Uma árvore de ramos inusitados
Ampla amostragem genética revela parentescos e eventos evolutivos na diversificação de família de roedores
© EDUARDO CESAR

Com um modo de vida semiaquático, o ratão-do-banhado existe desde o estado de São Paulo até o sul.
Quem pensa que ratos não passam de bichos asquerosos de cauda pelada
que rondam os esgotos nunca viu um rato-do-cacau, da espécie
Callistomys pictus.
Com seu nome que significa, em latim, “rato mais bonito”, o roedor que
pesa por volta de meio quilograma (kg) tem pelagem longa e macia entre o
branco e o prateado com uma mancha preta que percorre as costas. Apenas
um grupo muito seleto de pessoas já viu esse animal que vive no alto
das árvores na região cacaueira de Ilhéus no sul da Bahia, uma
distribuição restrita que garante à espécie o
status de
ameaçada de extinção na lista vermelha da União Internacional para a
Conservação da Natureza (IUCN, em inglês):
apenas 13 indivíduos já foram
registrados por zoólogos.
A versão mais recente da árvore genealógica
(filogenia) dessa família de roedores indicou que seus parentes mais
próximos são os ratões-do-banhado (Myocastor coypus), uma
revelação curiosa que ressalta ainda mais o desconhecimento sobre esses
animais. “As duas espécies são completamente diferentes em aparência,
hábito e distribuição geográfica”, afirma o zoólogo Yuri Leite,
professor na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e um dos
autores do artigo publicado no final de dezembro no site da revista Molecular Biology and Evolution.
Leite, que há mais de 20 anos persiste em um trabalho de detetive
para capturar ratos da família
Echimyidae, ou
equimídeos, e entender as
relações entre as espécies, considera surpreendente o parentesco entre
animais tão diferentes quanto o rato-do-cacau e o ratão-do-banhado.
Mesmo assim, não foi uma novidade para ele, que já publicara a mesma
conclusão em 2014 na revista
Natureza on line, como parte do
trabalho de doutorado de sua aluna Ana Carolina Loss. Naquele momento, o
próprio título do artigo denotava uma certa incredulidade (“Relações
filogenéticas inesperadas do rato-do-cacau
Callistomys pictus”).
“Poderia ser um viés de amostragem, porque tínhamos uma quantidade
limitada de dados”, reconhece, “mas agora não”. Apesar de já ter feito
muito trabalho de campo em busca de roedores praticamente pelo Brasil
inteiro, ele mesmo nunca viu um rato-do-cacau.
O
trabalho de 2014 contava com 14 gêneros de equimídeos, dos quais foram
analisados quatro trechos do genoma. O estudo mais recente, liderado
pelo evolucionista francês Pierre-Henri Fabre, professor na Universidade
de Montpellier, abrange todos os 26 gêneros da família por meio de
material genético extraído de espécimes depositados em nove museus
zoológicos de vários países (entre eles, uma amostra de tecido de
rato-do-cacau da coleção da Ufes).
A partir desse material, técnicas
mais recentes de sequenciamento agora permitiram construir árvores
filogenéticas levando em conta 18 genes diferentes, a amostragem mais
completa já realizada para esses animais.
Um dos problemas das árvores anteriores é incluir características
ósseas, que aparentemente não revelam com precisão a trajetória
evolutiva. A ideia sempre foi que semelhanças são consequência de
parentesco, mas o princípio não vale para toda a anatomia. Leite conta
que os dentes, por exemplo, são muito variáveis (talvez como adaptação à
alimentação) e semelhantes entre animais que agora aparecem muito
distantes na filogenia. O resultado mostrou que os equimídeos
arborícolas são em grande parte parentes entre si e formam um ramo na
árvore filogenética (
ver infográfico).
O mesmo vale para os terrestres, agrupados em três conjuntos.
Em um
deles surgiram, entre 6 milhões e 12 milhões de anos atrás, dois gêneros
semifossoriais (Clyomys e Euryzygomatomys), que passam boa parte de seu tempo debaixo da terra.
Outro roedor com esse modo de vida é o rato-de-espinho
Carterodon sulcidens,
um animal raro que vive em galerias subterrâneas em áreas de Cerrado,
no Brasil Central. Apesar dos avanços obtidos pelo estudo, sua
identidade continua incerta e ele não parece ser aparentado com
equimídeos semifossoriais, com quem é muito parecido. “Há algo de
estranho na evolução molecular desse animal, não podemos nem dizer com
certeza que seja um equimídeo”, avalia Leite. “Algumas análises o
colocam como mais próximo das hutias, integrantes de outra família de
roedores endêmica do Caribe, algo realmente inesperado em termos
morfológicos e biogeográficos”, conta. Fabre também ressalta a
velocidade com que o material genético sofre mutações, a taxa de
evolução molecular, que considera excepcional a ponto de driblar os
métodos de análise utilizados. “Vamos tentar com mais genes e dados
genômicos no futuro”, planeja.
© RAQUEL MOURA

Rato-do-cacau é o parente mais próximo do ratão-do-banhado
Máquina do tempo
Uma contribuição da análise feita agora, além de apontar os parentescos
de uma maneira mais precisa do que já tinha sido possível, foi testar
hipóteses sobre quais fatores levaram à diversificação dessa família de
roedores. O mecanismo mais invocado para explicar efeitos geográficos na
evolução costuma ser a vicariância, em que barreiras como montanhas ou
oceanos surgem impedindo o trânsito de organismos e isolando espécies em
subconjuntos que passam a evoluir separadamente.
Mas o estudo
recém-publicado aponta para a dispersão como evento mais comum,
situações nas quais o trânsito de animais passa a ser possível. Não é
possível voltar ao passado para ter certeza de como aconteceu, mas
modelos estatísticos permitem combinar o parentesco entre as espécies,
sua localização e a idade das linhagens e sugerir o cenário mais
provável. “Se em um grupo todas as espécies aparecem na Mata Atlântica, o
ancestral deve ter vivido nessa floresta”, exemplifica Fabre. “Mas se o
grupo mais próximo dessas espécies atlânticas é amazônico, pode ter
havido um exemplo de separação entre a Mata Atlântica e a Amazônia.” É
uma simplificação. A partir daí, outros fatores são levados em conta
para tentar diferenciar entre separações e junções em tempos distantes.
“Graças a modelos geológicos e de dispersão, testamos as hipóteses de
vicariância e dispersão”, explica o francês.
Um caso marcante é justamente o pareamento improvável entre o
rato-do-cacau e o ratão-do-banhado. Fabre confessa que, apesar de
sugestões no passado de que havia semelhanças entre os dentes e o número
de cromossomos das duas espécies, foi uma surpresa encontrá-los juntos
na árvore, com um apoio estatístico convincente.
A linhagem que deu
origem aos dois gêneros é antiga e teria se bifurcado, de acordo com as
análises, por volta de 10 milhões de anos atrás, enquanto a cordilheira
dos Andes se soerguia e quando surgiram grandes zonas alagadas em
florestas, como o mar do Paraná. “Essas incursões aquáticas podem ter
estimulado adaptações que levaram tanto ao hábito arborícola como ao
semiaquático”, propõe Leite. Subir nas árvores ou nadar são duas saídas
possíveis para sobreviver nas mesmas condições.
As análises biogeográficas também corroboram resultados anteriores
que indicavam um papel importante da elevação da cordilheira dos Andes e
de conexões entre a Amazônia e a Mata Atlântica na diversificação
desses animais, em diferentes momentos do passado. Para Leite, a nova
árvore filogenética pode servir para gerar outras perguntas ecológicas
ou evolutivas.
Por que um determinado grupo evoluiu da maneira que se
observa? O que torna o rato-do-cacau raro?
A região onde eles vivem, no
sul da Bahia, tem um alto grau de endemismo, com espécies que existem
apenas lá. “Queremos investigar o que aconteceu com alterações no nível
do mar e expansão da floresta para possibilitar a diversificação de
roedores”, sugere Leite, um especialista em encontrar e capturar até
mesmo ratos praticamente inacessíveis, que nunca descem do alto de
árvores nas quais circulam apenas à noite. Ele já descreveu diversas
espécies da família.
Fabre, que há anos se dedica a esses animais rodeados de mistério,
ressalta seus encantos. “Temos poucos dados e é um dos grupos mais
interessantes da América do Sul, visto que são diversificados do ponto
de vista ecológico, morfológico e taxonômico”, afirma, destacando que
restam muitas espécies a descrever e que se sabe pouco sobre as já
registradas pela ciência.
Artigos científicos
FABRE, P.-H.
et al.
Mitogenomic phylogeny, diversification, and biogeography of South American spiny rats.
Molecular Biology and Evolution. On-line. 25 dez. 2016.
LOSS, A. C.
et al.
Unexpected phylogenetic relationships of the painted tree rat Callistomys pictus (Rodentia: Echimyidae).
Natureza on line. v. 12, n. 3, p. 132-6. jul-set. 2014.