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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Ossadas encontradas em Ilhota têm mais de 5,8 mil anos

25/09/2018 - 10h39 - Atualizada em: 25/09/2018 - 14h05
Material foi retirado em maio e analisado nos Estados Unidos
Material foi retirado em maio e analisado nos Estados Unidos. Foto: Raquel Schwengber, divulgação
Um sambaqui com duas ossadas humanas e restos de uma fogueira foi encontrado junto às obras de duplicação da BR-470 em Ilhota. O espaço de pouco mais de 1 mil metros quadrados foi descoberto há um ano. Em maio este precioso material foi cuidadosamente retirado do local pelos arqueólogos da Espaço Arqueologia, empresa autorizada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para estudar o agora Sambaqui Ilhota 2.


Em análise feita no laboratório Beta Analytics, na Flórida (EUA) com carbono 14 (material usado para datação de fósseis) ficou comprovado que os restos mortais estão lá há pelo menos 5.880 anos. Ou seja, humanos viviam na região de Ilhota no ano 3.860 antes de Cristo ou antes disso. Detalhes como sexo, estatura e outras características desses “catarinenses“ que viveram na passagem da Pré-História para a Idade Antiga devem ser revelados até o fim do ano.
Sambaqui fica ao lado da BR-470 em Ilhota
Sambaqui fica ao lado da BR-470 em Ilhota
(Foto: )
A análise do material recolhido também revelou que o espaço provavelmente era usado para cerimônias e ritos funerários. Naquela época esses 1 mil metros quadrados formavam uma ilha no meio de uma lagoa. Hoje a área está numa pequena elevação cercada por plantação de arroz.
O sambaqui será preservado e em nada vai impactar no andamento da duplicação da BR-470. O estudo está sendo realizado por pesquisadores das áreas como biologia, história e arqueologia. Segundo o arqueólogo Valdir Luiz Schwengber, da Espaço Arqueologia, ossadas mais antigas já foram encontradas no Estado, mas certamente esse é o achado arqueológico mais importante do Vale do itajaí.
Depois de analisado e catalogado, o material deve ser exposto e os resultados das análises serão divulgados para que a população conheça um pouco da história dela e reconheça a importância de sabermos mais sobre nosso passado.
CONFIRA MAIS FOTOS DA DESCOBERTA
Uma das duas ossadas encontradas no Sambaqui
Uma das duas ossadas encontradas no Sambaqui
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sambaqui descoberto em Ilhota
Sambaqui descoberto em Ilhota
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Sambaqui descoberto em Ilhota
Sambaqui descoberto em Ilhota
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Sambaqui descoberto em Ilhota
Sambaqui descoberto em Ilhota
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Sambaqui descoberto em Ilhota
Sambaqui descoberto em Ilhota
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Sambaqui descoberto em ilhota
Sambaqui descoberto em ilhota
(Foto: )

sexta-feira, 9 de março de 2018

A dieta de "Luzio"

Homem pré-histórico morava em beira de rio há 10 mil anos, mas quase não comia peixe
MARCOS PIVETTA | ED. 188 | OUTUBRO 2011

© EDUARDO CESAR
Dentes de Luzio: bem preservados e com poucas cáries.

A dieta do habitante pré-histórico mais antigo encontrado em terras do estado de São Paulo reforça a ideia de que existiu no Vale do Ribeira, perto da divisa com o Paraná, um povo com uma cultura intermediária entre o modo de vida do litoral e o do planalto. Luzio, apelido dado ao esqueleto humano de 10 mil anos de idade descoberto em 2000, vivia na bacia do rio Jacupiranga, distante algumas dezenas de quilômetros da costa, mas tinha uma cultura com certos elementos que o conectavam ao mar. 

No sítio em que foi achado, havia centenas de pontas de flecha de pedra e adornos feitos com dentes de macaco, mas também uns poucos enfeites elaborados com dentes de tubarão e pontas de rabo de arraia.

Luzio tinha marcas de remador ou nadador em sua clavícula e fazia cemitérios em que os mortos eram cobertos por uma grossa camada de conchas – um tipo de vestígio arqueológico conhecido como sambaqui, característico das antigas populações do litoral e apenas eventualmente encontrado nas cercanias de rios brasileiros. Apesar desses elementos que o ligavam ao mundo aquático, Luzio comia qual um morador do Brasil central, segundo estudo publicado em 14 de setembro na revista científica Plos One. Seu cardápio do dia a dia era composto de carne de caça, provavelmente de roedores, porcos-do-mato e veados, alguns tubérculos, frutas e – agora vem o dado interessante – quase nenhum peixe ou crustáceo, seja de origem marinha ou mesmo fluvial.

A reconstituição do repasto típico de velho morador do sambaqui de rio foi feita pela bioantropóloga Sabine Eggers, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), em parceria com três pesquisadores do exterior. A partir de amostras de uma proteína (colágeno) e de um mineral (apatita) extraídos de ossos de Luzio, a pesquisadora analisou a presença de diferentes formas, os chamados isótopos, de dois elementos químicos, o carbono e o nitrogênio. “Por essa abordagem, conseguimos inferir como foi a alimentação do Luzio nos últimos seis meses de vida”, diz Sabine, especialista em estudar a dieta e as doenças dos povos antigos. “Não dá para dizer que ele nunca comeu peixe, mas, com certeza, esse item não era frequente em seu cardápio.” Os testes com isótopos foram feitos em dois laboratórios distintos e ambos deram o mesmo resultado.

De baixa estatura, com cerca de 1,60 metro, Luzio recebeu esse nome porque seus traços lembravam os de Luzia, o crânio humano mais antigo encontrado no Brasil, pertencente a uma jovem que viveu há 11 mil anos em Lagoa Santa, nos arredores de Belo Horizonte.

Luzio e Luzia tinham, no jargão dos especialistas, traços negroides, semelhantes aos dos atuais aborígenes australianos e africanos. A maioria dos autores acredita que esse tipo físico não deixou descendentes no continente americano. As atuais tribos de ameríndios derivam de antigas populações de traços ditos mongoloides (com os olhos puxados), típicas da Ásia, que, segundo alguns modelos de ocupação das Américas, se estabeleceram aqui posteriormente.

Quando foi resgatado do sítio arqueológico de Capelinha I, no município de Cajati, durante escavações patrocinadas por um projeto temático da FAPESP, Luzio forneceu indícios de que podia ter uma dieta singular (ver reportagem de Pesquisa FAPESP na edição no 112, de junho de 2005).

Para alguém que viveu há 10 milênios, seus dentes estavam bem conservados e exibiam somente um leve desgaste horizontal. “Encontramos no Luzio apenas quatro microcáries”, conta Sabine. “Nos habitantes de sambaquis de mar é comum depararmos com arcadas dentárias mal preservadas.” Os povos pré-históricos que viveram na costa brasileira se alimentavam basicamente de peixes e moluscos.

Ao ingerir cotidianamente esse cardápio, os dentes desses sambaquieiros entravam em contato com restos de areia e conchas, elementos que contribuíam para seu desgaste.
Luzio apresentava dentes em bom estado. Era, portanto, esperado que tivesse uma dieta mais próxima da dos antigos habitantes de áreas de planalto, em que o consumo de carne de caça e plantas não castiga tanto os dentes. Mas não se suspeitava que os peixes fossem uma raridade em suas refeições. “Chegamos a pensar que Luzio fosse um ceramista pescador-coletor”, comenta o arqueólogo Levy Figuti, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, coordenador dos trabalhos de escavação no Vale do Ribeira que redundaram na descoberta do crânio de 10 mil anos em Capelinha. “Mas hoje está ficando mais evidente que ele era provavelmente um caçador-coletor.”


No sítio de Capelinha I foram encontradas, além dos artefatos de origem marinha e dos vestígios de construção de sambaquis com conchas terrestres, muitas evidências de que Luzio vivia da caça de animais terrestres. Foram resgatadas pontas de lanças e de flechas feitas de sílex ou quartzo, dentes perfurados de bugios, usados, como os de tubarão, provavelmente em colares ou pulseiras, e uma flauta feita com osso polido de mamíferos terrestres.

Em seus trabalhos de campo, a equipe de Figuti estudou 30 sambaquis fluviais do Vale do Ribeira e encontrou cerca de 60 esqueletos de antigos habitantes da região. Só no sítio arqueológico de Moraes, na bacia do rio Juquiá, foram descobertos restos de 40 indivíduos, a maioria tendo vivido há cerca de 5 mil anos. Nenhum deles era tão velho nem exibia os traços físicos de Luzio (todos tinham uma morfologia do tipo asiático), embora elementos de contato com o mar estivessem presentes em alguns desses lugares.

Como Luzio chegou ao Vale do Ribeira? Há duas hipóteses, que não são necessariamente excludentes e podem até ser combinadas. Mais jovem e com traços físicos semelhantes aos de Luzia, o sambaquieiro fluvial pode ser um representante dos descendentes do povo de Lagoa Santa que conseguiu cruzar o interior do Brasil e se estabelecer no Vale do Ribeira. “Olhando o trecho do litoral brasileiro em que há grande ocorrência de sambaquis, entre o Espírito Santo e Santa Catarina, vemos que a serra do Mar representa uma grande barreira para o contato entre os povos do mar e os do interior”, diz a arqueóloga Mercedes Okumura, do MAE-USP. “Mas o Vale do Ribeira pode ter sido uma exceção nesse cenário.”
© EDUARDO CESAR E LABORATÓRIO DE ESTUDOS EVOLUTIVOS HUMANOS / IB-USP
Crânios de Luzio (à esq.) e de Luzia: traços semelhantes aos dos atuais aborígenes australianos e africanos

Ponte para o mar

Nessa região do sul do território paulista, a transição entre a serra do Mar, onde predominava a mata atlântica, e a área costeira é mais suave, com escarpas menos íngremes. O Ribeira do Iguape é um dos poucos rios de São Paulo que correm do planalto para o leste, a caminho do mar. Corta serras e pequenos vales, criando ambientes que podem ter sido pontes naturais entre o litoral e o planalto. Essas particularidades da geografia da região podem ter facilitado o contato de Luzio com as populações do Atlântico.

Existe outra explicação para a presença de Luzio no extremo sul de São Paulo em tempos tão recuados. Ele pode ter migrado da área costeira para a de planalto. Nesse caso, ele seria representante de um povo que teria abandonado a vida no litoral e decidido desbravar as terras mais altas. Contra essa hipótese há um dado incômodo: até agora não se descobriu nenhum sambaqui litorâneo que seja mais antigo do que o sítio de Capelinha I. A atual cronologia de ocupação da costa atlântica não favorece esse cenário. Mas há um atenuante. Há 10 mil anos, a linha da costa se encontrava algumas dezenas de quilômetros mais distante do que está hoje. É possível que os sambaquis mais antigos estejam hoje cobertos pelas águas e talvez nunca sejam encontrados.


Nos últimos anos, boas notícias animaram os estudiosos dos cemitérios de conchas encontrados na costa atlântica. Novas datações de sítios com sambaquis indicam que a presença humana em trechos do litoral brasileiro é mais antiga do que se pensava. O arqueólogo Flavio Calippo, hoje professor na Universidade Federal do Piauí (UFPI), encontrou no início da decada passada vestígios de ocupação humana de 8 mil anos no sítio semissubmerso de Cambriú Grande, na ilha do Cardoso, também no Vale do Ribeira. A equipe do físico Roberto Meigikos dos Anjos, da Universidade Federal Fluminense (UFF), obteve recentemente mais evidências geológicas que confirmam a idade do Sambaqui do Algodão, em Angra dos Reis. O sítio arqueológico tem mesmo 8 mil anos. “Parece que os sambaquis mais antigos estão no trecho do litoral entre Rio e São Paulo”, diz Meigikos. No entanto, nenhuma dessas datações recentes resolve a questão se Luzio veio do mar ou das terras altas antes de se fixar em Capelinha.

Artigo científico

EGGERS, S. et al. Paleoamerican diet, migration and morphology in Brazil: archaeological complexity of the earliest americans. Plos One. Publicado eletronicamente em 14 de setembro de 2011.

quinta-feira, 8 de março de 2018

A América de Luzia

Escavações em Lagoa Santa reforçaram teoria alternativa sobre o povoamento do continente
MARCOS PIVETTA | 50 Anos de FAPESP | MAIO 2012

© EDUARDO CESAR
Crânios de Lagoa Santa: ossadas da região mineira serviram para formular teoria alternativa de povoamento das Américas
Crânios de Lagoa Santa: ossadas da região mineira serviram para formular teoria alternativa de povoamento das Américas


Em 1988, o arqueólogo e antropólogo Walter Neves trabalhava no Museu Paraense Emílio Goeldi e foi convocado às pressas por Guilherme de la Penha, então diretor da instituição de pesquisa, para uma missão no exterior. Teria que representar a chefia do museu em uma reunião sobre arqueologia de salvamento em Estocolmo, na Suécia. O evento seria dali a uma semana. Neves aceitou substituir o chefe na viagem, mas fez uma exigência. Queria esticar a estadia na Escandinávia por uns dias para ter chance de ir a Copenhague, onde queria conhecer a coleção Peter Lund, composta por mamíferos extintos e crânios humanos de alguns milhares de anos encontrados pelo naturalista na região de Lagoa Santa, Minas Gerais, no século XIX. A escala na capital dinamarquesa mudou o curso de sua pesquisa. Neves realizou medições anatômicas em 15 crânios mineiros da coleção e, na volta ao Brasil, discutiu os resultados, surpreendentes, com um colega argentino, o arqueólogo Hector Pucciarelli, da Universidade Nacional de La Plata. Os crânios dos paleoíndios de Lagoa Santa pareciam ter pertencido a um povo com traços físicos negroides, parecidos com os dos atuais africanos e aborígines australianos. Os crânios eram mais estreitos e longos, com faces proeminentes, estreitas e baixas. Não lembravam as antigas populações asiáticas, com olhos amendoados, das quais descendem todas as tribos indígenas ainda hoje presentes nas Américas.

O achado batia de frente com a visão tradicional da arqueologia, em especial a feita nos Estados Unidos, sobre o processo de povoamento do continente. Segundo a teoria convencional e mais difundida, as Américas foram colonizadas por três ondas migratórias compostas de indivíduos com traços mongoloides (asiáticos), tendo a primeira delas ocorrido há cerca de 13 mil anos via Estreito de Bering. Para o arqueólogo brasileiro, os crânios da coleção Lund não corroboravam essa ideia e forneciam elementos para sustentar outra hipótese. O esboço inicial dessa teoria alternativa ganhou, em 1989, as páginas da antiga revista Ciência e Cultura em um artigo assinado por Neves e Pucciarelli. Nascia o embrião do que viria a ser chamado o modelo dos dois componentes biológicos. Segundo essa proposta, houve duas levas migratórias primordiais para as Américas. A primeira, composta por caçadores-coletores com traços negroides, emigrou para cá há cerca de 14 mil anos e hoje não está mais representada em nenhum grupo da atualidade. A segunda, formada por indivíduos com aparência mais próxima à dos asiáticos, botou os pés no Novo Mundo cerca de 12 mil atrás. As tribos atuais ameríndias são herdeiras dessa morfologia.

234-239_walterneves_esp50Por um bom tempo, as ideias de Neves não causaram repercussão nem mesmo entre os meios mais especializados. Até que, em meados da década de 1990, o pesquisador pôde estudar em detalhes um crânio humano pré-histórico da região de Lagoa Santa, que faz parte do acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro. O material ósseo, que tinha sido resgatado em meados dos anos 1970 pela missão franco-brasileira no sítio da Lapa Vermelha IV, no município de Pedro Leopoldo, pertencera a uma jovem que deve ter morrido com cerca de 20 anos. A camada geológica em que o crânio se encontrava foi datada em cerca de 11 mil anos e os restos da caçadora-coletadora foram apelidados de Luzia. Com traços não-mongoloides e as mesmas características físicas dos crânios da coleção Lund, Luzia era o esqueleto humano mais antigo já encontrado nas Américas.

Neves começou a publicar artigos científicos sobre o novo crânio de Lagoa Santa, que se tornou o símbolo e a evidência principal de sua teoria alternativa sobre o povoamento do continente. “Antes de Luzia, todos os nossos trabalhos foram solenemente ignorados”, afirma o pesquisador da USP. “Mas o efeito midiático de Luzia fez os arqueólogos americanos olharem para nosso trabalho.” Meios de comunicação de prestígio mundial, como o jornal norte-americano The New York Times e a rede de televisão inglesa BBC, fizeram reportagens sobre o crânio brasileiro que servia de suporte para um novo modelo de ocupação das Américas. O inglês Richard Neave, especialista forense da Universidade de Manchester, fez uma reconstituição artística para um programa da BBC de como seria a face de Luzia a partir de tomografias do crânio mais antigo das Américas. A imagem de uma jovem com lábios grossos e nariz largo, correu o mundo e conferiu, literal e figurativamente, uma face para a teoria.

A difusão internacional do modelo dos dois componentes biológicos trouxe também as críticas, em especial as de representantes da ala mais tradicional da arqueologia americana. Eles costumavam dizer que Luzia era uma aberração, uma exceção, e não a regra entre os primeiros habitantes das Américas. Afirmavam que Neves havia construído uma tese a partir de um só crânio. Segundo essa linha de pensamento, a evidência pré-histórica mais antiga e incontestável da presença do homem nas Américas é a chamada cultura Clovis, definida a partir de um sítio arqueológico do Novo México onde nunca foram descobertas ossadas de Homo sapiens, mas foram encontradas, há cerca de 80 anos, pontas de lança líticas com idade de 11,5 mil anos. Luzia certamente não é pré-Clovis. Mas, por estar na América do Sul, ter uma idade avançada e exibir morfologia distinta, Neves interpretava como um indício de que outro povo pode ter entrado nas Américas antes dos caçadores-coletores da cultura Clovis. Outra fonte de críticas à hipótese de Neves costuma vir de trabalhos da área de genética, que refutam a existência de uma possível leva primordial formada por indivíduos com traços biológicos semelhantes aos de Luzia.
© RICHARD NEAVE
Reconstituição artística de Luzia: dona do crânio mais antigo das Américas, de 11 mil anos, se parecia com atuais africanos e aborígines australianos
Reconstituição artística de Luzia: dona do crânio mais antigo das Américas, de 11 mil anos, se parecia com atuais africanos e aborígines australianos

Para angariar mais argumentos a favor de sua teoria e mostrar que Luzia não era uma anomalia, o arqueólogo da USP decidiu, a partir do final dos anos 1990, promover escavações na região de Lagoa Santa, amparado por uma série de projetos financiados pela FAPESP, inclusive dois temáticos. “Percebi que tinha de ir a campo”, conta Neves. Os trabalhos de campo ocorreram durante boa parte da década passada, em geral nos meses de inverno, mais secos no Sudeste. As expedições pelas grutas e cavernas mineiras chegaram a juntar até 50 pessoas em algumas ocasiões. Os resultados foram aparecendo. Em julho de 2001, a equipe da USP encontrou três ossadas de cerca de 8.500 anos com características fisicas semelhantes às de Luzia no sítio arqueológico de Lapa das Boleiras, município de Matozinhos, onde há um cemitério pré-histórico que não era escavado desde 1956. Mesmo bem mais novos que o crânio mais antigo das Américas, os esqueletos de Boleiras tinham um significado especial. Eram os primeiros ossos humanos pré-históricos desenterrados da região de Lagoa Santa desde 1975, quando Luzia fora descoberta.


E não foram os únicos. No final de 2004, Neves e colaboradores publicaram um artigo na revista científica britânica World Archaeology em que apresentavam nove crânios encontrados em meados dos anos 1950 em Cerca Grande, um complexo de sete sítios pré-históricos situado na região de Lagoa Santa.

Todas as ossadas ostentavam características afro-aborígines e idade estimada em cerca de 9 mil anos.

Em outro trabalho, também dessa época, publicado no periódico norte-americano Current Research in the Pleistocene, o arqueólogo da USP analisou um crânio, igualmente de 9 mil anos e traços negroides, oriundo da Toca das Onças, um sítio rico em material pré-histórico localizado em Caatinga do Moura, na Bahia.

A existência de uma ossada tão antiga associada a populações não mongoloides originárias de uma região distante de Lagoa Santa era mais um indício de que esse tipo físico esteve disseminado por outras partes do país durante algum momento da Pré-história. “Sua distribuição geográfica era mais ampla do que se pensava”, comentou Castor Cartelle, do Museu de Ciências Naturais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/MG), coautor do artigo sobre o crânio de Toca das Onças, em entrevista concedida na época à Pesquisa FAPESP. “Talvez a presença de indivíduos do tipo negroide tenha ocorrido ao longo de toda a bacia do rio São Francisco, chegando até o Piauí.” Cartelle coordenou a equipe que encontrou o crânio humano de Toca das Onças numa expedição à região baiana no fim dos anos 1970.
© ACERVO LEEH
Escavação no sítio mineiro de Lapa do Santo: trabalho de campo obteve mais indícios a favor da teoria de Neves
Escavação no sítio mineiro de Lapa do Santo: trabalho de campo obteve mais indícios a favor da teoria de Neves.

Até no território paulista, durante muito tempo considerado um vazio arqueológico em termos de datações antigas, foi encontrado um crânio masculino parecido com Luzia, que recebeu o apelido de Luzio. Em abril de 2005, um artigo na revista norte-americana Journal of Human Evolution apresentou uma ossada de cerca de 10 mil anos, que fora resgatada seis anos antes em um sítio arqueológico denominado Capelinha I, na bacia do rio Jacupiranga, no Vale do Ribeira. Luzio foi um caçador-coletor que habitou um sambaqui fluvial no sul de São Paulo.

A ossada estava num sepultamento situado numa camada geológica bem superficial”, lembrou, em entrevista à Pesquisa FAPESP, o arqueólogo Levy Figuti, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, coordenador do projeto que encontrou o crânio. “Não pensávamos que ela fosse tão antiga.” Neves foi um dos coautores do artigo sobre Luzio.

A estratégia de procurar crânios pré-históricos com morfologia semelhante à de Luzia rendeu frutos até no exterior. Ossadas do México, da Colômbia e até dos Estados Unidos foram identificadas como similares ao povo de Lagoa Santa. Em desembro de 2005, Neves e Mark Hubbe, então seu aluno e hoje trabalhando no exterior, publicaram uma grande síntese de seus achados na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

No trabalho, os pesquisadores examinaram 81 crânios de Lagoa Santa, a maior amostra já analisada sobre ossadas da região, e as classificaram, com a ajuda de vários modelos computacionais, como pertencentes a paleoíndios com traços semelhantes aos de Luzia. Os crânios (42 homens e 39 mulheres), que se encontraram guardados em museus do Brasil e do exterior, tinham idade estimada entre 7.500 e 11 mil anos. Cerca de 50 parâmetros morfológicos dos esqueletos foram comparados com as medidas típicas dos principais grupos étnicos que compõem atualmente a população mundial. O resultado foi que eles se parecem mais com os africanos e aborígines – a exemplo de Luzia.

Apesar de bem sucedido, o projeto de pesquisa de Neves em Lagoa Santa deixou-o com uma ponta de frustração. “Esperava encontrar várias Luzias com mais de 11 mil anos na região”, afirma o pesquisador. Não foi o que ocorreu. Nada da idade de Luzia apareceu. “Se houve uma ocupação pré-Clovis em Lagoa Santa, ela foi muito esparsa.”, diz. Ainda assim, não há do que reclamar. O arqueólogo da USP tem caixas e mais caixas em seu laboratório com milhares de ossos humanos e de mamíferos e carvões da região mineira para serem estudados e datados. É trabalho para anos.
© MARIANA INGLEZ/LEEH
Vista aérea de maciço calcário, onde há um abrigo sobre rocha, em Matozinhos (MG): presença desse tipo de mineral ajudou na preservação de esqueletos na região de Lagoa Santa
Vista aérea de maciço calcário, onde há um abrigo sobre rocha, em Matozinhos (MG): presença desse tipo de mineral ajudou na preservação de esqueletos na região de Lagoa Santa

Megafauna e gravuras
As escavações coordenadas por Neves em Lagoa Santa renderam achados que, embora não comprovem sua teoria, dão mais consistência às teses do pesquisador da USP. Além disso, os trabalhos de campo também produziram conhecimentos em áreas correlatas à questão da chegada do homem às Américas.

Em 2002, a datação pelo método do carbono 14 de um fragmento de costela de uma preguiça terrícola gigante da espécie Catonyx cuvieri, que havia sido encontrada na região mineira rica em sítios pré-históricos, mostrou que esses enormes mamíferos ainda não haviam desaparecido por completo há cerca de 10 mil anos.

O estudo reforçou a ideia de que as antigas versões terrestres e mais avantajadas das atuais preguiças arborícolas foram contemporâneas do povo de Luzia e dividiam praticamente o mesmo território. “O teste mostrou que a preguiça habitou aquela área há 9.990 anos”, diz Neves. As preguiças gigantes eram um dos representantes da espetacular megafauna que habitou a porção sul do continente americano.

Mais recentemente, em 22 de fevereiro deste ano, Neves publicou um artigo na revista científica Plos One em que dá conta de um achado inesperado, obtido nos últimos momentos dos trabalhos de campo na região de Lagoa Santa em 2009.

No sítio Lapa do Santo, um abrigo sob rocha, os trabalhos de escavação trouxeram à tona um petroglifo de uns 30 centímetros de tamanho com uma figura antropomórfica, ou seja, uma gravura de um homem estilizado feita sobre pedra, que estava escondida a 4 metros de profundidade.

O desenho retrata um homem com um enorme órgão sexual. Sua idade foi estimada entre 9.600 e 10.400 anos. “Essa gravura rupestre é a mais antiga das Américas a apresentar uma datação indiscutível”, afirma Neves. “Ela sugere fortemente que a cultura entre o fim do Pleitosceno e o início do Holoceno (há  12 mil anos) não se restringia à fabricação de ferramentas de pedra e à subsistência, mas também englobava uma rica dimensão simbólica.” Com a nova descoberta, Lagoa Santa passa a ter o crânio humano e a gravura rupestre mais antigos das Américas, segundo o pesquisador da USP.

Os projetos
 
1. Origens e microevolução do homem na América: uma abordagem paleoantropológica II (nº 1999/00670-7); Modalidade Projeto Temático; Coordenador Walter Neves – Instituto de Biociências/USP; Investimento R$ 538.172,80 e US$ 76.000

2. Origens e microevolução do homem na América: uma abordagem paleoantropológica III (nº 2004/01321-6); Modalidade Projeto Temático; Coordenador Walter Neves – Instituto de Biociências/USP; Investimento R$ 1.555.665,94

Artigos científicos
 
NEVES, W. A. e PUCCIARELLI, H M. Extra-continental biological relationships of early South American human remains: a multivariate analysis. Ciência e Cultura. v. 41, p. 566-75, 1989.

NEVES, W. A. e HUBBE, M. Cranial morphology of early Americans from Lagoa Santa, Brazil: implications for the settlement of the New World. PNAS. v. 102, n. 51, p. 18309-14, 2005.

NEVES, W. A. et al. Rock Art at the Pleistocene/Holocene Boundary in Eastern South America. Plos One. v. 7, n. 2, p. e322-28, 2012.

De nosso arquivo
 
Walter Neves: o pai de Luzia – Edição nº 195 – maio de 2012

Como os nossos pais
– Edição nº 182 – abril de 2011

Primos de Luzia
– Edição nº  119 – janeiro 2006

Redescobrindo o novo mundo
– Edição nº 107 – janeiro 2005

A terra de Luzia
– Edição nº 86 – abril 2003


segunda-feira, 3 de abril de 2017

Saúde Bucal dos Paleoamericanos de Lagoa Santa, Brasil Central

O texto abaixo foi encaminhado para publicação no Arqueologia e Pré-História pelo Dr. Pedro Totora da Glória, do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos (LEEH), Universidade de São Paulo. Este texto é um resumo do artigo de Pedro da Glória e Clark Larsen publicado na American Journal of Physical Anthropology, no último dia 22.
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Crânio de indivíduo proveniente de Lagoa Santa. A pesquisa objetivou a análise dos dentes, que apresentam um alto grau de desgaste.

O povoamento e origens dos primeiros americanos são temas de muita pesquisa e debates intensos na literatura científica. No entanto, poucos estudos têm utilizado restos humanos para documentar e interpretar os padrões de saúde e estilo de vida dos Paleoamericanos. Este estudo fornece a primeira investigação sobre saúde bucal em uma série de esqueletos humanos do Holoceno Inicial de Lagoa Santa, Brasil central, uma localidade que contém o restos mortais de alguns dos primeiros habitantes da América do Sul (10.000-7.000 anos AP).

A amostra é composta de 949 dentes e 1.925 alvéolos de cerca de 113 indivíduos, escavados em 17 sítios arqueológicos localizados no estado de Minas Gerais. Nós comparamos cáries e abscessos em Lagoa Santa com um banco de dados de esqueletos humanos de todo o continente americano, usando métodos de cálculo tanto por indivíduo como por dente/alvéolo. Além disso, a perda de dentes antemortem e o desgaste dentário foram analisadas em Lagoa Santa por sexo e idade. A expectativa é de que os habitantes de Lagoa Santa tenham boa saúde bucal, uma vez que esse é o traço normalmente visto em populações caçadoras-coletoras.

Os resultados mostram que a prevalência de cáries e abscessos em Lagoa Santa é significativamente maior do que a observada entre os outros caçadores-coletores incluídos no banco de dados analisado, exceto quando a prevalência abscesso é considerada usando indivíduo como unidade de análise. As mulheres adultas têm menos desgaste dentário e maior prevalência de cáries e perda de dentes antemortem do que os homens adultos. Estes resultados apontam para uma inesperada saúde bucal ruim em Lagoa Santa, especialmente entre mulheres. Uma dieta baseada na combinação de tubérculos e frutas silvestres altamente cariogênicas é sugerida como uma explicação para essa taxa elevada de patologias bucais. Esses resultados parecem estar ligados a uma adaptação a um ambiente tropical com alta disponibilidade de carboidratos.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

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fapesp lavas vulcanicas wikimedia
Estudo estabelece a cronologia de eventos tectônicos e climáticos nas bacias sedimentares Bauru, Sanfranciscana e dos Parecis, na região Centro-Sul do país (imagem: Wikimedia Commons)

Há 140 milhões de anos, no início do período Cretáceo, o Brasil era coberto por um vastíssimo deserto de dunas muito maior que o Saara. Este deserto desapareceu ao ser engolido por um oceano de lava produzido pelo maior extravasamento de magma dos últimos 500 milhões de anos. Sete entre as dez maiores erupções vulcânicas – inclusive as três maiores – que ocorreram no planeta neste período aconteceram no Sudeste brasileiro. O panorama geológico que os pesquisadores brasileiros estão compondo de nosso país é estarrecedor.

O mais recente trabalho que procura atar três peças basilares desse quebra-cabeça colossal, as três bacias geológicas que sustentam a porção Centro-Sul do território brasileiro, acaba de ser publicado no Journal of South American Sciences. Um de seus autores é o geólogo Alessandro Batezelli, do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O projeto teve o apoio da Fapesp.
fapesp alessandro batezelliO foco do estudo de Batezelli são as bacias sedimentares do Centro-Sul do Brasil, com destaque para as bacias Bauru, Sanfranciscana e dos Parecis. Entender o modo como os eventos tectônicos e climáticos interagiram em cada uma delas no tempo e no espaço ajuda a estabelecer uma sequência cronológica.

A descoberta daqueles eventos não foi obra de Batezelli e do geógrafo Francisco Sergio Bernardes Ladeira, o coautor do trabalho. Mas é a sua pesquisa, assim como a de outros profissionais, que nos permite tecer um esboço do drama geológico que se desenrolou no Centro-Sul brasileiro entre 135 e 60 milhões de anos atrás.

A ruptura de Gondwana

No período Jurássico, entre 201 e 145 milhões de anos atrás, a América do Sul e a África encontravam-se unidas. Ficavam bem no meio do antigo megacontinente Gondwana. As correntes de ar saturadas de umidade do antigo oceano Pantalássico não tinham força para atingir o distante centro de Gondwana. Daí a formação de um imenso deserto, o deserto Botucatu. É o mesmo processo que se vê hoje na Ásia Central, cujo clima desértico se deve à sua grande distância dos oceanos.
Quase não há fósseis preservados do Jurássico no Brasil. Explicações, para tanto, seriam o clima inóspito do deserto e também a difícil preservação de fósseis num ambiente de dunas. No entanto, o deserto Botucatu não era desabitado. Até agora, foram achadas apenas algumas pegadas fossilizadas de mamíferos e de répteis.

Há 140 milhões de anos, a América do Sul e a África começaram a se separar para dar início à abertura do Atlântico Sul. “O fenômeno que provocou a ruptura de Gondwana foi o surgimento de fraturas profundas na crosta terrestre”, diz Batezelli. Por essas fraturas começou a extravasar magma do interior do planeta em quantidades descomunais. À medida que as fendas iam se alargando, e os continentes se afastando, mais lava extravasava, num processo contínuo e muito prolongado, que perdurou de 137,4 a 128,7 milhões de anos atrás.

O epicentro desta megaerupção vulcânica, “ou mais apropriadamente um megaextravasamento basáltico, conhecido como Província Vulcânica Paraná-Etendeka,” como observa o geólogo, foi o Sudeste e o Sul do Brasil, que se encontravam ligados às terras da atual Namíbia, na África.
A Província Vulcânica Paraná-Etendeka foi formada a partir de diversas fendas, ou megavulcões, os maiores de que se têm notícia. Não eram vulcões explosivos, como os que estamos acostumados a ver. “Não havia erupções explosivas. As fendas jorravam continuamente”, diz Batezelli. “Daqui até a África havia fendas através das quais a lava extravasou sobre uma área gigantesca e por um período muito prolongado.” Através daquelas fendas transbordaram 2,3 milhões de km3 de lava, que cobriram totalmente 1,5 milhão de km2 – equivalente a cobrir o Estado do Amazonas, o maior do país, com uma camada de lava de 1,5 km de altura.

A origem do aquífero Guarani

Toda essa lava enterrou as antigas dunas do deserto Botucatu e foi-se acumulando em camadas sucessivas até erigir a Serra Geral, que cobre os Estados do Paraná, Santa Catarina e o norte do Rio Grande do Sul – além do leste paraguaio e o norte da Argentina. Sua areia foi cozinhada a uma temperatura de 1.200 graus centígrados e prensada pelo peso do magma. A areia acabou virando arenito, uma rocha bastante porosa que tem a propriedade de armazenar a água da chuva que é absorvida pelo solo.
No caso das dunas do deserto Botucatu, elas deram origem ao aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do planeta, enterrado sob o chão do Centro-Sudoeste do Brasil. O aquífero Guarani comporta 37 mil km3 de água, equivalente a 1,6 vez o volume do maior lago do planeta, o Baikal, na Sibéria.

“Nas regiões onde as dunas entraram em contato direto com a lava, houve um aumento de temperatura tão grande que os sedimentos foram literalmente cozidos, formando um arenito mais duro e impermeável, que é usado hoje nas calçadas de mosaico português”, diz Batezelli. Já a lava resfriada formou basalto, e este, desgastado por cem milhões de anos de erosão, deu origem à terra roxa, o solo fértil que alavancou no século XIX as lavouras de café em São Paulo e no Paraná.

Um novo deserto

Há 128,7 milhões de anos, quando os extravasamentos de magma findaram, aquele gigantesco acúmulo de rocha vulcânica fez com que parte do Sudeste brasileiro sofresse um abatimento sob seu próprio peso, o que criou na superfície uma nova bacia sedimentar, a Bacia Bauru. E sobre esta bacia formou-se um novo deserto de dunas, porém menor que o anterior.
O Atlântico Sul mal começara a abrir. Ainda nem era um braço de mar, no máximo uma depressão alagada para onde convergiam os rios, os sedimentos e a erosão de dois continentes. Ou seja, as águas de Pantalassa – o oceano que rodeava a Pangeia – ainda estavam longínquas, assim como sua brisa úmida. Para acabar com as condições de secura do Centro-Sul do Brasil, seria preciso aguardar outros 60 milhões de anos, quando o Atlântico Sul, embora com menos da metade da abertura atual, pôde amenizar o clima.
De qualquer forma, aquela depressão que lentamente se alargava um par de centímetros por ano já ia se fazendo sentir no clima. O novo deserto de dunas, agora denominado Grupo Caiuá, não era tão grande como o antigo deserto Botucatu, afirma Batezelli. Era árido, mas pontilhado aqui e ali por oásis infestados de várias espécies de crocodilos terrestres, parentes extintos dos crocodilianos atuais.
Aqueles crocodilos viviam em terra firme, tinham patas longas e andavam como lobos. Os paleontólogos já descreveram mais de uma dúzia de espécies. A mais famosa é o famigerado baurusuchus, uma fera predadora. Mas havia também formas bizarras, com chifres ou com uma carapaça semelhante à dos tatus, como a do armadillosuchus, e até um crocodilo herbívoro, o esfagessauro.

As dunas do Caiuá existiram entre 125 e 100 milhões de anos atrás, quando cederam lugar a uma nova paisagem formada por rios e lagos. “O clima se tornou muito mais ameno, similar ao semiárido da Caatinga nordestina”, diz Batezelli. Essa nova depressão recebeu sedimentos que hoje pertencem ao Grupo Bauru, que existiu entre 80 e 60 milhões de anos atrás.
Aí sim os titanossauros proliferaram. A maioria das espécies brasileiras é dessa fase. Seus fósseis homenageiam o nome das cidades mineiras e paulistas próximas das quais foram encontrados, como uberabatitan e baurutitan.

A Bacia Sanfranciscana

Concomitante a estes 60 milhões de anos de transformações na Bacia Bauru, “mais para o norte, na Bacia Sanfranciscana, ocorreram fenômenos muito parecidos, embora sem serem os mesmo”, salienta Batezelli. A Bacia Sanfranciscana engloba o oeste de Minas Gerais, Goiás, Tocantins e o oeste da Bahia, estendendo-se até o sul do Piauí.
Durante o Cretáceo inferior, na Bacia Sanfranciscana se desenvolveram campos de dunas eólicas. Dezenas de milhões de anos depois, já no Cretáceo superior, também aconteceu vulcanismo. “Bem no limite entre as bacias Bauru e Sanfranciscana se formaram diversos vulcões”, revela Batezelli pautado em sua pesquisa. “Eles apresentaram um extravasamento bem menor do que o vulcanismo que deu origem à Serra Geral, porém foram responsáveis por formar uma região mais elevada entre as Bacias Bauru e Sanfranciscana. Foi como se a crosta inchasse por causa do calor das intrusões magmáticas.”
Seu relevo é perceptível até hoje, nas crateras no interior das quais estão as cidades de Araxá, Tapira e Poços de Caldas. “As grandes jazidas de nióbio assim como outras riquezas minerais do sudeste de Minas Gerais estão relacionadas a este vulcanismo.”

O vulcanismo na Bacia Sanfranciscana ocorreu há menos de 100 milhões de anos atrás. A maior parte da lava que extravasou desses vulcões avançou sobre as dunas.
A evolução da Bacia dos Parecis é semelhante ao ocorrido nas bacias Bauru e Sanfranciscana. Ainda no período Jurássico superior, ocorreu um vulcanismo modesto nos Parecis. Há 145 milhões de anos atrás, já no Cretáceo superior, formaram-se rios e lagos na região compreendida entre o norte do Mato Grosso e o oeste de Rondônia. Com o passar do tempo o clima foi se tornando mais árido e o cenário paisagístico se transformou num campo de dunas.
Em resumo, e comparando os cenários das três bacias sedimentares, conclui-se que do Cretáceo inferior ao Cretáceo superior, um período de mais de 60 milhões de anos, houve um deslocamento dos desertos de dunas no território brasileiro das direções sudeste para noroeste.

Das dunas eólicas aos rios e lagos

Durante o Cretáceo inferior, a região Sudeste era dominada por uma paisagem desértica formada por dunas eólicas. Já no Cretáceo superior, a maior parte da região Sudeste passou a ter uma paisagem constituída por rios e lagos, enquanto que desertos de dunas surgiram no norte de Minas, em Goiás, Tocantins, Matogrosso e Rondônia. “Isso demonstra que, com o passar do tempo, houve uma diminuição nas condições de umidade de sul/sudeste para o centro-oeste/norte do Brasil”, revela Batezelli.
Todo o drama geológico descrito acima se desenrolou em paralelo ao alargamento do Atlântico Sul. Suas brisas que cresciam em volume e intensidade semeavam cada vez mais umidade na porção sudeste do continente.
Esse era o cenário dominante quando da extinção em massa do fim do Cretáceo, há 65 milhões, que deu fim aos dinossauros. Esse legado geológico, geográfico e climático formou o novo meio ambiente no qual os mamíferos da era Cenozoica puderam se adaptar. Mas esta é uma outra história.
O artigo Stratigraphic framework and evolution of the Cretaceous continental sequences of the Bauru, Sanfranciscana, and Parecis basins, Brazil, de Betezelli e Ladeira, publicado no Journal of South American Earth Sciences, pode ser lido neste link.
Agência FAPESP – 03/02/2016 - Peter Moon

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Como era o Brasil há 100 milhões de anos

03 de fevereiro de 2016

Peter Moon  |  Agência FAPESP – Há 140 milhões de anos, no início do período Cretáceo, o Brasil era coberto por um vastíssimo deserto de dunas muito maior que o Saara. Este deserto desapareceu ao ser engolido por um oceano de lava produzido pelo maior extravasamento de magma dos últimos 500 milhões de anos. Sete entre as dez maiores erupções vulcânicas – inclusive as três maiores – que ocorreram no planeta neste período aconteceram no Sudeste brasileiro. O panorama geológico que os pesquisadores brasileiros estão compondo de nosso país é estarrecedor.

O mais recente trabalho que procura atar três peças basilares desse quebra-cabeça colossal, as três bacias geológicas que sustentam a porção Centro-Sul do território brasileiro, acaba de ser publicado no Journal of South American Sciences. Um de seus autores é o geólogo Alessandro Batezelli, do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O projeto teve o apoio da Fapesp.
O foco do estudo de Batezelli são as bacias sedimentares do Centro-Sul do Brasil, com destaque para as bacias Bauru, Sanfranciscana e dos Parecis. Entender o modo como os eventos tectônicos e climáticos interagiram em cada uma delas no tempo e no espaço ajuda a estabelecer uma sequência cronológica.
A descoberta daqueles eventos não foi obra de Batezelli e do geógrafo Francisco Sergio Bernardes Ladeira, o coautor do trabalho. Mas é a sua pesquisa, assim como a de outros profissionais, que nos permite tecer um esboço do drama geológico que se desenrolou no Centro-Sul brasileiro entre 135 e 60 milhões de anos atrás.
A ruptura de Gondwana

No período Jurássico, entre 201 e 145 milhões de anos atrás, a América do Sul e a África encontravam-se unidas. Ficavam bem no meio do antigo megacontinente Gondwana. As correntes de ar saturadas de umidade do antigo oceano Pantalássico não tinham força para atingir o distante centro de Gondwana. Daí a formação de um imenso deserto, o deserto Botucatu. É o mesmo processo que se vê hoje na Ásia Central, cujo clima desértico se deve à sua grande distância dos oceanos.
Quase não há fósseis preservados do Jurássico no Brasil. Explicações, para tanto, seriam o clima inóspito do deserto e também a difícil preservação de fósseis num ambiente de dunas. No entanto, o deserto Botucatu não era desabitado. Até agora, foram achadas apenas algumas pegadas fossilizadas de mamíferos e de répteis.
Há 140 milhões de anos, a América do Sul e a África começaram a se separar para dar início à abertura do Atlântico Sul. “O fenômeno que provocou a ruptura de Gondwana foi o surgimento de fraturas profundas na crosta terrestre”, diz Batezelli. Por essas fraturas começou a extravasar magma do interior do planeta em quantidades descomunais. À medida que as fendas iam se alargando, e os continentes se afastando, mais lava extravasava, num processo contínuo e muito prolongado, que perdurou de 137,4 a 128,7 milhões de anos atrás.

O epicentro desta megaerupção vulcânica, “ou mais apropriadamente um megaextravasamento basáltico, conhecido como Província Vulcânica Paraná-Etendeka,” como observa o geólogo, foi o Sudeste e o Sul do Brasil, que se encontravam ligados às terras da atual Namíbia, na África.
A Província Vulcânica Paraná-Etendeka foi formada a partir de diversas fendas, ou megavulcões, os maiores de que se têm notícia. Não eram vulcões explosivos, como os que estamos acostumados a ver. “Não havia erupções explosivas. As fendas jorravam continuamente”, diz Batezelli. “Daqui até a África havia fendas através das quais a lava extravasou sobre uma área gigantesca e por um período muito prolongado.” Através daquelas fendas transbordaram 2,3 milhões de km3 de lava, que cobriram totalmente 1,5 milhão de km2 – equivalente a cobrir o Estado do Amazonas, o maior do país, com uma camada de lava de 1,5 km de altura.

A origem do aquífero Guarani

Toda essa lava enterrou as antigas dunas do deserto Botucatu e foi-se acumulando em camadas sucessivas até erigir a Serra Geral, que cobre os Estados do Paraná, Santa Catarina e o norte do Rio Grande do Sul – além do leste paraguaio e o norte da Argentina. Sua areia foi cozinhada a uma temperatura de 1.200 graus centígrados e prensada pelo peso do magma. A areia acabou virando arenito, uma rocha bastante porosa que tem a propriedade de armazenar a água da chuva que é absorvida pelo solo.
No caso das dunas do deserto Botucatu, elas deram origem ao aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do planeta, enterrado sob o chão do Centro-Sudoeste do Brasil. O aquífero Guarani comporta 37 mil km3 de água, equivalente a 1,6 vez o volume do maior lago do planeta, o Baikal, na Sibéria.
“Nas regiões onde as dunas entraram em contato direto com a lava, houve um aumento de temperatura tão grande que os sedimentos foram literalmente cozidos, formando um arenito mais duro e impermeável, que é usado hoje nas calçadas de mosaico português”, diz Batezelli. Já a lava resfriada formou basalto, e este, desgastado por cem milhões de anos de erosão, deu origem à terra roxa, o solo fértil que alavancou no século XIX as lavouras de café em São Paulo e no Paraná.

Um novo deserto

Há 128,7 milhões de anos, quando os extravasamentos de magma findaram, aquele gigantesco acúmulo de rocha vulcânica fez com que parte do Sudeste brasileiro sofresse um abatimento sob seu próprio peso, o que criou na superfície uma nova bacia sedimentar, a Bacia Bauru. E sobre esta bacia formou-se um novo deserto de dunas, porém menor que o anterior.

O Atlântico Sul mal começara a abrir. Ainda nem era um braço de mar, no máximo uma depressão alagada para onde convergiam os rios, os sedimentos e a erosão de dois continentes. Ou seja, as águas de Pantalassa – o oceano que rodeava a Pangeia – ainda estavam longínquas, assim como sua brisa úmida. Para acabar com as condições de secura do Centro-Sul do Brasil, seria preciso aguardar outros 60 milhões de anos, quando o Atlântico Sul, embora com menos da metade da abertura atual, pôde amenizar o clima.
De qualquer forma, aquela depressão que lentamente se alargava um par de centímetros por ano já ia se fazendo sentir no clima. O novo deserto de dunas, agora denominado Grupo Caiuá, não era tão grande como o antigo deserto Botucatu, afirma Batezelli. Era árido, mas pontilhado aqui e ali por oásis infestados de várias espécies de crocodilos terrestres, parentes extintos dos crocodilianos atuais.

Aqueles crocodilos viviam em terra firme, tinham patas longas e andavam como lobos. Os paleontólogos já descreveram mais de uma dúzia de espécies. A mais famosa é o famigerado baurusuchus, uma fera predadora. Mas havia também formas bizarras, com chifres ou com uma carapaça semelhante à dos tatus, como a do armadillosuchus, e até um crocodilo herbívoro, o esfagessauro.
As dunas do Caiuá existiram entre 125 e 100 milhões de anos atrás, quando cederam lugar a uma nova paisagem formada por rios e lagos. “O clima se tornou muito mais ameno, similar ao semiárido da Caatinga nordestina”, diz Batezelli. Essa nova depressão recebeu sedimentos que hoje pertencem ao Grupo Bauru, que existiu entre 80 e 60 milhões de anos atrás.
Aí sim os titanossauros proliferaram. A maioria das espécies brasileiras é dessa fase. Seus fósseis homenageiam o nome das cidades mineiras e paulistas próximas das quais foram encontrados, como uberabatitan e baurutitan.

A Bacia Sanfranciscana

Concomitante a estes 60 milhões de anos de transformações na Bacia Bauru, “mais para o norte, na Bacia Sanfranciscana, ocorreram fenômenos muito parecidos, embora sem serem os mesmo”, salienta Batezelli. A Bacia Sanfranciscana engloba o oeste de Minas Gerais, Goiás, Tocantins e o oeste da Bahia, estendendo-se até o sul do Piauí.
Durante o Cretáceo inferior, na Bacia Sanfranciscana se desenvolveram campos de dunas eólicas. Dezenas de milhões de anos depois, já no Cretáceo superior, também aconteceu vulcanismo. “Bem no limite entre as bacias Bauru e Sanfranciscana se formaram diversos vulcões”, revela Batezelli pautado em sua pesquisa. “Eles apresentaram um extravasamento bem menor do que o vulcanismo que deu origem à Serra Geral, porém foram responsáveis por formar uma região mais elevada entre as Bacias Bauru e Sanfranciscana. Foi como se a crosta inchasse por causa do calor das intrusões magmáticas.”
Seu relevo é perceptível até hoje, nas crateras no interior das quais estão as cidades de Araxá, Tapira e Poços de Caldas. “As grandes jazidas de nióbio assim como outras riquezas minerais do sudeste de Minas Gerais estão relacionadas a este vulcanismo.”

O vulcanismo na Bacia Sanfranciscana ocorreu há menos de 100 milhões de anos atrás. A maior parte da lava que extravasou desses vulcões avançou sobre as dunas.
A evolução da Bacia dos Parecis é semelhante ao ocorrido nas bacias Bauru e Sanfranciscana. Ainda no período Jurássico superior, ocorreu um vulcanismo modesto nos Parecis. Há 145 milhões de anos atrás, já no Cretáceo superior, formaram-se rios e lagos na região compreendida entre o norte do Mato Grosso e o oeste de Rondônia. Com o passar do tempo o clima foi se tornando mais árido e o cenário paisagístico se transformou num campo de dunas.
Em resumo, e comparando os cenários das três bacias sedimentares, conclui-se que do Cretáceo inferior ao Cretáceo superior, um período de mais de 60 milhões de anos, houve um deslocamento dos desertos de dunas no território brasileiro das direções sudeste para noroeste.

Das dunas eólicas aos rios e lagos

Durante o Cretáceo inferior, a região Sudeste era dominada por uma paisagem desértica formada por dunas eólicas. Já no Cretáceo superior, a maior parte da região Sudeste passou a ter uma paisagem constituída por rios e lagos, enquanto que desertos de dunas surgiram no norte de Minas, em Goiás, Tocantins, Matogrosso e Rondônia. “Isso demonstra que, com o passar do tempo, houve uma diminuição nas condições de umidade de sul/sudeste para o centro-oeste/norte do Brasil”, revela Batezelli.
Todo o drama geológico descrito acima se desenrolou em paralelo ao alargamento do Atlântico Sul. Suas brisas que cresciam em volume e intensidade semeavam cada vez mais umidade na porção sudeste do continente.

Esse era o cenário dominante quando da extinção em massa do fim do Cretáceo, há 65 milhões, que deu fim aos dinossauros. Esse legado geológico, geográfico e climático formou o novo meio ambiente no qual os mamíferos da era Cenozoica puderam se adaptar. Mas esta é uma outra história.

O artigo Stratigraphic framework and evolution of the Cretaceous continental sequences of the Bauru, Sanfranciscana, and Parecis basins, Brazil, de Betezelli e Ladeira, publicado no Journal of South American Earth Sciences, pode ser lido em http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0895981115300857.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Habitantes do Nordeste pré-histórico

Equipe internacional de cientistas anuncia duas novas espécies fósseis de anfíbios encontradas no Nordeste brasileiro. Datadas de cerca de 278 milhões de anos, elas ajudam a entender como a vida ressurgiu no hemisfério Sul após um período glacial. 
 
Por: Everton Lopes
Publicado em 05/11/2015 | Atualizado em 06/11/2015
Habitantes do Nordeste pré-histórico
Reconstrução artística de habitat lacustre tropical com 278 milhões de anos na região de Teresina, incluindo ‘Timonya anneae’ (à esquerda, em tom mais claro) e ‘Procuhy nazariensis’ (à direita). (ilustração: Andrey Atuchin) 
 
Mais um capítulo da pré-história brasileira: uma equipe internacional de cientistas anuncia nesta quinta-feira (05/11) a importante descoberta de fósseis de anfíbios que viveram no período Permiano – aproximadamente 278 milhões de anos atrás. Anteriores aos dinossauros, as duas espécies inéditas de anfíbios arcaicos carnívoros foram descobertas na cidade de Timon, no Maranhão, e Nazária, no Piauí. O estudo, assinado por cientistas do Brasil, do Reino Unido, da Argentina, da África do Sul, da Alemanha e dos Estados Unidos, foi publicado na revista Nature Communications.

Juan Carlos Cisneros, paleontólogo da Universidade Federal do Piauí (UFPI) que participou da descoberta, explica que, durante o período Permiano, a Terra ainda se recuperava de uma glaciação. “Neste período, os continentes estavam unidos formando a Pangeia e a América do Sul estava deslocada ao sul da linha do Equador. A América do Norte e a América do Sul estavam ligadas, porém, havia uma grande barreira de montanhas entre elas. O mar ocupava boa parte da Amazônia”, conta.

É até difícil para nós, leigos, imaginar como era o planeta naquela época – felizmente, descobertas como esta ajudam a desvendar a aparência e os habitantes da Terra no passado. “Esse tipo de achado é uma peça importante do enorme quebra-cabeça que é a evolução e diversificação da vida no passado longínquo do nosso planeta”, comemora Alexander Kellner, paleontólogo do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Somente os fósseis têm esse poder de descortinar mundos muito deferentes do atual”.
Uma das espécies recém-descritas, nomeada Timonya anneae e encontrada no Maranhão (seu nome homenageia a cidade de Timon, onde foi descoberta), era um pequeno anfíbio inteiramente aquático, com cerca de 40 centímetros de comprimento e membros curtos. “Timonya era uma excelente nadadora, seu corpo longo estava adaptado a uma natação serpenteante, no estilo das enguias”, conta Cisneros.
Anfíbio pré-histórico
Crânio e parte do esqueleto de um jovem ‘Timonya anneae’, anfíbio arcaico que habitou lagos tropicais do Nordeste durante o período Permiano. Este espécime foi encontrado em Timon (MA). (foto: Juan Cisneros)
A outra espécie, Procuhy nazariensis, descoberta no Piauí, era mais robusta que seu par maranhense: media cerca de 80 centímetros de comprimento e era um predador, alimentando-se de pequenos peixes e anfíbios, incluindo, provavelmente, a Timonya. “O nome Procuhy está em língua timbira – um idioma antigamente falado no Piauí, no Maranhão e em Tocantins – e significa ‘sapo de fogo’, uma referência à formação geológica Pedra de Fogo, onde foi encontrado”, relata o paleontólogo da UFPI. “Contudo, Procuhy não era um sapo, e sim um anfíbio arcaico, muito diferente dos anfíbios modernos”.

Para contar a história das Américas

Como a vida se espalhou pelo hemisfério Sul após o degelo? Como as espécies brasileiras se assemelham ou se diferenciam das demais? Os novos fósseis podem ajudar a responder essas e outras questões. Segundo Cisneros, as espécies encontradas aqui são parentes de espécies que habitaram o sul dos Estados Unidos no mesmo período, porém com algumas diferenças ósseas, provavelmente ocasionadas pelo clima e geografia distintos.

“A descoberta complementa em grande medida o nosso panorama sobre o passado remoto do Brasil e do planeta. Agora, sabemos que, no início do período Permiano, quando condições climáticas adversas imperavam no sul da América do Sul e da Pangeia – pois o planeta se recuperava de uma longa glaciação –, no norte da América do Sul, onde as condições eram mais amenas, a vida estava florescendo terra adentro”, disse Cisneros à CH Online.
Em busca de fósseis
Paleontólogo caminha em pedreira no município de Nazária (PI), onde uma das espécies foi encontrada. (foto: Kenneth Angielczyk).
A também paleontóloga Taissa Rodrigues Marques da Silva, da Universidade Federal do Espírito Santo, comentou com nossa equipe de reportagem que as descobertas lançam luz sobre um dos períodos pouco conhecidos da pré-história brasileira. "Conhecer a biodiversidade do Permiano nos permite ter uma ideia não apenas da diversidade brasileira de animais e plantas, mas de grupos inteiros que foram totalmente extintos, de grupos sobreviventes a esta grande extinção, e de como esses seres vivos se espalharam pelo mundo", celebra. "Em uma visão mais ampla, o trabalho não trata apenas de descrições novas, mas, junto com outras descobertas, tem a capacidade de colocá-las em um contexto maior, que é a descrição de todo um ecossistema que existia no passado".

Kellner aponta, ainda, que este é mais um dos motivos que justificam a alocação de recursos brasileiros na paleontologia. “Investir na coleta de fósseis fará com que as contribuições brasileiras tenham maior destaque no cenário mundial, internacionalizando a pesquisa realizada no nosso país”, aposta.


Everton Lopes
Instituto Ciência Hoje/ RJ

Pré-história em HD

Pesquisa pioneira adota microscópio eletrônico de varredura na análise de fósseis. A nova técnica revelou detalhes da anatomia de um pequeno camarão pré-histórico e ajuda a desvendar o paleoambiente de um patrimônio geológico brasileiro: a bacia do Araripe. 
 
Por: Iara Pinheiro
Publicado em 10/11/2015 | Atualizado em 10/11/2015
Pré-história em HD
Localizada no sertão nordestino, a bacia do Araripe é famosa pela enorme quantidade de fósseis que já foram descobertos ali, incluindo dinossauros, pterossauros e plantas, além de centenas de organismos menores. (foto: Geopark Araripe/Divulgação) 
 
A cada melhoria nas técnicas para observar fósseis, é possível redescobrir o passado com maior riqueza de detalhes: que espécies viveram há milhões de anos, como era o ambiente que as cercava... Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e pela Universidade Federal do Cariri usou um novo método de microscopia eletrônica para analisar fósseis brasileiros. Os resultados revelaram informações inéditas sobre o paleoambiente da região do Araripe, além de indicar características morfológicas de um camarão pré-histórico.

Dois anos atrás, microscópios eletrônicos de varredura foram instalados no campus da UFC. Capazes de gerar imagens com resolução 500 vezes maior que os microscópios ópticos, esses aparelhos são usados para analisar estruturas pequeníssimas, da ordem dos nanômetros, com a ajuda de um pequeno e preciso feixe de elétrons que incide sobre os objetos a observar. Com isso, é possível obter imagens, por exemplo, de grãos de pólen, células, bactérias – em resumo, desvendar o mundo do muito pequeno.

Com a chegada dos novos microscópios, o químico Amauri J. Paula, que ministrava oficinas para o manuseio dos aparelhos, foi solicitado para usar a técnica na análise de fósseis da região da Bacia Sedimentar do Araripe. O trabalho era um desafio: por um lado, o estado de conservação do material pedia uma análise cuidadosa com imagens de alta resolução; por outro, o microscópio, utilizado para ampliar imagens de áreas pequenas, não comportaria o tamanho dos fósseis. A solução foi captar as imagens aos poucos, cobrindo pedaços pequenos das rochas a cada vez, e depois montar, como num quebra-cabeças de milhares de peças. Como resultado, os cientistas obtiveram mosaicos de imagens com altíssima resolução. O trabalho foi publicado na revista Analytical Chemistry.
Fóssil de camarão
Fóssil de camarão encontrado na Bacia do Araripe, no Ceará. O fóssil tem menos de três centímetros de comprimento.(foto: Amauri J. Paula)

O mar que virou sertão

O primeiro fóssil analisado por Paula foi um camarão com 2,5 centímetros de comprimento. As imagens de alta resolução geradas pela microscopia eletrônica de varredura permitiram analisar em detalhes estruturas pequeníssimas, como antenas, pleiópodos e pereiópodos (como são chamadas as estruturas semelhantes a patas na parte inferior do corpo do animal).

Além de revelar detalhes da anatomia do animal fossilizado, a microscopia eletrônica de varredura trouxe novas informações sobre o ambiente em que ele viveu: a técnica é capaz de avaliar as condições físicas e geográficas da localização do fóssil a partir da definição dos elementos químicos presentes na composição da rocha.

O conjunto dessas informações, que os cientistas chamam de mapa elementar, é produzido a partir da interação entre o feixe de elétrons emitido pelo microscópio e a amostra. O choque dos elétrons carrega a área atingida de energia, e esta emite raios x em resposta ao impacto. Como a emissão varia de acordo com os elementos químicos presentes na amostra, analisando-a, podemos descobrir a composição da rocha.
Microscopia eletrônica e fósseis
Imagem gerada a partir da microscopia eletrônica de varredura. Ela apresenta mais contraste e definição, o que permite visualizar pequenas estruturas impossíveis de observar no microscópio óptico. (foto: Amauri J. Paula)
A presença de sulfeto de zinco no fóssil surpreendeu os cientistas. Essa substância é rara em processos de fossilização – geralmente, os animais se fossilizam, ou seja, têm suas partes do corpo substituídas por minerais, por meio da formação de fosfato de cálcio, sulfeto de ferro, sílica e outros. O sulfeto de zinco é formado apenas sob condições muito especiais, como fendas hidrotermais milhares de metros abaixo do nível do mar, e, embora já tenha sido detectado em fósseis encontrados na Noruega e nas ilhas Galápagos, por exemplo, nunca havia sido identificado na região.
Tal descoberta levanta duas hipóteses. A primeira é de que o mar que existiu na região e virou lago há mais de 120 milhões de anos teria, além de ácidos inorgânicos a base de enxofre (como ácido sulfídrico), alto teor de zinco na sua composição. Outra possibilidade é de que o camarão fossilizado tenha ingerido e acumulado zinco ao longo da vida, sob condições ainda não completamente compreendidas. Paula considera que a descoberta encoraja mais estudos sobre os processos geológicos e geofísicos do Araripe, utilizando técnicas modernas de microscopia e espectroscopia.

Próximos passos

A pesquisa continua em andamento com outros fósseis. A metodologia é minuciosa e trabalhosa, o que acaba ditando o ritmo de trabalho. Na análise do camarão, foram necessários cerca de 3.600 registros para montar o mosaico de imagens. Segundo Paula, a técnica se mostrou fantástica por ampliar as fronteiras de análise, mas ainda não é executável em fósseis maiores que 10 centímetros. Outra dificuldade está no trabalho com imagens e na necessidade de adotar equipamentos e computadores específicos. Nada, porém, que diminua a empolgação do pesquisador com a empreitada. “Agora que foi mostrada a potencialidade da técnica, queremos explorar mais”, afirma.

Segundo o paleontólogo do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro Alexander Kellner, essas técnicas devem se tornar progressivamente mais acessíveis, ainda que custosas, e proporcionar novas perspectivas para o trabalho de campo no país. “Acabou aquela noção do pesquisador que fica no escritório e tira poeira de fóssil”, garante Kellner, que também é colunista da CH On-line.
“Acabou aquela noção do pesquisador que fica no escritório e tira poeira de fóssil”
 
O método tradicional de análise de fósseis consiste na identificação do tipo de rocha do fóssil e no preparo de lâminas para tentar encontrar diferentes minerais que possam indicar hipóteses sobre o ambiente e o tipo de fossilização. Para Kellner, o uso do próprio fóssil para a obtenção desse tipo de informação, como feito na pesquisa da UFC, é um avanço importante: “Agora, o método precisa ser repetido com outros tipos de fósseis para verificar se há repetição ou variação ao longo da sequência”, pondera o paleontólogo.
Extrair e analisar a maior quantidade possível de fósseis é justamente um dos próximos passos do projeto, que prevê a instalação de microscópios e computadores na região do Araripe e medidas para impedir o extravio das rochas, prática relativamente comum devido à dificuldade de controle e abundância de fósseis na região.

Iara Pinheiro
Instituto Ciência Hoje / RJ