A América de Luzia
Escavações em Lagoa Santa reforçaram teoria alternativa sobre o povoamento do continente
© EDUARDO CESAR

Crânios de Lagoa Santa: ossadas da região mineira serviram para formular teoria alternativa de povoamento das Américas
Em 1988, o arqueólogo e antropólogo Walter Neves trabalhava no Museu
Paraense Emílio Goeldi e foi convocado às pressas por Guilherme de la
Penha, então diretor da instituição de pesquisa, para uma missão no
exterior. Teria que representar a chefia do museu em uma reunião sobre
arqueologia de salvamento em Estocolmo, na Suécia. O evento seria dali a
uma semana. Neves aceitou substituir o chefe na viagem, mas fez uma
exigência. Queria esticar a estadia na Escandinávia por uns dias para
ter chance de ir a Copenhague, onde queria conhecer a coleção Peter
Lund, composta por mamíferos extintos e crânios humanos de alguns
milhares de anos encontrados pelo naturalista na região de Lagoa Santa,
Minas Gerais, no século XIX. A escala na capital dinamarquesa mudou o
curso de sua pesquisa. Neves realizou medições anatômicas em 15 crânios
mineiros da coleção e, na volta ao Brasil, discutiu os resultados,
surpreendentes, com um colega argentino, o arqueólogo Hector
Pucciarelli, da Universidade Nacional de La Plata. Os crânios dos
paleoíndios de Lagoa Santa pareciam ter pertencido a um povo com traços
físicos negroides, parecidos com os dos atuais africanos e aborígines
australianos. Os crânios eram mais estreitos e longos, com faces
proeminentes, estreitas e baixas. Não lembravam as antigas populações
asiáticas, com olhos amendoados, das quais descendem todas as tribos
indígenas ainda hoje presentes nas Américas.
O achado batia de frente com a visão tradicional da arqueologia, em
especial a feita nos Estados Unidos, sobre o processo de povoamento do
continente. Segundo a teoria convencional e mais difundida, as Américas
foram colonizadas por três ondas migratórias compostas de indivíduos com
traços mongoloides (asiáticos), tendo a primeira delas ocorrido há
cerca de 13 mil anos via Estreito de Bering. Para o arqueólogo
brasileiro, os crânios da coleção Lund não corroboravam essa ideia e
forneciam elementos para sustentar outra hipótese. O esboço inicial
dessa teoria alternativa ganhou, em 1989, as páginas da antiga revista
Ciência e Cultura
em um artigo assinado por Neves e Pucciarelli. Nascia o embrião do que
viria a ser chamado o modelo dos dois componentes biológicos. Segundo
essa proposta, houve duas levas migratórias primordiais para as
Américas. A primeira, composta por caçadores-coletores com traços
negroides, emigrou para cá há cerca de 14 mil anos e hoje não está mais
representada em nenhum grupo da atualidade. A segunda, formada por
indivíduos com aparência mais próxima à dos asiáticos, botou os pés no
Novo Mundo cerca de 12 mil atrás. As tribos atuais ameríndias são
herdeiras dessa morfologia.

Por
um bom tempo, as ideias de Neves não causaram repercussão nem mesmo
entre os meios mais especializados. Até que, em meados da década de
1990, o pesquisador pôde estudar em detalhes um crânio humano
pré-histórico da região de Lagoa Santa, que faz parte do acervo do Museu
Nacional do Rio de Janeiro. O material ósseo, que tinha sido resgatado
em meados dos anos 1970 pela missão franco-brasileira no sítio da Lapa
Vermelha IV, no município de Pedro Leopoldo, pertencera a uma jovem que
deve ter morrido com cerca de 20 anos. A camada geológica em que o
crânio se encontrava foi datada em cerca de 11 mil anos e os restos da
caçadora-coletadora foram apelidados de Luzia. Com traços
não-mongoloides e as mesmas características físicas dos crânios da
coleção Lund, Luzia era o esqueleto humano mais antigo já encontrado nas
Américas.
Neves começou a publicar artigos científicos sobre o novo crânio de
Lagoa Santa, que se tornou o símbolo e a evidência principal de sua
teoria alternativa sobre o povoamento do continente. “Antes de Luzia,
todos os nossos trabalhos foram solenemente ignorados”, afirma o
pesquisador da USP. “Mas o efeito midiático de Luzia fez os arqueólogos
americanos olharem para nosso trabalho.” Meios de comunicação de
prestígio mundial, como o jornal norte-americano
The New York Times
e a rede de televisão inglesa BBC, fizeram reportagens sobre o crânio
brasileiro que servia de suporte para um novo modelo de ocupação das
Américas. O inglês Richard Neave, especialista forense da Universidade
de Manchester, fez uma reconstituição artística para um programa da BBC
de como seria a face de Luzia a partir de tomografias do crânio mais
antigo das Américas. A imagem de uma jovem com lábios grossos e nariz
largo, correu o mundo e conferiu, literal e figurativamente, uma face
para a teoria.
A difusão internacional do modelo dos dois componentes biológicos
trouxe também as críticas, em especial as de representantes da ala mais
tradicional da arqueologia americana. Eles costumavam dizer que Luzia
era uma aberração, uma exceção, e não a regra entre os primeiros
habitantes das Américas. Afirmavam que Neves havia construído uma tese a
partir de um só crânio. Segundo essa linha de pensamento, a evidência
pré-histórica mais antiga e incontestável da presença do homem nas
Américas é a chamada
cultura Clovis, definida a partir de um sítio
arqueológico do Novo México onde nunca foram descobertas ossadas de
Homo sapiens,
mas foram encontradas, há cerca de 80 anos, pontas de lança líticas com
idade de 11,5 mil anos. Luzia certamente não é pré-Clovis. Mas, por
estar na América do Sul, ter uma idade avançada e exibir morfologia
distinta, Neves interpretava como um indício de que outro povo pode ter
entrado nas Américas antes dos caçadores-coletores da cultura Clovis.
Outra fonte de críticas à hipótese de Neves costuma vir de trabalhos da
área de genética, que refutam a existência de uma possível leva
primordial formada por indivíduos com traços biológicos semelhantes aos
de Luzia.
© RICHARD NEAVE

Reconstituição
artística de Luzia: dona do crânio mais antigo das Américas, de 11 mil
anos, se parecia com atuais africanos e aborígines australianos
Para angariar mais argumentos a favor de sua teoria e mostrar que
Luzia não era uma anomalia, o arqueólogo da USP decidiu, a partir do
final dos anos 1990, promover escavações na região de Lagoa Santa,
amparado por uma série de projetos financiados pela FAPESP, inclusive
dois temáticos. “Percebi que tinha de ir a campo”, conta Neves. Os
trabalhos de campo ocorreram durante boa parte da década passada, em
geral nos meses de inverno, mais secos no Sudeste. As expedições pelas
grutas e cavernas mineiras chegaram a juntar até 50 pessoas em algumas
ocasiões. Os resultados foram aparecendo. Em julho de 2001, a equipe da
USP encontrou três ossadas de cerca de 8.500 anos com características
fisicas semelhantes às de Luzia no sítio arqueológico de Lapa das
Boleiras, município de Matozinhos, onde há um cemitério pré-histórico
que não era escavado desde 1956. Mesmo bem mais novos que o crânio mais
antigo das Américas, os esqueletos de Boleiras tinham um significado
especial. Eram os primeiros ossos humanos pré-históricos desenterrados
da região de Lagoa Santa desde 1975, quando Luzia fora descoberta.
E não foram os únicos. No final de 2004, Neves e colaboradores publicaram um artigo na revista científica britânica
World Archaeology
em que apresentavam nove crânios encontrados em meados dos anos 1950 em
Cerca Grande, um complexo de sete sítios pré-históricos situado na
região de Lagoa Santa.
Todas as ossadas ostentavam características
afro-aborígines e idade estimada em cerca de 9 mil anos.
Em outro
trabalho, também dessa época, publicado no periódico norte-americano
Current Research in the Pleistocene,
o arqueólogo da USP analisou um crânio, igualmente de 9 mil anos e
traços negroides, oriundo da Toca das Onças, um sítio rico em material
pré-histórico localizado em Caatinga do Moura, na Bahia.
A existência de
uma ossada tão antiga associada a populações não mongoloides
originárias de uma região distante de Lagoa Santa era mais um indício de
que esse tipo físico esteve disseminado por outras partes do país
durante algum momento da Pré-história. “Sua distribuição geográfica era
mais ampla do que se pensava”, comentou Castor Cartelle, do Museu de
Ciências Naturais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
(PUC/MG), coautor do artigo sobre o crânio de Toca das Onças, em
entrevista concedida na época à
Pesquisa FAPESP. “Talvez a
presença de indivíduos do tipo negroide tenha ocorrido ao longo de toda a
bacia do rio São Francisco, chegando até o Piauí.” Cartelle coordenou a
equipe que encontrou o crânio humano de Toca das Onças numa expedição à
região baiana no fim dos anos 1970.
© ACERVO LEEH

Escavação no sítio mineiro de Lapa do Santo: trabalho de campo obteve mais indícios a favor da teoria de Neves.
Até no território paulista, durante muito tempo considerado um vazio
arqueológico em termos de datações antigas, foi encontrado um crânio
masculino parecido com Luzia, que recebeu o apelido de Luzio. Em abril
de 2005, um artigo na revista norte-americana
Journal of Human Evolution
apresentou uma ossada de cerca de 10 mil anos, que fora resgatada seis
anos antes em um sítio arqueológico denominado Capelinha I, na bacia do
rio Jacupiranga, no Vale do Ribeira. Luzio foi um caçador-coletor que
habitou um sambaqui fluvial no sul de São Paulo.
A ossada estava num sepultamento situado numa camada geológica bem superficial”, lembrou, em entrevista à
Pesquisa FAPESP,
o arqueólogo Levy Figuti, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da
USP, coordenador do projeto que encontrou o crânio. “Não pensávamos que
ela fosse tão antiga.” Neves foi um dos coautores do artigo sobre Luzio.
A estratégia de procurar crânios pré-históricos com morfologia
semelhante à de Luzia rendeu frutos até no exterior. Ossadas do México,
da Colômbia e até dos Estados Unidos foram identificadas como similares
ao povo de Lagoa Santa. Em desembro de 2005, Neves e Mark Hubbe, então
seu aluno e hoje trabalhando no exterior, publicaram uma grande síntese
de seus achados na revista científica
Proceedings of the National Academy of Sciences (
PNAS).
No trabalho, os pesquisadores examinaram 81 crânios de Lagoa Santa, a
maior amostra já analisada sobre ossadas da região, e as classificaram,
com a ajuda de vários modelos computacionais, como pertencentes a
paleoíndios com traços semelhantes aos de Luzia. Os crânios (42 homens e
39 mulheres), que se encontraram guardados em museus do Brasil e do
exterior, tinham idade estimada entre 7.500 e 11 mil anos. Cerca de 50
parâmetros morfológicos dos esqueletos foram comparados com as medidas
típicas dos principais grupos étnicos que compõem atualmente a população
mundial.
O resultado foi que eles se parecem mais com os africanos e
aborígines – a exemplo de Luzia.
Apesar de bem sucedido, o projeto de pesquisa de Neves em Lagoa Santa
deixou-o com uma ponta de frustração. “Esperava encontrar várias Luzias
com mais de 11 mil anos na região”, afirma o pesquisador. Não foi o que
ocorreu. Nada da idade de Luzia apareceu. “Se houve uma ocupação
pré-Clovis em Lagoa Santa, ela foi muito esparsa.”, diz. Ainda assim,
não há do que reclamar. O arqueólogo da USP tem caixas e mais caixas em
seu laboratório com milhares de ossos humanos e de mamíferos e carvões
da região mineira para serem estudados e datados. É trabalho para anos.
© MARIANA INGLEZ/LEEH

Vista
aérea de maciço calcário, onde há um abrigo sobre rocha, em Matozinhos
(MG): presença desse tipo de mineral ajudou na preservação de esqueletos
na região de Lagoa Santa
Megafauna e gravuras
As escavações coordenadas por Neves em Lagoa Santa renderam achados que,
embora não comprovem sua teoria, dão mais consistência às teses do
pesquisador da USP. Além disso, os trabalhos de campo também produziram
conhecimentos em áreas correlatas à questão da chegada do homem às
Américas.
Em 2002, a datação pelo método do carbono 14 de um fragmento
de costela de uma preguiça terrícola gigante da espécie
Catonyx cuvieri,
que havia sido encontrada na região mineira rica em sítios
pré-históricos, mostrou que esses enormes mamíferos ainda não haviam
desaparecido por completo há cerca de 10 mil anos.
O estudo reforçou a
ideia de que as antigas versões terrestres e mais avantajadas das atuais
preguiças arborícolas foram contemporâneas do povo de Luzia e dividiam
praticamente o mesmo território. “O teste mostrou que a preguiça habitou
aquela área há 9.990 anos”, diz Neves. As preguiças gigantes eram um
dos representantes da espetacular megafauna que habitou a porção sul do
continente americano.
Mais recentemente, em 22 de fevereiro deste ano, Neves publicou um artigo na revista científica
Plos One
em que dá conta de um achado inesperado, obtido nos últimos momentos
dos trabalhos de campo na região de Lagoa Santa em 2009.
No sítio Lapa
do Santo, um abrigo sob rocha, os trabalhos de escavação trouxeram à
tona um petroglifo de uns 30 centímetros de tamanho com uma figura
antropomórfica, ou seja, uma gravura de um homem estilizado feita sobre
pedra, que estava escondida a 4 metros de profundidade.
O desenho
retrata um homem com um enorme órgão sexual. Sua idade foi estimada
entre 9.600 e 10.400 anos. “Essa gravura rupestre é a mais antiga das
Américas a apresentar uma datação indiscutível”, afirma Neves. “Ela
sugere fortemente que a cultura entre o fim do Pleitosceno e o início do
Holoceno (há 12 mil anos) não se restringia à fabricação de
ferramentas de pedra e à subsistência, mas também englobava uma rica
dimensão simbólica.” Com a nova descoberta, Lagoa Santa passa a ter o
crânio humano e a gravura rupestre mais antigos das Américas, segundo o
pesquisador da USP.
Os projetos
1. Origens e microevolução do homem na América: uma abordagem paleoantropológica II (
nº 1999/00670-7);
Modalidade Projeto Temático;
Coordenador Walter Neves – Instituto de Biociências/USP;
Investimento R$ 538.172,80 e US$ 76.000
2. Origens e microevolução do homem na América: uma abordagem paleoantropológica III (
nº 2004/01321-6);
Modalidade Projeto Temático;
Coordenador Walter Neves – Instituto de Biociências/USP;
Investimento R$ 1.555.665,94
Artigos científicos
NEVES, W. A. e PUCCIARELLI, H M.
Extra-continental biological relationships of early South American human remains: a multivariate analysis.
Ciência e Cultura. v. 41, p. 566-75, 1989.
NEVES, W. A. e HUBBE, M.
Cranial morphology of early Americans from Lagoa Santa, Brazil: implications for the settlement of the New World.
PNAS. v. 102, n. 51, p. 18309-14, 2005.
NEVES, W. A.
et al.
Rock Art at the Pleistocene/Holocene Boundary in Eastern South America.
Plos One. v. 7, n. 2, p. e322-28, 2012.
De nosso arquivo
Walter Neves: o pai de Luzia – Edição nº 195 – maio de 2012
Como os nossos pais – Edição nº 182 – abril de 2011
Primos de Luzia – Edição nº 119 – janeiro 2006
Redescobrindo o novo mundo – Edição nº 107 – janeiro 2005
A terra de Luzia – Edição nº 86 – abril 2003