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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
bacia do araripe
Encontrados198 fósseis do período jurássico no Cariri
21.12.2011
Material raro com cerca de 160 milhões de anos estão sendo achados nas escavações feitas em Missão Velha
Crato. Os 198 fósseis encontrados nas escavações em Missão Velha são realmente do período jurássico, com 160 milhões de anos, aproximadamente, segundo confirmam paleontólogos da Universidade Regional do Cariri (Urca). A pesquisa foi iniciada no último dia 9. Esta é a primeira vez que material fossilífero daquele período é encontrado na região. As peças medem de poucos centímetros até cerca de meio metro.
O material foi retirado do solo denominado de formação Brejo Santo. Embora existam poucos registros fossilíferos do jurássico, em todo o mundo, foram identificados, na região, muitos ossos desarticulados de celacantos - peixes com nadadeiras articuladas estão na linha evolutiva entre peixes e anfíbios. Vários ossos de outros peixes ainda não identificados e ossos que possivelmente foram de tartarugas também foram encontrados.
Etapas
O estudo está em sua terceira etapa. No momento, as escavações estão suspensas. Agora, estão sendo realizados os trabalhos de preparação dos fósseis em laboratório. Consiste na retirada dos ossos de dentro do pacote de sedimentos que os envolve. A próxima etapa, que os pesquisadores acreditam ser necessário um prazo de um ano de trabalho para sua conclusão, refere-se à fase de preparação, identificação das peças e montagem dos esqueletos dos animais.
Toda a pesquisa é coordenada pela Universidade Regional do Cariri, por meio do Laboratório de Paleontologia. Para evitar problemas ambientais, ao termino da etapa de escavações, foi reconstruída a área onde foram abertas as cavidades para retirada das peças. A quantidade e qualidade dos achados surpreendeu e superou as expectativas dos pesquisadores.
Antes, nunca haviam sido encontrados fósseis do período jurássico na região do Cariri. Embora estejam completos, os ossos estão desarticulados, ao contrário do que aconteceu com o acervo do período cretáceo, encontrado na Bacia do Araripe, onde todos os fósseis estavam articulados. As peças darão informações sobre a origem de muitas espécies hoje existentes.
Ao longo do processo de pesquisa, os paleontólogos irão descrever o material encontrado, para que, após a nomeação, as peças possam ser publicadas em revistas científicas internacionais. Todos os fósseis serão depositados no Museu de Paleontologia da Urca, no Município de Santana do Cariri.
De acordo com o professor e paleontólogo coordenador dos estudos, Álamo Feitosa, o sucesso da pesquisa irá aumentar a importância da Bacia do Araripe no cenário paleontológico nacional e mundial, o que poderá render bons frutos ao turismo científico da região.
"Eu espero que a gente tenha encontrado nesse material espécies novas, não descritas. Isso poderá se tornar mais um item de atração para o Geopark Araripe, que tem, entre outras atribuições, fortalecer o turismo científico", revela o professor.
O estudo tem o apoio do Instituto Nacional de Paleontologia do Semiárido e Geopark Araripe. As pesquisas são financiadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em parceria com a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).
Na década de 70, o pesquisador Murilo Rodolfo de Lima já havia feito todo o levantamento palinológico da Bacia do Araripe. É através desse método de grãos de pólen e esporos fósseis, que melhor os pesquisadores se utilizam para fazer a datação de extratos geológicos. Na época, Murilo apontou a formação Brejo Santo como sendo de idade jurássica. Já nos anos 90, foram realizados trabalhos de mapeamento da Bacia do Araripe. Os estudos identificaram as várias áreas de ocorrência da formação Brejo Santo, na região.
Dinossauros
Mesmo já tendo sido confirmada a existência de fósseis do Jurássico na Bacia do Araripe, paleontólogos ainda não encontraram fósseis de dinossauros. Porém, eles acreditam que, como existem condições de fossilização de ossos de peixes e tartarugas, há possibilidades de ossos de dinossauros, tartarugas e crocodilos também serem encontrados no local.
Para localizá-los, os pesquisadores promoverão escavações que serão iniciadas após o período chuvoso de 2012. Durante as pesquisas, eles farão uma avaliação dos extratos geológicos, para aprofundar os estudos.
Mais informações
Escritório Geopark Araripe/ Universidade Regional do Cariri
Rua Teófilo Siqueira, 754, Centro
Município do Crato
Telefone: (88) 3102.1237
FIQUE POR DENTRO
Fases geológicas contam história da vida na Terra
O período jurássico faz parte da era mesozóica. Compreende-se entre os anos 200 e 145 milhões. Antes do jurássico, a era é composta pelos períodos triássico, entre 245 e 200 milhões de anos, e depois pelo período cretáceo, entre 145 e 65 milhões de anos. Este último teve inicio no final do permiano, quando 95% da vida na terra foi extinta pela erupção de um grande vulcão, localizado onde hoje é a Sibéria. Com o fim da era mesozóica, foi possível que os mamíferos e os vegetais com frutas se expandissem, o que deu início às bases para o aparecimento do homem no planeta Terra. O fim da era foi provocado quando um grande asteroide caiu na localidade que atualmente é a Península Yucatan, no México. O fato provocou a extinção de dinossauros, pterossauros e muitas espécies de plantas e animais marinhos.
YAÇANÃ NEPONUCENAREPÓRTER
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
As árvores do deserto
Floresta de coníferas ocupou ambiente quente e arenoso na era dos dinossauros
Isis Nóbile Diniz
Edição Impressa 188 - Outubro 2011
| © Fotos Edivane Cardoso/ UFG e Adriano R. dos Santos/ UFU |
| Fósseis encontrados em fazenda próxima a Uberlândia, Minas Gerais |
A confirmação de que os pesquisadores brasileiros estavam certos só veio agora. As evidências mais convincentes de que os fósseis da Fazenda Sobradinho são mesmo de plantas ancestrais das coníferas – grupo que inclui os pinheiros, as araucárias e as sequoias – foram apresentadas em julho deste ano em um artigo no Journal of South American Earth Sciences, resultado de um trabalho iniciado 15 anos antes.
Edivane Cardoso, hoje professor da Universidade Federal de Goiás, era estudante de biologia na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) no final dos anos 1990 quando resolveu analisar ao microscópio os fósseis encontrados durante seu trabalho final do curso de graduação. E se surpreendeu ao ver entre as amostras de rocha fragmentos de caule petrificado. Mais especificamente, eram fragmentos de lenho – tecido de sustentação, formado pelos canais que transportam água e nutrientes entre as raízes e as folhas – de plantas que viveram 130 milhões de anos antes, no período geológico Cretáceo. Cardoso e o orientador de sua monografia na UFU, o geólogo Adriano Rodrigues dos Santos, tiveram dificuldade em convencer outros pesquisadores da descoberta. “Enviávamos o estudo para congressos e eles duvidavam. Não acreditavam que eram fósseis de vegetais tão antigos, encontrados na formação Botucatu”, conta Cardoso.
Supercontinente - Até então se duvidava de que plantas de grande porte pudessem ter vivido na região no Cretáceo, uma vez que a formação Botucatu era um deserto de areia que se estendia por áreas que hoje formam o Sudeste e o Sul do Brasil, parte do Paraguai, da Argentina e do Uruguai. Na época em que viveram essas coníferas, os dinossauros já haviam se espalhado pelo planeta. A América do Sul ainda estava conectada à África e ambas integravam um supercontinente chamado Gondwana, em cujo centro ficava o de-serto Botucatu. Segundo simulações geo-lógicas, esse deserto era parte de uma região árida mais extensa situada no hemisfério Sul, próximo ao equador, durante um grande ciclo climático de aquecimento global (hothouse), no qual prevaleceram altas temperaturas. “Os cientistas diziam que a ocorrência de fósseis na formação Botucatu era impossível, até que se descobriram registros de pegadas de dinossauros ali”, conta a paleobotânica Margot Guerra Sommer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que ajudou a descrever os fósseis das coníferas no Journal of South American Earth Sciences.
O número, a densidade e o porte dos troncos fossilizados permitem aos pesquisadores supor que houve uma floresta de coníferas onde hoje existe um fragmento de cerrado. Os fósseis são de plantas adultas e estão tombados, muitos deles compactados horizontalmente, sinal de que grande quantidade de sedimento recobriu a antiga floresta antes que as plantas se petrificassem. Cinco exemplares de grande porte, cada um com mais de cinco metros de comprimento, foram recuperados. Também foram encontrados fragmentos fósseis menores, inclusive de raízes. “São muitos fósseis, não conseguimos precisar quantos”, diz Margot. Segundo as pesquisadoras, essas árvores devem ter vivido próximas umas das outras, formando uma densa floresta. Além disso, eram de grande porte, com até 20 metros de altura, provavelmente mais altas do que os pinheiros atuais.
Ao analisar as características microscópicas dos fósseis, Margot e Etiene Fabbrin Pires, hoje professora na Universidade Federal do Tocantins, verificaram que os exemplares coletados são anatomicamente semelhantes, ou seja, todos provavelmente pertencem à mesma espécie, que integra o grupo das protopináceas. “Esse material é importante, pois se trata do primeiro registro paleobotânico para a formação Botucatu em toda a bacia do Paraná”, explica Etiene.
Diante desse cenário, os pesquisadores se perguntaram: como essas árvores teriam se desenvolvido no deserto? As raízes fossilizadas encontradas no sedimento arenoso da Fazenda Sobradinho indicam que o material não foi transportado e que as plantas provavelmente viveram no local onde foram sepultadas. “O curioso é que essas grandes árvores eram sustentadas por um solo pobre em nutrientes”, conta Etiene. De acordo com os pesquisadores, é possível que essas árvores vivessem à margem do deserto, em formações vegetais que cresceram entre as dunas, em regiões com maior umidade, ambientes semelhantes àqueles em que hoje se desenvolvem os oásis.
A água, embora disponível, era escassa em determinados períodos. Os anéis de crescimento, estruturas do tronco que indicam o ciclo de vida das plantas, sugerem que essas árvores viveram sob estresse constante. “Nos anéis de crescimento, as células do lenho tardio não apresentam espessamento da parede, como ocorre nas árvores atuais”, explica Etiene. “Nesses fósseis, houve simplesmente redução do tamanho da célula.” Essas características anatômicas indicam que o crescimento dessas protopináceas era controlado pela alternância de estações secas e úmidas, e não pela disponibilidade de mais ou menos luz solar, como ocorre com as coníferas atuais, adaptadas a climas temperados.
Folhas perenes - As análises microscópicas dos lenhos fósseis também levaram a concluir que provavelmente as folhas dessas plantas eram perenes e não caíam em períodos de seca prolongada. Mas é impossível afirmar como era a aparência dessas árvores, já que só troncos e raízes foram preservados. “Elas deveriam se parecer com as coníferas atuais”, diz Margot. “Com base na anatomia do lenho, pode-se sugerir que elas tenham sido ancestrais de plantas do gênero Pinus.” Cicas, samambaias e outras coníferas dominavam a paisagem em diferentes regiões do globo na época em que essas protopináceas viveram. “Há registro de coníferas em ambos os hemisférios em períodos anteriores, contemporâneos e posteriores ao estudado”, diz Etiene. Na época em que as coníferas da Fazenda Sobradinho viveram as plantas com flores estavam surgindo e, só alguns milhões de anos mais tarde, se adaptariam aos diferentes ambientes do planeta. Hoje as coníferas ocorrem em poucos locais nas regiões Sudeste e Sul do Brasil.
Por enquanto, não é possível explicar como ocorreu a fossilização dessas árvores. Uma hipótese é que esse processo de petrificação tenha se iniciado com a planta ainda viva, como ocorre em muitos ambientes hoje. “Vamos investigar as características anatômicas que ajudam a determinar a espécie”, conta Margot. “A partir de características dos fósseis e do sedimento, também queremos conhecer com mais precisão qual o ambiente em que essas plantas viveram no grande deserto Botucatu.”
Artigo científicoPIRES, E. F. et al. Early Cretaceous coniferous woods from a paleoerg (Paraná Basin, Brazil). Journal of South American Earth Sciences. v. 32 (1), p. 96-109. jul. 2011.
domingo, 7 de agosto de 2011
Uma anta pré-histórica
Oeste da Amazônia pode ter abrigado espécie extinta do herbívoro há 40 mil anos
Marcos Pivetta
Edição Impressa 185 - Julho 2011
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| Fóssil de Tapirus rondoniensis |
O território nacional abriga atualmente apenas uma das quatro espécies vivas de anta, a Tapirus terrestris, considerada o maior mamífero terrestre da América do Sul com seus dois metros de comprimento e até 300 quilos. Mas há 40 mil anos, durante a época geológica denominada Pleistoceno Superior, pode ter existido uma forma distinta desse grande herbívoro na porção ocidental da Região Norte, perto da divisa com a Bolívia, onde hoje se situa o estado de Rondônia. Um fóssil de uma nova espécie extinta desse mamífero foi descrito por pesquisadores brasileiros em artigo publicado na edição de fevereiro da revista científica norte-americana Journal of Mammalogy. Oriunda de uma antiga zona de garimpo às margens do rio Madeira, a anta amazônica foi batizada de Tapirus rondoniensis em homenagem à unidade da federação em que seu único exemplar foi encontrado.
Em linhas gerais, a provável nova espécie guardava muitas semelhanças anatômicas com a T. terrestris, comumente denominada anta brasileira, que hoje está presente em quase todo o território nacional e em países vizinhos da América do Sul. “Ela deve ter sido bem parecida com a nossa anta atual”, afirma a paleontóloga Ana Maria Ribeiro, da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, uma das autoras do artigo. Mas a sua dentição e o crânio exibem traços primitivos em comum com a T. pinchaque, a menor das espécies vivas de anta e a única a habitar fora de áreas de floresta, mais precisamente na região dos Andes entre a Colômbia, o Equador e o Peru. A T. rondoniensis tinha uma testa mais larga e uma crista menor do que a da anta brasileira e seu segundo dente pré-molar superior apresentava uma cúspide reduzida. “No passado, a anta brasileira e essa nova espécie fóssil devem ter coexistido em certas partes da Amazônia”, diz Elizete Holanda, professora do Departamento de Geologia da Universidade Federal de Roraima (UFRR), outra responsável pelo trabalho científico.
Compostos por um crânio quase completo e bem preservado do mamífero, os vestígios da nova espécie extinta de anta fazem parte do acervo paleontológico da Universidade Federal de Rondônia (Unir). Os restos do antigo herbívoro foram resgatados por garimpeiros nos anos 1970. Os mineiros estavam à procura de ouro na localidade de Araras, pertencente ao município de Nova Mamoré, na margem direita do rio Madeira. Essa região possui ricos depósitos fósseis de animais vertebrados e também de plantas, que ocorrem em geral numa camada de rochas sedimentares ricas em areia e calcário situada 10 metros abaixo da superfície. Nesse nível também está o ouro que os garimpeiros tanto procuram. Segundo Elizete, que concluiu a graduação na Unir no início da década passada, quando teve o primeiro contato com o crânio da T. rondoniensis, os fósseis que não foram destruídos pelo processo de extração do minério acabaram nas mãos de colecionadores particulares ou na coleção da universidade. Por sorte, o crânio da anta amazônica teve o segundo destino.
A classificação taxonômica de seres vivos em famílias, gêneros e espécies é uma atividade sempre sujeita a debates. Consensos demoram a se formar e revisões são frequentes. Além da proposta de que houve uma anta particular da região amazônica num momento da Pré-história nacional, Elizete também defende a ideia de que outra possível espécie extinta desse herbívoro, a T. cristatellus, habitava uma zona de transição entre o Sudeste e o Nordeste mais ou menos nesse mesmo período. Novos exemplares dessa forma de anta, que possuía uma crista sagital muito baixa, foram recentemente encontrados em cavernas da Bahia. Até então, crânios de T. cristatellus – ainda hoje não reconhecida como uma espécie válida por muitos especialistas, que preferem considerá-la como uma variante da anta brasileira – tinham sido achados apenas na região mineira de Lagoa Santa, perto de Belo Horizonte. Se essa hipótese estiver correta, o território nacional pode ter abrigado concomitantemente três espécies diferentes de anta há 40 mil anos: a brasileira, ainda viva, a da Amazônia e a do Sudeste-Nordeste, ambas extintas.
Artigo científicoHolanda, E.C. et al. New Tapirus species (Mammalia: Perissodactyla: Tapiridae) from the upper Pleistocene of Amazonia, Brazil. Journal of Mammalogy. v. 92, n. 10, p. 111-20. fev. 2011
Artigo científicoHolanda, E.C. et al. New Tapirus species (Mammalia: Perissodactyla: Tapiridae) from the upper Pleistocene of Amazonia, Brazil. Journal of Mammalogy. v. 92, n. 10, p. 111-20. fev. 2011
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