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terça-feira, 31 de maio de 2022

 

Urca recebe cerca de mil fósseis repatriados da França

25 de maio de 2022 - 16:45

Ascom Urca

Um dia para ficar na história da paleontologia brasileira. Cerca de mil peças fósseis de raro valor científico e cultural foram repatriadas da França e entregues à Universidade Regional do Cariri do Cariri (Urca), nessa terça-feira (24), em cerimônia realizada pela aduana francesa na cidade portuária Le Havre.

São fósseis do período Cretáceo, com cerca de 145 a 65 milhões de anos. Eles foram retirados ilegalmente da bacia do Araripe. Uma comitiva da Urca está na França para receber oficialmente os fósseis apreendidos. Nesta quarta-feira (25), acontece reunião de trabalho nas dependências da Unesco, em Paris, com a equipe brasileira.

O evento marcou o desfecho do caso iniciado em 2013, quando os bens foram apreendidos por agentes franceses e o Ministério Público Federal (MPF) abriu inquérito para apurar a venda ilegal de fóssil pela internet. Urca, Polícia Federal, MPF, cientistas e pesquisadores estiveram reunidos para celebrar o momento de entrega das peças e preparação para o material ser remetido ao Brasil em cerca de 30 dias.

Foram catalogadas 998 peças, apreendidas pelas autoridades francesas. Ao ter contato com o material, pesquisadores da Urca ficaram emocionados com a importância dos fósseis, alguns em perfeito estado de conservação dos tecidos, além da relevância do momento representativo para a valorização do patrimônio fossilífero e combate ao tráfico de fósseis.

Comitiva brasileira

Da equipe brasileira estiveram presentes pela Universidade o reitor em Exercício, Carlos Kleber de Oliveira; o diretor do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, professor Allysson Pinheiro; o pró-reitor de Pós Graduação e Pesquisa, Edson Martins; o diretor de Cultura do Geopark Araripe, professor Patrício Melo; e a paleontóloga do Museu de Paleontologia, Marianna Senna; além dos representantes do MPF e outras instituições.

“São fósseis que apreendidos através de uma operação conjunta, com a Justiça brasileira e a francesa, através do governo francês. A partir de agora, as peças serão catalogadas e estudadas pelos cientistas da universidade e na sequência vão para exposição no Museu de Paleontologia, em Santana do Cariri”, declarou Carlos Kleber de Oliveira.

Segundo o diretor do Museu de Paleontologia, é um momento único para o Cariri, o Geopark Araripe e o Brasil, receber material inestimável, fruto de um trabalho em equipe. “O patrimônio recuperado irá diretamente para o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens. Vamos receber esses fósseis, trabalhar cientificamente e apresentar todo para a sociedade civil, que a partir daí poderá desfrutar desse bem cultural”, disse o professor Alysson.

O acervo devolvido impressiona pela variedade de peças com fósseis de pterossauros, peixes, plantas, insetos, e outras espécies animais. Serão encaminhadas para o Brasil caixas contendo 345 pedras de animais fossilizados e 648 pequenos quadrados de animais e plantas em formato de fóssil, todos oriundos da Chapada do Araripe, no Cariri cearense.

O secretário de Cooperação Internacional do MPF, Hindemburgo Chateaubriand, destacou que, ao longo de quase uma década de investigação, diante da importância e da complexidade do caso, várias instituições e autoridades brasileiras e francesas se envolveram nas diligências para solucionar a questão. “Deixo aqui registrado o nosso agradecimento pelas contribuições de cada uma delas”, ressaltou Chateaubriand.

Todo o material passou por um inventário jurídico e detalhado do acervo, que antecedeu a cerimônia e contou com a presença de paleontólogos, professores universitários, além de outras autoridades francesas e brasileiras. Também compuseram a comitiva brasileira que acompanhou os trabalhos em Le Havre o ministro da Cidadania, Ronaldo Vieira Bento, o embaixador do Brasil em Paris, Luiz Fernando Serra, e a encarregada de negócios do Brasil perante a Unesco, Regiane de Melo.

Pedido de devolução: primeira decisão definitiva do Judiciário francês

Segundo o Ministério Público Federal, o pedido para devolução dos fósseis foi feito à França no fim de 2019 pelo procurador da República Rafael Ribeiro Rayol, por meio da Secretaria de Cooperação Internacional do Ministério Público Federal (SCI/MPF). A solicitação foi amparada por laudos paleontológicos que certificaram a origem brasileira dos fósseis. A sentença que determinou a repatriação foi proferida pela Corte de Apelação de Lyon em fevereiro de 2020. Trata-se da primeira decisão definitiva do Judiciário francês em relação a pedidos de repatriação de fósseis feitos pelo MPF ao país europeu.

Ainda conforme o MPF, há outros dois casos em tramitação que envolvem um esqueleto quase completo de pterossauro da espécie Anhanguera com quase 4 metros de envergadura e outros 45 fósseis, que incluem tartarugas marinhas, aracnídeos, peixes, répteis, insetos e plantas, alguns com milhões de anos. Esse material está avaliado em quase 600 mil euros (R$ 4 milhões, aproximadamente, pelo câmbio atual) – dada a raridade, o interesse científico e a qualidade de preservação.

No fim de 2019, o procurador e integrantes da SCI/MPF participaram de reuniões com autoridades do MP e do Judiciário da Alemanha, França, Itália e Suíça para discutir a repatriação de fósseis brasileiros enviados ilegalmente para diversos países do bloco europeu. São milhares de exemplares retirados sem autorização do território da Chapada do Araripe. Os encontros foram realizados na Holanda.

domingo, 22 de setembro de 2019

Por que o Crato preserva fósseis

Hipótese atribui à ação de bactérias a conservação de vestígios de plantas e de animais na bacia do Araripe
Camarão encontrado no Crato ilustra a riqueza de detalhes dos fósseis da região
Suzana Matos
No início de julho, um grupo de paleobotânicos anunciou a descoberta de um fóssil de uma nova espécie de lírio,  Cratolirion bognerianum, que viveu há 115 milhões de anos. A delicadeza da peça, com  raízes, pétalas e células individuais preservadas, impressionou os pesquisadores. O local onde a flor foi encontrada, porém, não causou surpresa: a formação Crato, na bacia do Araripe, no Ceará, unidade geológica que tem revelado dezenas de fósseis com tecidos moles muito bem preservados. 

 
“A maneira com que o lírio foi depositado, em um antigo lago, é bastante incomum para uma planta herbácea”, diz o francês Clemént Coiffard, do Museu de História Natural de Berlim, um dos autores do artigo com a descrição da flor, publicado na Nature Plants, ao lado de Mary Elizabeth Cerruti Bernardes-de-Oliveira, da Universidade de São Paulo (USP). “Além da deposição ‘clássica’ com ramos, folhas de árvores e arbustos, muitas plantas ali são preservadas ainda com suas raízes presas, contendo argila.”

Não se sabe por que a formação Crato conserva  tanta riqueza paleontológica, mas pesquisadores brasileiros levantaram uma hipótese para explicar o fenômeno. Segundo um estudo publicado em julho na revista científica Palaios, esteiras de micróbios teriam contribuído para fossilizar uma vasta gama de organismos. A ação dos microrganismos teria sido fundamental para fixar e proteger a integridade de resquícios de plantas e de animais no fundo desse paleolago.

Entre as criaturas que já emergiram do Crato estão uma serpente com vestígios de patas, pterossauros com cristas preservadas e aves com penas aparentes, além de insetos, crustáceos, peixes e plantas. O local é uma das poucas janelas do planeta para os paleontólogos estudarem a biodiversidade tropical do período Cretáceo Inferior, entre 146 milhões e 100 milhões de anos atrás.

“Vários eventos precisam ocorrer para que um organismo seja preservado”, afirma o geólogo Lucas Warren, do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista (IGCE-Unesp) e coautor do estudo. “É um processo complexo, para o qual formulamos uma hipótese mais simples e parcimoniosa.” Em busca de pistas sobre esse processo, quatro anos atrás Warren e o aluno de doutorado Filipe Varejão começaram a estudar coleções de fósseis e amostras geológicas da região, e em viagens investigaram diversos pontos do chamado lagerstätte, a formação calcária de onde a maioria dos fósseis da região emerge.
No período em que os sedimentos estavam formando esse tipo de rocha, o Brasil ainda não tinha se separado completamente da África. A atual região do Atlântico Sul estava começando a ser inundada, e o lagerstätte do Crato estava, portanto, conectado à região marinha na qual estavam se formando os depósitos do pré-sal, a formação geológica submersa onde o Brasil passou recentemente a explorar reservas de petróleo.

Segundo a hipótese mais genérica para a formação desses sedimentos, sua origem teria se dado exclusivamente por processos químicos, na interação das rochas com a água e a atmosfera. Uma limitação dessa ideia é que outros estratos geológicos similares não apresentam o mesmo grau de riqueza paleontológica. Em 2016, Warren e Varejão fizeram uma descoberta interessante no local que adicionou um novo elemento ao cenário: antigas estruturas formadas por colônias de cianobactérias, microrganismos que fazem fotossíntese.

Preservadas em estruturas macroscópicas chamadas estromatólitos, essas colônias são capazes de alterar significativamente o ambiente em que vivem. “Chegamos à conclusão de que a região do Crato era, de fato, um ambiente lacustre: um lago na beira do mar, mais ou menos parecido com o que tem hoje em Shark Bay, no sul da Austrália, onde é possível ver estromatólitos expostos”, explica Warren. Além dos remanescentes de estromatólitos, os cientistas encontraram na região fósseis de crustáceos com vestígios de EPS (substância polimérica extracelular). “Esse composto é um polímero natural gosmento secretado pelos microrganismos e que pode se preservar e fossilizar”, diz o pesquisador.

A presença das cianobactérias era indicativa de dois fatores importantes para a preservação de fósseis, de acordo com o estudo. Primeiramente, um meio com esses microrganismos representa um ambiente estéril para outras formas de vida, como animais, que poderiam consumir esses microrganismos se alimentando do EPS. Em segundo lugar, a esteira de cianobactérias e de outros micróbios que se acumula no fundo de um lago funciona como uma âncora dos vestígios de plantas e animais, impedindo-os de serem desmembrados pela correnteza. Em poucas semanas, o tapete de bactérias recobre os restos dos seres vivos. “Os vestígios ficam encapsulados, mais ou menos como num sarcófago”, diz Warren.

Cratolirion bognerianum, um lírio fossilizado de 115 milhões de anosMuseu de História Natural de Berlim

A estabilidade mecânica proporcionada pela esteira microbiana permite que ocorram os processos de mineralização que solidificam o fóssil. No caso do Crato, existem três processos distintos: a piritização, substituição dos tecidos por sulfeto de ferro; a querogenização, em que a matéria orgânica se transforma em matéria inorgânica e insolúvel; e a fosfatização, na qual os fosfatos tomam o lugar das fibras de seres mortos. A esteira microbiana se divide em camadas. As cianobactérias ocupam o estrato mais acima. Nas camadas inferiores, estão presentes bactérias quimioautotróficas, que produzem energia a partir de compostos inorgânicos sem a necessidade de haver luz. Dependendo do nível em que um organismo morreu e se ancorou, ocorre um processo final de fossilização diferente.
Como a formação Crato exibe fósseis excepcionalmente preservados formados pelos três processos, era difícil construir uma explicação única que agrupasse todos eles. O modelo da esteira microbiana proposto por Varejão, Warren e demais coautores, incluindo Mario Assine, líder do grupo na Unesp, tenta resolver essa equação sem a necessidade de postular processos químicos e geológicos mais tortuosos.

A fixação mecânica gerada pelo tapete de microrganismos ajudaria a explicar a ocorrência de exemplares de fósseis bem preservados na formação Crato, como o lírio de 115 milhões de anos. Essa espécie, aliás, cobre uma lacuna importante da história evolutiva das plantas monocotiledôneas, cujas sementes têm um reservatório de energia (cotilédone), e mostra que elas provavelmente se espalharam para o planeta a partir de regiões tropicais.
Entender a origem da formação Crato também auxilia os geólogos a buscar outros sítios que tenham rochas semelhantes e possam igualmente abrigar fósseis bem conservados. Esse tipo de trabalho não deve ser postergado. Áreas ricas em fósseis quase sempre estão sujeitas a pressões externas. No Crato, por exemplo, os pesquisadores dizem que a região já dá sinais de esgotamento. “Os mineradores comentam que agora encontram menos fósseis do que no passado”, conta Varejão. “Eles dizem que guardam as peças mais bonitas, mas muitas são jogadas fora. Nem sempre o fóssil mais bonito é o de maior valor científico.”

Projetos
 
1. Abordagem multi-indicadores do sistema misto carbonático-siliciclástico da formação Crato: Evolução sedimentar, paleogeografia e tectônica (nº 16/13214-7); Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsável Lucas Warren (Unesp); Bolsista Filipe Varejão; Investimento R$ 132,667,08.

2. Contexto estratigráfico e paleoambiental das assembleias de macroinvertebrados da Formação Romualdo, Cretáceo da Bacia do Araripe, e suas implicações paleogeográficas (nº 17/20803-1); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Marcello Guimarães Simões (Unesp); Bolsista Suzana Aparecida Matos da Silva; Investimento R$ 202.219, 29. 

Artigos científicos

COIFFARD, C. et al. Fossil evidence of core monocots in the Early Cretaceous. Nature Plants. v. 5, p. 691-96. jul. 2019.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Exposição na USP apresenta fósseis raros do Nordeste do Brasil

A partir desta sexta-feira, Instituto de Geociências mostra um dos mais valiosos acervos paleontológicos do País
Por - Editorias: Cultura
 
Dezembro de 2017.

Fóssil exposto na mostra que será aberta nesta sexta-feira, dia 15, no Instituto de Geociências da USP – Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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Ao entrar no Instituto de Geociências (IGc) da USP, uma trilha de pegadas de dinossauro guia os visitantes ao Museu de Geociências, onde parte de um riquíssimo tesouro brasileiro fica exposta a partir desta sexta-feira, 15 de dezembro. Trata-se da exposição Fósseis do Araripe, composta de cerca de 50 peças de um acervo de 3 mil fósseis oriundos da região da Bacia do Araripe, que se estende pelos Estados do Piauí, Pernambuco e principalmente Ceará. A coleção permite vislumbrar a biodiversidade que habitava a região no período Cretáceo (entre 145 e 65 milhões de anos atrás) e reúne exemplares raros, como o único pterossauro da espécie Tapejara navigans completo do mundo.
Fósseis que seriam vendidos como contrabando foram apreendidos pela Polícia Federal  e entregues à USP por determinação judicial – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Os fósseis chegaram à USP em 2014, após uma ação da Polícia Federal (PF) batizada de Operação Munique, que apreendeu três caminhões que contrabandeavam o material para a Alemanha, Estados Unidos, países asiáticos e outros da Europa. Um dos caminhões se encontrava no Ceará, e sua carga foi enviada à Universidade Regional do Cariri. O restante da coleção, cerca de 3 mil itens interceptados em caminhões em Minas Gerais, no interior de São Paulo e na casa de um dos traficantes, em São Paulo, ficou sob custódia da PF na sede estadual. Posteriormente, a Justiça Federal determinou que a USP fosse a fiel depositária do acervo, com a responsabilidade de preservá-lo e colocar em prática o tripé da Universidade: pesquisa, ensino e extensão.

Fósseis habitavam a região Nordeste do Brasil entre 145 e 65 milhões de anos atrás – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Conforme conta a professora do IGc Juliana de Moraes Leme Basso, curadora da exposição, a PF encontrou o material em condições péssimas de armazenamento e conservação, e o enviou lacrado em caixas sem numeração para o instituto. Após um ano catalogando cada peça na coleção científica da USP, pela qual Juliana é responsável, foi possível abrir o acervo para pesquisa, e desde 2015, em virtude de sua abrangência, há pesquisadores de diversas áreas trabalhando com ele, de universidades como a Federal do ABC, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Federal de Pernambuco, além da própria USP.
A professora Juliana de Moraes Leme Basso, do Instituto de Geociências da USP, curadora da exposição – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
“Faltava apenas a questão da extensão, que se materializa agora com a exposição”, afirma a curadora. “Estamos inaugurando agora justamente para aproveitar o período de férias escolares, quando crianças e jovens poderão vir conhecer esse bem que nos foi entregue e que é um bem da União, de todos nós. Não fosse a ação da PF, hoje ele estaria fora do País, em museus do exterior ou, pior ainda, em coleções particulares. Isso seria terrível, porque privaria a sociedade do acesso e do estudo que pode ser feito sobre esse material tão rico, e que acabaria se tornando meramente um objeto decorativo único na sala de uma pessoa, para alimentar seu ego.” Fazendo referência ao trabalho da PF, há um mural na exposição com fotos do material apreendido e um texto que detalha as leis que enquadram o tráfico de fósseis como crime ambiental no País.

Tesouros à mostra

O ponto alto da exposição, segundo a professora, é o pterossauro Tapejara navigans. “Apesar de não ser uma espécie nova, é o único exemplar completo já encontrado no mundo. Isso permite que muitas dúvidas e detalhes sobre a morfologia do animal sejam respondidas, e não só questões da estrutura morfológica, que pode agora ser muito mais bem detalhada, mas também de paleoecologia. O modo de vida dessa espécie pode ter novas interpretações a partir de um fóssil bem preservado como esse, que tem até partes moles como a crista ainda intactas. Pode-se supor como ele vivia, do que se alimentava, qual era a sua relação com outras espécies de pterossauros”, explica.
A exposição Fósseis do Araripe, no Museu de Geociências do Instituto de Geociências da USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Outro destaque é o Susisuchus anatoceps, um animal da ordem dos crocodilianos, cujo esqueleto em exposição é a junção de duas partes de indivíduos diferentes da espécie, formando o corpo completo. Trata-se apenas do segundo exemplar no mundo com o crânio inteiramente preservado.
Também muito raro é o peixe Oshunia brevis, do qual, até a chegada do material da Bacia do Araripe, só havia um fóssil na coleção de mais de 7 mil peixes que o Instituto de Geociências possui, o que, segundo a professora, dá ideia da dificuldade para se encontrar vestígios do animal. “Essa raridade dá muito valor ao fóssil, tanto no quesito científico, porque é possível estudar muito mais a fundo um animal nesse nível de preservação, quando no aspecto monetário, para os traficantes. O pterossauro, por exemplo, foi estimado em cerca de US$ 1 milhão”, ressalta Juliana.
Fóssil de um escorpião – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
A professora afirma que as plantas fossilizadas à mostra também são especiais. “Todo esse material é do período Cretáceo, que foi quando surgiram as angiospermas, as plantas com flores, e temos aqui uma riqueza e diversidade muito grandes dessas plantas num período inicial da evolução delas. Para quem as estuda, é espetacular ter tamanha variedade tão bem preservada nesse estágio evolutivo.” Há ainda na exposição uma série de plantas aquáticas, samambaias, pinhas, insetos – como grilos, gafanhotos, baratas, cigarras, libélulas, moscas e  mosquitos – e aracnídeos, como aranhas e escorpiões.
 O peixe Oshunia brevis: raríssimo – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Devido a essa variedade, a curadora da exposição contou com uma grande equipe para ajudá-la na montagem. Enquanto ela assina os textos que explicam o que são e como surgem os fósseis, os murais que trazem informações sobre cada grupo de fóssil foram escritos pelos pesquisadores que atualmente trabalham com o material. Eles informam sobre a geologia da região, sua localização, quando os fósseis se formaram e características e curiosidades específicas que os tornam especiais ou interessantes.
Fóssil de uma libélula – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Os pesquisadores também auxiliaram Juliana a selecionar as peças que seriam expostas. “Às vezes um fóssil tem imenso valor científico por trazer uma estrutura nunca descrita, por exemplo, mas não tem apelo visual. Uma criança, digamos, não vai querer ler os textos do mural, ela quer ver um fóssil bonito, fascinante, e fazer suas perguntas. Tivemos, então, essa preocupação de trazer as informações científicas corretas e com boas fontes, mas também de escolher peças que sejam visualmente atrativas para o público leigo. A exposição é para todo o público, não só para os acadêmicos. Queremos aproveitar o caráter público da Universidade para mostrar essa riqueza que o Brasil possui, e que muitos desconhecem, para a maior variedade de pessoas possível”, afirma a curadora.

Riquezas de outra era

Quem visita hoje a região da Bacia do Araripe jamais poderia imaginar a riqueza que já existiu ali – atualmente fossilizada sob a terra – entre 145 e 65 milhões de anos atrás, no período Cretáceo, último da Era Mesozoica. O que é hoje em dia parte do sertão nordestino, uma região de caatinga, já foi coberto de lagos e até pelo oceano, quando se deu a separação entre o continente africano e a América do Sul. Essas características, dentre outras, explicam por que se encontram tantos fósseis em elevado estado de preservação no local, de acordo com Juliana.
Fósseis de insetos também integram a exposição – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
“Por ter sido uma região lacustre (de lagos), a Bacia do Araripe era muito rica em vida, tanto de plantas e animais aquáticos como crocodiliformes, peixes e tartarugas, quanto de vegetação terrestre e seres alados, como os pterossauros. Provavelmente o clima era favorável também para essa abundância de seres vivos, o que atraía predadores grandes. Quando esses seres morriam, seus restos eram sedimentados no solo calcário do local, que é uma rocha que preserva muito bem os sedimentos. E o fato de tratar-se de um lago, com águas calmas, e não uma região marinha de água rasa, na qual ondas quebram e podem danificar os ossos, o ambiente era excelente para a preservação, assim como ocorreu depois que foi coberto pelo oceano.”
Fóssil de uma cigarra – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Para ajudar a visualizar essa Bacia do Araripe tão diferente da atual, será exposto um mural com desenhos de como era esse ambiente quando os fósseis à mostra ainda eram vivos, e será exibido também um vídeo produzido por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) sobre a região. Outras atrações previstas para a exposição são uma mesa interativa, na qual fósseis reais serão cobertos de areia para que as crianças possam encontrá-los, e mesas com desenhos dos fósseis para serem pintados.

Fóssil de uma barata – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
“Temos em alguns lugares do mundo, como o Canadá, a Alemanha e a China, regiões tidas como excelentes para a preservação. E temos isso no Brasil também, é disso que se trata a Bacia do Araripe, e é por isso que ela é tão visada: é um local cujo ambiente tinha as características ideais para a preservação de qualidade impressionante dos seres que viviam ali, e aqui temos uma mostra dessa qualidade e dessa diversidade”, conclui Juliana.

O pterossauro Tapejara navigans: o único exemplar completo já encontrado no mundo – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
A exposição Fósseis do Araripe abre na sexta-feira, 15 de dezembro, às 9 horas, e permanece no Museu de Geociências do Instituto de Geociências (IGc) da USP por um ano. As visitas podem ser feitas de segunda a sexta-feira, das 9 às 17 horas, com entrada gratuita. A exposição foi viabilizada por meio de um edital da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP. O endereço do IGc é Rua do Lago, 562, na Cidade Universitária, em São Paulo.

Veja abaixo uma parte do documentário Tesouros do Araripe, produzido por pesquisadores da UFPE e que será exibido na exposição, que mostra como era a região da Bacia do Araripe no período Cretáceo. As outras partes do documentário também estão disponíveis no Youtube.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O pequeno do Araripe

Espécie de crocodilo anão encontrada no Ceará é a menor registrada até hoje.

Perto de espécies atuais, Susisuchus anatoceps parece um filhotinho.
Nas pedreiras de calcário laminado nas proximidades da cidade de Nova Olinda (CE), foi encontrado um fóssil de crocodilo anão, com a coluna vertebral quase completa, cintura escapular (escápula e coracoide), ossos da perna (tíbia, fíbula, fêmur, tarsais e pé) e placas que revestem o corpo do animal (osteodermas) preservados. Trata-se da menor espécie de crocodilo registrada até hoje. A descoberta foi publicada no periódico PLOS One de 5 de maio.

Susisuchus anatoceps viveu há cerca de 120 milhões de anos na chamada Formação Crato, acumulação sedimentar da chapada cearense do Araripe. O hábitat do animal era composto por um sistema de lagos costeiros alimentado por rios, podendo apresentar algum grau de salinidade, decorrente de ingressões marinhas. Em torno dos lagos, o ambiente era quente e seco nas áreas mais baixas; já, nas mais altas, crescia uma vegetação de grande porte.

O estudo, coordenado pela paleontóloga Juliana Sayão, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), contou ainda com pesquisadores das universidades federais do Espírito Santo (Ufes) e do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Regional do Cariri (Urca).

Em A, fóssil utilizado na pesquisa: as setas mostram onde foi retirada a amostra para lâmina. Em B, estruturas microscópicas do osso do braço do crocodilo. Em C, estruturas microscópicas da costela do crocodilo. (Crédito: Montagem elaborada pelo projeto de divulgação paleontológica da UFRPE)
Sayão lembra que as rochas da Formação Crato, onde foi encontrado o crocodilo anão, estão repletas de fósseis de diversos invertebrados (libélulas, grilos, baratas, besouros e escorpiões), vertebrados (peixes, anuros, pterossauros, crocodilos e aves) e vegetais, como pteridófitas, gimnospermas e angiospermas (plantas com flor). A bacia do Araripe como um todo corresponde a uma das principais regiões fossilíferas do Brasil e, portanto, é extremamente rica para a pesquisa paleontológica.

Menor do que os atuais crocodilos anões conhecidos – dos gêneros Paleosuchus e Osteolaemus, com tamanho entre 1 e 1,5 m de comprimento e que habitam áreas pantanosas do cerrado e pequenas lagoas da floresta amazônica – o Susisuchus anatoceps teria morrido aos 17 anos, com 60 cm.
Mas como saber que se tratava de uma espécie anã e não de um exemplar pequeno? “Ao analisarmos os ossos do Susisuchus, como os da mão, do crânio e de algumas osteodermas, vimos que a maioria deles não se fundiram formando um só osso. Essa característica é utilizada na paleozoologia para identificar animais que ainda não atingiram a fase adulta”, explica Sayão. “A análise histológica da microestrutura óssea, no entanto, nos mostrou algo diferente, já que os ossos do animal eram típicos de um adulto.”

Diversidade de crocodilos fósseis do Cretáceo do Brasil. Na comparação entre as espécies, é possível ver o tamanho diminuto de Susisuchus. (Crédito: Montagem elaborada pelo projeto de divulgação paleontológica da UFRPE)
 
Entre as características observadas que reforçam a idade do exemplar, destacam-se 17 ciclos de crescimento (anéis e linhas que se formam no osso similares ao que acontece em troncos de árvores, cada anel sinalizando em torno de um ano de vida) e a formação de ósteons secundários e lamelas internas, presentes em crocodilos adultos, tanto fósseis quanto atuais. “Ou seja, o animal já podia se reproduzir e estava bem próximo de completar sua maturidade esquelética total”, afirma a pesquisadora. “Juntando todos esses dados e o tamanho diminuto de Susisuchus anatoceps, foi possível concluir que a espécie não atingia grandes proporções.”

Crocodilos anões eram comuns no período Jurássico na Europa, que, nessa época, compunha um grande arquipélago. Há duas espécies de crocodilos anões conhecidas atualmente, o Osteolaemus tetraspis, encontrado em todas as regiões de terras baixas tropicais da África subsaariana Ocidental e da África Central Ocidental, e o Paleosuchus palpebrosus, que vive no norte e centro da América do Sul (além do Brasil, na Bolívia, Colômbia, Guiana Francesa, Guiana, no Equador, Paraguai, Peru, Suriname e na Venezuela).

“O Susisuchus anatoceps é uma espécie chave para entendermos a evolução do grupo dos modernos crocodilos, com representantes vivos hoje”, aponta a paleontóloga. “Sua anatomia mostra que o animal já tinha algumas das características que iriam ser importantes para a diversificação desse grupo após a extinção dos dinossauros. E nosso estudo mostrou que a retenção de algumas feições juvenis e o tamanho reduzido podem ocorrer mesmo em indivíduos adultos”, acrescenta.
Segundo Sayão, esse padrão de crescimento observado em Susisuchus pode ter ajudado a espécie a evitar a competição por nichos ecológicos com outras espécies de tamanho maior que viviam na região, como ocorre atualmente com os jacarés da Amazônia. No entanto, ela destaca que os efeitos em longo prazo para a evolução desses animais ainda não estão totalmente claros.
Alicia Ivanissevich
Ciência Hoje | RJ

domingo, 10 de janeiro de 2016

[PaleoOrnithology • 2016] 

Cratoavis cearensis • A New Genus and Species of Enantiornithine Bird from the Early Cretaceous of Brazil


ABSTRACT
 The fossil record of birds in Gondwana is almost restricted to the Late Cretaceous. Herein we describe a new fossil from the Araripe Basin, Cratoavis cearensis nov. gen et sp., composed of an articulated skeleton with feathers attached to the wings and surrounding the body. The present discovery Considerably extends the record time of the enantiornithes birds at South America to the Early Cretaceous. For the first team, an almost complete and articulated skeleton of an Early Cretaceous bird from South America is documented.
Keywords: Cratoavis cearensis nov. gen et sp .; Araripe Basin; fossil bird
SYSTEMATIC PALEONTOLOGY
Aves Linnaeus 1758
Ornithothoraces Chiappe 1996
Enantiornithes Walker 1981
Cratoavis cearensis nov. gen. et sp. (Figs. 3 and 4)
Etymology: Cratoavis nov. gen., the generic name derives from the combination of the Crato Member lithostratigraphic unit, where the specimen was found, and the zoological group Aves. The specific epithet cearensis refers to the Ceará State, where the fossil was collected.
Locality and horizon: Pedra Branca Mine, Nova Olinda County, Ceará State, Brazil (7° 6´51.9´´ S and 39° 41´46.9´´ W). Araripe Basin, Santana Formation, Crato Member (Early Cretaceous, Aptian).
 This formation has yielded abundant and exceptionally preserved fossils of a large variety of plants and animals, representing one of the best well-known terrestrial ecosystems for the Early Cretaceous. Isolated feathers probably belonging to birds have been described from these beds, as well as succinct reports on avian skeletons associated with poorly preserved feathers.

 Cratoavis cearensis Mirischia asymmetrica  
Illustration: Deverson Pepi || commons.wikimedia.org
CONCLUSIONS
Cratoavis cearensis nov. gen. et sp. constitutes the first named bird from the Mesozoic of Brazil and the Early Cretaceous of South America. It constitutes an important addition to the meager record of South American Cretaceous birds, and constitutes one of the more complete Mesozoic bird specimen from Gondwana. It also expands the list in which skeletal elements have been found in association with feathers, including long tail rectrices. 
Ismar Carvalho, Fernando E. Novas, Federico L. Agnolin, Marcelo P. Isasi, Francisco I. Freitas and Jose A. Andrade. 2015. A New Genus and Species of Enantiornithine Bird from the Early Cretaceous of Brazil. Brazilian Journal of Geology. 45(2): 161-171.  DOI:  10.1590/23174889201500020001
RESUMO: No Gondwana, o registro fóssil de aves está praticamente restrito ao Cretáceo Superior. Neste estudo é descrito um novo fóssil da Bacia do Araripe, Cratoavis cearensis nov. gen. et sp., composto por um esqueleto articulado com penas conectadas às asas e circundando o corpo. A presente descoberta amplia consideravelmente o intervalo temporal de registro das aves Enantiornithes na América do Sul ao Cretáceo Inferior. Pela primeira vez, um esqueleto articulado e quase completo de uma ave do Cretáceo Inferior da América do Sul é documentado.

PALAVRAS-CHAVE: Cratoavis cearensis nov. gen. et sp.; Bacia do Araripe; Ave fóssil.




  
Ismar de Souza Carvalho, Fernando E. Novas, Federico L. Agnolín, Marcelo P. Isasi, Francisco I. Freitas and José A. Andrade. 2015. A Mesozoic Bird from Gondwana preserving Feathers. Nature Communications. DOI: 10.1038/ncomms8141

Photos: Dinosaur-Era Bird Sported Ribbonlike Feathers
http://www.livescience.com/51035-photos-bird-ribbonlike-feathers.html

sábado, 6 de junho de 2015

Fóssil em "formato 3D" de ave da era dos dinossauros é encontrado no Brasil

  • Ismar Carvalho/UFRJ/Nature
    O fóssil do pássaro e a ilustração da ave (no detalhe) da espécie Enantiornithes, descoberta na Bacia do Araripe, no Nordeste, é o primeiro do tipo encontrado na América do Sul O fóssil do pássaro e a ilustração da ave (no detalhe) da espécie Enantiornithes, descoberta na Bacia do Araripe, no Nordeste, é o primeiro do tipo encontrado na América do Sul
Um fóssil de um pássaro do período Cretáceo foi encontrado na Bacia do Araripe, território que faz divisa entre o Ceará, Pernambuco e Piauí, no Nordeste do Brasil, por pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), passando a ser considerada a mais antiga ave brasileira. A bacia do Araripe é constituída de rochas de 115 milhões de anos. A descoberta foi publicada na revista científica "Nature" nesta terça-feira (2).

O pássaro da espécie Enantiornithes, de tamanho semelhante ao de um beija-flor, é o primeiro da espécie encontrado na América do Sul e remonta à era de Gondwana (massa de terra que deu origem à América do Sul, à África e à Austrália).

A maioria dos fósseis de aves do período Cretáceo foi recuperada no nordeste da China, cujas descobertas constituem quase tudo o que a Ciência sabe sobre a evolução precoce de penas nas aves.
No entanto, a descoberta em campo brasileiro vai além porque a imagem fossilizada tem formato tridimensional, o que ajuda a estudar mais detalhes do padrão evolutivo da espécie. Segundo o cientista Ismar Carvalho, professor do Departamento de Geologia da UFRJ, que lidera o estudo, o "fóssil 3D" proporciona um olhar sem precedentes para funções e para a estrutura da ave.

Pela imagem da cauda da ave, os cientistas interpretam que ela possa significar um componente sexual, porque não demonstrou ser eficaz para o voo. A estrutura óssea do fóssil indica também que o pássaro era provavelmente jovem.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A ave mais antiga do Brasil

Cientistas brasileiros e argentinos encontraram na Bacia do Araripe, no Ceará, o fóssil da ave mais antiga até hoje já registrada na América do Sul. Com 14 centímetros de comprimento, o novo espécime pertence ao grupo dos Enantiornithes
 
Por: Valentina Leite
Publicado em 03/06/2015 | Atualizado em 03/06/2015
A ave mais antiga do Brasil
A pequena ave pré-histórica, ainda sem nome científico, é uma representante do extinto grupo dos Enantiornithes. O fóssil foi encontrado na Bacia do Araripe, no Ceará, e é o mais antigo registro de ave na América do Sul. (ilustração: Deverson Pepi) 
 
Mesmo pequeno, um fóssil recém-descoberto no Ceará trouxe grandes novidades para a paleontologia brasileira. Encontrado em um estado raro de conservação excepcional, o exemplar mais antigo de uma ave brasileira foi escavado entre as rochas calcárias da Bacia do Araripe. A espécie, nova para a ciência, foi descrita na revista Nature Communications em uma colaboração de pesquisadores do Brasil e da Argentina.

Representante do grupo dos Enantiornithes – aves pré-históricas que diferem das atuais especialmente pelos ossos do peito –, o animal pré-histórico traz novas pistas para o estudo da evolução das aves na América do Sul, já que foi conservada grande parte de sua plumagem original. Além disso, aumenta significativamente a área do planeta que sabemos ter sido ocupada por aves durante a era Mesozoica (entre 251 e 65,5 milhões de anos atrás), mais especificamente no período Cretáceo, há 115 milhões de anos.
“Até hoje, todos os fósseis de espécies plumadas (que possuem penas) que haviam sido encontrados estavam localizados em rochas na China”, explica o paleontólogo Fernando Novas, do Museo Argentino de Ciências Naturales, um dos autores do estudo. “Pela primeira vez descobrimos uma no Brasil, o que amplia a área de alcance desses seres”.
Com duas asas proeminentes, olhos grandes, plumagem espessa e apenas 14 centímetros de comprimento – sendo oito apenas de cauda –, a espécie recém-descrita era menor do que um beija-flor e provavelmente alimentava-se de insetos que viviam na região onde foi encontrado. Análises ósseas indicam que o fóssil pertence a um exemplar jovem.
Fóssil Enantiornithes
Bem preservado, o fóssil mantém penas que carregam indícios de seu pigmento original. (foto: Ismar Carvalho)
“As penas, longas, têm um aspecto interessante: grânulos que se distribuem de maneira regular ao longo dela”, observa o geólogo Ismar Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que coordenou o estudo. Essa característica pode ser um indício dos pigmentos originais que davam cor à plumagem.
Além de terem sido muito bem preservadas nas rochas de calcário, as penas desta Enantiornithes deixaram sua impressão em um formato em três dimensões, raro nos fósseis encontrados até hoje. “Isso se deve aos mais diversos fatores, como baixa quantidade de oxigênio e águas cristalinas da bacia na época”, revela Carvalho.

O fóssil foi localizado em 2011, em pedreiras existentes na região do Crato, no município de Nova Olinda, que faz parte da Bacia Sedimentar do Araripe. “Nessa região têm sido descobertos excelentes registros”, pontua o cientista. “Isso ocorre por ser uma área de pedreiras, com sucessões de calcários laminados, que conservam esses seres durante milhões de anos”.
Pedreira na Bacia do Araripe
A ave foi encontrada em rochas de 115 milhões de anos, em pedreiras existentes na região do Crato, município de Nova Olinda. (foto: Ismar Carvalho)
Ele explica que essas rochas calcárias foram formadas a partir de uma precipitação química de carbonato de cálcio, num ambiente saturado em sais e que possibilitava a formação de uma lama muito fina, composta por calcita – um mineral comum de carbonato. “Naquela época, com clima quente e seco, o carbonato de cálcio se precipitava com facilidade, envolvendo os organismos e, posteriormente, transformando-se em rochas. Essa substância foi responsável por proteger grande parte dos registros fósseis encontrados atualmente na região”, diz. Hoje, essas rochas são amplamente usadas em construção civil, para pavimentação de ruas e residências.

Para Carvalho, a grande importância da descoberta reside no fato de ela enriquecer o entendimento da origem das aves Enantiornithes e sua distribuição paleobiogeográfica. “Além disso, também contribui para o estudo de aves do Brasil, da América do Sul e de Gondwana – supercontinente que unia América do Sul, África, Antártica e outras regiões do planeta”. Estamos diante, portanto, de uma pequena descoberta que pode fazer grande diferença! “Esse achado é uma joia da paleontologia brasileira e dificilmente há registros de tão boa qualidade como ele”.

Baixe o PDF:

http://www.nature.com/ncomms/2015/150526/ncomms8141/full/ncomms8141.html 

Valentina Leite
Instituto Ciência Hoje/ RJ
Finalmente, uma ave da Bacia do Araripe, no Ceará! Um exemplar completo, com penas e até pigmentação, do grupo dos Enantiornithes, encontrado no município de Nova Olinda.

Parabéns aos descobridores e pesquisadores! Esta escapou do tráfico de fósseis e veio iluminar a história das aves cretácicas no Gondwana:

Vídeo de divulgação com os paleontólogos Ismar Carvalho (UFRJ) e Fernando Novas (Museu Argentino de Ciências Naturais):

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Novo gigante voador do Nordeste

Pesquisadores descobrem no Ceará nova espécie de pterossauro que viveu há mais de 110 milhões de anos. O animal, batizado em homenagem a colunista da CH On-line, tinha crista e arcada dentária bem diferentes das de outros do mesmo grupo. 
 
Por: Isabelle Carvalho
Publicado em 06/10/2014 | Atualizado em 06/10/2014
Novo gigante voador do Nordeste
A nova espécie de pterossauro, descoberta no Nordeste brasileiro, distingue-se de outras pelo grande número de dentes e pelo tamanho da crista, que ocupa 40% de seu crânio. (ilustração: Maurílio Oliveira.
 
Um dos mais importantes depósitos paleontológicos do mundo, a bacia do Araripe, localizada em pleno Nordeste brasileiro, no sul do Ceará, já foi palco de inúmeras descobertas interessantes – inclusive muitos fósseis de pterossauros. A mais nova delas, feita por pesquisadores das universidades Federal de Pernambuco (UFPE), Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e Regional do Cariri (Urca), apresentou ao mundo um réptil voador que viveu há mais de 110 milhões de anos. O animal foi batizado de Maaradactylus kellneri, em homenagem ao paleontólogo do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e colunista da CH On-line Alexander Kellner.

Segundo uma das participantes da pesquisa, a bióloga Juliana Sayão, da Universidade Federal de Pernambuco, a origem do nome também remete a uma lenda dos índios Cariri, que viviam na mesma área do Ceará em que o fóssil foi encontrado. “Nessa história, Maara era uma índia enfeitiçada e condenada a viver na forma de uma serpente nos lagos da região”, diz. “Já a terminação dactylus vem do grego e significa ‘dedo’; e geralmente é usada para denominar as espécies de pterossauros.” Para completar, kellneri foi escolhido em homenagem a Kellner, orientador de Sayão e de outros dois pesquisadores envolvidos no estudo, publicado este mês na revista Zootaxa.

O fóssil, encontrado em 2010 no sítio São Gonçalo, no município de Santana do Cariri (CE), demorou um ano para ser retirado da rocha e é formado por um crânio quase completo e duas vértebras cervicais. Para estudar o animal, que tinha cerca de 6 metros de envergadura (da ponta de uma asa à outra), os pesquisadores utilizaram o chamado método cladístico, que permite estabelecer relações de uma espécie com outras de pterossauros.
Maaradactylus kellneri
No sítio paleontológico São Gonçalo, foram encontrados um crânio quase completo e duas vértebras cervicais de um indivíduo da nova espécie de pterossauro. (foto: Ascom/ UFPE)
“Comparamos esse indivíduo com outras 46 espécies, a partir de 110 características, para descobrirmos de qual grupo ele se aproxima mais fisicamente”, explica Sayão. “Como resultado, o novo pterossauro foi colocado dentro do agrupamento Anhagueritae, que conta com outras duas espécies, que tinham, assim como o Maaradactylus kellneri, a crista localizada no crânio anterior, como se fosse na ponta do que parece um ‘bico.’”

Pescador pré-histórico

O Maaradactylus kellneri tinha uma arcada dentária nunca vista antes. “Ele tinha 35 pares de dentes, quando o normal é entre 12 e 22, e os últimos grupos são organizados juntos, de três em três”, explica Sayão. Outra peculiaridade é que o animal tinha uma crista muito grande, que ocupava cerca de 40% de seu crânio.

Sayão: “Ele tinha 35 pares de dentes, quando o normal é entre 12 e 22”
Diante das características físicas da espécie, foi possível deduzir algumas informações sobre seus possíveis hábitos alimentares e sobre o ambiente em que viveu. “Acreditamos que se alimentava de peixes, pois com o crânio fino e alongado e muitos dentes, o animal podia romper a tensão da superfície da água e capturar os peixes, aprisionando-os com os dentes”, avalia Sayão. “No ambiente em que ele vivia, havia uma laguna com conexão com o oceano similar à lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, só que 10 vezes maior”, completa.

Para Sayão, além da importância científica, a descoberta representa uma grande conquista para o Nordeste do Brasil. “A nova espécie ajuda a entender como era a diversidade na região há 110 milhões de anos e a coletar mais informações sobre esse grupo que habitou a Terra no passado”, ressalta. “Mas mais do que isso, demonstra um grande amadurecimento da paleontologia no Nordeste e prova que existem paleontólogos ativos no Brasil inteiro, e não apenas concentrados no Sul e no Sudeste.”

Isabelle Carvalho
Ciência Hoje On-line

quinta-feira, 28 de junho de 2012

As bactérias que comiam pterossauros

Fósseis de microrganismos foram encontrados na crista de réptil voador que viveu há 115 milhões de anos
SALVADOR NOGUEIRA | Edição 196 - Junho de 2012
© VOLTAIRE PAES
Imperador dos ares: crista formada por osso e material fibroso

Uma das coisas mais empolgantes no estudo de fósseis é encontrar preservados os chamados tecidos moles – basicamente tudo o que não é osso no corpo do animal. Sua investigação permite descobertas mais concretas sobre como eram e viveram esses bichos extintos e, nesse sentido, a Formação Crato – na bacia do Araripe, no interior de Pernambuco, Piauí e Ceará – é prolífica. Um novo estudo ajuda a explicar por quê.

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade de São Paulo (USP) e do Centro de Pesquisas Paleontológicas da Chapada do Araripe encontraram traços de bactérias fossilizadas na crista de um pterossauro que viveu há cerca de 115 milhões de anos. O que aconteceu a esses microrganismos, acreditam, pode ajudar a compreender como tecidos moles foram tão bem preservados em pelo menos alguns dos fósseis achados na região.

O exemplar em questão pertence a uma espécie descrita em 1997 pelos paleontólogos Alexander Kellner e Diógenes de Almeida Campos, batizada de Tupandactylus imperator. Foi encontrado por trabalhadores da Mina Triunfo, próximo à cidade de Nova Olinda, no Ceará, e, apesar de ter sido danificado no momento da coleta, trata-se do melhor exemplar da espécie já encontrado.

O fóssil, que responde pelo código CPCA 3590 no acervo do Centro de Pesquisas Paleontológicas da Chapada do Araripe, se destaca pela enorme crista, que se manteve parcialmente fossilizada. Felipe Pinheiro, pesquisador da equipe de Cesar Schultz no Setor de Paleovertebrados da UFRGS, descreveu o fóssil no ano passado na Acta Palaeontologica Polonica. “Na época, não fazíamos ideia da presença das bactérias”, conta Pinheiro.
Foi somente quando Paula Sucerquia, da USP, fez as primeiras micrografias do fóssil que os pesquisadores notaram a presença de pequenas estruturas em forma de bastonetes na superfície do tecido mole fossilizado. A equipe então passou a investigar a hipótese de que se tratava mesmo de bactérias.
Há registros de fossilização bacteriana espalhados pelo mundo, mas até então nenhum provinha da Formação Crato. Anos atrás houve até quem interpretasse formas semelhantes, observadas em outros fósseis da região, como vestígios de microrganismos, mas investigações posteriores indicaram que poderia haver um engano – em vez de bactérias, o que se via nos outros fósseis seriam possivelmente melanossomos, organelas celulares contendo o pigmento melanina, que, por alguma razão, são extremamente resistentes à decomposição.

Não é o caso das pequenas estruturas encontradas no CPCA 3590. Com base na morfologia, elas foram identificadas como bactérias que estariam decompondo o tecido mole do pterossauro no fundo do então lago Araripe, logo após a morte do réptil voador mais de uma centena de milhões de anos atrás. Se a análise estiver correta, essa é a primeira evidência sólida de fossilização bacteriana proveniente daquela região.

Morte e preservação

A propósito, segundo os pesquisadores, a presença desses microrganismos pode ter permitido a preservação dos tecidos moles no fóssil. Há dois caminhos para que isso aconteça. Num deles, as bactérias que decompõem os animais produzem reações químicas que levam à mineralização dos tecidos. “Na maior parte dos casos, o tecido morto serve como sítio de deposição de fosfato e não é incomum a preservação de estruturas subcelulares, como fibras musculares e até núcleos celulares, com um grau elevado de fidelidade”, explica Pinheiro.

O caso do pterossauro, contudo, é outro. “As próprias bactérias caem em uma armadilha”, conta o pesquisador. “O fosfato que estava diluído se deposita na parede celular desses microrganismos. Isso causa a morte das bactérias, mas permite que elas sejam preservadas como fósseis”, explica o pesquisador, primeiro autor do novo artigo, publicado na revista Lethaia – International Journal of Paleonthology and Stratigraphy. Esse processo, chamado de autolitificação bacteriana, já não é tão gentil com os tecidos moles do animal em processo de fossilização. Como as bactérias formam uma espécie de molde fossilizado, é impossível estudar em detalhes microscópicos o que havia por baixo. Esse trabalho, somado a outros recentes, ajuda a derrubar um mito da paleontologia: o de que a boa preservação do fóssil está necessariamente associada à ausência de decomposição bacteriana.

Uma característica interessante das estruturas granulares – os fósseis das antigas bactérias – encontradas pelos pesquisadores é que algumas parecem se encontrar unidas duas a duas, como se estivessem em meio a um processo de replicação quando fossilizaram.

Embora os próprios pesquisadores admitam que essa evidência ainda é pouco conclusiva, ela é importante por sugerir que a fossilização talvez ocorra muito rapidamente – em horas ou dias após a morte do animal. Quase como uma gentileza da natureza, que permitiria a seres há muito extintos serem descobertos milhões de anos mais tarde.

Artigo científico

PINHEIRO, F. L. et al. Fossilized bacteria in a Cretaceous pterosaur headcrest. Lethaia. 2012.