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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O impacto do ebola

Surto da doença na África arruína países já marcados pela pobreza. Em ensaio da CH, cientista alerta para a necessidade de enfrentar essa ameaça por meio de esforço internacional conjunto, de modo a auxiliar a recuperação dessas nações. 
 
Por: Clarissa Damaso
Publicado em 18/12/2014 | Atualizado em 18/12/2014
O impacto do ebola
Em países como Guiné, a falta de alimentos, água e outros produtos básicos deteriora ainda mais o estado de saúde já precário das pessoas. (foto: European Commision DG ECHO/ Flickr – CC BY-ND 2.0) 
 
A infecção pelo vírus ebola causa uma doença grave (doença do vírus ebola ou DVE), que se manifesta por febre alta (acima de 38,5 oC), dor abdominal, fraqueza, vômitos e diarreia.

As manifestações hemorrágicas – manchas vermelhas e roxas na pele, sangramento por mucosas, ouvidos, nariz e trato gastrointestinal – ocorrem em cerca  de 40% ou menos dos casos. No período de incubação, que dura de dois a 21 dias, não há sinais ou sintomas e não há transmissão do vírus para outras pessoas.

Após a fase de incubação, o quadro evolui rapidamente, em geral em torno de 10 dias, podendo levar à morte em 50% a 70% dos casos, algumas vezes alcançando 90%.

A transmissão do vírus se dá por qualquer fluido corporal: sangue, sêmen, fezes, urina, vômitos, leite, saliva, lágrimas ou suor
 
A transmissão do vírus se dá por qualquer fluido corporal: sangue, sêmen, fezes, urina, vômitos, leite, saliva, lágrimas ou suor. O vírus se mantém infectante por várias horas, em gotas de suor (que secam depressa), ou por vários dias, em restos de sangue.

O contágio ocorre pelo contato de material contaminado (fluidos corporais ou uma luva de látex, por exemplo) com mucosas ou áreas lesadas na pele, lembrando que mesmo microabrasões, que não percebemos, são ‘portas’ para o vírus.

No caso de homens em fase de recuperação, é possível detectar vírus no sêmen por cerca de 80 a 90 dias, o que aponta claramente para a necessidade de usar preservativos, nesse período, para evitar a transmissão. O vírus pode ainda ser transmitido pelo contato com animais infectados, como macacos, chimpanzés, gorilas e algumas espécies de morcegos. Acredita-se que os morcegos sejam o reservatório do vírus na natureza. Cabe ressaltar que não há transmissão pelo ar ou pela água.

Contagioso X infeccioso

É importante ter em mente que o vírus ebola não é altamente contagioso, mas é altamente infeccioso. Isso significa que, comparado a outros vírus, como o do sarampo ou o da poliomielite, por exemplo, o ebola tem baixa taxa de transmissão a partir de uma pessoa infectada (essa taxa é conhecida como R0 ou número de reprodução básico). No entanto, após entrar em um hospedeiro, o vírus mostra alta capacidade de infectar e causar uma doença devastadora – portanto, é altamente infeccioso e virulento.
O surto atual começou em dezembro de 2013, mas a comunicação oficial às autoridades sanitárias mundiais só ocorreu em março de 2014
 
Esses conceitos são importantes porque indicam que o controle da transmissão é mais simples de ser realizado do que se o ebola fosse transmitido pelo ar, como o vírus do sarampo. Além disso, com o início dos sintomas, a pessoa infectada fica debilitada rapidamente, sem condições de se locomover muito, trabalhar ou interagir socialmente. Esse fato já reduz as chances de transmissão para outras pessoas. No caso do ebola, é preciso evitar o contato com fluidos corporais de uma pessoa infectada.

O surto atual começou em dezembro de 2013, mas a comunicação oficial às autoridades sanitárias mundiais só ocorreu em março de 2014. Já foram registrados casos de DVE em oito países: Guiné, Libéria, Serra Leoa, Nigéria, Senegal e mais recentemente Mali (na África), além de Espanha e Estados Unidos. Desses, Senegal e Nigéria já contiveram os surtos e foram oficialmente declarados livres de transmissão pela OMS – respectivamente em 17 e 20 de outubro últimos. Entre todos os países afetados, a situação é mais grave em Guiné, Libéria e Serra Leoa: juntos, eles detinham, até 25 de outubro, 10.114 casos de DVE, ou seja, 99,7% do total de 10.141 casos reportados.

Sem controle 

Mas por que a situação está sem controle nesses países? A presença de uma pessoa ou animal portador do vírus e o contato com fluidos dessa pessoa ou animal é suficiente para o surgimento de um novo caso em qualquer país do mundo, mas a infraestrutura de atenção à saúde e a condição socioeconômica do país ou da região ditarão as cenas dos próximos capítulos: contenção ou epidemia.
Ebola na Guiné
Entre todos os países afetados pelo ebola, a situação mais grave é em Guiné, Libéria e Serra Leoa: juntos, eles detinham, até 25 de outubro, 99,7% dos 10.141 casos reportados. (foto: European Commision DG ECHO/ Flickr – CC BY-ND 2.0)
Os três países mais atingidos têm, além de poucos recursos, um longo histórico de conflitos sociopolíticos e econômicos. A infraestrutura de atenção à saúde é das mais precárias. Há grande carência de profissionais da área médica e também de hospitais e clínicas com leitos disponíveis, equipamentos de proteção pessoal e condições de controle de infecção.

Somado a esse quadro de elevada pobreza, há crenças e costumes diversos (muitas vezes específicos de cada um dos vários grupos étnicos da população), que dificultam a adoção de medidas de controle, como entender e cumprir normas de quarentena, evitar o contato com pessoas infectadas vivas ou mortas, não comer animais silvestres como macacos e morcegos e não ter contato com a carcaça desses animais.
Em surtos anteriores, a DVE nunca havia alcançado centros urbanos e capitais. Os surtos ocorreram em vilarejos rurais, o que facilitou a quebra da transmissão homem a homem, devido ao isolamento. A alavanca propulsora do surto atual foi o alcance de cidades de maior porte e que mantêm níveis de pobreza elevados. A soma desses fatores – cidades mais populosas e imensas dificuldades socioeconômicas e de saúde – favorece a transmissão continuada de um vírus, como o ebola, disseminado por contato.

Na Libéria, por exemplo, não há leitos disponíveis e as pessoas doentes são levadas pela família em táxis rodando a cidade em busca de um hospital com vaga. Não encontrando leito, os doentes retornam para casa e são tratados, de forma precária e inadequada, pela família, que não dispõe de equipamento e treinamento para tal.
Os epidemiologistas e a OMS já declararam que a epidemia nesses países está fora de controle e fazem a previsão de milhares de casos ainda para este ano
Todos os que têm contato com a pessoa infectada – familiares, taxistas, pessoas que ajudam a levar o doente ao hospital e até os próximos passageiros do táxi – são pessoas com alto risco de contrair a doença. E assim continua a cadeia de transmissão.

Os epidemiologistas e a OMS já declararam que a epidemia nesses países está fora de controle e fazem a previsão de milhares de casos ainda para este ano. Na melhor das hipóteses, estima-se um prazo entre nove e 12 meses para o controle da doença.

Para esses países, as consequências são as piores possíveis. Em números absolutos, a doença mata uma parcela pequena da população de milhões de habitantes. No entanto, hospitais e clínicas estão lotados e não há profissionais suficientes, por causa do surto, e pessoas com doenças comuns não têm sido atendidas. Assim, doenças que não seriam fatais, se o paciente fosse adequadamente tratado, agora vêm matando mais pessoas.

Situação precária 

A economia desses países está seriamente prejudicada. A baixa no número de trabalhadores em vários setores é grande, não apenas porque muitos têm DVE ou já faleceram devido à doença, mas porque outros permanecem em casa para cuidar de familiares doentes ou por ter medo de, no trabalho, contrair o vírus de colegas doentes ou que tenham familiares doentes. Além disso, várias empresas fornecedoras de produtos têm suspendido o comércio com os países majoritariamente afetados.

Começa a faltar comida e insumos básicos em muitas regiões onde o transporte foi suspenso. A falta de alimentos, água e outros produtos básicos deteriora ainda mais o estado de saúde já precário das pessoas. Muitas escolas, com alunos doentes, suspendem as aulas. O número de órfãos é muito grande: são crianças que perderam os pais e, muitas vezes, não são aceitas por parentes ou vizinhos.
Recuperar a normalidade na Guiné, em Serra Leoa e na Libéria será uma tarefa árdua, que certamente demorará anos.
 
Recuperar a normalidade na Guiné, em Serra Leoa e na Libéria será uma tarefa árdua, que certamente demorará anos. É impressionante assistir à ruína de três países em pleno século 21. A preocupação atual de desenvolver terapias antivirais rapidamente é necessária e louvável, mas é essencial também elaborar um planejamento urgente de recuperação desses países. Além disso, é preciso fazer investimentos preventivos nestes e em outras nações de poucos recursos, para que seja possível evitar que doenças como a DVE se alastrem como fogo em capim seco e destruam um país por completo.

A dimensão do sofrimento do povo do oeste africano foi claramente traduzida na emoção de um colega nigeriano, que participa do combate à DVE, ao me contar, no dia 20 de outubro, que a OMS declarou seu país livre de transmissão do ebola.
O olhar do mundo para esses países precisa ser mais atento.

Clarissa Damaso
Laboratório de Biologia Molecular de Vírus
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O verdadeiro Planeta dos Macacos: a ilha da Libéria habitada por chimpanzés que eram cobaias animais

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Acredite ou não, existe um Planeta dos Macacos da vida real: a chamada “Monkey Island” (“Ilha dos Macacos”, em português), que fica em uma área isolada localizada nas profundezas das selvas da África Ocidental.

Ela é o lar de dezenas de chimpanzés de laboratório aposentados, que antes eram usados em experimentos para a pesquisa médica. Estes animais são praticamente heróis – conseguiram sobreviver a doenças, duas guerras civis e numerosos exames e experiências médicas.
Os moradores da ilha são ex-frequentadores do Instituto de Pesquisas Biomédicas da Libéria (Vilab II), e desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento de tratamentos para doenças como hepatite durante a década de 1970.

O laboratório foi fechado em meados da década de 2000 devido à crescente pressão de ativistas dos direitos dos animais, e os macacos foram transferidos para essa ilha remota da Libéria no meio do rio Farmington para viver uma aposentadoria tranquila.




A ilha é o lar de mais de 60 chimpanzés que só permitem que cuidadores familiares se aproximem de suas costas. Sua história foi registrada em vídeo em um pequeno documentário chamado “Ilha dos Macacos” feito para promover o filme de 2014 “Planeta dos Macacos: O Confronto”.


O filme mostra a jornada do jornalista americano Kaj Larsen até Monkey Island, e suas experiências lá. Para chegar à ilha, Larsen teve que dirigir quilômetros a partir de Monrovia até a aldeia de Marshall, e negociar com os moradores para levá-lo até o local em uma de suas canoas. Além disso, teve que levar ofertas de frutas para os chimpanzés.

Os locais disseram à Larsen que, se ele valorizava sua vida, não deveria pisar na ilha. “Se você é uma pessoa estranha, quando vai lá, eles se tornam agressivos”, disse Jerry, um segurança da ilha. “Mas os chimpanzés têm medo de água. Eles não atravessam a nado. Eles simplesmente caminham até a beira da água”.

E, de fato, quando os chimpanzés avistaram a equipe de Larsen, começaram a gritar e se agitar. As coisas pareciam sair do controle quando um deles atacou o barco, mas o bicho recuou quando a água ficou mais profunda. “Eles estavam superagressivos, mostrando os dentes, mas quando lhes demos um pouco de comida, eles se acalmaram bastante”, disse Larsen. “Mesmo flutuando a poucos metros dos macacos, era difícil acreditar que este lugar realmente existia”, acrescentou.
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Ainda mais surpreendente que o próprio local é a história por trás dele.

Em Vilab, mais de 100 chimpanzés foram injetados com doenças infecciosas, na esperança de encontrar uma cura. Larsen entrevistou Betsy Brotman, ex-diretora do laboratório, a fim de aprender mais sobre a instituição. Ela explicou que a Libéria foi escolhida por sua grande população de chimpanzés.
“Um monte de pessoas tinha chimpanzés de estimação”, revelou Betsy. “E quando eles passam uma certa idade, cerca de cinco anos, não são muito bons como animais de estimação. E é assim que adquirimos os nossos animais, até que tivemos alguns com idade fértil o suficiente”.

“Eles são a única espécie sensível para a hepatite”, completou o Dr. Preston Marx, virologista que trabalhou no instituto. “Uma vez que um chimpanzé ficava hepatite positivo, precisávamos de mais animais que não tinham sido utilizados em experiências”.

Então os demais começaram a ser liberados para estas ilhas. A razão pela qual eles poderiam fazer isso é porque os chimpanzés não sabem nadar. Seis ilhas viraram casas de chimpanzés.
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Conforme a Libéria passou por uma crise em 1989, que resultaria em duas guerras civis sangrentas, o programa Vilab ficou ameaçado. No meio de toda a violência, eles estavam lutando para continuar a investigação científica e proteger os chimpanzés mandados para as ilhas.

Betsy decidiu ficar no país, mesmo que isso significasse colocar sua vida em risco, simplesmente porque as centenas de animais precisavam ser alimentadas. Eventualmente, ela se viu obrigada a ajudar as vítimas humanas da guerra, também.
Tanto o laboratório quanto seus funcionários conseguiram se manter ilesos até 1993, quando a guerra civil finalmente bateu à sua porta. Forças terroristas invadiram a casa de Betsy e foram atrás de seu marido Brian, assumindo que ele tinha trabalhado para o ex-presidente da Libéria, Charles Taylor. Infelizmente, Brian foi baleado e morto.

Mesmo após o incidente horrível, Betsy se recusou a deixar os chimpanzés e as pessoas que precisavam de sua ajuda. Ela continuou a trabalhar no laboratório através de ambas as guerras civis. No fim das contas, não foi a guerra, mas a mudança da opinião pública quanto à experimentação animal que provocou o fechamento do laboratório.
Vídeos foram libertados descrevendo os métodos cruéis utilizados em outras instalações, e as pessoas se voltaram contra a prática. No final de 1990, os cientistas concluíram que a maioria dos testes em chimpanzés era mais cruel do que eficaz.

No entanto, o documentário afirma que a pesquisa de Betsy e sua equipe no Vilab levou a vacinas contra a Hepatite B que salvaram vidas, bem como um método de triagem para a hepatite C – ambas doenças que, combinadas, afetam milhões de pessoas em todo o mundo.
Em 2005, o Vilab finalmente cedeu, incapaz de suportar a pressão de ativistas dos direitos animais. “Eu acho que eles estavam certos”, Betsy admitiu. “Os chimpanzés realmente não devem ser usados em experiências. Se você vai fazer um trabalho com chimpanzés, deve criar um sistema para que, ao final da pesquisa, eles tenham um lugar onde possam viver uma vida agradável com o melhor de tudo o que está disponível”.

E é isso que Monkey Island tenta ser. Betsy, junto com um núcleo de apoio, continua a alimentar e cuidar de todos os chimpanzés aposentados. Um grupo de cuidadores treinados liberianos visita a ilha todos os dias para trazer comida para eles, observá-los e garantir que todos os animais estejam bem.

Para a surpresa de Larsen, quando ele fez uma segunda visita à ilha, juntamente com os cuidadores, os chimpanzés se comportaram muito bem. “Desta vez, ficou claro que os chimpanzés estavam muito familiarizados com as pessoas e confiavam nelas completamente”, contou.
Os animais, apesar de terem sido infectados com doenças como hepatite antes de serem aposentados, hoje estão bem de saúde. Quase todos estão totalmente recuperados. “Os chimpanzés realmente parecem felizes e bem ajustados a este santuário próprio”, concluiu Larsen. [OddityCentral]