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segunda-feira, 14 de junho de 2021

 

Essas enguias podem engolir presas em terra, graças às mandíbulas extensíveis em suas gargantas

Uma moreia-floco de neve prepara-se para engolir um lanche de lula. Uma moreia-floco de neve prepara-se para engolir um lanche de lula. 
  (Crédito da imagem: Rita Mehta e Kyle Donohoe)

Moreias têm um segundo conjunto oculto de mandíbulas que são o material dos pesadelos. Essas mandíbulas extras podem saltar para a frente em um instante para agarrar a presa e arrastar o animal para a goela da enguia.

Essas terríveis mandíbulas de estilingue ajudam um tipo de moreia a fazer algo impossível para a maioria dos peixes: engolir suas presas enquanto estão em terra, de acordo com um novo estudo. É uma visão enervante, com vídeos de pesquisadores mostrando presas sendo puxadas para baixo pela garganta da enguia enquanto a boca da moreia se abre.

Os peixes normalmente precisam de água em movimento para transportar o alimento da boca para o estômago. Mas as moreias-do-floco de neve ( Echidna nebulosa ) podem emboscar caranguejos na terra se contorcendo do mar para pegar suas presas durante a maré baixa, e pesquisadores descobriram recentemente que o recuo das mandíbulas secundárias das enguias foi forte o suficiente para ajudar as moreias a engolir sua refeição sem ter para recuar para o oceano.

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Todos os peixes ósseos - aqueles com esqueletos feitos principalmente de ossos, em vez de cartilagem - têm mandíbulas faríngeas além das mandíbulas principais. A mandíbula faríngea fica atrás da faringe ou garganta. Eles são menores do que as mandíbulas na boca dos peixes e são usados ​​para agarrar e furar ou esmagar alimentos, de acordo com o Museu Nacional de História Natural Smithsonian

Mas, ao contrário da mandíbula da faringe da maioria dos peixes, as moreias "são altamente móveis" e podem saltar da garganta e entrar na boca das moreias, disse Rita Mehta, professora associada do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade da Califórnia Santa Cruz (UCSC).

Em 2007, Mehta descreveu como as moreias aproveitavam esse movimento extremo enquanto se alimentavam na água, com suas mandíbulas faríngeas atuando como "essas pinças maravilhosas que agarram a presa", ela disse anteriormente ao Live Science . No novo estudo, publicado em 7 de junho no Journal of Experimental Biology , Mehta e o coautor Kyle Donohoe, assistente de pesquisa do Laboratório de Sistemas Sensorial e Cognição Pinniped da UCSC, filmou enguias enquanto comiam refeições fora da água, Mehta disse ao Live Science por e-mail.

"Com base no que sabíamos sobre a mecânica das mandíbulas faríngeas, fazia sentido que, se as moreias conseguissem capturar presas na entremarés ou em terra, também pudessem engoli-las na terra sem depender da água", disse Mehta.


Músculos longos puxam a mandíbula faríngea das moreias para agarrar a presa e, em seguida, desliza-a pela garganta. (Crédito da imagem: Zina Deretsky, National Science Foundation (em homenagem a Rita Mehta, UC Davis))

Treinar moreias-floco de neve para se alimentarem de água em experimentos de laboratório - e depois registrar os resultados - levou seis anos, de acordo com o estudo. Os cientistas instalaram enguias em aquários equipados com plataformas e rampas acima da água. Eles então treinaram as enguias - chamadas Benjen, Marsh, Qani, Jetsom, Frosty, Flatsom e LB - para escalar as rampas para pegar pedaços de lula. Com o tempo, a comida foi movida para cima na rampa, até que finalmente as enguias começaram a se contorcer para fora da água e ondular pelas rampas para encontrar comida.

"Para a maioria dos testes terrestres, moreias-floco de neve ondularam o terço superior de seu corpo na água para capturar a presa na rampa", relataram os pesquisadores. Eles analisaram 67 vídeos de refeições de enguias na água e na rampa, descobrindo que os peixes usavam a mandíbula faríngea da mesma forma e na mesma velocidade na água ou na terra. 

Moreias não são "peixes fora d'água" comuns. Eles podem funcionar durante a privação temporária de oxigênio, e estudos com um parente de uma moreia-floco de neve, a moreia mediterrânea ( Muraena helena ), mostraram que lipídios e muco na pele das moreias podem proteger as enguias contra o ressecamento quando expostas ao ar, o estudo autores escreveram. 

Os experimentos ofereceram exemplos nunca vistos de comportamento da moreia, sugerindo como as moreias podem combinar características anfíbias com uma mandíbula de estilingue para torná-las caçadoras versáteis e formidáveis ​​em ambientes úmidos ou secos. Essas adaptações podem permitir que moreias encontrem novos tipos de alimento se seu suprimento regular desaparecer e pode ajudar os peixes a evitar a competição em seus ecossistemas oceânicos, permitindo que se alimentem em um habitat diferente, disse Mehta. 

As descobertas foram publicadas em 7 de junho no Journal of Experimental Biology .

Originalmente publicado na Live Science.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Detalhes da reprodução dos moluscos cefalópodes são revelados

03/08/2012
Por Karina Toledo
Agência FAPESP – Em artigo de capa publicado no periódico Journal of Morphology, pesquisadores do Instituto de Biociências (IB) da Universidade de São Paulo (USP) descreveram detalhes até então obscuros do processo reprodutivo de moluscos cefalópodes, classe de animais marinhos a que pertencem os polvos, as lulas, as sépias e os náutilos.


Em pesquisa feita com lulas, pesquisadores do Instituto de Biociências da USP desvendam o complexo processo de transferência de espermatozoides entre machos e fêmeas (reprodução)

A pesquisa foi feita com lulas da espécie Doryteuthis plei, coletadas no litoral de São Sebastião, em São Paulo, durante o doutorado de José Eduardo Amoroso Rodriguez Marian, com Bolsa da FAPESP, orientado pelo professor Osmar Domaneschi (in memoriam) e pela professora Sônia Godoy Bueno Carvalho Lopes.

“As lulas e os demais cefalópodes entram na fase reprodutiva no fim do ciclo de vida. Durante a cópula, os machos transferem seus gametas para as fêmeas por meio de um braço modificado conhecido como hectocótilo”, disse Marian.
Os espermatozoides são transferidos dentro de cápsulas chamadas espermatóforos, explicou o pesquisador. Essas estruturas são produzidas continuamente pelo macho quando ele atinge a maturidade sexual e ficam armazenadas no saco espermatofórico. A cada cópula, algumas dezenas de cápsulas são transferidas para as fêmeas.
“Já se conhecia esse processo, mas não se sabia por que os cefalópodes possuíam espermatóforos tão complexos. Para alguns autores, são as estruturas reprodutivas mais complexas do reino animal”, disse Marian.
Ao perceber a carência de trabalhos na área, Marian decidiu focar sua pesquisa de doutorado, que havia começado com tema mais amplo, no entendimento da estrutura e do funcionamento dos espermatóforos.
“Acreditava-se anteriormente que os machos desempenhavam um papel mais ativo na transferência de espermatozoides. Mas mostramos que o espermatóforo sozinho é capaz de se ancorar no corpo da fêmea, perfurar o tecido e se aderir a ele por meio da liberação de substâncias adesivas. Todo esse processo é autônomo, ou seja, realizado pelo próprio espermatóforo, e extracorpóreo”, explicou.
O espermatóforo tem três componentes principais, cada um deles com uma função diferente. “Além da massa espermática, que contém os espermatozoides, há o aparato ejaculatório, responsável pela ancoragem no corpo da fêmea e pela escarificação do tecido. Há ainda o corpo cimentante, estrutura que libera as substâncias adesivas”, disse Marian.

No artigo publicado no Journal of Morphology, Marian descreve em detalhes a chamada reação espermatofórica – processo durante o qual o aparato ejaculatório é projetado e a massa espermática e o corpo cimentante são liberados.

O tempo de duração desse fenômeno varia de acordo com a espécie. No caso das lulas estudadas, gira em torno de 30 segundos. “Mas, no caso do polvo gigante do Pacífico, cujo espermatóforo pode atingir um metro de comprimento, pode chegar a uma hora”, contou.
Para entender melhor cada etapa do processo, Marian, com auxílio de colegas do Centro de Biologia Marinha da USP, removeu os espermatóforos das lulas, engatilhou a reação espermatofórica vitro e observou o fenômeno sob as lentes do microscópio.
“O espermatóforo é uma cápsula alongada com cerca de um centímetro no caso da maioria das lulas. Em um dos ápices há um filamento. Quando esse filamento é tensionado, tem início a reação espermatofórica”, disse.

A pesquisa também deu origem a outras publicações. No periódico Acta Zoologica foi descrita uma análise morfológica detalhada do espermatóforo.

A constatação de que os espermatóforos tinham capacidade de perfurar o tecido das fêmeas rendeu um artigo no Journal of Molluscan Studies. Já na revista Papéis Avulsos de Zoologia foi publicado um outro artigo de revisão sobre o tema.

“Com base nas evidências que conseguimos reunir, desenvolvemos um modelo teórico para explicar o processo de implante de espermatóforos, fenômeno que permaneceu obscuro durante muito tempo”, contou Marian. Esse modelo foi divulgado em artigo no Biological Journal of the Linnean Society.
“Esses animais estão sempre nadando por meio de jato-propulsão e há muita turbulência na superfície de seus corpos. Isso, em teoria, dificulta a deposição de espermatóforos. O sistema de fixação por implante observado nos cefalópodes é eficiente a ponto de suportar a resistência imposta pelo modo de vida desses animais”, disse Marian.

Além do financiamento da FAPESP, o projeto contou com apoio do Programa de Apoio à Pós-Graduação (Proap) da Capes, da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da USP, da American Malacological Society e da Houston Conchology Society.

A pesquisa recebeu quatro prêmios oferecidos por sociedades de malacologia – ramo da biologia que estuda os moluscos: American Malacological Society, Houston Conchology Society, Unitas Malacologica e Sociedade Brasileira de Malacologia.