Mostrando postagens com marcador Império Romano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Império Romano. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Árvore mais antiga da Terra resiste no deserto árido da Califórnia há 4.855 anos

Os pinheiros bristlecone sobreviveram às mudanças climáticas nos últimos milênios


BISHOP | THE NEW YORK TIMES

Antes de os egípcios erguerem as pirâmides, antes de Jesus Cristo nascer, antes de o Império Romano ser formado ou cair, as árvores já estavam aqui.

Nas White Mountains da Califórnia central, a 3.000 metros de altitude, num deserto alpino árido onde poucos outros seres conseguem viver, há bosques de pinheiros majestosos e retorcidos da espécie Great Basin bristlecone (Pinus longaeva), alguns dos quais sobrevivem há quase 5.000 anos. Seus troncos multicoloridos se dobram em ângulos que desafiam a gravidade e seus ramos pelados se projetam em direção ao céu, como se tivessem saído da imaginação de Tim Burton ou J.K. Rowling.

Esses organismos milenares, vistos geralmente como as árvores mais antigas da Terra, parecem escapar das leis restritivas da natureza.

Uma árvore com troncos retorcidos e aparência de secos, sem folhas
Com troncos retorcidos e ramos pelados, os pinheiros milenares são vistos geralmente como as árvores mais antigas da Terra - Adam Perez/NYT

"Os pinheiros bristlecone parecem mágicos nesse aspecto", disse a ecologista Constance Millar, que há mais de três décadas estuda os pinheiros que crescem unicamente na Califórnia, Nevada e Utah. Percorrer a Floresta de Pinheiros Bristlecone Antigos, em Inyo County, onde esses coníferos sobrevivem há milênios, "te dá uma sensação de infinidade", ela comentou.

Viajei recentemente a Bishop, cidade pequena no árido Owens Valley que foi usada no passado como cenário de faroestes (e ainda poderia ser usada), para visitar a floresta sagrada situada nas montanhas próximas. Minha caminhada teve um clima de peregrinação, já que nós, californianos, sentimos mais reverência por nossas árvores que por praticamente qualquer outra coisa.

A Califórnia abriga as árvores mais altas, maiores e mais antigas do mundo. Hyperion, uma sequoia de 115 metros de altura, é mais alta que a Estátua da Liberdade. General Sherman, a maior árvore do planeta em termos de volume, provoca assombro em quem visita o Parque Nacional das Sequoias. E aqui, Methuselah (Matusalém), o rei dos pinheiros bristlecone resistentes, é visto como tendo germinado 4.855 anos atrás.

Mas essas árvores enfrentam desafios diversos decorrentes principalmente da mudança climática. A estiagem grave no oeste dos Estados Unidos alimenta megaincêndios que têm destruído sequoias gigantes, antigamente consideradas em grande medida resistentes ao fogo. E Constance Millar publicou uma pesquisa recentemente revelando que escolitídeos (besouros pequenos comedores de casca de árvores), cujas populações estão explodindo devido às temperaturas mais quentes, estão, pela primeira vez, matando pinheiros bristlecone.

Mesmo assim, Millar se disse esperançosa quanto às chances de sobrevivência dos pinheiros. Os escolitídeos não parecem estar prejudicando os pinheiros bristlecone na Floresta Nacional Inyo, e os insetos são predadores nativos, de modo que representam uma ameaça menor do que pragas importadas que as árvores não evoluíram para resistir, ela disse. Além disso, o estudo da resiliência das árvores ao longo dos milênios parece ter dado a Millar alguma serenidade em relação ao que o futuro pode reservar para elas.

"Não estou desesperançada", ela disse. "Vejo este sonho da vida perdurando ao longo do tempo."

Nas profundezas da Floresta Nacional Inyo, seguindo por uma trilha desolada acessível apenas para quem vai a pé, árvores retorcidas se agarram a uma encosta rochosa. Este é o bosque Methuselah, no qual vários pinheiros já foram confirmados como tendo mais de 4.000 anos de idade. Qual deles é o Matusalém de fato é uma informação mantida em segredo pelo Serviço Florestal americano para proteger o espécime milenar de vandalismo, embora os visitantes sempre tentem adivinhar.

Um pai e um filho pararam recentemente para admirar um dos pinheiros maiores, com raízes especialmente longas e emaranhadas. "Só pode ser esta árvore aqui", declarou o pai, examinando o bosque para tentar descobrir outras candidatas possíveis.

Millar é uma das poucas pessoas —em sua maioria pesquisadores e funcionários do Serviço Florestal—que têm conhecimento da localização exata de Methuselah. Segundo ela, a árvore não tem aparência especialmente notável. Outros que a conhecem confirmaram que ela não é nem a maior nem a mais bela. Todos destacaram que apenas algumas poucas árvores seletas foram datadas, de modo que é possível que existam pinheiros ainda mais antigos na floresta.

Mapa mostra o estado americano da Califórnia com a marcação das cidades de Bishop, Los Angeles e Fresno
O bosque dos pinheiros milenares fica na região de Bishop, no deserto da Califórnia (EUA) - NYT

Jamie Seguerra, uma guarda florestal, disse que algumas dezenas de vezes por dia visitantes lhe pedem para revelar a localização de Methuselah (ela guarda silêncio). Mas, segundo ela, a maioria das pessoas aprecia o esforço para conservar a árvore saudável e em segurança. Para chegar a esta encosta de montanha solitária, pontilhada de árvores, é preciso viajar meio dia de carro saindo de Los Angeles em direção norte, mais uma hora serpenteando entre cânions e ascendendo milhares de metros, até o ar ficar perceptivelmente rarefeito.

"As pessoas que vêm para cá não vêm por acaso", disse Seguerra, com a voz amplificada no silêncio da floresta remota. "A maioria das pessoas diz algo como ‘eu sempre quis vir para cá, este sempre foi meu sonho’."

Pensou-se durante décadas que as sequoias gigantes fossem as árvores mais antigas do mundo; seu tamanho seria a prova de há quanto tempo elas estão crescendo. Mas em 1953 o climatologista Edmund Schulman, da Universidade do Arizona, viajou à Floresta Nacional Inyo depois de ouvir que ali havia árvores possivelmente ainda mais antigas escondidas em plena vista.

"Muitas vezes rumores como esses se revelavam infundados. Mas não foi o caso deste!", ele escreveu na National Geographic em 1958.

Schulman, que vinha procurando árvores antigas para estudar as secas passadas, foi a primeira pessoa a encontrar espécimes com mais de 4.000 anos de idade, entre eles Methuselah. Para determinar a idade de uma árvore, cientistas extraem uma amostra cilíndrica de seu tronco, para permitir a contagem de seus anéis. A espessura desses anéis, cada um dos quais representa um ano na vida da árvore, também pode revelar informações sobre os níveis de precipitação anual da região, a temperatura e até mesmo erupções vulcânicas.

Quando as pessoas me perguntam: ‘Ela está viva ou morta?’, às vezes respondo ‘sim’

Mary Matlick

Guarda florestal

Não está inteiramente claro por que os pinheiros bristlecone têm vida tão longa, mas uma chave parece ser seu crescimento muito lento —eles se expandem apenas uma polegada a cada cem anos—, o que torna sua madeira especialmente compacta e lhes confere proteção adicional contra insetos e decomposição. E o ar na Floresta Nacional Inyo é tão seco, o clima é tão frio e o solo rochoso de dolomita —cuja cor dá nome às White Mountains— é tão árido que os pinheiros enfrentam pouca concorrência de outras plantas, animais ou pragas.

Pesquisadores no Chile revelaram recentemente que podem ter descoberto uma árvore ainda mais antiga, mas sua idade ainda não foi verificada oficialmente.

Os pinheiros bristlecone já sobreviveram e testemunharam tanta coisa que são, essencialmente, fósseis vivos. O estudo dos anéis dessas árvores antiquíssimas permitiu a cientistas melhorar a precisão da datação por radiocarbono e criar registros dos últimos 11 mil anos de clima da Terra, essenciais para a compreensão dos impactos do aquecimento global.

Usando um boné de beisebol sobre seu rabo de cavalo branco, Mary Matlick, outra guarda florestal, apontou para uma encosta íngreme perto do centro de visitantes na qual se ergue um pinheiro bristlecone de 2.800 anos de idade, com galhos lisos, parecendo pináculos, projetando-se da copa verde.

A árvore deixou alguns de seus galhos morrerem para conservar energia —outra das estratégias de sobrevivência usada pela espécie. Ela pode continuar a viver e reproduzir-se com apenas uma tira de casca e um ramo de agulhas, explicou Matlick. E, devido ao clima seco, os galhos mortos não se decompõem, mas em vez disso podem continuar ligados ao tronco por outros milhares de anos, conferindo às árvores sua aparência fantasmagórica clássica.

"Quando as pessoas me perguntam: ‘Ela está viva ou morta?’, às vezes respondo ‘sim’", disse Matlick. Tradução de Clara Allain

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

 

De cada quatro imperadores romanos do Ocidente, apenas um morreu de causas naturais

23 de agosto de 2021


De cada quatro imperadores romanos do Ocidente, apenas um morreu de causas naturais Ao investigar o padrão matemático subjacente às trajetórias dos césares, pesquisadores da USP concluíram que a chance de sobrevivência obedeceu à chamada “regra 80/20”, que rege desde a intensidade dos terremotos até o número de seguidores dos usuários de redes sociais (imagem: Wikimedia Commons)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – De Otávio Augusto (63 a.C.-19 d.C.) a Constantino XI Paleólogo (1405-1453), o Império Romano teve 175 imperadores. Nesse número, estão computados os governantes do Império unificado e os governantes do Ocidente e do Oriente, depois da divisão definitiva em 395 d.C. E estão excluídos aqueles que, sendo menores ou compartilhando o trono, não chegaram a governar por conta própria, embora possuíssem o título.

Dentre os 69 imperadores do Império Romano do Ocidente, apenas 24,8% chegaram tranquilamente ao final do reinado e morreram de causas naturais. Os outros 75,2% morreram de forma violenta, no campo de batalha ou em conspirações palacianas. Considerando todos os 175 imperadores, 30% sofreram morte violenta antes do fim do reinado.

Estudo realizado no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP), em São Carlos, investigou o padrão matemático subjacente às trajetórias dos imperadores. E mostrou que elas seguem aquela que, em estatística, é chamada de “lei de potência”.

Artigo a respeito foi publicado no periódico Royal Society Open Science, mantido por The Royal Society no Reino Unido.

“Apesar de parecer aleatória, essa distribuição de probabilidade é encontrada em muitos outros fenômenos associados a sistemas complexos, como o tamanho das crateras lunares, a intensidade dos terremotos, a frequência com que as palavras aparecem em um texto, o valor de mercado das empresas e até o número de ‘seguidores’ que as pessoas têm nas mídias sociais”, diz à Agência FAPESP o cientista de dados Francisco Rodrigues, professor do ICMC-USP e coordenador do estudo.

Todos esses fenômenos obedecem a um padrão que, genericamente, é chamado de “regra 80/20”. Isso significa que, em qualquer um deles, a chance de ocorrer um evento comum é de 80%, enquanto a chance de ocorrer um evento raro é de 20%, aproximadamente. 

Assim, por exemplo, 80% das crateras lunares são relativamente pequenas, enquanto apenas 20% são de fato grandes. O mesmo acontece nas mídias sociais: 80% das pessoas têm, quando muito, algumas dezenas de seguidores, enquanto 20% possuem milhares ou até mesmo milhões. No caso dos imperadores romanos, o evento raro era não ser assassinado.

“O primeiro a observar esse tipo de relação foi o economista italiano Vilfredo Pareto (1848-1923), ao estudar a distribuição da riqueza na Europa. Ele constatou que 80% dos recursos financeiros estavam nas mãos de 20% da população. Ou seja, enquanto a maioria das pessoas detinha poucos recursos, uma minoria concentrava grande parte da riqueza”, informa Rodrigues.

Além de obedecerem aproximadamente à relação 80/20, as trajetórias dos imperadores romanos do Ocidente apresentaram também outro tipo de padrão. “Ao examinar o tempo transcorrido até a morte dos imperadores, observamos que o risco é alto quando o imperador assume o trono. Isso poderia estar relacionado a dificuldades para lidar com as demandas que o cargo exige e à falta de habilidade política. Depois, o risco diminui sistematicamente, até os 13 anos de governo. Em seguida, apresenta um súbito aumento”, conta Rodrigues.

Se a relação 80/20 corresponde a um padrão conhecido, essa mudança brusca na curva de sobrevivência por volta dos 13 anos de governo foi um achado novo do estudo. “Levantamos várias hipóteses para explicar esse ponto de inflexão. Pode ser que, após o ciclo de 13 anos, os rivais do imperador tenham se desalentado diante da dificuldade de chegar naturalmente ao poder; ou que os antigos inimigos tenham se reagrupado; ou que novos desafetos tenham surgido; ou que todos esses fatores tenham se combinado para produzir uma conjuntura crítica. O interessante é que o estudo mostra também que, após esse ponto de mudança, o risco volta a diminuir”, afirma Rodrigues.


A inflexão aos 13 anos ainda é uma questão a ser respondida. Mas, dando sequência a toda uma linha de história quantitativa, o estudo mostrou que a análise estatística pode ser um recurso complementar importante no estudo dos fenômenos históricos. “As formações históricas são sistemas complexos, compostos por agentes que interagem, colaboram e competem por poder e recursos. E as ações imprevisíveis dos indivíduos podem produzir padrões de comportamento coletivos previsíveis – portanto, sujeitos à investigação matemática”, conclui Rodrigues.

O estudo foi apoiado pela FAPESP por meio de três projetos (13/07375-0, 19/23293-0 e 17/25971-0).

O artigo Power laws in the Roman Empire: a survival analysis pode ser acessado em https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rsos.210850.