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sexta-feira, 6 de dezembro de 2019


Sexo entre parentes causou deformidade facial dos reis espanhóis dos séculos passados

Equipe de geneticistas e cirurgiões confirma a relação entre prognatismo mandibular e casamento entre pessoas da mesma família


Retrato de Carlos II pintado por volta de 1680 por Juan Carreño de Miranda
Retrato de Carlos II pintado por volta de 1680 por Juan Carreño de MirandaMuseo del Prado

O historiador Jaime Contreras conta que o nascimento de Carlos II, em 6 de novembro de 1661, serviu de desculpa em Madri para organizar “uma grande mojiganga”, uma festa popular com fantasias extravagantes de animais e demônios. “Centenas de astrólogos apregoavam seus vaticínios. Contra o que muitos temiam, os augúrios mais conhecidos garantiam que o Príncipe se tornaria Rei. A maior parte das cartas astrais era entusiástica: Saturno era o planeta que enviava seus maiores eflúvios, um astro que estava no horizonte da corte da Espanha, sem aspectos mal intencionados”, relatou Contreras em seu livro Carlos II, El Hechizado ("Carlos II, o enfeitizado", em tradução livre). Muito rapidamente se soube que os adivinhos estavam equivocados.

Carlos II —o último rei dos Áustrias, o ramo espanhol da Casa de Habsburgo— nasceu doente. Subiu ao trono aos quatro anos, quando era um menino com raquitismo e epilepsia que ainda mamava do peito da mãe. O secretário do núncio apostólico descreveu assim o jovem monarca aos 25 anos: “O rei é mais baixo que alto, não é malformado, feio de rosto; tem o pescoço longo, o rosto comprido e encurvado para cima; o lábio inferior típico dos Áustrias [...]. Só consegue endireitar o corpo quando caminha, a menos que se encoste em uma parede, mesa ou outra coisa. Seu corpo é tão fraco quanto sua mente. De vez em quando dá sinais de inteligência, de memória e de certa vivacidade, mas não agora; geralmente tem aspecto lento e indiferente, desajeitado e indolente, parecendo estupefato. Pode-se fazer com ele o que se quiser, pois carece de vontade própria”.

O geneticista Francisco Ceballos lembra um retrato a óleo de Carlos II com sua característica mandíbula protuberante, pintado por Juan Carreño de Miranda por volta de 1680. “Não é apenas prognatismo mandibular. Carlos II tinha um nariz muito caído, olhos muito caídos, maçãs do rosto muito caídas. Tinha uma deficiência no maxilar e todo o rosto era caído”, diz o pesquisador. Ceballos é um dos 14 cientistas que acabaram de encontrar uma relação direta entre essa deformidade facial típica dos Áustrias e a endogamia que praticaram durante quase dois séculos.

Os pais de Carlos II, Felipe IV e Mariana da Áustria, “eram tio e sobrinha, mas com a consanguinidade acumulada ao longo das gerações era como se fossem irmãos, como um incesto”, explica Ceballos, da Universidade de Witwatersrand, em Johanesburgo (África do Sul). Carlos II, lembra o geneticista, foi o apogeu da diplomacia dos Áustrias, resumida nesta frase latina: Bella gerant alii, tu felix Austria nube (“Que outros façam guerra. Tu, feliz Áustria, casa-te”). Sua estratégia para dominar boa parte da Europa eram os casamentos entre membros aparentados de diferentes famílias reinantes, com sexo entre primos ou inclusive entre tios e sobrinhas.

Uma equipe de 10 cirurgiões maxilofaciais diagnosticou agora o grau de deformidade facial dos Áustrias graças a 66 retratos dos monarcas, de Felipe I (1478-1506) a Carlos II (1661-1700), conservados principalmente no Museu de Prado e no Museu de História da Arte de Viena. Os pesquisadores calcularam o nível de prognatismo mandibular e de deficiência maxilar e confirmaram pela primeira vez o que já se suspeitava: “uma associação entre deformidade facial e endogamia”. Quanto maior o parentesco entre os pais, maior a deformação. O estudo foi publicado nesta segunda-feira na revista especializada Annals of Human Biology.
Da esquerda para a direita, os geneticistas Francisco Ceballos, Román Vilas e Gonzalo Álvarez, juntamente com a artista norte-americana Michelle Vaughan.
Da esquerda para a direita, os geneticistas Francisco Ceballos, Román Vilas e Gonzalo Álvarez, juntamente com a artista norte-americana Michelle Vaughan.
Florencio Monje, presidente da Sociedade Espanhola de Cirurgia Bucomaxilofacial e de Cabeça e Pescoço, dirigiu os diagnósticos, feitos a partir dos retratos a óleo e apoiados em documentos históricos. Monje lembra a descrição do rei Carlos V feita por seu cosmógrafo Alonso de Santa Cruz: “Sua maior feiura era a boca, porque tinha a dentadura tão desproporcional aos dentes de cima que os dentes nunca se encontravam; do qual decorriam dois danos: um era ter a fala em grande medida difícil, suas palavras eram como belfo, o outro era ter muito trabalho para comer; como os dentes não se encontravam, não conseguia mastigar bem”.

“A consanguinidade é uma porta de entrada para conhecer a arquitetura genética de uma característica”, explica Ceballos. Uma pessoa recebe duas versões de cada gene, uma da mãe e outra do pai. Essas duas cópias podem ser diferentes, caso em que se expressará a variante dominante, mascarando as informações do outro gene, chamado recessivo. Os resultados nos Áustrias sugerem que o prognatismo mandibular é uma característica recessiva que surgiu nos monarcas porque os casamentos endogâmicos aumentaram as probabilidades de herdar as duas cópias igualmente defeituosas.

Ceballos e o geneticista Gonzalo Álvarez, da Universidade de Santiago de Compostela, analisam os Áustrias há mais de uma década. Em 2009 apontaram dois distúrbios genéticos, a deficiência combinada de hormônios da hipófise e a acidose tubular renal distal, como os principais responsáveis pela péssima saúde de Carlos II, inclusive sua infertilidade, o que levou à extinção da dinastia. Os cientistas estudaram uma árvore genealógica de 6.000 membros de 20 gerações dos Habsburgo. Se Felipe I tinha um coeficiente de consanguinidade de 0,025, o de Carlos II era 0,25, o que significa que 25% de seus genes eram repetidos, ao ter recebido a mesma cópia da mãe e do pai.

“Os reis são um laboratório para estudar os efeitos da consanguinidade humana”, diz Ceballos, que atualmente estuda com seus colegas a dinastia dos Bourbons para ampliar a pesquisa. “O rei Alfonso XIII [bisavô de Felipe VI] tinha um prognatismo mandibular muito claro”, diz Monje.

“Este novo trabalho sobre a mandíbula dos Habsburgo sugere um padrão de herança recessiva”, diz a geriatra Georgina Martinón Torres, que não participa da pesquisa, mas que é autora de uma tese de doutorado sobre a velhice na obra pictórica de Velázquez. Na opinião da médica, do Hospital Universitário Geral de Ciudad Real, agora serão necessárias análises genômicas de pessoas com prognatismo para “confirmar essa sugestão”.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Exumação de Dom Pedro I e ...

Corpos da família imperial brasileira são exumados para preservar patrimônio histórico.
Por: Henrique Kugler
Publicado em 02/05/2013 | Atualizado em 02/05/2013
Caveiras ilustres
Entre fevereiro e setembro de 2012, os restos mortais de Dom Pedro I e suas duas esposas foram submetidos a diversos exames. Na foto, o corpo exumado de Amélia de Leuchtenberg passa por uma tomografia. (foto: Faculdade de Medicina da USP) 
 
E não é que perturbaram o sono eterno do primeiro imperador do Brasil? Os restos mortais de Dom Pedro I (1798-1834) foram exumados. E, com eles, também saíram da cripta os corpos de suas duas esposas: as imperatrizes Leopoldina de Habsburgo (1797-1826) e Amélia de Leuchtenberg (1812-1873).

Foi um delicado processo; lembrou até uma operação militar. Um sigiloso esquema de segurança foi arquitetado para o transporte dos esquifes desde o local onde estavam – o Monumento à Independência, na capital paulista – até o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Lá foram submetidos, entre fevereiro e setembro de 2012, a exames de tomografia, radiologia e ressonância magnética.
“O principal objetivo da exumação foi garantir a preservação dos remanescentes humanos e dos artefatos que se encontravam nas urnas funerárias”, diz a arqueóloga Valdirene Ambiel – o trabalho é parte de seu mestrado, concluído em fevereiro no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. “Um dado que sempre me preocupou foi a umidade presente na capela imperial, no interior do monumento onde jazem os corpos”, diz a pesquisadora.

“O principal objetivo da exumação foi garantir a preservação dos remanescentes humanos e dos artefatos que se encontravam nas urnas funerárias”
Quando chove, acumula água. As paredes são preenchidas com terra. Há infiltrações. Não que isso incomode o descanso fúnebre, mas, considerando a preservação desse patrimônio histórico, Ambiel constatou que há muito a se melhorar na infraestrutura do sepulcro da realeza.

Trabalharam nessa empreitada mais de uma dúzia de cientistas das mais variadas áreas – da história à biologia, da arqueologia à física. “Mobilização talvez inédita na pesquisa histórica e arqueológica no Brasil”, comenta o historiador Maurício Ferreira Jr., diretor do Museu Imperial, em Petrópolis (RJ).

Dom Pedro I: esclarecimentos e causos

Por desastrado que pareça, o paradeiro funerário de Dom Pedro I era um tópico não muito bem resolvido. Alguns diziam que ele fora cremado. Outros, que seus restos estariam em qualquer outro lugar que não no Monumento à Independência. A exumação liderada por Ambiel pôs fim à contenda. Dom Pedro I de fato está lá, em carne e osso (no caso, só em osso). Detalhe: seu coração – como já se sabia – está preservado em um mausoléu na Igreja da Lapa, na cidade do Porto, em Portugal.

Duas foram as confirmações obtidas com a exumação do monarca. Primeiro: sua estatura era de algo entre 1,66m e 1,73m. “Diziam que ele era baixinho”, brinca Ambiel. “Mas essa é uma altura bem razoável para a época.” Segundo: ele teve quatro costelas quebradas, o que provavelmente prejudicou o pulmão e agravou seu quadro de tuberculose – doença que o levou à morte aos 36 anos. Conta-se que ele caiu do cavalo, em 1823. E, em 1829, capotou uma carruagem que ele mesmo guiava – faltou-lhe maestria na direção.
Tomografia de Dom Pedro I
Tomografia de Dom Pedro I. Em seu caixão foram encontradas medalhas, comendas, botões e abotoaduras, além de fragmentos de tecido e o salto de sua bota. Parte dessas peças deve ser doada ao Museu Imperial de Petrópolis. (foto: Faculdade de Medicina da USP)
Dom Pedro I foi enterrado com vestes de general. Em seu caixão foram encontradas medalhas, comendas, botões e abotoaduras, além de fragmentos de tecido e o salto de sua bota. “O material foi higienizado e acondicionado; está agora no Departamento de Patrimônio Histórico da Prefeitura de São Paulo.” A arqueóloga pretende doar algumas das peças ao Museu Imperial de Petrópolis – mas para isso aguarda permissão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Leopoldina: abandono e ciência

Essa austríaca mal compreendida foi a primeira esposa de Dom Pedro I. Portanto, a primeira imperatriz do Brasil. Casaram-se por correspondência – como era comum aos aristocratas da época – e conheceram-se meses depois. De acordo com a historiadora Mary Del Priore, foi uma relação conturbada, “uma história de maus-tratos e solidão”, escreve em seu último livro, A carne e o sangue (editora Rocco, 2012).

Entre as fofocas imperiais, conta-se que Dom Pedro I teria empurrado Leopoldina da escada com um pontapé – quando ela estava grávida. Na queda, segundo alguns, a imperatriz teria fraturado o fêmur. E também perdido o bebê. “Mas, ao contrário do que registram certos livros de história, a exumação não aponta nenhuma fratura no fêmur”, garante Ambiel. “É bom deixar claro que esse episódio é uma lenda.” Boletins médicos de 1826 sugerem que o feto tenha morrido em função de um aborto; e não de um trauma.
Restos mortais de Dona Leopoldina
Restos mortais de Dona Leopoldina, primeira imperatriz do Brasil. De acordo com a exumação, ela tinha entre 1,54m e 1,60m de altura. (foto: IF/ USP)
Leopoldina foi casada durante nove anos, passou por nove gestações e pariu sete filhos (entre eles o herdeiro do trono, Dom Pedro II). Sua vida e sua morte até hoje dividem opiniões. Uma contribuição insuspeita, no entanto, é frequentemente esquecida: a imperatriz foi uma das responsáveis pela vinda, ao Brasil, da missão austríaca – sob os auspícios da qual aportaram em nossas terras importantes zoólogos, botânicos e artistas, que viajaram pelo país e publicaram dois importantes clássicos: os livros Viagens pelo Brasil e Flora brasiliensis. “Leopoldina gostava de se afirmar como uma ‘cientista amadora’”, lembra Ambiel. “Ela era uma figura popular e querida no Brasil do século 19.” Novo dado: segundo a exumação, ela tinha entre 1,54m e 1,60m de altura.

Amélia: nobreza mumificada

Eis que a historiografia brasileira se vê diante de uma surpresa: o corpo de Amélia, segunda esposa de Dom Pedro I, foi mumificado. “Essa informação era desconhecida”, diz a arqueóloga. “Não imaginávamos que era uma múmia.” Não se sabe, entretanto, por que ela fora mumificada. “Pode ter sido um ‘acidente de percurso’”, cogita Ambiel, referindo-se ao fato de que, para seu funeral, o corpo foi preparado com uma solução de cânfora que pode ter sido útil para frear o processo de decomposição.
A imperatriz morreu em Lisboa em 1876, e seu caixão foi trazido à cripta imperial em 1982. “Foi colocado no interior das paredes do monumento; tivemos de procurar, pois ninguém sabia sua localização exata.” (Detalhe: no Monumento à Independência, seu nome está incorreto. Na lápide lê-se “Maria Amélia”, mas seu primeiro nome era apenas “Amélia”). Após os estudos – a bem conservada senhora tinha estatura entre 1,60m e 1,66m – ela foi ‘remumificada’.
Múmia de Dona Amélia
Múmia de Dona Amélia, segunda imperatriz do Brasil, prestes a passar por tomografia. Os historiadores não sabiam até a exumação que ela tinha sido mumificada. Após os estudos, Amélia – com estatura entre 1,60m e 1,66m – foi 'remumificada'. (foto: Faculdade de Medicina da USP)
Na história do Brasil, Amélia nunca foi figura central – ela esteve no país entre 1829 e 1831. Curto período. Mas foi o bastante para que instituísse na corte a língua francesa. Sobre sua relação com o imperador, Del Priore conta que era algo “sem graça”. Dom Pedro I poderia ter muitos méritos; mas não era um galanteador de primeira linha. “Ele não tinha assunto e falava francês muito mal”, reclama a donzela em seu diário, após um encontro. Nas mesmas páginas, Amélia conta que teve de “se beliscar para não dormir”. Há quem diga, entretanto, que os dois se amavam como pombinhos. Discussão para historiadores.

De qualquer maneira, conta-se que os últimos anos de Amélia foram profundamente marcados pela morte do marido e da filha – ambos por tuberculose. Enlutada em tamanha perda, dedicou-se a obras de caridade. E assim mandou construir, na Ilha da Madeira, em Portugal, um hospital para o tratamento de tuberculosos. O local permanece ativo até os dias de hoje.
O trabalho abre espaço para a arqueopatologia – ciência que estuda remanescentes de doenças pretéritas –, um campo ainda pouco explorado no país
“A exumação dos corpos foi apenas uma primeira etapa”, diz Ambiel. Com as amostras de DNA coletadas, novos dados poderão vir à tona. O trabalho abre espaço para a arqueopatologia – ciência que estuda remanescentes de doenças pretéritas –, um campo ainda pouco explorado no país. Ainda este ano, o Museu Imperial deve publicar o trabalho de Ambiel em forma de livro.
Também para fins de divulgação, a equipe estuda a possibilidade de lançar um documentário. Quanto à família imperial brasileira, querelas e intrigas históricas estão longe de um fim. “Cada historiador é livre para pensar e publicar o que quer”, diz Ambiel. “Mas, como historiadora, não posso acreditar em verdades.”

Henrique KuglerCiência Hoje/ RJ
Texto originalmente publicado na CH 302 (abril de 2013).