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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Medicina tradicional asiática ajuda a mover caça ilegal de onças na Amazônia
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Luis Kawaguti
Da BBC Brasil em São Paulo
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  • Divulgação/Fobomade/BBC
    Onças do do Parque Nacional Madidi, na Bolívia, estão sendo alvo de caçadores e contrabandistas
    Onças do do Parque Nacional Madidi, na Bolívia, estão sendo alvo de caçadores e contrabandistas
Caçadores ilegais estão abatendo onças na região da Amazônia boliviana para traficar suas presas - usadas em supostos tratamentos de medicina tradicional asiática ou como amuletos.
Contrabandistas pagar a caçadores até US$ 100 (R$ 340) por dente.

Autoridades suspeitam que o crime também ocorra em mais países sul-americanos, inclusive no Brasil.
Na Bolívia foram apreendidos 262 dentes entre 2014 e 2016. Para autoridades locais, isso significa que ao menos 65 felinos foram abatidos ilegalmente no período - pois cada um possui quatro presas grandes. Ativistas da ONG boliviana Fobomade dizem que o número pode ser maior.
O governo boliviano diz que o fenômeno não é novidade na Região Amazônica e que o grande número de casos registrados no país seria fruto de campanhas nacionais para prender traficantes de animais e conscientizar a população.
Embora não tenha havido apreensões desse tipo no Brasil até agora, o Ibama diz suspeitar que caçadores e contrabandistas ligados ao tráfico de dentes de onça para o mercado asiático operem no país. No Suriname, ao menos dois casos suspeitos foram registrados.

Anúncios nas rádios

Na Bolívia, as onças são chamadas de jaguares, na tradução do espanhol.

Elas não são caçadas diretamente pelos contrabandistas. Segundo a DGBAP (Direção Geral de Biodiversidade e Áreas Protegidas da Bolívia) e a Fobomade, indígenas e camponeses que moram na região da floresta são aliciados para abater os animais.
Por vezes, para chegar a esses caçadores locais, contrabandistas pagam por anúncios em emissoras de rádio de cidades pequenas, localizadas próximo à floresta amazônica. Os anúncios indicam um endereço onde eles podem ser vendidos.

"Os contrabandistas fazem isso por um dia e depois mudam de domicílio, então fazem (o anúncio) em outro lugar e mudam de domicílio de novo. É uma máfia", diz à BBC Brasil Teresa Peres, chefe da DGBAP.
"O que mais se detectou é que os compradores são de procedência asiática", disse ela.
Segundo ela, em uma das operações mais bem-sucedidas do órgão, agentes da DGBAP e policiais se disfarçam de vendedores de dentes e se apresentam em um local indicado pela propaganda do rádio. Isso ocorreu em maio deste ano em Rurrenabaque, cidade próxima ao Parque Nacional de Madidi, uma das maiores reservas florestais da Bolívia.

Dois suspeitos de cidadania chinesa foram detidos com diversos dentes de onça pelos agentes disfarçados.
Esse tipo de ação policial continua ocorrendo, assim como fiscalizações nas florestas, segundo Peres. Mas uma boa parte das apreensões ocorre durante inspeções de pacotes nos correios da Bolívia.
Isso porque, para tentar evitar prisões em flagrante, os criminosos enviam os dentes e ossos para outras cidades ou países pelo correio.

Afrodisíaco

Autoridades e ativistas suspeitam que onças estejam sendo abatidas na América do Sul em um processo similar ao que ocorreu com tigres no sudeste da Ásia.
O uso de partes de tigres para tratamento medicinal foi muito comum no passado, mas a prática foi banida pela maioria das associações e federações de medicina tradicional da Ásia na década de 1990. Embora a medicina tradicional chinesa seja um dos ramos mais conhecidos no ocidente, quase todas as nações do leste e sudeste do continente possuem suas próprias correntes.

De acordo com Reginaldo Filho, diretor da Ebramec (Faculdade Brasileira de Medicina Chinesa), ossos e dentes de grandes felinos eram geralmente usados na medicina tradicional chinesa para fortalecer o corpo humano e tratar dores. O órgão sexual do animal era usado no preparo de fórmulas ligadas à fertilidade.
"As pessoas dizem afrodisíaco, mas a medicina chinesa fala em fortalecimento. Você vai encontrar esses ingredientes em livros históricos de medicina, mas eles não são mais usados. Hoje combinamos dois ou três ingredientes para chegar a um resultado similar", disse ele.
"Se alguns ainda usam partes de tigres, acredito que isso esteja mais relacionado a esoterismo ou misticismo local, isso não é medicina", afirmou.

Preocupação

Autoridades brasileiras dizem estar preocupadas com o assunto.
"Por causa dessa superstição infundada já eliminaram a maior parte da população de tigres do sudeste da Ásia. Agora (traficantes de animais) estão se voltando para felinos de outros países", afirmou à BBC Brasil o chefe das operações de fiscalização do Ibama, Roberto Cabral.
Mas estatísticas que liguem o abate de onças a práticas supostamente medicinais são escassas na América do Sul.
"Nós não pegamos um caso concreto no Brasil, mas existe uma grande possibilidade de que isso esteja ocorrendo", afirmou Cabral.

A ONG internacional Traffic - que investiga o tráfico ilegal de animais no mundo - afirmou já ter coletado indícios de que onças poderiam estar sendo mortas com esse propósito na Guiana e no
Suriname. Em 2015, a entidade diz ter monitorado dois casos concretos no Suriname - e em ao menos um, cidadãos chineses foram investigados pela polícia local.
"Obviamente a existência de um comércio aparentemente irregular de partes de onças na Amazônia Sulamericana é uma causa de preocupação e precisa de uma investigação para determinar sua escala e o impacto que pode estar tendo nas populações de onças na região", afirmou à BBC Brasil Richard Thomas, um dos porta-vozes da organização.
Teresa Peres, do órgão ambiental do governo boliviano, afirmou que essa prática ocorre há muito tempo na Amazônia.

"Desde o momento em que se faz um controle rigoroso, a estatística sobe. Esse tema de tráfico não é recente", disse.
Também não é possível saber exatamente se todos os dentes e ossos de onças apreendidos seriam usados em práticas medicinais. Isso porque garras, presas e peles também são usados como amuletos e itens de decoração.
"O Estado Plurinacional da Bolívia está colocando todos os esforços e tudo o que está a seu alcance para preservar o ecossistema", disse Peres.
O ativista Daniel Manzaneda, da Fobomade, afirmou que o aumento da procura por dentes de onça pode estar relacionado à entrada recente de cidadãos de países asiáticos na Bolívia - relacionada a grandes investimentos chineses na região.
Peres disse porém que não haveria dados concretos que permitam fazer essa relação.

Cabeças de onça

O Brasil registrou 42 apreensões de partes de onças nos últimos cinco anos, segundo o Ibama.
Segundo Cabral, a maior parte dos casos está relacionada à expansão agropecuária no Brasil, que tem causado a fragmentação do habitat natural das onças.
No norte do país, as onças pintadas acabam abatendo animais de rebanhos bovinos em criações extensivas. "Os fazendeiros não toleram perder seus animais para as onças", afirmou. Eles contratam então caçadores para abatê-las.
Também é comum o abate por madeireiros que operam na selva, segundo o delegado Marcos Lemos, da Delegacia de Combate a Crimes Contra a Fauna e Flora do Pará.
"Quando encontramos acampamentos ilegais (de madeireiros) há animais abatidos de todos os tipos. As onças são mortas por causa do couro, que é vendido a colecionadores", disse.
Mas a maior apreensão de todos os tempos ocorreu no último mês de agosto, em Curionópolis, cidade próxima da selva amazônica no Pará. Ela não está relacionada à pecuária ou madeireiros, mas ao tráfico de animais.
Um único caçador foi encontrado com partes de 16 onças, duas suçuaranas e uma jaguatirica. Ele mantinha cabeças, crânios e patas em um refrigerador. Recebeu multa de R$ 460 mil por matar, mutilar e armazenar os animais - além de ser preso devido a uma investigação sobre posse ilegal de armas e crimes ambientais.

Tática

Os safáris clandestinos são outra modalidade de abate. Segundo o delegado da Polícia Federal Mário Nomoto, quadrilhas promoviam safáris no Pantanal - onde é mais fácil enxergar as onças do que na fechada selva amazônica.
"Caçadores internacionais pagavam grandes montantes de dinheiro para caçar onças por diversão", disse.
O policial afirmou que sucessivas operações da polícia praticamente acabaram com esse tipo de crime, mas a fiscalização continua.
Ele explicou ainda que caçadores que operam no Brasil têm uma tática específica: eles usam um instrumento que reproduz o rugido das onças para atraí-las.
Depois soltam um grupo de cães para rastrear a onça e forçá-la a subir em uma árvore - onde se torna um alvo fácil para disparos de armas de fogo.

Leis

A legislação local é crucial no combate à caça ilegal, segundo autoridades.
Segundo Teresa Peres, na Bolívia, suspeitos estão sendo processados com base em uma lei que prevê de um a seis anos de prisão para esse tipo de crime.
No Brasil, segundo Roberto Cabral, a legislação prevê penas em torno de seis meses a um ano de prisão. Em muitos casos a punição é uma multa e a prisão acaba sendo convertida em penas alternativas.
"Por causa da fragilidade da legislação conseguimos identificar os caçadores, mas muitos continuam na ativa", disse o chefe de fiscalização do Ibama

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Os efeitos danosos da caça ilegal

Proibida no país desde os anos 1960, a atividade reduziu a população de várias espécies de animais e elevou o risco de desequilíbrio ambiental
ANDRÉ JULIÃO e RICARDO ZORZETTO | ED. 249 | NOVEMBRO 2016
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Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: André Antunes
00:00 / 11:07
O período entre os anos 1930 e 1960 é chamado de “época da fantasia” em muitas partes da Amazônia. “Fantasia” eram as peles de felinos exportadas para o mercado da moda norte-americano e europeu. Só a venda de pele das espécies mais exploradas – que incluíam jacarés, peixes-boi, veados, porcos-do-mato, capivaras e ariranhas – movimentou cerca de US$ 500 milhões (em valores atuais) durante o auge desse comércio. De 1904 a 1969, algo em torno de 23 milhões de animais silvestres de ao menos 20 espécies foram mortos para suprir o consumo de couros e peles. Esses dados, apresentados em um artigo publicado em outubro na revista Science Advances, referem-se apenas ao que ocorreu nos estados de Rondônia, Acre, Roraima e Amazonas.
 O biólogo André Antunes, primeiro autor desse trabalho, calculou o número de animais abatidos no período ao combinar as informações disponíveis nos registros comerciais e portuários com as anotadas nos chamados manifestos de carga, relações detalhadas dos materiais transportados pelos navios que partiam do interior da Amazônia para o porto de Manaus.
© MILENE THYSSEN / WIKIPEDIA
Tipo exportação: 183 mil onças e 804 mil jaguatiricas e gatos maracajás morreram na Amazônia no século XX, vítimas de caça
Tipo exportação: 183 mil onças e 804 mil jaguatiricas e gatos maracajás morreram na Amazônia no século XX, vítimas de caça

Com os dados coletados durante o doutorado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Antunes, em colaboração com outros pesquisadores do Brasil, da Nova Zelândia, da Inglaterra e dos Estados Unidos, conseguiu reconstituir a história do comércio de peles na Amazônia ocidental durante boa parte do século XX e ter uma ideia mais clara de seu impacto sobre as populações das espécies mais caçadas.

“A maior parte dos registros se perdeu”, conta o biólogo, atualmente pesquisador da Wildlife Conservation Society, organização não governamental com foco na conservação da fauna na Amazônia e em outras regiões do mundo. “A sorte é que os dados que restaram são muito detalhados.” Em alguns casos, porém, os documentos não informavam de que animal eram as peles transportadas; em outros, declaravam apenas o peso do material – e de certos períodos não há informação. Essa descontinuidade nos registros exigiu modelagem computacional para estimar, com base na tendência geral e em probabilidade estatística, o número de peles de cada espécie comercializado no período.

Em pouco mais de 60 anos, calculam os pesquisadores, foram abatidos na Amazônia pelo menos 13,9 milhões de mamíferos terrestres de seis espécies: caititu (Pecari tajacu), veado-mateiro (Mazama americana), queixada (Tayassu pecari), jaguatirica (Leopardus pardalis), gato-maracajá (Leopardus wiedii) e onça-pintada (Panthera onca). Entre esses, os caititus, talvez por serem mais numerosos, parecem ter sido a caça preferida: 5,4 milhões morreram de 1904 a 1969. No mesmo período, os caçadores abateram 804 mil jaguatiricas e gatos-maracajá, além de 183 mil onças-pintadas, o maior felino das Américas – quase 8 mil onças foram mortas em 1969, dois anos após a proibição da caça no país.
© BIBLIOTECA VIRTUAL DO IBGE
Peles expostas em curtume de Manaus na década de 1950
Peles expostas em curtume de Manaus na década de 1950.

As estimativas também apontam a morte de 1,9 milhão de mamíferos aquáticos, como o peixe-boi (Trichechus inunguis), e outros que passam parte do tempo na água e parte em terra, como as capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris), as ariranhas (Pteronura brasiliensis) e as lontras (Lontra longicaudis). Também morreram 4,4 milhões de jacarés-açu (Melanosuchus niger), um dos maiores predadores da Amazônia, com seus 4,5 metros de comprimento em média, cobiçados pelo couro negro. “A extração de sua pele motivou o aparecimento de grandes curtumes em Manaus e Belém”, conta Antunes.

Analisando como a caça evoluiu na Amazônia ao longo desse tempo, eles concluíram que as espécies aquáticas descritas no estudo estiveram muito próximas de desaparecer em boa parte da região: deixaram de ser vistas por muito tempo nas áreas em que costumavam ser abundantes, de acordo com relatos de moradores. Já as populações de espécies terrestres se recuperaram razoavelmente bem, como indica a produção estável de peles ao longo das décadas. Seria um sinal de resiliência diante da pressão de caça.
© EDUARDO CESAR
Presa fácil: encontradas geralmente em bandos, as capivaras...
Presa fácil: encontradas geralmente em bandos, as capivaras…

Dois fatores ajudam a explicar a vulnerabilidade maior dos animais aquáticos. O primeiro é que algumas espécies de mamíferos que passam ao menos parte do tempo na água costumam apresentar uma baixa taxa reprodutiva. Ariranhas e peixes-boi, por exemplo, não geram muitos filhotes a cada gestação – e as gestações ocorrem a intervalos longos. Outro fator é que os mamíferos aquáticos parecem estar mais expostos aos seres humanos. “Na Amazônia, as ocupações humanas historicamente se localizaram à beira dos rios”, explica Antunes. “O acesso por embarcações facilita a obtenção de animais aquáticos e o transporte de suas peles, enquanto os bichos que vivem nas matas de terra firme têm mais refúgio e estão longe das comunidades ribeirinhas”, conta.

Ao confrontar a tendência de caça com fatos históricos do século XX, os autores do trabalho identificaram as causas econômicas que impulsionaram a exploração comercial da fauna silvestre amazônica. Por volta de 1910, a economia da região entrou em colapso com a disseminação da produção de látex na Malásia, que levou à perda de competitividade do produto brasileiro. O comércio de peles, até então reduzido e focado na exploração do veado-mateiro, tornou-se uma alternativa de geração de renda para parte dos 500 mil imigrantes que haviam chegado à região nas décadas anteriores e para os indígenas que participaram do ciclo da borracha.
© WING-CHI POON/WIKIPEDIA
...e os caititus estão entre os animais mais caçados na Amazônia
…e os caititus estão entre os animais mais caçados na Amazônia.

De 1930 a 1960, a caça comercial passou a ser uma das principais atividades extrativistas da Amazônia. Só em 1967, com a Lei da Fauna, a prática tornou-se proibida. Mesmo assim, segundo Antunes, a edição de portarias que permitiam liquidar os estoques intensificou o comércio ilegal de peles na região no início dos anos 1970.

O encolhimento das populações
 
Apesar da interdição em vigor há quase cinco décadas, a caça continua a ser praticada em todo o país. Um dos ambientes em que o prejuízo se torna evidente é a Mata Atlântica. Um estudo sobre os mamíferos silvestres no maior remanescente contínuo dessa floresta, na porção leste do estado de São Paulo, indica que, onde a caça persiste, ela causa a extinção local de animais de grande porte, como o queixada e a anta (Tapirus terrestris). Esses grandes mamíferos desempenham um papel fundamental na dispersão de sementes, na fertilização do solo e na renovação da floresta.
Caça_249_INFO

Nesse trabalho, coordenado pelo biólogo Mauro Galetti, professor do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro, os pesquisadores percorreram por volta de 4 mil quilômetros em 13 áreas na serra do Mar e registraram a densidade de 44 espécies de mamíferos e a biomassa total de oito delas. “Ter muitos mamíferos não basta”, afirma o ecólogo Ricardo Bovendorp, pesquisador que atualmente faz um estágio de pós-doutorado na Unesp. “É preciso que haja animais grandes, como antas e queixadas, que não têm substitutos para as funções ecológicas que exercem no ecossistema”, explica o pesquisador, um dos autores do artigo que descreveu os resultados em uma edição recente da Animal Conservation.

Uma das causas da caça disseminada de animais silvestres é a falta de proteção efetiva em áreas de proteção ambiental. “No Parque Estadual da Ilha do Cardoso, no litoral sul, dois dos 34 queixadas que estamos monitorando com radiocolar foram caçados”, afirma Galetti.
© LÉO RAMOS
Vulnerabilidade na água: dos 113 mil peixes-boi capturados no século passado, 15 mil foram mortos apenas em 1938
Vulnerabilidade na água: dos 113 mil peixes-boi capturados no século passado, 15 mil foram mortos apenas em 1938

A equipe da Unesp observou ainda que áreas de caça intensa podem abrigar um número semelhante de mamíferos do que regiões nas quais não se matam animais. A diferença é que, onde se caça, praticamente só são encontrados animais de pequeno porte, como saguis e roedores, o que pode acarretar um desequilíbrio ambiental irreversível. “Sem grandes mamíferos, as plantas com sementes grandes correm o risco de desaparecer”, conta a ecóloga Carolina Bello, aluna de doutorado de Galetti. No final de 2015, ela e Galetti publicaram na Science Advances um estudo mostrando que a redução da fauna na Mata Atlântica afeta a capacidade da floresta de retirar carbono da atmosfera.

O impacto da caça nas populações dos grandes mamíferos não é exclusivo do Brasil. Galetti e o ecólogo brasileiro Carlos Peres, professor da Universidade de East Anglia, na Inglaterra, participaram de um estudo internacional que avaliou o estado de preservação de 301 espécies de mamíferos de diferentes regiões do mundo que correm o risco de extinção por causa da caça. A matança de animais para a alimentação ou a retirada de marfim, chifres ou ossos – os dois últimos, com fama medicinal na Ásia – vem dizimando algumas populações, segundo o trabalho publicado em outubro na revista Royal Society Open Science. “Só os elefantes africanos perderam metade de sua população nos últimos 30 anos devido à caça e à perda de hábitat”, conta Peres.

© WHALDENER ENDO / WIKIPEDIA
O jacaré-açu, um predador cobiçado por seu couro negro
O jacaré-açu, um predador cobiçado por seu couro negro

De acordo com o levantamento, a maioria dos mamíferos ameaçados pela caça está em regiões com grandes desigualdades sociais. Nesses locais, os animais silvestres servem como fonte de renda e de proteína e são capturados por meio de armadilhas, o que amplia os danos. Estudos realizados na África Central mostram que um quarto dos animais pegos em armadilhas apodrece na natureza ou é consumido por outros animais. Outro terço escapa com ferimentos e pode morrer horas ou dias depois. Um levantamento anterior feito em uma área de conservação do Zimbábue verificou que 1,4 mil grandes mamíferos apanhados em armadilhas apodreceram entre 2005 e 2009. Além do desperdício, essa forma de caça muitas vezes resulta na captura de fêmeas, que podem estar prenhes, e de indivíduos jovens, que teriam uma longa vida reprodutiva pela frente – situações muito danosas para algumas espécies.

Permissão controlada
 
Diante desse cenário, os pesquisadores defendem que, em algumas regiões, a proibição total seja mais nociva do que permitir a captura de animais sob condições específicas e rigorosa fiscalização. A ideia não é nova. Na maior parte dos Estados Unidos a caça do veado-galheiro (Odocoileus virginianus) é permitida e sua população se mantém estável. “Esse é um dos mamíferos de grande porte mais bem estudados no mundo, até porque se precisa ajustar as cotas de abate sustentável”, afirma Peres, que também colaborou com o estudo da Science Advances.
© CHARLESJSHARP / WIKIPEDIA
A anta, dispersora de sementes que desapareceu de alguns trechos da Mata Atlântica
A anta, dispersora de sementes que desapareceu de alguns trechos da Mata Atlântica

Peres e Antunes propõem que, no Brasil, alguns mecanismos poderiam permitir que populações tradicionais da Amazônia fossem autorizadas a caçar determinadas espécies de animais, apenas com a finalidade de subsistência – a Lei dos Crimes Ambientais, de 1998, permite a caça em situações excepcionais, como a de extrema necessidade; outra lei, que em 2000 estabeleceu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, garante o acesso das populações tradicionais aos recursos naturais, como forma de valorizar o seu conhecimento e a sua cultura.

Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que essa permissão só poderia ocorrer mediante um manejo bastante criterioso e continuado, em regiões largamente cobertas por florestas e sem estradas, de preferência em unidades de conservação. Esse modelo, afirmam, só seria aplicável a algumas regiões da Amazônia. “Na Mata Atlântica contemporânea, seria inimaginável”, afirma Peres.

A ideia seria fazer algo nos moldes do manejo do pirarucu (Arapaima gigas) realizado em partes da Amazônia. A captura do pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do mundo, é proibida na região. Mas o manejo comunitário  feito em algumas reservas de desenvolvimento sustentável e territórios indígenas vem tornando possível a pesca sustentável e o aumento da população (ver Pesquisa FAPESP nº 248). Os pesquisadores propõem algo semelhante para a caça. Peres sugere que seria possível estipular as espécies permitidas para a caça – por exemplo, aquelas com alta taxa reprodutiva – ou restringir a captura apenas a machos adultos. “Desse modo”, sugere Antunes, “talvez se torne possível suprir a necessidade de populações tradicionais e manter estável a população dessas espécies de animais”.

Artigos científicos
 
ANTUNES, A. P. et al. Empty forest or empty rivers? A century of commercial hunting in Amazonia. Science Advances. 12 out. 2016.

GALETTI, M. et al. Defaunation and biomass collapse of mammals in the largest Atlantic forest remnant. Animal Conservation. No prelo.

RIPPLE, W. J. et al. Bushmeat hunting and extinction risk to the world’s mammalsRoyal Society Open Science. v. 3 (20). set. 2016.

CAMPOS-SILVA, J. V e PERES, C. A. Community-based management induces rapid recovery of a high-value tropical freshwater fishery. Scientific Reports. 12 out. 2016.
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terça-feira, 25 de outubro de 2016

IMPORTANTE...DIVULGUEM!!!

Divulgação
Caça ilegal ameaça deixar Mata Atlântica desabitada
Pesquisadores da Unesp de Rio Claro publicam artigo em revista internacional
[24/10/2016]
Cortes de investimentos e a caça ilegal ameaçam o maior remanescente de Mata Atlântica, as Serras do Mar e do Paranapiacaba e o litoral paulista. São mais de 1 milhão de hectares, com pouco mais de 700 mil hectares legalmente protegidos, onde o impacto provocado por invasões de caçadores e palmiteiros tem aumentado, enquanto as ações para a proteção efetiva das áreas tem sido fragilizadas.

“Boa parte dos Parques Estaduais perdeu mais de 60% dos funcionários que faziam a proteção”, conta o biólogo Mauro Galetti, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “É só visitar qualquer Parque Estadual e você notará o abandono do Estado” completa. A situação é apresentada na revista científica Animal Conservation, em um artigo publicado por pesquisadores do Laboratório de Biologia da Conservação (LaBiC), da Unesp em Rio Claro (SP).


Alunos da graduação e pós-graduação, além de professores da Unesp percorreram 4 mil quilômetros de floresta. Eles verificaram que a densidade populacional das 44 espécies de mamíferos registrados está em níveis críticos, ou seja, existem pouquíssimos indivíduos. Foram mais de 5 anos de estudos de campo para realizar o maior levantamento já realizado da fauna da Mata Atlântica, afirmam os autores do estudo.

A Serra do Mar é a única área da Mata Atlântica, segundo os pesquisadores, grande o suficiente para conservar mamíferos como queixadas, onças e muriquis. “Apesar de protegida por Parques Estaduais e Estações Ecológicas, vem sofrendo com cortes e financiamentos nos últimos anos com a ausência de proteção, isso poderá definir o futuro dos mamíferos na Mata Atlântica” afirma o ecólogo Ricardo Bovendorp, também professor da Unesp. “Encontramos muitos vestígios de caçadores em todos os Parques Estaduais que estudamos”, completa.

De acordo com ele, a biomassa de mamíferos é reduzida em até 98% em locais onde a caça é frequente. As maiores áreas são justamente as mais afetadas pela caça. Os pesquisadores explicam que elas são permeadas por estradas, que facilitam o acesso de invasores e onde a falta de guarda-parques é mais sentida.


A extração ilegal do palmito-juçara tem um duplo efeito danoso para a fauna. Além de retirar um recurso importante para os animais, os coletores adentram quilômetros na mata, impossibilitando que os bichos tenham refúgios onde poderiam recuperar suas populações, afirmam os autores do estudo.

Grandes mamíferos herbívoros ou frugívoros, que têm importantes papéis no ecossistema, são os mais afetados pela caça, segundo os pesquisadores. “A anta é o maior herbívoro neotropical e tem papel fundamental na dispersão a longa distância de grandes sementes, assim como o Muriqui, que é responsável pela dispersão de cerca de 50% das sementes das florestas neotropicais, sendo a maioria delas grandes sementes”, conta a ecóloga da Unesp Gabrielle Beca.


Queixadas também estão entre as espécies criticamente ameaçadas devido à forte pressão de caça. A espécie representa a maior biomassa de vertebrados em florestas da América Latina e têm um papel importante no ecossistema, revirando o solo das florestas e alterando a composição e regeneração de espécies vegetais, contam os pesquisadores.


Para os pesquisadores, é urgente melhorar a fiscalização e repressão a crimes ambientais nos remanescentes de Mata Atlântica, mas isso não basta. É preciso também combater o mercado ilegal de palmito e promover ações educativas e sociais nos entornos das Unidades de Conservação e remanescentes de floresta.


Restam apenas 12% da cobertura vegetal de toda a Mata Atlântica, onde existem 960 Unidades de Conservação, segundo dados da SOS Mata Atlântica citados pelos pesquisadores. “Além da baixa representatividade, essas Unidades de Conservação vêm sofrendo com cortes e financiamentos nos últimos anos com a ausência de proteção”, afirma Ricardo Bovendorp.
Publicado originalmente em

http://www.oeco.org.br/noticias/caca-ilegal-ameaca-deixar-mata-atlantica-desabitada/
O Eco

sexta-feira, 31 de julho de 2015

TRAGÉDIA NO REINO ANIMAL

POR FAVOR, LEIAM E ASSINEM

Caros amigos,

Nós não podemos trazer Cecil, o majestoso leão do Zimbábue, de volta à vida. Mas podemos pressionar os Estados Unidos e a União Europeia a aprovarem regras para proteger os leões que restam no mundo. Para vencer, precisamos de uma avalanche de assinaturas e compartilhamentos no Facebook, Twitter, e-mail... ou seja, em todos os lugares:

Assine a petição


Um dentista americano apareceu nos jornais do mundo todo por ter matado brutalmente Cecil, um leão dócil do Zimbábue.

Mas seu ato repugnante criou uma oportunidade para salvarmos todos os leões do mundo.

Americanos e europeus ricos como este dentista viajam para a África e pagam fortunas para caçar leões e outros animais exóticos por esporte, e depois levam para casa as cabeças dos animais como troféus.

Se todos nós agirmos agora, poderemos forçar os EUA e a Europa a proibir a importação destes troféus que ameaçam a sobrevivência de animais majestosos.

Alguns parlamentares europeus já consideram o assunto, mas para vencer, precisamos de uma onda de apoio global sem precedentes. Temos chances: 1,4% dos usuários da internet em todo o mundo estão recebendo este e-mail. Se cada um de nós fizer com que uma outra pessoa assine, chegaremos a quase 3%. Se cada pessoa convencer três pessoas, conseguiremos quase 6%, e assim por diante.

Assine e compartilhe no Facebook, Twitter, e-mail – em todos os lugares – antes que o mundo se esqueça de Cecil:

https://secure.avaaz.org/po/save_africas_lions_loc/?bcfdPgb&v=62690

Cecil era um leão amado no Zimbábue, conhecido por sua impressionante juba negra e por ser manso com os turistas e fotógrafos.

A caça de Cecil durou 40 horas e foi de uma brutalidade sem tamanho: os caçadores atraíram o leão para fora do parque protegido onde vivia, acertaram ele com uma flecha e o deixaram sofrer durante toda a noite. Eles mataram Cecil na manhã seguinte e, ilegalmente, arrancaram o aparelho de GPS antes de decapitar e esfolar o leão para fazer o troféu.

Para aumentar a tragédia, cerca de doze filhotes de Cecil agora correm risco de serem abatidos por outros leões, algo comum quando os machos do grupo morrem.

O Zimbábue e outros países não vão reprimir crimes como este, nem mesmo regulamentar melhor a caça, a menos que os lucros da atividade sejam ameaçados. Portanto, se os Estados Unidos e a Europa proibirem a importação de troféus animais provenientes de países que não adotam práticas sustentáveis de caça, garantiremos a sobrevivência dos leões no planeta.

É uma política simples, já endossada por alguns países da União Europeia, mas que não será aprovada sem o apoio de um movimento global gigantesco. Se todos nós assinarmos e convidarmos nossos amigos para participar, compartilhando com toda a internet, poderemos vencer.

Assine e compartilhe agora -- não deixe passar essa oportunidade que Cecil tristemente nos trouxe:

https://secure.avaaz.org/po/save_africas_lions_loc/?bcfdPgb&v=62690

A comunidade da Avaaz já conquistou vitórias surpreendentes para salvar algumas das espécies mais ameaçadas do planeta: desde baleias a orangotangos, passando pelo atum-rabilho. Em cada ocasião, a vitória se deve ao fato de que nos unimos no exato momento em que a oportunidade se apresentou, acreditando que um mundo melhor e mais sustentável é possível. Chegou a vez de nossos leões.

Com esperança,

Mia, Rewan, Luis, Danny, Jooyea, Sobaika, Ricken e toda a equipe da Avaaz

Mais informações:

A terrível história da morte do leão Cecil (Exame)
http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/a-terrivel-historia-do-leao-cecil-morto

Uma flecha, um tiro e 50 mil euros mataram o leão Cecil (O Público)
http://www.publico.pt/ecosfera/noticia/uma-flecha-um-tiro-e-50-mil-euros-mataram-o-leao-cecil-1703444

Dentista confessa que pagou para matar leão Cecil, ícone da África (O Dia)
http://odia.ig.com.br/noticia/mundoeciencia/2015-07-29/dentista-confessa-que-pagou-para-matar-leao-cecil-icone-da-africa.html

O que aconteceu ao homem que matou o leão Cecil? (Sábado)
http://www.sabado.pt/mundo/detalhe/o_que_aconteceu_ao_homem_que_matou_o_leao_cecil.html

Caçador de leões Walter Palmer que matou Cecil enfrenta pressão por processo (Guardian) (em inglês)
http://www.theguardian.com/world/2015/jul/29/cecil-the-lion-calls-for-prosecution-us-dentist-walter-palmer

Morte do mais amado leão do Zimbábue inflama debate sobre caça esportiva (National Geographic) (em inglês)
http://voices.nationalgeographic.com/2015/07/21/death-of-zimbabwes-best-loved-lion-ignites-debate-on-sport-hunting/

Assassinato do leão Cecil desencadeia pedidos de proibição de importação de troféus na UE (Guardian) (em inglês)
http://www.theguardian.com/environment/2015/jul/27/killing-of-cecil-the-lion-prompts-call-for-eu-ban-on-importing-lion-trophies

terça-feira, 5 de junho de 2012

Guerra suja contra os rinocerontes

Com valores tão altos quanto o do ouro, os cornos de rinoceronte são o pivô de um violento conflito

por Peter Gwin Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

                Rinoceronte sem corno
Guias acharam este macho adulto de rinoceronte-negro vagando por uma reserva no Zimbábue, depois de ter sido alvejado por caçadores ilegais. Os veterinários foram obrigados a sacrificá-lo, pois o ombro estilhaçado não mais sustentava o peso do corpo. Nos últimos seis anos, mais de mil rinocerontes africanos foram mortos por causa dos cornos, cobiçados para uso na medicina tradicional asiática.

O disparo do rifle ecoa através da floresta no momento em que Damien Mander volta ao acampamento na Reserva de Caça Nakavango, no Zimbábue. Ele logo pensa em Basta, uma fêmea de rinoceronte-negro grávida, e em seu filhote de 2 anos. Naquela tarde, um dos guardasflorestais havia topado com pegadas humanas que seguiam na direção dos dois animais, enquanto Basta procurava refúgio no fundo da mata para dar à luz.

O musculoso Damien, um ex-atirador de elite das Forças Especiais australianas recoberto de tatuagens, entre as quais a expressão “Achar & Destruir” em letras góticas no peito, tenta localizar o disparo. “Veio desse lado, perto da divisa leste”, aponta para a escuridão. “O som é de um 556”, diz, identificando a posição e o calibre, um hábito que restou do serviço militar no Iraque. Em seguida, ele e os guardas agarram rifles, rádios e kits de primeiros socorros e embarcam em dois jipes, na expectativa de alcançar o autor do disparo. Quando abaixam as janelas dos veículos, os guardas ouvem outro estampido – o que significa que o filhote de Basta também fora abatido.

Os bandos de caçadores em geral contratam mateiros para rastrear rinoceronte, depois o seguem até o fim da tarde e, em seguida, informam por rádio a localização do animal a algum atirador equipado com um rifle poderoso. Depois de abatido, os dois cornos sobre o focinho do rinoceronte são decepados em minutos, e a carcaça maciça é abandonada para as hienas e os abutres. Quase sempre os cornos são comprados por um receptador asiático; caçadores mais empreendedores poderiam também extrair o feto de Basta, assim como os olhos dela e os do filhote, a fim de Este corno de rinoceronte de 3,5 quilos pode valer até 360 000 dólares no mercado negro. vendê-los para feiticeiros ou curandeiros. Caso esse bando seja bem organizado, um grupo de homens estará de vigia na rota de fuga, prontos para emboscar os guardas-florestais.


Pelo ruído dos disparos, fica evidente a vantagem bélica dos caçadores. Enquanto os jipes avançam, no banco traseiro de um deles, um guarda zimbabuano que passara quase um ano cuidando de Basta e do filhote carrega três projéteis em seu rifle, aciona a trava e coloca uma bala na agulha. Em meio às sacudidas na escuridão, comenta: “Vai ser melhor para esses caras se tiverem de lidar com um leão em vez da gente”.
Essa é uma noite típica na linha de frente de um cruel e obscuro conflito em torno dos rinocerontes, uma guerra que, desde 2006, já resultou na matança de mais de mil animais, na morte de 22 caçadores ilegais e na detenção de mais de 200 deles apenas em 2011 na África do Sul. O motivo sangrento dessa guerra são os cornos, um ingrediente valorizado na medicina tradicional asiática. Embora os preços no mercado negro variem, no outono passado, negociantes no Vietnã deram cotações de 33 a 133 dólares por grama – o que, em seu valor máximo, é o dobro do grama de ouro e pode superar o da cocaína.
Rinoceronte branco, África

Ainda que a área de hábitat das duas espécies africanas – o rinoceronte-branco e seu primo menor, o rinoceronte-negro – tenha se reduzido sobretudo ao sul do continente e ao Quênia, suas populações vinham exibindo um aumento promissor. Em 2007, havia 17 470 rinocerontesbrancos, ao passo que os negros quase duplicaram, chegando a 4 230 indivíduos, na comparação com meados da década de 1990.
Para os conservacionistas, tais números representam um triunfo. Nas décadas de 1970 e 1980, a caça ilegal provocara uma devastação nas duas espécies. Mas aí a China proibiu o corno de rinoceronte em remédios tradicionais, e o Iêmen fez o mesmo quanto a seu aproveitamento no cabo de adagas cerimoniais. Todavia, em 2008, a quantidade de rinocerontes abatidos na África do Sul chegou a 83 animais, bem mais que os 13 mortos no ano anterior. Em 2010, o número saltou para 333 e, no ano passado, ultrapassou a marca dos 400 indivíduos. Uma rede de monitoramento do comércio de animais silvestres denominada Traffic constatou que, hoje, a maior parte dos cornos tem como destino final o Vietnã, uma mudança que coincidiu com ondas de rumores de que uma importante autoridade vietnamita teria se curado de câncer graças ao corno de rinoceronte.

Ao mesmo tempo, na África do Sul, atraídas pelos preços – e lucros – cada vez mais altos, organizações criminosas passaram a incluir o abate ilegal dos animais entre as suas atividades. Gideon van Deventer sabe o local exato – 15 centímetros atrás do olho e 5 centímetros adiante da orelha – onde meter uma bala de 19,44 gramas de modo que atinja o cérebro do rinoceronte e faça o animal desabar no próprio ventre. Ele indica o local na própria cabeça batendo um calejado dedo indicador logo atrás do maxilar. “Eles têm um cérebro minúsculo. E são quase cegos – por isso dá para a gente chegar perto. Mas podem nos farejar; então, é melhor ficar contra o vento. Além disso, ouvem muito bem. Se uma da orelhas virar em nossa direção, a coisa complica.”

Essa aula de abate ilegal tem lugar na penitenciária de Kroonstad, a duas horas de carro de Johannesburgo, e Van Deventer, de 42 anos, conhecido como Deon, é um professor competente. Ele próprio admitiu ter abatido 22 rinocerontes, quantidade que faz dele o maior caçador desses animais na África do Sul – e talvez no mundo.
O pai de Deon mudou-se para a África do Sul vindo do Quênia, onde fora policial durante a revolta dos Mau Mau, na década de 1950, assim como entusiástico caçador de animais de grande porte. Ele estabeleceu-se no Transvaal, perto da fronteira com Botsuana, uma região até hoje quase toda selvagem. Deon e dois irmãos cresceram no mato; com 8 anos, já escapulia da escola para se juntar a caçadores. “Acabei conhecendo mais os bichos que as pessoas”, conta.
No fim, tornou-se caçador profissional de animais de grande porte – conhecidos na região como PH (de professional hunter). “A preparação e o rastreamento eram minhas especialidades”, diz. “Agora esses caras vão em caminhonetes e atiram no bicho pelas costas”, concluiu, um lampejo de ferocidade nos olhos. “Isso é exercício de tiro. Não tem nada a ver com caçada.”

Em 2005, um dos irmãos de Deon, Andre, que trabalhava para um organizador de safáris chamado Gert Saaiman, perguntou se ele tinha interesse em caçar e abater um rinoceronte. Deon jamais havia feito isso, e passou a estudar os hábitos do animal. “Para rastreá-los, você tem de descobrir onde é o banheiro deles”, diz. Os rinocerontes- brancos machos pisoteiam os excrementos de modo a marcar seu território com o cheiro, explicou. “Isso facilita o rastreamento.”
A redução do ruído durante o abate era crucial. Por isso construiu um silenciador, com um tubo de metal dotado de arruelas soldadas em seu interior, e o adaptou ao cano de um rifle calibre 762. “O estampido é parecido com o de uma arma de ar comprimido: fuuuup”, imita Deon. “Acertei um macho, e uma fêmea a 2 metros dele não percebeu nada. Até que a acertei também.”

Os irmãos viajaram por toda a África do Sul abatendo rinocerontes em parques nacionais e reservas particulares. Devido a programas de reprodução bem-sucedidos, havia muitos, e os sistemas de segurança eram precários. Depois de matar um espécime, costumavam entregar os cornos para que outros os vendessem. “Eu só ficava com uma ninharia”, conta Deon, acrescentando que ele, Andre e mais dois acabavam dividindo cerca de 11 000 dólares por um par de cornos que pesava 6 quilos. O descontentamento de Deon com o que estava ganhando o levou à prisão. Ele matou um bicho por conta própria e foi flagrado ao tentar vender os cornos.

Desde então, Deon passou de caçador a caça. A polícia pressiona para que ele testemunhe contra Saaiman e outros. E isso o deixa apavorado. Dias depois de ter sido detido, a mulher de Saaiman foi morta com um tiro na frente de sua casa e de seus filhos. Seis meses antes, a ex-mulher do próprio Deon fora estuprada em casa. Ela e os quatro filhos do casal vivem sob um programa de proteção a testemunhas. Pouco depois, indivíduos que se diziam investigadores particulares visitaram Deon na prisão e lhe ofereceram uma caminhonete nova, 100 000 dólares e um trabalho de PH em troca de não testemunhar.
Ele ainda não sabia se iria cooperar com a polícia quando fosse libertado dali a quatro meses. “Eles podem me encontrar mesmo estando presos”, diz Deon a respeito dos cúmplices. “Não tenho a menor dúvida de que vão me matar.”

O horário de visitas chega ao fim, e um guarda o avisa: “Rino, chegou a hora”. Ele olha para mim e sorri. “‘Rino’ é meu apelido aqui.”
Por melhor mateiro que seja, Deon van Devanter nunca vai conseguir rastrear nenhum animal no Vietnã. O rinoceronte-de-java já foi abundante nas florestas e planícies aluviais vietnamitas, mas, em 2010, caçadores clandestinos abateram o último espécime selvagem no país.

Mesmo assim, não há escassez de cornos da espécie no Vietnã: é provável que mais de 1 tonelada deles tenha chegado ao país no ano passado. (O tráfico ilegal antes girava por China, Taiwan, Coreia do Sul, Japão e Iêmen.) Na África do Sul, diversos vietnamitas, entre eles diplomatas, foram acusados de contrabando de chifres.
A legislação da África do Sul, que está de acordo com a Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies da Flora e da Fauna Silvestres Ameaçadas de Extinção (Cites, na sigla em inglês), permite que cornos de rinoceronte sejam exportados como troféus de caça. Em 2003, um vietnamita viajou à África do Sul e abateu um rinoceronte durante um safári legalizado. Na esteira dele vieram em seguida dezenas de caçadores asiáticos, cada qual pagando 50 000 dólares ou mais. Acredita-se que muitos desses indivíduos trabalhem para grupos criminosos. No Vietnã, um par de cornos normal, com 6 quilos, pode ser cortado em pedaços e vendido no mercado negro, gerando um lucro de até 200 000 dólares.

Não é fácil deslindar os motivos que desencadearam a corrida a esse tesouro. Mas o que sustenta a febre é um suposto poder curativo. Há pelo menos 2 mil anos, a medicina tradicional asiática vem prescrevendo corno de rinoceronte – moído – no tratamento de várias enfermidades. Os raros estudos realizados ao longo dos últimos 30 anos de suas propriedades antipiréticas se mostraram inconclusivos; mesmo assim, a edição de 2006 de uma tradicional farmacopeia vietnamita dedica duas páginas ao tema.
A alegação mais recente e sensacional é de que ele também cura o câncer. Segundo os oncologistas, não há nenhum estudo publicado comprovando a eficácia do corno como anticancerígeno. Todavia, ainda que suas propriedades medicinais sejam duvidosas, “isso não significa que o corno de rinoceronte não produza efeitos benéficos naqueles que o consomem”, diz Mary Hardy, diretora do Centro de Oncologia Integrada Simms/ Mann, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, e especialista em medicina tradicional. “A crença no tratamento, sobretudo quando é caro e de difícil acesso, pode ter um efeito poderoso no modo como o paciente se sente”, conclui.

A fim de entender melhor a popularidade do corno de rinoceronte no Vietnã, viajei pelo país acompanhando uma mulher que vou chamar de senhora Thien. Depois de uma mamografia indicar um nódulo em seu seio direito, um exame de ultrassom revelou uma preocupante mancha em um de seus ovários. Com 52 anos, a esfuziante senhora Thien pretendia se submeter aos tratamentos convencionais, mas também queria consultar praticantes da medicina tradicional. Ao perguntar-lhe se achava que o corno poderia ajudá- la a se curar, ela respondeu: “Quando a gente acha que corre risco de vida, não custa tentar”.
As viagens que fizemos nos levaram tanto a hospitais modernos e clínicas em Hanói e Ho Chi Minh como a lojas de ervas, locais que vendiam peles de animais exóticos e casas particulares em pequenos vilarejos no interior. E por toda a parte encontramos cornos de rinoceronte.

A maioria dos consumidores que conhecemos pertencia à crescente classe média do Vietnã, incluindo, entre outros, médicos formados no Ocidente, um executivo de banco, um matemático, um corretor de imóveis e um engenheiro. Muitas vezes as famílias se cotizam para comprar um pedaço de corno e dividi-lo entre várias pessoas. Alguns o doam a amigos doentes que não podem arcar com o custo. Mães recorrem a ele quando os filhos têm sarampo. Idosos juram que haviam se curado de problemas circulatórios e sido poupados de derrames.

Embora vários médicos vietnamitas tenham me dito que o chifre de rinoceronte não cura nada, muito menos câncer, outros profissionais afirmam que ele pode ser um recurso adicional. Alguns contaram que o prescrevem em forma de pílulas para amenizar os efeitos da químio e da radioterapia. Outros, como Tran Quoc Binh, diretor do Hospital Nacional de Medicina Tradicional, acham que ele pode retardar o crescimento de certos tipos de tumor. “Começamos com a medicina moderna: quimioterapia, radiação, cirurgia”, diz Tran. “Depois disso, é possível que restem algumas células cancerosas. Aí recorremos ao saber tradicional.” Segundo ele, a mistura de corno de rinoceronte, ginseng e ervas pode interromper o crescimento das células cancerosas; no entanto, não foi capaz de citar nenhum estudo científico que comprovasse tal alegação.

Uma noite, em Hanói, a senhora Thien e eu vamos até um movimentado café à beira do lago, por indicação de uma amiga dela, que estava a par de seus problemas de saúde. Quando explica a situação ao dono do café, ele traz um pedaço de corno amarelado, do tamanho de um sabonete, e um prato de cerâmica com o desenho de um rinoceronte na borda. O fundo é rugoso, como uma lixa fina. Ali derrama meio copo d’água e começa a raspar o pedaço no fundo com movimentos circulares. Minutos depois, o corno solta um cheiro acre e a água fica leitosa. Ninguém presta atenção em nós. Enquanto raspa, o proprietário conta que ele e um amigo haviam comprado o produto como suplemento à saúde e inibidor de ressaca, tendo pago 18 000 dólares por cerca de 180 gramas. O interesse havia sido despertado por uma das antigas secretárias do próprio Ho Chi Minh. A mulher contou a eles que o falecido líder vietnamita bebia corno de rinoceronte todos os dias.

Depois de 20 minutos sem parar de raspar, o dono despeja o líquido em dois copinhos, oferecendo um deles à senhora Thien e o outro a mim. A beberagem tem um travo arenoso, sem qualquer sabor. A senhora Thien esvazia a dose e põe o copo na mesa. “Espero que funcione”, diz.
Para John Hume, não há necessidade de que nenhum rinoceronte morra para que toda a demanda vietnamita por cornos seja atendida. O empresário, de 69 anos, que acumulou uma fortuna com cadeias de hotéis e frotas de táxi antes de se dedicar à criação de animais, hoje é dono de um dos maiores rebanhos de rinoceronte do mundo. Hume cria mais de 700 deles, brancos e negros, em duas fazendas na África do Sul, e quer ampliar ainda mais seu plantel.
“Se tiramos a lã dos carneiros, por que não tirar os cornos dos rinocerontes?”, pergunta ele uma tarde, sentado na sede de uma das fazendas enquanto Sebastian, um papagaio albino, mordisca sua orelha. “Quando se corta o corno 8 centímetros acima da base, ele volta a crescer em dois anos. Isso significa que há um suprimento inesgotável de cornos se formos inteligentes o bastante para manter vivos os malditos animais.”
Quase toda semana, o administrador da fazenda e um veterinário, acompanhados de um fiscal, anestesiam um dos rinocerontes e dele extraem os cornos com uma serra elétrica. Vinte minutos depois, o animal volta ao pasto, e os dois cornos, depois de receberem um microchip, já estão a caminho do cofre de um banco. Hume não informa a quantidade de chifres que extraiu desde que iniciou a criação, em 2002, mas, segundo uma estimativa conservadora, ele já movimentou dezenas de milhões de dólares.

A ideia de Hume pode ser vista como mais uma tentativa em uma série de inovadoras práticas de manejo da fauna silvestre adotada pela África do Sul. Em 1961, funcionários públicos da província de Natal foram pioneiros na transferência de rinocerontes selvagens para áreas particulares como forma de facilitar a reprodução e a diversificação genética. Em 1986, o Departamento de Parques de Natal permitiu que os rinocerontes excedentes nas reservas da província fossem leiloados por valores de mercado, uma iniciativa que arrecadou milhões de dólares para projetos de conservação. Para Hume, a criação para aproveitamento dos cornos é o próximo passo realista na preservação dos animais.

Durante a conversa, Hume vai se tornando cada vez mais agitado. “Um caçador vietnamita não veria problema em usar dardo tranquilizante para imobilizar o animal, extrair os cornos e mantê-lo vivo”, exclama ele. “Mas a lei sul-africana obriga o caçador a matar o rinoceronte para que os cornos possam sair do país como troféu.” Ele balança a cabeça diante de tal insensatez.

Um dos equívocos mais comuns, diz Hume, está na ideia de que marfim e corno são a mesma coisa. O marfim é a presa de um elefante, ao passo que o corno do rinoceronte é feito de ceratina, como a pata de um cavalo. Quando a presa de um elefante é cortada, o nervo na raiz pode infeccionar, provocando a morte do animal.

Para Hume, à medida que os compradores passarem a confiar nos novos fornecedores, os preços tendem a baixar, o que vai afastar do mercado as organizações criminosas. “Os caçadores ilegais têm interesse nos cornos por causa de lucros no curto prazo. Já os criadores pensam no longo prazo, com anos de lucros constantes.”

Essa incompatibilidade, teme Hume, deve-se a um problema de comunicação intercultural. “Estamos dizendo aos vietnamitas que não há drama em abater o animal, pois consideramos aceitável cortar a cabeça e usá-la como decoração, ao passo que a tradição deles de extrair os cornos para fins medicinais é vista como abominável.”
Depois de passar a noite tentando localizar os caçadores, Damien organiza uma busca para achar os rinocerontes. Cai uma chuva gelada, e a névoa cobre as matas e os vales enquanto os guardas-florestais caminham em fila, atentos a qualquer sinal de sangue ou de carcaça em meio à vegetação rasteira. Ao meio-dia, Basta e o filhote ainda estão desaparecidos.

No jipe, a caminho das áreas de alimentação prediletas dos rinocerontes, Damien conta de que modo as temporadas que passou no Iraque, protegendo comboios da ONU, lhe proporcionaram uma compreensão intuitiva daquilo que sofrem os animais com a perseguição dos caçadores. “Fomos atingidos por bombas improvisadas, e perdi colegas”, conta em voz baixa. “Sei o que significa ser caçado por seres humanos.”
Após encerrar o serviço militar, se deu conta de que sua experiência no treinamento de recrutas para a polícia iraquiana, encarregada de restabelecer a ordem em um país mergulhado no caos, serviria para as áreas selvagens também caóticas no Zimbábue, onde quase sempre os guardas-florestais são mal equipados, mal pagos e vulneráveis ao suborno. Ele fundou uma organização sem fins lucrativos, a Fundação Internacional Contra a Caça Ilegal, que treina e equipa guardas-florestais às reservas públicas e particulares do Zimbábue. Os interessados são recrutados nas comunidades mais carentes, as mesmas de onde sai a maioria dos caçadores – e os locais em que é mais importante enraizar a concepção de que vale mais preservar a fauna silvestre do que destruí-la. Mas tais ideais são fortes o bastante para superar a atração do lucro fácil com a caça ilegal? “As pessoas diziam que não havia como melhorar a situação no Iraque, mas isso está acontecendo”, responde. “Também aqui estou pensando no longo prazo.”
Quatro meses depois de eu ter visitado Deon na prisão, ele é posto em liberdade. Diz à polícia que não irá testemunhar contra seus cúmplices. Com isso, as acusações contra Gert Saaiman são retiradas. Nesse período, os caçadores mataram quatro rinocerontes-brancos nas fazendas de John Hume. Já os médicos da senhora Thien concluíram que as manchas no seio e nos ovários não passavam de cistos benignos, que ela vem tratando com uma mescla de remédios, entre eles corno de rinoceronte.

Antes de sair do Zimbábue, visito Damien mais uma vez. Ele e Benzene me conduzem a um local no meio do mato onde Basta mordiscava as folhas de um mopane. Ela está sempre de olho em seu mais recente filhote, cuja pele enrugada faz dobras ao redor do pescoço e dos joelhos, mais parecendo um pijama cinzento vários números maior. Consigo notar uma pequena protuberância ali onde no futuro irá surgir o primeiro corno, tal como acontecia com seus antepassados há 40 milhões de anos. Sob o sol do fim de tarde, em meio ao canto dos pássaros, contemplamos maravilhados as desajeitadas tentativas do pequeno rinoceronte de seguir a mãe pesadona através da alta relva dourada.

Damien balança a cabeça. “É espantoso ver essa figurinha e pensar que alguém está disposto a matá-la por causa dessa minúscula protuberância, não importa quão mágicas sejam suas propriedades.” Então eu digo a ele que, se o objetivo de sua nova existência era proteger os rinocerontes, a tatuagem “Achar & Destruir” que trazia no peito deveria, na verdade, ser modificada para “Achar & Salvar”. Ele ri. “Pois é, companheiro, talvez tenha mesmo de mudar isso.”