A tênia e o tubarão
Fezes fossilizadas de peixe de 270 milhões de anos encontradas no Rio Grande do Sul carregam ovos do verme
MARCOS PIVETTA |
Edição 205 - Março de 2013
© PAULA C. DENTZIEN-DIAS

Fezes
fossilizadas de tubarão (à esq.) e detalhes dos ovos de tênia que
estavam no interior do coprólito. Na última imagem, uma larva do verme
parece estar dentro do ovo.
Vestígios fósseis de um tubarão de água doce que viveu há 270 milhões
de anos na área do atual município gaúcho de São Gabriel, 320
quilômetros a oeste de Porto Alegre, podem ser o registro mais antigo de
infestação de um vertebrado por uma forma de tênia ou solitária. Um
conjunto de 93 micro- estruturas de formato ovalado foi encontrado no
interior de um coprólito (fezes petrificadas) do peixe e interpretado
como ovos do parasita intestinal. A maioria dos ovos estava tomada por
pirita, um dissulfeto de ferro apelidado de ouro de tolo, e parecia ter
sido preservada antes de o verme ter tido a chance de rompê-los. Um
deles se destacou dos demais. “Esse ovo contém provavelmente uma larva
do parasita em desenvolvimento”, afirma a paleontóloga Paula C.
Dentzien-Dias, da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), principal
responsável pela descoberta. A análise do conteúdo do raro coprólito,
resgatado em rochas do período Permiano da formação geológica Rio do
Rasto, foi publicada em 30 de janeiro na revista científica
PLoS One.
Os vermes estavam escondidos dentro de um excremento de formato
espiralado, uma marca registrada dos dejetos de tubarões, que media 5
centímetros de comprimento por 2 de diâmetro. O coprólito foi “fatiado”
longitudinalmente para a obtenção de uma lâmina delgada, própria para a
observação em microscópio óptico. O objetivo era buscar, no interior das
fezes, fragmentos orgânicos que indicassem a
dieta
dos animais. Várias lâminas desse coprólito, e também de mais 13
obtidos na região, revelaram a presença de escamas e dentes de outros
peixes. Uma delas, no entanto, apresentou uma grande surpresa: a
presença de quase uma centena de diminutas estruturas ovais em seu
interior.
Inicialmente os pesquisadores levantaram a hipótese de que poderia
ser alguma estrutura de origem inorgânica, gerada durante o processo de
fossilização. Mas uma observação mais detalhada da lâmina levou-os a
outra conclusão. Tratava-se de uma série de ovos de tênia, quase sempre
com as mesmas dimensões: 145–155 micrômetros de comprimento e 88–100
micrômetros de largura. A presença de pirita no coprólito é um
indicativo de que o material foi exposto a condições com pouco ou nenhum
oxigênio, favoráveis à preservação de fósseis. É sabido que esse
mineral se forma apenas na ausência desse gás.
Por ter sido identificada em fezes fossilizadas de um peixe de água
doce, essa antiga forma de solitária sugere que os primeiros hábitats
desse verme eram dominados por lagos e rios. Seus primeiros hospedeiros
teriam sido animais aquáticos, como os paleotubarões de São Gabriel. “Os
novos ovos fósseis de tênia mostram que esses parasitas existiam há
pelo menos 270 milhões de anos, mas eles devem ter surgido muito antes
disso. O problema é achar vestígios preservados desses vermes”, diz
Paula.
© DANIEL DAS NEVES

Em São Gabriel foram encontradas mais de 500 fezes fossilizadas de animais.
Hoje diferentes espécies de tênia podem ser encontradas em muitos
animais, como suínos, bovinos e peixes. Se infestados pelo verme,
alimentos mal lavados e carnes malpassadas podem transmitir ao homem
duas doenças, a teníase e a cisticercose – em casos mais graves, a
segunda pode ser fatal. Embora não tenha sido possível precisar a
espécie de tênia que parece ter infestado o antigo tubarão, os vestígios
do parasita guardam alguma semelhança com os ovos produzidos por vermes
da ordem Tetraphyllidea. Cerca de 540 espécies de parasitas dessa ordem
podem ser encontrados
atualmente no intestino de tubarões.
Dotada de rochas sedimentares do Permiano Médio e Superior (270-250
milhões de anos atrás), a região de São Gabriel é rica em fósseis de
vertebrados, invertebrados e plantas. Nesse solo composto de arenitos,
siltitos e argilitos, condições especiais ao longo de milhões de anos
permitiram a preservação das fezes fossilizadas, um tipo de vestígio
orgânico do passado que tende a ser apagado pela ação do ambiente. Uma
dose de sorte e olhos treinados para diferenciar uma simples rocha de um
excremento petrificado foram essenciais para localizar o achado.
Coprolândia
Numa expedição de campo em 2010, Paula e outros paleontólogos
gaúchos descobriram uma área de 100 metros de comprimento por 30 metros
de largura – um pouco menor do que um campo oficial de futebol – com uma
concentração de mais de 500 coprólitos, a maioria de tubarões. Alguns
estavam enterrados no solo, outros tinham aflorado à superfície. O
tamanho dos dejetos variava de 0,6 a 11 centímetros de comprimento.
“Eram tantos coprólitos que até tropeçavam neles”, afirma, em tom de
brincadeira, o paleontólogo Cesar Schultz, da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (UFRGS), que não participou da expedição, mas é o
coordenador do projeto de pesquisa, financiado pelo CNPq, e um dos
autores do artigo científico. A pequena área repleta de fezes
fossilizadas foi apelidada de Coprolândia.
A estranha concentração de coprólitos produzidos por peixes de água
doce indica que havia ali uma lagoa aproximadamente 270 milhões de anos
atrás. Mas como essa enorme quantidade de dejetos orgânicos foi parar, e
se preservar, num canto desse extinto corpo d’agua, criando até a
ilusão de que poderia ter existido um lugar predileto para os animais
fazerem suas necessidades? Os pesquisadores acreditam que ocorreu um
súbito período de intensa seca na região durante o Permiano e boa parte
da antiga lagoa se evaporou rapidamente. Para não morrer, os animais
tiveram de se aglomerar nos locais em que ainda havia água. Tal
movimentação provocaria naturalmente uma concentração de fezes no reduto
em que os peixes teriam sido confinados. “Achamos que a seca foi
temporária e não chegou a causar a morte dos peixes”, comenta Schultz.
“Não encontramos ossos fossilizados de animais ao lado dos coprólitos.”
Do meio milhar de excrementos petrificados resgatados em São Gabriel,
14 já foram analisados. O coprólito com ovos de tênia é, por ora, o que
produziu dados mais excitantes, mas pode haver outras descobertas a
serem feitas nos dejetos, impressões orgânicas do passado remoto.
Artigo científico
Dentzien-Dias, P.C.
et al. Tapeworm eggs In a 270 million-year-old shark coprolite.
PLoS One. 30 Jan. 2013.