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quinta-feira, 8 de março de 2018

Fim da megafauna reduziu a distância de dispersão de sementes grandes

08 de março de 2018


Peter Moon  |  Agência FAPESP – Mastodontes, preguiças-gigantes e tatus do tamanho de fuscas. A extinção da megafauna da mais recente era do gelo foi uma tragédia biológica que repercute na ecologia da América do Sul mais de 10 mil anos depois.

Fim da megafauna reduziu a distância de dispersão de sementes grandes Pesquisa alerta para possível prejuízo à regeneração de florestas e ao equilíbrio de espécies vegetais diante da ameaça de extinção dos grandes mamíferos atuais (distâncias média de dispersão de sementes, megatério e pequi / imagens: Ecography, Wikipedia e Embrapa).
 
 
 A ausência de mamíferos gigantes nos ecossistemas do continente se faz sentir na dinâmica de dispersão das maiores sementes, como, por exemplo, do pequi. Poucos dos frugívoros viventes consegue engolir uma semente desse tamanho e transportá-la em seu trato digestivo para dispersá-la no meio ambiente. Preguiças-gigantes e gonfotérios (parentes dos elefantes) faziam isso.

Não foram somente as maiores sementes que perderam o seu meio de transporte. A extinção da megafauna também reduziu o raio de dispersão de sementes quando comparado à dispersão feita pelos maiores mamíferos viventes, como a anta.

Um novo estudo calculou a distância que preguiças-gigantes (megatérios) ou mastodontes (gonfotérios) percorriam transportando sementes em seu trato digestório antes de defecá-las no meio ambiente. “Conseguimos dar números aos argumentos verbais sobre a importância desses grandes animais”, disse o biólogo Mathias Mistretta Pires, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), primeiro autor de um estudo que quantifica as distâncias de dispersão de sementes pela megafauna.
O estudo foi feito em coautoria com os professores Mauro Galetti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro, e Paulo Roberto Guimarães, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP). Publicado na revista Ecography, o trabalho foi realizado no âmbito do Projeto Temático “Consequências ecológicas da defaunação na Mata Atlântica”, coordenado por Galetti.


Os maiores frugívoros viventes do continente sul-americano são as antas (Tapirus), os guanacos (Lama guanicoe), as alpacas (Vicugna pacos), os catetos (Pecari tajacu) e o veado-mateiro (Mazama americana). Mas mesmo o maior, a anta, com cerca de 200 quilos, é cerca de 10 vezes menor do que as preguiças-gigantes e cerca de 30 vezes menor do que os gonfotérios.

A distância de dispersão de sementes observada entre os maiores frugívoros viventes raramente ultrapassa 3,5 mil metros. O novo estudo concluiu que, no passado, a megafauna ia muito além. O raio de dispersão de sementes das preguiças e dos gonfotérios podia superar os 6 mil metros.

“Nosso objetivo foi criar um modelo que permitisse quantificar o papel desses animais extintos na dispersão de sementes. Construímos um modelo matemático onde as várias fases do processo de dispersão de sementes são simuladas, de modo a gerar previsões quantitativas de como seria esse serviço de dispersão no passado”, explicou Pires.
Para estimar a capacidade de dispersão de sementes entre a megafauna, em primeiro lugar foi preciso determinar três conjuntos de dados básicos entre as maiores espécies viventes de dispersores de sementes. Foi necessário saber: o quanto de alimento, em média, as diversas espécies comem; quanto tempo o alimento fica retido no sistema digestório; e qual a distância percorrida pelo animal antes de defecar as sementes.
“Esses três atributos estão relacionados ao tamanho do animal. Temos os dados de elefantes, antas, veados-mateiros e catetos ou porcos-do-mato”, disse Pires. A anta pode reter alimento no trato digestório por mais de 30 horas antes de defecar. “Nos elefantes, são mais de 40 horas. Em outras espécies, o tempo pode ultrapassar 50 horas, ou mesmo 100 horas.”

O passo seguinte foi extrapolar as estimativas de cada um dos três atributos (quantidade de comida, tempo de retenção e distância percorrida) para algumas espécies da megafauna extinta que habitaram a América do Sul durante o período Pleistoceno – os últimos 2,5 milhões de anos.
O conjunto de dados utilizado para a extrapolação se refere aos tamanhos corpóreos estimados que aqueles bichos tinham. Estima-se, por exemplo, que os gonfotérios tinham de 5 a 6 toneladas, dependendo da espécie, e que as maiores preguiças tinham entre 3,5 toneladas, no caso do eremotério, e mais de 6 toneladas, no caso do megatério.
“Deduzimos o volume de alimento que uma preguiça terrestre deveria consumir, assim como o tempo que o alimento ficaria em seu intestino e a distância percorrida pelo animal”, disse Pires.

Os três atributos foram igualmente estimados para gonfotérios, paleolhamas (lhamas gigantes), grandes quadrúpedes ungulados chamados macrauquênias e cervídeos. Foram selecionados apenas animais folívoros e frugívoros. Pastadores que se alimentavam principalmente de gramíneas, como os robustos toxodontes, não entraram no estudo.

Como resultado das simulações, estimou-se entre os gonfotérios que eles dispersavam sementes a distâncias entre 500 metros e 3,5 mil metros da planta-mãe que produziu as sementes. São valores médios. Em 5% das simulações, o raio de dispersão se estendeu, chegando mesmo em alguns casos a ultrapassar 6 mil metros.

Já animais do porte das preguiças terrestres dispersavam sementes, em média, entre 300 metros e 2,5 mil metros de distância da planta-mãe. Em alguns casos, contudo, a distância se estendeu até os 6 mil metros. Entre as antas, a média fica entre 200 metros e 1,4 mil metros.
“Hoje, segundo nossas simulações, um cateto [Pecari tajacu] carrega o alimento por cerca de 800 metros, em média. O potencial de dispersão de sementes diminuiu muito. As distâncias que hoje são consideradas longas, no passado eram relativamente curtas. Os maiores animais da megafauna não só tinham um tempo de retenção de alimento 60% maior como dispersavam sementes em distâncias muito maiores. Hoje, é mais difícil os animais dispersarem sementes a mais de 1 mil metros”, disse Pires.

Diversidade genética

No estudo, os pesquisadores compararam os valores obtidos pelas simulações com os dados conhecidos de animais em um ecossistema rico e ainda relativamente preservado, no caso o Pantanal Mato-Grossense. “Verificamos que a capacidade de dispersão de sementes caiu a um terço do que era antes”, disse Pires.

A queda na distância de dispersão de sementes experimentada nos últimos 10 mil anos tem várias consequências para a formação e diversidade de plantas nas matas e para a diversidade genética das espécies. As maiores distâncias de dispersão de sementes da megafauna permitiam que aumentasse a distribuição espacial das espécies de plantas.

Sem os dispersores, as populações de plantas não trocam material genético e essa separação entre indivíduos da mesma espécie resulta em baixa variabilidade genética, o que pode diminuir as chances de sobrevivência dessas plantas em longo prazo.

A extinção dos frugívoros gigantes reduziu as chances de dispersão das espécies de plantas com maiores sementes, como o abacateiro. Por consequência, as sementes que caem da planta-mãe têm menos chances de germinar e crescer. Se não podem ser engolidas e transportadas intactas, as sementes no solo ficam à mercê de predadores de sementes, como os roedores, que mastigam as sementes, matando o embrião. Ao mesmo tempo, sementes que caem ao solo e lá permanecem têm menos chance de germinar e crescer, dado que as plantas jovens competem por luz solar, água e nutrientes do solo com a planta-mãe.

“As plantas que mais perderam com a extinção da megafauna foram aquelas espécies que outrora eram muito usadas por paleoíndios, mas que hoje não são tão usadas”, disse Galetti.
Haveria algum meio para tentar expandir o raio de dispersão de sementes nos biomas sul-americanos atuais? “Uma proposta seria reintroduzir antas, grandes primatas e outros frugívoros nas áreas defaunadas. O problema é que a causa da extinção não foi resolvida. Muitas áreas ainda têm forte pressão de caça”, disse Galetti.

Segundo ele, se por um lado a perda da megafauna reduziu as possibilidades de dispersão de sementes, a introdução do fator humano serviu, em alguns casos, de contrapeso.
“A ‘sorte’ das plantas que eram dispersadas pela megafauna foi que elas tiveram outros dispersores de sementes, como humanos, cutias e a água, no caso do Pantanal. Mas, com a simplificação dos ecossistemas, muito mais plantas ficarão órfãs”, disse.

“Se por um lado perdemos aqueles grandes dispersores, por outro lado, o javaporco, uma espécie invasora, está dispersando alguns desses megafrutos. Não sabemos se essa espécie invasora substituirá o papel das antas e macacos, mas, pelo menos para alguns frutos, achamos que sim”, disse Galetti.

Segundo Galetti, especialista no estudo da retirada de espécies animais nos ecossistemas modernos, a chamada defaunação, a América do Sul foi o continente que mais perdeu em termos de dispersão de sementes com o fim da megafauna.
“A América do Norte perdeu vários mamíferos, e também possui alguns frutos que eram dispersados pela megafauna, mas não se compara à América do Sul, porque aqui a diversidade do Cerrado e das florestas tropicais é muito alta. O mesmo não se observa na savana africana, onde a diversidade vegetal é baixa e a maioria dos frutos de megafauna está nas florestas do Gabão. Por outro lado, a extinção dos elefantes que vivem nas florestas africanas irá acarretar o mesmo padrão de perda de dispersão de sementes que propusemos em nosso artigo”, disse.

A megafauna era fundamental para a regeneração da floresta e a manutenção do equilíbrio entre as várias espécies de plantas. “Os grandes animais que executavam este serviço de dispersão se perderam. Nosso trabalho é o primeiro que permitiu quantificar esta perda”, disse Pires.
“Agora, temos modelos matemáticos e programas de computador que permitem a obtenção de estimativas de como era aquele processo de dispersão de sementes”, disse Pires.


O artigo Pleistocene megafaunal extinctions and the functional loss of long-distance seed-dispersal services (doi: 10.1111/ecog.03163), de Mathias M. Pires, Paulo R. Guimarães, Mauro Galetti e Pedro Jordano, está publicado em http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/ecog.03163/full.
 
 
 
 
 
 

terça-feira, 14 de março de 2017

Bichos nativos resistem em "ilhas" de florestas em SP
 
Leia reportagem com pesquisadores da Unesp na Folha de S. Paulo
REINALDO JOSÉ LOPES - COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
10/03/2017
O mar de cana-de-açúcar que se apossou do interior paulista desde os anos 1970 não foi suficiente para varrer do mapa os bichos nativos do Estado, revela um levantamento feito por pesquisadores da Unesp de Rio Claro.

Somados, os fragmentos de mata atlântica que ainda existem em meio à cana abrigam pelo menos 90% dos mamíferos de médio e grande porte encontrados originalmente no Estado.

É claro que a situação está longe de ser um mar de rosas: as espécies que precisam de grandes áreas de mata fechada, como as antas e queixadas (o maior suíno selvagem do país), já são bastante raras. Mas, para os pesquisadores, o fato de que extinções propriamente ditas ainda não tenham ocorrido em solo paulista, mesmo com a magnitude da intervenção humana, sugere que é possível reconstruir a conexão entre muitos fragmentos de mata e, desse modo, aumentar as chances de sobrevivência dessas espécies a longo prazo.

A pesquisa, assinada pela ecóloga Gabrielle Beca, pelo professor Mauro Galetti e por outros colegas da Unesp, do Reino Unido e da Dinamarca, avaliou a biodiversidade de 22 áreas (cada uma delas medindo 1.250 hectares) espalhadas por grande parte do interior de São Paulo. Todas essas áreas abrigam resquícios de floresta estacional semidecidual (ou seja, que perde parcialmente suas folhas na estação seca), que é o tipo mais ameaçado de mata atlântica (por isso, as áreas de floresta da serra do Mar e do litoral, mais úmidas, não entram na análise).

MATRIZ COMPLICADA

Outro ponto em comum entre as 22 áreas é que a chamada matriz (nome dado ao ambiente gerado pelo homem que circunda os fragmentos de mata) é quase sempre formada por vastas plantações de cana.

Esse detalhe é importante por conta do que os cientistas chamam de permeabilidade da matriz para as espécies da floresta. Nem todas têm desenvoltura ou capacidade para deixar o abrigo das árvores e atravessar um canavial em busca de comida ou de um parceiro para se acasalar num fragmento de mata distante de seu lar.

Tais problemas de permeabilidade da matriz, quando somados à presença de fragmentos muito pequenos de mata, podem fazer com que determinada espécie tipicamente florestal acabe desaparecendo, sendo substituída por bichos mais versáteis ou típicos de ambiente aberto – esses costumam ter mais facilidade para atravessar plantações de cana, pastos ou outros tipos de matriz.

As áreas escolhidas para o estudo apresentam grande variedade de graus de cobertura florestal, entre apenas 3% de mata até 96% de território com floresta. Para mapear a presença dos bichos, foram usados dois métodos: oito armadilhas fotográficas por região (que clicam automaticamente os animais que passam por perto), funcionando durante um mês inteiro; e expedições de campo procurando fezes, pegadas, tocas e mesmo bichos mortos. Os dados foram coletados entre janeiro de 2014 e setembro de 2015.

DA ANTA AO JAVAPORCO

O normal seria encontrar 31 espécies de mamíferos de grande e médio porte nas matas da região estudada. Bem, os cientistas acharam 29 –mas estão incluídas nessa conta duas espécies exóticas, o cão doméstico e o javaporco (cruzamento de porco doméstico com javali, um híbrido que tem se tornando uma praga no país).

Em média, cada área tinha pelo menos 11 espécies (mínimo de sete, máximo de 18). Entre os mais comuns estavam o tatu-galinha (presente em todos os lugares), o quati e o guaxinim, enquanto a lista dos mais raros é encabeçada por bichos como o cachorro-vinagre (achado numa única área) e a queixada (em duas). Como seria de esperar, as áreas mais ricas em espécies tinham cobertura florestal mais ampla (entre 95% e 55% do total do território), e o contrário ocorria nas áreas com baixa cobertura vegetal.

No levantamento, quatro espécies importantes não foram achadas: onça-pintada, lontra, gato-maracajá e furão-pequeno. Outros estudos da mesma equipe, no entanto, indicam que esses bichos também aparecem em pelo menos alguns dos lugares estudados, apesar de já serem raros.

De maneira geral, o que os pesquisadores enxergaram não foi uma perda geral de biodiversidade, mas um processo de acomodação no qual, em vários casos, a riqueza de espécies total foi mantida graças à colonização do ambiente por espécies mais generalistas ou de ambientes mais abertos. É o caso do lobo-guará, bicho do cerrado que tem colonizado áreas fragmentadas de mata atlântica.

Para minimizar esse processo, um bom caminho seria permitir que pastagens degradadas, que pouco rendem em termos econômicos, voltassem a abrigar mata. Esse tipo de pastagem está presente em grande quantidade em todos os locais estudados pela pesquisa. "É um cenário positivo", declarou Galetti em comunicado. Bastaria cumprir a lei atual –o Código Florestal, que determina a manutenção da mata em torno de cursos d'água e topos de morro, bem como uma reserva de floresta em 20% das propriedades rurais– para que a situação dessas espécies se tornasse mais segura, diz ele.

O estudo será publicado na revista científica "Biological Conservation".

A biodiversidade resiste


Espécies paulistas são encontradas em meio à cana, mas isolamento é perigoso

A região do estudo
Foram analisadas 22 áreas do interior do Estado de São Paulo, cada uma delas medindo 1.250 hectares. Nelas, havia fragmentos florestais cercados de plantações de cana. Os trechos de mata podiam corresponder a algo entre 3% e 96% da área total



  Editoria de Arte/Folhapress  
As regiões do estudo
As regiões do estudo

O que os pesquisadores procuravam
Indícios da presença das 31 espécies de mamíferos de médio e grande porte naturalmente nativas da mata atlântica nessa região

Como flagraram os bichos
Por meio de armadilhas fotográficas (câmeras que disparam automaticamente na presença do animal) e análises de campo buscando fezes, pelos, animais mortos etc.

Resultados
- Mesmo com a presença maciça da cana, 90% das espécies esperadas foram achadas em ao menos alguns fragmentos de mata
- Em média, havia 11 espécies por área (mínimo de 7, máximo de 18)
- Os mais comuns: tatu-galinha, quati e guaxinim
- Os mais raros: cachorro- vinagre e ouriço-cacheiro

A principal boa notícia
Apesar de todo o impacto agrícola em solo paulista, ainda não aconteceram extinções de mamíferos que afetem o Estado todo. O esforço agora deve se concentrar na criação de corredores ecológicos que conectem as populações da fauna.


quinta-feira, 9 de março de 2017

Grupo da Unesp divulga censo de mamíferos em florestas imersas na cana-de-açúcar

09 de março de 2017

Karina Toledo  |  Agência FAPESP – Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) acabam de publicar um censo de mamíferos de médio e grande porte encontrados em 22 remanescentes florestais circundados por monocultura de cana-de-açúcar em São Paulo. A conclusão do estudo é “surpreendentemente positiva”, segundo Mauro Galetti, professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências, em Rio Claro.
O estudo, cujos resultados foram publicados na revista Biological Conservation, foi realizado com apoio da FAPESP. 

Grupo da Unesp divulga censo de mamíferos em florestas imersas na cana-de-açúcar Artigo publicado na revista Biological Conservation traz uma boa notícia: 90% das espécies esperadas para o Estado de São Paulo foram registradas em 22 fragmentos florestais circundados por monocultura de cana (foto: Tamanduá-Bandeira/Divulgação)

“Encontramos cerca de 90% de todas as espécies de mamíferos que são esperadas para o Estado de São Paulo. Nesses fragmentos ainda existem onça-pintada, tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), anta (Tapirus terrestris) e queixada (Tayassu pecari), ou seja, não há registro de extinção regional de espécies. Só não registramos algumas extremamente raras, como o tatu-canastra (Priodontes maximus)”, disse Galetti, que coordenou o estudo.

Porém, nem tudo é boa notícia. Conforme relatam os autores no artigo, nos fragmentos florestais pequenos são encontrados apenas entre 20% e 50% das espécies esperadas para o estado. Isso quer dizer que, em alguns casos, até 80% das espécies foram localmente extintas.

“Observamos que, quanto maior a área florestal remanescente, mais animais raros ela possui. Encontramos até mesmo um único registro do cachorro-vinagre (Speothos venaticus), algo não esperado nesses ambientes circundados pela cana-de-açúcar”, afirmou Gabrielle Beca, primeira autora do estudo.

Já nos fragmentos menores, acrescentou a pesquisadora, restam somente as espécies mais generalistas, como gambá (Didelphis albiventris) ou o tatu-galinha (Dasypus novemcimtus), que conseguem se adaptar a ambientes conturbados por não necessitarem de áreas tão grandes para encontrar alimento.

Metodologia

O trabalho de campo foi realizado durante o mestrado de Beca, sob orientação de Galetti, no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA-FAPESP).

Os remanescentes estudados vão desde a região de Presidente Prudente, no extremo oeste do estado, até São José do Rio Pardo, a leste, passando por regiões ao norte perto de Araçatuba e São José do Rio Preto.

“Visitamos esses 22 fragmentos e instalamos em cada um deles, no meio da mata, armadilhas fotográficas. Colocamos as máquinas automáticas onde havia grande possibilidade de os animais passarem, como locais com água ou próximos de árvores que estavam frutificando”, explicou Beca.
As câmeras foram retiradas após um mês e, para complementar o trabalho, foi feito um censo de pegadas deixadas nas bordas da floresta. “Há guias que permitem identificar a espécie pelo formato da pegada e o tipo de marca deixada e também fizemos avistamentos diretos dos animais”, contou Beca.

Ao todo, foram identificadas 29 espécies de mamíferos de médio e grande porte. Além das já mencionadas, foram observados também quati (Nasua nasua), tatuí (Cabassous tatouay), tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), ouriço-cacheiro (Coendou prehensilis), capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) e cutia (Dasyprocta azarae), entre outras.

“Também houve muitos registros de animais invasores, como o javaporco (Sus scrofa), um híbrido de javali com porco doméstico que se tornou uma praga no Brasil”, comentou Beca.

De acordo com uma pesquisa anterior do grupo de Galetti, o javaporco representa uma ameaça à saúde pública, pois se tornou uma importante fonte de alimento dos morcegos-vampiros (Desmodus rotundus), fazendo aumentar a população desses animais transmissores do vírus da raiva (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/ 24547). Além disso, segundo Beca, eles trazem impactos na agricultura e competem com outras espécies de mamíferos, como o cateto (Pecari tajacu) e a queixada.
“Outro registro problemático foi o de cães domésticos (Canis lupus familiaris), que são predadores de muitas espécies silvestres”, contou Beca.

Corredores ecológicos

Na avaliação de Galetti, os resultados do censo indicam que ainda há chances de preservar boa parte da fauna de mamíferos do Estado de São Paulo se forem criados corredores ecológicos para conectar os diversos fragmentos florestais.

“No momento, não é preciso reintroduzir animais que foram extintos, mas sim conectar essas paisagens por meio do plantio de corredores florestais para que os animais possam se achar e sobreviver. Caso contrário, essa fauna ficará ilhada e com o tempo haverá extinções de várias espécies”, disse o pesquisador.

Para Beca, os fragmentos que abrigam maior número de espécies devem ter prioridade nesse trabalho. “Espécies como a anta e a queixada prestam um importante serviço ecossistêmico, pois são dispersoras de sementes. Precisamos olhar para as áreas onde elas ocorrem e, a partir desses pontos, conectar com outros”, avaliou.

Segundo a pesquisadora, um bom começo seria colocar em prática medidas preconizadas pelo Novo Código Florestal (Lei Nº 12.651, de 2012).

“A lei estabelece, por exemplo, que deve ser preservada uma área de mata de 30 metros em volta dos rios. Mas no geral isso não tem sido respeitado, nem implementado”, afirmou Beca.
“Se todos cumprirem o Código Florestal e não perseguirem os animais silvestres, haverá uma enorme chance de São Paulo ser um exemplo que alie conservação da biodiversidade e produção agrícola” comentou Galetti.

O artigo High mammal species turnover in forest patches immersed in biofuel plantations (http://dx.doi.org/10.1016/j.biocon.2017.02.033), de Gabrielle Beca, Maurício H. Vancine, Carolina S. Carvalho, Felipe Pedrosa, Rafael Souza C. Alves, Daiane Buscariol, Carlos A. Peres, Milton Cezar Ribeiro e Mauro Galettim pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0006320717303117.

segunda-feira, 6 de março de 2017

A fauna que sobrevive nas florestas nas plantações de cana
 
Pesquisadores da Unesp publicam na revista Biological Conservation
Assessoria de Comunicação e Imprensa
06/03/2017
Registro de Tamanduá Bandeira (Myrmecophaga tridactyla) com seu filhote no município de Magda.
 
Finalmente uma boa notícia para o meio ambiente: pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (UNESP) do Instituto de Biociências de Rio Claro publicaram essa semana na revista inglesa Biological Conservation um censo com de mamíferos em 22 remanescentes florestais circundadas por monocultura de cana-de-açúcar em São Paulo. 
 Através da instalação de câmeras automáticas nas florestas os pesquisadores encontraram 29 espécies de mamíferos, incluindo anta, tamanduá-bandeira, onça e veados. Segundo a pesquisadora responsável, Gabrielle Beca, isso equivale a 90% dos mamíferos esperados para a região do estado de São Paulo. "Quando consideramos todas as 22 áreas que trabalhamos, vimos que não houve extinções na escala regional. 

No entanto, quando olhamos para cada floresta separadamente, observamos que houve a extinção de 50% a 80% dos mamíferos. Ou seja é uma boa e má notícia ao mesmo tempo", comenta Beca. “Ficamos surpresos em encontrar tantas espécies em florestas esquecidas no meio da cana”, diz Beca. “Mas uma coisa também ficou clara, quanto maior a floresta, mais animais raros ela possui, como onça pintada, antas e queixadas” completa Beca.

“Esse trabalho mostra que ainda existe uma chance de conservarmos toda a fauna de mamíferos grandes se conectarmos todos esses fragmentos em corredores ecológicos”, comenta o Professor Mauro Galetti, orientador da pesquisa.

Apesar dessa boa notícia, os pesquisadores também mostram que muitas florestas estudadas possuem o javaporco e cães domésticos que podem trazer muitos danos a biodiversidade e as outras espécies. “O javaporco se tornou uma praga no Brasil e se não for controlado haverá um enorme problema para a agricultura, saúde pública e mesmo para a biodiversidade”, comenta Felipe Pedrosa, um dos autores do trabalho. “O javaporco, além de invadir plantações, e é uma das principais presas dos morcegos vampiros, que transmitem a raiva” complementa Felipe.

Agora os pesquisadores pretendem mapear possíveis áreas para criar os corredores ecológicos. “Sem a criação de corredores ecológicos, essa fauna ficará ilhada e com o tempo poderá ocorrer extinções de várias espécies” complementa o Professor Milton Ribeiro do Instituto de Biociências da UNESP.

"Nesse cenário positivo, em que nenhuma extinção regional foi registrada, o simples cumprimento do Código Florestal e a criação de corredores ecológicos é fundamental para a conservação da fauna de mamíferos ", comenta Galetti. “Temos que replantar corredores e incentivar o cumprimento do Código Florestal e assim podemos ter agricultura e meio ambiente saudável ao mesmo tempo”, completa Ribeiro.

“Esse estudo pode trazer um enorme alento para os ambientalistas e para os produtores de cana, mas também temos que trabalhar rápido para criar esses corredores” completa Galetti. A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo `a Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

No estudo também participaram Maurício H. Vancine, Carolina S. Carvalho, Felipe Pedrosa, Rafael Souza, C. Alvez, Daiane Buscariol, Milton Cezar Ribeiro do Departamento de Ecologia da UNESP de Rio Claro, e Carlos A. Peres da Universidade de East Anglia da Ingalterra.

Contato:

Gabrielle Beca, aluna de doutorado na UNESP Rio Claro - gabrielle.beca@gmail.com (Fone: +55 19 992426008)

Mauro Galetti, professor da UNESP Rio Claro - mgaletti@rc.unesp.br (Fone +55 19 35264236)

Milton Cezar Ribeiro – professor da UNESP Rio Claro - mcr@rc.unesp.br

Beca, G,. Vancine, M.H, Carvalho, C,S,. Pedrosa, F., Alves, R.S.C., Buscariol, D., Peres, C.A., Ribeiro, M.C. 2017. High mammal species turnover in forest patches immersed in biofuel plantations. Biological Conservation.

A publicação está acessível em
http://dx.doi.org/10.1016/j.biocon.2017.02.033

mapa_beca-et-al-2017.jpg

Localização de paisagens (pontos pretos) em remanescentes de Mata Atlântica, no estado de São Paulo. As paisagens estão numeradas e apresentadas no sentido horário, em ordem da quantidade de cobertura florestal (verde).

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Abundância de morcegos vampiros deve aumentar
Um dos motivos é a invasão de javalis
[04/11/2016]
O que acontece com a vida silvestre, meio ambiente e os habitantes rurais quando ameaças bem conhecidas como javalis, morcegos vampiros e doenças virais interagem de maneira sem precedentes? Um grupo de pesquisadores brasileiros investigando essa questão publicou um artigo na revista americana Frontiers in Ecology and the Environment mostrando que a abundância de morcegos vampiros e as ameaças associadas a eles deve aumentar devido a invasão dos javalis.

O Brasil está enfrentando uma invasão de javalis (e javaporcos) sem precedentes na zona rural, com um aumento de 500% desde o último registro em 2007. “Javalis e javaporcos estão se tornando os mamíferos dominantes na Mata Atlântica” diz o coautor Felipe Pedrosa, ecólogo da Unesp de Rio Claro. [Javalis, javaporcos e porcos monteiros são todos da mesma espécie do porco doméstico (Sus scrofa). Sua distribuição natural se dá principalmente na Europa e Ásia, mas foi introduzido na Austrália, América do Sul e EUA incluindo Hawaii. Javalis e demais suídeos (porcos) em estado asselvajado são considerados uma das piores espécies exóticas do mundo].

À medida que a população de javalis aumenta, danos à agricultura (milho, cana, soja) e predação de aves nativas e mamíferos também aumenta. Ainda pior, sendo presa favorita dos morcegos vampiros, o número crescente de javalis fornece uma fonte sempre crescente de sangue, o que pode potencialmente aumentar a população dos morcegos. Na América tropical, morcegos vampiros são uma ameaça à produção pecuária e à saúde humana, devido ao seu papel como reservatório de uma série de doenças infecciosas. A mais séria é a raiva, uma doença viral mortal que é transmitida pela saliva do morcego durante a mordida nos animais de cujo sangue se alimenta. Entre morcegos vampiros, a raiva tem uma prevalência estimada de 1.4% (3 em cada 200 morcegos estão infectados). Devido aos morcegos vampiros serem relativamente raros na natureza, e programas de vacinação de gado e cães serem praticados no Brasil, as chances de contágio de raiva entre populações humanas é baixa.

No entanto, observações feitas pelos pesquisadores brasileiros alerta para o potencial aumento nos casos de raiva entre habitantes rurais. Os pesquisadores estavam interessados primeiramente no monitoramento da vida silvestre com armadilhas fotográficas, e para esse fim, usaram o modo gravação de vídeo entre um grande número de localidades rurais no Pantanal e na Mata Atlântica. “Durante a análise de mais de 10 mil fotos e vídeos, notamos alguns morcegos vampiros alimentando-se em javalis, antas e veados. Nossa impressão inicial era de que esses eventos eram raros, mas após calcular a probabilidade desses animais serem atacado, ficamos chocados” diz Mauro Galetti, primeiro autor e professor de ecologia na Unesp - Rio Claro.

Os pesquisadores calcularam que a porcentagem de encontros entre os morcegos vampiros e os javalis é alta, em torno de 10% para todas as noites de registros. As consequências principais, de acordo com os autores, é o potencial aumento de surtos de raiva entre vida silvestre, pecuária e populações rurais, à medida que as populações de javalis e morcegos aumentam.

 Além disso, a transmissão de raiva para caçadores de javalis que limpam a carcaça dos animais não pode ser ignorada. “Para os animais nativos que são mordidos por morcegos vampiros, como antas, veados e capivaras, existe também o potencial de transmissão de outras doenças virais existentes nos javalis” diz Alexine Keuroghlian, coautora e bióloga da conservação da Wildlife Conservation Society - Brasil. Devido às políticas de controle de espécies exóticas serem mal definidas no Brasil, é provável que a população de javalis continue crescendo e, como resposta, as populações morcegos vampiros também deve crescer. “Ficamos surpresos em ver tantos vídeos e fotos de morcegos vampiros alimentando-se nos javalis” diz Ivan Sazima, coautor e zoólogo especialista em biologia de morcegos, da UNICAMP.

O estudo conclui que a invasão de javalis na Mata Atlântica e Pantanal representa uma séria ameaça, e existe uma necessidade urgente de desenvolver e implementar medidas efetivas de controle. Devido ao Brasil enfrentar uma crise política e financeira, incluindo severos cortes no orçamento do ministério do meio ambiente, o futuro dos javalis e dos morcegos vampiros continua por resolver, criando sérias consequências para a vida silvestre nativa, o meio ambiente e as populações rurais. Embora o controle de javalis e javaporcos por caçadores seja uma atividade legalizada, cientistas são céticos se esse tipo de medida posde acarretar maior ameaça à vida selvagem. “Nosso maior desafio é permitir o controle dos javalis sem indiretamente incentivar a caça ilegal de vida silvestre nativa”, diz Mauro Galetti.

O artigo é assinado por Mauro Galetti e Felipe Pedrosa da Unesp - Rio Claro, Alexine Keuroghlian da Wildlife Conservation Society - Brasil e Ivan Sazima da Unicamp.
Referência do artigo:
“Vampire bats feeding on invasive feral pigs and two native ungulates”. Galetti et al. Unesp – Rio Claro. Revista: Frontiers in Ecology and the Environment.  1 Nov de 2016 

Contatos dos pesquisadores

Mauro Galetti, Biólogo, professor da Unesp- Rio Claro e Aarhus Universitet - Denmark, mgaletti@rc.unesp.br

Felipe Pedrosa, Ecólogo, UNESP-Rio Claro, 5519 985205761, fepedrosa.eco@gmail.com   
Alexine Keuroghlian, Bióloga da Conservação, WCS-Brasil, +55 067 999062964, akeuroghlian@wcs.org
Ivan Sazima, Zoólogo, professor da Unicamp, isazima@gmail.com

Outros especialistas em javalis

Dr. Clarissa Alves da Rosa (alvesrosa_c@hotmail.com)

Mais informações sobre javalis

https://taxo4254.wikispaces.com/Sus+Scrofa+-+Wild+Boar
https://www.google.com/maps/d/viewer?mid=1H_1mIr-hy990jMyQRZnOzp7fyPY&hl=en_US
PEDROSA, F., R. SALERNO, F. V. B. PADILHA, AND M. GALETTI. 2015. Current distribution of invasive feral pigs in Brazil: economic impacts and ecological uncertainty. Natureza & Conservação 13: 84-87.
Artigo:Galetti, M.; Pedrosa, F., Keuroghlian, A. and Sazima, I. 2016. Liquid lunch – vampire bats feed on invasive feral pigs and other ungulates. Frontiers of Ecology and Environment.
Mapa da distribuição dos morcegos vampiros nas Américas em
https://en.wikipedia.org/wiki/Common_vampire_bat

terça-feira, 25 de outubro de 2016

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Divulgação
Caça ilegal ameaça deixar Mata Atlântica desabitada
Pesquisadores da Unesp de Rio Claro publicam artigo em revista internacional
[24/10/2016]
Cortes de investimentos e a caça ilegal ameaçam o maior remanescente de Mata Atlântica, as Serras do Mar e do Paranapiacaba e o litoral paulista. São mais de 1 milhão de hectares, com pouco mais de 700 mil hectares legalmente protegidos, onde o impacto provocado por invasões de caçadores e palmiteiros tem aumentado, enquanto as ações para a proteção efetiva das áreas tem sido fragilizadas.

“Boa parte dos Parques Estaduais perdeu mais de 60% dos funcionários que faziam a proteção”, conta o biólogo Mauro Galetti, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “É só visitar qualquer Parque Estadual e você notará o abandono do Estado” completa. A situação é apresentada na revista científica Animal Conservation, em um artigo publicado por pesquisadores do Laboratório de Biologia da Conservação (LaBiC), da Unesp em Rio Claro (SP).


Alunos da graduação e pós-graduação, além de professores da Unesp percorreram 4 mil quilômetros de floresta. Eles verificaram que a densidade populacional das 44 espécies de mamíferos registrados está em níveis críticos, ou seja, existem pouquíssimos indivíduos. Foram mais de 5 anos de estudos de campo para realizar o maior levantamento já realizado da fauna da Mata Atlântica, afirmam os autores do estudo.

A Serra do Mar é a única área da Mata Atlântica, segundo os pesquisadores, grande o suficiente para conservar mamíferos como queixadas, onças e muriquis. “Apesar de protegida por Parques Estaduais e Estações Ecológicas, vem sofrendo com cortes e financiamentos nos últimos anos com a ausência de proteção, isso poderá definir o futuro dos mamíferos na Mata Atlântica” afirma o ecólogo Ricardo Bovendorp, também professor da Unesp. “Encontramos muitos vestígios de caçadores em todos os Parques Estaduais que estudamos”, completa.

De acordo com ele, a biomassa de mamíferos é reduzida em até 98% em locais onde a caça é frequente. As maiores áreas são justamente as mais afetadas pela caça. Os pesquisadores explicam que elas são permeadas por estradas, que facilitam o acesso de invasores e onde a falta de guarda-parques é mais sentida.


A extração ilegal do palmito-juçara tem um duplo efeito danoso para a fauna. Além de retirar um recurso importante para os animais, os coletores adentram quilômetros na mata, impossibilitando que os bichos tenham refúgios onde poderiam recuperar suas populações, afirmam os autores do estudo.

Grandes mamíferos herbívoros ou frugívoros, que têm importantes papéis no ecossistema, são os mais afetados pela caça, segundo os pesquisadores. “A anta é o maior herbívoro neotropical e tem papel fundamental na dispersão a longa distância de grandes sementes, assim como o Muriqui, que é responsável pela dispersão de cerca de 50% das sementes das florestas neotropicais, sendo a maioria delas grandes sementes”, conta a ecóloga da Unesp Gabrielle Beca.


Queixadas também estão entre as espécies criticamente ameaçadas devido à forte pressão de caça. A espécie representa a maior biomassa de vertebrados em florestas da América Latina e têm um papel importante no ecossistema, revirando o solo das florestas e alterando a composição e regeneração de espécies vegetais, contam os pesquisadores.


Para os pesquisadores, é urgente melhorar a fiscalização e repressão a crimes ambientais nos remanescentes de Mata Atlântica, mas isso não basta. É preciso também combater o mercado ilegal de palmito e promover ações educativas e sociais nos entornos das Unidades de Conservação e remanescentes de floresta.


Restam apenas 12% da cobertura vegetal de toda a Mata Atlântica, onde existem 960 Unidades de Conservação, segundo dados da SOS Mata Atlântica citados pelos pesquisadores. “Além da baixa representatividade, essas Unidades de Conservação vêm sofrendo com cortes e financiamentos nos últimos anos com a ausência de proteção”, afirma Ricardo Bovendorp.
Publicado originalmente em

http://www.oeco.org.br/noticias/caca-ilegal-ameaca-deixar-mata-atlantica-desabitada/
O Eco

domingo, 20 de dezembro de 2015

Extinção de animais pode agravar efeito das mudanças climáticas

Ausência de espécies frugívoras de grande porte pode interferir no processo de sequestro de CO2 da atmosfera 

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | Edição Online 17:00 18 de dezembro de 2015
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© GUILHERME JOFILI / FLICKR
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Animais frugívoros como as cutias cumprem funções importantes em relação às plantas, por comer os frutos e dispersar as sementes, favorecendo a regeneração natural das florestas.

A extinção de animais frugívoros, que se alimentam sobretudo de frutos, como antas, cutias e muriquis poderá comprometer a capacidade das florestas tropicais de absorver dióxido de carbono (CO2) da atmosfera. Isso porque a extinção desses animais capazes de dispersar sementes de frutos grandes mudaria a composição das florestas, afetando seu potencial para combater alterações climáticas.

A relação foi observada por um grupo de pesquisadores de várias instituições brasileiras e internacionais sob coordenação do biólogo brasileiro Mauro Galetti e sua orientanda de doutorado, Carolina Bello, ambos do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro, interior de São Paulo. Em um artigo publicado nesta sexta-feira, 18, na revista Science Advances, eles relacionam a composição e a abundância de espécies de árvores, bem como o tipo de dispersão de suas sementes, à padrões de dureza da madeira e altura. Essa é uma maneira de medir o quanto uma árvore pode estocar carbono.

Os pesquisadores estimaram a perda da capacidade de estoque de CO2 na Mata Atlântica a partir de diferentes cenários de defaunação, como é conhecida a diminuição acentuada da população de animais em um ecossistema, em geral induzida por atividades humanas como desmatamento e caça ilegal. Ao simular a extinção local de árvores que dependem da dispersão de suas sementes por grandes frugívoros na Mata Atlântica, os pesquisadores verificaram que a defaunação comprometeria significativamente a capacidade de armazenamento de CO2 pela floresta. Esses animais, há algum tempo se sabe, cumprem funções importantes em relação às plantas, seja por polinizar as flores ou por comer os frutos e dispersar as sementes, favorecendo a regeneração natural das florestas.
© MIGUEL RANGEL JR/FLICKR
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A extinção de animais que se alimentam sobretudo de frutos, como os muriquis, poderá comprometer a capacidade das florestas tropicais de absorver CO2 da atmosfera.

No estudo, a equipe de Galetti observou que árvores com troncos grandes e duros têm sementes igualmente grandes. Logo, quanto maior a semente, tanto maior será a árvore. Árvores grandes, por sua vez, são capazes de sequestrar e armazenar maiores quantidades de carbono. Por meio de simulações computacionais, os pesquisadores verificaram que à medida que dispersores de sementes grandes eram progressivamente extintos, também as árvores grandes tornavam-se menos abundantes. Em outras palavras, na ausência de antas, bugios e muriquis, a floresta mudava para uma composição de espécies de árvores de sementes pequenas e madeira “mole”. Com o tempo, segundo eles, a tendência é que somente as sementes menores sejam encontradas na natureza, em um efeito cascata induzido pela ação humana que pode desencadear mudanças ecológicas significativas. “As sementes de canelas, jatobás e maçarandubas, por exemplo, são grandes e dispersadas apenas por animais grandes, como antas e muriquis”, diz Galetti. “Essas árvores são as de madeira mais nobre e as que estocam mais carbono”, explica.

A Mata Atlântica é um dos mais degradados ecossistemas brasileiros, do qual restam, segundo algumas estimativas, aproximadamente 12% da cobertura original – mais de 80% da vegetação remanescente encontra-se altamente fragmentada em áreas com menos de 50 hectares. De acordo com os pesquisadores, o mesmo raciocínio que eles aplicaram à Mata Atlântica pode ser extrapolado para outros ambientes, como o amazônico, cujas espécies de árvores que retêm até 50% de CO2 da atmosfera dependem em grande medida da dispersão das sementes por frugívoros de grande porte. Segundo eles, os resultados ressaltam a importância de se considerar os animais como parte fundamental no processo de redução de emissões de gases do efeito estufa por meio do armazenamento de carbono em florestas tropicais.

Projeto

Ligando defaunação e os serviços de ecossistemas de armazenamento de carbono em florestas atlânticas (nº 2013/22492-2); Modalidade Bolsa no país — doutorado; Pesquisador responsável Mauro Galetti Rodrigues (Unesp); Bolsista Laura Carolina Bello Lozano (Unesp); Investimento R$ 140.088,00 (FAPESP)

Artigo científico
BELLO, C. et al. Defaunation affects carbon storage in tropical forests. Science Advances. dez. 2015.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

As antas e o clima

Pesquisa relaciona extinção de espécies dispersoras de sementes e redução na capacidade das florestas tropicais de estocarem carbono. Previsões feitas para a mata atlântica brasileira sugerem que o desaparecimento de grandes mamíferos e aves teria impacto sobre as mudanças climáticas globais. 
 
Por: Catarina Chagas
Publicado em 18/12/2015 | Atualizado em 18/12/2015
As antas e o clima
A anta é um animal de grande porte, capaz de dispersar grandes sementes e, assim, ajudar na renovação das árvores de madeira dura da mata atlântica. Seu desaparecimento impacta diretamente a composição desse tipo de floresta. (foto: Mauro Galetti.
 
Pensou estoque de carbono, pensou... Árvore. Normal. Afinal, são os vegetais, especialmente aqueles de grande porte, os responsáveis por absorver o dióxido de carbono da atmosfera e transformá-lo, por meio da fotossíntese, em oxigênio. As florestas são o lugar óbvio para que isso aconteça com maior intensidade, já que reúnem uma densidade maior de árvores por área. Até aí, ponto pacífico. No entanto, um estudo pioneiro realizado na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro mostrou que a fauna, em especial os grandes animais, também tem tudo a ver com a capacidade de sequestro de carbono das matas.

O argumento fundamental é simples: como várias espécies animais atuam como dispersoras de sementes, elas têm um papel fundamental na renovação das árvores de uma floresta, o que está diretamente relacionado à capacidade que tal floresta terá de estocar carbono no futuro. De maneira geral, as espécies maiores de árvores, de madeira mais densa, têm frutos com sementes também maiores e, por isso, precisam de animais maiores para dispersá-las. São elas as responsáveis pela maior parte da renovação de gás carbônico de uma floresta e, portanto, aquelas cujo desaparecimento ou redução populacional causam maior impacto sobre o estoque de carbono de sua região.
Sequestro de carbono
Nas florestas onde a fauna é preservada, a dispersão das grandes sementes é realizada por animais de grande porte. A presença de árvores de madeira dura aumenta a capacidade da mata de absorver gás carbônico. (gráfico: Mauro Galetti – tradução livre)
Ao mesmo tempo, as grandes espécies animais – especialmente de mamíferos e aves – são também as mais ameaçadas de sumir do mapa, por fatores como a caça predatória e o tráfico ilegal. Quando uma espécie dessas desaparece ou diminui sensivelmente sua população, o resultado não é apenas uma floresta mais vazia do ponto de vista da fauna: em médio prazo, a própria renovação das árvores fica comprometida. Trocando em miúdos, a floresta não sobrevive sem esses seus habitantes.
Quando um grande animal desaparece ou diminui sua população, a renovação das árvores fica comprometida
 
Não é de hoje que os cientistas desconfiam desta relação entre a fauna e o sequestro de CO2 nas florestas. Mas foi o trabalho realizado no Departamento de Ecologia da Unesp de Rio Claro, publicado hoje (18/12) na revista Science Advances, que estabeleceu pela primeira vez um modelo matemático para descrever os possíveis impactos da extinção de grandes espécies animais sobre os estoques de carbono das florestas e, consequentemente, sobre a dinâmica das mudanças climáticas globais.

Cenários possíveis

O estudo tomou como exemplo a mata atlântica, um dos biomas mais ameaçados do Brasil, sobre o qual a equipe dispunha de uma grande quantidade de dados acerca da dinâmica de dispersão de sementes e renovação das árvores. Os cientistas identificaram, então, as grandes espécies animais envolvidas nesse processo e simularam como ficaria a floresta se, nos próximos anos, elas desaparecessem.
Floresta defaunada
A extinção de espécies dirigida pela ação humana atinge especialmente os grandes animais. Como consequência direta, desaparecem também as árvores de madeira dura. (gráfico: Mauro Galetti – tradução livre)
Foram criados dois cenários possíveis. O primeiro considerava a extinção randômica de espécies animais, como ocorreria naturalmente em um ambiente pouco impactado pela ação humana. Já o segundo – que apresentou os resultados mais catastróficos – considerava o desaparecimento de espécies alvo da caça e do tráfico ilegal.
Na mata atlântica, são exemplos de árvores de madeira dura as canelas, os jatobás, os abricós-de-macaco e as maçarandubas, todas com frutos de grandes sementes dispersadas por grandes animais. Seu desaparecimento ocasionaria uma alteração fundamental na composição da mata – com a substituição destas por espécies de madeira mole, o bioma seria muito mais pobre em carbono.

“Imagine que uma floresta tem 100 árvores, sendo 20 dispersadas por grandes mamíferos e que produzem madeira dura (de lei). Simulamos a extinção, por exemplo, da anta, que dispersa essas árvores com sementes grandes”, explicou à CH Online o ecólogo Mauro Galetti, líder da pesquisa. “Essas árvores um dia morrem e são substituídas por outras espécies de madeira mole, como a embaúba. No final, existe um déficit de carbono, porque as madeiras de lei armazenam mais carbono que as madeiras moles”.
Sementes de jatobá
Sementes de jatobá. (foto: Mauro Galetti)
Segundo o trabalho, mesmo uma remoção pequena de espécies de madeira dura já afetaria o estoque de carbono total da floresta. Ainda que algumas árvores de madeira dura tenham sementes pequenas, capazes de se dispersar pelo vento ou com a ajuda de pequenos animais – é o caso da família das Myrtaceae, que inclui goiabeiras, jabuticabeiras e araçás –, a maior parte delas tem sementes maiores, e sua população é diretamente impactada pelo desaparecimento de espécies como muriqui (Brachyteles arachnoides), anta (Tapirus terrestris) e jacutinga (Aburria jacutinga).

Novas diretrizes

Embora as simulações tenham sido feitas com base em dados da mata atlântica, os autores do trabalho apontam que estudos realizados com outros biomas possivelmente encontrariam resultados parecidos. “Certamente este deve ser um fenômeno que ocorre também nas florestas da África e da Amazônia”, aposta Galetti. “Nessas regiões, o problema pode ser até mais grave, porque nessas áreas não existem muitas espécies de Myrtaceae”.

As previsões alertam para a necessidade de uma mudança na forma como pensamos hoje a preservação das florestas
As previsões alertam para a necessidade de uma mudança na forma como pensamos hoje a preservação das florestas. Além da exploração madeireira e das queimadas, cujo impacto sobre os estoques de carbono florestais já é bem documentado na literatura, as ameaças à fauna devem ser compreendidas como um problema da mesma gravidade. Segundo os autores do artigo, florestas de aparência intacta, mas com prejuízos na fauna, também devem ser consideradas degradadas. Campanhas de combate às alterações climáticas com foco no armazenamento de carbono em florestas tropicais devem, portanto, inserir a preservação dos animais em seus programas.

No futuro, a equipe da Unesp pretende estimar o custo do serviço de cada espécie dispersora de sementes no sequestro de carbono. “Quanto vale (em dólares) a dispersão de sementes do muriqui? E da anta? Falamos muito nos serviços de abelhas e podemos até quantificar quanto custaria em prejuízo a extinção delas para plantações, mas quanto custaria a perda de serviços de dispersão de sementes?”, questiona o coordenador do grupo.

Catarina ChagasInstituto Ciência Hoje/ RJ

terça-feira, 3 de novembro de 2015


Reintrodução de grandes mamíferos em ecossistemas pode ser estratégico para a conservação (foto: Bernard Dupond/Wikimedia Commons)

Elefante no Cerrado exerceria papel que já foi de mastodontes

03 de novembro de 2015


Agência FAPESP | Peter Moon – Qual é o continente que reúne a maior quantidade de animais de grande porte do planeta?. A África, óbvio, mas nem sempre foi assim. A chamada megafauna, os mamíferos de grande porte pesando mais de 1 tonelada, habitou todos os continentes. Tinha papel fundamental no meio ambiente, por exemplo, espalhando as sementes da flora de cada ecossistema que habitavam, além de comer a vegetação e reciclar nutrientes com suas fezes.

Havia preguiças-gigantes e mastodontes na América do Sul, mamutes na América do Norte, Ásia e Europa e parentes gigantes dos cangurus, do tamanho de hipopótamos, na Austrália. Todos foram extintos a partir do contato com o Homo sapiens.

Quais foram as consequências da repentina extinção da megafauna? Como saber se, quando a megafauna habitava, por exemplo, o Cerrado brasileiro ou a Mata Atlântica, tais biomas eram diferentes? Seria a reintrodução da megafauna uma estratégia de conservação viável e eficiente?
Um trabalho de revisão, feito por um grupo internacional de pesquisadores e que acaba de ser publicado na revista Proceedings of the National Academy of Science (PNAS), fornece um panorama deste tema, a chamada refaunação trófica.

Um dos autores do trabalho é Mauro Galetti, coordenador do Programa de Pós-graduação em Ecologia e Biodiversidade do Instituto de Biociências de Rio Claro da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ele também é coordenador do Projeto Temático FAPESP “Consequências ecológicas da defaunação na Mata Atlântica”.
“Imagina-se que grandes mamíferos só existem ou existiram na África, mas elefantes, cavalos, ursos e outros ocorreram em quase todo o planeta. Na Austrália havia lagartos e cangurus gigantes. As ações humanas nos últimos 50 mil anos na Austrália e 10 mil nas Américas levaram à extinção de quase todos esses grandes mamíferos”, explicou Galetti.

“Os pesquisadores estão chegando à conclusão de que os grandes mamíferos tinham um papel fundamental nos ecossistemas e, provavelmente, também no clima das áreas em que ocorriam. Por conta disso, tem-se sugerido reintroduzir experimentalmente grandes mamíferos de volta à natureza. Não apenas no Brasil, mas em outros locais, como, por exemplo, na Grã-Bretanha, uma ilha completamente isenta de grandes mamíferos, mas que já teve lobos, javalis e ursos”, disse.
A refaunação trófica, como explica Galetti, trata da ideia da introdução de animais de grande porte responsáveis por funções tróficas essenciais, cujo nichos ecológicos deixaram de ser ocupados com a extinção da megafauna original.

Com isso, elefantes e cavalos poderiam exercer no Cerrado o papel que já foi dos mastodontes, das preguiças-gigantes e dos gliptodontes (os tatus gigantes) e das manadas de cavalos e camelos americanos, todos extintos. “O Cerrado abrigava uma fauna de grandes mamíferos impressionante há pouco mais de 10 mil anos, o elefante de hoje é um substituto do mamute de ontem”, disse.

Onde essa experiência já foi testada? “Em poucos locais ainda, como na Sibéria e Holanda, onde a refaunação científica de grandes mamíferos está sendo feita. Mas há uma corrente de cientistas que acredita que ela pode ser realizada experimentalmente em todo o mundo. Não é simplesmente soltar elefantes no Cerrado, mas sim manejar grandes mamíferos em ambientes controlados para estudar seus efeitos”, disse.
Galetti ressalta que a refaunação trófica não deve ser feita em reservas biológicas, mas em áreas privadas e controladas e em locais experimentais. “As reservas biológicas devem ficar como estão e não podem ser usadas para esse tipo de experimento.” A estratégia pode ser empregada em áreas onde se deseja implementar a conservação biológica. “Não é para transformar uma já existente.”

Estudos em biomas brasileiros

Segundo Galetti, o próprio Pantanal é um grande experimento de refaunação. No bioma, além da fauna silvestre, há porcos-monteiro, gado e cavalos selvagens.
“Muita gente acha que os porcos-monteiro, que foram trazidos e soltos há cerca de 200 anos, têm que ser removidos do Pantanal porque são exóticos. Mas demonstramos que esses porcos-monteiro são excelentes dispersores de sementes de muitas plantas no Pantanal. Ressalvando-se que, quando em alta densidade, a espécie pode ser nociva ao meio ambiente, como qualquer espécie”, disse.
Se no Cerrado a refaunação trófica poderia ocorrer apenas em áreas pequenas e experimentais, na Mata Atlântica o processo teria que ser feito com animais pequenos e em áreas restauradas que estão vazias devido à caça, segundo o professor da Unesp.
Alguns projetos de refaunação na Mata Atlântica estão sendo feitos no Parque da Tijuca, no Rio de Janeiro, com a reintrodução de cutias e bugios. “Muitas espécies de plantas dependem dos animais para dispersar suas sementes. E o resultado é que as cutias e os bugios estão ajudando muitas plantas a serem dispersas”, disse Galetti.

O pesquisador já propôs a realização de um experimento de refaunação em áreas de Cerrado fadadas à destruição para o plantio de soja. A ideia era delimitar uma pequena área, instalar ali elefantes de zoológico e de circo e estudar sua ação como dispersores de sementes, comedores de plantas.
“Não se trata simplesmente de soltar elefantes ou cavalos. Essas áreas de refaunação não seriam parques naturais, não teriam animais exóticos que poderiam se tornar invasores nem animais com doenças que pudessem afetar as espécies nativas. Já temos muita informação sobre o desastre que é soltar animais exóticos”, disse.

A meta da refaunação seria aprender com o manejo dos animais qual foi o papel da extinção da megafauna sobre o clima, o solo, o estoque de carbono, sobre a restauração do ecossistema, a dispersão de sementes, o fogo, etc.

“O Cerrado possuía mais animais acima de uma tonelada do que a África de hoje. Quais foram as consequências ecológicas do seu desaparecimento? Ninguém sabe. A maioria dos pesquisadores acha que tudo foi moldado pelo fogo ou pelo solo”, complementa Galetti.

O artigo Science for a wilder Anthropocene: Synthesis and future directions for trophic rewilding research (doi: 10.1073/pnas.1502556112), de Jens-Christian Svenning, Mauro Galetti e outros, pode ser lido por assinantes da PNAS em www.pnas.org/content/early/2015/10/23/1502556112.