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quinta-feira, 20 de agosto de 2020


Nova pesquisa confirma a teoria da evolução humana “Fora da África”
10 de maio de 2007
Fonte: Universidade de Cambridge

Resumo: Uma nova pesquisa confirma a hipótese "Out Of Africa" ​​de que todos os humanos modernos derivam de um único grupo de Homo sapiens que emigrou da África há 2.000 gerações e se espalhou pela Eurásia ao longo de milhares de anos. Esses colonos substituíram outros humanos primitivos (como os neandertais), em vez de cruzar com eles.
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HISTÓRIA COMPLETA

Os pesquisadores produziram novas evidências de DNA que quase certamente confirmam a teoria de que todos os humanos modernos têm uma ancestralidade comum. O levantamento genético, produzido por uma equipe colaborativa liderada por acadêmicos das universidades de Cambridge e Anglia Ruskin, mostra que a população aborígene da Austrália veio do mesmo pequeno grupo de colonos, junto com seus vizinhos da Nova Guiné.

A pesquisa confirma a hipótese “Out Of Africa” de que todos os humanos modernos derivam de um único grupo de Homo sapiens que emigrou da África há 2.000 gerações e se espalhou pela Eurásia ao longo de milhares de anos. Esses colonos substituíram outros humanos primitivos (como os neandertais), em vez de cruzar com eles.
Acadêmicos analisaram o DNA mitocondrial (mtDNA) e o DNA do cromossomo Y de aborígenes australianos e melanésios da Nova Guiné. Esses dados foram comparados com os vários padrões de DNA associados aos primeiros humanos. A pesquisa foi um esforço internacional, com pesquisadores de Tartu na Estônia, Oxford e Stanford na Califórnia, todos contribuindo com dados e conhecimentos importantes.

Os resultados mostraram que tanto os aborígenes quanto os melanésios compartilham as características genéticas que foram associadas ao êxodo dos humanos modernos da África há 50.000 anos.
Até agora, uma das principais razões para duvidar da teoria “Out Of Africa” era a existência de evidências inconsistentes na Austrália. Os restos de esqueletos e ferramentas que foram encontrados lá são notavelmente diferentes daqueles em outras partes da “via expressa costeira” - a rota através do Sul da Ásia seguida pelos primeiros colonizadores.

Alguns estudiosos argumentam que essas discrepâncias existem porque os primeiros colonos cruzaram com a população Homo erectus local ou porque houve uma migração secundária subsequente da África. Ambas as explicações minariam a teoria de uma origem única e comum para os humanos modernos.

Mas na pesquisa mais recente não houve evidência de uma herança genética do Homo erectus, indicando que os colonos não se misturaram e que essas pessoas, portanto, compartilham a mesma linhagem direta de outros povos eurasianos.

O geneticista Dr. Peter Forster, que liderou a pesquisa, disse: “Embora tenha sido especulado que as populações da Austrália e da Nova Guiné vieram dos mesmos ancestrais, o registro fóssil difere de forma tão significativa que é difícil provar. Pela primeira vez, essa evidência nos dá uma ligação genética que mostra que as populações aborígenes australianas e da Nova Guiné descendem diretamente do mesmo grupo específico de pessoas que emergiram da migração africana”.

Na época da migração, 50.000 anos atrás, a Austrália e a Nova Guiné estavam unidas por uma ponte de terra e a região também estava separada da principal massa de terra da Eurásia por estreitos como a Linha de Wallace na Indonésia. A ponte de terra foi submersa há cerca de 8.000 anos.
O novo estudo também explica por que o registro fóssil e arqueológico na Austrália é tão diferente daquele encontrado em outros lugares, embora o registro genético não mostre nenhuma evidência de cruzamento com o Homo erectus e indique um único evento de colonização paleolítica.

Os padrões de DNA das populações australiana e melanésia mostram que a população evoluiu em relativo isolamento. Os dois grupos também compartilham certas características genéticas que não são encontradas além da Melanésia. Isso sugere que houve muito pouco fluxo gênico para a Austrália após a migração original.

O Dr. Toomas Kivisild, do Departamento de Antropologia Biológica da Universidade de Cambridge, coautor do relatório, disse: "As evidências apontam para um isolamento relativo após a chegada inicial, o que significaria que quaisquer desenvolvimentos significativos na forma esquelética e uso de ferramentas não foram influenciados por fontes externas.

“Provavelmente houve um fluxo gênico secundário menor para a Austrália enquanto a ponte de terra da Nova Guiné ainda estava aberta, mas uma vez que foi submersa, a população ficou aparentemente isolada por milhares de anos. As diferenças no registro arqueológico são provavelmente o resultado disso, e não qualquer migração secundária ou cruzamento. ”
O estudo foi publicado na nova edição de Proceedings of the National Academy of Sciences.
Informação relacionada

O registro arqueológico da Austrália fornece várias inconsistências aparentes com a teoria “Out Of Africa”. Em particular, os primeiros esqueletos australianos conhecidos, do Lago Mungo, são relativamente delgados e elegantes na forma, enquanto os esqueletos mais jovens são muito mais robustos. Essa robustez, que permanece, por exemplo, na estrutura da crista da sobrancelha dos aborígines modernos, sugeriria tanto o cruzamento entre o homo sapiens e o homo erectus ou múltiplas migrações para a Austrália, seguidas de cruzamento.
Os dados arqueológicos também indicam uma intensificação da densidade e complexidade de diferentes ferramentas de pedra na Austrália durante o período do Holoceno (começando por volta de 10.000 anos AP), em particular o surgimento da tecnologia de pedra de lâmina posterior. Os primeiros dingos chegaram mais ou menos na mesma época, e acredita-se que ambos tenham sido trazidos ao continente por novas chegadas de humanos - levando a teorias de uma migração secundária que resultou em disputas sobre a teoria do ponto único de origem.

Fonte da história:
Materiais fornecidos pela University Of Cambridge . Nota: o conteúdo pode ser editado quanto ao estilo e comprimento.

Cite esta página :
University Of Cambridge. "New Research Confirms 'Out Of Africa' Theory Of Human Evolution." ScienceDaily. ScienceDaily, 10 May 2007. www.sciencedaily.com/releases/2007/05/070509161829.htm  

Fonte: https://www.sciencedaily.com/releases/2007/05/070509161829.htm https://www.sciencedaily.com/releases/2007/05/070509161829.htm

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Um estudo refuta as semelhanças entre os dentes dos denisovanos e os asiáticos modernos

Crédito: CENIEH
A revista PNAS publicou recentemente um artigo com a participação do Centro Nacional de Investigação sobre a Evolução Humana (CENIEH) que refuta as semelhanças entre os dentes dos asiáticos modernos e dos denisovanos, uma população humana extinta que coexistia com o Homo Sapiens e os neandertais e cujos O DNA está presente em 4-6% das populações atuais da Austrália, Melanésia e Papua Nova Guiné.
 
A dificuldade de estudar esses homininos reside no fato de que, apesar da abundância de DNA obtido, foram encontrados muito poucos fósseis que permitam a reconstrução de sua aparência física. Até agora, o desse grupo consistia em dois dentes e o osso minúsculo de uma mão encontrada na Caverna Denisova, na Sibéria, de onde o nome vem.
 
No meio deste ano, a descoberta foi feita de uma mandíbula no Tibete, a mandíbula Xiahe, que os cientistas reconheceram como Denisovan graças à análise de seus paleoproteômicos, tornando-se o primeiro Denisovan encontrado além de Denisova. Recentemente, um estudo na revista PNAS, liderado por Shara Bailey, da Universidade de Nova York, e com a participação de Max Planck de Leipzig (Alemanha), chamou a atenção para a identificação na mandíbula Xiahe de um segundo molar inferior com três raízes, em vez da duas raízes comuns encontradas nesta classe dental entre os homininos.
De acordo com Bailey e seus colegas, essa característica dental é particularmente comum entre as populações asiáticas contemporâneas, até 40% em comparação com menos de 3,5% nas populações não asiáticas; portanto, concluem que as populações asiáticas modernas herdaram esse recurso dos denisovanos como resultado da hibridação de seus ancestrais com essa extinta.
 
Dente errado
 
O estudo, da paleoantropóloga María Martinón-Torres e de dois outros especialistas em odontologia, Richard Scott, da Universidade de Reno (EUA), e Joel Irish, da Universidade de Liverpool (Reino Unido), refuta essa conclusão.
 
Por um lado, as altas frequências de molares com três raízes nas populações asiáticas se referem ao primeiro molar, não ao segundo. Mesmo nos grupos com maior frequência de molares com três raízes no mundo, o Aletus, esse recurso está presente em 40,7% dos primeiros molares, mas apenas 1,9% nos segundos molares. Portanto, a comparação das frequências do recurso Xiahe com as populações modernas seria baseada no "dente errado".
 
Por outro lado, o estudo morfológico detalhado do Denisovan de Xiahe revela que, embora tenham três raízes, sua configuração é diferente da das populações humanas modernas e tende a ser mais frequente entre os asiáticos. A terceira raiz não é apenas diferente em relação ao tamanho e forma, mas também à sua posição. Em outras palavras, a variação genética que causou o desenvolvimento de três raízes em Xiahe é provavelmente diferente daquela que causou molares com três raízes nas populações modernas, predominantemente da Ásia.
 
"Eles são semelhantes apenas na aparência, são características diferentes", afirma María Martinón. O pesquisador, que liderou o Grupo de Antropologia Dentária no CENIEH por oito anos, observa: "Embora os dentes sejam a melhor ferramenta que temos para estudar espécies extintas, devemos ter muito cuidado e não exagerar na interpretação de características isoladas. Para falar de introgressão entre espécies por causa de uma característica comum, que nem é o caso aqui, é muito arriscado ", conclui.

Explorar mais
Os primeiros homininos no platô tibetano foram os denisovanos

sexta-feira, 19 de abril de 2019

The Marquesans at the fringes of the Austronesian expansion

European Journal of Human Geneticsvolume 27pages801810 (2019) | Download Citation

Abstract

In the present study, 87 unrelated individuals from the Marquesas Archipelago in French Polynesia were typed using mtDNA, Y-chromosome and autosomal (STRs) markers and compared to key target populations from Island South East Asia (ISEA), Taiwan, and West and East Polynesia to investigate their genetic relationships.

As Marquesas, localizadas nas franjas mais a leste da expansão austronésia, oferecem uma oportunidade única para examinar os efeitos de uma prolongada onda de expansão populacional na estrutura populacional. Nós exploramos a contribuição da herança da Melanésia, Ásia e Europa para as ilhas Marquesas de Nuku-Hiva, Hiva-Oa e Tahuata. No geral, as Ilhas Marquesas são geneticamente homogêneas. No arquipélago Marquesan, todos os haplogrupos mtDNA são de origem austronésia pertencentes ao sub-grupo B4a1, uma vez que a região marca o fim de uma cline decrescente de oeste para leste do mtDNA melanésio, começando com a população polinésia ocidental de Tonga.

Genetic discrepancies are less pronounced between the Marquesan and Society islands, and among the Marquesan islands. Interestingly, a number of Melanesian, Polynesian and European Y-chromosome haplogroups exhibit very different distribution between the Marquesan islands of Nuku Hiva and Hiva Oa, likely resulting from drift, differential migration involving various source populations and/or unique trading routes.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A ocupação do continente americano à luz dos novos dados genéticos e o sensacionalismo midiático

Por JuCa //
Novos dados corroboram a ideia de que a genética ameríndia já estava presente em grupos paleoíndios, mas o registro arqueológico como um todo deve ser considerado.
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A rota de vários dos primeiros grupos humanos que chegaram no continente americano foi o estreito de Bering.
Dia 08 de Novembro de 2018 (ontem, caso você esteja lendo essa matéria no dia de sua publicação), foram publicados dois artigos científicos – um na revista prestigiada revista Science e outro na também prestigiada revista Cell – que geraram muito material para a mídia jornalística usufruir e, como é de costume, distorcer boa parte do discurso científico com matérias cujas manchetes são bastante sensacionalistas (com algumas exceções de algumas poucas reportagens muito bem elaboradas).  Mas afinal, o que foi realmente que os cientistas publicaram?

Os novos dados genéticos de povos paleoíndios e a “reconstrução” de sua história

Os novos artigos publicados apresentam dado da análise genética de mais de 60 esqueletos (alguns deles perdidos recentemente no incêndio do Museu Nacional) datados do final do Pleistoceno e do Holoceno Médio (entre 13 mil e 5 mil anos atrás, aproximadamente) e indicam dados bastante similares. Os dois artigos defendem que há similaridades de traços genéticos entre os primeiros grupos paleoíndios e os grupos ameríndios.
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Reconstituição artística da caça durante o período paleoíndio.

Paleoíndio é como são chamadas as culturas arqueológicas do continente americano que antecedem o advento da agricultura e cerâmica, geralmente datados entre 13 mil e 5 mil anos, sendo que alguns poucos sítio arqueológicos (como os da região de Lagoa Santa) mostram uma persistência desse grupos até cerca de 1 mil anos atrás.

Ameríndio é como são chamadas as culturas arqueológicas do continente americano cujos traços culturais remetem a atividades horticultoras e a presença de  indústrias cerâmicas, que se espalharam pelo continente há menos de 4 mil anos atrás, ainda que alguns poucos sítios arqueológicos apresentem evidências que remontem a até 6 mil anos atrás na Amazônia. Basicamente, esses traços culturais ameríndios são aqueles que também observamos na grande maioria das populações indígenas existentes atualmente e nas outras registradas nos últimos séculos desde a chegada dos europeus a partir do ano de 1492.

Em resumo, os artigos mostram que os grupos paleoíndios já possuíam a genética que os grupos ameríndios apresentavam (e ainda apresentam). Ainda que diferenças possam ser apontadas no genes paleoíndios e ameríndios e diversas linhagens tenham surgido desde o primeiros paleoíndios, a similaridade genética ainda é maior entre paleoíndios e ameríndios do que entre paleoíndios e outros grupos humanos de fora do continente americano. Os novos dados são extremamente importantes para a arqueologia do nosso continente.

Essa descoberta não é exatamente inédita. Outros artigos científicos já apresentaram dados que chegavam a essa conclusão, incluindo dados de esqueletos do Alasca, de modo que estes novos artigos apenas corroboram para esta ideia, comparando os novos dados com os dados anteriormente publicados e ampliam a nossa gama de conhecimento acerca da ocupação inicial do continente americano.

Um problema por trás dos novos artigos, ou mais especificamente daquele publicado na revista Cell, seja o seu título “Reconstructing the Deep Population History of Central and South America” (em português: Reconstruindo a História Profunda da América Central e do Sul). O titulo lembra aquelas manchetes sensacionalistas de jornais, e quem não lê o artigo de fato leva a crer que absolutamente tudo o que a ciência já recuperou dessa história é inválido. E isso está longe de ser verdade, principalmente pelo fato de que o artigo não leva em consideração nenhuma das inúmeras evidências arqueológicas que construíram a história das populações humanas que habitaram o continente desde há pelo menos 20 mil anos atrás. Infelizmente, os artigos tentam reconstruir essa história considerando a Cultura Clovis (datada entre 14 e 13 mil anos atrás) como ponto inicial da ocupação das Américas – algo que já foi refutado e superado pela maioria dos arqueólogos.

Ainda que o DNA seja um tipo de evidência arqueológica muito importante, não se pode excluir as demais evidências, principalmente as culturais, para a construção (ou reconstrução) da história de um povo ou de vários grupos humanos. E estes novos artigos estão muito longe de reconstruirem a história humana no continente americano, uma vez que as discussões dos artigos tentam refutar apenas os resultados das evidências de morfologia craniana.

Mas o que dizem os dados da morfologia craniana?

Cerca de 20 anos atrás, o bioantropólogo brasileiro Dr. Walter Neves (fundador e ex-coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos, IB-USP), a partir da análise dos crânios das populações pré-históricas da região de Lagoa Santa (Minas Gerais), percebeu que os crânios das primeiras populações do continente americano não se assemelhavam àquelas dos grupos indígenas mais recentes – os grupos ameríndios. 

Na verdade, os crânios destes indivíduos, incluindo Luzia, eram muito mais similares com os crânios de populações contemporâneas do continente africano e da região da Melanésia (Austrália a ilhas próximas). Em algum momento parece haver uma substituição na população em termo biológicos. Os crânios de morfologia africana/melanésia desapareceram e surgiram os ameríndios. Com o passar dos anos novas pesquisas realizadas por Neves, colaboradores e outros autores vieram a corroborar todos estes dados.
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Exemplo de crânio com alguns dos pontos anatômicos usados como referência para medições e análise da forma.

Essa similaridade entre paleoíndios, africanos e melanésios em termos da morfologia craniana jamais foi questionada, nem mesmo pelos novos artigos sobre genética. O que estes novos artigos desafiam é o modelo proposto por Neves para ocupação do continente. 

Para Neves, a ocupação do continente teria ocorrido, inicialmente, no final do Pleistoceno, de povos que saíram da África, passaram pela Ásia (e ali muito ficaram), passaram pelo estreito de Bering e chegaram na América do Norte e consecutivamente foram descendo o continente. Uma segunda onda migratória teria ocorrido milhares de anos depois, de povos vindos da Ásia que já possuíam crânios com morfologia similar a dos asiáticos atuais. Estes asiáticos teriam chegado no continente americano também passando pelo estreito de Bering e teriam dado origem aos povos ameríndios.
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Foto antiga de um homem Botocudo.

Os dados genéticos contradizem esse modelo, uma vez que indicam que os grupos que chegaram há cerca de 13 mil anos já possuíam genoma ameríndio. Mas ainda não explicam a razão de serem fenotipicamente distintos. Ou seja, se o genoma paleoíndio e o ameríndio são tão similares, porque os crânios são tão distintos? Certamente os autores e coautores destes artigos (ou pelo menos alguns deles) reconhecem  este problema já que também participaram destas análises de morfologia craniana.

Afinal, nem sempre genética e morfologia craniana vão fornecer dados equivalentes. A forma do crânio é apenas um dos traços fenotípicos proporcionados pelo genótipo. E não precisam. Veja só o exemplo que os Botocudos nos proporcionam: Eles eram  culturalmente ameríndios, apresentavam a morfologia africana/melanésia, e ainda tinham traços de DNA polinésio. A genética por si só não conta, ou “reconstrói” toda essa história.

Mas e quanto às demais evidências arqueológicas?

Sítios arqueológicos ainda mais antigos, mas que não há esqueletos preservados, comprovam que o continente americano já vem sendo ocupado muito antes de Clovis. A região da Serra da Capivara, no Piauí, concentra sítios arqueológicos como o Boqueirão da Pedra Furada e a Toca da Tira Péia, com artefatos de pedra lascada simples (seixos lascados) que remontam a até pelo menos 22 mil anos (8 mil anos antes de Clovis).
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Exemplos de artefatos de pedra lascada datados em 20 mil anos na região da Serra da Capivara.
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Adornos de colar feitos em osso de preguiça gigante, datados em 20 mil anos, no sítio Santa Elina, Mato Grosso.

O sítio arqueológico Santa Elina, no Mato Grosso, apresenta artefatos de pedra lascada (lascas retocadas de calcário) e até mesmo adorno de colares produzidos por polimento em ossos de preguiça gigante. O sítio data em pelo menos 25 mil anos (10 mil anos antes de Clovis).O sítio Monte Verde, no Chile, apresenta artefatos bastante similares àqueles encontrados na Serra da Capivara, e data de pelo menos 18 mil anos (3 mil anos mais antigo que Clovis).

Os sítios Gault e Friedkin, no Texas, Estados Unidos, apresentam uma ocupação densa da Cultura Clovis. Mas também apresentam vestígios de uma ocupação ainda mais antiga com presença de pontas pedunculadas produzidas sob uma tecnologia lítica muito distinta de Clovis, que data em até 7 mil anos antes de Clovis. Sem contar nos inúmeros sítios com presença de artefatos conhecidos como “Folhas de Louro” encontrados em sítios no leste da América do Norte e que possuem uma ancestralidade clara na cultura Solutreense da Europa, dada a similaridade tecnológica.

Estes são apenas alguns exemplos de sítios arqueológicos que apresentam evidências que descartam qualquer modelo de ocupação inicial da América que considere Clovis como a primeira cultura arqueológica do continente, ou que o continente só tenha sido ocupado há pouco menos de 16 mil anos. Ou seja, independente de quantas ondas migratórias de povos vindos por Bering tenham ocorrido, independente de seu genótipo, independente do seu fenótipo, a história do início da ocupação do continente é ainda mais antiga, e não pode ser resumida àquilo que apenas os vestígios biológicos nos dizem. Existe uma história de mudanças e persistências culturais que começou há mais de 20 mil anos.

Então qual é o modelo correto de ocupação das Américas?

A chegada dos humanos no continente americano pelo estreito de Bering é indiscutível. As pessoas definitivamente atravessaram a região em algum momento pouco antes da Cultura Clovis se espalhar pela América do Norte e diversas outras culturas arqueológicas e espalharem pelo resto do continente. E é bem provável também que as pessoas não tenham atravessado esse estreito apenas uma vez, de modo que elas poderiam ir e vir por essa rota várias vezes ao longo de milênios. Se diversos animais da Megafauna já haviam feito isso antes, o que impede os humanos de terem realizado a mesa façanha?
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Exemplos de artefatos conhecidos como “Folha de Louro” encontrados em sítios da cultura Solutreense, no sudoeste Europeu, datados entre 22 e 18 mil anos atrás.

Também há agora evidências que apontam uma segunda rota de chegada no continente americano. Essa outra rota é uma hipótese elaborada com base em diversos dados da tecnologia lítica e até mesmo de estudos genéticos (os quais não foram discutidos nos artigos publicados esta semana). Estudos conduzidos pelos arqueólogos Dr. Dennis Stanford (Smithsonian Institute) e Dr. Bruce Bradley (University of Exeter) mostram que as Folhas de Louro encontradas em sítios de até 20 mil anos no leste dos Estados Unidos são tecnologicamente idênticas às Folhas de Louro da Cultura Solutreense no sudoeste Europeu que remonta em até 22 mil anos, indicando uma ancestralidade em termos culturais. De alguma maneira, a tecnologia Solutreense chegou na América do Norte alguns milhares de anos depois de ter surgido na Europa. Os dados também mostram que os artefatos líticos da Cultura Clovis tem sua ancestralidade na Cultura Solutreense, uma vez que compartilham de mais de 40 traços tecnologicamente similares, dos quais a maioria não é encontrada em nenhuma outra cultura arqueológica no mundo.
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Exemplos de artefatos pré-Clovis conhecidos como “Folha de Louro” encontrados em sítios do leste dos Estados Unidos.
No fim dos anos 90 e começo dos anos 2000 alguns geneticistas realizaram algumas análises de nativos americanos e perceberam que há um gene nos nativos americanos do leste da América do Norte (gene X2a) que possui sua ancestralidade no sudoeste Europeu (mesma região da cultura Solutreense). 
Uma vez que o Gene X2a é uma mutação que ocorreu já em território americano, e sua proximidade geográfica com seu ancestral (gene X) está no sudoeste Europeu, fica claro que em algum momento do Holoceno Inicial ou Médio uma travessia transatlântica foi realizada. Logo, a hipótese de rotas marítimas ainda mais antigas entre a América do Norte e a Europa é fortalecida, principalmente ao se considerar que há cerca de 20 mil anos atrás havia uma camada de gelo que interligava os dois continentes e havia abundante fonte de alimentação no meio do caminho, facilitando o fluxo de pessoas nessa rota. Esses dados genéticos não foram discutidos nos artigos publicados esta semana.
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Localização geográfica dos genes X e X2 durante o Holceno Inicial e Médio.

Também é importante notar que nenhuma cultura arqueológica na América do Sul apresentar traços tecnológicos que remetam a uma possível ancestralidade com a Cultura Clovis. Mesmo que exista algum traço genético que tenha vindo dos grupos Clovis, os traços culturais não vieram. Ou pelo menos ainda não existem dados que apresentam essas similaridades. Muitos trabalhos ainda precisam ser feitos antes de bater o martelo nessa questão. Alguns deles já estão demonstrando que, pelo menos no território Brasileiro, as ocupações humanas mais densas que se iniciaram há cerca de 13 mil anos são caracterizadas por culturas arqueológicas bastante distintas, e sem traços de ancestralidade em lugar nenhum.
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Exemplos de pontas da Cultura Clovis, datas entre 15 e 14 mil anos.

Afinal, qual é a relação entre a Cultura Clovis e a Cultura Lagoassantense?

Quase nenhuma. A única relação parece mesmo ser essa apresentada pelos novos artigos. O DNA de alguns esqueletos de Lagoa Santa compartilham de uma mesma ancestralidade que o garoto de Anzick. O garoto de Anzick é o único “esqueleto” já encontrado associado à cultura Clovis. Infelizmente, apenas a calota craniana foi preservada, impossibilitando até mesmo a análise morfológica do crânio. E pra infelicidade dos cientistas, anos atrás ele foi reenterrado devido a uma reivindicação de grupos indígenas que acreditavam que um de seus ancestrais havia sido exumado, desrespeitando sua cultura.
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Exemplo de lâmina de machado polido encontrado na região de Lagoa Santa, datado em 11 mil anos

Como já foi dito, nenhuma cultura arqueológica sul-americana compartilha de traços  culturais com Clovis. Uma similaridade genética com apenas um indivíduo, ainda que seja importante, não diz muito a respeito da história das culturas arqueológica sul-americanas. A cultura Lagoassantense não é definida pela sua biologia, mas sim pela sua… cultura! Já sabemos hoje que a cultura Lagoassantense surgiu há cerca de 12,5 mil anos, e que outros grupos culturais já haviam passado pelo local, ainda que não houvessem se estabelecido por lá. A cultura Lagoassantense persistiu até cerca de 1 mil anos, quando parece ter desaparecido. 

Ela é bem definida atualmente pela sua grande diversidade nos rituais mortuários, por uma dieta bastante diversificada, pela produção de alguns tipos de registros rupestres (incluindo aquele com a datação mais antiga do continente) e por uma indústria lítica cuja tecnologia é bem distinta das demais culturas arqueológicas sul americanas. Um artigo publicado há poucas semanas atrás por mim (João Carlos Moreno de Sousa, doutorando pelo Museu Nacional, UFRJ)  com coautoria do Dr. Astolfo Araujo (Museu de Arqueologia e Etnologia, USP) definiu a tecnologia da indústria lítica Lagoassantense. Estes grupos produziam mais de 90% de seus artefatos em lasquinhas provenientes de pequenos cristais de quartzo – que só são encontrados em locais bem afastados dos sítios. Eventualmente produziam algumas lâminas de machado polido, as mais antigas já registradas no continente americano, e que até pouco tempo atrás eram pensadas como artefatos exclusivos de grupos ameríndios. Não há nada nesta cultura arqueológica que remeta a qualquer similaridade com a Cultura Clovis.

Onde Luzia se encaixa em meio a tudo isso?

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Crânio de Luzia antes de sua destruição pelo incêndio no Museu Nacional.

A nossa querida Luzia, tragicamente destruída pelo incêndio no Museu Nacional junto com diversos outros esqueletos de Lagoa Santa, mas felizmente recuperada (ainda que apenas parcialmente) tem pouca participação nessa história toda. É verdade que ela é famosa não só por ser o esqueleto mais antigo do continente – status esse que ela divide agora com o esqueleto de Naia, uma mulher datada em 13 mil anos numa caverna marinha no México – mas também por ter sido a primeira com reconstituição facial. Reconstituição essa realizada a partir da sua morfologia craniana, mas com diversos traços artísticos produzidos com base no modelo proposto por Walter Neves. Ou seja, a cara de Luzia como ela é sempre divulgada é resultado de uma reconstituição que tinha como objetivo fazer ela se assemelhar com uma pessoa africana.
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O esqueleto de Naia foi encontrado em uma caverna submersa no México.

A verdade é que todas as reconstituições são feitas com base na interpretação que o artista ou alguns pesquisadores possuem sobre um indivíduo. Afinal, não sabemos como era o formato do nariz, das orelhas, dos lábios, cor da pele, cor dos olhos, cabelo, etc… As vezes a genética até consegue identificar esses aspectos, como foi o caso do Homem de Cheddar. 
Homem de Cheddar é um esqueleto datado de 14 mil anos na Inglaterra, cujo DNA preservado possibilitou identificar a cor da sua pele: ele era negro! 

Será então que há 14 mil anos atrás os grupos paleoíndios também tinham a pele negra? 

Não sabemos. A morfologia craniana não é capaz de responder nada além da própria forma do crânio. E a genética ainda não chegou a nenhuma conclusão quanto a isso. Ainda que a similaridade genética seja com a de grupos indígenas, que possuem uma cor de pele morena (ou parda, como prefiram chamar), nada indica que entre os traços similares estão os genes de cor da pele, ou mesmo do tamanho do nariz, das orelhas, do tipo de cabelo, etc etc…
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Reconstituição facial do Homem de Cheddar, esqueleto encontrado na Inglaterra datado em 14 mil anos.
Pensando nisso um outro indivíduo de Lagoa Santa teve sua reconstituição facial produzida. Desta vez um homem, mas não tão antigo quanto Luzia. Este tem “apenas” 9 mil anos, e sua reconstituição foi pensada para algo mais “generalizado”, que não remeta tanto aos traços africanos  da reconstituição de Luzia. Mas a verdade é que ainda não temos dados o suficiente para saber qual era a verdadeira aparência destes indivíduos. Ambas as reconstituições são apostas válidas.

Luzia não foi reconstituída novamente, não ganhou uma “nova cara”, diferente do que muitas manchetes de jornal afirmam. E Seu DNA jamais foi analisado. Não por falta de tentativa! Alguns dentes dela já haviam sido sacrificados em busca de DNA, com a esperança de que ainda houvesse colágeno preservando o DNA dela. Não obtivemos sucesso… Luzia não preservou DNA, infelizmente. Se ainda havia DNA em algum lugar do seu esqueleto que ainda não havia sido sacrificado pela ciência, agora certamente não há mais. O que restou após o incêndio está em cacos que passaram por alta temperatura. E há de preservar ao máximo essa mulher que ainda luta para ficar, de alguma forma, viva na história do Brasil e das Américas.
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Fragmentos do crânio de Luzia encontrados dentre os destroços do Museu nacional.

Para saber mais

Clique nos links abaixo para acessar os novos artigos sobre dados genéticos:
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Sobre o autor:

João Carlos Moreno de Sousa é arqueólogo. Bacharel em Arqueologia pelo Instituto Goiano de Pre-História e Antropologia da PUC GO, Mestre em arqueologia pelo Museud e Arqueologia e Etnologia da USP, Atualmente está concluindo o seu doutorado em arqueologia pelo Museu Nacional-UFRJ com PDSE concluído pela University of Exeter (Reino Unido). Sua área de especialidade é a análise de indústrias líticas e o período paleoíndio brasileiro, com artigos científicos publicado sobre assunto. Também possui experiência em arqueologia experimental, arqueologia cognitiva e divulgação científica da arqueologia e colabora com as pesquisas do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP.