Mais um capítulo da pré-história brasileira: uma equipe internacional
de cientistas anuncia nesta quinta-feira (05/11) a importante
descoberta de fósseis de anfíbios que viveram no período Permiano –
aproximadamente 278 milhões de anos atrás. Anteriores aos dinossauros,
as duas espécies inéditas de anfíbios arcaicos carnívoros foram
descobertas na cidade de Timon, no Maranhão, e Nazária, no Piauí. O
estudo, assinado por cientistas do Brasil, do Reino Unido, da Argentina,
da África do Sul, da Alemanha e dos Estados Unidos,
foi publicado na revista Nature Communications.
Juan Carlos Cisneros, paleontólogo da Universidade Federal do Piauí
(UFPI) que participou da descoberta, explica que, durante o período
Permiano, a Terra ainda se recuperava de uma glaciação. “Neste período,
os continentes estavam unidos formando a Pangeia e a América do Sul
estava deslocada ao sul da linha do Equador. A América do Norte e a
América do Sul estavam ligadas, porém, havia uma grande barreira de
montanhas entre elas. O mar ocupava boa parte da Amazônia”, conta.
É até difícil para nós, leigos, imaginar como era o planeta naquela
época – felizmente, descobertas como esta ajudam a desvendar a aparência
e os habitantes da Terra no passado. “Esse tipo de achado é uma peça
importante do enorme quebra-cabeça que é a evolução e diversificação da
vida no passado longínquo do nosso planeta”, comemora Alexander Kellner,
paleontólogo do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de
Janeiro. “Somente os fósseis têm esse poder de descortinar mundos muito
deferentes do atual”.
Uma das espécies recém-descritas, nomeada
Timonya anneae e
encontrada no Maranhão (seu nome homenageia a cidade de Timon, onde foi
descoberta), era um pequeno anfíbio inteiramente aquático, com cerca de
40 centímetros de comprimento e membros curtos. “
Timonya era
uma excelente nadadora, seu corpo longo estava adaptado a uma natação
serpenteante, no estilo das enguias”, conta Cisneros.

- Crânio e parte do
esqueleto de um jovem ‘Timonya anneae’, anfíbio arcaico que habitou
lagos tropicais do Nordeste durante o período Permiano. Este espécime
foi encontrado em Timon (MA). (foto: Juan Cisneros)
A outra espécie,
Procuhy nazariensis, descoberta no Piauí,
era mais robusta que seu par maranhense: media cerca de 80 centímetros
de comprimento e era um predador, alimentando-se de pequenos peixes e
anfíbios, incluindo, provavelmente, a
Timonya. “O nome
Procuhy
está em língua timbira – um idioma antigamente falado no Piauí, no
Maranhão e em Tocantins – e significa ‘sapo de fogo’, uma referência à
formação geológica Pedra de Fogo, onde foi encontrado”, relata o
paleontólogo da UFPI. “Contudo,
Procuhy não era um sapo, e sim um anfíbio arcaico, muito diferente dos anfíbios modernos”.
Para contar a história das Américas
Como a vida se espalhou pelo hemisfério Sul após o degelo? Como as
espécies brasileiras se assemelham ou se diferenciam das demais? Os
novos fósseis podem ajudar a responder essas e outras questões. Segundo
Cisneros, as espécies encontradas aqui são parentes de espécies que
habitaram o sul dos Estados Unidos no mesmo período, porém com algumas
diferenças ósseas, provavelmente ocasionadas pelo clima e geografia
distintos.
“A descoberta complementa em grande medida o nosso panorama sobre o
passado remoto do Brasil e do planeta. Agora, sabemos que, no início do
período Permiano, quando condições climáticas adversas imperavam no sul
da América do Sul e da Pangeia – pois o planeta se recuperava de uma
longa glaciação –, no norte da América do Sul, onde as condições eram
mais amenas, a vida estava florescendo terra adentro”, disse Cisneros à
CH Online.

- Paleontólogo caminha em
pedreira no município de Nazária (PI), onde uma das espécies foi
encontrada. (foto: Kenneth Angielczyk).
A também paleontóloga Taissa Rodrigues Marques da Silva, da
Universidade Federal do Espírito Santo, comentou com nossa equipe de
reportagem que as descobertas lançam luz sobre um dos períodos pouco
conhecidos da pré-história brasileira. "Conhecer a biodiversidade do
Permiano nos permite ter uma ideia não apenas da diversidade brasileira
de animais e plantas, mas de grupos inteiros que foram totalmente
extintos, de grupos sobreviventes a esta grande extinção, e de como
esses seres vivos se espalharam pelo mundo", celebra. "Em uma visão mais
ampla, o trabalho não trata apenas de descrições novas, mas, junto com
outras descobertas, tem a capacidade de colocá-las em um contexto maior,
que é a descrição de todo um ecossistema que existia no passado".
Kellner aponta, ainda, que este é mais um dos motivos que justificam a
alocação de recursos brasileiros na paleontologia. “Investir na coleta
de fósseis fará com que as contribuições brasileiras tenham maior
destaque no cenário mundial, internacionalizando a pesquisa realizada no
nosso país”, aposta.
Everton LopesInstituto Ciência Hoje/ RJ