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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Encontro na FAPESP discute importância científica da maior família de plantas

06/12/2011
Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Do ponto de vista evolutivo, as plantas da família Compositae são um sucesso completo: elas dominaram o mundo, com quase 30 mil espécies espalhadas em todos os continentes, nos mais variados biomas. A família, também conhecida com Asteraceae, compreende espécies de plantas conhecidas como o girassol, a alface, a margarida e o crisântemo.

Os fatos que tornaram essa família tão bem-sucedida ao longo da história do planeta despertam enorme interesse científico e, com as tecnologias moleculares disponíveis nos últimos 15 anos, o assunto tem sido cada vez mais estudado, de acordo com José Rubens Pirani, do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências (IB), da Universidade de São Paulo (USP).

Pirani apresentou uma conferência sobre a diversificação das Compositae, nesta segunda-feira (05/12), abrindo The South American Compositae Meeting, reunião internacional de três dias que tem como objetivo apresentar os mais recentes desenvolvimentos na sistemática, biogeografia, evolução e conservação de Compositae na América do Sul.

O evento, organizado pela FAPESP em parceria com a National Science Foundation (NSF), dos Estados Unidos, e com a USP, reúne até o dia 7 cientistas de diversos países para compartilhar informações e desenvolver colaborações de pesquisa em estudos envolvendo espécies de Compositae. Pirani coordena os projetos "Diversificação de gêneros megadiversos na região neotropical" e "Evolução floral e sistemática de Galipeinae (Ruaceae)", ambos financiados pela FAPESP na modalidade Auxílio – Regular.
Segundo Pirani, Compositae não é apenas a mais bem-sucedida, mas também a maior família de plantas do grupo das angiospermas. “É uma família com um sucesso impressionante e de muita utilidade também. Inclui plantas muito pequenas e árvores, que estão no topo de montanhas, à beira-mar ou em desertos. Suas espécies têm um papel importante em inúmeros ecossistemas e são utilizadas para a produção de alimentos, óleos, produtos industriais e ornamentais e medicamentos”, disse à Agência FAPESP.
A família Asteraceae é especial a começar por sua enorme diversidade de formas. Em uma só família, é comum que exista certa homogeneidade de características, mas no caso de Compositae o único elemento comum é que todas as espécies possuem inflorescências em capítulos – um conjunto de flores reunidas em um receptáculo comum.

“Quando olhamos um girassol, pensamos que se trata de uma flor. Mas é uma inflorescência formada por um conjunto de flores. As pétalas amarelas são flores femininas que o girassol possui em sua periferia. O aspecto é de uma pétala, mas há um ovário por baixo”, explicou Pirani.
A diversidade imensa de espécies, possivelmente associada ao sucesso reprodutivo da família que se espalhou por todo o planeta, é acompanhada de uma grande gama de utilizações, que vão do uso ornamental, ao farmacêutico e industrial.

“Essas plantas têm todo o tipo de aproveitamento. Ainda assim, por sua imensa variedade, são aparentemente subexploradas pelo homem. Atualmente, com mais acesso a extrações químicas, estamos descobrindo novos usos para as Asteraceae”, afirmou.
O fato de as Compositae terem muito poliploides – um número alterado de cromossomos – é algo que fascina os geneticistas. “A relevância científica da família é imensa. É importante gerar hipóteses para explicar por que essas plantas alcançaram tanta diversidade. Os geneticistas estão estudando muito essa poliploidia e as variações cromossômicas das Compositae”, disse Pirani.
A diversidade e capacidade de adaptação da família também leva a muitas questões científicas para os biólogos. “Essa família surgiu no período Cretáceo, aparentemente na América do Sul. Nós perguntamos o que ocorreu ao longo da história para que ela tivesse tamanha capacidade de ocupar novos territórios, gerar grupos e formações morfológicas, sempre sobrevivendo às mudanças climáticas passadas, às derivas de continentes e às grandes extinções, até chegar à atualidade como grupo predominante na face da Terra”, destacou.
As características da família Compositae explicam por que muitos pesquisadores se dedicam a estudá-la. “O encontro na sede da FAPESP reúne a comunidade científica que estuda essa família de grande importância e sobre a qual a ciência precisa ter dados mais atualizados”, disse Pirani.
O objetivo do evento é proporcionar uma oportunidade para que os pesquisadores que estudam Compositae possam se conhecer melhor e estabelecer colaborações científicas.
“Não queremos apenas trocar ideias científicas e divulgar as novidades, mas principalmente aproximar essas pessoas, que às vezes se conhecem somente pelos trabalhos publicados. No último dia, teremos dois workshops de propostas de trabalhos conjuntos”, contou.

Segundo Pirani, na década de 1990 teve início a era molecular da ciência. Por isso, o que está sendo debatido no evento não se limita ao quadro tradicional de Compositae, mas se estende a um contexto científico já atualizado com dados de DNA.
“Houve uma revolução em que vários grupos que eram tradicionalmente reconhecidos e aceitos como tais foram reavaliados a partir dos dados genéticos. O acesso à sistemática molecular mostrou com clareza os parentescos, obrigando a fazer uma revisão e um rearranjo taxonômico. Temos que buscar características morfológicas que expliquem algumas das relações sugeridas por estudos moleculares”, disse.
Os avanços na química permitiram também estudos da relação entre as plantas e os animais, que foi importante para as pesquisas com Compositae, já que a família também se caracteriza por um grande número de predadores e polinizadores.
Segundo Pirani, o tema será abordado no encontro na sede da FAPESP por pesquisadores como Thomas Lewinsohn – professor do Departamento de Biologia Animal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Eles vão apresentar novas interpretações da evolução da relação entre insetos e Compositae, em face dessa nova filogenia da família que nós temos”, afirmou.
A filogenia molecular – capaz de mostrar relações de parentesco mais consolidadas que a morfologia – e as técnicas que desvendam as ultraestruturas do pólen, no campo da filogenia, também são tecnologias que foram agregadas com sucesso ao estudo das Asteraceae.
Apesar do aproveitamento de novas técnicas, o trabalho tradicional do biólogo ainda permanece importante, de acordo com Pirani. Mesmo com toda a riqueza de informação de DNA à qual os laboratórios têm acesso, o esforço dos biólogos em campo é fundamental.
“O bom botânico não fica apenas confinado ao laboratório de química, ou de anatomia ou de DNA. Ele conta com uma equipe, com colaborações, ou vai pessoalmente a campo buscar material novo. E não só material biológico, mas novas fontes de informações também. Muitas vezes vamos a um lugar coletar determinada planta e encontramos outra que ninguém sabia que ocorria ali. Continuamos descrevendo inúmeras espécies de Asteraceae a todo momento”, ressaltou.

Com todo o material adquirido continuamente, Pirani afirma que há necessidade de mais profissionais dedicados aos estudos. Segundo ele, existe uma tendência à especialização em laboratórios, já que técnicas refinadas exigem um aprofundamento teórico e metodológico. Mas é impossível dominar todo o conhecimento atual e o pesquisador deve aprender a integrar muito bem várias fontes de dados.
“Vemos a necessidade de ter um número muito maior de estudantes novos que aprendam o máximo de uma técnica específica e um mínimo de todas as outras técnicas. Os novos pesquisadores precisarão procurar interfaces interdisciplinares e ser capazes de identificar, por exemplo, o que os químicos podem oferecer de relevante para a biologia das espécies na natureza”, disse.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Flora numa fria

Quatro espécies recém-descobertas na serra Fina, na divisa entre Minas, Rio e São Paulo, já estão ameaçadas pelo aquecimento global. A descoberta pode incentivar estudos e iniciativas de preservação da área.

Por: Debora Antunes

Publicado em 16/08/2010 | Atualizado em 16/08/2010

Flora numa fria

Pertencente à família das margaridas (‘Asteraceae’), a ‘Chinolaena sp’ é uma das novas espécies descobertas nos campos de altitude da Serra Fina (foto: Leonardo Dias Meireles).

Já bastariam as belas paisagens da serra Fina, pertencente à serra da Mantiqueira, para perceber o valor da região. Mas a descoberta de novas espécies da flora mostrou que o local guarda muitas riquezas para a ciência.

‘Symplocos sp’
O arbusto ‘Symplocos sp’, outra nova descoberta (foto: Leonardo Dias Meireles).

Três espécies pertencem à família das margaridas (Asteraceae), e outra à família Symplocaceae.

Além dessas quatro, ainda há três espécies em processo de análise por taxonomistas, e que devem se juntar à lista das descobertas. Todas elas foram encontradas nos campos de altitude da serra durante o trabalho de doutorado do biólogo Leonardo Dias Meireles pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

De acordo com Meireles, pouco se sabia sobre a área até agora. “Os poucos dados sobre a flora haviam sido coletados em áreas mais baixas da região e são de mais cinquenta anos atrás”, diz ele.

Dúvida fértil

Em 1997, George Shepherd, orientador da tese de Meireles, esteve no local e percebeu semelhanças da vegetação com os campos e florestas de altitude do Sul do país. Semelhanças que intrigaram o biólogo. Por que a vegetação se pareceria à do Sul do país, e não à vegetação da região Sudeste?

‘Berberis kleinii Mattos’
A ‘Berberis kleinii Mattos’, conhecida em Santa Catarina, foi encontrada na Serra Fina (foto: Leonardo Dias Meireles).

Impulsionado pela dúvida, Meireles foi a campo e conseguiu coletar aproximadamente 393 espécies da flora. Comparando o material coletado com espécies já catalogadas, o biólogo identificou sete espécies desconhecidas.

“Estudamos sua distribuição geográfica e verificamos que elas ocorrem em poucos locais e são típicas de áreas montanhosas”, conta ele, acrescentando que pertencem a gêneros que provavelmente vieram dos Andes e se modificaram na região.

De acordo com a pesquisa, um resfriamento na temperatura durante o período Quaternário (que compreende os últimos dois milhões de anos), poderia explicar a origem da vegetação no local.

É possível que ela tenha existido em maior extensão no passado, conectando o Sul e o Sudeste. Com o aumento das temperaturas no Holoceno, período mais recente na escala de tempo geológica, teria permanecido apenas no topo de cadeias montanhosas.

Serra Fina
A vegetação variada de ervas e arbustos que compõe os campos de altitude (foto: Leonardo Dias Meireles).