Onde está a anta-pretinha
Ainda controversa, nova espécie é mais disseminada na Amazônia do que se pensava
IGOR ZOLNERKEVIC |
Edição 225 - Novembro de 2014
© ILUSTRAÇÕES SANDRO CASTELLI

Nem
tanto ao campo nem à floresta: a anta-pretinha é encontrada em regiões
de transição entre áreas de vegetação aberta e matas mais densas.
A descrição de uma nova espécie de anta vivendo na Amazônia, a anta-pretinha, publicada em dezembro do ano passado na revista
Journal of Mammalogy,
foi celebrada por muitos como a descoberta mais extraordinária da
zoologia deste século. Afinal, seria a primeira espécie de anta
identificada desde 1865 e o maior animal descoberto pela ciência desde
1992, quando pesquisadores descreveram o
saola, um bovino das florestas
do Vietnã e do Camboja.
O trabalho foi fruto de 10 anos de esforços de uma equipe liderada
por Mario Cozzuol, paleontólogo da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG). Ele e seus colaboradores divulgarão neste mês novos dados sobre a
ecologia e a genética da anta-pretinha, espécie que descreveram e
batizaram com o nome científico de
Tapirus kabomani, no
Simpósio Internacional de Antas da União Internacional para Conservação
da Natureza (IUCN), evento que acontece em Campo Grande, no Mato Grosso
do Sul. Entre os dados estão fotos, vídeos e medidas inéditas de
antas-pretinhas vivendo nos estados do Pará e de Roraima, assim como na
Bolívia, sugerindo que há populações do animal espalhadas por quase toda
a Amazônia do Brasil e dos países vizinhos.
Essas evidências também confirmam que, ao contrário da espécie mais conhecida de anta sul-americana, a
Tapirus terrestris, cujas populações escolhem entre viver no interior da mata fechada e em campos abertos, a
T. kabomani
prefere regiões de paisagem mais variada, onde há um mosaico de áreas
abertas e fechadas. “Todos os lugares em que encontramos a espécie são
assim”, diz Cozzuol. “Pode ser uma coincidência, mas talvez a
T. kabomani tenha mesmo um comportamento diferente da
T. terrestris.”
Nem todos os especialistas em mamíferos estão convencidos de que a
anta-pretinha existe como espécie independente. Alguns pesquisadores
acreditam que elas seriam apenas exemplares da espécie
T. terrestris
um pouco mais baixas e escuras que a média. Durante o evento da IUCN,
Cozzuol participará de uma mesa-redonda sobre a validade da nova
espécie. A discussão pode parecer uma questão taxonômica bizantina, mas
de fato vai tentar responder a uma pergunta prática: vale a pena incluir
a
T. kabomani na lista vermelha de animais ameaçados de
extinção da IUCN e, para protegê-la, adotar medidas diferentes das que
estão sendo tomadas para preservar a
T. terrestris?

Embora
não sofra perigo eminente de extinção, a carne saborosa, o enorme
tamanho (é o maior animal nativo da América do Sul) e o longo período de
gestação fazem da anta-brasileira um animal muito vulnerável à caça
excessiva e à perda de hábitat. A espécie corre sério risco de
desaparecer em vários pontos do país nas próximas décadas, como já
aconteceu nas regiões Nordeste e em boa parte das regiões Sul e Sudeste.
Sua extinção local pode afetar toda a biodiversidade de uma região,
pois, sendo um herbívoro de grande apetite, a anta ajuda a espalhar
sementes nos campos e florestas.
O debate na verdade dará sequência ao vivo a uma discussão que
começou por escrito, primeiro num grupo fechado para pesquisadores no
Facebook e posteriormente em artigos na edição de agosto do
Journal of Mammalogy.
Um grupo de pesquisadores liderado por Robert Voss, zoólogo do Museu de
História Natural Americana (AMNH), refez parte das análises da equipe
de Cozzuol e defende que a espécie não existe.
“Teriam várias gerações de mastozoólogos neotropicais realmente
falhado em reconhecer uma espécie amplamente distribuída pela
Amazônia?”, perguntam Voss e coautores em seu artigo. “Sim, não
reconheceram, lamento”, responde Cozzuol, que rebateu as críticas na
mesma edição da revista. “Isso já aconteceu antes e vai acontecer de
novo, não é pecado.”
Crânio estranho
A busca pela confirmação da existência da anta-pretinha começou
por acaso, em 2002, quando Cozzuol era professor na Universidade
Federal de Rondônia (Unir) e colocou sua aluna de iniciação científica
Elizete Holanda, atualmente paleontóloga da Universidade Federal de
Roraima, para estudar um crânio fóssil de 45 mil anos, encontrado no rio
Madeira, que pertencia a uma espécie extinta de anta. Comparando o
fóssil com os de outras espécies de anta extintas e vivas, Elizete
descobriu na coleção da Unir outro crânio com dimensões estranhas, que
não combinavam com o esperado para nenhuma espécie conhecida.
O crânio havia sido coletado em uma vila de pescadores ao norte de
Porto Velho, com um furo de bala e outras marcas feitas por caçadores. O
pai de Elizete, que havia sido seringueiro, comentou sobre outro tipo
de anta que conhecia, uma pretinha, que caçava por ter carne mais
saborosa que a da anta-comum. “Foi quando começamos a perceber que todos
da região diziam que havia dois tipos de anta”, diz Cozzuol.
“A maioria dos biólogos que trabalhavam com mamíferos da região sabia
disso, mas não acreditava nas pessoas”, lembra o paleontólogo. O
principal motivo para os pesquisadores ignorarem o que o povo dizia é
que há mesmo uma grande variação de cor e tamanho entre os exemplares de
antas de uma mesma espécie. Além disso, parecia improvável para os
pesquisadores que duas espécies muito semelhantes ocupassem o mesmo
ambiente, pois a concorrência por alimento e espaço levaria uma delas à
extinção. “Mas como sou paleontólogo e sei que há registros fósseis de
espécies de antas diferentes vivendo simultaneamente em uma mesma região
nas Américas, não me ative a essa suposição”, conta Cozzuol.

Era
preciso verificar o que acontece hoje na natureza, mas Cozzuol não
obteve licença para capturar um animal vivo da provável nova espécie e
comparar com o crânio que Elizete encontrara. Só mais tarde conseguiu
recursos para realizar expedições na Amazônia, em colaboração com a
equipe do geneticista Fabrício Santos e do ecólogo Flávio Rodrigues,
ambos da UFMG. Nessas viagens os pesquisadores combinaram com caçadores
locais para que os avisassem no caso de abaterem uma anta-pretinha.
Assim, os pesquisadores poderiam recolher ossos, peles e amostras de DNA
da carne. Já no primeiro contato, um caçador os levou até a carcaça de
uma delas, abatida algumas semanas antes. “O crânio tinha as
características que esperávamos”, diz Cozzuol.
A suspeita também se confirmou durante visitas a aldeias dos
indígenas Karitiana, em Rondônia, que empilham os crânios de suas caças
como troféus. “Havia duas pilhas para as antas, uma delas com as medidas
esperadas para a pretinha”, lembra Cozzuol, que batizou a espécie em
homenagem ao nome dado a ela por outros índios, os Paumari:
Arabo kabomani.
Os pesquisadores sabiam, entretanto, que precisariam de muito mais
evidências para convencer seus colegas de que a hipótese de uma nova
espécie merecia ser levada a sério. “Uma espécie biológica é um conjunto
de populações que possuem uma história evolutiva separada das outras,
não é algo que dê para observar diretamente”, explica Cozzuol. “É
preciso testar a hipótese integrando análises de genética, morfologia e
de outras áreas.”
Para verificar a existência da nova espécie, os pesquisadores
compararam medidas dos crânios de antas-pretinhas com as de crânios de
outras quatro espécies vivas e alguns fósseis de antas. Compararam
também as sequências de três genes do DNA mitocondrial de quatro
pretinhas com os mesmos genes de dezenas de antas de todas as espécies,
obtidas no banco de dados aberto GenBank. “A maioria dos estudos com
antas usa apenas um gene mitocondrial”, explica Cozzuol. Seja pela forma
de seu crânio ou pelo seu DNA, a pretinha despontava como um animal
diferente das outras espécies.
A conclusão do estudo foi uma revisão da história natural das antas.
As antas são consideradas fósseis vivos, pois não mudaram muito desde
que surgiram há 50 milhões de anos, tendo sobrevivido à extinção da
fauna de animais enormes que habitavam as Américas até 10 mil anos
atrás.
Além da nova
T. kabomani, hoje existem apenas quatro espécies:
A
anta-asiática (
T. indicus), na Malásia; a centro-americana (
T. bairdii); a
anta-da-montanha (
T. pinchaque), que vive nos Andes, entre Peru, Equador e Colômbia; e a
anta-brasileira (
T. terrestris), presente em quase todos os biomas tropicais da América do Sul. Os ancestrais da
T. kabomani teriam se separado dos ancestrais das antas brasileira e de montanha há pelo menos 300 mil anos.
Não é preciso ser um caçador amazônico para distinguir a olho a
T. kabomani da
T. terrestris. A pretinha é bem menor, mais baixa e com pernas mais curtas que a
T. terrestris.
Sua pele é mais escura, a crina mais baixa e a testa mais larga. Os
machos de todas as espécies de antas tendem a ser um pouco menores que
as fêmeas e essa diferença de tamanho entre os sexos é mais acentuada
entre as pretinhas. Outra diferença entre os sexos é uma mancha branca
na cabeça, que se estende da bochecha até o pescoço, uma exclusividade
das fêmeas. “Alguns indivíduos de
T. terrestris têm manchas nas bochechas, mas elas não são tão nítidas e podem aparecer em ambos os sexos”, explica Cozzuol.
Evidências suficientes?
Nada convencidos com os indícios de uma nova espécie, Voss e
seus colegas contestam todas essas conclusões. Eles reexaminaram os
mesmos dados genéticos usando um método estatístico alternativo e
concluíram que as diferenças entre as sequências de DNA são pequenas
demais para considerar a pretinha como uma espécie separada.
Cozzuol explica que sua equipe refez a análise usando a mesma técnica
que Voss, a cujos detalhes só teve acesso após a publicação do artigo e
que portanto não constam de sua réplica na mesma edição da revista.
Seus resultados foram diferentes e continuam a confirmar a existência de
T. kabomani. “Ainda não entendi como eles chegaram aos
resultados”, diz Cozzuol. Ele também reclama de criticarem seus dados de
medições de crânios sem replicá-los. “O AMNH possui uma coleção muito
maior de
T. terrestris do que nós”, diz. “Não demoraria uma semana para tomarem os dados e verificarem nossa análise.”
“Continuo convencido de que não é uma espécie válida”, diz Voss. “A
evidência genética é nula.” Ele acredita que a hipótese deveria ser
testada usando também o DNA do núcleo das células, além daquele das
mitocôndrias já analisado. Cozzuol e Santos estão analisando justamente
isso no momento, mas já concluíram que não é possível distinguir nenhuma
espécie de anta sul-americana pelos genes de DNA de núcleo normalmente
usados como marcadores nesse tipo de estudo, o que significa que
precisarão buscar por diferenças em sequências de DNA nuclear menos
conhecidas. “Os argumentos dele não se sustentam e vão além das
exigências razoáveis”, diz Cozzuol. “Não tenho dúvida de que poderíamos
ter feito melhor, mas outras espécies já foram descritas recentemente
com muito menos detalhes e informações.”
“A evidência etnográfica também não me convence”, afirma Voss.
“Indígenas amazônicos rotineiramente superdiferenciam os animais grandes
que caçam.” Para defender esse ponto, Cozzuol teve ajuda do etnozoólogo
Hugo Fernandes-Ferreira, que deve concluir neste ano uma tese de
doutorado na Universidade Federal da Paraíba sobre a história da caça a
animais silvestres no Brasil. Fernandes-Ferreira explica que a
superdiferenciação a que Voss se refere é a tendência de povos indígenas
a darem nomes diferentes para animais que identificam com aparência
diferente, mas que na verdade são apenas variações dentro de uma mesma
espécie.
Um exemplo são as onças-pintadas claras e pretas, pertencentes à
mesma espécie biológica, mas consideradas animais diferentes pela
maioria dos povos da Amazônia. As antas, no entanto, são caçadas por
conta de sua carne saborosa e em decorrência de partes do animal terem
uso medicinal, mágico e religioso. “As pessoas analisam com mais cuidado
os animais que consideram úteis”, diz Fernandes-Ferreira. “Além disso,
essa diferenciação entre uma anta grande e cinza e outra pretinha é
difundida em quase todos os povos da Amazônia.”
“De índios, ribeirinhos, seringueiros e fazendeiros sempre ouvi
dizerem que há duas espécies de anta”, diz Cozzuol. “Os indígenas
Uru-Eu-Wau-Wau, por exemplo, vivem em uma área onde só há um tipo de
anta, mas afirmam que sabem que em outros lugares há dois tipos.”
De outros tempos
Fernandes-Ferreira também encontrou registros históricos de
caçadores e naturalistas mencionando duas espécies de antas no Brasil. O
mais antigo é de 1794, no qual naturalista brasileiro Alexandre
Rodrigues Ferreira relata à coroa portuguesa a existência de duas
espécies de anta na província do Grão-Pará, onde atualmente fica o
estado do Amazonas.
Outro relato histórico importante é o do presidente norte-americano
Theodore Roosevelt, que menciona em suas memórias da visita ao Brasil em
1912 ter caçado no Mato Grosso uma anta, “um macho muito menor do que o
outro que matei” e que “os caçadores disseram ser de um tipo
diferente”.
As antas abatidas por Roosevelt foram doadas ao AMNH e analisadas
pelo zoólogo Joel Allen, em 1914, que considerou o animal menor apenas
como uma variação da
T. terrestris. “Tivemos acesso às medidas desse exemplar e elas batem perfeitamente com o que esperamos da
T. kabomani”, diz Cozzuol.
“A posição que defenderemos no painel da IUCN é que, se há a mínima
possibilidade de que exista uma espécie diferente e a ignorarmos,
podemos acabar condenando uma parte importante da biodiversidade da
Amazônia sem ainda tê-la conhecido direito”, explica Cozzuol. “Na Nova
Zelândia, houve um caso semelhante: achava-se que o tuatara, um tipo de
réptil primitivo parente dos lagartos, era uma espécie só, até que ações
de conservação que funcionavam em algumas regiões deram errado em
outras. É porque havia na verdade duas espécies de tuatara com
requisitos diferentes.”
“Sim, se há realmente duas espécies válidas de antas amazônicas,
então elas deveriam ser manejadas separadamente”, concorda Voss.
“Entretanto, dado que não há uma estratégia eficaz de manejo para nenhum
mamífero amazônico, a proteção do hábitat parece a melhor abordagem.”
Artigos científicos
COZZUOL, M. A.
et al. A new species of tapir from the Amazon.
Journal of Mammalogy. v. 94, n. 6, p. 1331-45. dez. 2013.
VOSS, R. S.
et al.
Extraordinary claims require extraordinary evidence: a comment on Cozzuol et al. (2013).
Journal of Mammalogy. v. 95, n. 4, p. 893-8. ago. 2014.
COZZUOL, M. A.
et al. How much evidence is enough evidence for a new species? Journal of Mammalogy. v. 95, n. 4, p. 899-905. ago. 2014.