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sábado, 6 de junho de 2015

Por que temos mais pelos em certas partes do corpo?


  • Michal Ludwiczak/iStock
A pergunta já deixou muito cientista de cabelo em pé: por que nos seres humanos, ao longo da evolução, a maior parte dos pelos do corpo permaneceu em certos lugares, como cabeça, tórax (no caso dos homens), axilas e partes íntimas?

"O crescimento capilar nos humanos é reduzido, comparado com o de outros mamíferos, de tal forma que somos chamados de macacos nus'", comenta a dermatologista Tatiana Steiner, assessora do departamento de cabelos e unhas da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).
Como e quando, exatamente, nossos ancestrais começaram a perder pelos em certas partes do corpo ainda é algo em estudo. Mas, segundo as teorias mais recentes dos biólogos evolucionistas, o principal culpado foi uma forte mudança climática, há cerca de 3 milhões de anos.

No livro "Apes and Human Evolution" (Macacos e evolução humana, em tradução livre), lançado no ano passado (ainda sem lançamento no Brasil), o professor de antropologia Russell Tuttle, da Universidade de Chicago (EUA), conta que o resfriamento global secou as florestas da África Central, onde viviam os primeiros hominídeos, transformando tudo em grandes pastagens. A penugem farta, que servia de proteção para coletar frutas, sementes e tubérculos no meio de troncos e árvores, deixou de ter serventia.
Além disso, no calor da savana, sair para caçar com todos aqueles pelos passou a se tornar um fardo. Só quem tinha uma cobertura menor conseguia ir atrás de carne durante o dia, enquanto outros predadores descansavam na sombra.

Sem se aprofundar nas teorias evolucionistas, a dermatologista concorda que o crescimento capilar tem importante função na termorregulação. Em outras palavras, corpos "despelados" que suam são mais eficientes para deixar o calor sair do que animais com pelos fartos, que não usam roupas. Então por que certas partes continuaram cabeludas no ser humano?

"O cabelo também funciona como uma barreira física (protetora) e tem participação na comunicação sexual e social", explica Steiner. Ou seja: os cílios protegem os olhos de boa parte da poeira, enquanto as sobrancelhas contêm o suor que escorre pela testa e o cabelo oferece certa proteção contra a incidência direta do sol.
E os malditos pelos que teimam em crescer nas axilas, no tórax e na virilha, fazendo tanta gente (inclusive homens) recorrerem à lâmina, cera ou laser? É onde o sexo entra na história. "O aparecimento dos pelos pubianos e nas axilas são sinais da puberdade em ambos os sexos, e as glândulas anexas produzem secreção e odor específico relacionados com a resposta sexual", diz a dermatologista.
No caso da região genital, também existe a hipótese de que os pelos grossos tenham função protetora -- daí muita gente questionar se é bom, para as mulheres, deixar a região exposta. "É possível que, evolutivamente, com a tendência de as mulheres realizarem a depilação cada vez mais constante e de forma ampla, que esses pelos tendam a diminuir", imagina a médica, enfatizando que se trata apenas de uma suposição.

Em quase todo lugar

Os fios (pelos e cabelos) são derivados proteicos de folículos distribuídos por quase toda a superfície do corpo. Eles podem ser minúsculos e finos (lanugos) ou grossos e fortes (terminais), dependendo do local e da função.
No ser humano, as únicas partes sem pelos são as palmas das mãos, as plantas dos pés, os lábios, a glande e a haste do pênis, os leitos das unhas e as áreas laterais dos dedos das mãos e dos pés.
A ausência de pelos nessas partes do corpo provavelmente tem origem evolutiva --  o atrito constante provavelmente fez com que os folículos fossem sumindo nessas regiões --, embora não haja relatos científicos que discutam o assunto com muita profundidade.

Hormônios

Os hormônios andrógenos são os principais responsáveis pela regulação do crescimento capilar, embora outros, como o da tireoide e a prolactina, também tenham seu papel. É por isso que homens têm mais pelos, assim como mulheres com alterações na produção de hormônios.
"Em geral, em termos individuais, o número e a distribuição dos folículos pilosos são determinados geneticamente", relata a dermatologista Tatiana Steiner. Vale ressaltar que o homem possui uma pele mais grossa, oleosa e densa.

A embriogênese (processo pelo qual o embrião é formado e se desenvolve) é que determina o número total de folículos pilosos em cada indivíduo ao longo de sua vida. Em média, cada ser humano possui cerca de 2 milhões deles. "Uma falha pode levar a uma densidade anormalmente baixa na formação dos folículos pilosos de forma geral ou em regiões específicas do corpo", avisa Steiner.
No couro cabeludo, a quantidade de folículos pilosos é de cerca de 100 mil a 150 mil fios, que seguem um ciclo de renovação no qual aproximadamente de 70 a cem fios caiam por dia para mais tarde darem origem a novos pelos.

Número estimado de folículos pilosos na pele por região do corpo:

Couro cabeludo: 1 milhão

Tronco: 425 mil

Braços: 220 mil

Pernas: 370 mil

Total aproximado: 2 milhões

Esse ciclo de renovação apresenta três fases: a anágena (ou fase de crescimento), que dura cerca de dois a cinco anos; a catágena (fase de interrupção do crescimento), que dura cerca de três semanas; e a telógena (de queda), que dura cerca de três a quatro meses.

Se genes e hormônios determinam o surgimento e os ciclos dos fios, também são esses os dois principais fatores que predispõem os indivíduos -- em especial do sexo masculino -- à calvície. Entretanto alguns vícios típicos dos humanos modernos, como estresse, falta de sono e excesso de produtos químicos, vieram agravar o problema. E, enquanto uns sofrem com pelos em excesso no rosto ou na virilha, outros fariam qualquer coisa para não ter o couro cabeludo tão exposto.

domingo, 7 de setembro de 2014

Identificados genes que podem ajudar a salvar araucária do risco de extinção

21/08/2014
Por Diego Freire
Agência FAPESP – Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram 24.181 genes ligados à formação do embrião da araucária (Araucaria angustifolia) – árvore nativa do Brasil também chamada de pinheiro-brasileiro – e de sua semente, o pinhão.


Formação embrionária do pinhão, semente do pinheiro-brasileiro, é alvo de abordagem molecular inédita capaz de auxiliar na preservação da espécie (foto: Wikimedia)

A descoberta poderá auxiliar no estabelecimento de um sistema para a propagação in vitro da espécie, que está sob risco crítico de extinção, de acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), e cuja madeira tem alto valor de mercado.
Com a identificação dos genes, será possível um maior controle sobre o processo de embriogênese somática, ou seja, a formação de um embrião sem que haja fecundação e a partir de células não reprodutivas.

Trata-se de uma das mais promissoras técnicas biotecnológicas de produção de embriões vegetais, que permite a criopreservação (conservação por meio de congelamento) e a clonagem em massa. No caso da araucária, ela é dificultada porque as sementes perdem viabilidade e não sobrevivem por longos períodos de armazenamento.

“Diante dessa dificuldade, é fundamental que se compreenda amplamente o funcionamento desses genes. Somente com o profundo conhecimento dos fatores bioquímicos, fisiológicos e genéticos que controlam o desenvolvimento do embrião zigótico (in vivo) será possível o desenvolvimento embrionário in vitro”, explicou Eny Iochevet Segal Floh, coordenadora do Laboratório de Biologia Celular de Plantas (Biocel) do Instituto de Biociências (IB) da USP e responsável pela pesquisa “Análise da expressão gênica durante o desenvolvimento de embriões somáticos e zigóticos de Araucaria angustifolia (Bertol.) Kuntze”, realizada com o apoio da FAPESP.
Os trabalhos no Biocel, desenvolvidos em parceria com o Laboratório de Genética Molecular de Plantas, também do IB-USP, e coordenado por Maria Magdalena Rossi, centraram-se na análise do transcriptoma, conjunto dos RNAs mensageiros (RNAm) da célula, com o objetivo de descobrir quais genes participam no processo de formação do embrião da araucária.
O sequenciamento do RNA foi realizado no Laboratório Multiusuários Centralizado em Genômica Funcional Aplicada à Agropecuária e Agroenergia, facility instalada na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP com o apoio do Programa Equipamentos Multiusuários (EMU) da FAPESP.

A análise utilizou a tecnologia de sequenciamento em larga escala (RNAseq), que permite explorar a diversidade de RNAm e o perfil dos genes expressos durante o desenvolvimento embrionário.
“O uso desta tecnologia – nova para a maioria dos grupos de pesquisa de biologia molecular no Brasil e ainda pouco utilizada em sistemas vegetais – proporcionou informações importantes sobre a regulação do desenvolvimento embrionário do pinhão”, destacou Floh.

Os mais de 24 mil genes identificados permitirão entender e descrever o comportamento do metabolismo durante a formação do embrião. “Além da importância para a biologia vegetal, os dados gerados possibilitarão obter marcadores para o aprimoramento da técnica de micropropagação, que é a produção de milhares de clones a partir de uma única célula ou pedaço de tecido vegetal, utilizando a embriogênese somática”, disse Floh.

Os resultados poderão ajudar ainda no estabelecimento de estratégias de conservação para a A. angustifolia, incluindo bancos de germoplasma, o patrimônio genético conservado das plantas, e programas de melhoramento genético que utilizam ferramentas biotecnológicas.
Ameaça
De acordo com levantamento da IUCN, a araucária já perdeu 97% de sua área original, o que compromete drasticamente sua variabilidade genética e a coloca em risco de extinção. A cobertura dessas árvores correspondia a cerca de 40% da floresta ombrófila mista, um dos tipos de floresta que compõem o bioma da Mata Atlântica.

“A demanda pelo desenvolvimento de programas de manejo sustentável e conservação tem se tornado a cada dia mais urgente, visando à recuperação e à reposição das espécies ameaçadas, além de garantir a manutenção dos recursos que elas representam”, defende Floh.
As gimnospermas – plantas terrestres que vivem em ambientes de clima frio ou temperado, grupo do qual a araucária faz parte – representam mais de 50% das reservas florestais do planeta. Além de fornecerem madeira, fibra e energia para a indústria florestal, são importante fonte de biocombustíveis e atenuadores dos efeitos do aquecimento global.

Seu ciclo de vida, contudo, é considerado longo. Uma árvore pode durar séculos, levando em torno de 15 anos até atingir a maturidade reprodutiva. A formação da semente é igualmente demorada, podendo levar até quatro anos – o que, de acordo com a pesquisadora, exige alternativas biotecnológicas ao processo natural de reprodução.

“Diante disso, a clonagem massal in vitro via embriogênese somática, associada à criopreservação e à seleção assistida por marcadores moleculares, vem sendo incorporada aos programas de melhoramento genético e conservação de germoplasma de gimnospermas ameaçadas de extinção”, disse.
Os resultados iniciais foram publicados na revista Plant Cell Tissue and Organ Culture e apontam para a viabilização de estratégias biotecnológicas de preservação da espécie. Além de apoio da FAPESP, os estudos também tiveram financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Petrobras.