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terça-feira, 29 de agosto de 2017

Tamanduá-bandeira pode acabar no Cerrado do Estado de SP
Estudo inédito da Unesp avalia quantidade e ameaça de extinção
Maristela Garmes
28/08/2017
Ttamanduá-bandeira no Cerrado paulista.
 
Sabe o tamanduá-bandeira, aquele bicho com cara de simpático, que tem uma língua grande, e que se alimenta de formigas e cupins?  No Estado de São Paulo ele é “vulnerável” à ameaça de extinção, ou seja, ao menos 30% da população deste mamífero foi perdida nos últimos dez anos. Os motivos? Perda e alteração do seu habitat, atropelamentos, caça, queimada, conflitos com cães e uso de agrotóxico.

Os impactos da ação humana aumentam a vulnerabilidade da espécie e elevam o nível de ameaça”, diz a bióloga Alessandra Bertassoni, que realizou uma pesquisa na Estação Ecológica de Santa Bárbara (EESB), próxima à cidade de Avaré, interior de São Paulo. Segundo ela, no pior dos cenários, com a continuação dos casos de atropelamento, de caça e de queimada na mata, “a possibilidade da população sobreviver cai para 20 anos. Se o fogo utilizado nas queimadas for suprimido, a viabilidade será de 30 anos”.  

Esta estimativa só foi possível porque a bióloga trabalhou com o reconhecimento individual de oito tamanduás-bandeira e avaliou a quantidade destes animais existente na EESB, uma vez que não havia nenhuma estimativa do tamanho populacional para a espécie no Estado de São Paulo. A Estação é uma das maiores unidades de conservação do Cerrado paulista.

A tese de doutorado foi apresentada no Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce), Câmpus da Unesp em São José do Rio Preto, em junho deste ano.    

Para fazer o monitoramento dos tamanduás-bandeiras, Alessandra utilizou o GPS (Global Positioning System), em oito animais, por aproximadamente 91 dias. O aparelho possibilitou o controle em vida livre destes mamíferos, revelando o tamanho da área utilizada por eles; o compartilhamento do espaço geográfico; a forma como interagem; e as áreas preferencialmente usadas ou até mesmo subutilizadas pela espécie.  

Alessandra conta que as fêmeas monitoradas pelo GPS apresentaram um comportamento mais restrito, com áreas de mobilidade menores que as dos machos, utilizando somente os habitats dentro dos limites da área protegida.

Já os machos, tiveram um comportamento mais exploratório, atravessaram estradas e passaram dias fora da Estação, principalmente na área de reserva legal das propriedades vizinhas, em meio ao cultivo de cana-de-açúcar e pastagens. “Este comportamento pode ser positivo do ponto de vista genético, porém aumenta a probabilidade de atropelamento, conflito com seres humanos e cães, além de expor os animais a intoxicações, dado o uso de agrotóxico nos cultivos vizinhos”, explica.

Se os machos têm predisposição para explorar, apenas uma das fêmeas monitoradas apresentou localizações fora da área protegida. Porém, em 10 dias de acompanhamento, ela sumiu, indicando um episódio de caça dentro da Estação, o que mostra a vulnerabilidade tanto da área protegida quanto das populações de animais silvestres residentes na região.   

Outro ponto revelado pela pesquisa foi que os animais selecionaram as áreas de savana (habitat típico de Cerrado) para suas andanças e moradia, muito mais do que o esperado, subutilizando os plantios de pinus e eucaliptos. “Possivelmente estes animais são incapazes de persistir em habitats compostos só por ambientes alterados pelo homem como plantio madeireiro, pastagens e monoculturas, dado à dependência por áreas nativas (savanas) e a subutilização de áreas de plantios”.

Selfies no Cerrado
Uma outra forma de trabalho utilizada por Alessandra para descobrir se era possível identificar tamanduás-bandeira por padrões de pelagem foi por meio do uso de armadilhas fotográficas. O reconhecimento individual desses mamíferos é tido como extremamente difícil, uma vez que, a primeira vista, todos os animais parecem idênticos.  

Segundo a pesquisadora, “as capturas são especialmente úteis quando é possível a identificação dos indivíduos fotografados”. Ela selecionou um conjunto de características do padrão de pelagem e apresentou variação individual para os nove tamanduás fotografados. “Apesar de alguns cientistas se referirem à possibilidade de identificação individual, nenhum estudo havia se utilizado deste padrão para acessar informações populacionais.

Para avaliar a proximidade entre os tamanduás, Alessandra utilizou, além do GPS, recursos das armadilhas fotográficas. De acordo com ela, dois pares de macho e de fêmea estiveram próximos em várias ocasiões, indicando um possível comportamento reprodutivo. Nenhuma fêmea monitorada com GPS apresentou prenhez, mas os registros das armadilhas mostraram fêmeas com filhotes, apontando reprodução na região. A coleta de dados foi realizada pela pesquisadora em quase dois anos de campo.

Alessandra é bióloga e mestre pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Trabalha atualmente no Instituto de Pesquisa e Conservação de Tamanduás do Brasil, ONG conhecida como Projeto Tamanduá. Em janeiro deste ano, ela publicou, com outros autores, o artigo Movement patterns and space use of the first giant anteater (Myrmecophaga tridactyla) monitored in São Paulo State, Brazil, na revista científica Studies on Neotropical Fauna and Environment, do grupo Taylor & Francis, da Inglaterra.

Também é assinada por ela e outros pesquisadores a matéria intitulada Tamanduás, Tatus e Preguiças são parentes?, publicada em novembro de 2016, pela revista Ciência Hoje das Crianças.  

A tese teve financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapesp) e integra um projeto que conta com outros objetivos como, avaliação do perfil genético, toxicológico e parasitológico da espécie na área de estudo.


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Tamanduá-bandeira em risco de extinção no Cerrado de São Paulo

28 de agosto de 2017


Agência FAPESP – O tamanduá-bandeira é um animal “vulnerável” que, no Estado de São Paulo, está ameaçado de extinção: ao menos 30% da população deste mamífero foi perdida nos últimos 10 anos, em função da perda e alteração do seu habitat, atropelamentos, caça, queimada, conflitos com cães e uso de agrotóxicos.

Essa foi a conclusão da tese de doutorado da bióloga Alessandra Bertassoni, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em São José do Rio Preto, com apoio da FAPESP.
“Os impactos da ação humana aumentam a vulnerabilidade da espécie e elevam o nível de ameaça”, disse Bertassoni à Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp. O estudo foi realizado na Estação Ecológica de Santa Bárbara (EESB), próxima à cidade de Avaré, interior de São Paulo, uma das maiores unidades de conservação do Cerrado paulista.

Tamanduá-bandeira em risco de extinção no Cerrado de São Paulo Pelo menos 30% da população desse mamífero se perdeu nos últimos 10 anos em razão de mudanças de habitat, atropelamento, caça, entre outras (foto:Fêmea capturada na EESB, sedada para procedimentos e monitoramento de sinais vitais/Ale Bertassoni) 
 
 
 Segundo a pesquisadora, no pior dos cenários, com a continuação dos casos de atropelamento, de caça e de queimada na mata, “a possibilidade de a população sobreviver cai para 20 anos. Se o fogo utilizado nas queimadas for suprimido, a viabilidade será de 30 anos”.

Essa estimativa foi possível porque a bióloga trabalhou com o reconhecimento individual de oito tamanduás-bandeira e avaliou a quantidade destes animais existente na EESB. Até então não havia nenhuma estimativa do tamanho populacional para a espécie no Estado de São Paulo.
Para fazer o monitoramento dos tamanduás-bandeira, Bertassoni utilizou o GPS (Global Positioning System) em oito animais por aproximadamente 91 dias. O aparelho possibilitou o controle em vida livre desses mamíferos, revelando o tamanho da área utilizada por eles; o compartilhamento do espaço geográfico; a forma como interagem; e as áreas preferencialmente usadas ou até mesmo subutilizadas pela espécie.

Ela conta que as fêmeas monitoradas pelo GPS apresentaram um comportamento mais restrito, com áreas de mobilidade menores que as dos machos, utilizando somente os habitats dentro dos limites da área protegida.

Os machos tiveram um comportamento mais exploratório: atravessaram estradas e passaram dias fora da Estação, principalmente na área de reserva legal das propriedades vizinhas, em meio ao cultivo de cana-de-açúcar e pastagens. “Este comportamento pode ser positivo do ponto de vista genético, porém aumenta a probabilidade de atropelamento, conflito com seres humanos e cães, além de expor os animais a intoxicações, dado o uso de agrotóxicos nos cultivos vizinhos”, explica.
Se os machos têm predisposição para explorar, apenas uma das fêmeas monitoradas se aventurou para fora da área protegida. Em 10 dias de acompanhamento, ela desapareceu, indicando um episódio de caça dentro da Estação, o que mostra a vulnerabilidade tanto da área protegida quanto das populações de animais silvestres residentes na região.

Outro ponto revelado pela pesquisa foi que os animais selecionaram as áreas de savana (habitat típico de Cerrado) para suas andanças e moradia, muito mais do que o esperado, subutilizando os plantios de pinus e eucaliptos. “Possivelmente estes animais são incapazes de persistir em habitats compostos só por ambientes alterados pelo homem, como plantio madeireiro, pastagens e monoculturas, dado a dependência por áreas nativas (savanas) e a subutilização de áreas de plantios.”

Uma outra forma de trabalho utilizada por Bertassoni para descobrir se era possível identificar tamanduás-bandeira por padrões de pelagem foi por meio do uso de armadilhas fotográficas. O reconhecimento individual desses mamíferos é tido como extremamente difícil, uma vez que, à primeira vista, todos os animais parecem idênticos.

Segundo a pesquisadora, “as capturas são especialmente úteis quando é possível a identificação dos indivíduos fotografados”. Ela selecionou um conjunto de características do padrão de pelagem e apresentou variação individual para os nove tamanduás fotografados. “Apesar de alguns cientistas se referirem à possibilidade de identificação individual, nenhum estudo havia utilizado este padrão para acessar informações populacionais.”

Para avaliar a proximidade entre os tamanduás, a pesquisadora utilizou, além do GPS, recursos das armadilhas fotográficas. Dois pares de macho e de fêmea estiveram próximos em várias ocasiões, indicando um possível comportamento reprodutivo. Nenhuma fêmea monitorada com GPS apresentou prenhez, mas os registros das armadilhas mostraram fêmeas com filhotes, apontando reprodução na região. A coleta de dados foi realizada pela pesquisadora em quase dois anos de campo.

Bertassoni é mestre pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Trabalha atualmente no Instituto de Pesquisa e Conservação de Tamanduás do Brasil, ONG conhecida como Projeto Tamanduá. Em janeiro deste ano, ela assinou, com outros autores, o artigo Movement patterns and space use of the first giant anteater (Myrmecophaga tridactyla) monitored in São Paulo State, Brazil, publicado na revista científica Studies on Neotropical Fauna and Environment, do grupo Taylor & Francis, da Inglaterra.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Vegetação nativa mantém tamanduá-bandeira em áreas do Cerrado
Atividade de espécie vulnerável à extinção é avaliada
Maristela Garmes
06/07/2017
Foi na região Nordeste do Estado de São Paulo, onde a paisagem do Cerrado tem a sua área reduzida e alterada pela expansão da área urbana e pelas atividades agrícolas, que a pesquisadora Gisele Lamberti Zanirato foi buscar seu objeto de estudo: o tamanduá-bandeira.    

Gisele queria saber se o tamanduá-bandeira continua ocupando estas áreas alteradas no Cerrado. “A perda da vegetação nativa tanto dos fragmentos (áreas remanescentes da floresta) quanto da paisagem pode levar a reduções de ocorrência dos tamanduás no Nordeste do Estado de São Paulo”, diz. 

A orientadora do estudo, professora Rita de Cássia Bianchi, do Departamento de Biologia da Unesp de Jaboticabal, conta que o trabalho fornece informações básicas da ocupação do tamanduá-bandeira em uma paisagem pobre em vegetação nativa e com predomínio de cana-de-açúcar no Estado de São Paulo.

“Apesar da ocorrência da espécie, inclusive em canaviais e outras plantações, Unidades de Conservação maiores e com remanescentes de vegetação nativa em sua zona de amortecimento são os melhores cenários para a conservação dessa espécie de mamífero ameaçada de extinção, afetada pela perda e fragmentação de habitat, caça, atropelamentos e pelo uso indiscriminado de defensivos agrícolas, ressalta a professora.

Em sua pesquisa, Gisele avaliou a presença ou ausência dos tamanduás, analisando 20 fragmentos formados por vegetação nativa, que se distribuíam em meio às pastagens e plantações de cana-de-açúcar, soja, café, pinus e eucalipto. Os dados da pesquisa foram obtidos por meio de armadilhas fotográficas.

Em cada uma destas áreas, ela avaliou o tamanho do fragmento; a distância do fragmento estudado aos dos fragmentos ao redor; a quantidade de água e de vegetação na paisagem. “Este mapeamento é importante para explicar a ocorrência dos animais nos fragmentos rodeados por plantios de cana-de-açúcar, silvicultura e pastagens”, explica.

Um outro destaque da pesquisa foi verificar se há diferença no padrão de atividade entre as populações de tamanduás-bandeira que ocupam os fragmentos com áreas de diferentes tamanhos.

Os resultados apontam que a ocorrência dos tamanduás-bandeira nos fragmentos tende a ser maior quanto maior for a área do fragmento e quanto maior for a porcentagem de vegetação nativa ao redor do fragmento.

A pesquisa avaliou também que os tamanduás-bandeira estão praticamente ativos das 6h até às 17h (atividade diurna) e das 18h até às 5h (noturna). “Quando ativos, tanto de dia quanto de noite, diz-se que o padrão de atividade é catemeral”, reforça.

Gisele conta que ele tem picos de atividades crepuscular e noturno e, ainda, o padrão de atividade nas áreas menores é o mesmo que na área maior e, como mostram outros trabalhos, diferente de muitos outros mamíferos, a temperatura do ambiente pode afetar a atividade dessa espécie. 

A pesquisa de mestrado intitulada: O impacto da perda e fragmentação do habitat sobre a ocupação e o padrão de atividade do tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce), Câmpus da Unesp em São José do Rio Preto.   

Tamanduá-bandeira é bicho em extinção?
O tamanduá-bandeira apresenta distribuição original, ou seja, ocorria naturalmente no sul dos países de Belize e Guatemala, na América Central, até o norte da Argentina e do Uruguai. Atualmente, na América Central, a espécie é encontrada apenas nas regiões montanhosas: provavelmente está extinta na Guatemala e em Belize. Na América do Sul, é extinta somente no Uruguai.

No Brasil e no Estado de São Paulo, o tamanduá-bandeira está classificado como “vulnerável” e, de forma especial, no Rio Grande do Sul e no Paraná, ele é considerado "criticamente em perigo", a mais grave categoria de ameaça à extinção. No Rio de Janeiro, a espécie é considerada "provavelmente extinta" e no Espírito Santo, "regionalmente extinta".

segunda-feira, 12 de junho de 2017

 EXTINÇÃO DO TAMANADUÁ...TRISTE NOTÍCIA
 
Perda do habitat causa extinção do Tamanduá-bandeira
Pesquisa foi desenvolvida por aluna da Unesp Rio Preto
Assessoria de Comunicação e Imprensa
09/06/2017

Gisele Lamberti Zanirato defendeu a Dissertação de mestrado intitulada "O impacto da perda e fragmentação do habitat sobre a ocupação e o padrão de atividade do tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla)". A pesquisa foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce), Câmpus da Unesp em São José do Rio Preto.  

Resumo
A expansão das áreas urbanas e das atividades agrícolas tem reduzido o domínio do Cerrado no estado de São Paulo resultando em paisagens altamente fragmentadas constituídas em grande parte por fragmentos pequenos. A perda e a fragmentação do habitat tem sido um dos principais fatores responsáveis pelo declínio populacional e pela extinção local de espécies com baixa densidade populacional, baixa taxa de reprodução, alta demanda por espaço e especialista alimentar como o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla). 

É conhecido que algumas espécies de mamíferos modificam seus padrões de atividade frente às perturbações antrópicas e até em relação aos efeitos da perda de habitat. Considerando o status de conservação da biodiversidade no estado de São Paulo e a classificação do tamanduá-bandeira como vulnerável à extinção, estudos em um dos poucos remanescentes de Cerrado no nordeste do estado tornam-se prioritários à conservação da espécie. 

Esse trabalho é constituído por dois capítulos, no primeiro capítulo foi feita uma revisão bibliográfica sobre os efeitos da perda e fragmentação do habitat na ocorrência de mamíferos realçando os efeitos sobre as espécies de grande porte e/ou com dieta especializada, além de abordar mudanças no padrão de atividade de mamíferos frente aos efeitos da perda do habitat. No segundo capítulo, os objetivos do presente estudo foram apresentados sendo que o primeiro consistiu em avaliar se a área do fragmento, o isolamento e as porcentagens de água e vegetação nativa na paisagem são importantes para explicar a ocupação dos fragmentos de vegetação nativa pelo tamanduá-bandeira. O segundo objetivo consistiu em verificar se há diferenças no padrão de atividade entre as populações de tamanduás que ocupam os fragmentos menores (< 2.015 ha) e a população que ocupa o fragmento maior (10.285 ha).

Os dados de presença e ausência dos tamanduás-bandeira em cada um dos vinte fragmentos de vegetação nativa localizados no nordeste do estado de São Paulo foram coletados através de armadilhas fotográficas. A influência da temperatura e da pluviosidade na probabilidade de detecção dos tamanduás e a importância das covariáveis de fragmento e de paisagem na probabilidade de ocupação dos fragmentos pela espécie foram avaliadas através de modelos de ocupação de estação única (Single-season Occupancy Models). O 
Critério de Informação de Akaike corrigido (AICc) foi utilizado para a seleção dos melhores modelos e o teste de Mardia Watson Wheeler foi usado para verificar possíveis diferenças no padrão de atividade entre as populações que ocupam os fragmentos menores e a população presente no fragmento maior. A probabilidade de ocupação dos fragmentos pelos tamanduás-bandeira foi maior nos fragmentos com áreas maiores e em fragmentos com maior porcentagem de vegetação nativa ao redor. No entanto, o padrão de atividade dos tamanduás não foi influenciado pela área do fragmento. Apesar da área do fragmento não influenciar o padrão de atividade dos tamanduás, a conservação de fragmentos maiores e com maior porcentagem de vegetação nativa ao redor é de grande importância para a sobrevivência de tamanduás-bandeira no nordeste do estado de São Paulo.

Comissão Examinadora

Prof.(a). Dr.(a). Rita de Cassia Bianchi (Orientadora) – Unesp / Câmpus de Jaboticabal
Prof.(a). Dr.(a). Natália Mundim Torres – Universidade Federal de Uberlândia
Prof.(a). Dr.(a). Guilherme De Miranda Mourão – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA)

quinta-feira, 9 de março de 2017

Grupo da Unesp divulga censo de mamíferos em florestas imersas na cana-de-açúcar

09 de março de 2017

Karina Toledo  |  Agência FAPESP – Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) acabam de publicar um censo de mamíferos de médio e grande porte encontrados em 22 remanescentes florestais circundados por monocultura de cana-de-açúcar em São Paulo. A conclusão do estudo é “surpreendentemente positiva”, segundo Mauro Galetti, professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências, em Rio Claro.
O estudo, cujos resultados foram publicados na revista Biological Conservation, foi realizado com apoio da FAPESP. 

Grupo da Unesp divulga censo de mamíferos em florestas imersas na cana-de-açúcar Artigo publicado na revista Biological Conservation traz uma boa notícia: 90% das espécies esperadas para o Estado de São Paulo foram registradas em 22 fragmentos florestais circundados por monocultura de cana (foto: Tamanduá-Bandeira/Divulgação)

“Encontramos cerca de 90% de todas as espécies de mamíferos que são esperadas para o Estado de São Paulo. Nesses fragmentos ainda existem onça-pintada, tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), anta (Tapirus terrestris) e queixada (Tayassu pecari), ou seja, não há registro de extinção regional de espécies. Só não registramos algumas extremamente raras, como o tatu-canastra (Priodontes maximus)”, disse Galetti, que coordenou o estudo.

Porém, nem tudo é boa notícia. Conforme relatam os autores no artigo, nos fragmentos florestais pequenos são encontrados apenas entre 20% e 50% das espécies esperadas para o estado. Isso quer dizer que, em alguns casos, até 80% das espécies foram localmente extintas.

“Observamos que, quanto maior a área florestal remanescente, mais animais raros ela possui. Encontramos até mesmo um único registro do cachorro-vinagre (Speothos venaticus), algo não esperado nesses ambientes circundados pela cana-de-açúcar”, afirmou Gabrielle Beca, primeira autora do estudo.

Já nos fragmentos menores, acrescentou a pesquisadora, restam somente as espécies mais generalistas, como gambá (Didelphis albiventris) ou o tatu-galinha (Dasypus novemcimtus), que conseguem se adaptar a ambientes conturbados por não necessitarem de áreas tão grandes para encontrar alimento.

Metodologia

O trabalho de campo foi realizado durante o mestrado de Beca, sob orientação de Galetti, no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA-FAPESP).

Os remanescentes estudados vão desde a região de Presidente Prudente, no extremo oeste do estado, até São José do Rio Pardo, a leste, passando por regiões ao norte perto de Araçatuba e São José do Rio Preto.

“Visitamos esses 22 fragmentos e instalamos em cada um deles, no meio da mata, armadilhas fotográficas. Colocamos as máquinas automáticas onde havia grande possibilidade de os animais passarem, como locais com água ou próximos de árvores que estavam frutificando”, explicou Beca.
As câmeras foram retiradas após um mês e, para complementar o trabalho, foi feito um censo de pegadas deixadas nas bordas da floresta. “Há guias que permitem identificar a espécie pelo formato da pegada e o tipo de marca deixada e também fizemos avistamentos diretos dos animais”, contou Beca.

Ao todo, foram identificadas 29 espécies de mamíferos de médio e grande porte. Além das já mencionadas, foram observados também quati (Nasua nasua), tatuí (Cabassous tatouay), tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), ouriço-cacheiro (Coendou prehensilis), capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) e cutia (Dasyprocta azarae), entre outras.

“Também houve muitos registros de animais invasores, como o javaporco (Sus scrofa), um híbrido de javali com porco doméstico que se tornou uma praga no Brasil”, comentou Beca.

De acordo com uma pesquisa anterior do grupo de Galetti, o javaporco representa uma ameaça à saúde pública, pois se tornou uma importante fonte de alimento dos morcegos-vampiros (Desmodus rotundus), fazendo aumentar a população desses animais transmissores do vírus da raiva (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/ 24547). Além disso, segundo Beca, eles trazem impactos na agricultura e competem com outras espécies de mamíferos, como o cateto (Pecari tajacu) e a queixada.
“Outro registro problemático foi o de cães domésticos (Canis lupus familiaris), que são predadores de muitas espécies silvestres”, contou Beca.

Corredores ecológicos

Na avaliação de Galetti, os resultados do censo indicam que ainda há chances de preservar boa parte da fauna de mamíferos do Estado de São Paulo se forem criados corredores ecológicos para conectar os diversos fragmentos florestais.

“No momento, não é preciso reintroduzir animais que foram extintos, mas sim conectar essas paisagens por meio do plantio de corredores florestais para que os animais possam se achar e sobreviver. Caso contrário, essa fauna ficará ilhada e com o tempo haverá extinções de várias espécies”, disse o pesquisador.

Para Beca, os fragmentos que abrigam maior número de espécies devem ter prioridade nesse trabalho. “Espécies como a anta e a queixada prestam um importante serviço ecossistêmico, pois são dispersoras de sementes. Precisamos olhar para as áreas onde elas ocorrem e, a partir desses pontos, conectar com outros”, avaliou.

Segundo a pesquisadora, um bom começo seria colocar em prática medidas preconizadas pelo Novo Código Florestal (Lei Nº 12.651, de 2012).

“A lei estabelece, por exemplo, que deve ser preservada uma área de mata de 30 metros em volta dos rios. Mas no geral isso não tem sido respeitado, nem implementado”, afirmou Beca.
“Se todos cumprirem o Código Florestal e não perseguirem os animais silvestres, haverá uma enorme chance de São Paulo ser um exemplo que alie conservação da biodiversidade e produção agrícola” comentou Galetti.

O artigo High mammal species turnover in forest patches immersed in biofuel plantations (http://dx.doi.org/10.1016/j.biocon.2017.02.033), de Gabrielle Beca, Maurício H. Vancine, Carolina S. Carvalho, Felipe Pedrosa, Rafael Souza C. Alves, Daiane Buscariol, Carlos A. Peres, Milton Cezar Ribeiro e Mauro Galettim pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0006320717303117.