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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Diversificação das aves amazônicas dependeu dos rios e do clima

Região oeste da floresta é mais estável e pode ter servido como refúgio, enquanto instabilidade da porção sudeste teria impulsionado a formação de espécies
Hylophylax naevius, uma das espécies de aves que vivem em florestas úmidas de terra firme na Amazônia
Adriano Gambarini
Os cursos variáveis dos rios e as flutuações climáticas ao longo dos milhares de anos, agindo em parceria, são responsáveis pela grande diversidade de aves na Amazônia, que abriga a maior floresta tropical do mundo. “O clima toca a música, mas quem dá os passos são as aves às margens dos rios”, resume o biólogo Alexandre Aleixo, atualmente professor na Universidade de Helsinque, na Finlândia. É uma mudança de visão em relação ao foco dado aos caudalosos rios como responsáveis por isolar espécies habitantes de margens opostas. Os resultados do trabalho liderado por ele foram publicados na quarta-feira, 3 de julho, na revista científica Science Advances.

Entrevista: Alexandre Aleixo
     
Entender a diversidade de animais e plantas que compõem a floresta amazônica tem sido, há décadas, o foco de muitos pesquisadores de áreas biológicas e, mais recentemente, geológicas (ver Pesquisa FAPESP nº 242). Com o recente avanço na capacidade de obter sequências genéticas, os pesquisadores construíram genealogias usando sequências de DNA de mais de mil espécimes de 23 espécies de aves dependentes de áreas de matas úmidas, com ampla distribuição pela Amazônia. 

De posse dessa genealogia, e dos dados geográficos de onde foram coletadas, além de cerca de 6.500 outros registros de localidades, foi possível fazer o que os especialistas chamam de modelagem de nicho: delinear as condições climáticas nas quais vivem e extrapolar esse mapeamento para o que se conhece do clima amazônico nos últimos 20 mil anos. “Ninguém tinha analisado tantas amostras com uma distribuição tão ampla na Amazônia”, afirma Aleixo.
Rio Roosevelt, um dos afluentes do Madeira, passou por fortes modificações no passadoAlexandre Aleixo/Universidade de Helsinque

“Os rios são extremamente importantes, mas não contam toda a história evolutiva da biodiversidade.” Eles só se tornam barreiras, de acordo com o pesquisador, depois que as espécies chegam às suas margens. Nesse trajeto, há espaço e tempo para uma enorme variação de trajetórias. “Caso contrário, todas as espécies teriam reagido ao mesmo tempo quando o rio surgiu, e não encontramos essa sincronia cronológica.” Algumas espécies têm uma história de 5 milhões de anos, outras de 500 mil. E aí entram os fatores climáticos, que delimitam a extensão da floresta e a composição da flora e da fauna.

O trabalho também reforça a ideia de que a Amazônia está longe de se comportar como unidade. A região sudeste da floresta, delimitada pelos rios Tapajós e Amazonas, assim como um corredor marcado pelo rio Negro, são instáveis e mais recentes. 

Aleixo explica que a floresta só existe ali nos momentos em que o clima é ideal – com intensa umidade e um regime de chuvas previsível – como atualmente. No passado a vegetação era diferente naquela área, assim como deve acontecer no futuro, caso se mantenham as projeções de mudanças climáticas. “Nossos dados se encaixam no que dizem os modelos do grupo do [climatologista] Carlos Nobre, do Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais], que preveem alterações na floresta quando ultrapassarmos 40% de desmatamento e atingirmos determinados padrões de temperatura e pluviosidade.”
Alexandre Aleixo em 2009 durante trabalho de campoAdriano Gambarini

Refúgios
 
O curioso é que o artigo de Aleixo está sendo publicado quase exatamente 50 anos depois do trabalho do biogeógrafo alemão Jürgen Haffer (1932-2010), na edição de 11 de julho de 1969 da revista Science, que lançou as bases da compreensão da biodiversidade amazônica. Era a teoria dos refúgios, em seguida também proposta pelo herpetólogo brasileiro Paulo Vanzolini (1924-2013), que postulava que algumas áreas de estabilidade serviram como repositórios de espécies, em momentos no qual a floresta se retraiu. 

Os resultados recentes mostram que Haffer tinha razão em muitos aspectos e até hoje continua a ser a referência principal para quem estuda diversificação de espécies na região. “A lógica de refúgios existe, mas encontramos algumas diferenças”, explica Aleixo. Em vez de pequenas áreas de manutenção da floresta, os pesquisadores perceberam que o noroeste da Amazônia, uma meia-lua delimitada pelos rios Negro e Madeira, é muito importante do ponto de vista da ancestralidade das espécies. “Foi um grande refúgio, e as aves acompanharam.” 

O horizonte de tempo que ele enxerga, tendo aberto uma janela para 2 milhões de anos atrás, também é mais distante do que o de Haffer. “A história das espécies é mais antiga do que os 20 mil anos que ele pensava, desde o Último Máximo Glacial: detectamos que as espécies mais jovens têm de 400 a 100 mil anos de idade, aproximadamente.”

Aleixo também vê de modo mais complexo a ação dos rios. As enormes extensões de água que se vê hoje são certamente barreiras, inclusive para as aves. Ocorre que os rios amazônicos mudam, são dinâmicos. Ao longo dos milênios eles serpenteiam, estreitam, alargam, formam alças, mudam de leito. Nesse processo dinâmico, surgem híbridos que depois, quando voltam a ser isolados, podem dar origem a novas espécies. “Em vez de a instabilidade dos rios homogeneizar as variações entre linhagens, como se achava, acreditamos que ela pode potencializar o surgimento de variabilidade.” Isso, segundo ele, é uma importante quebra de paradigma.
Depois da floresta, sequenciamento: pesquisadores trabalham no laboratório do Museu GoeldiAlexandre Aleixo / Universidade de Helsinque

“Eles mostram que a história desses animais de terra firme estudados aconteceu no curto espaço de tempo de cerca de 6 milhões de anos, semelhante ao que permitiu a separação entre o ser humano e o chimpanzé”, comenta o biólogo Fábio Raposo do Amaral, do campus de Diadema da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Ele não participou do trabalho, mas estuda processos evolutivos em aves da Mata Atlântica: apesar de ser um ambiente muito distinto, as conclusões para a Amazônia podem ser inspiradoras. Para ele, o ponto crucial do trabalho liderado por Aleixo é mostrar como processos distintos podem agir em conjunto, acrescentando uma pitada de complexidade. “Na Mata Atlântica é importante como a complexidade do relevo oferece, em sinergia com o clima, oportunidades de isolamento”, compara. E brinca: “Talvez os padrões sejam muito menos comportados do que gostaríamos”.

Além dos resultados em si, o trabalho liderado por Aleixo é uma ode às coleções zoológicas armazenadas em museus. Entre as amostras examinadas, 90% estavam em coleções brasileiras – principalmente do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), onde ele estava até se mudar para a Finlândia, e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), além de outras como do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZ-USP). “Outro país não poderia ter reunido essa história, já que a Amazônia brasileira é a única a conter todas as nove províncias biogeográficas da bacia”, conclui.

Projeto
 
Estruturação e evolução da biota amazônica e seu ambiente: Uma abordagem integrativa (nº 12/50260-6); Modalidade Programa Biota/Dimensions-NSF; Pesquisadores responsáveis Lúcia Lohmann (IB-USP) e Joel Cracraft (AMNH); Investimento R$ 6.297.928,48.

Artigo científico
 
SILVA, S. M. et al. A dynamic continental moisture gradient drove Amazonian bird diversification. Science Advances. v. 5, n. 7, eaat5752. 3 jul. 2019.

sábado, 1 de março de 2014

Grupo desvenda história evolutiva de grupo mais comum de aves da Amazônia

28/02/2014
Por Elton Alisson, de Chicheley, Inglaterra
Agência FAPESP – A história evolutiva de um grupo bastante diverso de aves, composto por mais de 230 espécies que representam aproximadamente 10% da avifauna brasileira, está prestes a ser desvendada.
Pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP) estão concluindo a filogenia – estudo da relação evolutiva entre espécies – de aves da família Thamnophilidae, conhecidas popularmente no Brasil como papa-formigas.


Pesquisadores do Museu de Zoologia da USP estão prestes a concluir a filogenia de pássaros papa-formigas, como o Batara cinerea. Estudo foi apresentado em evento na Inglaterra (foto: Carlos Henrique L. N. Almeida/Wikimedia

Desenvolvido no âmbito do projeto de pesquisa “Sistemática, biogeografia e evolução fenotípica dos Thamnophini (aves Thamnophilidae): uma aproximação baseada em sequenciamento maciço de DNA”, apoiado pela FAPESP, alguns dos resultados do estudo foram apresentados na quarta-feira (26/02), último dia do UK-Brazil-Chile Frontiers of Science.

A Royal Society, do Reino Unido, a FAPESP e as Academias Brasileira e Chilena de Ciências organizaram o evento em Chicheley, no sul da Inglaterra, com o objetivo de fomentar a colaboração científica e interdisciplinar entre jovens pesquisadores brasileiros, chilenos e do Reino Unido em áreas de fronteira do conhecimento.

“Estamos concluindo a primeira filogenia da família Thamnophilidae. Já temos amostras de 99% das espécies e agora temos uma hipótese bastante completa da história evolutiva desse grupo de aves”, disse Gustavo Adolfo Bravo Mora, pesquisador do Museu de Zoologia da USP, à Agência FAPESP.
De acordo com o pesquisador, os papa-formigas representam o grupo mais comum de aves da Amazônia, com a maior diversidade de espécies da família, podendo chegar, por exemplo, a 45 espécies diferentes em um mesmo local.

Além de povoar a Floresta Amazônica, o grupo também está presente em outros biomas brasileiros, como a Mata Atlântica – que possui regiões com até 12 espécies endêmicas (próprias) –, a Caatinga e o Cerrado, nestes em menor proporção.
Uma das características comuns dessas aves, segundo Mora, é o fato de serem pequenas, medindo, em média, entre 25 e 30 centímetros. A menor tem 3,5 centímetros e vive na copa das árvores da Floresta Amazônica. A maior, conhecida como matracão (Batara cinerea), mede pouco mais de 30 centímetros e é mais fácil de ser encontrada na Mata Atlântica. “Há uma variação muito grande entre as espécies”, disse Mora.

Outra característica dessas aves é que elas se alimentam principalmente de insetos; daí a alcunha de papa-formigas. Além disso, cantam o tempo todo. “Ao entrar em uma região da Floresta Amazônica, é muito difícil vê-las, mas é possível escutar seu canto”, disse Mora.
As gravações do canto dessas aves e a quantificação das variações, feitas por meio de softwares especiais, são utilizadas pelos pesquisadores para entender padrões de evolução usando a filogenia do grupo, com base em dados genéticos.

Os registros do canto são complementados com medições de bico, asa, cauda e pata das espécimes, que fornecem estimativas da variação na forma dos animais, e de sequenciamento de dados moleculares obtidos de amostras de tecidos de espécimes da coleção do Museu de Zoologia da USP e de outros museus situados principalmente no Brasil e nos Estados Unidos.

Além disso, os pesquisadores usam sistemas de informação geográfica para realizar análises de distribuição e quantificar os ambientes onde essas aves podem estar presentes.
“Com base nesse conjunto de dados geográficos, podemos estimar quais espécies preferem áreas com maior precipitação ou menor temperatura, por exemplo”, indicou Mora. “A ideia é integrar esses diferentes tipos de dados para tentar entender como a diversidade de espécies de aves tem evoluído na família Thamnophilidae.”

Compreensão da biodiversidade

Os pesquisadores atualmente analisam o conjunto de dados coletados. De acordo com Mora, os resultados das análises permitirão entender e quantificar a biodiversidade desse grupo de aves. Será possível avaliar, por exemplo, se um determinado tipo de morfologia de ave evoluiu mais rapidamente do que outro, ou se animais que vivem em áreas de floresta mais secas evoluem mais velozmente do que os que habitam locais mais úmidos.
Além disso, o conjunto de informações poderá ser utilizado em estudos de conservação da biodiversidade desse grupo de aves. “Por enquanto, só o número de espécies em uma determinada área ou aquelas ameaçadas têm sido usado em estudos de conservação”, afirmou Mora.
“Mas há todo um conjunto de outras informações evolutivas, de distribuição e de morfologia, como essas que geramos do grupo Thamnophilidae, que poderia ser utilizado para a tomada de decisões de conservação de forma mais objetiva”, apontou.
A conclusão da filogenia da família Thamnophilidae também deverá facilitar a identificação de novas espécies do grupo, indicou Mora. Durante o projeto foram descobertas 15 novas espécies de aves da Amazônia no início de 2013.
De acordo com o pesquisador, das 15 espécies descobertas, quatro são papa-formigas e foram descritas por ele. “Há mais cinco novas espécies que estamos descrevendo agora dentro da família Thamnophilidae”, afirmou.

Importância da coleta de dados

Na palestra ministrada em Chicheley, Mora chamou a atenção para a importância dos museus de história natural como fontes de informação para o estudo evolutivo de espécies. Na avaliação dele, apesar da clara importância científica dessas instituições, elas são subutilizadas pelos estudos evolutivos.
“Os museus de história natural possuem bancos de dados de espécies gigantescos e são peças-chave na pesquisa sobre biodiversidade porque nos permitem olhar para o passado e, ao mesmo tempo, mirar o futuro”, avaliou.

Com as novas tecnologias de sequenciamento de DNA, é possível analisar com mais rapidez os dados genéticos de espécimes centenárias que integram as coleções para a construção da filogenia de diversos grupos.

Já as novas tecnologias de comunicação móveis, como celulares com câmeras fotográficas e gravadores e acesso à internet, permitem que o cidadão comum contribua de forma mais ativa em estudos sobre a biodiversidade.

A avaliação foi feita por Nick Isaac, pesquisador do Centro de Registros Biológicos do Centro de Ecologia e Hidrologia (Nerc) do Reino Unido. “Os smartphones tornaram-se ferramentas muito úteis para os ‘cientistas cidadãos’ fazerem registros de sons e imagens de animais, que são muito úteis para alimentar os bancos de dados científicos de biodiversidade”, afirmou o pesquisador, na palestra que proferiu após a de Mora.

De acordo com Isaac, no Reino Unido os cidadãos comuns contribuem há mais de 200 anos com observações da vida selvagem. “Isso tem nos proporcionado um vasto repositório de dados para compreender mudanças na biodiversidade de diversos grupos de espécies”, avaliou o pesquisador.
O problema é que muitos desses registros apresentam “ruídos”, como a falta de dados como data e local da coleta – informações importantes para o estudo de comportamento das espécies.
A fim de eliminar os “ruídos” dos registros, o pesquisador trabalha no desenvolvimento de modelagens estáticas. “As modelagens que estamos desenvolvendo podem nos ajudar a recuperar informações relevantes que muitas vezes estavam ‘apagadas’ em meio aos ruídos”, afirmou.



terça-feira, 20 de agosto de 2013

Brasil faz o maior achado da ornitologia em 140 anos | 05.08.2013

Desde 1871, não se apresenta, de uma só vez, numa única obra, um grupo tão numeroso de novas aves brasileiras 





 

 

 
A apresentação de 15 novas espécies de aves da Amazônia brasileira é maior descoberta, em termos quantitativos, da ornitologia nacional desde o século XIX. De 1871 para cá não se apresenta ao mundo, de uma só vez, numa única obra, um conjunto tão numeroso de novos pássaros brasileiros. 

Os animais foram formalmente descritos pela primeira vez numa série de artigos científicos publicados em julho num volume especial do Handbook of the birds of the world, da espanhola Lynx Edicions.

O primeiro passo foi levantar quais as áreas da floresta seriam as mais promissoras em abrigar novas espécies. “Desde 1999, eu tenho trabalhado na região entre os rios Madeira e Tapajós, porque essa parte da Amazônia Central, por mais difícil que possa se imaginar, é uma área muito pouco conhecida”, comenta o ornitólogo Bret Whitney, pesquisador do Museu de Ciência Natural da Universidade Estadual da Louisiana e principal coordenador da empreitada.

Para a identificação de novos animais, de acordo com os pesquisadores, o trabalho de observação em campo é essencial porque ele abre caminho para outras análises. “Temos incluído em nossas análises as comparações vocais. A gente sabe que as aves se comunicam através dos cantos, então diferenças também sugerem que são espécies distintas”, explica Luís Fábio Silveira, curador do setor de ornitologia do Museu de Zoologia da USP, um dos coordenadores da iniciativa.

Saiba mais sobre o tema lendo a reportagem Novas aves da Amazônia, publicada na edição de maio da revista Pesquisa FAPESP.