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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Por que o Crato preserva fósseis

Hipótese atribui à ação de bactérias a conservação de vestígios de plantas e de animais na bacia do Araripe
Camarão encontrado no Crato ilustra a riqueza de detalhes dos fósseis da região
Suzana Matos
No início de julho, um grupo de paleobotânicos anunciou a descoberta de um fóssil de uma nova espécie de lírio,  Cratolirion bognerianum, que viveu há 115 milhões de anos. A delicadeza da peça, com  raízes, pétalas e células individuais preservadas, impressionou os pesquisadores. O local onde a flor foi encontrada, porém, não causou surpresa: a formação Crato, na bacia do Araripe, no Ceará, unidade geológica que tem revelado dezenas de fósseis com tecidos moles muito bem preservados. “A maneira com que o lírio foi depositado, em um antigo lago, é bastante incomum para uma planta herbácea”, diz o francês Clemént Coiffard, do Museu de História Natural de Berlim, um dos autores do artigo com a descrição da flor, publicado na Nature Plants, ao lado de Mary Elizabeth Cerruti Bernardes-de-Oliveira, da Universidade de São Paulo (USP). “Além da deposição ‘clássica’ com ramos, folhas de árvores e arbustos, muitas plantas ali são preservadas ainda com suas raízes presas, contendo argila.”

Não se sabe por que a formação Crato conserva  tanta riqueza paleontológica, mas pesquisadores brasileiros levantaram uma hipótese para explicar o fenômeno. Segundo um estudo publicado em julho na revista científica Palaios, esteiras de micróbios teriam contribuído para fossilizar uma vasta gama de organismos. A ação dos microrganismos teria sido fundamental para fixar e proteger a integridade de resquícios de plantas e de animais no fundo desse paleolago.

Entre as criaturas que já emergiram do Crato estão uma serpente com vestígios de patas, pterossauros com cristas preservadas e aves com penas aparentes, além de insetos, crustáceos, peixes e plantas. O local é uma das poucas janelas do planeta para os paleontólogos estudarem a biodiversidade tropical do período Cretáceo Inferior, entre 146 milhões e 100 milhões de anos atrás.

“Vários eventos precisam ocorrer para que um organismo seja preservado”, afirma o geólogo Lucas Warren, do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista (IGCE-Unesp) e coautor do estudo. “É um processo complexo, para o qual formulamos uma hipótese mais simples e parcimoniosa.” Em busca de pistas sobre esse processo, quatro anos atrás Warren e o aluno de doutorado Filipe Varejão começaram a estudar coleções de fósseis e amostras geológicas da região, e em viagens investigaram diversos pontos do chamado lagerstätte, a formação calcária de onde a maioria dos fósseis da região emerge.
No período em que os sedimentos estavam formando esse tipo de rocha, o Brasil ainda não tinha se separado completamente da África. A atual região do Atlântico Sul estava começando a ser inundada, e o lagerstätte do Crato estava, portanto, conectado à região marinha na qual estavam se formando os depósitos do pré-sal, a formação geológica submersa onde o Brasil passou recentemente a explorar reservas de petróleo.

Segundo a hipótese mais genérica para a formação desses sedimentos, sua origem teria se dado exclusivamente por processos químicos, na interação das rochas com a água e a atmosfera. Uma limitação dessa ideia é que outros estratos geológicos similares não apresentam o mesmo grau de riqueza paleontológica. Em 2016, Warren e Varejão fizeram uma descoberta interessante no local que adicionou um novo elemento ao cenário: antigas estruturas formadas por colônias de cianobactérias, microrganismos que fazem fotossíntese.

Preservadas em estruturas macroscópicas chamadas estromatólitos, essas colônias são capazes de alterar significativamente o ambiente em que vivem. “Chegamos à conclusão de que a região do Crato era, de fato, um ambiente lacustre: um lago na beira do mar, mais ou menos parecido com o que tem hoje em Shark Bay, no sul da Austrália, onde é possível ver estromatólitos expostos”, explica Warren. Além dos remanescentes de estromatólitos, os cientistas encontraram na região fósseis de crustáceos com vestígios de EPS (substância polimérica extracelular). “Esse composto é um polímero natural gosmento secretado pelos microrganismos e que pode se preservar e fossilizar”, diz o pesquisador.

A presença das cianobactérias era indicativa de dois fatores importantes para a preservação de fósseis, de acordo com o estudo. Primeiramente, um meio com esses microrganismos representa um ambiente estéril para outras formas de vida, como animais, que poderiam consumir esses microrganismos se alimentando do EPS. Em segundo lugar, a esteira de cianobactérias e de outros micróbios que se acumula no fundo de um lago funciona como uma âncora dos vestígios de plantas e animais, impedindo-os de serem desmembrados pela correnteza. Em poucas semanas, o tapete de bactérias recobre os restos dos seres vivos. “Os vestígios ficam encapsulados, mais ou menos como num sarcófago”, diz Warren.
Cratolirion bognerianum, um lírio fossilizado de 115 milhões de anosMuseu de História Natural de Berlim

A estabilidade mecânica proporcionada pela esteira microbiana permite que ocorram os processos de mineralização que solidificam o fóssil. No caso do Crato, existem três processos distintos: a piritização, substituição dos tecidos por sulfeto de ferro; a querogenização, em que a matéria orgânica se transforma em matéria inorgânica e insolúvel; e a fosfatização, na qual os fosfatos tomam o lugar das fibras de seres mortos. A esteira microbiana se divide em camadas. As cianobactérias ocupam o estrato mais acima. Nas camadas inferiores, estão presentes bactérias quimioautotróficas, que produzem energia a partir de compostos inorgânicos sem a necessidade de haver luz. Dependendo do nível em que um organismo morreu e se ancorou, ocorre um processo final de fossilização diferente.
Como a formação Crato exibe fósseis excepcionalmente preservados formados pelos três processos, era difícil construir uma explicação única que agrupasse todos eles. O modelo da esteira microbiana proposto por Varejão, Warren e demais coautores, incluindo Mario Assine, líder do grupo na Unesp, tenta resolver essa equação sem a necessidade de postular processos químicos e geológicos mais tortuosos.

A fixação mecânica gerada pelo tapete de microrganismos ajudaria a explicar a ocorrência de exemplares de fósseis bem preservados na formação Crato, como o lírio de 115 milhões de anos. Essa espécie, aliás, cobre uma lacuna importante da história evolutiva das plantas monocotiledôneas, cujas sementes têm um reservatório de energia (cotilédone), e mostra que elas provavelmente se espalharam para o planeta a partir de regiões tropicais.

Entender a origem da formação Crato também auxilia os geólogos a buscar outros sítios que tenham rochas semelhantes e possam igualmente abrigar fósseis bem conservados. Esse tipo de trabalho não deve ser postergado. Áreas ricas em fósseis quase sempre estão sujeitas a pressões externas. No Crato, por exemplo, os pesquisadores dizem que a região já dá sinais de esgotamento. “Os mineradores comentam que agora encontram menos fósseis do que no passado”, conta Varejão. “Eles dizem que guardam as peças mais bonitas, mas muitas são jogadas fora. Nem sempre o fóssil mais bonito é o de maior valor científico.”

Projetos
 
1. Abordagem multi-indicadores do sistema misto carbonático-siliciclástico da formação Crato: Evolução sedimentar, paleogeografia e tectônica (nº 16/13214-7); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Lucas Warren (Unesp); Bolsista Filipe Varejão; Investimento R$ 132,667,08.

2. Contexto estratigráfico e paleoambiental das assembleias de macroinvertebrados da Formação Romualdo, Cretáceo da Bacia do Araripe, e suas implicações paleogeográficas (nº 17/20803-1); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Marcello Guimarães Simões (Unesp); Bolsista Suzana Aparecida Matos da Silva; Investimento R$ 202.219, 29. 

Artigos científicos
 
VAREJÃO, F. G. et al. Exceptional preservation of soft tissues by Microbial entombment: Insights into the taphonomy of the Crato Konservat-Lagerstatte. Palaios. v. 34, n. 7, p-331-48. jul. 2019
COIFFARD, C. et al. Fossil evidence of core monocots in the Early Cretaceous. Nature Plants. v. 5, p. 691-96. jul. 2019.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Brazil wins legal fight over 100-million-year-old fossil bounty

A French court has ordered the return of 45 dinosaur and animal fossils to Brazil, and will soon rule on the fate of a spectacular pterosaur skeleton.

illustration of Anhanguera santanae
The pterosaur Anhanguera santanae, a close relative of the dinosaurs, had a wingspan of almost 4 metres.Credit: Raul Ramos
A years-long court battle over a 100-million-year-old trove of fossil dinosaurs and other animals from Brazil’s Araripe Basin is coming to a close.

Forty-five fossils valued at €600,000 (roughly 2.5 million Brazilian reais, or US$680,000) will be repatriated after a high-court judge in Lyon, France, ruled on 13 May that the specimens had been removed illegally from Brazil. Later this month, the same court will decide the fate of a 46th fossil — the near-complete skeleton of a flying reptile called a pterosaur (Anhanguera santanae), whose wingspan measures almost 4 metres.

Palaeontologists in Brazil hailed the French court’s ruling as the most significant win yet in their country’s ongoing efforts to stamp out illegal fossil trading and reclaim cultural treasures.
The decision “is a victory for Brazilian science”, says Mírian Pacheco, a palaeobiologist at the Federal University of São Carlos. She says that studying the fossils should help researchers to better understand the biology of these ancient animals and their environment — including the factors that drove them to extinction.

The legal action is the culmination of an investigation that Brazilian and French authorities began five years ago, after the French firm Geofossiles listed the pterosaur for sale on the auction site eBay. “It is the first time that this amount of fossils will be repatriated to Brazil after the decision of a foreign court,” says Rafael Rayol, the government prosecutor who led Brazil’s investigation into the fossils.
A spokesperson for Geofossiles said that it had agreed to sell the pterosaur after Eldonia, a company in Gannat, France, that owned all 46 fossils, “guaranteed to us that the specimen was legal”. Geofossiles, which is not a party to the legal proceedings, would not have organized the auction if it had known that Brazilian law prohibited the fossil’s sale, the company's spokesperson said.

Lawyers for Eldonia told Nature that the company was not aware of the French court's ruling, and that “if such a decision was taken by the judge, we would fight against it and win”. They denied that Eldonia has done anything illegal and said that selling the fossils is legal under European law. The company's lawyers did not comment on whether Eldonia had made any assurances to Geofossiles.
The Araripe Basin in northeast Brazil, where the fossils originated, sits at the boundary of the states of Ceará, Piauí and Pernambuco. The region is famous among palaeontologists for its huge array of well-preserved prehistoric fossils. They include many from the Cretaceous period, 145 million to 66 million years ago, which ended with the disappearance of the dinosaurs.

Authorities in Brazil suspect that the fossils at the centre of the court case — all rare, well preserved and of high scientific value — were taken from the country in the 1980s and 1990s, but have not said who might have done so. “We are talking about remains of sea turtles, fish, reptiles, arachnids, insects and plants that are millions of years old,” says Taissa Rodrigues, the biologist at the Federal University of Espírito Santo in Vitória who tipped Brazilian authorities off about the fossils.

Going once, going twice…

In 2014, a group of palaeontologists on Facebook warned Rodrigues, who studies pterosaurs, that one of the biggest A. santanae fossils ever found in Brazil was being auctioned online. Geofossiles, a shop in Charleville-Mézières, France, was asking almost 1 million reais for the pterosaur.
Rodrigues was struck by the fact that the pterosaur skeleton was nearly complete, with its head, neck and wings intact. “Usually we find only isolated bones,” she says. But she was also surprised to see the specimen for sale, because all fossils in Brazil belong to the government, whether they are found on public or private land. “They are the state’s property by law and may not be taken out of the country or sold, even by Brazilian citizens,” Rodrigues says. The penalties for doing so without government permission include fines and imprisonment.

Rodrigues contacted the Brazilian Public Prosecutor’s Office, which launched an investigation into the fossil auction and requested legal help from French authorities. They soon found the fossils’ owner, Eldonia, which operates a fossil restoration and reproduction facility.
Rayol says that the 45 fossils affected by the French court ruling will be returned to Brazil this year. Brazilian authorities have already requested permission to inspect the fossils in France as they develop a plan for shipping them to a museum run by the Regional University of Cariri, in Ceará, Brazil, he says. Rayol expects the French court to order the return of the 46th fossil, the pterosaur, to Brazil at the conclusion of the forthcoming trial.

The outcome of the French fossil case will help Brazilian authorities to establish protocols for repatriating fossils in the future, says André Strauss, an archaeologist at the University of São Paulo’s Museum of Archaeology and Ethnology. “It also has an institutional value,” he says, by reinforcing Brazilian law and making it “clear that the country will no longer tolerate this sort of colonialist practice” of exporting fossils without permission.

In the meantime, Pacheco is working to educate her fellow Brazilians about fossil trafficking. “In Angatuba, in São Paulo’s countryside, where I have been working for quite some time, people used to sell fossils as souvenirs or keep them in their properties, without knowing this is a crime,” she says. “Aiming to change such behaviour, I have been promoting heritage education activities among those living near palaeontological sites so they might monitor suspect activities.”
Nature 570, 147 (2019)
doi: 10.1038/d41586-019-01781-8

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Exposição na USP apresenta fósseis raros do Nordeste do Brasil

A partir desta sexta-feira, Instituto de Geociências mostra um dos mais valiosos acervos paleontológicos do País
Por - Editorias: Cultura
 
Dezembro de 2017.

Fóssil exposto na mostra que será aberta nesta sexta-feira, dia 15, no Instituto de Geociências da USP – Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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Ao entrar no Instituto de Geociências (IGc) da USP, uma trilha de pegadas de dinossauro guia os visitantes ao Museu de Geociências, onde parte de um riquíssimo tesouro brasileiro fica exposta a partir desta sexta-feira, 15 de dezembro. Trata-se da exposição Fósseis do Araripe, composta de cerca de 50 peças de um acervo de 3 mil fósseis oriundos da região da Bacia do Araripe, que se estende pelos Estados do Piauí, Pernambuco e principalmente Ceará. A coleção permite vislumbrar a biodiversidade que habitava a região no período Cretáceo (entre 145 e 65 milhões de anos atrás) e reúne exemplares raros, como o único pterossauro da espécie Tapejara navigans completo do mundo.
Fósseis que seriam vendidos como contrabando foram apreendidos pela Polícia Federal  e entregues à USP por determinação judicial – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Os fósseis chegaram à USP em 2014, após uma ação da Polícia Federal (PF) batizada de Operação Munique, que apreendeu três caminhões que contrabandeavam o material para a Alemanha, Estados Unidos, países asiáticos e outros da Europa. Um dos caminhões se encontrava no Ceará, e sua carga foi enviada à Universidade Regional do Cariri. O restante da coleção, cerca de 3 mil itens interceptados em caminhões em Minas Gerais, no interior de São Paulo e na casa de um dos traficantes, em São Paulo, ficou sob custódia da PF na sede estadual. Posteriormente, a Justiça Federal determinou que a USP fosse a fiel depositária do acervo, com a responsabilidade de preservá-lo e colocar em prática o tripé da Universidade: pesquisa, ensino e extensão.

Fósseis habitavam a região Nordeste do Brasil entre 145 e 65 milhões de anos atrás – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Conforme conta a professora do IGc Juliana de Moraes Leme Basso, curadora da exposição, a PF encontrou o material em condições péssimas de armazenamento e conservação, e o enviou lacrado em caixas sem numeração para o instituto. Após um ano catalogando cada peça na coleção científica da USP, pela qual Juliana é responsável, foi possível abrir o acervo para pesquisa, e desde 2015, em virtude de sua abrangência, há pesquisadores de diversas áreas trabalhando com ele, de universidades como a Federal do ABC, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Federal de Pernambuco, além da própria USP.
A professora Juliana de Moraes Leme Basso, do Instituto de Geociências da USP, curadora da exposição – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
“Faltava apenas a questão da extensão, que se materializa agora com a exposição”, afirma a curadora. “Estamos inaugurando agora justamente para aproveitar o período de férias escolares, quando crianças e jovens poderão vir conhecer esse bem que nos foi entregue e que é um bem da União, de todos nós. Não fosse a ação da PF, hoje ele estaria fora do País, em museus do exterior ou, pior ainda, em coleções particulares. Isso seria terrível, porque privaria a sociedade do acesso e do estudo que pode ser feito sobre esse material tão rico, e que acabaria se tornando meramente um objeto decorativo único na sala de uma pessoa, para alimentar seu ego.” Fazendo referência ao trabalho da PF, há um mural na exposição com fotos do material apreendido e um texto que detalha as leis que enquadram o tráfico de fósseis como crime ambiental no País.

Tesouros à mostra

O ponto alto da exposição, segundo a professora, é o pterossauro Tapejara navigans. “Apesar de não ser uma espécie nova, é o único exemplar completo já encontrado no mundo. Isso permite que muitas dúvidas e detalhes sobre a morfologia do animal sejam respondidas, e não só questões da estrutura morfológica, que pode agora ser muito mais bem detalhada, mas também de paleoecologia. O modo de vida dessa espécie pode ter novas interpretações a partir de um fóssil bem preservado como esse, que tem até partes moles como a crista ainda intactas. Pode-se supor como ele vivia, do que se alimentava, qual era a sua relação com outras espécies de pterossauros”, explica.
A exposição Fósseis do Araripe, no Museu de Geociências do Instituto de Geociências da USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Outro destaque é o Susisuchus anatoceps, um animal da ordem dos crocodilianos, cujo esqueleto em exposição é a junção de duas partes de indivíduos diferentes da espécie, formando o corpo completo. Trata-se apenas do segundo exemplar no mundo com o crânio inteiramente preservado.
Também muito raro é o peixe Oshunia brevis, do qual, até a chegada do material da Bacia do Araripe, só havia um fóssil na coleção de mais de 7 mil peixes que o Instituto de Geociências possui, o que, segundo a professora, dá ideia da dificuldade para se encontrar vestígios do animal. “Essa raridade dá muito valor ao fóssil, tanto no quesito científico, porque é possível estudar muito mais a fundo um animal nesse nível de preservação, quando no aspecto monetário, para os traficantes. O pterossauro, por exemplo, foi estimado em cerca de US$ 1 milhão”, ressalta Juliana.
Fóssil de um escorpião – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
A professora afirma que as plantas fossilizadas à mostra também são especiais. “Todo esse material é do período Cretáceo, que foi quando surgiram as angiospermas, as plantas com flores, e temos aqui uma riqueza e diversidade muito grandes dessas plantas num período inicial da evolução delas. Para quem as estuda, é espetacular ter tamanha variedade tão bem preservada nesse estágio evolutivo.” Há ainda na exposição uma série de plantas aquáticas, samambaias, pinhas, insetos – como grilos, gafanhotos, baratas, cigarras, libélulas, moscas e  mosquitos – e aracnídeos, como aranhas e escorpiões.
 O peixe Oshunia brevis: raríssimo – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Devido a essa variedade, a curadora da exposição contou com uma grande equipe para ajudá-la na montagem. Enquanto ela assina os textos que explicam o que são e como surgem os fósseis, os murais que trazem informações sobre cada grupo de fóssil foram escritos pelos pesquisadores que atualmente trabalham com o material. Eles informam sobre a geologia da região, sua localização, quando os fósseis se formaram e características e curiosidades específicas que os tornam especiais ou interessantes.
Fóssil de uma libélula – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Os pesquisadores também auxiliaram Juliana a selecionar as peças que seriam expostas. “Às vezes um fóssil tem imenso valor científico por trazer uma estrutura nunca descrita, por exemplo, mas não tem apelo visual. Uma criança, digamos, não vai querer ler os textos do mural, ela quer ver um fóssil bonito, fascinante, e fazer suas perguntas. Tivemos, então, essa preocupação de trazer as informações científicas corretas e com boas fontes, mas também de escolher peças que sejam visualmente atrativas para o público leigo. A exposição é para todo o público, não só para os acadêmicos. Queremos aproveitar o caráter público da Universidade para mostrar essa riqueza que o Brasil possui, e que muitos desconhecem, para a maior variedade de pessoas possível”, afirma a curadora.

Riquezas de outra era

Quem visita hoje a região da Bacia do Araripe jamais poderia imaginar a riqueza que já existiu ali – atualmente fossilizada sob a terra – entre 145 e 65 milhões de anos atrás, no período Cretáceo, último da Era Mesozoica. O que é hoje em dia parte do sertão nordestino, uma região de caatinga, já foi coberto de lagos e até pelo oceano, quando se deu a separação entre o continente africano e a América do Sul. Essas características, dentre outras, explicam por que se encontram tantos fósseis em elevado estado de preservação no local, de acordo com Juliana.
Fósseis de insetos também integram a exposição – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
“Por ter sido uma região lacustre (de lagos), a Bacia do Araripe era muito rica em vida, tanto de plantas e animais aquáticos como crocodiliformes, peixes e tartarugas, quanto de vegetação terrestre e seres alados, como os pterossauros. Provavelmente o clima era favorável também para essa abundância de seres vivos, o que atraía predadores grandes. Quando esses seres morriam, seus restos eram sedimentados no solo calcário do local, que é uma rocha que preserva muito bem os sedimentos. E o fato de tratar-se de um lago, com águas calmas, e não uma região marinha de água rasa, na qual ondas quebram e podem danificar os ossos, o ambiente era excelente para a preservação, assim como ocorreu depois que foi coberto pelo oceano.”
Fóssil de uma cigarra – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Para ajudar a visualizar essa Bacia do Araripe tão diferente da atual, será exposto um mural com desenhos de como era esse ambiente quando os fósseis à mostra ainda eram vivos, e será exibido também um vídeo produzido por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) sobre a região. Outras atrações previstas para a exposição são uma mesa interativa, na qual fósseis reais serão cobertos de areia para que as crianças possam encontrá-los, e mesas com desenhos dos fósseis para serem pintados.

Fóssil de uma barata – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
“Temos em alguns lugares do mundo, como o Canadá, a Alemanha e a China, regiões tidas como excelentes para a preservação. E temos isso no Brasil também, é disso que se trata a Bacia do Araripe, e é por isso que ela é tão visada: é um local cujo ambiente tinha as características ideais para a preservação de qualidade impressionante dos seres que viviam ali, e aqui temos uma mostra dessa qualidade e dessa diversidade”, conclui Juliana.

O pterossauro Tapejara navigans: o único exemplar completo já encontrado no mundo – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
A exposição Fósseis do Araripe abre na sexta-feira, 15 de dezembro, às 9 horas, e permanece no Museu de Geociências do Instituto de Geociências (IGc) da USP por um ano. As visitas podem ser feitas de segunda a sexta-feira, das 9 às 17 horas, com entrada gratuita. A exposição foi viabilizada por meio de um edital da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP. O endereço do IGc é Rua do Lago, 562, na Cidade Universitária, em São Paulo.

Veja abaixo uma parte do documentário Tesouros do Araripe, produzido por pesquisadores da UFPE e que será exibido na exposição, que mostra como era a região da Bacia do Araripe no período Cretáceo. As outras partes do documentário também estão disponíveis no Youtube.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Bactérias que preservam fósseis

Ação de microrganismos pode favorecer a conservação de fragmentos de tecidos moles, como olhos, veias e coração
RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 255 | MAIO 2017

Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: Gabriel Osés
00:00 / 09:59
A bacia do Araripe, na divisa dos estados do Ceará, Piauí e Pernambuco, é uma das raras regiões no mundo a abrigar uma grande variedade de fósseis de animais pré-históricos com tecidos moles bem preservados.

Em geral, essas estruturas — olhos, tecidos conjuntivos e fragmentos de fibras de coração — são as primeiras a se decompor e dificilmente se fossilizam. Nas raras vezes em que são preservadas, permitem o desenvolvimento de estudos acerca da biologia e da evolução de espécies extintas há milhões de anos. Sabe-se há algum tempo que a preservação dessas estruturas se dá em razão da ocorrência de processos geoquímicos específicos, como a substituição do material orgânico pela pirita, mineral composto basicamente por ferro e enxofre, ou pelo querogênio, a parte insolúvel da matéria orgânica que fica retida em rochas sedimentares. 

Em um estudo publicado em maio na revista Scientific Reports, pesquisadores analisaram esses processos em nível microscópico e sugeriram que eles seriam condicionados pelo mecanismo de respiração de bactérias decompositoras.

No trabalho, a equipe da paleontóloga Mírian Pacheco, do Departamento de Biologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus de Sorocaba, e do geólogo Setembrino Petri, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGc-USP), examinou exemplares fósseis de uma espécie de peixe primitivo chamado Dastilbe crandalli, que viveu na região há cerca de 113 milhões de anos.

Os fósseis, abundantes no Araripe, foram encontrados em dois tipos de calcário, rochas sedimentares ricas em carbonato de cálcio: um da cor cinza, com mais matéria orgânica, e outro bege, com menos abundância desse conjunto de compostos químicos. As primeiras amostras estavam envoltas por um material fibroso acinzentado. Já os exemplares encontrados em calcário bege tinham uma coloração alaranjada, semelhante a um favo de mel, com um revestimento difuso de cristais microscópicos.

Os pesquisadores verificaram que as estruturas moles dos fósseis bege haviam sido preservadas por meio do processo de piritização. “Isso significa que os elementos que constituem esses fósseis foram substituídos por pirita”, explica Mírian. Segundo a paleontóloga, essa é a primeira vez que se observa um caso de piritização em um fóssil de vertebrado. Os poucos registros conhecidos são de insetos ou invertebrados diversos. Por sua vez, os tecidos moles dos espécimes do calcário cinza foram fossilizados por meio da formação de querogênio. Nesse processo, o carbono orgânico assume uma forma mais estável, capaz de perdurar por milhões de anos. Enquanto a piritização ajudou a preservar tendões, membranas e núcleos celulares e tecido dos olhos, a querogenização conservou, sobretudo, tecidos conjuntivos, tegumento e fibras musculares.
© OSÉS, G. L. ET AL / SCIENTIFIC REPORTS
Dois processos geoquímicos conservam estruturas delicadas de vertebrados: a querogenização e a piritização (foto)

Em ambos os casos, no entanto, esses processos geoquímicos teriam sido condicionados pela ação de bactérias decompositoras. Por meio do processo de respiração anaeróbia — sem oxigênio —, os microrganismos teriam auxiliado na substituição da matéria orgânica em decomposição pela pirita ou pelo querogênio, dependendo do tipo de calcário em que os fósseis se preservaram. À medida que esses processos avançaram, os elementos que compunham as estruturas orgânicas desses animais foram sendo lentamente destruídos e substituídos por pirita ou querogênio. Ao mesmo tempo, deixaram marcas nas rochas que os envolviam.

Como na China
 
A hipótese baseia-se essencialmente em análises de microscopia eletrônica. Ao examinar os fósseis piritizados, os pesquisadores identificaram resquícios da atividade desses microrganismos. “Encontramos estruturas lisas e flexíveis, semelhantes a uma teia de aranha, resultantes da metabolização da pirita pelas bactérias”, esclarece Mírian. Isso explicaria por que cada processo geoquímico preservaria de forma distinta essas estruturas moles. Apesar de ambos conservarem essas estruturas de modo único, os fragmentos fósseis dos tecidos moles encontrados em sedimentos bege, de tamanho microscópico, são ainda mais bem preservados do que os depositados em calcários cinza”, explica o geólogo Gabriel Osés, primeiro autor do estudo e orientando de Setembrino Petri à época em que desenvolvia parte da pesquisa, no mestrado.

“O estudo é importante porque amplia a área de ocorrência desses processos para outros depósitos geológicos e elucida quais foram as condições geoquímicas que permitiram a preservação de tecidos moles em fósseis da bacia do Araripe”, afirma o paleontólogo Marcello Guimarães Simões, do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Botucatu, que não participou do estudo. Segundo ele, antes, pensava-se que esses processos só ocorriam em estruturas moles de fósseis de regiões específicas, como os da Formação Gaojiashan, na China, e de períodos geológicos anteriores ao Cretáceo, que durou de 145 a 66 milhões de anos atrás. “Agora sabemos que esses processos geoquímicos podem ser observados também em fósseis de eras geológicas mais recentes e, possivelmente, em outros depósitos geológicos do mundo.”

Projeto
 
Aplicações de espectroscopia Raman em paleobiologia e astrobiologia (nº 12/18936-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Setembrino Petri (USP); Investimento R$ 584.668,54.

Fóssil de cogumelo mais antigo do mundo é achado no Brasil

Fungo de 115 milhões de anos encontrado em sítio paleontológico no Nordeste pode ajudar no estudo da transição das plantas da água para terra
RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | Edição Online 17:58 3 de julho de 2017

© HEADS, SAM W. ET AL. / PLOS ONE
Fóssil de cogumelo mais antigo do mundo, o primeiro do período Cretáceo, com 115 milhões de anos

O fóssil de um pequeno cogumelo foi capaz de resistir à ação de milhões de anos até ser encontrado por pesquisadores norte-americanos na bacia do Araripe, depósito de rochas formadas por sedimentos localizado na divisa dos estados do Ceará, Piauí e Pernambuco. A descoberta se deu ao acaso, enquanto o paleontólogo Sam Heads, do Instituto de Pesquisa em História Natural da Universidade de Illinois, Estados Unidos, digitalizava uma coleção de fósseis encontrados nessa região do Brasil, conhecida por ser uma das poucas no mundo a abrigar uma grande variedade de fósseis muito bem preservados de organismos pré-históricos. Até onde se sabe, esse é o fóssil de cogumelo mais antigo do mundo, o primeiro do período Cretáceo, com 115 milhões de anos. Antes dele, o mais antigo havia sido encontrado em âmbar —resina fossilizada de árvores— no Sudeste asiático, datado de cerca de 99 milhões.

Para a paleontóloga Mírian Pacheco, do Departamento de Biologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), campus de Sorocaba, que não participou da pesquisa, é surpreendente um cogumelo conseguir resistir à ação do tempo dessa maneira. “Esses fungos são formas de vida efêmeras e de baixo potencial de fossilização, preservando-se apenas em condições excepcionais, como as verificadas na bacia do Araripe”, diz ela (ver Pesquisa FAPESP nº 255). “Trata-se de um achado raro e muito importante para a reconstituição paleoambiental.” O fungo foi batizado de Gondwanagaricites magnificus pelos pesquisadores norte-americanos, que estimam que o cogumelo tenha habitado o Nordeste brasileiro no contexto do Gondwana, o supercontinente formado há cerca de 200 milhões de anos e que agrupava América do Sul, África, Madagascar, Índia, Oceania e a Antártida. O fungo tem cerca de 5 centímetros de altura e cor marrom alaranjada.


A hipótese da equipe de Sam Heads é que o cogumelo deve ter caído em um rio e sido levado a uma lagoa salina, onde foi envolto por camadas estratificadas de água salgada até ser coberto por sedimentos finos. Com o tempo, o organismo foi mineralizado, e seus tecidos aos poucos substituídos por pirita, mineral composto basicamente por ferro e enxofre, conforme descreveram em um artigo publicado na revista PLOS ONE no dia 7 de junho. No entanto, análises mais rigorosas da composição química e mineral do fóssil ainda são necessárias para validar essa hipótese. Seja como for, destaca o geólogo Gabriel Osés, do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais da UFSCar, campus São Carlos, o achado amplia as perspectivas de pesquisas sobre a forma como esses fósseis se preservam. “O estudo contribui para calibrar a evolução das relações de parentescos ente os fungos ao longo do tempo geológico”, afirma.

Os fungos estão entre os organismos mais diversos deste planeta e apresentam um papel chave na biosfera e, consequentemente, fazem parte dos processos que explicam as origens da diversificação biológica entre organismos macroscópicos. Eles são capazes de decompor a matéria orgânica, participando ativamente na ciclagem de nutrientes, crucial na estrutura dos ecossistemas. As evidências científicas coletadas e analisadas até agora sugerem que, ecologicamente, os fungos tenham tido um papel muito importante no estabelecimento e na diversificação das plantas em ambientes terrestres. Desse modo, é possível que o fóssil apresentado no estudo na PLOS ONE ajude a explicar como se deu a transição das plantas do ambiente aquático para o terrestre, ainda que esses organismos pertençam a reinos distintos.

Artigo científico 
 
HEADS, Sam W. et al. The oldest fossil mushroom. PLOS ONE. 7 jun. 2017.

domingo, 30 de outubro de 2016

A conturbada formação de um oceano

Pesquisadores divergem sobre como o mar invadiu há 115 milhões de anos o que hoje é o interior do Nordeste e uniu o Atlântico Norte ao Atlântico Sul
IGOR ZOLNERKEVIC | ED. 248 | OUTUBRO 2016
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© MARIO ASSINE/UNESP
Serra do Tonã, na Bahia: vestígios de invasões marinhas
Serra do Tonã, na Bahia: vestígios de invasões marinhas
O geólogo Mario Assine vê as camadas de rochas sedimentares que afloram na chapada do Araripe, na divisa do Ceará com Pernambuco, como as páginas de um livro que registra parte da história do planeta. 

 “As rochas mais profundas e antigas são as primeiras páginas, preservadas sob camadas de rochas mais jovens, que contam o que ocorreu depois”, explica o pesquisador, que estuda a região há 30 anos e é professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro. Assine considera as camadas de rochas com fósseis marinhos do Araripe a melhor pista geológica do que ocorreu entre 125 milhões e 100 milhões de anos atrás na região que hoje é o Nordeste brasileiro. “Suas rochas guardam marcas de eventos importantes que ajudam a entender como a América do Sul e a África terminaram de se separar e permitiram que o oceano Atlântico Norte se conectasse ao Atlântico Sul”, conclui.

Naquela época, a distribuição dos continentes era bem diferente da atual. No início do Aptiano, que durou de 125 milhões a 113 milhões de anos atrás, os imensos blocos rochosos que hoje formam a América do Sul e a África estavam soldados no supercontinente Gondwana, do qual já haviam feito parte a Antártida, a Austrália e Madagascar (ver mapa). Depois de muito tempo unidos, eles começaram a sofrer rupturas causadas por forças do interior do planeta e a se afastar. Aos poucos, as águas de oceanos primitivos ocuparam o espaço entre os continentes e contribuíram para o nascimento dos oceanos atuais.


À medida que América do Sul e África se afastavam, em um processo de separação que começou na porção austral, desenhava-se o futuro Atlântico Sul. Enquanto isso, próximo ao equador terrestre, ao norte de Gondwana, o proto Atlântico Norte recebia as águas de um oceano chamado Tethys e ganhava corpo com o distanciamento entre a América do Norte, a Europa e a porção setentrional da África. Passaram-se milhões de anos até que o afastamento se completasse e existisse um oceano Atlântico único, pois o que hoje é o Nordeste brasileiro permanecia conectado à África.

As rochas do Araripe contam parte da história do surgimento do Atlântico, mas não mostram todos os detalhes. Faltam informações para responder a questões fundamentais. Uma delas é definir os caminhos da entrada das águas marinhas naquela região do planeta, conectando o Atlântico Norte ao Sul, por volta de 115 milhões de anos atrás. Por ora, os fósseis marinhos encontrados no Araripe sugerem apenas que a origem dessas águas é o Atlântico Norte.

Em busca de mais informações sobre o que teria ocorrido nesse período, Assine e seus colaboradores estenderam a busca por vestígios dessas invasões para os afloramentos rochosos da serra do Tonã, na Bahia, a 200 quilômetros a sudeste do Araripe. Os resultados dessa busca compõem a dissertação de mestrado do geólogo Filipe Varejão, feito sob a orientação de Assine, e foram publicados em julho na revista Cretaceous Research.
© MARIO ASSINE/UNESP
Equipe da Unesp analisa afloramento de calcário no topo da serra do Tonã: rochas formadas entre 125 milhões e 113 milhões de anos atrás
Equipe da Unesp analisa afloramento de calcário no topo da serra do Tonã: rochas formadas entre 125 milhões e 113 milhões de anos atrás

Nesse trabalho, Assine e seus colaboradores mostraram que os estratos rochosos daquela época preservados na serra do Tonã sugerem que as águas de Tethys teriam, primeiro, avançado para o sul por algum caminho desconhecido, a leste da costa brasileira. Ao alcançar a região onde hoje é o sul da Bahia, elas teriam sido desviadas para noroeste e invadido o interior do Nordeste.

Essa interpretação se baseia no registro geológico preservado nas bacias sedimentares, recuperado em marcas petrificadas que o fluxo dos rios então existentes deixou na região. Essa conclusão contradiz a reconstituição paleogeográfica (das paisagens antigas) proposta pelo geólogo especializado em paleontologia Mitsuru Arai a partir do estudo de fósseis marinhos encontrados no Nordeste. Arai e Assine concordam que as águas que ocuparam a região vieram do Atlântico Norte. Eles divergem, porém, quanto ao percurso que teriam feito no interior do antigo continente.

“A meu ver, a conclusão de que a invasão marinha do Nordeste teria ocorrido a partir de águas vindas do sul é um absurdo”, diz Arai, que trabalhou 37 anos na Petrobras e hoje é professor na Unesp em Rio Claro. O geólogo-paleontólogo apresentou o seu cenário paleogeográfico em 2014 no Brazilian Journal of Geology. “O mar veio do norte”, afirma.
O impasse já rendeu debates acalora-dos entre eles. Para ambos, é preciso fazer estudos mais aprofundados em afloramentos do Aptiano na bacia sedimentar do Parnaíba, para resolver de vez essa questão.

Conexão com o pré-sal
 
A pesquisa de Assine no Araripe e na serra do Tonã foi realizada com financiamento de projetos da FAPESP e da Petrobras. A indústria petrolífera se interessa em conhecer melhor as rochas do final do Aptiano no Nordeste porque elas têm a mesma idade, composição química e geológica das rochas que abrigam as reservas de petróleo do pré-sal nas bacias sedimentares de Santos e do Espírito Santo, na margem continental brasileira. “A formação das rochas dessa época no Nordeste e na margem continental guardam registros da mesma sequência de eventos”, explica Assine. “O Araripe e a serra do Tonã funcionam como modelos para entender a sucessão de rochas do pré-sal, a que temos acesso limitado.”

O geólogo Webster Mohriak, especialista em tectônica de sal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), conta que no Aptiano, entre 125 milhões e 113 milhões de anos atrás, o Atlântico Sul era um oceano aberto da Argentina até a atual bacia sedimentar de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Ali uma cadeia de montanhas vulcânicas chamada Elevação Rio Grande guardava a entrada de um estreito golfo marinho, que terminava ao norte onde hoje é o litoral de Sergipe e Alagoas (ver Pesquisa FAPESP nº 224). O golfo tinha contornos semelhantes ao do golfo do Mar Vermelho, que vem se abrindo entre a África e a península Arábica – em 2014 e 2015 Mohriak apresentou em conferências internacionais evidências de que o mecanismo de formação de ambos tenha sido idêntico.
© MARIO ASSINE/UNESP
Pedreira em Nova Olinda, na bacia do Araripe no Ceará: calcários laminados do Aptiano usados como pedra de revestimento
Pedreira em Nova Olinda, na bacia do Araripe no Ceará: calcários laminados do Aptiano usados como pedra de revestimento

No fim do Aptiano, o clima da Terra se tornou mais árido e o golfo marinho do interior de Gondwana, entre o que viria a ser a América do Sul e a África, pode ter secado totalmente. Com a evaporação da água, o sal precipitou e formou uma espessa camada que selou matéria orgânica nas camadas de sedimentos existentes logo abaixo, criando as reservas de petróleo do pré-sal.

Acima da camada de sal das bacias da costa brasileira, os geólogos encontraram camadas de calcário marinho, típico de águas salobras rasas, cobertas por camadas de sedimentos depositadas em um ambiente de mar profundo. Essa sucessão indica que, após secar, o golfo voltou a se encher, abrindo-se cada vez mais até a crosta continental entre Brasil e África rasgar-se completamente há 100 milhões de anos, no fim do Albiano.

Diferentes interpretações
 
Segundo Assine, as principais reconstituições de como eram os continentes no passado, como as feitas pelo geólogo Christopher Scotese, da Universidade do Texas em Arlington, nos Estados Unidos, indicam que as águas do Atlântico Norte e do Atlântico Sul só se encontraram depois que a América do Sul se separou de vez da África. “Essas reconstituições, no entanto, não levam em conta que o mar invadiu o interior de Gondwana no Aptiano, por volta de 115 milhões de anos atrás”, explica. “As camadas de folhelhos contendo fósseis marinhos que existem sobre os depósitos de sal e de calcários laminados da chapada do Araripe são evidências claras dessa invasão.”

Mais recentemente, Assine reuniu indícios de que o Araripe já fez parte de uma bacia sedimentar maior. Os depósitos de calcário encontrados por lá seriam sobras de sedimentos que se acumularam em uma região bem mais vasta, que abrangia ao menos o Araripe e a serra do Tonã. Quase toda essa área foi erodida nos últimos 65 milhões de anos pelos rios, depois que o Nordeste se elevou acima do nível do mar. Assine compara os depósitos do Araripe ao que restou de um bolo de festa: “É o maior pedaço, que sobrou no centro da bandeja”.

Nos anos 1960, o geólogo Oscar Gross Braun já havia identificado dois pedaços menores desse bolo: a serra Negra, em Pernambuco, e a serra do Tonã, na Bahia. Agora, Assine, Varejão e os geólogos José Perinotto e Lucas Warren, também da Unesp, revisitaram essas formações para analisá-las em detalhe com ferramentas modernas. Em colaboração com os geólogos Bernardo Freitas, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Renato Paes de Almeida, da Universidade de São Paulo (USP), e Virgínio Neumann, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), eles identificaram duas sequências de camadas de rochas do Aptiano idênticas às sequências de mesma idade existentes no Araripe. Para Assine e colaboradores, essa coincidência confirma que a chapada do Araripe e a serra do Tonã já integraram a mesma bacia.
Atlântico sul_248
Essas sequências de camadas começam como depósitos de ambientes fluviais e são sucedidas por rochas carbonáticas e argilosas formadas em estuários de rios e lagos. A partir das estruturas e das formas das camadas de arenito do Tonã, os pesquisadores identificaram o sentido de correntes fluviais antigas (paleocorrentes) e definiram para onde corriam as águas dos rios que existiram ali nesse passado distante. “As águas fluíam em direção ao sul, sugerindo que havia terras mais altas ao norte do Araripe”, afirma Assine. “Fica claro que o interior do Nordeste tinha um relevo alto que funcionava como um divisor de águas entre a bacia do Parnaíba, no Maranhão, e a formação da qual faziam parte as bacias do Araripe e do Tucano, onde está a serra do Tonã. Com essa barreira natural, o mar que invadiu a região só pôde ter vindo do sul para o norte, entrando no continente pelo fundo dos vales fluviais, na direção contrária à do fluxo dos rios.”

Como as análises de fósseis de microrganismos e de peixes sugerem que a fauna marinha do Araripe e do Tonã eram aparentadas de espécies do oceano Tethys (uma indicação de que as águas teriam vindo do norte), Assine tenta conciliar as evidências conflitantes. Ele especula que poderia haver uma passagem na margem equatorial do Brasil, região do litoral que vai da atual foz do rio Amazonas ao Rio Grande do Norte, pela qual as águas de Tethys teriam entrado e percorrido a região hoje formada pela costa do Rio Grande do Norte, de Alagoas e de Sergipe, para então finalmente se encaminharem para o sul e invadirem o interior do Nordeste até o Araripe. “Essa é uma questão em aberto”, admite. “A margem equatorial brasileira, assim como a bacia do Parnaíba, ainda é pouco conhecida e podemos ter surpresas.”
Mitsuru Arai discorda da existência do divisor de águas entre as bacias do Parnaíba e do Araripe. “O conteúdo fossilífero das rochas encontradas em uma bacia e em outra é muito parecido”, diz. “Se tivesse existido um divisor de águas, a fauna e a flora das duas bacias seriam diferentes entre si.”

Arai também questiona o sentido das correntes dos rios primitivos do Tonã proposto por Assine e colaboradores. Para o paleontólogo, os depósitos de arenito não se formaram pela ação de rios, mas de correntes de maré que teriam existido quando a bacia do Parnaíba e a do Araripe foram invadidas pelas águas do oceano. Essas águas, vindas do norte, teriam formado um imenso canal marinho no interior do continente, semelhante ao canal da Mancha, que separa a Grã-Bretanha da França.
“Precisamos medir como eram as paleocorrentes dos rios e das marés na bacia do Parnaíba também”, sugere Arai. “Se as paleocorrentes de lá se dirigirem para o sul, eu ganho a parada. Se correrem para o norte, o Assine pode continuar me questionando.”

Projetos

1.
Reavaliação da geologia da bacia do Araripe, Nordeste do Brasil (nº 2004/15786-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Mario Luis Assine (Unesp); Investimento R$ 78.939, 46.

2. Desenvolvimento de modelos de fácies para grandes rios: Processos e produtos em barras ativas na Amazônia brasileira e implicações para as reconstruções paleogeográficas do Neógeno na Amazônia e do Mesozoico gondwânico no NE-Brasil e E-Austrália (nº 2014/16739-8); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Renato Paes de Almeida (IGc-USP); Investimento R$ 224.884,80.

Artigos científicos
 
VAREJÃO, F. G; et al. Upper Aptian mixed carbonate-siliciclastic sequences from Tucano Basin, Northeastern Brazil: Implications for paleogeographic reconstructions following Gondwana break-up. Cretaceous Research. v. 67, p. 44-58. jul. 2016.

ARAI, M. Aptian/Albian (Early Cretaceous) paleogeography of the South Atlantic: A paleontological perspective. Brazilian Journal of Geology. v. 44 (2), p. 339-50. jun. 2014.

ASSINE, M. L. et al. Comments on paper by M. Arai “Aptian/Albian (Early Cretaceous) paleogeography of the South Atlantic: A paleontological perspective”. Brazilian Journal of Geology. v. 46 (1), p. 3-7. mar. 2016

segunda-feira, 21 de março de 2016

Diversidade de dinossauros do Cretáceo brasileiro

Nosso país apresenta uma notável escassez de sedimentos provenientes do período Triássico e também a quase inexistência de fósseis de dinossauros do Jurássico. Porém, um dos maiores tesouros paleontológicos relacionados à dinossauros do Brasil está presente no Cretáceo das Bacias Bauru, São Luís-Grajaú e do Araripe
Iremos conhecer algumas das últimas e principais espécies de dinossauros que aqui, em nossa terra, caminharam.

A Bacia Bauru, o espetáculo dos saurópodes

Os Estados Unidos se destacam por terem possuído uma grande quantidade e diversidade de dinossauros herbívoros ornitísquios, já o Brasil chama a atenção por sua destacada diversidades de dinossauros saurópodes. Durante o final do Cretáceo, grande parte destes gigantes - da família dos titanosauros -, vagavam pelos atuais estados de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul (atual área coberta pelas rochas da Bacia Bauru).

Os saurópodes titanossaurídeos provavelmente tiveram origem no continente indiano ou africano e acabaram migrando para a América do Sul, aonde encontraram um ambiente propício e evoluíram para diversas novas espécies e gêneros. Acredita-se que grande maioria dos saurópodes que viviam aqui no Brasil eram propensos ao nanismo, ou seja, possuíam um tamanho reduzido em comparação com outras espécies de titanossauros conhecidas, como as da Argentina, por exemplo. O Trigonosaurus pricei, o Aeolosaurus e o Baurutitan britoi são as menores espécies de saurópodess encontradas no Brasil, com um comprimento variando entre 9 à 14 metros. Alguns pesquisadores acreditam que o tamanho reduzido fora decorrente da limitada existência de comida e fontes naturais para a subsistência destes animais.

Reconstrução do esqueleto de um Uberabatitan ribeiroi. Tal espécie
vivera onde atualmente se situa-se a Bacia Bauru, no Brasil.
Porém a Bacia Bauru não abrigou apenas saurópodes, mas também terópodes! Apesar de até o momento haver poucas espécies descritas e nomeadas. 
Como em qualquer ecossistema, se há herbívoros, com certeza haverá carnívoros. O que abrigava a Bacia Bauru era o avantajado abelissaurídeo Pycnonemosaurus nevesi, um terópode de 7 m de comprimento, que provavelmente caçava pequenos saurópodes ou animais de médio e pequeno porte.
Há também a existência de um provável maniraptora na Bacia Bauru, com o registro de uma garra isolada, alguns ossos desarticulados e diversos dentes; além de uma vértebra associada a um tipo de megaraptorídeo. Nesses dois casos a pouca quantidade de material impossibilita a descrição desses terópodes em si.

A Bacia Bauru em seu estado "natural". Na imagem o temível Pcynonemosaurus e o saurópode Maxakalisaurus.
Paleoarte por Maurílio Oliveira.

Já pensou futuramente anunciarem nos jornais que o resto do esqueleto deste maniraptor ou desse megaraptora foram encontrados?!
Espécies da Bacia Bauru conhecidas atualmente:
Saurópodes: Gondwanatitan faustoi, Antarctosaurus brasiliensis, Aeolosaurus maximus, Baurutitan britoi, Trigonosaurus pricei, Maxakalisaurus topai, Adamantisaurus mezzalirai, Uberabatitan ribeiroi e Brasilotitan nemophagus.
Terópodes: Pycnonemosaurus nevesi, pelo menos um tipo de terópode maniraptor, um possível carcharodontosaurídeo e um terópode megaraptorídeo.
A Bacia do Araripe, o espetáculo dos carnívoros

Mundialmente conhecida como um dos sítios fossilíferos mais importantes do mundo, a Bacia do Araripe, localizada na Chapada do Araripe, possui um importante e imenso registro fóssil para a comunidade brasileira. E não é para menos: grandes espécies de dinossauros carnívoros habitaram a região da chapada (onde se situam-se os estados de Pernambuco, Piauí e Ceará) há 110 milhões de anos.
A chapada do Araripe, durante o início do Cretáceo, era uma depressão com um contato restrito com o mar, formando uma imensa laguna na qual se depositavam sedimentos. Atualmente a Chapada do Araripe possuí importantes fósseis que estão presentes em uma camada geológica chamada Grupo Santana (ou Fm. Santana, dependendo da proposta estratigráfica), que abriga uma infinidade de espécies fósseis de plantas, crocodilos, répteis, peixes, pterossauros e é claro... dinossauros!
Em relação à dinossauros, a bacia possui uma importante variedade de carnívoros, como dito anteriormente; principalmente os da família dos SPINOSAURIDAE! Sim, aqueles dinossauros carnívoros com um crânio semelhante ao de um crocodilos, cujo dorso de alguns apresentava uma incrível vela dorsal parecida como um leque.
Para você comparar, das quatro espécies de dinossauros conhecidas da Bacia do Araripe, duas são espinossaurídeos: o famoso Angaturama limai e o Irritator challengeri. Esses animais provavelmente viviam próximo à laguna 'pescando' peixes ou até mesmo capturando indefesos pterossauros que se alimentavam as proximidades desta.

Irritator challengeri, o famoso espinossaurídeo brasileiro.
Paleoarte por Maurílio Oliveira.
Além dos espinossaurídeos, a região do Araripe abrigava  também dois terópodes distintos. Um deles era pequeno, semelhante ao famoso Compsognathus da Alemanha: o Mirischia asymmetrica, um compsognatídeo de até 2 m de comprimento, que se abrigava nos arredores da laguna alimentando-se provavelmente de insetos e pequenos répteis.

Vista da Chapada do Araripe no sertão brasileiro. Autor desconhecido.
Por fim temos o mais famoso dinossauro da bacia, o Santanaraptor placidus, um terópode de pequeno porte pertencente a família Tyrannosauroidea.
O Santanaraptor foi uma descoberta extraordinária, até porque seus únicos restos isolados foram encontrados com tecidos moles - uma rara e incrível preservação de cartilagens que ocorrem apenas quando existem preservações excepcionais. Tal descoberta possibilita que os paleontólogos não parem de estudar a bacia, à procura de novas descobertas... 


A Bacia São Luís-Grajaú, o "mundo perdido", por assim dizer


Quem diria que o estado do Maranhão possuiria um dos mais importantes sítios fossilíferos do Brasil, onde a cada metro quadrado você pode acabar encontrando um fóssil? Pois é! As rochas cretácicas dessa bacia de São Luís-Grajaú  datam dentre 113 e 97 milhões de anos (meio do Cretáceo), e sua origem está atrelada a  fragmentação do antigo continente Gondwana, quando houve a separação da América do Sul e da África.

A bacia em si, abrigava um ecossistema completo, com répteis, vegetais, pterossauros, peixes, anfíbios e é claro dinossauros! Até o momento, para as duas unidades cretácicas da bacia são conhecidas pelo menos duas espécies de dinossauros saurópodes, o Amazonsaurus maranhensis e Rayosaurus;duas espécies de grandes dinossauros terópodes, um da família do Carcharodontosaurus, identificado por meio de dentes, e o famoso espinossaurídeo gigante, Oxalaia quilombensis, além de uma atribuição de um dente isolado ao terópode do gênero Masiakasaurus, um animal de aspecto bizarro encontrado também na África.
Espero que tenham gostado de viajar no tempo para conhecer o Brasil da era dos dinossauros!

REFERÊNCIAS

Anelli, Luiz E.
O guia completo dos dinossauros do Brasil / Luiz E. Anelli; ilustrações de Felipe Elias. -- São Paulo: Peirópolis, 2010.

First Brazilian carcharodontosaurid and other new theropod dinosaur fossils from the Campanian–Maastrichtian Presidente Prudente Formation, São Paulo State, southeastern Brazil:
Rodrigo P. Fernandes de Azevedo  Felipe Medeiros Simbras  Miguel Rodrigues Furtado  Carlos Roberto A. Candeiro  Lílian Paglarelli Bergqvist

domingo, 10 de janeiro de 2016

[PaleoOrnithology • 2016] 

Cratoavis cearensis • A New Genus and Species of Enantiornithine Bird from the Early Cretaceous of Brazil


ABSTRACT
 The fossil record of birds in Gondwana is almost restricted to the Late Cretaceous. Herein we describe a new fossil from the Araripe Basin, Cratoavis cearensis nov. gen et sp., composed of an articulated skeleton with feathers attached to the wings and surrounding the body. The present discovery Considerably extends the record time of the enantiornithes birds at South America to the Early Cretaceous. For the first team, an almost complete and articulated skeleton of an Early Cretaceous bird from South America is documented.
Keywords: Cratoavis cearensis nov. gen et sp .; Araripe Basin; fossil bird
SYSTEMATIC PALEONTOLOGY
Aves Linnaeus 1758
Ornithothoraces Chiappe 1996
Enantiornithes Walker 1981
Cratoavis cearensis nov. gen. et sp. (Figs. 3 and 4)
Etymology: Cratoavis nov. gen., the generic name derives from the combination of the Crato Member lithostratigraphic unit, where the specimen was found, and the zoological group Aves. The specific epithet cearensis refers to the Ceará State, where the fossil was collected.
Locality and horizon: Pedra Branca Mine, Nova Olinda County, Ceará State, Brazil (7° 6´51.9´´ S and 39° 41´46.9´´ W). Araripe Basin, Santana Formation, Crato Member (Early Cretaceous, Aptian).
 This formation has yielded abundant and exceptionally preserved fossils of a large variety of plants and animals, representing one of the best well-known terrestrial ecosystems for the Early Cretaceous. Isolated feathers probably belonging to birds have been described from these beds, as well as succinct reports on avian skeletons associated with poorly preserved feathers.

 Cratoavis cearensis Mirischia asymmetrica  
Illustration: Deverson Pepi || commons.wikimedia.org
CONCLUSIONS
Cratoavis cearensis nov. gen. et sp. constitutes the first named bird from the Mesozoic of Brazil and the Early Cretaceous of South America. It constitutes an important addition to the meager record of South American Cretaceous birds, and constitutes one of the more complete Mesozoic bird specimen from Gondwana. It also expands the list in which skeletal elements have been found in association with feathers, including long tail rectrices. 
Ismar Carvalho, Fernando E. Novas, Federico L. Agnolin, Marcelo P. Isasi, Francisco I. Freitas and Jose A. Andrade. 2015. A New Genus and Species of Enantiornithine Bird from the Early Cretaceous of Brazil. Brazilian Journal of Geology. 45(2): 161-171.  DOI:  10.1590/23174889201500020001
RESUMO: No Gondwana, o registro fóssil de aves está praticamente restrito ao Cretáceo Superior. Neste estudo é descrito um novo fóssil da Bacia do Araripe, Cratoavis cearensis nov. gen. et sp., composto por um esqueleto articulado com penas conectadas às asas e circundando o corpo. A presente descoberta amplia consideravelmente o intervalo temporal de registro das aves Enantiornithes na América do Sul ao Cretáceo Inferior. Pela primeira vez, um esqueleto articulado e quase completo de uma ave do Cretáceo Inferior da América do Sul é documentado.

PALAVRAS-CHAVE: Cratoavis cearensis nov. gen. et sp.; Bacia do Araripe; Ave fóssil.




  
Ismar de Souza Carvalho, Fernando E. Novas, Federico L. Agnolín, Marcelo P. Isasi, Francisco I. Freitas and José A. Andrade. 2015. A Mesozoic Bird from Gondwana preserving Feathers. Nature Communications. DOI: 10.1038/ncomms8141

Photos: Dinosaur-Era Bird Sported Ribbonlike Feathers
http://www.livescience.com/51035-photos-bird-ribbonlike-feathers.html