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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Estudo desvenda como são produzidas as partículas que alimentam as nuvens da Amazônia

31 de outubro de 2016

Karina Toledo  |  Agência FAPESP – Um estudo divulgado segunda-feira (24/10) na revista Nature solucionou um mistério que há mais de uma década intrigava os cientistas: a origem dos aerossóis atmosféricos que alimentam as nuvens da região amazônica em condições livres de poluição.

Essas partículas microscópicas suspensas no ar desempenham um papel fundamental para o clima, pois dão origem aos chamados núcleos de condensação de nuvens – partículas sobre as quais o vapor d’água presente na atmosfera se condensa para formar as gotas de nuvens e a chuva, explicaram os autores.
Estudo desvenda como são produzidas as partículas que alimentam as nuvens da Amazônia Pesquisadores do experimento GoAmazon descrevem na revista Nature o papel das nuvens como transportadoras de partículas entre a superfície do planeta e a alta atmosfera; novo conhecimento deve aprimorar modelos climáticos (Foto: Eduardo César).
 
 De acordo com novos resultados da pesquisa, conduzida com apoio da FAPESP no âmbito da campanha científica Green Ocean Amazon Experiment (GoAmazon), as partículas precursoras dos núcleos de condensação de nuvens são formadas na alta atmosfera e transportadas para perto da superfície pelas nuvens e pela chuva.

“Há pelo menos 15 anos temos tentado medir no solo a formação de novas partículas de aerossóis na Amazônia e o resultado era sempre zero. As novas partículas nanométricas simplesmente não apareciam na Amazônia. As medições eram feitas em solo ou com aviões voando até no máximo 3 mil metros de altura. Mas a resposta, na verdade, estava ainda muito mais no alto”, contou Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) e coautor do artigo.
Segundo Artaxo, que coordena o Projeto Temático “GoAmazon: interação da pluma urbana de Manaus com emissões biogênicas da Floresta Amazônica”, a floresta naturalmente emite gases conhecidos como compostos orgânicos voláteis (VOCs, na sigla em inglês) – entre eles terpenos e isoprenos –, que são carregados pela convecção nas nuvens para a alta atmosfera, podendo chegar a 15 mil metros de altitude, onde a temperatura gira em torno de 55°C negativos.

Com o frio, os gases voláteis se condensam e formam partículas inicialmente muito pequenas – entre 1 e 5 nanômetros. Essas nanopartículas adsorvem gases e se chocam umas com as outras, rapidamente coagulam e crescem até alcançar um tamanho em que podem atuar como núcleo de condensação de nuvens – em geral acima de 50 a 70 nanômetros”, explicou Artaxo.
Em altitudes elevadas, acrescentou o pesquisador, o processo de coagulação das partículas é facilitado pela baixa pressão atmosférica, baixas temperaturas e pelo grande número de partículas presentes.

“Até que, em uma determinada hora, uma dessas gigantescas nuvens convectivas gera uma forte corrente de ar com ventos descendentes e, ao precipitar, traz essas partículas para perto da superfície”, continuou Artaxo.

Achado surpreendente

Parte das medições apresentadas no artigo foi feita em março de 2014 – período de chuva na Amazônia – por um avião de pesquisa capaz de voar até 6 mil metros de altura. A aeronave, conhecida como Gulfstream-1, pertence ao Pacific Northwest National Laboratory (PNNL), dos Estados Unidos.
Outro conjunto de dados foi obtido entre março e maio de 2014 no laboratório operado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) – chamado Torre Alta de Observação da Amazônia (ATTO, na sigla em inglês), que tem 320 metros de altura e está situado na Reserva Biológica de Uatumã, uma área de floresta distante 160 quilômetros a nordeste de Manaus, onde a poluição urbana dificilmente chega.

Medições de aerossóis complementares foram feitas em um conjunto de torres situado cerca de 55 quilômetros ao norte de Manaus, conhecido como ZF2. E também na cidade de Manacapuru, a cerca de 100 quilômetros a oeste de Manaus, onde está instalada a infraestrutura do Atmospheric Radiation Measurement (ARM) Facility – um conjunto móvel de equipamentos terrestres e aéreos desenvolvido para estudos climáticos, pertencente ao Departamento de Energia dos Estados Unidos.

“Para nossa surpresa, observamos que a concentração de material particulado aumentava com a altitude – quando o esperado seria uma quantidade maior próximo da superfície. Encontramos uma quantidade muito grande de aerossóis nesse limite de voo de 6 mil metros do Gulfstream-1”, contou Luiz Augusto Toledo Machado, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coautor do artigo.

A observação inicial se confirmou quando, no âmbito do projeto Acridicon-Chuva, coordenado por Machado e apoiado pela FAPESP, foram feitas novas medições com uma aeronave de pesquisa alemã capaz de voar até 16 mil metros de altitude. O avião denominado Halo (High Altitude and Long Range Research Aircraft) é administrado por um consórcio de pesquisa que inclui o Centro Alemão de Aeronáutica (DLR), o Instituto Max Planck (MPI) e a Associação de Pesquisa da Alemanha (DFG).

“Notamos que, em regiões poluídas, havia uma quantidade extremamente grande de material particulado próximo da superfície, o que não acontecia nas regiões livres de poluição. Mas, em altitudes elevadas, encontrávamos grande concentração de partículas independentemente do grau de poluição. Agora, este trabalho mostra que a chuva traz essas nanopartículas para perto da superfície, onde formam novas populações de material particulado que atuam como núcleo de condensação de nuvens”, disse Machado.

Como pontuou o pesquisador do Inpe, já se sabia que a chuva limpa a atmosfera, mas não se conhecia o mecanismo pelo qual os aerossóis eram repostos. “O interessante foi ter apreendido que, ao mesmo tempo que a chuva remove os aerossóis, ela traz, em suas correntes descendentes, os embriões [as nanopartículas] que, após crescerem, vão recompor a concentração de aerossóis.”

Segundo Artaxo, a observação foi surpreendente porque quando se ultrapassa a camada limite planetária – altitudes superiores a 2,5 mil metros – ocorre uma inversão de temperatura que costuma inibir a movimentação vertical de partículas. “Mas não levávamos em conta o papel das nuvens convectivas como transportadoras dos gases emitidos pela floresta”, disse.
Os estudos feitos no âmbito do experimento GoAmazon, acrescentou o pesquisador, estão demonstrando que os VOCs oriundos das plantas fazem parte de um mecanismo fundamental para a produção de aerossóis em áreas continentais.

“Os VOCs emitidos pela floresta e as nuvens fazem uma dinâmica muito peculiar e produzem enormes quantidades de partículas em altas altitudes, onde se acreditava que elas não existiriam. É a biologia da floresta atuando junto com as nuvens para manter o ecossistema amazônico em funcionamento”, ressalta Artaxo.

Esses gases, segundo o pesquisador, são jogados para a alta atmosfera, onde a velocidade do vento é muito grande, e são redistribuídos pelo planeta de forma muito eficiente. No caso da Amazônia, parte é transportada para os Andes, parte para o sul do Brasil e parte afeta a própria região da floresta tropical. “Estamos atualmente realizando trabalhos de modelagem para precisar as regiões afetadas pelas emissões de VOCs da Amazônia e transportadas pela circulação atmosférica”, contou o professor da USP.
Como era até agora desconhecido, esse mecanismo de produção de aerossóis não está contemplado em nenhum modelo climático. “É um conhecimento que terá de ser incluído, pois ajudará a tornar as simulações de chuva mais precisas”, afirmou Machado.
O pesquisador do Inpe ressaltou ainda que a descoberta só foi possível graças aos aviões de pesquisa que estiveram em Manaus por meio das parcerias firmadas no âmbito do experimento GoAmazon, uma campanha internacional do Departamento de Energia dos Estados Unidos conduzida em parceria. “O Brasil ainda não tem uma aeronave laboratório desse porte, o que seria fundamental para o avanço de pesquisas atmosféricas”, disse.
Além do Acridicon-Chuva, coordenado por Machado, e do Projeto Temático coordenado por Artaxo, conta ainda com apoio da FAPESP o projeto “Pesquisa colaborativa Brasil-EUA: modificações causadas pela poluição antrópica na química da atmosfera e na microfísica de partículas da floresta tropical durante as campanhas intensivas do GoAmazon”, coordenado por Henrique de Melo Jorge Barbosa, pesquisador do IF-USP.
O artigo Amazon boundary layer aerosol concentration sustained by vertical transport during rainfall  pode ser lido em http://www.nature.com/nature/journal/vaop/ncurrent/full/nature19819.html.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Entenda os raios nas tempestades de verão

Nos trópicos, o tempo quente do início do ano é especialmente propício a temporais e acidentes causados por descargas elétricas entre as nuvens e o solo. O melhor jeito de enfrentar esses eventos é conhecê-los mais e melhor, como explica Adilson de Oliveira em sua coluna de janeiro. 
 
Por: Adilson de Oliveira
Publicado em 16/01/2015 | Atualizado em 16/01/2015
Raios nas tempestades de verão
Raio ilumina o céu de Betim (MG) em 3 de janeiro de 2015. Embora esse fenômeno atmosférico seja muito comum, há milênios ele desperta apreensão e medo na humanidade. (foto: Fabio Silva/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0) 
 
É no começo do ano, sobretudo em janeiro e fevereiro, que ocorrem tempestades frequentemente acompanhadas de raios e trovões. Nos primeiros dias de 2015, houve várias mortes decorrentes de tempestades, em particular devido à queda de raios. Embora comuns, esses fenômenos atmosféricos despertam medo e apreensão na humanidade há milênios.

Ao longo da história, muitos povos associaram suas divindades às tempestades, pois, em razão de sua intensidade e por serem incontroláveis, podiam causar destruição. Para os católicos, Santa Bárbara protege contra tempestades, raios e trovões; na umbanda, Inhansã é o orixá dos ventos e das tempestades. Até os super-heróis das histórias em quadrinhos, como Thor (baseado no deus do trovão da mitologia nórdica), estão associados ao poder das tempestades.
Santa Bárbara e Inhansã
Imagem de Santa Bárbara (à esquerda) e escultura de Inhansã (à direita). No catolicismo, Santa Bárbara protege o homem de raios e temporais; na umbanda, Inhansã é o orixá do vento e da tempestade. Ao longo da história, muitos povos associaram suas divindades aos temporais. (fotos: Alma Gamil/ Flickr – CC BY 2.0 [Santa Bárbara]; Eurico Zimbres/ Wikimedia Commons – CC BY-SA 2.5 [Inhansã])
Os fenômenos que mais chamam a atenção nas tempestades são os relâmpagos, raios e trovões. Os relâmpagos são os processos de descarga elétrica na atmosfera; os raios são designados coloquialmente como o caminho luminoso da descarga atmosférica quando esta atinge o solo; já os trovões são os efeitos sonoros da descarga elétrica atmosférica decorrente da expansão abrupta do ar aquecido pela descarga.
A formação das cargas elétricas nas nuvens de tempestades surge da colisão das partículas de gelo, água e granizo em seu interior. Acredita-se que o granizo, mais pesado que os cristais de gelo, fica carregado negativamente (com excesso de elétrons), enquanto os cristais de gelo ficam carregados positivamente (com falta de elétrons). Por isso, a maioria das nuvens de tempestade tem o centro de cargas negativas embaixo e um centro de cargas positivas na parte superior.

A maior parte das descargas elétricas ocorre dentro das nuvens. Mas as cargas aí presentes podem induzir cargas opostas no solo e provocar descargas, formando o raio
 
Os relâmpagos surgem quando a concentração de cargas do centro positivo e negativo da nuvem cresce muito, e o ar à sua volta não age mais como isolante elétrico, permitindo a descarga elétrica entre as regiões de cargas opostas, aniquilando ou diminuindo essas concentrações. É por isso que a maior parte das descargas elétricas ocorre dentro das nuvens. Mas as cargas aí presentes podem induzir cargas opostas no solo e provocar descargas, formando o raio.

Para tornar mais claro o processo de carregamento elétrico nas nuvens, podemos fazer uma comparação (algo grosseira) com os processos de eletrização por atrito. Muita gente já experimentou passar um pente no cabelo e depois aproximá-lo de pequenos pedaços de papel. O que percebemos é que os pedaços de papel são atraídos.
O pente atritado ‘perde’ carga elétrica, ficando carregado positivamente. Quando o aproximamos dos pedaços de papel, há atração, porque as cargas elétricas negativas (que são induzidas no papel) são atraídas pelas positivas. Muitas pessoas relatam também experiências de ‘choque elétrico’ em dias muito secos, ao tocar, por exemplo, um portão metálico quando descem do carro.
O contato da roupa com o banco do veículo faz com que ocorra um atrito que eletriza a pessoa.  Como os calçados nos isolam eletricamente do solo, ao tocar o portão, ocorre uma descarga elétrica. Atualmente os revestimentos dos bancos tentam minimizar esse efeito.

O papel dos para-raios

O fenômeno dos raios das nuvens é espetacular. A voltagem de um deles está entre 100 milhões e 1 bilhão de Volts (V), e a corrente é da ordem de 30 mil Ampères (A). Nas tomadas de nossas casas, a voltagem é de 127 V ou 220 V, e a corrente elétrica que passa em um chuveiro elétrico é da ordem de 30 a 40 A.
Na energia liberada em um raio, só uma pequena fração é convertida em energia elétrica; a maior parte se transforma em calor, luz, som e ondas de rádio. A fração convertida em energia elétrica é da ordem de 300 quilowatts-hora (kWh), aproximadamente o mesmo que consumiria uma lâmpada de 100 W acesa durante alguns meses.

Os para-raios, geralmente instalados em pontos elevados de determinada área, não atraem ou repelem raios, nem funcionam para descarregar nuvens. Seu objetivo é oferecer ao raio um caminho mais fácil para chegar ao solo, sem cair sobre as pessoas ou sobre outros objetos.
Mapa da ocorrência de raios
Ocorrência de raios no mundo, com base em dados da Agência Espacial Norte-americana. As diferentes cores indicam a média de eventos por quilômetro quadrado por ano. Note sua concentração sobre os continentes. (imagem: Citynoise/ Wikimedia Commons – CC BY-SA 3.0)
Os acidentes causados por raios podem ser devastadores. Não só podem causar mortes, mas também provocar incêndios e explosões. No Brasil caem cerca de 50 milhões de raios por ano, e isso acontece porque nosso país tem a maior zona tropical do planeta, onde o clima é mais quente e, portanto, mais favorável à formação de tempestades e raios.

Mitos e verdades

Há muitos mitos em relação a como se proteger de raios, como, por exemplo, cobrir espelhos, não pegar em facas e garfos, entre outros objetos metálicos. O mito do espelho pode estar relacionado com o fato de ele refletir os clarões causados pelos raios e também porque antigamente ele costumava ficar em grandes estruturas metálicas. Objetos de metal no interior de casas não têm como atrair raios.

Mas, de fato, se houver uma tempestade com raios, alguns cuidados são importantes, como evitar a rua e outros ambientes abertos. Os melhores abrigos são automóveis (desde que não sejam conversíveis) ou ônibus.

Se houver uma tempestade com raios, alguns cuidados são importantes, como evitar a rua e outros ambientes abertos. Os melhores abrigos são automóveis (desde que não sejam conversíveis) ou ônibus
Carros ou ônibus nos protegem de raios não só por ter pneus, que ajudam a nos isolar eletricamente do chão, mas também porque, caso haja uma descarga elétrica, o raio ficará na superfície metálica, não conseguindo penetrar no interior do veículo.

Devemos também evitar ficar próximos ou debaixo de árvores ou em terrenos descampados. Nessas situações, ficamos muito vulneráveis se ocorrer uma descarga elétrica. Se estivermos em casa, devemos evitar o uso de telefone com fio ou celular ligado à rede elétrica, bem como tocar em equipamentos elétricos, pois um raio pode cair na rede elétrica e transmitir uma corrente muito intensa. Também não é prudente ficar próximo de estruturas metálicas.

Os fenômenos naturais acontecem, e, quase sempre, seus efeitos não podem ser evitados. O que podemos fazer é conhecê-los melhor, para nos proteger e prevenir de suas consequências. Afinal, compreender a natureza é o que nos torna mais integrados a ela.

Adilson de Oliveira
Departamento de Física
Universidade Federal de São Carlos