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quinta-feira, 9 de março de 2017

Grupo da Unesp divulga censo de mamíferos em florestas imersas na cana-de-açúcar

09 de março de 2017

Karina Toledo  |  Agência FAPESP – Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) acabam de publicar um censo de mamíferos de médio e grande porte encontrados em 22 remanescentes florestais circundados por monocultura de cana-de-açúcar em São Paulo. A conclusão do estudo é “surpreendentemente positiva”, segundo Mauro Galetti, professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências, em Rio Claro.
O estudo, cujos resultados foram publicados na revista Biological Conservation, foi realizado com apoio da FAPESP. 

Grupo da Unesp divulga censo de mamíferos em florestas imersas na cana-de-açúcar Artigo publicado na revista Biological Conservation traz uma boa notícia: 90% das espécies esperadas para o Estado de São Paulo foram registradas em 22 fragmentos florestais circundados por monocultura de cana (foto: Tamanduá-Bandeira/Divulgação)

“Encontramos cerca de 90% de todas as espécies de mamíferos que são esperadas para o Estado de São Paulo. Nesses fragmentos ainda existem onça-pintada, tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), anta (Tapirus terrestris) e queixada (Tayassu pecari), ou seja, não há registro de extinção regional de espécies. Só não registramos algumas extremamente raras, como o tatu-canastra (Priodontes maximus)”, disse Galetti, que coordenou o estudo.

Porém, nem tudo é boa notícia. Conforme relatam os autores no artigo, nos fragmentos florestais pequenos são encontrados apenas entre 20% e 50% das espécies esperadas para o estado. Isso quer dizer que, em alguns casos, até 80% das espécies foram localmente extintas.

“Observamos que, quanto maior a área florestal remanescente, mais animais raros ela possui. Encontramos até mesmo um único registro do cachorro-vinagre (Speothos venaticus), algo não esperado nesses ambientes circundados pela cana-de-açúcar”, afirmou Gabrielle Beca, primeira autora do estudo.

Já nos fragmentos menores, acrescentou a pesquisadora, restam somente as espécies mais generalistas, como gambá (Didelphis albiventris) ou o tatu-galinha (Dasypus novemcimtus), que conseguem se adaptar a ambientes conturbados por não necessitarem de áreas tão grandes para encontrar alimento.

Metodologia

O trabalho de campo foi realizado durante o mestrado de Beca, sob orientação de Galetti, no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA-FAPESP).

Os remanescentes estudados vão desde a região de Presidente Prudente, no extremo oeste do estado, até São José do Rio Pardo, a leste, passando por regiões ao norte perto de Araçatuba e São José do Rio Preto.

“Visitamos esses 22 fragmentos e instalamos em cada um deles, no meio da mata, armadilhas fotográficas. Colocamos as máquinas automáticas onde havia grande possibilidade de os animais passarem, como locais com água ou próximos de árvores que estavam frutificando”, explicou Beca.
As câmeras foram retiradas após um mês e, para complementar o trabalho, foi feito um censo de pegadas deixadas nas bordas da floresta. “Há guias que permitem identificar a espécie pelo formato da pegada e o tipo de marca deixada e também fizemos avistamentos diretos dos animais”, contou Beca.

Ao todo, foram identificadas 29 espécies de mamíferos de médio e grande porte. Além das já mencionadas, foram observados também quati (Nasua nasua), tatuí (Cabassous tatouay), tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), ouriço-cacheiro (Coendou prehensilis), capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) e cutia (Dasyprocta azarae), entre outras.

“Também houve muitos registros de animais invasores, como o javaporco (Sus scrofa), um híbrido de javali com porco doméstico que se tornou uma praga no Brasil”, comentou Beca.

De acordo com uma pesquisa anterior do grupo de Galetti, o javaporco representa uma ameaça à saúde pública, pois se tornou uma importante fonte de alimento dos morcegos-vampiros (Desmodus rotundus), fazendo aumentar a população desses animais transmissores do vírus da raiva (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/ 24547). Além disso, segundo Beca, eles trazem impactos na agricultura e competem com outras espécies de mamíferos, como o cateto (Pecari tajacu) e a queixada.
“Outro registro problemático foi o de cães domésticos (Canis lupus familiaris), que são predadores de muitas espécies silvestres”, contou Beca.

Corredores ecológicos

Na avaliação de Galetti, os resultados do censo indicam que ainda há chances de preservar boa parte da fauna de mamíferos do Estado de São Paulo se forem criados corredores ecológicos para conectar os diversos fragmentos florestais.

“No momento, não é preciso reintroduzir animais que foram extintos, mas sim conectar essas paisagens por meio do plantio de corredores florestais para que os animais possam se achar e sobreviver. Caso contrário, essa fauna ficará ilhada e com o tempo haverá extinções de várias espécies”, disse o pesquisador.

Para Beca, os fragmentos que abrigam maior número de espécies devem ter prioridade nesse trabalho. “Espécies como a anta e a queixada prestam um importante serviço ecossistêmico, pois são dispersoras de sementes. Precisamos olhar para as áreas onde elas ocorrem e, a partir desses pontos, conectar com outros”, avaliou.

Segundo a pesquisadora, um bom começo seria colocar em prática medidas preconizadas pelo Novo Código Florestal (Lei Nº 12.651, de 2012).

“A lei estabelece, por exemplo, que deve ser preservada uma área de mata de 30 metros em volta dos rios. Mas no geral isso não tem sido respeitado, nem implementado”, afirmou Beca.
“Se todos cumprirem o Código Florestal e não perseguirem os animais silvestres, haverá uma enorme chance de São Paulo ser um exemplo que alie conservação da biodiversidade e produção agrícola” comentou Galetti.

O artigo High mammal species turnover in forest patches immersed in biofuel plantations (http://dx.doi.org/10.1016/j.biocon.2017.02.033), de Gabrielle Beca, Maurício H. Vancine, Carolina S. Carvalho, Felipe Pedrosa, Rafael Souza C. Alves, Daiane Buscariol, Carlos A. Peres, Milton Cezar Ribeiro e Mauro Galettim pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0006320717303117.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

As antas e o clima

Pesquisa relaciona extinção de espécies dispersoras de sementes e redução na capacidade das florestas tropicais de estocarem carbono. Previsões feitas para a mata atlântica brasileira sugerem que o desaparecimento de grandes mamíferos e aves teria impacto sobre as mudanças climáticas globais. 
 
Por: Catarina Chagas
Publicado em 18/12/2015 | Atualizado em 18/12/2015
As antas e o clima
A anta é um animal de grande porte, capaz de dispersar grandes sementes e, assim, ajudar na renovação das árvores de madeira dura da mata atlântica. Seu desaparecimento impacta diretamente a composição desse tipo de floresta. (foto: Mauro Galetti.
 
Pensou estoque de carbono, pensou... Árvore. Normal. Afinal, são os vegetais, especialmente aqueles de grande porte, os responsáveis por absorver o dióxido de carbono da atmosfera e transformá-lo, por meio da fotossíntese, em oxigênio. As florestas são o lugar óbvio para que isso aconteça com maior intensidade, já que reúnem uma densidade maior de árvores por área. Até aí, ponto pacífico. No entanto, um estudo pioneiro realizado na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro mostrou que a fauna, em especial os grandes animais, também tem tudo a ver com a capacidade de sequestro de carbono das matas.

O argumento fundamental é simples: como várias espécies animais atuam como dispersoras de sementes, elas têm um papel fundamental na renovação das árvores de uma floresta, o que está diretamente relacionado à capacidade que tal floresta terá de estocar carbono no futuro. De maneira geral, as espécies maiores de árvores, de madeira mais densa, têm frutos com sementes também maiores e, por isso, precisam de animais maiores para dispersá-las. São elas as responsáveis pela maior parte da renovação de gás carbônico de uma floresta e, portanto, aquelas cujo desaparecimento ou redução populacional causam maior impacto sobre o estoque de carbono de sua região.
Sequestro de carbono
Nas florestas onde a fauna é preservada, a dispersão das grandes sementes é realizada por animais de grande porte. A presença de árvores de madeira dura aumenta a capacidade da mata de absorver gás carbônico. (gráfico: Mauro Galetti – tradução livre)
Ao mesmo tempo, as grandes espécies animais – especialmente de mamíferos e aves – são também as mais ameaçadas de sumir do mapa, por fatores como a caça predatória e o tráfico ilegal. Quando uma espécie dessas desaparece ou diminui sensivelmente sua população, o resultado não é apenas uma floresta mais vazia do ponto de vista da fauna: em médio prazo, a própria renovação das árvores fica comprometida. Trocando em miúdos, a floresta não sobrevive sem esses seus habitantes.
Quando um grande animal desaparece ou diminui sua população, a renovação das árvores fica comprometida
 
Não é de hoje que os cientistas desconfiam desta relação entre a fauna e o sequestro de CO2 nas florestas. Mas foi o trabalho realizado no Departamento de Ecologia da Unesp de Rio Claro, publicado hoje (18/12) na revista Science Advances, que estabeleceu pela primeira vez um modelo matemático para descrever os possíveis impactos da extinção de grandes espécies animais sobre os estoques de carbono das florestas e, consequentemente, sobre a dinâmica das mudanças climáticas globais.

Cenários possíveis

O estudo tomou como exemplo a mata atlântica, um dos biomas mais ameaçados do Brasil, sobre o qual a equipe dispunha de uma grande quantidade de dados acerca da dinâmica de dispersão de sementes e renovação das árvores. Os cientistas identificaram, então, as grandes espécies animais envolvidas nesse processo e simularam como ficaria a floresta se, nos próximos anos, elas desaparecessem.
Floresta defaunada
A extinção de espécies dirigida pela ação humana atinge especialmente os grandes animais. Como consequência direta, desaparecem também as árvores de madeira dura. (gráfico: Mauro Galetti – tradução livre)
Foram criados dois cenários possíveis. O primeiro considerava a extinção randômica de espécies animais, como ocorreria naturalmente em um ambiente pouco impactado pela ação humana. Já o segundo – que apresentou os resultados mais catastróficos – considerava o desaparecimento de espécies alvo da caça e do tráfico ilegal.
Na mata atlântica, são exemplos de árvores de madeira dura as canelas, os jatobás, os abricós-de-macaco e as maçarandubas, todas com frutos de grandes sementes dispersadas por grandes animais. Seu desaparecimento ocasionaria uma alteração fundamental na composição da mata – com a substituição destas por espécies de madeira mole, o bioma seria muito mais pobre em carbono.

“Imagine que uma floresta tem 100 árvores, sendo 20 dispersadas por grandes mamíferos e que produzem madeira dura (de lei). Simulamos a extinção, por exemplo, da anta, que dispersa essas árvores com sementes grandes”, explicou à CH Online o ecólogo Mauro Galetti, líder da pesquisa. “Essas árvores um dia morrem e são substituídas por outras espécies de madeira mole, como a embaúba. No final, existe um déficit de carbono, porque as madeiras de lei armazenam mais carbono que as madeiras moles”.
Sementes de jatobá
Sementes de jatobá. (foto: Mauro Galetti)
Segundo o trabalho, mesmo uma remoção pequena de espécies de madeira dura já afetaria o estoque de carbono total da floresta. Ainda que algumas árvores de madeira dura tenham sementes pequenas, capazes de se dispersar pelo vento ou com a ajuda de pequenos animais – é o caso da família das Myrtaceae, que inclui goiabeiras, jabuticabeiras e araçás –, a maior parte delas tem sementes maiores, e sua população é diretamente impactada pelo desaparecimento de espécies como muriqui (Brachyteles arachnoides), anta (Tapirus terrestris) e jacutinga (Aburria jacutinga).

Novas diretrizes

Embora as simulações tenham sido feitas com base em dados da mata atlântica, os autores do trabalho apontam que estudos realizados com outros biomas possivelmente encontrariam resultados parecidos. “Certamente este deve ser um fenômeno que ocorre também nas florestas da África e da Amazônia”, aposta Galetti. “Nessas regiões, o problema pode ser até mais grave, porque nessas áreas não existem muitas espécies de Myrtaceae”.

As previsões alertam para a necessidade de uma mudança na forma como pensamos hoje a preservação das florestas
As previsões alertam para a necessidade de uma mudança na forma como pensamos hoje a preservação das florestas. Além da exploração madeireira e das queimadas, cujo impacto sobre os estoques de carbono florestais já é bem documentado na literatura, as ameaças à fauna devem ser compreendidas como um problema da mesma gravidade. Segundo os autores do artigo, florestas de aparência intacta, mas com prejuízos na fauna, também devem ser consideradas degradadas. Campanhas de combate às alterações climáticas com foco no armazenamento de carbono em florestas tropicais devem, portanto, inserir a preservação dos animais em seus programas.

No futuro, a equipe da Unesp pretende estimar o custo do serviço de cada espécie dispersora de sementes no sequestro de carbono. “Quanto vale (em dólares) a dispersão de sementes do muriqui? E da anta? Falamos muito nos serviços de abelhas e podemos até quantificar quanto custaria em prejuízo a extinção delas para plantações, mas quanto custaria a perda de serviços de dispersão de sementes?”, questiona o coordenador do grupo.

Catarina ChagasInstituto Ciência Hoje/ RJ

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Onde está a anta-pretinha

Ainda controversa, nova espécie é mais disseminada na Amazônia do que se pensava
IGOR ZOLNERKEVIC | Edição 225 - Novembro de 2014
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© ILUSTRAÇÕES SANDRO CASTELLI
Nem tanto ao campo nem à floresta: a anta-pretinha é encontrada em regiões de transição entre áreas de vegetação aberta e matas mais densas
Nem tanto ao campo nem à floresta: a anta-pretinha é encontrada em regiões de transição entre áreas de vegetação aberta e matas mais densas.

A descrição de uma nova espécie de anta vivendo na Amazônia, a anta-pretinha, publicada em dezembro do ano passado na revista Journal of Mammalogy, foi celebrada por muitos como a descoberta mais extraordinária da zoologia deste século. Afinal, seria a primeira espécie de anta identificada desde 1865 e o maior animal descoberto pela ciência desde 1992, quando pesquisadores descreveram o saola, um bovino das florestas do Vietnã e do Camboja.

O trabalho foi fruto de 10 anos de esforços de uma equipe liderada por Mario Cozzuol, paleontólogo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele e seus colaboradores divulgarão neste mês novos dados sobre a ecologia e a genética da anta-pretinha, espécie que descreveram e batizaram com o nome científico de Tapirus kabomani, no Simpósio Internacional de Antas da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), evento que acontece em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Entre os dados estão fotos, vídeos e medidas inéditas de antas-pretinhas vivendo nos estados do Pará e de Roraima, assim como na Bolívia, sugerindo que há populações do animal espalhadas por quase toda a Amazônia do Brasil e dos países vizinhos.

Essas evidências também confirmam que, ao contrário da espécie mais conhecida de anta sul-americana, a Tapirus terrestris, cujas populações escolhem entre viver no interior da mata fechada e em campos abertos, a T. kabomani prefere regiões de paisagem mais variada, onde há um mosaico de áreas abertas e fechadas. “Todos os lugares em que encontramos a espécie são assim”, diz Cozzuol. “Pode ser uma coincidência, mas talvez a T. kabomani tenha mesmo um comportamento diferente da T. terrestris.”

Nem todos os especialistas em mamíferos estão convencidos de que a anta-pretinha existe como espécie independente. Alguns pesquisadores acreditam que elas seriam apenas exemplares da espécie T. terrestris um pouco mais baixas e escuras que a média. Durante o evento da IUCN, Cozzuol participará de uma mesa-redonda sobre a validade da nova espécie. A discussão pode parecer uma questão taxonômica bizantina, mas de fato vai tentar responder a uma pergunta prática: vale a pena incluir a T. kabomani na lista vermelha de animais ameaçados de extinção da IUCN e, para protegê-la, adotar medidas diferentes das que estão sendo tomadas para preservar a T. terrestris?
Embora não sofra perigo eminente de extinção, a carne saborosa, o enorme tamanho (é o maior animal nativo da América do Sul) e o longo período de gestação fazem da anta-brasileira um animal muito vulnerável à caça excessiva e à perda de hábitat. A espécie corre sério risco de desaparecer em vários pontos do país nas próximas décadas, como já aconteceu nas regiões Nordeste e em boa parte das regiões Sul e Sudeste. Sua extinção local pode afetar toda a biodiversidade de uma região, pois, sendo um herbívoro de grande apetite, a anta ajuda a espalhar sementes nos campos e florestas.

O debate na verdade dará sequência ao vivo a uma discussão que começou por escrito, primeiro num grupo fechado para pesquisadores no Facebook e posteriormente em artigos na edição de agosto do Journal of Mammalogy. Um grupo de pesquisadores liderado por Robert Voss, zoólogo do Museu de História Natural Americana (AMNH), refez parte das análises da equipe de Cozzuol e defende que a espécie não existe.
“Teriam várias gerações de mastozoólogos neotropicais realmente falhado em reconhecer uma espécie amplamente distribuída pela Amazônia?”, perguntam Voss e coautores em seu artigo. “Sim, não reconheceram, lamento”, responde Cozzuol, que rebateu as críticas na mesma edição da revista. “Isso já aconteceu antes e vai acontecer de novo, não é pecado.”

Crânio estranho

A busca pela confirmação da existência da anta-pretinha começou por acaso, em 2002, quando Cozzuol era professor na Universidade Federal de Rondônia (Unir) e colocou sua aluna de iniciação científica Elizete Holanda, atualmente paleontóloga da Universidade Federal de Roraima, para estudar um crânio fóssil de 45 mil anos, encontrado no rio Madeira, que pertencia a uma espécie extinta de anta. Comparando o fóssil com os de outras espécies de anta extintas e vivas, Elizete descobriu na coleção da Unir outro crânio com dimensões estranhas, que não combinavam com o esperado para nenhuma espécie conhecida.
O crânio havia sido coletado em uma vila de pescadores ao norte de Porto Velho, com um furo de bala e outras marcas feitas por caçadores. O pai de Elizete, que havia sido seringueiro, comentou sobre outro tipo de anta que conhecia, uma pretinha, que caçava por ter carne mais saborosa que a da anta-comum. “Foi quando começamos a perceber que todos da região diziam que havia dois tipos de anta”, diz Cozzuol.
“A maioria dos biólogos que trabalhavam com mamíferos da região sabia disso, mas não acreditava nas pessoas”, lembra o paleontólogo. O principal motivo para os pesquisadores ignorarem o que o povo dizia é que há mesmo uma grande variação de cor e tamanho entre os exemplares de antas de uma mesma espécie. Além disso, parecia improvável para os pesquisadores que duas espécies muito semelhantes ocupassem o mesmo ambiente, pois a concorrência por alimento e espaço levaria uma delas à extinção. “Mas como sou paleontólogo e sei que há registros fósseis de espécies de antas diferentes vivendo simultaneamente em uma mesma região nas Américas, não me ative a essa suposição”, conta Cozzuol.
Era preciso verificar o que acontece hoje na natureza, mas Cozzuol não obteve licença para capturar um animal vivo da provável nova espécie e comparar com o crânio que Elizete encontrara. Só mais tarde conseguiu recursos para realizar expedições na Amazônia, em colaboração com a equipe do geneticista Fabrício Santos e do ecólogo Flávio Rodrigues, ambos da UFMG. Nessas viagens os pesquisadores combinaram com caçadores locais para que os avisassem no caso de abaterem uma anta-pretinha. Assim, os pesquisadores poderiam recolher ossos, peles e amostras de DNA da carne. Já no primeiro contato, um caçador os levou até a carcaça de uma delas, abatida algumas semanas antes. “O crânio tinha as características que esperávamos”, diz Cozzuol.

A suspeita também se confirmou durante visitas a aldeias dos indígenas Karitiana, em Rondônia, que empilham os crânios de suas caças como troféus. “Havia duas pilhas para as antas, uma delas com as medidas esperadas para a pretinha”, lembra Cozzuol, que batizou a espécie em homenagem ao nome dado a ela por outros índios, os Paumari: Arabo kabomani.

Os pesquisadores sabiam, entretanto, que precisariam de muito mais evidências para convencer seus colegas de que a hipótese de uma nova espécie merecia ser levada a sério. “Uma espécie biológica é um conjunto de populações que possuem uma história evolutiva separada das outras, não é algo que dê para observar diretamente”, explica  Cozzuol. “É preciso testar a hipótese integrando análises de genética, morfologia e de outras áreas.”

Para verificar a existência da nova espécie, os pesquisadores compararam medidas dos crânios de antas-pretinhas com as de crânios de outras quatro espécies vivas e alguns fósseis de antas. Compararam também as sequências de três genes do DNA mitocondrial de quatro pretinhas com os mesmos genes de dezenas de antas de todas as espécies, obtidas no banco de dados aberto GenBank. “A maioria dos estudos com antas usa apenas um gene mitocondrial”, explica Cozzuol. Seja pela forma de seu crânio ou pelo seu DNA, a pretinha despontava como um animal diferente das outras espécies.

A conclusão do estudo foi uma revisão da história natural das antas. As antas são consideradas fósseis vivos, pois não mudaram muito desde que surgiram há 50 milhões de anos, tendo sobrevivido à extinção da fauna de animais enormes que habitavam as Américas até 10 mil anos atrás. 

Além da nova T. kabomani, hoje existem apenas quatro espécies:

A anta-asiática (T. indicus), na Malásia; a centro-americana (T. bairdii); a anta-da-montanha (T. pinchaque), que vive nos Andes, entre Peru, Equador e Colômbia; e a anta-brasileira (T. terrestris), presente em quase todos os biomas tropicais da América do Sul. Os ancestrais da T. kabomani teriam se separado dos ancestrais das antas brasileira e de montanha há pelo menos 300 mil anos.


Não é preciso ser um caçador amazônico para distinguir a olho a T. kabomani da T. terrestris. A pretinha é bem menor, mais baixa e com pernas mais curtas que a T. terrestris. Sua pele é mais escura, a crina mais baixa e a testa mais larga. Os machos de todas as espécies de antas tendem a ser um pouco menores que as fêmeas e essa diferença de tamanho entre os sexos é mais acentuada entre as pretinhas. Outra diferença entre os sexos é uma mancha branca na cabeça, que se estende da bochecha até o pescoço, uma exclusividade das fêmeas. “Alguns indivíduos de T. terrestris têm manchas nas bochechas, mas elas não são tão nítidas e podem aparecer em ambos os sexos”, explica Cozzuol.

Evidências suficientes?

Nada convencidos com os indícios de uma nova espécie, Voss e seus colegas contestam todas essas conclusões. Eles reexaminaram os mesmos dados genéticos usando um método estatístico alternativo e concluíram que as diferenças entre as sequências de DNA são pequenas demais para considerar a pretinha como uma espécie separada.

Cozzuol explica que sua equipe refez a análise usando a mesma técnica que Voss, a cujos detalhes só teve acesso após a publicação do artigo e que portanto não constam de sua réplica na mesma edição da revista. Seus resultados foram diferentes e continuam a confirmar a existência de T. kabomani. “Ainda não entendi como eles chegaram aos resultados”, diz Cozzuol. Ele também reclama de criticarem seus dados de medições de crânios sem replicá-los. “O AMNH possui uma coleção muito maior de T. terrestris do que nós”, diz. “Não demoraria uma semana para tomarem os dados e verificarem nossa análise.”

“Continuo convencido de que não é uma espécie válida”, diz Voss. “A evidência genética é nula.” Ele acredita que a hipótese deveria ser testada usando também o DNA do núcleo das células, além daquele das mitocôndrias já analisado. Cozzuol e Santos estão analisando justamente isso no momento, mas já concluíram que não é possível distinguir nenhuma espécie de anta sul-americana pelos genes de DNA de núcleo normalmente usados como marcadores nesse tipo de estudo, o que significa que precisarão buscar por diferenças em sequências de DNA nuclear menos conhecidas. “Os argumentos dele não se sustentam e vão além das exigências razoáveis”, diz Cozzuol. “Não tenho dúvida de que poderíamos ter feito melhor, mas outras espécies já foram descritas recentemente com muito menos detalhes e informações.”
“A evidência etnográfica também não me convence”, afirma Voss. “Indígenas amazônicos rotineiramente superdiferenciam os animais grandes que caçam.” Para defender esse ponto, Cozzuol teve ajuda do etnozoólogo Hugo Fernandes-Ferreira, que deve concluir neste ano uma tese de doutorado na Universidade Federal da Paraíba sobre a história da caça a animais silvestres no Brasil. Fernandes-Ferreira explica que a superdiferenciação a que Voss se refere é a tendência de povos indígenas a darem nomes diferentes para animais que identificam com aparência diferente, mas que na verdade são apenas variações dentro de uma mesma espécie.
Um exemplo são as onças-pintadas claras e pretas, pertencentes à mesma espécie biológica, mas consideradas animais diferentes pela maioria dos povos da Amazônia. As antas, no entanto, são caçadas por conta de sua carne saborosa e em decorrência de partes do animal terem uso medicinal, mágico e religioso. “As pessoas analisam com mais cuidado os animais que consideram úteis”, diz Fernandes-Ferreira. “Além disso, essa diferenciação entre uma anta grande e cinza e outra pretinha é difundida em quase todos os povos da Amazônia.”
“De índios, ribeirinhos, seringueiros e fazendeiros sempre ouvi dizerem que há duas espécies de anta”, diz Cozzuol. “Os indígenas Uru-Eu-Wau-Wau, por exemplo, vivem em uma área onde só há um tipo de anta, mas afirmam que sabem que em outros lugares há dois tipos.”

De outros tempos

Fernandes-Ferreira também encontrou registros históricos de caçadores e naturalistas mencionando duas espécies de antas no Brasil. O mais antigo é de 1794, no qual naturalista brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira relata à coroa portuguesa a existência de duas espécies de anta na província do Grão-Pará, onde atualmente fica o estado do Amazonas.

Outro relato histórico importante é o do presidente norte-americano Theodore Roosevelt, que menciona em suas memórias da visita ao Brasil em 1912 ter caçado no Mato Grosso uma anta, “um macho muito menor do que o outro que matei” e que “os caçadores disseram ser de um tipo diferente”.
As antas abatidas por Roosevelt foram doadas ao AMNH e analisadas pelo zoólogo Joel Allen, em 1914, que considerou o animal menor apenas como uma variação da T. terrestris. “Tivemos acesso às medidas desse exemplar e elas batem perfeitamente com o que esperamos da T. kabomani”, diz Cozzuol.
“A posição que defenderemos no painel da IUCN é que, se há a mínima possibilidade de que exista uma espécie diferente e a ignorarmos, podemos acabar condenando uma parte importante da biodiversidade da Amazônia sem ainda tê-la conhecido direito”, explica Cozzuol. “Na Nova Zelândia, houve um caso semelhante: achava-se que o tuatara, um tipo de réptil primitivo parente dos lagartos, era uma espécie só, até que ações de conservação que funcionavam em algumas regiões deram errado em outras. É porque havia na verdade duas espécies de tuatara com requisitos diferentes.”
“Sim, se há realmente duas espécies válidas de antas amazônicas, então elas deveriam ser manejadas separadamente”, concorda Voss. “Entretanto, dado que não há uma estratégia eficaz de manejo para nenhum mamífero amazônico, a proteção do hábitat parece a melhor abordagem.”

Artigos científicos

COZZUOL, M. A. et al. A new species of tapir from the Amazon. Journal of Mammalogy. v. 94, n. 6, p. 1331-45. dez. 2013.

VOSS, R. S. et al. Extraordinary claims require extraordinary evidence: a comment on Cozzuol et al. (2013). Journal of Mammalogy. v. 95, n. 4, p. 893-8. ago. 2014.

COZZUOL, M. A. et al. How much evidence is enough evidence for a new species? Journal of Mammalogy. v. 95, n. 4, p. 899-905. ago. 2014.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Nova espécie de anta da Amazônia

Animal é a quinta espécie do gênero e a primeira a ser identificada em 150 anos
RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | Edição Online 11:49 19 de dezembro de 2013

© COZZUOL, M. A. ET AL.
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A “pretinha”, como a nova espécie ficou conhecida, há tempos é caçada por índios e outros moradores da região da Amazônia

Uma espécie de anta há muito conhecida pelas comunidades ribeirinhas e indígenas de Rondônia e Amazonas foi agora descrita por pesquisadores em um estudo publicado dia 17 na revista Journal of Mammalogy.

A Tapirus kabomani, como foi batizada, é a quinta espécie do gênero e a primeira a ser identificada em 150 anos. O animal até então era considerada uma variação da Tapirus terrestris, maior mamífero terrestre da América do Sul, com 2 metros de comprimento e 300 quilos (kg).

Sob coordenação do paleontólogo Mário Alberto Cozzuol e do biólogo Fabrício Rodrigues dos Santos, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), os pesquisadores analisaram amostras de tecidos e do crânio do animal, fornecidos pelos índios Karitiana e outros moradores da região, que há décadas caçam o bicho.

Apesar das semelhanças, a T. kabomani é bastante diferente da anta comum — é menor, com um peso 200 kg menor e pelagem mais escura. Segundo Cozzuol, diferentemente da espécie mais comum, a Tapirus kabomani parece preferir áreas abertas junto às florestais nos estados de Rondônia, Amazonas, Amapá, Mato Grosso e na Amazônia colombiana. “Há relatos da ocorrência desse animal na Amazônia do Peru e da Bolívia, assim como é possível que ocorra em toda a Amazônia”, conta o paleontólogo.

A distribuição e o hábitat específico da nova espécie ainda serão estudados. “Ainda não é possível dizer o número de indivíduos dessa nova espécie no Brasil porque os estudos estão apenas começando”, diz Cozzuol. “Por isso precisamos avaliar se ela corre algum risco de extinção, já que sua distribuição parece ser mais restrita que a da anta comum por causa da agricultura, do desmatamento e de grandes obras de infraestrutura”, diz.

As antas são importantes para a manutenção dos ecossistemas em que vivem por agirem como dispersores de sementes, auxiliando na preservação das espécies vegetais. Elas servem de alimento para grandes predadores, como as onças-pintadas, e também para as populações nativas.

Artigo científico

COZZUOL, M. A. et al. A new species of tapir from the Amazon. Journal of Mammalogy v. 94, n.6, p. 1331-1345. dez. 2013

domingo, 7 de agosto de 2011

Uma anta pré-histórica
Oeste da Amazônia pode ter abrigado espécie extinta do herbívoro há 40 mil anos
 

Fóssil de Tapirus rondoniensis 
O território nacional abriga atualmente apenas uma das quatro espécies vivas de anta, a Tapirus terrestris, considerada o maior mamífero terrestre da América do Sul com seus dois metros de comprimento e até 300 quilos. Mas há 40 mil anos, durante a época geológica denominada Pleistoceno Superior, pode ter existido uma forma distinta desse grande herbívoro na porção ocidental da Região Norte, perto da divisa com a Bolívia, onde hoje se situa o estado de Rondônia. Um fóssil de uma nova espécie extinta desse mamífero foi descrito por pesquisadores brasileiros em artigo publicado na edição de fevereiro da revista científica norte-americana Journal of Mammalogy. Oriunda de uma antiga zona de garimpo às margens do rio Madeira, a anta amazônica foi batizada de Tapirus rondoniensis em homenagem à unidade da federação em que seu único exemplar foi encontrado.

Em linhas gerais, a provável nova espécie guardava muitas semelhanças anatômicas com a T. terrestris, comumente denominada anta brasileira, que hoje está presente em quase todo o território nacional e em países vizinhos da América do Sul. “Ela deve ter sido bem parecida com a nossa anta atual”, afirma a paleontóloga Ana Maria Ribeiro, da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, uma das autoras do artigo. Mas a sua dentição e o crânio exibem traços primitivos em comum com a T. pinchaque, a menor das espécies vivas de anta e a única a habitar fora de áreas de floresta, mais precisamente na região dos Andes entre a Colômbia, o Equador e o Peru. A T. rondoniensis tinha uma testa mais larga e uma crista menor do que a da anta brasileira e seu segundo dente pré-molar superior apresentava uma cúspide reduzida. “No passado, a anta brasileira e essa nova espécie fóssil devem ter coexistido em certas partes da Amazônia”, diz Elizete Holanda, professora do Departamento de Geologia da Universidade Federal de Roraima (UFRR), outra responsável pelo trabalho científico.

Compostos por um crânio quase completo e bem preservado do mamífero, os vestígios da nova espécie extinta de anta fazem parte do acervo paleontológico da Universidade Federal de Rondônia (Unir). Os restos do antigo herbívoro foram resgatados por garimpeiros nos anos 1970. Os mineiros estavam à procura de ouro na localidade de Araras, pertencente ao município de Nova Mamoré, na margem direita do rio Madeira. Essa região possui ricos depósitos fósseis de animais vertebrados e também de plantas, que ocorrem em geral numa camada de rochas sedimentares ricas em areia e calcário situada 10 metros abaixo da superfície. Nesse nível também está o ouro que os garimpeiros tanto procuram. Segundo Elizete, que concluiu a graduação na Unir no início da década passada, quando teve o primeiro contato com o crânio da T. rondoniensis, os fósseis que não foram destruídos pelo processo de extração do minério acabaram nas mãos de colecionadores particulares ou na coleção da universidade. Por sorte, o crânio da anta amazônica teve o segundo destino.
O biólogo Mário de Vivo, curador da seção de mamíferos do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), não está convencido de que o fóssil de anta oriundo de Rondônia pertença a uma nova espécie, ainda que extinta, desse herbívoro. Embora as diferenças entre a T. rondoniensis e a T. terrestris sejam reais e possam indicar que se trata de duas formas de anta realmente distintas, o pesquisador pondera que a descrição de apenas um único exemplar da suposta nova espécie não permite uma boa avaliação da variação morfológica presente no crânio da anta rondoniense. Para ele, as diferenças na dentição e no tamanho da crista do antigo herbívoro resgatado nos arredores do rio Madeira podem se dever a variações anatômicas intrínsecas à própria população de T. terrestris. “Não é impossível que o fóssil de Rondônia represente uma nova espécie de anta, mas eu gostaria de ver mais esqueletos com essas características”, pondera De Vivo. Segundo o paleontólogo Jorge Ferigolo, da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul e também autor do artigo no Journal of Mammalogy, a antiga anta da Amazônia é suficientemente distinta da brasileira. “Pequenos detalhes podem distinguir uma espécie de outra”, afirma Ferigolo.
A classificação taxonômica de seres vivos em famílias, gêneros e espécies é uma atividade sempre sujeita a debates. Consensos demoram a se formar e revisões são frequentes. Além da proposta de que houve uma anta particular da região amazônica num momento da Pré-história nacional, Elizete também defende a ideia de que outra possível espécie extinta desse herbívoro, a T. cristatellus, habitava uma zona de transição entre o Sudeste e o Nordeste mais ou menos nesse mesmo período. Novos exemplares dessa forma de anta, que possuía uma crista sagital muito baixa, foram recentemente encontrados em cavernas da Bahia. Até então, crânios de T. cristatellus – ainda hoje não reconhecida como uma espécie válida por muitos especialistas, que preferem considerá-la como uma variante da anta brasileira – tinham sido achados apenas na região mineira de Lagoa Santa, perto de Belo Horizonte. Se essa hipótese estiver correta, o território nacional pode ter abrigado concomitantemente três espécies diferentes de anta há 40 mil anos: a brasileira, ainda viva, a da Amazônia e a do Sudeste-Nordeste, ambas extintas.


Artigo científicoHolanda, E.C. et al. New Tapirus species (Mammalia: Perissodactyla: Tapiridae) from the upper Pleistocene of Amazonia, Brazil. Journal of Mammalogy. v. 92, n. 10, p. 111-20. fev. 2011