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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Investigação pode ajudar a salvar espécie de caranguejo em extinção


Qua, 31 de Janeiro de 2018
Cardisoma guanhumi no mangue em Itamaracá - PE (Foto: arquivo pessoal Denise Moraes)O Brasil é um país que apresenta variedade incalculável de categorias em sua fauna e flora. Talvez por isso seja tão difícil catalogar informações suficientes de todas as classes, como é o caso da espécie de caranguejo Cardisoma guanhumi. “Apesar de ele ser fonte de subsistência para muitas famílias brasileiras, faltam dados sobre sua biologia, aspectos populacionais e mortalidade”, conta o pesquisador Ralf Schwamborn, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Schwamborn e a cientista Denise Moraes-Costa, também da UFPE, são autores de um estudo sobre o assunto recém-publicado pela revista científica Helgoland Marine Research. O artigo Site fidelity and population structure of blue land crabs (Cardisoma guanhumi Latreille, 1825) in a restricted-access mangrove area, analyzed using PIT tags está disponível* em texto completo para os usuários do Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

Cardisoma guanhumi no mangue em Itamaracá - PE (Foto: arquivo pessoal Denise Moraes)“No momento, o status do C. guanhumi junto ao Ministério do Meio Ambiente é ‘criticamente em perigo de extinção’, o que mostra que é extremamente vulnerável. Mesmo assim, continuam as buscas para comercialização. Essas capturas são o sustento de inúmeras famílias de pescadores artesanais, o que torna o assunto bastante complexo e controverso”, explica Schwamborn. “Entender os padrões de deslocamento e as variações sazonais da espécie contribui fortemente para o manejo adequado e a conservação”, avalia.

O trabalho foi realizado em uma área preservada de manguezal, inserida no Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (CMA/ICMBio), em Itamaracá (Pernambuco). De acordo com Schwamborn, na área de estudo foi estimada a média do tamanho da população da área de coleta – cerca de 1312 indivíduos – através dos dados de 291 indivíduos de C. guanhumi marcados com o Passive Integrated Transponder (PIT). Cabe destacar que este foi o primeiro estudo a utilizar o método de marcação com o PIT para mostrar mudanças sazonais no comportamento da espécie.

O pesquisador Ralf Schwamborn, da UFPE, é um dos autores do trabalho (Foto: acervo pessoal)Os indivíduos estudados apresentaram em média largura da carapaça de 43,5 mm, bem abaixo do permitido para captura no Nordeste do Brasil, que é de 60,0 mm. “Foi observado em 77% dos indivíduos recapturados um comportamento de fidelidade à sua área de origem (local onde foram capturados pela primeira vez desde o início do estudo), mesmo que fossem soltos em áreas distantes”, conta. Manter-se fiel ao sítio pode ser uma estratégia para evitar predação natural e proteger suas tocas ou pode estar relacionado ao ciclo de reprodução. “Na prática, essa população poderia ser despescada em poucos dias se não estivesse em uma área fechada e protegida”, pontua o especialista.

A cientista Denise Moraes, da UFPE, também é responsável pelo estudo sobre o C. guanhumi (Foto: acervo pessoal)Os machos demostraram ser mais ativos, enquanto as fêmeas apresentaram em média 96% de fidelidade à sua área. “Talvez os indivíduos machos se desloquem explorando novas áreas ou buscando as fêmeas. Neste estudo, pela primeira vez foram observadas migrações sazonais devido ao método utilizado de marcação e recaptura. O padrão sazonal observado em outubro como o de menor fidelidade à área pode estar relacionado com o início do período reprodutivo e as buscas por parceiros”, explica Schwamborn. Por esse motivo, o estudo sugere que a proibição da captura, ou seja, o período de defeso, tenha início no mês de outubro e não em dezembro, como exige a legislação atual, o que aumentaria a proteção da espécie.

Legislação brasileira
No Brasil, segundo Ralf Schwamborn, a legislação vigente indica o tamanho apropriado para a captura dos indivíduos machos de C. guanhumi em cada estado. A Instrução Normativa nº 90 de 02/02/06 estabeleceu para o estado de Pernambuco capturas de indivíduos a partir de 60,0 mm de largura do cefalotórax/carapaça, excluindo-se os meses de dezembro a março devido ao período reprodutivo da espécie. Desde 2002, foi proibida a captura das fêmeas nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia.

Em dezembro de 2014, o Ministério do Meio Ambiente, através da portaria nº 445, publicou a “Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção – Peixes e Invertebrados Aquáticos”. As espécies constantes na lista foram categorizadas e as medidas de proteção foram deliberadas. “O C. guanhumi foi classificado como criticamente em perigo de extinção e ficou protegido de modo integral, incluindo, entre outras medidas, a proibição de captura, transporte, armazenamento, guarda, manejo, beneficiamento e comercialização”, detalha o pesquisador.

Mas o documento já foi substituído pelas portarias 98/2015, 163/2015 e 161/2017, sendo que esta última informa que as restrições previstas no art. 2º da portaria 445/2014 entrarão em vigor em 30 de abril de 2018. “Até lá, as capturas e a comercialização devem seguir as normas vigentes de ordenamento. Os estoques deverão ser declarados até 5 de maio de 2018 e comercializados até 30 de junho de 2018”, explica. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, a prorrogação das medidas de manejo publicadas na portaria 445/2014 devem ser estabelecidas de forma mais estruturada para um manejo adequado.

Portal de Periódicos como principal ferramenta de pesquisa
Ralf e Denise são usuários da biblioteca virtual da CAPES e afirmam que utilizam com frequência o acervo para compor suas pesquisas. “O Portal de Periódicos da CAPES é um importante instrumento para a ciência no Brasil. A gama de excelentes artigos científicos dispostos de forma clara e de fácil acesso são fundamentais para a contribuição que o Portal nos oferece. Em nossa área de atuação, estamos satisfeitos com o Portal de Periódicos e esperamos que a qualidade dos materiais disponíveis se mantenha”, reconhece Schwamborn.

A revista científica Helgoland Marine Research pode ser localizada por meio do link buscar periódico do Portal.

*Verifique o conteúdo do Portal de Periódicos disponível para sua instituição

O Portal de Periódicos da CAPES autoriza a reprodução parcial ou total de suas notícias desde que seja citada a fonte

Alice Oliveira dos Santos

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Vegetação nativa mantém tamanduá-bandeira em áreas do Cerrado
Atividade de espécie vulnerável à extinção é avaliada
Maristela Garmes
06/07/2017
Foi na região Nordeste do Estado de São Paulo, onde a paisagem do Cerrado tem a sua área reduzida e alterada pela expansão da área urbana e pelas atividades agrícolas, que a pesquisadora Gisele Lamberti Zanirato foi buscar seu objeto de estudo: o tamanduá-bandeira.    

Gisele queria saber se o tamanduá-bandeira continua ocupando estas áreas alteradas no Cerrado. “A perda da vegetação nativa tanto dos fragmentos (áreas remanescentes da floresta) quanto da paisagem pode levar a reduções de ocorrência dos tamanduás no Nordeste do Estado de São Paulo”, diz. 

A orientadora do estudo, professora Rita de Cássia Bianchi, do Departamento de Biologia da Unesp de Jaboticabal, conta que o trabalho fornece informações básicas da ocupação do tamanduá-bandeira em uma paisagem pobre em vegetação nativa e com predomínio de cana-de-açúcar no Estado de São Paulo.

“Apesar da ocorrência da espécie, inclusive em canaviais e outras plantações, Unidades de Conservação maiores e com remanescentes de vegetação nativa em sua zona de amortecimento são os melhores cenários para a conservação dessa espécie de mamífero ameaçada de extinção, afetada pela perda e fragmentação de habitat, caça, atropelamentos e pelo uso indiscriminado de defensivos agrícolas, ressalta a professora.

Em sua pesquisa, Gisele avaliou a presença ou ausência dos tamanduás, analisando 20 fragmentos formados por vegetação nativa, que se distribuíam em meio às pastagens e plantações de cana-de-açúcar, soja, café, pinus e eucalipto. Os dados da pesquisa foram obtidos por meio de armadilhas fotográficas.

Em cada uma destas áreas, ela avaliou o tamanho do fragmento; a distância do fragmento estudado aos dos fragmentos ao redor; a quantidade de água e de vegetação na paisagem. “Este mapeamento é importante para explicar a ocorrência dos animais nos fragmentos rodeados por plantios de cana-de-açúcar, silvicultura e pastagens”, explica.

Um outro destaque da pesquisa foi verificar se há diferença no padrão de atividade entre as populações de tamanduás-bandeira que ocupam os fragmentos com áreas de diferentes tamanhos.

Os resultados apontam que a ocorrência dos tamanduás-bandeira nos fragmentos tende a ser maior quanto maior for a área do fragmento e quanto maior for a porcentagem de vegetação nativa ao redor do fragmento.

A pesquisa avaliou também que os tamanduás-bandeira estão praticamente ativos das 6h até às 17h (atividade diurna) e das 18h até às 5h (noturna). “Quando ativos, tanto de dia quanto de noite, diz-se que o padrão de atividade é catemeral”, reforça.

Gisele conta que ele tem picos de atividades crepuscular e noturno e, ainda, o padrão de atividade nas áreas menores é o mesmo que na área maior e, como mostram outros trabalhos, diferente de muitos outros mamíferos, a temperatura do ambiente pode afetar a atividade dessa espécie. 

A pesquisa de mestrado intitulada: O impacto da perda e fragmentação do habitat sobre a ocupação e o padrão de atividade do tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce), Câmpus da Unesp em São José do Rio Preto.   

Tamanduá-bandeira é bicho em extinção?
O tamanduá-bandeira apresenta distribuição original, ou seja, ocorria naturalmente no sul dos países de Belize e Guatemala, na América Central, até o norte da Argentina e do Uruguai. Atualmente, na América Central, a espécie é encontrada apenas nas regiões montanhosas: provavelmente está extinta na Guatemala e em Belize. Na América do Sul, é extinta somente no Uruguai.

No Brasil e no Estado de São Paulo, o tamanduá-bandeira está classificado como “vulnerável” e, de forma especial, no Rio Grande do Sul e no Paraná, ele é considerado "criticamente em perigo", a mais grave categoria de ameaça à extinção. No Rio de Janeiro, a espécie é considerada "provavelmente extinta" e no Espírito Santo, "regionalmente extinta".

segunda-feira, 6 de março de 2017

A fauna que sobrevive nas florestas nas plantações de cana
 
Pesquisadores da Unesp publicam na revista Biological Conservation
Assessoria de Comunicação e Imprensa
06/03/2017
Registro de Tamanduá Bandeira (Myrmecophaga tridactyla) com seu filhote no município de Magda.
 
Finalmente uma boa notícia para o meio ambiente: pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (UNESP) do Instituto de Biociências de Rio Claro publicaram essa semana na revista inglesa Biological Conservation um censo com de mamíferos em 22 remanescentes florestais circundadas por monocultura de cana-de-açúcar em São Paulo. 
 Através da instalação de câmeras automáticas nas florestas os pesquisadores encontraram 29 espécies de mamíferos, incluindo anta, tamanduá-bandeira, onça e veados. Segundo a pesquisadora responsável, Gabrielle Beca, isso equivale a 90% dos mamíferos esperados para a região do estado de São Paulo. "Quando consideramos todas as 22 áreas que trabalhamos, vimos que não houve extinções na escala regional. 

No entanto, quando olhamos para cada floresta separadamente, observamos que houve a extinção de 50% a 80% dos mamíferos. Ou seja é uma boa e má notícia ao mesmo tempo", comenta Beca. “Ficamos surpresos em encontrar tantas espécies em florestas esquecidas no meio da cana”, diz Beca. “Mas uma coisa também ficou clara, quanto maior a floresta, mais animais raros ela possui, como onça pintada, antas e queixadas” completa Beca.

“Esse trabalho mostra que ainda existe uma chance de conservarmos toda a fauna de mamíferos grandes se conectarmos todos esses fragmentos em corredores ecológicos”, comenta o Professor Mauro Galetti, orientador da pesquisa.

Apesar dessa boa notícia, os pesquisadores também mostram que muitas florestas estudadas possuem o javaporco e cães domésticos que podem trazer muitos danos a biodiversidade e as outras espécies. “O javaporco se tornou uma praga no Brasil e se não for controlado haverá um enorme problema para a agricultura, saúde pública e mesmo para a biodiversidade”, comenta Felipe Pedrosa, um dos autores do trabalho. “O javaporco, além de invadir plantações, e é uma das principais presas dos morcegos vampiros, que transmitem a raiva” complementa Felipe.

Agora os pesquisadores pretendem mapear possíveis áreas para criar os corredores ecológicos. “Sem a criação de corredores ecológicos, essa fauna ficará ilhada e com o tempo poderá ocorrer extinções de várias espécies” complementa o Professor Milton Ribeiro do Instituto de Biociências da UNESP.

"Nesse cenário positivo, em que nenhuma extinção regional foi registrada, o simples cumprimento do Código Florestal e a criação de corredores ecológicos é fundamental para a conservação da fauna de mamíferos ", comenta Galetti. “Temos que replantar corredores e incentivar o cumprimento do Código Florestal e assim podemos ter agricultura e meio ambiente saudável ao mesmo tempo”, completa Ribeiro.

“Esse estudo pode trazer um enorme alento para os ambientalistas e para os produtores de cana, mas também temos que trabalhar rápido para criar esses corredores” completa Galetti. A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo `a Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

No estudo também participaram Maurício H. Vancine, Carolina S. Carvalho, Felipe Pedrosa, Rafael Souza, C. Alvez, Daiane Buscariol, Milton Cezar Ribeiro do Departamento de Ecologia da UNESP de Rio Claro, e Carlos A. Peres da Universidade de East Anglia da Ingalterra.

Contato:

Gabrielle Beca, aluna de doutorado na UNESP Rio Claro - gabrielle.beca@gmail.com (Fone: +55 19 992426008)

Mauro Galetti, professor da UNESP Rio Claro - mgaletti@rc.unesp.br (Fone +55 19 35264236)

Milton Cezar Ribeiro – professor da UNESP Rio Claro - mcr@rc.unesp.br

Beca, G,. Vancine, M.H, Carvalho, C,S,. Pedrosa, F., Alves, R.S.C., Buscariol, D., Peres, C.A., Ribeiro, M.C. 2017. High mammal species turnover in forest patches immersed in biofuel plantations. Biological Conservation.

A publicação está acessível em
http://dx.doi.org/10.1016/j.biocon.2017.02.033

mapa_beca-et-al-2017.jpg

Localização de paisagens (pontos pretos) em remanescentes de Mata Atlântica, no estado de São Paulo. As paisagens estão numeradas e apresentadas no sentido horário, em ordem da quantidade de cobertura florestal (verde).

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Repórter Eco dá o alerta: restam apenas 250 onças-pintadas na Mata Atlântica

Com a população em reprodução de cerca de 50 indivíduos, o Brasil está perto de ver o maior felino do continente americano ser extinto. No ar domingo (22/2), às 17h30, na TV Cultura

Repórter Eco dá o alerta: restam apenas 250 onças-pintadas na Mata Atlântica




 







Meio Ambiente
20/02/14 20:10 - Atualizado em 20/02/14 20:13
O Repórter Eco deste domingo (22/2) traz um dado preocupante para toda a comunidade científica: restam apenas 250 onças-pintadas adultas na região da Mata Atlântica. A situação é ainda mais crítica quando se pensa na população efetiva que está se reproduzindo: cerca de 50 animais, divididos em oito populações. O programa vai ao ar às 17h30, na TV Cultura.
 
O alerta foi feito através de uma carta redigida por um grupo de 13 pesquisadores brasileiros e publicada no final de 2013 pela revista científica Science. Integrante da lista vermelha de espécies ameaçadas de extinção do Ministério do Meio Ambiente, a onça-pintada se tornou símbolo de ações de preservação. Contudo, a caça e o desmatamento persistiram, levando o maior felino do continente americano à situação atual. 
 
O número reduzido leva à consanguinidade, o que diminui a heterogeneidade do grupo, o que o torna mais vulnerável a doenças. Diante do risco real de extinção, o Brasil está próximo de uma marca nada almejada: ficar marcado como o primeiro país tropical a perder um grande predador, com impactos severos para o meio ambiente. 
 
O foco do documento é chamar a atenção da comunidade científica, sociedade e governantes para que, juntos, possam se movimentar rapidamente na tentativa de estancar o desmatamento e reduzir a caça a nível zero, para que a espécie tenha condições de se recuperar por ela mesma. 
 
Além da matéria sobre a onça-pintada, o programa traz uma esperança no campo da medicina: estudos da Unifesp (Universidade Federal  de São Paulo) indicam que as sementes da árvore “orelha de macaco”, integrante da flora brasileira, tem uma proteína que, no futuro, poderá ser usada no tratamento de seis tipos de câncer, entre eles, o de mama. 
 
O Repórter Eco, integrante do jornalismo da TV Cultura de São Paulo, é exibido aos domingos, às 17h30, com reexibição aos sábados, às 8h15.

domingo, 9 de outubro de 2011

O tamanho não o salva da morte

Ser o maior da América do Sul não livra o cervo-do-pantanal da morte por perda de hábitat

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    Uma fina névoa ainda esconde o céu azul. Pouco mais de 7 horas da manhã. Os cavalos selados aguardam na estrebaria o início de uma nova jornada de trabalho, hoje à ‘caça’ do cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus), o maior cervídeo da América do Sul, habitante das áreas alagadas das várzeas de grandes rios.
Durante os meses de inverno - período de seca no Centro ao Sul do Brasil -, as várzeas e varjões se resumem a pequenos fragmentos, disputados pela fauna silvestre e por centenas de cabeças de gado que dominam os pastos e a economia da cidade de Presidente Epitácio, na região do Pontal do Paranapanema, extremo-Oeste do Estado de São Paulo. As primeiras cavalgadas escondem as dificuldades que teremos pela frente. Em pouco mais de 40 minutos, o corpo, pouco acostumado ao ritmo do animal, começa a doer. Logo, a planície seca cede espaço à paisagem pantaneira. Até este momento, nenhum sinal do cervo.
Os primeiros indícios aparecem com quase 2 horas de procura. Pegadas, ainda molhadas, renovam a esperança de encontrá-lo. "Não faz muito tempo que o bicho passou por aqui. As marcas estão frescas", nos anima o guia e campeiro da Fazenda Bom Retiro, Diogo da Silva Franco, acostumado com a presença do animal por aquelas bandas.
 
A marcha continua. A dificuldade em encontrar o animal nos leva a duas conclusões antagônicas sobre a vida do cervo. A primeira, mais confortante, é a capacidade de ele se infiltrar na mata e se esconder dos nossos olhos, numa tentativa de proteção. A segunda já preocupa: devido à drástica redução do seu hábitat natural e apesar das iniciativas de conservação da espécie, o cervo-do-pantanal já não é figura comum nas margens do Rio Paraná. Suas aparições são momentos raros, exceções no cenário atual.
 
A procura se estende para a foz do Rio do Peixe, um importante tributário do Rio Paraná. São quase três horas e meia de cavalgada quando somos surpreendidos pelo pedido de silêncio de Hélio Pinto de Lima, capataz de uma fazenda da região, ao apontar para um pequeno remanescente de mata à nossa frente. Desço do cavalo. Conforme me aproximo, consigo visualizar a galhada do animal entre folhas e ramos. É só o tempo de acionar o disparador e flagrar o cervo-do-pantanal por alguns instantes, até a fuga em disparada.
 
As dificuldades encontradas para localizar o cervo-do-pantanal na região do Pontal do Paranapanema, antigamente conhecida como o Pantanal Paulista, é um argumento a mais na luta da Associação em Defesa do Rio Paraná, Afluentes e Mata Ciliar (Apoena) contra o desaparecimento desta espécie em terras paulistas. O jornalista aposentado Djalma Weffort, fundador e atual presidente da entidade, é natural de Presidente Prudente e vive em Presidente Epitácio. Muito antes da fundação da ong, em 1988, já acompanhava a eliminação de grandes áreas verdes da região. "Na década de 50, Presidente Epitácio tinha cerca de 15 serrarias, a principal fonte econômica da cidade na época”, lembra o ambientalista. “Na década de 60, durante as viagens de trem a São Paulo, eram comuns as grandes queimadas que consumiam a vegetação, abrindo espaço para a pecuária”.
 
O problema da ocupação no Pontal, no entanto, começou antes disso. Em 1942, o governo decretou a Grande Reserva do Pontal do Paranapanema, com 247 mil hectares. Conflitos fundiários reduziram tal área para 12 mil hectares, atualmente muito fragmentados. Nas décadas seguintes, ao complexo quebra-cabeças de uso do solo somaram-se as barragens, que reduziram drasticamente os espaços naturais de ocorrência do cervo-do-pantanal. Apenas no rio Paraná, os reservatórios de 3 grandes hidrelétricas - Ilha Solteira, Engenheiro Souza Dias e Sérgio Motta – cobrem mais de 3.700 km2 entre áreas de várzea, varjões e mata ciliar. No Rio Tietê, o reservatório da Usina de Três Irmãos - a maior do rio, a 28 km da confluência com o Rio Paraná – eliminou outros 785 km2.
 
“Estima-se que o número de cervos mortos durante o enchimento da UHE Sérgio Motta, por efeito direto ou indireto, tenha ficado entre 700 e 1.000 animais", recorda Maurício Barbanti, pesquisador da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Jaboticabal) e coordenador do Projeto Cervo-do-Pantanal de 1998 a 2002. Os números apresentados por João Henrique Dias, gerente de Recuperação e Conservação de Ecossistemas da Companhia Energética de São Paulo (CESP), diferem da avaliação de Barbanti. "Houve efetivamente uma redução. No levantamento de 1992, vivia na região da usina uma população de 1.000 cervos. No último levantamento, finalizado em maio deste ano, a população estimada era de 400 a 600 indivíduos. Além disso, deve-se considerar a parcela que migrou para áreas próximas, durante o processo de enchimento da represa”.
 
Discordâncias à parte, o impacto da hidrelétrica poderia ter sido maior. Durante a segunda etapa do enchimento da represa, em 2001, a Apoena, com apoio do Ministério Público, e embasada nos estudos realizados pelo hidrólogo José Galizia Tundisi, lutou para que o nível do reservatório ficasse na cota de 257 metros, em lugar dos 259 previstos no projeto original. De acordo com os estudos de Tundisi, esses 2 metros poupariam cerca de 40 mil hectares do alagamento, numa área importante para a conservação do cervo. "Havia, na época, duas possibilidades para se evitar o desaparecimento das áreas pantanosas do ‘Rio Feio’ (como o Rio do Peixe é conhecido na região) e de toda a Reserva Florestal da Lagoa São Paulo: a primeira seria a construção de uma barreira para evitar a inundação da área. A segunda, mais viável, era o rebaixamento da represa em 2 metros", relembra Tundisi. "Hoje, a maior luta é pela manutenção da cota 257", ratifica Weffort.
 
A importância desses 2 metros não está apenas na conservação de 40 mil hectares de áreas nativas. Com a alteração do nível original da barragem, uma significativa área de conexão entre as duas margens do Rio Paraná foi mantida, o que possibilita um trânsito de animais e conseqüente cruzamento genético entre os grupos de cervos de cada lado. "Conseguimos estabelecer uma ligação, uma espécie de ponte natural que une as duas margens" afirma Weffort. "Os animais da região do Rio Aguapeí, Rio Verde, Ilha Comprida e Cisalpina têm um trânsito constante de um local para o outro", comenta Dias. A área de conexão fica entre os municípios de Paulicéia e Castilho, no Estado de São Paulo, e Brasilândia e Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul.
 
Segundo levantamento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), realizado em maio deste ano, a população de cervos do lado paulista da Bacia do Paraná é estimada em 400 a 600 animais Para a conservação da espécie, portanto, essa comunicação com os indivíduos sul-mato-grossenses diminui o risco de perda da variabilidade genética, ao menos em curto prazo. Barbanti reafirma que o rebaixamento da represa foi fundamental para a conservação de áreas importantes, porém discorda da efetiva conectividade entre as duas margens. "Não há um monitoramento que permita comprovar essa conectividade entre os dois lados do rio. O controle, a partir de imagens em helicópteros, não mostra cientificamente que um animal tenha cruzado o rio. Ao contrário, reafirma que as populações restantes estão isoladas e, pior, isoladas entre si".
 
Apesar da vitória parcial, áreas importantes foram inundadas. A Reserva Florestal da Lagoa São Paulo, em Presidente Epitácio, teve a área drasticamente reduzida. Dos 14.200 hectares originais, estabelecidos no mesmo decreto estadual que criou a Grande Reserva do Pontal, em 1942, apenas 3.500 permanecem emersos. O jeito foi lutar pelas compensações ambientais para garantir a preservação dos maiores refúgios naturais do cervo-do-pantanal na região: uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) de 15.960 hectares, na foz do rio Aguapeí, e o Parque Estadual do Rio do Peixe, com 4.100 hectares. Somadas, as duas áreas equivaliam ao total do hábitat perdido na Lagoa São Paulo e na Grande Reserva do Pontal do Paranapanema.
 
Em 2003, uma deliberação do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema) indicou a criação do Parque Estadual do Aguapeí, de 9.043 hectares, e a ampliação do parque do Rio do Peixe, para 7.720 hectares, ambos como forma de compensação pela construção da UHE Sérgio Motta. Ainda como compensação pelos danos ambientais da usina, a CESP cedeu parte da área não alagada da Lagoa São Paulo, cerca de 371 hectares, para um projeto de reflorestamento da Apoena, de plantio de 620 mil mudas nativas em 5 anos. “A Lagoa São Paulo é uma vitória da sociedade civil, porque esta área não fazia parte das medidas compensatórias aprovadas em 2003 pelo Consema”, declara Weffort. “Com isso, criamos um mosaico de conservação do cervo-do-pantanal com mais de 40 mil hectares, no Estado de São Paulo. O mosaico se completa com as áreas criadas na região Sudeste do Mato Grosso do Sul, na margem direita do Rio Paraná: o Parque Estadual das Várzeas do Ivinhema, de 73.300 hectares, e a RPPN Cisalpina, de 15 mil hectares”.
 
A manutenção dos espaços naturais é um importante avanço na conservação dos cervídeos, embora não seja a solução do problema. "O cervodo- pantanal é um animal extremamente sensível às mudanças ambientais", lembra Barbanti. "Durante as operações de captura e transporte dos animais, pouco antes do enchimento da represa de Sérgio Motta, era comum a morte de cervos por estresse". Em 1998, 120 cervos foram capturados para dar início a implantação do Programa de Conservação em Cativeiro da CESP. Deste total, 30% morreram durante os primeiros 60 dias de cativeiro.
 
A CESP deve entregar até o final do ano o Plano de Conservação do Cervo-do-Pantanal, através do qual pretende direcionar as ações e medidas necessárias para a manutenção do hábitat natural dos cervídeos e para diminuir as pressões sobre a espécie. "O levantamento da população de cervos é apenas um passo dentro do Plano de Conservação. Num primeiro momento, as ações estarão centralizadas num programa de educação ambiental voltado para as cidades da região e no aumento da fiscalização nas unidades de conservação. Haverá um esforço muito grande para o combate às práticas predatórias", explica Dias. "Os animais do Estado de São Paulo terão um manejo mais cuidadoso, devido às ameaças antrópicas, ao pequeno tamanho da população e da área natural". Além das ações que a própria empresa deve assumir, o Plano de Conservação prevê indicações de iniciativas para a manutenção do hábitat natural do cervo, como a recuperação de várzeas que abrigam, além dele, inúmeras outras espécies de mamíferos.
 
Para Barbanti, a conservação do cervo-do-pantanal está inserida num contexto muito maior: "Acredito que a conservação da espécie deva ser usada como uma bandeira para a conservação da várzea, que funciona como uma grande esponja para o rio. Para o Estado de São Paulo, a esperança é manter os cervos em pequenas várzeas, estabelecendo conectividade entre elas, artificialmente ou não".
E Djalma Weffort complementa: "É preciso investir em pesquisas sobre o comportamento da espécie, além de proteger, de fato, as unidades de conservação que foram criadas, tanto do lado paulista quanto do lado sulmato-grossense, para que elas saiam do papel e se transformem em áreas de proteção, e, principalmente, buscar um maior envolvimento por parte dos proprietários rurais e fazendeiros na conservação do cervo-do-pantanal e do hábitat natural da espécie". Ele agora batalha pela criação de novas unidades de conservação na confluência do Rio Pardo com o Rio Inhanduí, nas várzeas do Rio Verde e a ampliação da RPPN Cisalpina, todas no Mato Grosso do Sul.
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Cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus)
 
É o maior cervídeo da América do Sul. Chega a 1,30 metro de altura e a 2 m de comprimento. O macho pesa até 150 kg e a fêmea, 100 kg. O macho possui galhada de 50 cm de comprimento com até 10 pontas. Perde os chifres entre dezembro e agosto. Quando renasce, a galhada apresenta uma nova ponta. A gestação é de cerca de 8 meses, com apenas um filhote. Vive em áreas úmidas e pantanosas, entre a Bacia Amazônica e a Argentina, com maiores concentrações na bacia dos rios Paraguai e Paraná. Originalmente ocorria no Uruguai, onde hoje é considerado extinto. A população argentina encontra-se bastante ameaçada. Tem patas adaptadas ao hábitat, com uma membrana na fenda dos cascos. É muito caçado pela carne e suscetível a doenças adquiridas do gado, além de sofrer com a perda de hábitat.
 
Um alemão, uma kombi, várias paixões
 
A paixão pela natureza nasceu ainda na Alemanha. "Quando criança, eu pegava os livros de minha irmã mais velha e ia direto para as páginas que tinham animais". Depois, aos 13 anos, veio o fascínio pelo Brasil. "Quando viajei para cá pela primeira vez, em 1950, acompanhando o meu pai, fiquei impressionado com a beleza das cores das borboletas", relembra o engenheiro alemão Peter Mix, 68 anos de idade, 40 de Brasil, 10 dedicados às imagens da natureza brasileira. Ele divide seu tempo entre os registros, em fotografias e gravuras, das belezas que o encantam desde a juventude e a luta pela conservação do cervo-do-pantanal na região do Pontal do Paranapanema, junto à ong Apoena. "De 10 anos para cá, tenho me dedicado exclusivamente à natureza. Fico por dias no meio do mato, fotografando os pássaros e outros animais". Em suas incursões às áreas de observação, Mix leva uma espécie de casa ambulante, uma perua Kombi internamente modificada. "Tem cama, geladeira e até uma biblioteca dentro dela. Só paro de trabalhar quando a água acaba". Atualmente, ele faz um levantamento de pássaros nos parques estaduais do Rio do Peixe e de Aguapeí, onde já catalogou mais de 120 espécies diferentes. "Tudo começou como uma paixão. Hoje faço isso também como uma atitude cidadã. Apesar de me considerar brasileiro, faço restrições sobre a forma com que a sociedade brasileira cuida do meio ambiente"
 
A esperança da reintrodução
 
A região do Pontal do Paranapanema é um dos últimos locais onde o cervo-do-pantanal pode ser encontrado em hábitat natural no Estado de São Paulo. Em 1998, durante a implantação do Programa de Conservação em Cativeiro do Cervo-do-pantanal nas áreas próximas à UHE Eng. Sérgio Motta, na divisa com Mato Grosso do Sul, cerca de 120 animais foram capturados e parte deles foi reintroduzida na Estação Ecológica Jataí, nas margens do Rio Mogi- Guaçu, no município de Luiz Antônio e na cidade de Colômbia, região Norte de São Paulo, e às margens do Rio Grande, na divisa com Minas Gerais. No município de Colômbia, os seis animais reintroduzidos nas áreas de várzea morreram pouco tempo depois do transporte. Mas em Luiz Antônio, a experiência de reintrodução apresentou resultados mais animadores: os oito animais enviados para a Estação Ecológica de Jataí reproduziram e, após sete anos, somam 13 a 15 indivíduos, numa área de 4.532 hectares. Na Bacia do Rio Mogi-Guaçu, o cervo-do-pantanal é considerado extinto desde o início do século 19. “A última notícia de um cervo abatido na Bacia do Mogi foi em 1907, próximo à cidade de Orlândia”, comenta Maurício Barbanti, da Unesp- Jaboticabal. “A experiência em Luiz Antônio servirá de base para futuras iniciativas de reintrodução”.