sensacionalistas de jornais, e quem não lê o artigo de fato leva a crer que absolutamente tudo o que a ciência já recuperou dessa história é inválido. E isso está longe de ser verdade, principalmente pelo fato de que o artigo não leva em consideração nenhuma das inúmeras evidências arqueológicas que construíram a história das populações humanas que habitaram o continente desde há pelo menos 20 mil anos atrás. Infelizmente, os artigos tentam reconstruir essa história considerando a Cultura Clovis (datada entre 14 e 13 mil anos atrás) como ponto inicial da ocupação das Américas – algo que já foi refutado e superado pela maioria dos arqueólogos.

Ainda que o DNA seja um tipo de evidência arqueológica muito importante, não se pode excluir as demais evidências, principalmente as culturais, para a construção (ou reconstrução) da história de um povo ou de vários grupos humanos. E estes novos artigos estão muito longe de reconstruirem a história humana no continente americano, uma vez que as discussões dos artigos tentam refutar apenas os resultados das evidências de morfologia craniana.

Mas o que dizem os dados da morfologia craniana?

Cerca de 20 anos atrás, o bioantropólogo brasileiro Dr. Walter Neves (fundador e ex-coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos, IB-USP), a partir da análise dos crânios das populações pré-históricas da região de Lagoa Santa (Minas Gerais), percebeu que os crânios das primeiras populações do continente americano não se assemelhavam àquelas dos grupos indígenas mais recentes – os grupos ameríndios. 

Na verdade, os crânios destes indivíduos, incluindo Luzia, eram muito mais similares com os crânios de populações contemporâneas do continente africano e da região da Melanésia (Austrália a ilhas próximas). Em algum momento parece haver uma substituição na população em termo biológicos. Os crânios de morfologia africana/melanésia desapareceram e surgiram os ameríndios. Com o passar dos anos novas pesquisas realizadas por Neves, colaboradores e outros autores vieram a corroborar todos estes dados.
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Exemplo de crânio com alguns dos pontos anatômicos usados como referência para medições e análise da forma.

Essa similaridade entre paleoíndios, africanos e melanésios em termos da morfologia craniana jamais foi questionada, nem mesmo pelos novos artigos sobre genética. O que estes novos artigos desafiam é o modelo proposto por Neves para ocupação do continente. 

Para Neves, a ocupação do continente teria ocorrido, inicialmente, no final do Pleistoceno, de povos que saíram da África, passaram pela Ásia (e ali muito ficaram), passaram pelo estreito de Bering e chegaram na América do Norte e consecutivamente foram descendo o continente. Uma segunda onda migratória teria ocorrido milhares de anos depois, de povos vindos da Ásia que já possuíam crânios com morfologia similar a dos asiáticos atuais. Estes asiáticos teriam chegado no continente americano também passando pelo estreito de Bering e teriam dado origem aos povos ameríndios.
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Foto antiga de um homem Botocudo.

Os dados genéticos contradizem esse modelo, uma vez que indicam que os grupos que chegaram há cerca de 13 mil anos já possuíam genoma ameríndio. Mas ainda não explicam a razão de serem fenotipicamente distintos. Ou seja, se o genoma paleoíndio e o ameríndio são tão similares, porque os crânios são tão distintos? Certamente os autores e coautores destes artigos (ou pelo menos alguns deles) reconhecem  este problema já que também participaram destas análises de morfologia craniana.

Afinal, nem sempre genética e morfologia craniana vão fornecer dados equivalentes. A forma do crânio é apenas um dos traços fenotípicos proporcionados pelo genótipo. E não precisam. Veja só o exemplo que os Botocudos nos proporcionam: Eles eram  culturalmente ameríndios, apresentavam a morfologia africana/melanésia, e ainda tinham traços de DNA polinésio. A genética por si só não conta, ou “reconstrói” toda essa história.

Mas e quanto às demais evidências arqueológicas?

Sítios arqueológicos ainda mais antigos, mas que não há esqueletos preservados, comprovam que o continente americano já vem sendo ocupado muito antes de Clovis. A região da Serra da Capivara, no Piauí, concentra sítios arqueológicos como o Boqueirão da Pedra Furada e a Toca da Tira Péia, com artefatos de pedra lascada simples (seixos lascados) que remontam a até pelo menos 22 mil anos (8 mil anos antes de Clovis).
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Exemplos de artefatos de pedra lascada datados em 20 mil anos na região da Serra da Capivara.
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Adornos de colar feitos em osso de preguiça gigante, datados em 20 mil anos, no sítio Santa Elina, Mato Grosso.

O sítio arqueológico Santa Elina, no Mato Grosso, apresenta artefatos de pedra lascada (lascas retocadas de calcário) e até mesmo adorno de colares produzidos por polimento em ossos de preguiça gigante. O sítio data em pelo menos 25 mil anos (10 mil anos antes de Clovis).O sítio Monte Verde, no Chile, apresenta artefatos bastante similares àqueles encontrados na Serra da Capivara, e data de pelo menos 18 mil anos (3 mil anos mais antigo que Clovis).

Os sítios Gault e Friedkin, no Texas, Estados Unidos, apresentam uma ocupação densa da Cultura Clovis. Mas também apresentam vestígios de uma ocupação ainda mais antiga com presença de pontas pedunculadas produzidas sob uma tecnologia lítica muito distinta de Clovis, que data em até 7 mil anos antes de Clovis. Sem contar nos inúmeros sítios com presença de artefatos conhecidos como “Folhas de Louro” encontrados em sítios no leste da América do Norte e que possuem uma ancestralidade clara na cultura Solutreense da Europa, dada a similaridade tecnológica.

Estes são apenas alguns exemplos de sítios arqueológicos que apresentam evidências que descartam qualquer modelo de ocupação inicial da América que considere Clovis como a primeira cultura arqueológica do continente, ou que o continente só tenha sido ocupado há pouco menos de 16 mil anos. Ou seja, independente de quantas ondas migratórias de povos vindos por Bering tenham ocorrido, independente de seu genótipo, independente do seu fenótipo, a história do início da ocupação do continente é ainda mais antiga, e não pode ser resumida àquilo que apenas os vestígios biológicos nos dizem. Existe uma história de mudanças e persistências culturais que começou há mais de 20 mil anos.

Então qual é o modelo correto de ocupação das Américas?

A chegada dos humanos no continente americano pelo estreito de Bering é indiscutível. As pessoas definitivamente atravessaram a região em algum momento pouco antes da Cultura Clovis se espalhar pela América do Norte e diversas outras culturas arqueológicas e espalharem pelo resto do continente. E é bem provável também que as pessoas não tenham atravessado esse estreito apenas uma vez, de modo que elas poderiam ir e vir por essa rota várias vezes ao longo de milênios. Se diversos animais da Megafauna já haviam feito isso antes, o que impede os humanos de terem realizado a mesa façanha?
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Exemplos de artefatos conhecidos como “Folha de Louro” encontrados em sítios da cultura Solutreense, no sudoeste Europeu, datados entre 22 e 18 mil anos atrás.

Também há agora evidências que apontam uma segunda rota de chegada no continente americano. Essa outra rota é uma hipótese elaborada com base em diversos dados da tecnologia lítica e até mesmo de estudos genéticos (os quais não foram discutidos nos artigos publicados esta semana). Estudos conduzidos pelos arqueólogos Dr. Dennis Stanford (Smithsonian Institute) e Dr. Bruce Bradley (University of Exeter) mostram que as Folhas de Louro encontradas em sítios de até 20 mil anos no leste dos Estados Unidos são tecnologicamente idênticas às Folhas de Louro da Cultura Solutreense no sudoeste Europeu que remonta em até 22 mil anos, indicando uma ancestralidade em termos culturais. De alguma maneira, a tecnologia Solutreense chegou na América do Norte alguns milhares de anos depois de ter surgido na Europa. Os dados também mostram que os artefatos líticos da Cultura Clovis tem sua ancestralidade na Cultura Solutreense, uma vez que compartilham de mais de 40 traços tecnologicamente similares, dos quais a maioria não é encontrada em nenhuma outra cultura arqueológica no mundo.
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Exemplos de artefatos pré-Clovis conhecidos como “Folha de Louro” encontrados em sítios do leste dos Estados Unidos.
No fim dos anos 90 e começo dos anos 2000 alguns geneticistas realizaram algumas análises de nativos americanos e perceberam que há um gene nos nativos americanos do leste da América do Norte (gene X2a) que possui sua ancestralidade no sudoeste Europeu (mesma região da cultura Solutreense). 
Uma vez que o Gene X2a é uma mutação que ocorreu já em território americano, e sua proximidade geográfica com seu ancestral (gene X) está no sudoeste Europeu, fica claro que em algum momento do Holoceno Inicial ou Médio uma travessia transatlântica foi realizada. Logo, a hipótese de rotas marítimas ainda mais antigas entre a América do Norte e a Europa é fortalecida, principalmente ao se considerar que há cerca de 20 mil anos atrás havia uma camada de gelo que interligava os dois continentes e havia abundante fonte de alimentação no meio do caminho, facilitando o fluxo de pessoas nessa rota. Esses dados genéticos não foram discutidos nos artigos publicados esta semana.
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Localização geográfica dos genes X e X2 durante o Holceno Inicial e Médio.

Também é importante notar que nenhuma cultura arqueológica na América do Sul apresentar traços tecnológicos que remetam a uma possível ancestralidade com a Cultura Clovis. Mesmo que exista algum traço genético que tenha vindo dos grupos Clovis, os traços culturais não vieram. Ou pelo menos ainda não existem dados que apresentam essas similaridades. Muitos trabalhos ainda precisam ser feitos antes de bater o martelo nessa questão. Alguns deles já estão demonstrando que, pelo menos no território Brasileiro, as ocupações humanas mais densas que se iniciaram há cerca de 13 mil anos são caracterizadas por culturas arqueológicas bastante distintas, e sem traços de ancestralidade em lugar nenhum.
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Exemplos de pontas da Cultura Clovis, datas entre 15 e 14 mil anos.

Afinal, qual é a relação entre a Cultura Clovis e a Cultura Lagoassantense?

Quase nenhuma. A única relação parece mesmo ser essa apresentada pelos novos artigos. O DNA de alguns esqueletos de Lagoa Santa compartilham de uma mesma ancestralidade que o garoto de Anzick. O garoto de Anzick é o único “esqueleto” já encontrado associado à cultura Clovis. Infelizmente, apenas a calota craniana foi preservada, impossibilitando até mesmo a análise morfológica do crânio. E pra infelicidade dos cientistas, anos atrás ele foi reenterrado devido a uma reivindicação de grupos indígenas que acreditavam que um de seus ancestrais havia sido exumado, desrespeitando sua cultura.
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Exemplo de lâmina de machado polido encontrado na região de Lagoa Santa, datado em 11 mil anos

Como já foi dito, nenhuma cultura arqueológica sul-americana compartilha de traços  culturais com Clovis. Uma similaridade genética com apenas um indivíduo, ainda que seja importante, não diz muito a respeito da história das culturas arqueológica sul-americanas. A cultura Lagoassantense não é definida pela sua biologia, mas sim pela sua… cultura! Já sabemos hoje que a cultura Lagoassantense surgiu há cerca de 12,5 mil anos, e que outros grupos culturais já haviam passado pelo local, ainda que não houvessem se estabelecido por lá. A cultura Lagoassantense persistiu até cerca de 1 mil anos, quando parece ter desaparecido. 

Ela é bem definida atualmente pela sua grande diversidade nos rituais mortuários, por uma dieta bastante diversificada, pela produção de alguns tipos de registros rupestres (incluindo aquele com a datação mais antiga do continente) e por uma indústria lítica cuja tecnologia é bem distinta das demais culturas arqueológicas sul americanas. Um artigo publicado há poucas semanas atrás por mim (João Carlos Moreno de Sousa, doutorando pelo Museu Nacional, UFRJ)  com coautoria do Dr. Astolfo Araujo (Museu de Arqueologia e Etnologia, USP) definiu a tecnologia da indústria lítica Lagoassantense. Estes grupos produziam mais de 90% de seus artefatos em lasquinhas provenientes de pequenos cristais de quartzo – que só são encontrados em locais bem afastados dos sítios. Eventualmente produziam algumas lâminas de machado polido, as mais antigas já registradas no continente americano, e que até pouco tempo atrás eram pensadas como artefatos exclusivos de grupos ameríndios. Não há nada nesta cultura arqueológica que remeta a qualquer similaridade com a Cultura Clovis.

Onde Luzia se encaixa em meio a tudo isso?

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Crânio de Luzia antes de sua destruição pelo incêndio no Museu Nacional.

A nossa querida Luzia, tragicamente destruída pelo incêndio no Museu Nacional junto com diversos outros esqueletos de Lagoa Santa, mas felizmente recuperada (ainda que apenas parcialmente) tem pouca participação nessa história toda. É verdade que ela é famosa não só por ser o esqueleto mais antigo do continente – status esse que ela divide agora com o esqueleto de Naia, uma mulher datada em 13 mil anos numa caverna marinha no México – mas também por ter sido a primeira com reconstituição facial. Reconstituição essa realizada a partir da sua morfologia craniana, mas com diversos traços artísticos produzidos com base no modelo proposto por Walter Neves. Ou seja, a cara de Luzia como ela é sempre divulgada é resultado de uma reconstituição que tinha como objetivo fazer ela se assemelhar com uma pessoa africana.
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O esqueleto de Naia foi encontrado em uma caverna submersa no México.

A verdade é que todas as reconstituições são feitas com base na interpretação que o artista ou alguns pesquisadores possuem sobre um indivíduo. Afinal, não sabemos como era o formato do nariz, das orelhas, dos lábios, cor da pele, cor dos olhos, cabelo, etc… As vezes a genética até consegue identificar esses aspectos, como foi o caso do Homem de Cheddar. 
Homem de Cheddar é um esqueleto datado de 14 mil anos na Inglaterra, cujo DNA preservado possibilitou identificar a cor da sua pele: ele era negro! 

Será então que há 14 mil anos atrás os grupos paleoíndios também tinham a pele negra? 

Não sabemos. A morfologia craniana não é capaz de responder nada além da própria forma do crânio. E a genética ainda não chegou a nenhuma conclusão quanto a isso. Ainda que a similaridade genética seja com a de grupos indígenas, que possuem uma cor de pele morena (ou parda, como prefiram chamar), nada indica que entre os traços similares estão os genes de cor da pele, ou mesmo do tamanho do nariz, das orelhas, do tipo de cabelo, etc etc…
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Reconstituição facial do Homem de Cheddar, esqueleto encontrado na Inglaterra datado em 14 mil anos.
Pensando nisso um outro indivíduo de Lagoa Santa teve sua reconstituição facial produzida. Desta vez um homem, mas não tão antigo quanto Luzia. Este tem “apenas” 9 mil anos, e sua reconstituição foi pensada para algo mais “generalizado”, que não remeta tanto aos traços africanos  da reconstituição de Luzia. Mas a verdade é que ainda não temos dados o suficiente para saber qual era a verdadeira aparência destes indivíduos. Ambas as reconstituições são apostas válidas.

Luzia não foi reconstituída novamente, não ganhou uma “nova cara”, diferente do que muitas manchetes de jornal afirmam. E Seu DNA jamais foi analisado. Não por falta de tentativa! Alguns dentes dela já haviam sido sacrificados em busca de DNA, com a esperança de que ainda houvesse colágeno preservando o DNA dela. Não obtivemos sucesso… Luzia não preservou DNA, infelizmente. Se ainda havia DNA em algum lugar do seu esqueleto que ainda não havia sido sacrificado pela ciência, agora certamente não há mais. O que restou após o incêndio está em cacos que passaram por alta temperatura. E há de preservar ao máximo essa mulher que ainda luta para ficar, de alguma forma, viva na história do Brasil e das Américas.
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Fragmentos do crânio de Luzia encontrados dentre os destroços do Museu nacional.

Para saber mais

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Sobre o autor:

João Carlos Moreno de Sousa é arqueólogo. Bacharel em Arqueologia pelo Instituto Goiano de Pre-História e Antropologia da PUC GO, Mestre em arqueologia pelo Museud e Arqueologia e Etnologia da USP, Atualmente está concluindo o seu doutorado em arqueologia pelo Museu Nacional-UFRJ com PDSE concluído pela University of Exeter (Reino Unido). Sua área de especialidade é a análise de indústrias líticas e o período paleoíndio brasileiro, com artigos científicos publicado sobre assunto. Também possui experiência em arqueologia experimental, arqueologia cognitiva e divulgação científica da arqueologia e colabora com as pesquisas do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Ocupação do “Brasil” primordial

Evidências indicam que havia populações de caçadores-coletores em todas as grandes regiões do território nacional cerca de 10 mil anos atrás
MARCOS PIVETTA | ED. 264 | FEVEREIRO 2018



Há 10.500 anos praticamente todo o território que viria a ser o Brasil já era habitado por expressivas populações de caçadores-coletores. Da Amazônia aos Pampas, passando pelas áreas hoje ocupadas pelo Cerrado, Caatinga e Pantanal, os principais biomas brasileiros exibem vestígios de presença humana que remontam a pelo menos 10 milênios. A única exceção parece ser a costa atlântica, onde os registros mais antigos e confiáveis sugerem que talvez o Homo sapiens tenha precisado de mais uns 500 ou mil anos para atingir a borda leste do continente.

Também por volta de 10 mil anos atrás três grandes tradições culturais associadas à fabricação de artefatos de pedra, como raspadores, lascas e pontas de flecha, tinham igualmente se estabelecido na metade leste da América do Sul.

A tradição Umbu se fazia presente no Sul; Lagoa Santa estava no atual território mineiro; e Itaparica ocupava partes do atual Nordeste e Centro-Oeste. Apesar de esquemático e simplificado, esse cenário sobre a colonização inicial do Brasil condensa informações e interpretações derivadas de boa parte dos achados arqueológicos das últimas três décadas.


Esse quadro sugere que a chegada dos humanos modernos às mais diversas latitudes do território nacional deve ter sido um processo antigo e complexo, talvez por meio de múltiplas rotas. Ocupar uma área continental como a do Brasil e desenvolver três tipos de cultura material distintas leva tempo, provavelmente alguns milhares de anos. “Devem ter ocorrido múltiplas migrações em direção ao território do país, a mais antiga delas antes da ocorrência do último máximo glacial [a mais recente Era do Gelo, cujo pico se deu há cerca de 20 mil anos]”, diz o arqueólogo Astolfo Araujo, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), que publicou um artigo científico sobre o tema em abril de 2015 no periódico Anais da Academia Brasileira de Ciências.

Há algumas décadas, era vista com extrema desconfiança a datação de sítios arqueológicos com idade próxima ou superior aos 13 mil anos da chamada cultura de Clóvis, lugar no estado norte-americano do Novo México onde foram encontradas as famosas pontas de flecha bifaciais associadas a caçadores-coletores. Durante a maior parte do século passado, o povo de Clóvis foi considerado o mais antigo a ocupar as Américas. Hoje a barreira dos 13 mil anos já foi igualada ou ultrapassada por sítios arqueológicos do continente, tanto acima como abaixo do Equador. Esse é caso de Monte Verde, no Chile, de Huaca Prieta, no Peru, das cavernas Paisley, no estado norte-americano do Oregon, da Ilha Triquet, na Colúmbia Britânica (Canadá), além de alguns sítios no Brasil. “Não se trata de dar foco apenas no momento em que houve o povoamento inicial do homem no território brasileiro, mas em como ele se deu em uma área tão enorme, com paisagens tão diferentes”, comenta a arqueóloga Adriana Schmidt Dias, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Pelos rios
Se, em sua jornada pelo continente americano, o Homo sapiens migrou do hemisfério Norte para o Sul, ele deve ter passado, e provavelmente se fixado, em algum ponto da América Central antes de chegar à Amazônia ou aos Andes. “O problema é que ainda não encontramos no Panamá, que deve ter feito parte dessa rota interna de povoamento, sítios arqueológicos mais velhos do que os da América do Sul”, diz o arqueólogo Eduardo Góes Neves, também do MAE-USP. Mas, uma vez que tenha fincado pé na América do Sul, o homem provavelmente seguiu por águas fluviais para chegar ao Brasil profundo.

Essa hipótese é corroborada pelo número expressivo de sítios arqueológicos localizados em áreas vizinhas a grandes rios que cruzam o território nacional, como o Amazonas e o Solimões, na Amazônia, o São Francisco, no Nordeste, e o Paraná e o Uruguai, no Sul. “As rotas de colonização por rios são sempre a opção lembrada”, pondera o arqueólogo e antropólogo Walter Neves, do Instituto de Biociências da USP.

Um dos lugares da pré-história mais antigos do Brasil, com uma primeira ocupação datada em cerca de 25 mil anos e outra entre 12 mil e 2 mil anos atrás, é o abrigo Santa Elina, em Mato Grosso, situado a 30 quilômetros do rio Cuiabá, um importante afluente da bacia do Paraná-Paraguai. Os sítios da serra da Capivara, no Piauí, onde a presença humana possivelmente chegue a 20 mil anos, estão a cerca de 100 quilômetros do rio São Francisco. Em Uruguaiana, no extremo oeste do Rio Grande do Sul, bem na fronteira com a Argentina, o sítio Laranjito, que apresenta indústria lítica com idade datada em aproximadamente 12 mil anos, fica às margens do lado brasileiro do rio Uruguai.
Em artigo publicado no início de 2015 na Revista de Estudos Avançados, da USP, Adriana Schmidt Dias e o arqueólogo Lucas Bueno, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), defenderam a existência de três grandes rotas fluviais que poderiam ter sido usadas pelos povos pré-históricos para entrar no território nacional. Uma delas seria via bacia amazônica, outra pelo rio São Francisco e uma terceira explorando as águas da bacia do Prata. Esse trabalho deriva em grande parte de dados compilados e interpretações apresentados em um estudo anterior, publicado em meados de 2013 na revista científica Quaternary International, pela dupla brasileira juntamente com o arqueólogo inglês James Steele, do University College London (UCL).
© CLAIDE MORAES
Pintura rupestre no sítio Pedra Pintada, em Monte Alegre, no Pará, onde a presença humana remonta a de 12 mil anos.

Nesse artigo de revisão, o trio de pesquisadores analisou os resultados de datações feitas a partir de vestígios arqueológicos provenientes de 90 sítios pré-históricos do país, cujas informações foram divulgadas em artigos científicos publicados desde a segunda metade dos anos 1980. As idades foram obtidas pelo emprego do método do carbono 14 em um conjunto variado de vestígios arqueológicos, como ossos, dentes e cabelos humanos, artefatos de pedra, pontas de lança e muitos restos de fogueiras (aparentemente feitas pelo homem). O artigo interpretou como confiáveis 277 datações que haviam chegado a idades entre 15.500 e 8.900 anos (ver mapa). “Desconsideramos 63 datações que, por algum motivo, apresentavam um grau de incerteza maior sobre sua cronologia”, explica Adriana. Também os resultados das datações com mais de 15 mil anos de idade, que costumam ser alvo de questionamentos e polêmicas – como algumas obtidas para certos sítios da serra da Capivara ou em Santa Elina –, não foram levados em conta.

Entre as datações analisadas no trabalho, nove apresentavam resultados entre 15.500 e 12.800 anos. Essas foram as mais antigas da amostra, obtidas a partir de material de cinco sítios. Dois desses lugares, a Toca do Sítio do Meio e a Toca do Gordo do Garrincho, ficam na serra da Capivara. Outros dois se situam no norte de Minas Gerais: Lapa do Boquete, sítio que fica no vale do rio Peruaçu, hoje área de intersecção entre os biomas do Cerrado e da Caatinga; e Lapa do Dragão, na divisa com a Bahia. O quinto sítio é a caverna da Pedra Pintada, em Monte Alegre, nos arredores de Santarém, no norte do Pará, da qual se vê o rio Amazonas.

Esse lugar da pré-história nacional foi notícia no mundo todo no início da década de 1990 quando a arqueóloga norte-americana Anna Roosevelt, bisneta do ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt, datou pela primeira vez suas pinturas rupestres em cerca de 11 mil anos. Agora Pedra Pintada – cujo material coletado pela pesquisadora não ficou no Brasil – está sendo novamente estudada pelo arqueólogo Claide Moraes, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), de Santarém. “Temos cinco novas datações de carvões e sementes carbonizadas provenientes de fogueiras feitas provavelmente por humanos que deram cerca de 12 mil anos”, diz Moraes.
Depois desses cinco sítios mais antigos da amostra, o trabalho publicado na Quaternary International destaca os locais com idade entre 12.800 e 11.400 anos. Nesse período da pré-história nacional, a distribuição geográfica da presença humana começa a se ampliar. Além de incluir o norte de Minas, o Piauí e a Amazônia, os sítios desse período abrangem localidades do extremo sul do país, na divisa com o Uruguai, e do Centro-Oeste, como o de Santa Elina, em Mato Grosso. Para esse intervalo de tempo, o número de datações aumenta para 56 e o de sítios para 29.

Entre 11.400 e 10.200 anos, o estudo contabilizou 65 datações relacionadas a 46 sítios, agora já espalhados literalmente de norte a sul pelo atual território nacional. “Por volta de 10.500 anos atrás, o número de sítios arqueológicos cresce em todas as regiões”, comenta Adriana. Na região de Serranópolis, no sudoeste de Goiás, por exemplo, são conhecidos mais de 40 sítios com material lítico associado à tradição cultural Itaparica.

Eles exibem pinturas rupestres e se situam em abrigos rochosos ao longo do rio Verde, um afluente do rio Paranaíba. Sua idade varia entre 10.700 e 8.400 anos. Até o estado de São Paulo, considerado um vazio arqueológico durante um bom tempo, contribui com dois sítios desse período: Batatal I e Capelinha, ambos situados no Vale do Ribeira, em áreas em que os habitantes pré-históricos fizeram uma espécie de cemitério à beira de rios, os chamados sambaquis fluviais. Um crânio humano de quase 10 mil anos, apelidado de Luzio, foi encontrado em meados dos anos 2000 em Capelinha. Esse sítio é considerado o mais antigo em área de Mata Atlântica a apresentar registros de presença humana. Encontrar sítios arqueológicos em áreas próximas ou vizinhas ao litoral é sempre um desafio. O nível do mar variou ao longo do tempo e é possível que antigos assentamentos estejam hoje em zonas submersas.

Pontas de flecha
 
As pontas de flecha contam uma história semelhante sobre o povoamento inicial do território brasileiro. Aqui, esse tipo de vestígio da cultura material de povos pré-históricos é considerado relativamente raro. Pelo menos três sítios arqueológicos associados a duas tradições culturais distintas legaram exemplares desses artefatos líticos com idade superior a 10 mil anos. Pontas de projéteis da tradição Umbu com 10 milênios de idade foram encontradas no sítio de Garivaldino, no centro do Rio Grande do Sul, e em Tunas, no Paraná. Na gruta do Marinheiro, em Minas Gerais, também foram achados artefatos líticos desse tipo, igualmente antigos, mas cuja filiação cultural é alvo de debates.
© REPRODUÇÃO DO LIVRO IMAGENS DA PRÉ-HISTÓRIA
Desenhos na serra da Capivara, no Piauí, um dos mais antigos pontos do território nacional com vestígios de presença humana

Alguns arqueólogos consideram as pontas do sítio mineiro como da tradição Umbu, enquanto outros ainda não sabem como classificá-las. “As pontas da gruta do Marinheiro são totalmente diferentes das do Sul. Não são da tradição Lagoa Santa nem da Umbu. E muito menos da Itaparica, que, aliás, não produzia pontas”, afirma a arqueóloga Mercedes Okumura, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN-UFRJ), uma das poucas pesquisadoras do país que estudam esse tipo de artefato lítico. “A teoria nos diz que para surgir essa variabilidade no modo de fazer pontas é preciso, entre outros fatores, tempo suficiente para que essa diversidade se desenvolva. De forma simplificada, é um processo semelhante ao da evolução biológica.”

Não se pode descartar a possibilidade de ter ocorrido a migração de um grupo pré-histórico que estava em uma região, e já sabia fazer pontas de flecha com certas características, para uma área onde não havia esse tipo de conhecimento. Em tese, essa migração encurtaria o tempo necessário para que um grupo aprendesse a fazer pontas de um dado estilo. No entanto, as pontas encontradas no Brasil não se assemelham às de Clóvis, da América do Norte, nem às do tipo rabo de peixe, que estão presentes na Argentina e no Uruguai, com idade de até 11 mil anos. “Há algumas dessas no Brasil, mas ainda sem datação”, comenta Mercedes.
© LÉO RAMOS CHAVES
Artefato de pedra do sítio de Santa Elina, em Mato Grosso, datado em mais de 25 mil anos

Idade calibrada
 
As datações de sítios arqueológicos sempre provocam alguma discordância, às vezes até polêmicas, quando os resultados obtidos atingem idades inesperadas. Um dos motivos é que, nas Américas, o número de esqueletos humanos antigos encontrados preservados é pequeno e, entre os poucos que resistiram à passagem do tempo, é raro os arqueólogos conseguirem extrair tecido biológico (colágeno) que possa ser alvo direto do processo de datação por carbono 14.

A datação direta de material humano é sempre mais difícil de ser contestada. Com o método do carbono 14, é possível datar material de até 50 mil anos.

Quando não é possível estabelecer uma cronologia de ocupação de uma área a partir de tecido biológico de esqueletos humanos, o recurso seguinte é tentar obter dados indiretos: datar a camada geológica em que os esqueletos ou vestígios humanos foram achados.

Não havendo ossos de Homo sapiens, a saída é procurar por objetos feitos pelas mãos humanas ou restos de fogueiras produzidas pelo homem que possam ser datados. Se isso também não é possível, resta recorrer novamente à datação da camada geológica em que o objeto associado à presença humana foi encontrado.

Para complicar ainda mais as coisas, as idades fornecidas pelo método do carbono 14 podem ser apresentadas de duas formas, calibradas ou não calibradas. Isso gera discrepâncias e confusões. Nem sempre fica claro para o público leigo quando os arqueólogos ou os meios de comunicação estão usando um tipo de dado ou outro. Idades obtidas pela técnica do carbono 14 têm de passar por um tipo de correção para serem equivalentes aos anos do calendário humano. Assim, 10 mil anos obtidos pela técnica do carbono 14 representam, depois de serem calibrados, cerca de 12 mil anos.


Há mais de uma forma de fazer essa correção e, dependendo da técnica empregada e da margem de erro, os resultados corrigidos podem variar significativamente. Por isso, alguns arqueólogos preferem trabalhar com as datações por carbono 14 sem terem passado por esse processo de correção. “Prefiro usar datas não calibradas”, comenta Walter Neves. Em tempo: nesta reportagem foram usadas datas calibradas.

Artigos científicos
 
BUENO, L. e DIAS, A. Povoamento inicial da América do Sul: Contribuições do contexto brasileiro. Estudos Avançados. v. 29, n.83, jan./abr. 2015.

ARAUJO, A. G. M. On vastness and variability: Cultural transmission, historicity, and the paleoindian record in eastern South America. Anais da Academia Brasileira de Ciências. v. 87, n. 2, p. 1239-58. 2015.

BUENO, L. et al. The late Pleistocene/early Holocene archaeological record in Brazil: A geo-referenced database. Quaternary International. v. 301, p. 74-93. 8 jul. 2013.

sábado, 23 de julho de 2016

Macacos-prego já usavam ferramentas no período pré-colombiano

Estudo arqueológico no Piauí revela pedras usadas para quebrar castanhas com idades até 700 anos
MARIA GUIMARÃES | Edição Online 13:00 11 de julho de 2016
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© TIAGO FALÓTICO/IP-USP
Macaco-prego (Sapajus libidinosus) usa pedra para quebrar fruto na serra da Capivara
Macaco-prego (Sapajus libidinosus) usa pedra para quebrar fruto na serra da Capivara

Novos indícios indicam que, por volta de 700 anos atrás, macacos-prego já usavam ferramentas para quebrar castanhas de caju e extrair a parte comestível. As caravelas portuguesas ainda não tinham chegado à costa brasileira com utensílios mais sofisticados, que de qualquer maneira até hoje não estão à disposição dos animais na serra da Capivara, no Piauí. “É o primeiro relato de ferramentas de macacos-prego no registro arqueológico”, conta o biólogo Tiago Falótico, pesquisador de pós-doutorado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP).

Falótico e o colega Eduardo Ottoni, seu supervisor, há tempos estudam o comportamento de macacos-prego e especificamente o uso de ferramentas por esses primatas da espécie Sapajus libidinosus (ver Pesquisa FAPESP nº 196). Nos últimos três anos, em parceria com o arqueólogo Michael Haslam, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, eles aprofundaram os estudos no tempo.

O grupo fez escavações em uma área no Parque Nacional da Serra da Capivara e descobriu que as mesmas configurações de ferramentas observadas hoje aparecem em camadas correspondentes a período que chegam ao século XIII, como mostra artigo publicado hoje (11/7) na revista Current Biology. “Os macacos escolhem pedras maiores para bater nas castanhas e as deixam acumuladas junto aos cajueiros”, conta o pesquisador. Segundo ele, as datações por radiocarbono são bem precisas e permitem esse refinamento de datas. Camadas ainda mais antigas, que podem chegar a 3 mil anos atrás, ainda estão sendo analisadas.
© TIAGO FALÓTICO/IP-USP
Macho adulto procura comida com ajuda de graveto
Macho adulto procura comida com ajuda de graveto.

As 69 ferramentas encontradas são muito semelhantes às usadas hoje: pedras achatadas servem como base e são pelo menos quatro vezes mais pesadas do que aquelas usadas como martelos – também pelo menos quatro vezes mais pesadas do que a média dos pedregulhos encontrados por perto (ver comportamento em vídeo). Análises químicas confirmaram que manchas escuras nas rochas indicam que foram usadas para quebras castanhas de caju. A constância indica que a transmissão de conhecimento, hoje evidente entre macacos mais experientes e mais jovens, vem acontecendo há pelo menos uma centena de gerações.

Até agora, o uso pré-moderno de ferramentas por não humanos só tinha sido descoberto em chimpanzés na Costa do Marfim. No período pré-colombiano, os macacos da Caatinga brasileira conviviam, até certo ponto, com pessoas que habitam a região há pelo menos 10 mil anos. Mas não há indícios de atividade humana no sítio arqueológico primata. “Todos os fragmentos de carvão que analisamos têm origem em queimadas naturais”, afirma Falótico. Brasas são a forma comum de humanos processarem as castanhas de caju para eliminar as substâncias indigestas. Quem gosta de uma castanha torrada sabe. Falótico, que já deu uma mordida cautelosa numa castanha crua, também.

Projetos
 
Uso de ferramentas por macacos-prego (Sapajus libidinosus) selvagens: ecologia, aprendizagem socialmente mediada e tradições comportamentais (n° 2014/04818-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Temático; Pesquisador responsável Eduardo Benedicto Ottoni (USP); Investimento R$ 439.536,00.

2. Uso de ferramentas por macacos-prego: aprendizagem e tradição (nº 2013/05219-0); Modalidade Bolsa no país – Pós-doutorado; Pesquisador responsável Eduardo Benedicto Ottoni (USP); Bolsista Tiago Falótico (USP); Investimento R$ 178.512,00 (FAPESP).

Artigo científico
 
HASLAM, M. et al. Pre-Columbian monkey tools. Current Biology, v. 26, n. 13, p. R521–R522. 11 jul 2016.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

ARQUEOLOGIA DO BRASIL

Novas peças para o quebra-cabeça

Dentes de cervo encontrados ao lado de ossos humanos em caverna do Piauí sugerem presença do homem na região há mais de 20 mil anos 

MARCOS PIVETTA | ED. 227 | JANEIRO 2015



Dois dentes de um grande cervo encontrados num sítio pré-histórico nos arredores do Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, sul do Piauí, devem acirrar o debate sobre a data da chegada do homem moderno nas Américas. Achados a pouco mais de meio metro de profundidade na mesma camada geológica da Toca do Serrote das Moendas em que foram resgatados ossos humanos, os vestígios desses grandes mamíferos foram datados, de forma independente, em dois laboratórios distintos. Um dente foi analisado no Departamento de Física da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto; o outro no Departamento de Química do Williams College, de Massachusetts, Estados Unidos.

Ambos os exames apontaram na mesma direção: 29 mil anos no primeiro caso e 24 mil anos no segundo. Um terceiro grupo, do campus da Baixada Santista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), determinou a idade de uma camada de concreção, um estrato compactado rico em carbonatos que recobria os sedimentos onde estavam os dentes do animal e os fragmentos de esqueleto humano. Era de esperar que a camada de concreção fosse mais nova do que os restos dos animais. O teste confirmou a expectativa: essa amostra de solo tinha 21 mil anos. As duas datações feitas no Brasil foram realizadas em equipamentos adquiridos com financiamento da FAPESP.

Com os três testes em mãos, o grupo de pesquisadores acredita ter reunido um conjunto de evidências indiretas que demonstra a presença humana no atual semiárido do Nordeste há pelo menos 20 mil anos, muito antes do que advoga a arqueologia mais tradicional sobre o povoamento das Américas. “As três datas se alinham”, afirma o físico Oswaldo Baffa, coordenador do grupo da USP de Ribeirão Preto, um dos autores do trabalho. “Para diminuir as críticas, tivemos o cuidado de fazer as análises das amostras em três lugares diferentes, que trabalharam às cegas, sem saber exatamente o que estavam analisando.” A visão clássica, difundida por grupos norte-americanos, situa a chegada do primeiro grupo de Homo sapiens ao continente por volta de 13 mil anos atrás, por meio da travessia do estreito de Bering, que separa a Ásia do Alasca. As conclusões derivadas dos exames com o material obtido nessa caverna do semiárido nordestino foram publicadas em dezembro em um artigo no periódico científico Journal of Human Evolution. “Não havia colágeno para datar diretamente os ossos humanos da caverna por carbono 14”, diz a arqueóloga Niède Guidon, outra autora do trabalho e presidente da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham). “Mas os resultados das datações dos dentes de cervos e da camada de concreção, obtidos em três laboratório distintos, apontam para uma ocupação humana muito antiga na região.” A Fumdham administra o parque em conjunto com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), autarquia vinculada do Ministério do Meio Ambiente.

Desde os anos 1970, Niède e seus colaboradores fazem pesquisas, em especial nas áreas de arqueologia e paleontologia, na região do parque, considerado patrimônio cultural da humanidade pela Unesco. Sua equipe catalogou 1.400 sítios pré-históricos na serra da Capivara, a maior concentração das Américas, dos quais 900 com pinturas rupestres feitas há milhares de anos. Além de figuras humanas, os desenhos nas rochas retratam animais, inclusive o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus), a espécie de veado cujos dentes foram encontrados na Toca do Serrote das Moendas. Apesar de abundantes, os sítios do semiárido do Piauí nunca forneceram ossadas humanas que pudessem ser datadas pelo método carbono 14, normalmente empregado para determinar a idade de matéria orgânica (ossos, conchas, madeira, carvão, tecido) de até 50 mil anos ou, em certos casos, até 100 mil anos. Indispensável para a datação por essa técnica, a parte orgânica dos ossos é o colágeno, proteína raramente preservada nos esqueletos encontrados na região.

Como não foi possível determinar a idade das ossadas dos sítios potencialmente mais antigos da serra da Capivara, Niède teve de trabalhar quase sempre com o intuito de estabelecer uma cronologia aceitável para o ambiente em que os fragmentos de ossos humanos foram desenterrados e também para artefatos e vestígios que teriam sido produzidos pelas mãos do homem. Nas últimas três décadas, datou restos de fogueiras e artefatos de pedra atribuídos ao H. sapiens, além das ubíquas pinturas rupestres, uma marca da presença humana. Chegou a resultados, ainda questionados por boa parte da comunidade científica, que indicaram a presença humana na região entre 30 mil e 100 mil anos atrás, tendo chegado tão precocemente ali por uma hipotética rota marítima pelo Atlântico. Com o novo trabalho na Toca do Serrote das Moendas, um sítio distante cerca de 5 quilômetros do parque, a arqueóloga adiciona dados, com o auxílio de outras técnicas de datação, para o polêmico quebra-cabeça de quando o homem fincou pé no Nordeste e, por consequência, nas Américas.
© JONATHAN WILKINS / WIKIMEDIA COMMONS
Cervo-do-pantanal: animal é retratado em pinturas rupestres da região
Cervo-do-pantanal: animal é retratado em pinturas rupestres da região.

Esse sítio pré-histórico ofereceu novas possibilidades de análise. De grande porte, com 35 metros de comprimento por 23 metros de largura em seu maior ponto, a caverna tinha restos de paleofauna, artefatos de pedra, fragmentos de cerâmica e partes de três esqueletos humanos, dois de crianças e um de adulto. Os dois dentes de cervo-do-pantanal estavam um ao lado do outro a uma distância de 35 centímetros dos fragmentos do esqueleto adulto, situados na mesma profundidade.  Essa conformação é um indicativo, embora não irrefutável, de que homem e animal viveram possivelmente na mesma época.

A técnica usada para determinar a idade dos dentes foi a ressonância de spin eletrônico, também chamada espectroscopia de ressonância paramagnética eletrônica. Ela mede a quantidade de radiação ionizante que incidiu sobre uma amostra por meio da concentração de spins criada por essa energia depositada no material. “A princípio, quanto mais antigo for um dente, maior a dose depositada nele”, diz a física Angela Kinoshita, da Universidade Sagrado Coração (USC), de Bauru, e pós-doutoranda no Departamento de Física da USP de Ribeirão Preto, que examinou um dos dentes com essa técnica. Além de registrar os níveis de radiação armazenados no esmalte e na dentina do dente, o cálculo da idade de uma amostra tem de levar em conta as condições específicas do sítio em que o material analisado foi encontrado (níveis locais de radiação emitida por elementos como urânio, tório e potássio) e também a radiação cósmica.

A camada de concreção rica em carbonatos que praticamente selava o estrato sedimentar onde se achavam os dentes do animal e os restos da ossada humana foi datada por outra técnica, a luminescência opticamente estimulada (Loe).

Esse método mede os níveis desse tipo de luz presente nos cristais de quartzo de uma camada geológica. “Teoricamente, quanto maior a intensidade do sinal de Loe, mais antiga é a amostra”, explica Sonia Tatumi, física da Unifesp que analisou duas amostras da camada de concreção da Toca do Serrote das Moendas. “O quartzo tem a propriedade de absorver a luz azul e emitir LOE na região do ultravioleta.” Os dados obtidos a partir de uma amostra, retirada da porção mais central da concreção, foram inconclusivos. Mas o exame de um pedaço mais externo da camada forneceu o resultado que aparece no artigo científico: 21 mil anos de idade, com um grau de precisão de quase 94%, segundo Sonia.

Projeto

Avanços em dosimetria, datação arqueológica e caracterização de biomateriais por ressonância de spin eletrônico (nº 2007/06720-4); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador Responsável Oswaldo Baffa (USP/Ribeirão Preto); Investimento R$ 507.101,73 (FAPESP).

Artigo científico

KINOSHITA, A. et al. Dating human occupation at Toca do Serrote das Moendas, São Raimundo Nonato, Piauí-Brasil by electron spin resonance and optically stimulated luminescence. Journal of Human Evolution. v. 77, p. 187-95. dez. 2014.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Conheça o berço do homem americano nas américas

26/03/2011 12:00 - Fonte: edição Edgar Rocha - Edição Edgar Rocha
 Serra da Capivara / São Raimundo Nonato/ Piauí

O Parque Nacional Serra da Capivara está localizado no sudeste do Estado do Piauí, ocupando áreas dos municípios de São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias. A superfície do Parque l é de 129.140 ha e seu perímetro é de 214 Km. A cidade mais próxima do Parque Nacional é Cel. José Dias, sendo a cidade de São Raimundo Nonato o maior centro urbano. A distância que o separa da capital do Estado, Teresina, é de 530 Km.
A maneira mais rápida de chegar ao Parque é através de Petrolina, cidade do Estado de Pernambuco, da qual dista 300 Km. A cidade de Petrolina dispõe de um aeroporto onde opera atualmente a Gol, e a BRA, ligando a região com Recife, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília.
A criação do Parque Nacional Serra Capivara teve múltiplas motivações ligadas à preservação de um meio ambiente específico e de um dos mais importantes patrimônios culturais pré-históricos. As características que mais pesaram na decisão da criação do Parque Nacional são de natureza diversa:
- culturais - na unidade acha-se uma densa concentração de sítios arqueológicos, a maioria com pinturas e gravuras rupestres, nos quais se encontram vestígios extremamente antigos da presença do homem (100.000 anos antes do presente). Atualmente estão cadastrados 912 sítios, entre os quais, 657 apresentam pinturas rupestres, sendo os outros sítios ao ar livre (acampamentos ou aldeias) de caçadores-coletores, são aldeias de ceramistas-agricultores, são ocupações em grutas ou abrigos, sítios funerários e, sítios arqueo-paleontológicos;

- ambientais - área semi-árida, fronteiriça entre duas grandes formações geológicas - a bacia sedimentar Maranhão-Piauí e a depressão periférica do rio São Francisco - com paisagens variadas nas serras, vales e planície, com vegetação de caatinga ( o Parque Nacional Serra da Capivara é o único Parque Nacional situado no domínio morfoclimático das caatingas), a unidade abriga fauna e flora específicas e pouco estudadas. Trata-se, pois, de uma das últimas áreas do semi-árido possuidoras de importante diversidade biológica;
- turísticas - com paisagens de uma beleza natural surpreendente, com pontos de observação privilegiados. Esta área possui importante potencial para o desenvolvimento de um turismo cultural e ecológico, constituindo uma alternativa de desenvolvimento para a região.
fonte:fumdham.org.br
Em 1991 a UNESCO, pelo seu valor cultural, inscreveu o Parque Nacional na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade. Em 2002 foi oficializado o pedido para que o mesmo seja declarado Patrimônio Natural da Humanidade.
foto: site passagem.barata.com.br
O Parque Nacional Serra da Capivara é subordinado à Diretoria de Ecossistemas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), tendo sido concluída a sua demarcação em 1990. Em torno do Parque foi criada uma Área de Preservação Permanente de dez quilômetros que constitui um cinto de proteção suplementar e na qual seria necessário desenvolver uma ação de extensão. Em 1994 a FUMDHAM assinou um convênio de co-gestão com o IBAMA em 2002 um contrato de parceria com a mesma instituição.
Depois de criado, o Parque Nacional esteve abandonado durante dez anos por falta de recursos federais. Análises comparativas das fotos de satélite evidenciaram esse fato. Durante este período a Unidade de Conservação foi considerada “terra de ninguém” e como tal, objeto de depredações sistemáticas. A destruição da flora tomou dimensões incalculáveis; caminhões vindos do sul do país desmatavam e levavam, de maneira descontrolada, as espécies nobres. O desmatamento dessas espécies, próprias da caatinga, aumentou depois da criação do Parque, em decorrência da falta de vigilância.
flickr.com
A caça comercial se transformou numa prática popular com conseqüências nefastas para as populações animais que começaram a diminuir de forma alarmante. Algumas espécies, como os veados, emas e tamanduás praticamente desapareceram. Estes fatos tiveram conseqüências negativas na preservação do patrimônio cultural. A falta de predadores naturais provocou um crescimento descontrolado de algumas espécies, como cupim ou vespas cujos ninhos e galerias destroem as pinturas.

As causas desta situação são em parte externas à região, mas também decorrem da participação da população que vive em torno do Parque. São comunidades muito pobres, algumas das quais exploravam roças no interior dos limites atuais do Parque. Estas populações dificilmente compreendem a necessidade de proteger espécies animais e vegetais uma vez que os seres humanos apenas logram sobreviver. Assim, a população local depredava as comunidades biológicas e o patrimônio cultural do Parque Nacional e áreas circunvizinhas, pela caça, desmatamento, destruição de colméias silvestres e a exploração do calcário de afloramentos, ricos em sítios arqueológicos e paleontológicos.
 

PARQUE NACIONAL SERRA DA CAPIVARA
flickr.com/Pedro Léo
O Parque Nacional Serra da Capivara é um parque brasileiro que está localizado no sudeste do estado do Piauí, entre as coordenadas 8º 26' 50" e 8º 54' 23" de latitude sul e 42º 19' 47" e 42º 45' 51" de longitude oeste. Ocupa áreas dos municípios de São Raimundo Nonato, São João do Piauí, Coronel José Dias e Canto do Buriti. Tem 129.140 hectares e seu perímetro é de 214 quilômetros. É administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Foi criado para proteger uma área na qual se encontra o mais importante patrimônio pré-histórico do Brasil. Trata-se de um parque arqueológico com uma riqueza de vestígios que se conservaram durante milênios, devido à existência de um equilíbrio ecológico, hoje extremamente alterado. O patrimônio cultural e os ecossistemas locais estão, portanto, intimamente ligados, pois a conservação do primeiro depende do equilíbrio desses ecossistemas. O equilíbrio entre os recursos naturais é o condicionante na conservação dos recursos culturais e foi o que orientou o zoneamento, a gestão e o uso do Parque pelo poder público.
É um local com vários atrativos, monumental museu a céu aberto, entre belíssimas formações rochosas, onde encontram sítios arqueológicos e paleontológicos espetaculares, que testemunham a presença de homens e animais pré-históricos.
O parque nacional foi fundado graças em grande parte ao trabalho da arqueóloga Niède Guidon, que hoje dirige a Fundação Museu do Homem Americano, instituição responsável pelo manejo do parque.
MANEJO DO PARQUE
Área de maior concentração de sítios pré-históricos do continente americano e Patrimônio Cultural da Humanidade - UNESCO. Contém a maior quantidade de pinturas primitivas sobre rocha do mundo. Estudos científicos confirmam que a Serra da Capivara foi densamente povoada em períodos pré–históricos. Os artefatos encontrados apresentam o registro do homem há 50.000 anos.
O Parque Nacional Serra da Capivara se localiza nas Unidades federativas do Brasil Estado do Piauí, ao Sul. Possui vários sítios arqueológicos e o Museu do Homem Americano.
Existem atualmente 737 sítios arqueológicos catalogados onde foram encontrados esqueletos humanos, pinturas rupestres com aproximadamente 30.000 figuras coloridas, que representam cenas de sexo, de dança, de parto, entre outras.
Um exemplo das pinturas que podem ser encontradas no parque. A esquerda é representado provavelmente uma cena de parto.




reprodução: site br.olhares.com
Ao longo de 14 trilhas e 64 sítios arqueológicos abertos à visitação, encontramos tesouros, como os pedaços de cerâmicas mais antigos das Américas, de 8.960 anos. No circuito dos Veadinhos Azuis, podemos encontrar quatro sítios com pinturas azuis, a primeira desta cor descoberta no mundo.
Situado em uma região de clima semi-árido, fronteira entre duas grandes formações geológicas - a bacia sedimentar Maranhão-Piauí e a depressão periférica do rio São Francisco -, seu relevo é formado por serras, vales e planícies. É o único Parque Nacional do domínio morfoclimático das caatingas, o que ressalta a necessidade de conservação e restauração da flora. O Parque abriga fauna e flora específicas.
Desde a colonização, o Parque Nacional Serra da Capivara foi utilizado pelas populações vizinhas que neles caçavam, plantavam e retiravam a madeira. Essa população, extremamente pobre e sem nenhuma fonte de trabalho, além da exploração dos recursos naturais, vive na Área de Preservação Permanente, uma faixa limítrofe com dez quilômetros de largura.
[editar] Manejo do parque
A Fundação Museu do Homem Americano, ao elaborar o Plano de Manejo do Parque, estabeleceu uma política de proteção que inclui a integração da população circunvizinha do parque às ações de preservação. Implantou um projeto de desenvolvimento econômico e social que visa educar e preparar as comunidades para que possam participar do mercado de trabalho que o parque está criando na região: obras de infra-estrutura, manejo e turismo ecológico e cultural.

As condições essenciais para a proteção do parque são a erradicação da miséria e da fome e a criação de novas formas de trabalho alternativo. O Plano de Manejo considera a população atual como um dos elementos dos ecossistemas a serem preservados e propõe que o Parque Nacional seja o motor de criação de recursos econômicos, em uma área onde a seca impiedosa limita ao extremo a agricultura e a criação.
[editar] Patrimônio Cultural
reprodução site Cabeça de Cuia
As pinturas rupestres são a manifestação mais abundante, conspícua e espetacular deixada pelas populações pré-históricas que viveram na área do Parque Nacional, desde épocas muito recuadas. Os três sítios que apresentaram as mais antigas datações obtidas na área do Parque Nacional são abrigos-sob-rocha. Um abrigo-sob-rocha forma-se pela ação da erosão que agindo na base dos paredões rochosos vai desagregando a parte baixa das paredes fazendo com que se forme, no alto, uma saliência. Esta funciona como um teto que protege do sol e da chuva o solo que fica sob o mesmo. Com o progresso da erosão, a saliência torna-se cada vez mais pronunciada até que, sob a ação da gravidade, fratura-se e desmorona.
Os homens utilizaram a parte protegida dos abrigos como casa, acampamento, local de enterramentos e suporte para a representação gráfica da sua tradição oral.
reprodução: www.alexandreuchoa.com.br
Sobre os vestígios deixados por um grupo humano, a natureza depositava sedimentos que os cobriam. Novos grupos, novos vestígios, nova sedimentação. A repetição desse ciclo durante milênios forma as camadas arqueológicas, nas quais os arqueólogos encontram todos os elementos que permitem a reconstituição da vida dos povos pré-históricos.