Guias acharam este macho adulto de rinoceronte-negro vagando por uma
reserva no Zimbábue, depois de ter sido alvejado por caçadores ilegais.
Os veterinários foram obrigados a sacrificá-lo, pois o ombro estilhaçado
não mais sustentava o peso do corpo. Nos últimos seis anos, mais de mil
rinocerontes africanos foram mortos por causa dos cornos, cobiçados
para uso na medicina tradicional asiática.
O disparo do rifle ecoa através da floresta no momento em que Damien
Mander volta ao acampamento na
Reserva de Caça Nakavango, no Zimbábue.
Ele logo pensa em Basta, uma fêmea de rinoceronte-negro grávida, e em
seu filhote de 2 anos. Naquela tarde, um dos guardasflorestais havia
topado com pegadas humanas que seguiam na direção dos dois animais,
enquanto Basta procurava refúgio no fundo da mata para dar à luz.
O musculoso Damien, um ex-atirador de elite das Forças Especiais
australianas recoberto de tatuagens, entre as quais a expressão “Achar
& Destruir” em letras góticas no peito, tenta localizar o disparo.
“Veio desse lado, perto da divisa leste”, aponta para a escuridão. “O
som é de um 556”, diz, identificando a posição e o calibre, um hábito
que restou do serviço militar no Iraque. Em seguida, ele e os guardas
agarram rifles, rádios e kits de primeiros socorros e embarcam em dois
jipes, na expectativa de alcançar o autor do disparo. Quando abaixam as
janelas dos veículos, os guardas ouvem outro estampido – o que significa
que o filhote de Basta também fora abatido.
Os bandos de caçadores em geral contratam mateiros para rastrear
rinoceronte, depois o seguem até o fim da tarde e, em seguida, informam
por rádio a localização do animal a algum atirador equipado com um rifle
poderoso. Depois de abatido, os dois cornos sobre o focinho do
rinoceronte são decepados em minutos, e a carcaça maciça é abandonada
para as hienas e os abutres. Quase sempre os cornos são comprados por um
receptador asiático; caçadores mais empreendedores poderiam também
extrair o feto de Basta, assim como os olhos dela e os do filhote, a fim
de Este corno de rinoceronte de 3,5 quilos pode valer até 360 000
dólares no mercado negro. vendê-los para feiticeiros ou curandeiros.
Caso esse bando seja bem organizado, um grupo de homens estará de vigia
na rota de fuga, prontos para emboscar os guardas-florestais.
Pelo ruído dos disparos, fica evidente a vantagem bélica dos caçadores.
Enquanto os jipes avançam, no banco traseiro de um deles, um guarda
zimbabuano que passara quase um ano cuidando de Basta e do filhote
carrega três projéteis em seu rifle, aciona a trava e coloca uma bala na
agulha. Em meio às sacudidas na escuridão, comenta: “Vai ser melhor
para esses caras se tiverem de lidar com um leão em vez da gente”.
Essa é uma noite típica na linha de frente de um cruel e obscuro
conflito em torno dos rinocerontes, uma guerra que, desde 2006, já
resultou na matança de mais de mil animais, na morte de 22 caçadores
ilegais e na detenção de mais de 200 deles apenas em 2011 na África do
Sul. O motivo sangrento dessa guerra são os cornos, um ingrediente
valorizado na medicina tradicional asiática. Embora os preços no mercado
negro variem, no outono passado, negociantes no
Vietnã deram cotações
de 33 a 133 dólares por grama – o que, em seu valor máximo, é o dobro do
grama de ouro e pode superar o da cocaína.
Ainda que a área de hábitat das duas espécies africanas – o
rinoceronte-branco e seu primo menor, o rinoceronte-negro – tenha se
reduzido sobretudo ao sul do continente e ao Quênia, suas populações
vinham exibindo um aumento promissor. Em 2007, havia 17 470
rinocerontesbrancos, ao passo que os negros quase duplicaram, chegando a
4 230 indivíduos, na comparação com meados da década de 1990.
Para os conservacionistas, tais números representam um triunfo. Nas
décadas de 1970 e 1980, a caça ilegal provocara uma devastação nas duas
espécies. Mas aí a China proibiu o corno de rinoceronte em remédios
tradicionais, e o Iêmen fez o mesmo quanto a seu aproveitamento no cabo
de adagas cerimoniais. Todavia, em 2008, a quantidade de rinocerontes
abatidos na África do Sul chegou a 83 animais, bem mais que os 13 mortos
no ano anterior. Em 2010, o número saltou para 333 e, no ano passado,
ultrapassou a marca dos 400 indivíduos. Uma rede de monitoramento do
comércio de animais silvestres denominada Traffic constatou que, hoje, a
maior parte dos cornos tem como destino final o Vietnã, uma mudança que
coincidiu com ondas de rumores de que uma importante autoridade
vietnamita teria se curado de câncer graças ao corno de rinoceronte.
Ao mesmo tempo, na África do Sul, atraídas pelos preços – e lucros –
cada vez mais altos, organizações criminosas passaram a incluir o abate
ilegal dos animais entre as suas atividades. Gideon van Deventer sabe o
local exato – 15 centímetros atrás do olho e 5 centímetros adiante da
orelha – onde meter uma bala de 19,44 gramas de modo que atinja o
cérebro do rinoceronte e faça o animal desabar no próprio ventre. Ele
indica o local na própria cabeça batendo um calejado dedo indicador logo
atrás do maxilar. “Eles têm um cérebro minúsculo. E são quase cegos –
por isso dá para a gente chegar perto. Mas podem nos farejar; então, é
melhor ficar contra o vento. Além disso, ouvem muito bem. Se uma da
orelhas virar em nossa direção, a coisa complica.”
Essa aula de abate ilegal tem lugar na penitenciária de Kroonstad, a
duas horas de carro de Johannesburgo, e Van Deventer, de 42 anos,
conhecido como Deon, é um professor competente. Ele próprio admitiu ter
abatido 22 rinocerontes, quantidade que faz dele o maior caçador desses
animais na África do Sul – e talvez no mundo.
O pai de Deon mudou-se para a África do Sul vindo do Quênia, onde fora
policial durante a revolta dos Mau Mau, na década de 1950, assim como
entusiástico caçador de animais de grande porte. Ele estabeleceu-se no
Transvaal, perto da fronteira com Botsuana, uma região até hoje quase
toda selvagem. Deon e dois irmãos cresceram no mato; com 8 anos, já
escapulia da escola para se juntar a caçadores. “Acabei conhecendo mais
os bichos que as pessoas”, conta.
No fim, tornou-se caçador profissional de animais de grande porte –
conhecidos na região como PH (de professional hunter). “A preparação e o
rastreamento eram minhas especialidades”, diz. “Agora esses caras vão
em caminhonetes e atiram no bicho pelas costas”, concluiu, um lampejo de
ferocidade nos olhos. “Isso é exercício de tiro. Não tem nada a ver com
caçada.”
Em 2005, um dos irmãos de Deon, Andre, que trabalhava para um
organizador de safáris chamado Gert Saaiman, perguntou se ele tinha
interesse em caçar e abater um rinoceronte. Deon jamais havia feito
isso, e passou a estudar os hábitos do animal. “Para rastreá-los, você
tem de descobrir onde é o banheiro deles”, diz. Os rinocerontes- brancos
machos pisoteiam os excrementos de modo a marcar seu território com o
cheiro, explicou. “Isso facilita o rastreamento.”
A redução do ruído durante o abate era crucial. Por isso construiu um
silenciador, com um tubo de metal dotado de arruelas soldadas em seu
interior, e o adaptou ao cano de um rifle calibre 762. “O estampido é
parecido com o de uma arma de ar comprimido: fuuuup”, imita Deon.
“Acertei um macho, e uma fêmea a 2 metros dele não percebeu nada. Até
que a acertei também.”
Os irmãos viajaram por toda a África do Sul abatendo rinocerontes em
parques nacionais e reservas particulares. Devido a programas de
reprodução bem-sucedidos, havia muitos, e os sistemas de segurança eram
precários. Depois de matar um espécime, costumavam entregar os cornos
para que outros os vendessem. “Eu só ficava com uma ninharia”, conta
Deon, acrescentando que ele, Andre e mais dois acabavam dividindo cerca
de 11 000 dólares por um par de cornos que pesava 6 quilos. O
descontentamento de Deon com o que estava ganhando o levou à prisão. Ele
matou um bicho por conta própria e foi flagrado ao tentar vender os
cornos.
Desde então, Deon passou de caçador a caça. A polícia pressiona para
que ele testemunhe contra Saaiman e outros. E isso o deixa apavorado.
Dias depois de ter sido detido, a mulher de Saaiman foi morta com um
tiro na frente de sua casa e de seus filhos. Seis meses antes, a
ex-mulher do próprio Deon fora estuprada em casa. Ela e os quatro filhos
do casal vivem sob um programa de proteção a testemunhas. Pouco depois,
indivíduos que se diziam investigadores particulares visitaram Deon na
prisão e lhe ofereceram uma caminhonete nova, 100 000 dólares e um
trabalho de PH em troca de não testemunhar.
Ele ainda não sabia se iria cooperar com a polícia quando fosse
libertado dali a quatro meses. “Eles podem me encontrar mesmo estando
presos”, diz Deon a respeito dos cúmplices. “Não tenho a menor dúvida de
que vão me matar.”
O horário de visitas chega ao fim, e um guarda o avisa: “Rino, chegou a
hora”. Ele olha para mim e sorri. “‘Rino’ é meu apelido aqui.”
Por melhor mateiro que seja, Deon van Devanter nunca vai conseguir
rastrear nenhum animal no Vietnã. O rinoceronte-de-java já foi abundante
nas florestas e planícies aluviais vietnamitas, mas, em 2010, caçadores
clandestinos abateram o último espécime selvagem no país.
Mesmo assim, não há escassez de cornos da espécie no Vietnã: é provável
que mais de 1 tonelada deles tenha chegado ao país no ano passado. (O
tráfico ilegal antes girava por China, Taiwan, Coreia do Sul, Japão e
Iêmen.) Na África do Sul, diversos vietnamitas, entre eles diplomatas,
foram acusados de contrabando de chifres.
A legislação da África do Sul, que está de acordo com a Convenção sobre
Comércio Internacional de Espécies da Flora e da Fauna Silvestres
Ameaçadas de Extinção (Cites, na sigla em inglês), permite que cornos de
rinoceronte sejam exportados como troféus de caça. Em 2003, um
vietnamita viajou à África do Sul e abateu um rinoceronte durante um
safári legalizado. Na esteira dele vieram em seguida dezenas de
caçadores asiáticos, cada qual pagando 50 000 dólares ou mais.
Acredita-se que muitos desses indivíduos trabalhem para grupos
criminosos. No Vietnã, um par de cornos normal, com 6 quilos, pode ser
cortado em pedaços e vendido no mercado negro, gerando um lucro de até
200 000 dólares.
Não é fácil deslindar os motivos que desencadearam a corrida a esse
tesouro. Mas o que sustenta a febre é um suposto poder curativo. Há pelo
menos 2 mil anos, a medicina tradicional asiática vem prescrevendo
corno de rinoceronte – moído – no tratamento de várias enfermidades. Os
raros estudos realizados ao longo dos últimos 30 anos de suas
propriedades antipiréticas se mostraram inconclusivos; mesmo assim, a
edição de 2006 de uma tradicional farmacopeia vietnamita dedica duas
páginas ao tema.
A alegação mais recente e sensacional é de que ele também cura o
câncer. Segundo os oncologistas, não há nenhum estudo publicado
comprovando a eficácia do corno como anticancerígeno. Todavia, ainda que
suas propriedades medicinais sejam duvidosas, “isso não significa que o
corno de rinoceronte não produza efeitos benéficos naqueles que o
consomem”, diz Mary Hardy, diretora do Centro de Oncologia Integrada
Simms/ Mann, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, e
especialista em medicina tradicional. “A crença no tratamento, sobretudo
quando é caro e de difícil acesso, pode ter um efeito poderoso no modo
como o paciente se sente”, conclui.
A fim de entender melhor a popularidade do corno de rinoceronte no
Vietnã, viajei pelo país acompanhando uma mulher que vou chamar de
senhora Thien. Depois de uma mamografia indicar um nódulo em seu seio
direito, um exame de ultrassom revelou uma preocupante mancha em um de
seus ovários. Com 52 anos, a esfuziante senhora Thien pretendia se
submeter aos tratamentos convencionais, mas também queria consultar
praticantes da medicina tradicional. Ao perguntar-lhe se achava que o
corno poderia ajudá- la a se curar, ela respondeu: “Quando a gente acha
que corre risco de vida, não custa tentar”.
As viagens que fizemos nos levaram tanto a hospitais modernos e
clínicas em Hanói e Ho Chi Minh como a lojas de ervas, locais que
vendiam peles de animais exóticos e casas particulares em pequenos
vilarejos no interior. E por toda a parte encontramos cornos de
rinoceronte.
A maioria dos consumidores que conhecemos pertencia à crescente classe
média do Vietnã, incluindo, entre outros, médicos formados no Ocidente,
um executivo de banco, um matemático, um corretor de imóveis e um
engenheiro. Muitas vezes as famílias se cotizam para comprar um pedaço
de corno e dividi-lo entre várias pessoas. Alguns o doam a amigos
doentes que não podem arcar com o custo. Mães recorrem a ele quando os
filhos têm sarampo. Idosos juram que haviam se curado de problemas
circulatórios e sido poupados de derrames.
Embora vários médicos vietnamitas tenham me dito que o chifre de
rinoceronte não cura nada, muito menos câncer, outros profissionais
afirmam que ele pode ser um recurso adicional. Alguns contaram que o
prescrevem em forma de pílulas para amenizar os efeitos da químio e da
radioterapia. Outros, como Tran Quoc Binh, diretor do Hospital Nacional
de Medicina Tradicional, acham que ele pode retardar o crescimento de
certos tipos de tumor. “Começamos com a medicina moderna: quimioterapia,
radiação, cirurgia”, diz Tran. “Depois disso, é possível que restem
algumas células cancerosas. Aí recorremos ao saber tradicional.” Segundo
ele, a mistura de corno de rinoceronte, ginseng e ervas pode
interromper o crescimento das células cancerosas; no entanto, não foi
capaz de citar nenhum estudo científico que comprovasse tal alegação.
Uma noite, em Hanói, a senhora Thien e eu vamos até um movimentado café
à beira do lago, por indicação de uma amiga dela, que estava a par de
seus problemas de saúde. Quando explica a situação ao dono do café, ele
traz um pedaço de corno amarelado, do tamanho de um sabonete, e um prato
de cerâmica com o desenho de um rinoceronte na borda. O fundo é rugoso,
como uma lixa fina. Ali derrama meio copo d’água e começa a raspar o
pedaço no fundo com movimentos circulares. Minutos depois, o corno solta
um cheiro acre e a água fica leitosa. Ninguém presta atenção em nós.
Enquanto raspa, o proprietário conta que ele e um amigo haviam comprado o
produto como suplemento à saúde e inibidor de ressaca, tendo pago 18
000 dólares por cerca de 180 gramas. O interesse havia sido despertado
por uma das antigas secretárias do próprio Ho Chi Minh. A mulher contou a
eles que o falecido líder vietnamita bebia corno de rinoceronte todos
os dias.
Depois de 20 minutos sem parar de raspar, o dono despeja o líquido em
dois copinhos, oferecendo um deles à senhora Thien e o outro a mim. A
beberagem tem um travo arenoso, sem qualquer sabor. A senhora Thien
esvazia a dose e põe o copo na mesa. “Espero que funcione”, diz.
Para John Hume, não há necessidade de que nenhum rinoceronte morra para
que toda a demanda vietnamita por cornos seja atendida. O empresário,
de 69 anos, que acumulou uma fortuna com cadeias de hotéis e frotas de
táxi antes de se dedicar à criação de animais, hoje é dono de um dos
maiores rebanhos de rinoceronte do mundo. Hume cria mais de 700 deles,
brancos e negros, em duas fazendas na África do Sul, e quer ampliar
ainda mais seu plantel.
“Se tiramos a lã dos carneiros, por que não tirar os cornos dos
rinocerontes?”, pergunta ele uma tarde, sentado na sede de uma das
fazendas enquanto Sebastian, um papagaio albino, mordisca sua orelha.
“Quando se corta o corno 8 centímetros acima da base, ele volta a
crescer em dois anos. Isso significa que há um suprimento inesgotável de
cornos se formos inteligentes o bastante para manter vivos os malditos
animais.”
Quase toda semana, o administrador da fazenda e um veterinário,
acompanhados de um fiscal, anestesiam um dos rinocerontes e dele extraem
os cornos com uma serra elétrica. Vinte minutos depois, o animal volta
ao pasto, e os dois cornos, depois de receberem um microchip, já estão a
caminho do cofre de um banco. Hume não informa a quantidade de chifres
que extraiu desde que iniciou a criação, em 2002, mas, segundo uma
estimativa conservadora, ele já movimentou dezenas de milhões de
dólares.
A ideia de Hume pode ser vista como mais uma tentativa em uma série de
inovadoras práticas de manejo da fauna silvestre adotada pela África do
Sul. Em 1961, funcionários públicos da província de Natal foram
pioneiros na transferência de rinocerontes selvagens para áreas
particulares como forma de facilitar a reprodução e a diversificação
genética. Em 1986, o Departamento de Parques de Natal permitiu que os
rinocerontes excedentes nas reservas da província fossem leiloados por
valores de mercado, uma iniciativa que arrecadou milhões de dólares para
projetos de conservação. Para Hume, a criação para aproveitamento dos
cornos é o próximo passo realista na preservação dos animais.
Durante a conversa, Hume vai se tornando cada vez mais agitado. “Um
caçador vietnamita não veria problema em usar dardo tranquilizante para
imobilizar o animal, extrair os cornos e mantê-lo vivo”, exclama ele.
“Mas a lei sul-africana obriga o caçador a matar o rinoceronte para que
os cornos possam sair do país como troféu.” Ele balança a cabeça diante
de tal insensatez.
Um dos equívocos mais comuns, diz Hume, está na ideia de que marfim e
corno são a mesma coisa. O marfim é a presa de um elefante, ao passo que
o corno do rinoceronte é feito de ceratina, como a pata de um cavalo.
Quando a presa de um elefante é cortada, o nervo na raiz pode
infeccionar, provocando a morte do animal.
Para Hume, à medida que os compradores passarem a confiar nos novos
fornecedores, os preços tendem a baixar, o que vai afastar do mercado as
organizações criminosas. “Os caçadores ilegais têm interesse nos cornos
por causa de lucros no curto prazo. Já os criadores pensam no longo
prazo, com anos de lucros constantes.”
Essa incompatibilidade, teme Hume, deve-se a um problema de comunicação
intercultural. “Estamos dizendo aos vietnamitas que não há drama em
abater o animal, pois consideramos aceitável cortar a cabeça e usá-la
como decoração, ao passo que a tradição deles de extrair os cornos para
fins medicinais é vista como abominável.”
Depois de passar a noite tentando localizar os caçadores, Damien
organiza uma busca para achar os rinocerontes. Cai uma chuva gelada, e a
névoa cobre as matas e os vales enquanto os guardas-florestais caminham
em fila, atentos a qualquer sinal de sangue ou de carcaça em meio à
vegetação rasteira. Ao meio-dia, Basta e o filhote ainda estão
desaparecidos.
No jipe, a caminho das áreas de alimentação prediletas dos
rinocerontes, Damien conta de que modo as temporadas que passou no
Iraque, protegendo comboios da ONU, lhe proporcionaram uma compreensão
intuitiva daquilo que sofrem os animais com a perseguição dos caçadores.
“Fomos atingidos por bombas improvisadas, e perdi colegas”, conta em
voz baixa. “Sei o que significa ser caçado por seres humanos.”
Após encerrar o serviço militar, se deu conta de que sua experiência no
treinamento de recrutas para a polícia iraquiana, encarregada de
restabelecer a ordem em um país mergulhado no caos, serviria para as
áreas selvagens também caóticas no Zimbábue, onde quase sempre os
guardas-florestais são mal equipados, mal pagos e vulneráveis ao
suborno. Ele fundou uma organização sem fins lucrativos, a Fundação
Internacional Contra a Caça Ilegal, que treina e equipa
guardas-florestais às reservas públicas e particulares do Zimbábue. Os
interessados são recrutados nas comunidades mais carentes, as mesmas de
onde sai a maioria dos caçadores – e os locais em que é mais importante
enraizar a concepção de que vale mais preservar a fauna silvestre do que
destruí-la. Mas tais ideais são fortes o bastante para superar a
atração do lucro fácil com a caça ilegal? “As pessoas diziam que não
havia como melhorar a situação no Iraque, mas isso está acontecendo”,
responde. “Também aqui estou pensando no longo prazo.”
Quatro meses depois de eu ter visitado Deon na prisão, ele é posto em
liberdade. Diz à polícia que não irá testemunhar contra seus cúmplices.
Com isso, as acusações contra Gert Saaiman são retiradas. Nesse período,
os caçadores mataram quatro rinocerontes-brancos nas fazendas de John
Hume. Já os médicos da senhora Thien concluíram que as manchas no seio e
nos ovários não passavam de cistos benignos, que ela vem tratando com
uma mescla de remédios, entre eles corno de rinoceronte.
Antes de sair do Zimbábue, visito Damien mais uma vez. Ele e Benzene me
conduzem a um local no meio do mato onde Basta mordiscava as folhas de
um mopane. Ela está sempre de olho em seu mais recente filhote, cuja
pele enrugada faz dobras ao redor do pescoço e dos joelhos, mais
parecendo um pijama cinzento vários números maior. Consigo notar uma
pequena protuberância ali onde no futuro irá surgir o primeiro corno,
tal como acontecia com seus antepassados há 40 milhões de anos. Sob o
sol do fim de tarde, em meio ao canto dos pássaros, contemplamos
maravilhados as desajeitadas tentativas do pequeno rinoceronte de seguir
a mãe pesadona através da alta relva dourada.
Damien balança a cabeça. “É espantoso ver essa figurinha e pensar que
alguém está disposto a matá-la por causa dessa minúscula protuberância,
não importa quão mágicas sejam suas propriedades.” Então eu digo a ele
que, se o objetivo de sua nova existência era proteger os rinocerontes, a
tatuagem “Achar & Destruir” que trazia no peito deveria, na
verdade, ser modificada para “Achar & Salvar”. Ele ri. “Pois é,
companheiro, talvez tenha mesmo de mudar isso.”