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quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Os chimpanzés que mataram o seu chefe tirano

Um grupo assassina o líder deposto depois que este volta do exílio e come seu cadáver

Agosto de 2019.
Vários chimpanzés examinam o cadáver de Foudouko.
Vários chimpanzés examinam o cadáver de Foudouko.
Alguns estudos recentes publicados por primatólogos parecem obra de Shakespeare. Aprendemos como a execução cruel de um chimpanzé desatou a guerra entre dois clãs. Ou como duas fêmeas de orangotango levaram sua rivalidade até as últimas consequências. Um novo trabalho conta outra história de poder, violência e amizade cujos protagonistas são grandes símios, não seres humanos. Os chimpanzés da quente savana de Fongoli, no Senegal, mataram seu líder de anos anteriores quando este tentava retornar ao grupo após um exílio que havia durado quase cinco anos.
Foudouko havia alcançado o status de macho alfa do grupo ainda jovem, no início de 2005, e liderou esta comunidade até o final de 2007, sempre com a ajuda de Mamadou, seu tenente. Foudouko foi destronado depois de Mamadou receber uma surra brutal que fraturou seu fêmur ou quadril, segundo deduzem pesquisadores que acompanham permanentemente o grupo, anotando tudo o que fazem. “Era como se fosse um tirano”, afirma à New Scientist a principal autora do estudo, Jill Pruetz, em referência a Foudouko.

Poucos meses depois de ter sido deposto, no início de 2008, este chimpanzé foi para o exílio. Desapareceu completamente por nove meses e, até 2013, mal podia ser visto no território de seu grupo. Este ostracismo “deve ter sido excepcionalmente estressante, como demonstrado em outros chimpanzés que sofrem isolamento social”, explicaram os primatólogos no International Journal of Primatology, já que são animais muito sociáveis, especialmente os machos, e para eles é doloroso até mesmo ter uma vida em semi-isolamento.

A inusitada violência desse grupo pode se dever à escassez de fêmeas reprodutivas, segundo sugerem os cientistas

Enquanto isso, Mamadou havia recuperado sua antiga posição social, após se humilhar até mesmo diante da mais fraca das fêmeas do grupo, formado por mais de trinta membros. A sociedade dos chimpanzés é muito hierárquica e, como explicam os pesquisadores, Mamadou precisou reconquistar o respeito da comunidade após sua derrota. Por fim, foi seu irmão David que chegou ao poder, deixando o cargo de macho beta a Mamadou.

Em meados de 2013, Foudouko pouco a pouco começou a participar das atividades do grupo, mas sem conseguir com que o aceitassem. Uma noite, após vários incidentes e perseguições para afastá-lo da comunidade de Fongoli, os primatologistas que os estudam escutaram uma gritaria incomum. Antes do amanhecer, um deles encontrou o cadáver de Foudouko, com graves cortes no pescoço e em um pé, o que provavelmente causou sua morte por perda de sangue. Além disso, tinha dois dedos destroçados, supostamente por conta do esforço de seus agressores em segurar suas extremidades a dentadas enquanto o matavam.

Poucos meses após ser derrubado, o chimpanzé partiu ao exílio. Desapareceu completamente por nove meses e durante cinco anos pouco interagiu com o grupo

A partir desse momento, os primatologistas agiram para observar em detalhes tudo o que ocorreu na sequência, para registrar como se comportava a comunidade diante desse assassinato. Todo o grupo se aproximou para presenciar a cena, cheirando e tocando o cadáver. Alguns machos jovens ainda o golpeavam e mordiam, mas os chefes não se comportaram agressivamente. Mesmo sem querer se relacionar com ele antes de sua morte, Mamadou puxou e empurrou o cadáver, mas sem agressividade: “Parecia estar tentando acordar Foudouko, ao invés de tentar machucá-lo, já que seu comportamento era menos agressivo do que o dos outros machos”, afirma o estudo.
Mas o momento mais sórdido ainda estava por vir. Foi quando se aproximou do cadáver a fêmea mais poderosa do grupo, a mãe do macho alfa David. Após inspecioná-lo, começou a comer as feridas de seu pescoço, mordendo várias vezes seu corpo para arrancar pedaços de carne que devorava. Depois de vários desses bocados, e algumas mordidas nos genitais, a fêmea introduziu o dedo no ânus do cadáver, que estava destroçado, e extraiu material fecal.

Escassez de fêmeas

Os cientistas acreditam que nesse caso, o primeiro em que se registra esse tipo de ostracismo que acaba em morte, há uma explicação reprodutiva. Nessa comunidade existem muito mais machos do que fêmeas maduros sexualmente, um cenário de extraordinária competição para se acasalar que estaria tornando os machos mais violentos.
Seu substituto foi ferido gravemente, mas conseguiu recuperar sua condição; seu irmão era o novo macho alfa.

“O alto nível de competição reprodutiva masculina em Fongoli, junto com uma baixa densidade de população e uma taxa extremamente baixa de interações intercomunitárias pode explicar o ataque a Foudouko”, concluem. “O caso de Foudouko é também um dos poucos registrados entre os chimpanzés da África Ocidental, uma subespécie caracterizada, junto com os bonobos, por ter relativamente poucas agressões letais em comparação com a subespécie de chimpanzés da África Oriental” explica o estudo.

A especialista Jill Pruetz já publicou dois anos atrás um estudo em que descreveu as especiais capacidades das fêmeas do grupo de Fongoli, que aprenderam a caçar com lanças, fazendo com que os machos respeitassem suas presas mais do que o esperado.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Conflitos armados causam extinção de espécies no deserto do Saara


Conflitos armados ameaçam a existência da gazela-dorcas (Foto: Divulgação)
Dos 14 animais selvagens de grande porte que habitam a região, 12 estão classificados atualmente como extintos ou ameaçados de extinção.

Um estudo realizado pelo Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO) da Universidade do Porto, em Portugal, concluiu que conflitos armados estão provocando a extinção de animais silvestres que habitam o deserto do Saara e também do Sahel.

Os desertos abrangem partes da Argélia, Burkina-Faso, Chade, Egito, Eritreia, Líbia, Mali, Marrocos, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal, Sudão e Tunísia, locais onde ocorrem 5% dos conflitos mundiais, segundo a pesquisa.

O aumento do acesso a áreas anteriormente remotas, da disponibilidade de armas de fogo e das atividades de exploração de recursos naturais – especialmente na Argélia, Egito, Líbia e Níger – “amplificaram dramaticamente o impacto das atividades de caça”, de acordo com o estudo.

Dos 14 animais selvagens de grande porte que habitam a região, 12 estão classificados atualmente como extintos ou ameaçados de extinção. Três deles foram foco do estudo, publicado na revista científica Conservation Letters: a gazela-dorcas, o adax e o elefante africano. A redução do número de adax é a única que tem relação com a exploração petrolífera, no caso dos outros dois animais, a ameaça às espécies é o aumento dos conflitos.

Segundo o investigador do CIBIO-InBIO, José Carlos Brito, os resultados do estudo mostram o “declínio catastrófico da vida selvagem na região”, o que pode ser agravado ainda mais com o aumento de ataques promovidos por grupos extremistas, sequestros, escravidão e contrabando de armas e drogas.

Para que a biodiversidade dos desertos do Saara e do Sahel sejam conservadas, explica o investigador, é preciso incentivar a valorização da natureza, o uso sustentável dos recursos naturais e a criação de sanções, sendo crucial a conscientização de comunidades locais a respeito da importância cultural, econômica e ecológica da biodiversidade. A nível nacional, é necessário que seja realizada uma mudança de postura por parte dos países que produzem e comercializam armas e munições.

“É importante compreender o círculo vicioso estabelecido entre comércio de armas, conflitos, migração e risco de extinção das espécies selvagens. As interferências de países terceiros nas zonas de conflito, como o caso das ações militares da União Europeia e Estados Unidos no conflito da Líbia, não consideram os riscos e consequências a longo prazo para as populações humanas e biodiversidade”, reforça o investigador.

Brito lembra ainda que é preciso integrar a proteção animal às estratégias de paz, desarmar civis, milícias e grupos extremistas e restringir o acesso às armas e munições. “As autoridades religiosas islâmicas, em particular, têm a credibilidade para reformular as atitudes éticas em relação à biodiversidade e para incutir modos de vida favoráveis ao meio ambiente”, defende Brito.

A longo prazo, o investigador afirma que é preciso estabelecer um equilíbrio entre conservação ambiental e desenvolvimento socioeconômico. Para isso, Brito explica que é fundamental que os “cientistas empenhados na conservação colaborem com agentes políticos e investigadores focados na vertente militar, em busca de soluções inovadoras para os desafios que se colocam às regiões em conflito”.
Fonte: www.anda.jor.br

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O impacto do ebola

Surto da doença na África arruína países já marcados pela pobreza. Em ensaio da CH, cientista alerta para a necessidade de enfrentar essa ameaça por meio de esforço internacional conjunto, de modo a auxiliar a recuperação dessas nações. 
 
Por: Clarissa Damaso
Publicado em 18/12/2014 | Atualizado em 18/12/2014
O impacto do ebola
Em países como Guiné, a falta de alimentos, água e outros produtos básicos deteriora ainda mais o estado de saúde já precário das pessoas. (foto: European Commision DG ECHO/ Flickr – CC BY-ND 2.0) 
 
A infecção pelo vírus ebola causa uma doença grave (doença do vírus ebola ou DVE), que se manifesta por febre alta (acima de 38,5 oC), dor abdominal, fraqueza, vômitos e diarreia.

As manifestações hemorrágicas – manchas vermelhas e roxas na pele, sangramento por mucosas, ouvidos, nariz e trato gastrointestinal – ocorrem em cerca  de 40% ou menos dos casos. No período de incubação, que dura de dois a 21 dias, não há sinais ou sintomas e não há transmissão do vírus para outras pessoas.

Após a fase de incubação, o quadro evolui rapidamente, em geral em torno de 10 dias, podendo levar à morte em 50% a 70% dos casos, algumas vezes alcançando 90%.

A transmissão do vírus se dá por qualquer fluido corporal: sangue, sêmen, fezes, urina, vômitos, leite, saliva, lágrimas ou suor
 
A transmissão do vírus se dá por qualquer fluido corporal: sangue, sêmen, fezes, urina, vômitos, leite, saliva, lágrimas ou suor. O vírus se mantém infectante por várias horas, em gotas de suor (que secam depressa), ou por vários dias, em restos de sangue.

O contágio ocorre pelo contato de material contaminado (fluidos corporais ou uma luva de látex, por exemplo) com mucosas ou áreas lesadas na pele, lembrando que mesmo microabrasões, que não percebemos, são ‘portas’ para o vírus.

No caso de homens em fase de recuperação, é possível detectar vírus no sêmen por cerca de 80 a 90 dias, o que aponta claramente para a necessidade de usar preservativos, nesse período, para evitar a transmissão. O vírus pode ainda ser transmitido pelo contato com animais infectados, como macacos, chimpanzés, gorilas e algumas espécies de morcegos. Acredita-se que os morcegos sejam o reservatório do vírus na natureza. Cabe ressaltar que não há transmissão pelo ar ou pela água.

Contagioso X infeccioso

É importante ter em mente que o vírus ebola não é altamente contagioso, mas é altamente infeccioso. Isso significa que, comparado a outros vírus, como o do sarampo ou o da poliomielite, por exemplo, o ebola tem baixa taxa de transmissão a partir de uma pessoa infectada (essa taxa é conhecida como R0 ou número de reprodução básico). No entanto, após entrar em um hospedeiro, o vírus mostra alta capacidade de infectar e causar uma doença devastadora – portanto, é altamente infeccioso e virulento.
O surto atual começou em dezembro de 2013, mas a comunicação oficial às autoridades sanitárias mundiais só ocorreu em março de 2014
 
Esses conceitos são importantes porque indicam que o controle da transmissão é mais simples de ser realizado do que se o ebola fosse transmitido pelo ar, como o vírus do sarampo. Além disso, com o início dos sintomas, a pessoa infectada fica debilitada rapidamente, sem condições de se locomover muito, trabalhar ou interagir socialmente. Esse fato já reduz as chances de transmissão para outras pessoas. No caso do ebola, é preciso evitar o contato com fluidos corporais de uma pessoa infectada.

O surto atual começou em dezembro de 2013, mas a comunicação oficial às autoridades sanitárias mundiais só ocorreu em março de 2014. Já foram registrados casos de DVE em oito países: Guiné, Libéria, Serra Leoa, Nigéria, Senegal e mais recentemente Mali (na África), além de Espanha e Estados Unidos. Desses, Senegal e Nigéria já contiveram os surtos e foram oficialmente declarados livres de transmissão pela OMS – respectivamente em 17 e 20 de outubro últimos. Entre todos os países afetados, a situação é mais grave em Guiné, Libéria e Serra Leoa: juntos, eles detinham, até 25 de outubro, 10.114 casos de DVE, ou seja, 99,7% do total de 10.141 casos reportados.

Sem controle 

Mas por que a situação está sem controle nesses países? A presença de uma pessoa ou animal portador do vírus e o contato com fluidos dessa pessoa ou animal é suficiente para o surgimento de um novo caso em qualquer país do mundo, mas a infraestrutura de atenção à saúde e a condição socioeconômica do país ou da região ditarão as cenas dos próximos capítulos: contenção ou epidemia.
Ebola na Guiné
Entre todos os países afetados pelo ebola, a situação mais grave é em Guiné, Libéria e Serra Leoa: juntos, eles detinham, até 25 de outubro, 99,7% dos 10.141 casos reportados. (foto: European Commision DG ECHO/ Flickr – CC BY-ND 2.0)
Os três países mais atingidos têm, além de poucos recursos, um longo histórico de conflitos sociopolíticos e econômicos. A infraestrutura de atenção à saúde é das mais precárias. Há grande carência de profissionais da área médica e também de hospitais e clínicas com leitos disponíveis, equipamentos de proteção pessoal e condições de controle de infecção.

Somado a esse quadro de elevada pobreza, há crenças e costumes diversos (muitas vezes específicos de cada um dos vários grupos étnicos da população), que dificultam a adoção de medidas de controle, como entender e cumprir normas de quarentena, evitar o contato com pessoas infectadas vivas ou mortas, não comer animais silvestres como macacos e morcegos e não ter contato com a carcaça desses animais.
Em surtos anteriores, a DVE nunca havia alcançado centros urbanos e capitais. Os surtos ocorreram em vilarejos rurais, o que facilitou a quebra da transmissão homem a homem, devido ao isolamento. A alavanca propulsora do surto atual foi o alcance de cidades de maior porte e que mantêm níveis de pobreza elevados. A soma desses fatores – cidades mais populosas e imensas dificuldades socioeconômicas e de saúde – favorece a transmissão continuada de um vírus, como o ebola, disseminado por contato.

Na Libéria, por exemplo, não há leitos disponíveis e as pessoas doentes são levadas pela família em táxis rodando a cidade em busca de um hospital com vaga. Não encontrando leito, os doentes retornam para casa e são tratados, de forma precária e inadequada, pela família, que não dispõe de equipamento e treinamento para tal.
Os epidemiologistas e a OMS já declararam que a epidemia nesses países está fora de controle e fazem a previsão de milhares de casos ainda para este ano
Todos os que têm contato com a pessoa infectada – familiares, taxistas, pessoas que ajudam a levar o doente ao hospital e até os próximos passageiros do táxi – são pessoas com alto risco de contrair a doença. E assim continua a cadeia de transmissão.

Os epidemiologistas e a OMS já declararam que a epidemia nesses países está fora de controle e fazem a previsão de milhares de casos ainda para este ano. Na melhor das hipóteses, estima-se um prazo entre nove e 12 meses para o controle da doença.

Para esses países, as consequências são as piores possíveis. Em números absolutos, a doença mata uma parcela pequena da população de milhões de habitantes. No entanto, hospitais e clínicas estão lotados e não há profissionais suficientes, por causa do surto, e pessoas com doenças comuns não têm sido atendidas. Assim, doenças que não seriam fatais, se o paciente fosse adequadamente tratado, agora vêm matando mais pessoas.

Situação precária 

A economia desses países está seriamente prejudicada. A baixa no número de trabalhadores em vários setores é grande, não apenas porque muitos têm DVE ou já faleceram devido à doença, mas porque outros permanecem em casa para cuidar de familiares doentes ou por ter medo de, no trabalho, contrair o vírus de colegas doentes ou que tenham familiares doentes. Além disso, várias empresas fornecedoras de produtos têm suspendido o comércio com os países majoritariamente afetados.

Começa a faltar comida e insumos básicos em muitas regiões onde o transporte foi suspenso. A falta de alimentos, água e outros produtos básicos deteriora ainda mais o estado de saúde já precário das pessoas. Muitas escolas, com alunos doentes, suspendem as aulas. O número de órfãos é muito grande: são crianças que perderam os pais e, muitas vezes, não são aceitas por parentes ou vizinhos.
Recuperar a normalidade na Guiné, em Serra Leoa e na Libéria será uma tarefa árdua, que certamente demorará anos.
 
Recuperar a normalidade na Guiné, em Serra Leoa e na Libéria será uma tarefa árdua, que certamente demorará anos. É impressionante assistir à ruína de três países em pleno século 21. A preocupação atual de desenvolver terapias antivirais rapidamente é necessária e louvável, mas é essencial também elaborar um planejamento urgente de recuperação desses países. Além disso, é preciso fazer investimentos preventivos nestes e em outras nações de poucos recursos, para que seja possível evitar que doenças como a DVE se alastrem como fogo em capim seco e destruam um país por completo.

A dimensão do sofrimento do povo do oeste africano foi claramente traduzida na emoção de um colega nigeriano, que participa do combate à DVE, ao me contar, no dia 20 de outubro, que a OMS declarou seu país livre de transmissão do ebola.
O olhar do mundo para esses países precisa ser mais atento.

Clarissa Damaso
Laboratório de Biologia Molecular de Vírus
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro