Mostrando postagens com marcador supernova. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador supernova. Mostrar todas as postagens

domingo, 12 de janeiro de 2020


Estudo explica como se formou a nebulosa da Gaivota O formato peculiar assumido pelo aglomerado de estrelas, gás e poeira foi objeto de pesquisa conduzida na USP e no Institut d'Astrophysique de Paris; resultados indicam que a nebulosa é parte de uma estrutura em concha produzida pela explosão de três estrelas supernovas (foto: Bob Franke)

Estudo explica como se formou a nebulosa da Gaivota

10 de janeiro de 2020


José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Um estudo divulgado na revista Astronomy & Astrophysics explicou a origem da forma peculiar assumida pela nebulosa da Gaivota (Sh 2-296). A investigação foi conduzida com apoio da FAPESP no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e no Institut d'Astrophysique de Paris, na França.

Segundo o artigo, a nebulosa faz parte de uma grande estrutura em forma de concha, que os autores nomearam “CMa Shell ”, encerrando uma bolha criada por sucessivas explosões de estrelas supernovas. A pesquisa identificou três estrelas “em fuga” e investigou a possibilidade de que elas tenham se originado no centro da concha.

“Ao analisar imagens da região em vários comprimentos de onda, percebemos claramente que a nebulosa Sh 2-296 é, de fato, parte de uma grande estrutura, com formato de concha elíptica, e diâmetro da ordem de 60 parcecs [pouco mais do que 195 anos-luz]”, disse à Agência FAPESP a astrônoma Beatriz Fernandes, principal autora do artigo.

Fernandes doutorou-se com orientação de Jane Gregorio-Hetem no IAG-USP e fez seu pós-doutorado sob a supervisão de Thierry Montmerle, no Institut d'Astrophysique de Paris.

“Descobrimos que as estrelas fugitivas foram provavelmente ejetadas de um aglomerado progenitor por três sucessivas explosões de supernovas, ocorridas há seis, dois e um milhão de anos”, disse.
Retrocedendo as trajetórias das três estrelas fugitivas, foi possível localizar o centro da concha. A ideia é que havia nessa região central um conjunto de estrelas massivas, que foram explodindo em supernovas e produzindo uma grande frente de onda.

“Esse era um dado que já tínhamos sobre a região, pois ela não possui uma população com idade única, mas é composta por grupos com idades um pouco diferentes. São, todas elas, estrelas bem jovens, com idades inferiores a 10 milhões de anos – o que, em astronomia, é quase nada”, disse Gregorio-Hetem, coautora do artigo.

O êxito do estudo deveu-se em grande parte ao Catálogo Gaia, da ESA, a agência espacial europeia, que proporcionou informações muito mais precisas sobre trajetórias, velocidades e outros parâmetros das estrelas da Via Láctea. “Isso permitiu determinar de onde as estrelas fugitivas estavam vindo e para onde estavam indo”, contou Gregorio-Hetem.

A classificação de “fugitivas” foi dada a essas estrelas porque elas se deslocam do centro para a periferia da concha. E isso se deve, muito provavelmente, ao fato de terem sido empurradas pela frente de onda resultante das explosões das supernovas.
A presença de uma estrela massiva já afeta, por si só, a nuvem de gás e poeira existente à sua volta, por causa da grande radiação que o astro emite. Sua explosão como supernova amplia esse efeito, devido à onda de choque e à grande ejeção de material. São essas explosões que, enriquecendo o meio com elementos químicos mais pesados, sintetizados no interior da grande estrela, promovem a evolução química da galáxia.

Asas abertas

A nebulosa da Gaivota (Sh 2-296) localiza-se na Via Láctea, na região denominada CMa OB1 (Associação Canis Major OB1), a mais de 3,2 mil anos-luz da Terra. A distância entre as pontas das duas “asas da Gaivota” é de aproximadamente 140 anos-luz.

O fato de só vermos uma parte da concha admite diferentes explicações. “Pode ser que a evolução da nuvem tenha feito com que uma porção do gás se dispersasse com o tempo. Mas pode ser também que a esfera esteja com a parte mais densa virada para nós e que não estejamos conseguindo ver a parte de trás. Precisamos de mais dados para responder a essa questão por meio de um mapeamento tridimensional”, afirmou Gregorio-Hetem.

A nebulosa da Gaivota não está em condição de equilíbrio gravitacional. É um aglomerado aberto. Seu material deverá continuar se expandindo, embora com velocidade cada vez menor, até que a configuração acabe se desfazendo com o passar do tempo.

O artigo Runaways and shells around the CMa OB1 association pode ser lido em www.aanda.org/articles/aa/abs/2019/08/aa35484-19/aa35484-19.html. O texto integral também pode ser acessado gratuitamente na plataforma Arxiv: https://arxiv.org/pdf/1906.00113.pdf.
 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015


Testemunhas da infância galáctica

Astrônomos brasileiros investigam as estrelas mais antigas da Via Láctea para encontrar pistas sobre o início da nossa galáxia. 
 
Por: Valentina Leite
Publicado em 17/08/2015 | Atualizado em 17/08/2015
Testemunhas da infância galáctica
Representação artística do bojo (região central) da Via Láctea. (imagem: ESO/NASA/JPL-Caltech/M. Kornmesser/R. Hurt.
 
Qual é a idade da nossa galáxia? Apesar de não saberem determinar ao certo, os cientistas têm testemunhas no espaço que podem dar pistas sobre a origem da Via Láctea. Estamos falando, claro, das estrelas, que guardam, em sua composição, segredos de bilhões de anos. Foi justamente tentando desvendar esses mistérios que um grupo de cientistas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP) resolveu iniciar, em 2011, uma pesquisa sobre as estrelas mais antigas da nossa galáxia. Quatro anos depois, eles já podem dizer que desvendaram a abundância de elementos químicos específicos nesses corpos celestes, além de terem uma nova hipótese para o enriquecimento químico das estrelas do centro da galáxia.

O ambicioso projeto, coordenado pela astrônoma Beatriz Barbuy, investiga conglomerados estelares localizados no que se acredita ser o componente mais antigo da Via Láctea, o bojo – a primeira estrutura a ser formada em uma galáxia que, como a nossa, tem formato espiral. "Enquanto o halo é a camada mais externa e maior, o bojo é a parte central, que concentra uma densidade maior de gases", explica a pesquisadora. Tais gases, majoritariamente o hidrogênio e o hélio, vão formando novas estrelas ao longo da vida da galáxia.

As primeiras estrelas da Via Láctea terminaram em grandes explosões (supernovas), que liberaram no espaço os elementos químicos que formaram novas estrelas
Situado a cerca de 24 anos-luz do Sistema Solar, o bojo da Via Láctea não é exatamente uma região próxima de nós. Para estudá-la, os pesquisadores usaram dados de vários telescópios do Observatório Europeu do Sul (ESO) capazes de captar imagens das estrelas que compõem essa estrutura. Além disso, também obtiveram informações enviadas pelo telescópio espacial Hubble.
Ao analisar o enorme conjunto de dados, a equipe da USP buscou localizar as estrelas denominadas de segunda geração – aquelas que compunham a primeira geração da galáxia teriam surgido logo após o Big Bang e desaparecido apenas 30 milhões de anos depois. "Elas terminaram em grandes explosões (supernovas), que liberaram no espaço os elementos químicos massivos que formaram a população estelar de segunda geração", conta Barbuy.

Os cientistas da USP chegaram a essa conclusão ao estudar a composição das estrelas por meio de uma técnica conhecida como espectroscopia, que analisa os elementos químicos formadores de um corpo celeste a partir da luz que ele emite. Formadas há pelo menos 13,7 bilhões de anos, logo após o surgimento do universo, essas estrelas de segunda geração são ricas em metais como o ferro. Esses elementos foram forjados durante a evolução e explosão das supernovas – estrelas mais velhas, como as da origem da nossa galáxia, que eram provavelmente pobres em elementos metálicos. "A metalicidade é um dos indicadores da longevidade de uma estrela. Se ela é rica em metais, é porque aproveitou elementos sintetizados por estrelas ainda mais antigas", resume a astrônoma.
Via Láctea
O centro da Via Láctea concentra estrelas mais ricas em elementos químicos como ferro e oxigênio do que o halo, a parte mais externa da galáxia. (imagem: NASA / JPL)
A pesquisadora ressalva, no entanto, que, no bojo galáctico, as estrelas tendem a ser mais ricas em elementos químicos como ferro e oxigênio do que no halo, a parte mais externa da espiral da Via Láctea. Isso ocorre por conta da grande densidade de gases nessa região, que propicia a formação intensa de estrelas. O bojo da nossa galáxia possui cerca de dez vezes mais quantidade de supernovas que as proximidades do Sistema Solar, por exemplo.

Em busca de confirmações

A constatação da abundância de ferro, bário, oxigênio, magnésio e silício nas estrelas que compõem o bojo da Via Láctea é um dos principais resultados do projeto da USP, e indica que as estrelas secundárias foram enriquecidas pelas supernovas logo no início da vida da galáxia. Para os cientistas, pelas quantidades relativas dos elementos químicos que detectaram, as supernovas devem ter sido estrelas de alta massa, com alta rotação, que liberaram substâncias enriquecedoras no universo.

Outra hipótese é a de que as estrelas de segunda geração tenham sido formadas por hipernovas, explosões com dez vezes mais energia do que as supernovas comuns – uma teoria, segundo Barbuy, conciliável, e não concorrente, com aquela das estrelas de alta rotação. Isso pode explicar o enriquecimento das estrelas do bojo, que possuem consideráveis quantidades de zinco e de alguns elementos pesados como o bário em sua composição.

O projeto, que foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, ainda está em curso e termina nos próximos meses. Desde o seu início, já rendeu alguns artigos científicos, sendo dois principais: um foi publicado na prestigiosa Nature, outro, na especializada Astronomy and Astrophysics, em julho deste ano. O astrônomo Basílio Santiago, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, afirma que essa investigação é valiosa na busca por pistas da infância cósmica. “Para melhor compreender a formação de nossa e de outras galáxias vizinhas semelhantes, é preciso estudar as estrelas mais antigas que ainda brilham – ou seja, as de segunda geração”, pontua. “Além de explorar o bojo atrás dessas belezas celestes, esse projeto quer comparar as propriedades dessas estrelas com modelos recentes da química primordial da galáxia, e isso é essencial”. 

Valentina Leite
Instituto Ciência Hoje/ RJ