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quarta-feira, 16 de março de 2016

Fóssil de 250 milhões de anos é encontrado nos Pampas

Réptil primitivo apresentava traços típicos de grupo que deu origem aos dinossauros, às aves e aos crocodilos
MARCOS PIVETTA | Edição Online 14:21 11 de março de 2016
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© VOLTAIRE NETO
Representação artística do animal em seu ambiente
Representação artística do animal em seu ambiente

Há cerca de 252 milhões de anos, 90% das formas de vida da Terra extinguiram-se. Causada provavelmente por um aumento exagerado do efeito estufa devido a erupções vulcânicas, a catástrofe foi a maior das cinco extinções em massa conhecidas e marcou o fim do período Permiano e da era Paleozoica e o início da era Mesozoica e do período Triássico.

Um crânio e quatro vértebras cervicais fossilizadas de uma nova espécie de réptil que surgiu logo depois do  cataclismo e viveu cerca de 250 milhões de anos atrás foram encontrados no início do ano passado no oeste do Rio Grande do Sul por paleontólogos da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e hoje (11/03) são descritos em detalhes em um artigo publicado na revista Scientific Reports. Batizada de Teyujagua paradoxa (em guarani, a palavra teyujagua significa lagarto feroz), a espécie era uma forma de vida com características intermediárias entre os répteis mais primitivos e os arcossauriformes, grupo bastante diversificado e de origem misteriosa do qual descendem os extintos dinossauros e pterossauros e as linhagens atuais de  crocodilos, jacarés e aves.

A análise das características anatômicas do material, em especial do bem conservado crânio de 11,5 centímetros de diâmetro, indica que, em termos evolutivos, o Teyujagua paradoxa já apresentava alguns traços que se acreditava terem surgido apenas com os arcossauriformes. A espécie, cuja aparência deveria lembrar à de um pequeno jacaré, tinha dentes curvados e serrilhados (traço típico de carnívoros) e uma abertura na região da mandíbula, duas marcas registradas desse grupo de animais. No entanto, ainda não exibia uma abertura entre os olhos e a narina, outra feição-chave dos arcossauriformes. “O Teyujagua paradoxa estava no meio do caminho entre os répteis mais primitivos e esse grupo”, afirma o paleontólogo Felipe Pinheiro, da Unipampa, principal autor do estudo. “Forma um táxon irmão dos arcossauriformes e pode ser muito importante para entendermos o surgimento de certos traços anatômicos dessa importante linhagem de vertebrados.”
Figura 1 - MapaDe acordo com os pesquisadores que assinam o estudo, o T. paradoxa deveria medir 1,5 metro de comprimento.  Suas narinas se localizavam na parte de cima do focinho, traço típico de seres aquáticos ou semiaquáticos, como os jacarés atuais. Os exemplares da espécie provavelmente habitavam as margens de rios e lagos, onde caçavam anfíbios e pequenos animais parecidos com lagartos.

Répteis primitivos tão antigos e similares ao fóssil gaúcho, encontrado na formação geológica Sanga do Cabral, no município de São Francisco de Assis, são raros. Há alguns poucos registros de vestígios de animais com essas características na África do Sul, China e Rússia. “Mas nenhum desses fósseis tem traços tão primitivos como o Teyujagua e dispõe de um crânio tão  bem preservado”, afirma o paleontólogo Cesar Schultz, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), outro autor do artigo. Pesquisadores da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e da Universidade de de Birmingham (Inglaterra) também assinam o paper. No Brasil, o estudo foi  financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Artigo científico

PINHEIRO, F.L. et al. An exceptional fossil skull from South America and the origins of the archosauriform radiationScientific Reports, n. 6. 11 mar. 2015

Origem evolutiva

Fóssil de réptil primitivo encontrado no Rio Grande do Sul pode ajudar a explicar a evolução de dinossauros, aves e jacarés. O animal combina características que nunca haviam sido observadas em uma mesma espécie. 
 
Por: João Paulo Rossini
Publicado em 14/03/2016 | Atualizado em 14/03/2016
Origem evolutiva
A posição do focinho e o formato dos dentes levam a crer que 'Teyujagua paradoxa' vivia em ambientes aquáticos ou semiaquáticos e se alimentava de peixes e pequenos répteis. (ilustração: Voltaire Neto.
 
Um fóssil com apenas 11 centímetros de comprimento e 250 milhões de anos pode ajudar a explicar a origem evolutiva de diversos grupos animais, como dinossauros, pterossauros (répteis voadores), aves e jacarés. O exemplar foi encontrado no município de São Francisco de Assis (RS) por uma equipe de cientistas de três universidades brasileiras: Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Universidade do Vale do São Francisco. Os resultados de estudos sobre o material foram publicados na última semana no periódico científico Scientific Reports, do grupo Nature.

De acordo com os autores da pesquisa, o pequeno crânio, descoberto no início de 2015, revela um tipo de réptil primitivo com traços muito peculiares. A partir da análise do fóssil e de comparações com outras espécies parecidas, foram estabelecidas características físicas e alimentares do animal, batizado de Teyujagua paradoxa. Teyujagua significa “réptil feroz” em Guarani, em referência ao personagem mitológico indígena Teyú Yaguá, um lagarto com cabeça de cachorro.

A combinação de características pouco usuais do animal, que mistura feições morfológicas que até então nunca haviam sido encontradas juntas em uma mesma espécie, motivou o restante da nomenclatura: paradoxa vem do grego, significando “paradoxal”, “inesperado”.
“Tinha entre um e 1,5 metro de comprimento. Não era muito grande, seguindo a tendência dos outros animais da época"
 
“Tinha entre um e 1,5 metro de comprimento. Não era muito grande, seguindo a tendência dos outros animais da época, e as narinas se localizavam acima do focinho, indicando que era um animal aquático ou semiaquático”, explica o paleontólogo Felipe Pinheiro, coautor do trabalho e professor da Unipampa. O fóssil também apresenta dentes pontiagudos, curvados e serrilhados, característica que pode ter sido transmitida evolutivamente para crocodilos e dinossauros. O formato dos dentes evidencia os hábitos carnívoros do animal – segundo os pesquisadores, é bem provável que a alimentação deste lagarto consistisse em peixes e pequenos répteis.

Renascimento das cinzas

Os estudos realizados no Sul do Brasil tinham como objetivo inicial analisar a fauna dos pampas gaúchos na transição do período Permiano para o Triássico Inferior, aproximadamente 250 milhões de anos atrás, quando ocorreu uma extinção em massa dos seres vivos da Terra. Ao descobrir Teyujagua paradoxa, os pesquisadores acreditam ter localizado um intermediário entre os répteis primitivos e os chamados arcossauriformes (grupo que inclui, entre outros, os dinossauros, répteis e aves). A novidade pode ajudar a explicar a origem evolutiva desse grupo. “Os arcossauriformes têm uma origem nebulosa, mas Teyujagua paradoxa está nos dando novas pistas sobre seu surgimento”, ressalta Pinheiro.
Para o geólogo Cesar Schultz, professor da UFRGS e coautor do estudo, o fato de que a nova espécie viveu neste período turbulento da história terrestre aponta para novos horizontes de pesquisa sobre o que se passou e sobre as espécies que vieram a seguir. “Teyujagua paradoxa pode ser um dos precursores de vários dos seres vivos que existem hoje, porque viveu nesse período de renascimento da vida na Terra”, afirma.

João Paulo RossiniCiência Hoje Online