Introdução
Em
algum momento em seu aprendizado de química você deve ter conhecido
alguma canção que ajudasse a memorizar os nomes de todos os elementos.
Assim como eu, pode ser que você tenha conseguido decorar a tal canção
com o intuito de tirar uma boa nota. Se foi esse o caso, é possível que
você ainda se lembre dos nomes de todos os elementos, o que é um feito
impressionante (sem contar que é uma ótima música para se cantar em
festas!).
Se
você tiver memorizado todos os nomes dos elementos, isso significa que
você nunca mais vai precisar de uma tabela periódica? Bem... Acho que
não. Isso porque a tabela periódica não é um balde que contém todos os
elementos. Ao invés disso, é mais como um sistema de arquivos. A posição
de cada elemento na tabela nos tá informações importantes sobre sua
estrutura, propriedades e comportamento em reações químicas.
Especificamente, a posição de um elemento na tabela periótica ajuda a
descobrir sua configuração eletrônica, a maneira como os elétrons estão
organizados em volta do núcleo. Os átomos usam seus elétrons para
participar em reações químicas, assim se sabemos a configuração
eletrônica de um elemento, podemos prever sua reatividade - se, e como,
ele interage com os átomos de outros elementos.
Neste
artigo, vamos estudar a tabela periódica mais detalhadamente, como os
átomos organizam seus elétrons, e como isso nos permite prever a
reatividade dos elementos.
A tabela periódica
Por convenção, os elementos são organizados na tabela periódica,
que é uma estrutura com padrões importantes que se relacionam com seu
comportamento. Desenvolvida pelo químico russo Dmitri Mendeleev
(1834-1907) em 1869, a tabela organiza os elementos em colunas - grupos - e linhas - períodos
- que compartilham algumas propriedades. Essas propriedades determinam o
estado físico de um elemento a temperatura ambiente - gás, sólido ou
líquido - bem como sua reatividade química, ou seja, sua habilidade de formar ligações químicas com outros átomos.
Além
de listar o número atômico para cada elemento, a tabela periódica
também mostra a massa atômica relativa do elemento, que é a média de
peso dos seus isótopos que ocorrem naturalmente na Terra. Olhando para o
hidrogênio, por exemplo, seu símbolo,
H,start text, H, comma, end text e nome aparecem, bem como seu número atômico um—no canto superior esquerdo—e sua massa atômica relativa de 1,01.
As
diferenças de reatividade química entre elementos baseiam-se no número e
na distribuição espacial de seus elétrons. Se dois átomos têm padrões
eletrônicos complementares, eles podem reagir e formar uma ligação
química, criando uma molécula ou um composto. Como vamos ver a seguir, a
tabela periódica organiza os elementos de forma que isso reflita seu
número e padrão de elétrons, o que faz com que a tabela seja útil para
prever a reatividade de um elemento: qual a probabilidade deste elemento
formar ligações, e com quais outros elementos.
Camadas eletrônicas e o modelo de Bohr
Um
dos modelos iniciais do átomo foi desenvolvido em 1913 pelo cientista
dinamarquês Niels Bohr (1885-1962). O modelo de Bohr mostra o átomo como
um núcleo central contendo prótons e nêutrons, com os elétrons em
camadas eletrônicas circulares a distâncias específicas do núcleo,
similar aos planetas orbitando o sol. Cada camada eletrônica tem um
diferente nível de energia, com as camadas mais próximas do núcleo sendo
de menor energia do que as mais distantes do núcleo. Por convenção, é
designado um número e o símbolo n para cada camada—por exemplo, a camada
eletrônica mais próxima do núcleo é chamada de 1n. De modo a se mover
entre as camadas, um elétron deve absorver ou liberar uma quantidade de
energia exatamente correspondente à diferença de energia entre as
camadas. Por exemplo, se um elétron absorver energia de um fóton, pode
tornar-se excitado e mover-se para uma camada de maior energia;
inversamente, quando um elétron excitado retorna a uma camada de menor
energia, ele libera energia, comumente na forma de calor.
Átomos,
como outras coisas governadas pelas leis da física, tendem a assumir a
configuração mais estável e de menor energia que conseguirem. Assim, as
camadas eletrônicas de um átomo são ocupadas de dentro para fora, com os
elétrons preenchendo as camadas de menor energia perto do núcleo antes
de irem para as camadas mais distantes de maior energia. A camada mais
próxima do núcleo, 1n, pode conter dois elétrons, enquanto a próxima
camada, 2n, pode conter oito, e a terceira camada, 3n, pode conter até
18.
O
número de elétrons na camada mais externa de um determinado átomo
determina a sua reatividade, ou tendência de formar ligações químicas
com outros átomos. A camada mais externa é conhecida como camada de valência, e os elétrons nela encontrados são chamados de elétrons de valência.
Geralmente, os átomos estão mais estáveis, menos reativos, quando sua
camada mais externa está cheia. A maioria dos elementos importantes em
biologia necessitam de oito elétrons em sua camada mais externa para que
se tornem estáveis, e esse princípio prático é conhecido como a regra do octeto
. Alguns átomos podem ser estáveis com um octeto mesmo que sua camada
de valência seja a camada 3n, que pode conter até 18 elétrons. Nós
exploraremos a razão disso quando discutirmos orbitais eletrônicos
abaixo.
Exemplos
de alguns átomos neutros e suas configurações eletrônicas estão
mostrados abaixo. Nesta tabela, você pode ver que o hélio tem a camada
de valência cheia, com dois elétrons em sua primeira e única camada, 1n.
Semelhantemente, o neônio tem uma camada externa 2n completa contendo
oito elétrons. Essas configurações eletrônicas tornam o hélio e o neônio
muito estáveis. Embora o argônio tecnicamente não tenha uma camada
externa cheia, visto que a camada 3n pode conter até dezoito elétrons,
ele é estável como o neônio e o hélio porque ele tem oito elétrons na
camada 3n e, portanto, satisfaz a regra do octeto. Diferentemente, o
cloro tem apenas sete elétrons em sua camada mais externa, enquanto o
sódio tem apenas um. Esse padrões não preenchem a camada mais externa
nem satisfazem a regra do octeto, fazendo com que sódio e cloro sejam
reativos, ávidos para ganhar ou perder elétrons para atingirem uma
configuração mais estável.
Configurações eletrônicas e a tabela periódica
Os
elementos são ordenados na tabela periódica de acordo com seu número
atômico, a quantidade de prótons que eles têm. Em um átomo neutro, o
número de elétrons é igual ao número de prótons, então é fácil
determinar o número de elétrons pelo número atômico. Além disso, a
posição de um elemento na tabela periódica - sua coluna ou grupo e sua
fileira ou período - nos dão informações muito úteis sobre como esses
elétrons estão organizados.
Se
considerarmos apenas as três primeiras linhas da tabela, que incluem os
principais elementos importantes para a vida, cada linha corresponde ao
preenchimento de uma camada eletrônica diferente: hélio e hidrogênio
colocam seus elétrons na camada 1n, enquanto elementos da segunda linha,
como Li, começam a preencher a camada 2n e elementos da terceira linha,
como Na, continuam com a camada 3n. Semelhantemente, o número da coluna
de um elemento dá informação acerca do seu número de elétrons de
valência e reatividade. Em geral, o número de elétrons de valência é o
mesmo dentro de uma coluna e aumenta da esquerda para a direita dentro
de uma linha. Elementos do grupo 1 têm apenas um elétron de valência e
elementos do grupo 18 têm oito, com exceção do hélio, que tem somente
dois elétrons no total. Assim. o número do grupo é um bom preditor do
quão reativo cada elemento será:
Hélio (
Hestart text, H, e, end text), neônio (
Nestart text, N, e, end text), e argônio (
Arstart text, A, r, end text),
como elementos do grupo 18, têm camadas eletrônicas externas que estão
cheias ou que satisfazem a regra do octeto. Isso os torna altamente
estáveis como átomos individuais. Por causa de sua não-reatividade, eles
são chamados de
gases inertes ou
gases nobres.
Hidrogênio (
Hstart text, H, end text), lítio (
Listart text, L, i, end text), e sódio (
Nastart text, N, a, end text),
como elementos do grupo 1, têm apenas um elétron na camada de valência.
Eles são instáveis como átomos individuais, mas podem se tornar
estáveis perdendo ou compartilhando o elétron de valência. Se esses
elementos perderem completamente um elétron—como
Listart text, L, i, end text e
Nastart text, N, a, end text tipicamente fazem—eles se tornam íons positivamente carregados:
Li+start text, L, i, end text, start superscript, plus, end superscript and
Na+start text, N, a, end text, start superscript, plus, end superscript.
Flúor (
Fstart text, F, end text) e cloro (
Clstart text, C, l, end text),
como elementos do grupo 17, têm sete elétrons na camada de valência.
Eles tendem a atingir um octeto completo tirando um elétron de outros
átomos, tornando-se íons negativamente carregados:
F−start text, F, end text, start superscript, minus, end superscript and
Cl−start text, C, l, end text, start superscript, minus, end superscript.
O Carbono (
Cstart text, C, end text),
como um elemento do grupo 14, tem quatro elétrons na camada de
valência. O carbono tipicamente compartilha elétrons para atingir uma
camada de valência completa, formando ligações com vários outros átomos.
Assim,
as colunas da tabela periódica refletem o número de elétrons
encontrados na camada de valência de cada elemento, que, por sua vez,
determina como este vai reagir.
Subcamadas e orbitais
O
modelo de Bohr é útil para explicar a reatividade e ligação química de
vários elementos, mas na verdade, ele não fornece uma descrição muito
precisa de como os elétrons estão distribuídos espacialmente ao redor do
núcleo. Especificamente, os elétrons não circulam realmente ao redor do
núcleo, mas passam a maior parte do tempo em regiões de formato às
vezes complexo do espaço ao redor do núcleo, conhecidas como orbitais eletrônicas.
Não é possível, de fato, saber onde um elétron se encontra em um
determinado momento, mas podemos determinar matematicamente o volume
espacial onde há maior probabilidade de ele se encontrar (digamos, o
volume espacial no qual ele vai passar 90% de seu tempo). Esta região de
alta probabilidade compõe uma orbital, e cada orbital pode conter até
dois elétrons.
Então,
como estes orbitais definidos matematicamente se encaixam nas camadas
eletrônicas vistas no modelo de Bohr? Podemos decompor cada camada
eletrônica em uma ou mais subcamadas, que são simples conjuntos de um ou
mais orbitais. As subcamadas são designadas pelas letras
ss,
pp,
dd e
ff, e cada letra indica um formato diferente. Por exemplo, as subcamadas
ss possuem um único orbital esférico, enquanto que as subcamadas
pp
contêm três orbitais em formato de halteres posicionados em ângulo reto
entre si. A maior parte da química orgânica - a química dos compostos
do elemento carbono, que são centrais em biologia - envolve interações
entre os elétrons nas subcamadas
ss e
pp,
por isso estes são os tipos de subcamada mais importantes a serem
estudados. Entretanto, átomos com muitos elétrons podem colocar alguns
de seus elétrons nas subcamadas
dd e
ff. As subcamadas
dd e
ff possuem formatos mais complexos e contêm cinco e sete orbitais, respectivamente.
A primeira camada eletrônica, 1n, corresponde a um único orbital
1s1, s . O orbital
1s1, s
é o mais próximo do núcleo e é o primeiro a ser preenchido com
elétrons, antes de qualquer outro orbital. O hidrogênio possui apenas um
elétron, então, ele tem apenas uma posição preenchida no orbital
1s1, s. Isto pode ser escrito de forma abreviada chamada de
configuração eletrônica como
1s11, s, start superscript, 1, end superscript, onde o 1 sobrescrito refere-se ao um elétron no orbital
1s1, s. O hélio tem dois elétrons, então, ele preenche completamente o orbital
1s1, s com seus dois elétrons. Isto é escrito como
1s21, s, squared, referindo-se aos dois elétrons de hélio no orbital
1s1, s.
Na tabela periódica, o hidrogênio e o hélio são os dois únicos
elementos na primeira linha, ou período, o que significa que eles
possuem elétrons apenas em sua primeira camada. O hidrogênio e o hélio
são os dois únicos elementos que têm elétrons exclusivamente no orbital
1s1, s em seu estado neutro, sem carga.
A segunda camada eletrônica, 2n, contém outro orbital esférico
ss e mais três orbitais
pp em forma de halteres, cada um podendo conter dois elétrons. Após o preenchimento do orbital
1s1, s, a segunda camada eletrônica começa a ser preenchida, com os elétrons indo primeiro para o orbital
2s2, s e depois para os três orbitais
pp.
Os elementos da segunda linha da tabela periódica colocam seus elétrons
na camada 2n, bem como na camada 1n. Por exemplo, o lítio (Li) possui
três elétrons: dois preenchem o orbital
1s1, s e o terceiro é colocado no orbital
2s2, s, formando uma configuração eletrônica de
1s21, s, squared 2s12, s, start superscript, 1, end superscript. O neônio (Ne), por sua vez, tem um total de dez elétrons: dois estão no orbital mais interno
1s1, s e oito preenchem a segunda camada - dois no orbital
2s2, s e dois em cada um dos três orbitais
pp,
1s21, s, squared 2s22, s, squared 2p62, p, start superscript, 6, end superscript.
Como sua camada 2n está preenchida, ele é energeticamente estável como
um átomo único e raramente fará ligações químicas com outros átomos.
A terceira camada eletrônica, 3n, também contém um orbital
ss e três orbitais
pp,
e os elementos na terceira linha da tabela periódica colocam seus
elétrons nestes orbitais, assim como os elementos da segunda linha fazem
com a camada 2n. A camada 3n também contém um orbital
dd, mas este orbital tem energia consideravelmente mais alta que os orbitais
3s3, s e
3p3, p
e começa a ser preenchida só a partir da quarta linha da tabela
periódica. Esta é a razão pela qual os elementos da terceira linha, como
o argônio por exemplo, podem ser estáveis com apenas oito elétrons de
valência: suas subcamadas
ss e
pp estão preenchidas, embora a camada 3n não esteja inteiramente preenchida.
Enquanto
as camadas e os orbitais eletrônicos estão estreitamente relacionados,
os orbitais fornecem uma imagem mais precisa da configuração eletrônica
de um átomo. Isto porque os orbitais realmente especificam a forma e a
posição das regiões espaciais ocupadas pelos elétrons.