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domingo, 7 de fevereiro de 2016

Fósseis revelam anfíbios e répteis desconhecidos no Nordeste brasileiro

Descoberta indica que, há mais de 270 milhões de anos, porção norte do supercontinente Gondwana reunia condições favoráveis à vida 

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | Edição Online 18:02 5 de novembro de 2015
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© ANDREY ATUCHIN
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Reprodução artística baseada em fragmentos de fósseis de espécies de anfíbios e réptil encontrados na região Nordeste do Brasil.

Fragmentos de fósseis de duas novas espécies de anfíbios e uma de réptil encontrados na região da Bacia do Parnaíba, entre os estados do Piauí e Maranhão, estão ajudando a preencher uma lacuna no conhecimento sobre os animais que habitaram o Hemisfério Sul durante o período Permiano, entre 300 e 250 milhões de anos atrás, quando todos os continentes estavam agrupados em uma única massa terrestre, chamada Pangeia. Em um artigo publicado hoje, 5, na revista Nature Communications, um grupo internacional de pesquisadores, entre eles o paleontólogo salvadorenho Juan Carlos Cisneros, do Centro de Ciências da Natureza da Universidade Federal do Piauí (UFPI), descreve duas espécies de animais um tanto semelhantes às salamandras atuais.

As espécies de anfíbios Timonya anneae e Procuhy nazariensis, como foram batizadas, tinham hábitos essencialmente aquáticos e viveram há mais de 270 milhões de anos no que hoje abrange o leste do Maranhão e o estado do Piauí. Análises mais detalhadas dos fósseis indicam que T. anneae tinha presas e guelras e um aspecto que lembra uma mistura entre uma salamandra aquática e uma enguia. Procuhy nazariensis era um pouco maior. Foi encontrada no município de Nazária, próximo a Teresina, capital do Piauí. Seu nome, que na língua timbira — nativa do Maranhão, Piauí e Tocantins —, significa “sapo de fogo”, faz alusão à Formação Pedra de Fogo, subunidade da Bacia do Parnaíba, onde seus vestígios foram recuperados.
© JUAN CISNEROS
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Crânio e parte do esqueleto da Timonya anneae, espécie de hábitos essencialmente aquáticos e que viveu há mais de 270 milhões de anos

O estudo também descreve um anfíbio do tamanho de um pequeno jacaré — talvez uma nova espécie, ainda sem nome — e uma espécie de réptil, o Captorhinus aguti, de aspecto semelhante ao de uma lagartixa que até agora só tinha sido encontrada na América do Norte, especificamente nos estados do Texas e Oklahoma, nos Estados Unidos. O fato de essas espécies terem sido encontradas no Nordeste do país está ajudando os pesquisadores a ter um panorama mais abrangente sobre como estes animais se dispersaram durante o período Permiano e como eles colonizaram novas regiões da Pangeia e também de Gondwana, o supercontinente formado há cerca de 200 milhões de anos e que agrupava os continentes do Hemisfério Sul, América do Sul, África, Madagascar, Índia, Oceania e a Antártida
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De acordo com Juan Cisneros, a região da Bacia do Parnaíba já era conhecida dos paleontólogos pelos achados históricos de troncos petrificados. Muitos desses troncos afloram dentro da cidade de Teresina, onde há uma verdadeira floresta fóssil às margens do Rio Poti. “Não sabíamos nada sobre as espécies de animais que habitaram aquela região”, diz. “Nosso estudo ajuda a preencher uma lacuna de registro fóssil de fauna de vertebrados em Gondwana que não se tinha. Mostramos que o Norte da América do Sul reunia condições específicas que àquela época eram favoráveis ao desenvolvimento da vida pouco depois do período glacial que imperou durante o Período Carbonífero.

Artigo científico
 
CISNEROS, J. C. et al. New Permian fauna from tropical Gondwana. Nature Communications. nov. 2015.

Saiba mais:
– Primeiro herbívoro mastigador tinha dentes de sabre

– Sob as palmeiras

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Habitantes do Nordeste pré-histórico

Equipe internacional de cientistas anuncia duas novas espécies fósseis de anfíbios encontradas no Nordeste brasileiro. Datadas de cerca de 278 milhões de anos, elas ajudam a entender como a vida ressurgiu no hemisfério Sul após um período glacial. 
 
Por: Everton Lopes
Publicado em 05/11/2015 | Atualizado em 06/11/2015
Habitantes do Nordeste pré-histórico
Reconstrução artística de habitat lacustre tropical com 278 milhões de anos na região de Teresina, incluindo ‘Timonya anneae’ (à esquerda, em tom mais claro) e ‘Procuhy nazariensis’ (à direita). (ilustração: Andrey Atuchin) 
 
Mais um capítulo da pré-história brasileira: uma equipe internacional de cientistas anuncia nesta quinta-feira (05/11) a importante descoberta de fósseis de anfíbios que viveram no período Permiano – aproximadamente 278 milhões de anos atrás. Anteriores aos dinossauros, as duas espécies inéditas de anfíbios arcaicos carnívoros foram descobertas na cidade de Timon, no Maranhão, e Nazária, no Piauí. O estudo, assinado por cientistas do Brasil, do Reino Unido, da Argentina, da África do Sul, da Alemanha e dos Estados Unidos, foi publicado na revista Nature Communications.

Juan Carlos Cisneros, paleontólogo da Universidade Federal do Piauí (UFPI) que participou da descoberta, explica que, durante o período Permiano, a Terra ainda se recuperava de uma glaciação. “Neste período, os continentes estavam unidos formando a Pangeia e a América do Sul estava deslocada ao sul da linha do Equador. A América do Norte e a América do Sul estavam ligadas, porém, havia uma grande barreira de montanhas entre elas. O mar ocupava boa parte da Amazônia”, conta.

É até difícil para nós, leigos, imaginar como era o planeta naquela época – felizmente, descobertas como esta ajudam a desvendar a aparência e os habitantes da Terra no passado. “Esse tipo de achado é uma peça importante do enorme quebra-cabeça que é a evolução e diversificação da vida no passado longínquo do nosso planeta”, comemora Alexander Kellner, paleontólogo do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Somente os fósseis têm esse poder de descortinar mundos muito deferentes do atual”.
Uma das espécies recém-descritas, nomeada Timonya anneae e encontrada no Maranhão (seu nome homenageia a cidade de Timon, onde foi descoberta), era um pequeno anfíbio inteiramente aquático, com cerca de 40 centímetros de comprimento e membros curtos. “Timonya era uma excelente nadadora, seu corpo longo estava adaptado a uma natação serpenteante, no estilo das enguias”, conta Cisneros.
Anfíbio pré-histórico
Crânio e parte do esqueleto de um jovem ‘Timonya anneae’, anfíbio arcaico que habitou lagos tropicais do Nordeste durante o período Permiano. Este espécime foi encontrado em Timon (MA). (foto: Juan Cisneros)
A outra espécie, Procuhy nazariensis, descoberta no Piauí, era mais robusta que seu par maranhense: media cerca de 80 centímetros de comprimento e era um predador, alimentando-se de pequenos peixes e anfíbios, incluindo, provavelmente, a Timonya. “O nome Procuhy está em língua timbira – um idioma antigamente falado no Piauí, no Maranhão e em Tocantins – e significa ‘sapo de fogo’, uma referência à formação geológica Pedra de Fogo, onde foi encontrado”, relata o paleontólogo da UFPI. “Contudo, Procuhy não era um sapo, e sim um anfíbio arcaico, muito diferente dos anfíbios modernos”.

Para contar a história das Américas

Como a vida se espalhou pelo hemisfério Sul após o degelo? Como as espécies brasileiras se assemelham ou se diferenciam das demais? Os novos fósseis podem ajudar a responder essas e outras questões. Segundo Cisneros, as espécies encontradas aqui são parentes de espécies que habitaram o sul dos Estados Unidos no mesmo período, porém com algumas diferenças ósseas, provavelmente ocasionadas pelo clima e geografia distintos.

“A descoberta complementa em grande medida o nosso panorama sobre o passado remoto do Brasil e do planeta. Agora, sabemos que, no início do período Permiano, quando condições climáticas adversas imperavam no sul da América do Sul e da Pangeia – pois o planeta se recuperava de uma longa glaciação –, no norte da América do Sul, onde as condições eram mais amenas, a vida estava florescendo terra adentro”, disse Cisneros à CH Online.
Em busca de fósseis
Paleontólogo caminha em pedreira no município de Nazária (PI), onde uma das espécies foi encontrada. (foto: Kenneth Angielczyk).
A também paleontóloga Taissa Rodrigues Marques da Silva, da Universidade Federal do Espírito Santo, comentou com nossa equipe de reportagem que as descobertas lançam luz sobre um dos períodos pouco conhecidos da pré-história brasileira. "Conhecer a biodiversidade do Permiano nos permite ter uma ideia não apenas da diversidade brasileira de animais e plantas, mas de grupos inteiros que foram totalmente extintos, de grupos sobreviventes a esta grande extinção, e de como esses seres vivos se espalharam pelo mundo", celebra. "Em uma visão mais ampla, o trabalho não trata apenas de descrições novas, mas, junto com outras descobertas, tem a capacidade de colocá-las em um contexto maior, que é a descrição de todo um ecossistema que existia no passado".

Kellner aponta, ainda, que este é mais um dos motivos que justificam a alocação de recursos brasileiros na paleontologia. “Investir na coleta de fósseis fará com que as contribuições brasileiras tenham maior destaque no cenário mundial, internacionalizando a pesquisa realizada no nosso país”, aposta.


Everton Lopes
Instituto Ciência Hoje/ RJ