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segunda-feira, 13 de junho de 2022

 

O que os antigos romanos faziam sem papel higiênico?


Dica: Envolvia uma vara longa, esponja do mar e um balde de vinagre.

STEPHEN E. NASH / 3 DE ABRIL DE 2018

Todos nós já fomos pegos de surpresa pelo nosso trato digestivo uma vez ou outra.

Aconteceu com a família Nash há vários meses. Estávamos chegando ao fim de uma longa viagem de carro, dirigindo por uma estrada secundária através de uma área pouco povoada do Colorado à noite, quando um dos meus filhos gêmeos de 9 anos teve que usar o banheiro. Apesar do meu pedido, ele disse que não conseguiria chegar à próxima cidade. (Ele teve que fazer cocô.) Então paramos e fomos para os arbustos. Depois que ele cuidou de seus negócios, percebemos que não tínhamos papel higiênico conosco.

Todo o episódio dramático me fez pensar e, pelas próximas horas, ponderei sobre papel higiênico e a natureza cultural das rotinas do banheiro. (Me dê uma folga. Foi uma longa viagem.)

O papel higiênico é agora uma parte tão rotineira de nossas vidas que raramente pensamos nele. Essa realidade chata, no entanto, deve nos fazer pensar – porque o papel higiênico é um artefato, uma tecnologia e, portanto, está fundamentado na cultura.

Quando finalmente entramos novamente em Denver – minha esposa e meus filhos dormindo alegremente – eu vi o edifício do Capitólio do estado do Colorado, lindamente iluminado no horizonte. Comecei a pensar nos antigos romanos. Com colunas altas, colunatas e uma cúpula alta e dourada, o capitólio não é nada além de um templo romano para o civismo.

A sociedade americana moderna, e as sociedades ocidentais em geral, tendem a olhar para trás na Roma antiga como o pináculo da civilização ocidental. Emulamos suas instituições e práticas culturais. Por quê? Eles valem a pena?

Quando pensei mais sobre seus hábitos cotidianos, percebi que, apesar de todas as suas realizações, os antigos romanos se engajaram em algumas práticas que muitas pessoas hoje achariam completamente revoltantes. Reserve um minuto para considerar, por exemplo, o que muitas dessas pessoas supostamente “civilizadas” faziam quando precisavam ir ao banheiro.

(RE)PENSAR HUMANO

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Quando o Monte Vesúvio entrou em erupção em 24 de agosto de 79 dC, Pompéia, Herculano e outros assentamentos romanos foram selados como cápsulas do tempo. Eles foram escavados pela primeira vez no século 18 e, desde então, esses locais nos deram uma visão maravilhosa da antiga sociedade romana.

Muitos dos banheiros descobertos em Pompéia e em outros lugares eram comunitários. Em muitos casos, eles eram bonitos, com afrescos nas paredes, esculturas nos cantos e fileiras de buracos esculpidos em placas de mármore italiano frio.

banheiros romanos antigos - Para os antigos romanos, a prática de sentar em um banheiro compartilhado em uma sala aberta cheia de pessoas era totalmente comum.

Para os antigos romanos, a prática de sentar em um banheiro compartilhado em uma sala aberta cheia de pessoas era totalmente comum. Fubar Ofusco/ Wikimedia Commons

Os banheiros romanos não davam descarga. Alguns deles estavam ligados a sistemas internos de encanamento e esgoto, que muitas vezes consistiam em apenas um pequeno fluxo de água correndo continuamente sob os assentos dos vasos sanitários.

Da mesma forma que usamos um banheiro de estilo americano, um usuário romano se sentava, cuidava dos negócios e observava o número dois flutuar alegremente pelo sistema de esgoto. Mas, em vez de pegar um rolo de papel higiênico, um antigo romano costumava pegar um tersorium(ou, em meus termos técnicos, uma “escova de vaso sanitário para sua bunda”). Um tersorium é um pequeno dispositivo engenhoso feito anexando uma esponja natural (do Mar Mediterrâneo, é claro) à ponta de uma vara. Nosso antigo romano simplesmente se enxugava, enxaguava o tersorium no que estivesse disponível (água corrente e/ou um balde de vinagre ou água salgada) e deixava para a próxima pessoa usar. Isso mesmo, era um limpador de bumbum compartilhado. (E, claro, havia outros meios de limpeza também, como o uso de discos cerâmicos abrasivos chamados pessoi .)

OK, então os antigos hábitos romanos de cocô parecem estranhos, mas e seus costumes em torno do xixi?

O melhor que podemos dizer a partir de dados históricos e arqueológicos, os antigos romanos faziam xixi em pequenas panelas em suas casas, escritórios e lojas. Quando esses potes pequenos ficaram cheios, eles os jogaram em potes grandes na rua. Assim como com o lixo, uma equipe vinha uma vez por semana para coletar aqueles potes de xixi e trazê-los para a lavanderia. Por quê? Porque os antigos romanos lavavam suas togas e túnicas no xixi!

Os tersórios, usados ​​pelos antigos romanos para se limparem depois de defecar, levaram a ideia de banheiros “comunais” a um nível totalmente novo.

A Tersoria, usada pelos antigos romanos para se limpar depois de defecar, levou a ideia de banheiros “comunais” a um nível totalmente novo. IV.PA-5334/DMNS

A urina humana está cheia de amônia e outros produtos químicos que são ótimos detergentes naturais. Se você trabalhava em uma lavanderia romana, seu trabalho era pisar nas roupas o dia todo – descalço e até os tornozelos em colossais cubas de xixi humano.

( Francamente, me pergunto por que não emulamos esse aspecto da cultura romana em nossa era de negócios verdes, ecologicamente corretos e sustentáveis. Estou pensando em abrir uma rede chamada Urine-Urout All-Natural Laundromat. oportunidade de negócios!)

Por mais peculiares que as práticas de higiene pessoal na Roma antiga possam parecer para nós, o fato histórico é que muitos romanos usaram tersoria com sucesso e de forma sustentável e lavaram suas roupas no xixi por vários séculos - muito mais do que usamos papel higiênico. De fato, o papel higiênico ainda não é uma tecnologia universal, como qualquer viagem à Índia, à Etiópia rural ou a áreas remotas da China deixará bem claro.

A parada memorável que fizemos para meu filho na zona rural do Colorado sempre me lembrará da dependência generalizada de nossa cultura em relação ao papel higiênico. Estamos tão acostumados com as coisas que relutamos em considerar alternativas amplamente utilizadas. (Caramba, até o bidê elegante recebe pouca atenção em nossa sociedade.)

Como arqueólogo, isso é surpreendente para mim, especialmente porque o papel higiênico foi formalmente introduzido neste país apenas em 1857, relativamente pouco tempo atrás. Naquela época, o empresário de Nova York Joseph Gayetty criou o papel higiênico comercial ; cada folha de papel individual trazia seu nome. Ele alegou que, além de sua nova função utilitária, eles eram medicinais e preveniam hemorroidas.

Em 1890, Clarence e E. Irvin Scott desenvolveram o primeiro papel higiênico em rolos; sua marca prospera hoje. (Por acaso é o meu favorito. Muita informação?) Assim como os lençóis de Gayetty, o lenço de papel Scott foi originalmente comercializado como medicamento. No final da década de 1920, a Hoberg Paper Company comercializou o papel higiênico da marca Charmin para mulheres, com ênfase na suavidade (graças a Deus) e feminilidade, em vez de propriedades medicinais que na verdade não funcionavam.

Hoje, o papel higiênico é onipresente nas culturas ocidentais ; é uma indústria de US$ 9,5 bilhões por ano nos Estados Unidos. Os americanos, em seu excesso típico, usam mais de 50 libras por pessoa por ano! Cerca de 1,75 toneladas de fibra bruta são necessárias para fabricar cada tonelada de papel higiênico. Isso não parece sustentável e, francamente, estou surpreso que as pessoas não tenham protestado mais como resultado.

Dados esses números e os esforços de marketing por trás deles, é difícil argumentar que o uso de papel higiênico é de alguma forma natural. Pelo contrário, o papel higiênico nada mais é do que uma tecnologia. Então, da próxima vez que você estiver desfrutando de uma manhã constitucional, pense no fato de que a defecação e a micção são mais do que funções biológicas; são atividades culturais que envolvem artefatos e tecnologias que mudam ao longo do tempo.

Falando nisso, é hora de considerarmos mudar a forma como nos limpamos depois de usar o banheiro. Tersório, alguém?

 Este artigo foi republicado no Nautilus . 

 Correção: 6 de abril de 2018

Uma versão anterior desta peça usava o termo “tersoriums” para a forma plural de “tersorium”. Depois de esfregar para obter mais informações, confirmamos que “tersoria” é a forma plural correta do termo. O texto também foi atualizado para esclarecer que o ritual de “limpeza” da escova de bunda variava e para observar que os tersoria certamente não eram o único meio que os antigos romanos usavam para se limpar após a defecação. Não queremos ser abrasivos, mas é impossível transmitir todas as minúcias da higiene pessoal praticada pelos antigos romanos. (E você realmente quer saber mais?)

 

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

 

De cada quatro imperadores romanos do Ocidente, apenas um morreu de causas naturais

23 de agosto de 2021


De cada quatro imperadores romanos do Ocidente, apenas um morreu de causas naturais Ao investigar o padrão matemático subjacente às trajetórias dos césares, pesquisadores da USP concluíram que a chance de sobrevivência obedeceu à chamada “regra 80/20”, que rege desde a intensidade dos terremotos até o número de seguidores dos usuários de redes sociais (imagem: Wikimedia Commons)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – De Otávio Augusto (63 a.C.-19 d.C.) a Constantino XI Paleólogo (1405-1453), o Império Romano teve 175 imperadores. Nesse número, estão computados os governantes do Império unificado e os governantes do Ocidente e do Oriente, depois da divisão definitiva em 395 d.C. E estão excluídos aqueles que, sendo menores ou compartilhando o trono, não chegaram a governar por conta própria, embora possuíssem o título.

Dentre os 69 imperadores do Império Romano do Ocidente, apenas 24,8% chegaram tranquilamente ao final do reinado e morreram de causas naturais. Os outros 75,2% morreram de forma violenta, no campo de batalha ou em conspirações palacianas. Considerando todos os 175 imperadores, 30% sofreram morte violenta antes do fim do reinado.

Estudo realizado no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP), em São Carlos, investigou o padrão matemático subjacente às trajetórias dos imperadores. E mostrou que elas seguem aquela que, em estatística, é chamada de “lei de potência”.

Artigo a respeito foi publicado no periódico Royal Society Open Science, mantido por The Royal Society no Reino Unido.

“Apesar de parecer aleatória, essa distribuição de probabilidade é encontrada em muitos outros fenômenos associados a sistemas complexos, como o tamanho das crateras lunares, a intensidade dos terremotos, a frequência com que as palavras aparecem em um texto, o valor de mercado das empresas e até o número de ‘seguidores’ que as pessoas têm nas mídias sociais”, diz à Agência FAPESP o cientista de dados Francisco Rodrigues, professor do ICMC-USP e coordenador do estudo.

Todos esses fenômenos obedecem a um padrão que, genericamente, é chamado de “regra 80/20”. Isso significa que, em qualquer um deles, a chance de ocorrer um evento comum é de 80%, enquanto a chance de ocorrer um evento raro é de 20%, aproximadamente. 

Assim, por exemplo, 80% das crateras lunares são relativamente pequenas, enquanto apenas 20% são de fato grandes. O mesmo acontece nas mídias sociais: 80% das pessoas têm, quando muito, algumas dezenas de seguidores, enquanto 20% possuem milhares ou até mesmo milhões. No caso dos imperadores romanos, o evento raro era não ser assassinado.

“O primeiro a observar esse tipo de relação foi o economista italiano Vilfredo Pareto (1848-1923), ao estudar a distribuição da riqueza na Europa. Ele constatou que 80% dos recursos financeiros estavam nas mãos de 20% da população. Ou seja, enquanto a maioria das pessoas detinha poucos recursos, uma minoria concentrava grande parte da riqueza”, informa Rodrigues.

Além de obedecerem aproximadamente à relação 80/20, as trajetórias dos imperadores romanos do Ocidente apresentaram também outro tipo de padrão. “Ao examinar o tempo transcorrido até a morte dos imperadores, observamos que o risco é alto quando o imperador assume o trono. Isso poderia estar relacionado a dificuldades para lidar com as demandas que o cargo exige e à falta de habilidade política. Depois, o risco diminui sistematicamente, até os 13 anos de governo. Em seguida, apresenta um súbito aumento”, conta Rodrigues.

Se a relação 80/20 corresponde a um padrão conhecido, essa mudança brusca na curva de sobrevivência por volta dos 13 anos de governo foi um achado novo do estudo. “Levantamos várias hipóteses para explicar esse ponto de inflexão. Pode ser que, após o ciclo de 13 anos, os rivais do imperador tenham se desalentado diante da dificuldade de chegar naturalmente ao poder; ou que os antigos inimigos tenham se reagrupado; ou que novos desafetos tenham surgido; ou que todos esses fatores tenham se combinado para produzir uma conjuntura crítica. O interessante é que o estudo mostra também que, após esse ponto de mudança, o risco volta a diminuir”, afirma Rodrigues.


A inflexão aos 13 anos ainda é uma questão a ser respondida. Mas, dando sequência a toda uma linha de história quantitativa, o estudo mostrou que a análise estatística pode ser um recurso complementar importante no estudo dos fenômenos históricos. “As formações históricas são sistemas complexos, compostos por agentes que interagem, colaboram e competem por poder e recursos. E as ações imprevisíveis dos indivíduos podem produzir padrões de comportamento coletivos previsíveis – portanto, sujeitos à investigação matemática”, conclui Rodrigues.

O estudo foi apoiado pela FAPESP por meio de três projetos (13/07375-0, 19/23293-0 e 17/25971-0).

O artigo Power laws in the Roman Empire: a survival analysis pode ser acessado em https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rsos.210850.