Mostrando postagens com marcador tripanossomose. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tripanossomose. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Região de origem do tripanossoma é identificada

10 de outubro de 2017

Peter Moon  |  Agência FAPESP – Um estudo realizado na África, liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), encontrou uma maior diversidade genética em Trypanosoma vivax – um parasita patogênico para bovinos, ovinos e caprinos – no leste da África, provavelmente a região de origem e diversificação desse parasita.

Região de origem do tripanossoma é identificada Leste da África pode ter sido a área a partir da qual o protozoário foi introduzido nas Américas. Estudo internacional foi liderado por pesquisadores da USP (foto: Erney Camargo / ICB-USP)


O trabalho, que tem como objetivo mapear a diversidade e rotas de dispersão desse parasita, vem sendo conduzido nos últimos 10 anos por pesquisadores do Departamento de Parasitologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.

Sob a supervisão da professora Marta Maria Geraldes Teixeira e do professor Erney Plessmann de Camargo, o estudo conta com um grande grupo de pesquisadores de universidades brasileiras, sul-americanas, africanas e inglesas que investigam a filogenia e a evolução dos tripanossomas em geral.
Resultados recentes da pesquisa, apoiada pela FAPESP, foram publicados nas revistas Parasites & Vectors e Infection, Genetics and Evolution. Os dois primeiros autores são respectivamente Herakles Antonio Garcia Perez, professor da Universidade Central de Caracas (Venezuela) e bolsista de pós-doutorado da FAPESP, e Carla Monadeli Filgueira Rodrigues, bolsista de pós-doutorado do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

As duas espécies mais conhecidas de Trypanosoma são Trypanosoma brucei – responsável pela doença do sono transmitida pela mosca tsé-tsé na África – e Trypanosoma cruzi – causador da doença de Chagas na América Latina e transmitido pelo inseto conhecido como barbeiro (Triatominae).
Camargo conta que, em geral, os tripanossomas patogênicos para ungulados são transmitidos exclusivamente por moscas tsé-tsé (Glossina) e, portanto, restritos à África. “Porém, T. vivax pode ser também transmitido mecanicamente por outras moscas hematófagas nas regiões áridas da África – no Sahel, extensa região árida ao sul do deserto do Saara – e da América Central e do Sul”, disse.
Segundo Teixeira, a variabilidade genética encontrada no leste africano aponta para a possibilidade de ser aquela a região de origem e diversificação de T. vivax.

“Quando começamos a comparar isolados brasileiros e africanos de T. vivax, conseguimos uma única amostra do leste da África. Esse isolado era muito diferente das nossas e da cepa de referência de T. vivax da Nigéria, no oeste da África, a única bem estudada até então”, disse.
A coleta de amostras na África ocorreu com a participação do grupo brasileiro, no âmbito do projeto ProÁfrica do CNPq, que reuniu pesquisadores do Brasil e de países africanos.

No primeiro trabalho realizado em Moçambique, os pesquisadores encontraram um novo genótipo ao sequenciar DNA de amostras de sangue de antílopes. Essa descoberta foi seguida de novos genótipos de T. vivax identificados na Tanzânia com a colaboração de cientistas ingleses.
“Nossos resultados iniciais indicavam que no leste da África havia uma grande diversidade de T. vivax. Decidimos aprofundar os estudos. Para complicar, os novos genótipos estavam sendo encontrados em ungulados silvestres – búfalos, antílopes, zebras e girafas – que não desenvolvem a doença – e moscas tsé-tsé de áreas protegidas. Só foi possível fazer esse estudo porque conseguimos autorização para trabalhar nos Parques Nacionais da Gorongosa e do Niassa em Moçambique”, disse Teixeira.
Análises moleculares de tripanossomas de um número elevado de moscas tsé-tsé e sangue de ungulados revelou dois grupos de genótipos de T. vivax. Um com poucos genótipos, geneticamente similares aos encontrados na África Ocidental e América do Sul; outro com mais de 11 genótipos muito divergentes, sugerindo a existência de outras espécies, até agora exclusivo do leste africano.
A evidência de uma diversidade muito maior de T. vivax no leste africano sugere que essa seja a região de origem e diversificação desse parasita, há milhões de anos. “Mas pode indicar também a existência de recombinações (ainda não comprovadas em T. vivax), na mosca tsé-tsé, de diferentes genótipos que circulam entre os animais silvestres. Essa hipótese precisa ser testada”, disse Camargo.

Viagem de caravela

Ao contrário do leste africano, estudos de T. vivax na América do Sul, realizados por Garcia Perez e Filgueira Rodrigues e outros, revelaram grande homogeneidade genética entre populações de áreas endêmicas e surtos e entre isolados de animais doentes ou assintomáticos.
Esses estudos demonstraram que parasitas da África Ocidental e América do Sul são muito semelhantes, embora não idênticos. “Estudos recentes têm revelado diferenças significativas nos genomas de isolados da América do Sul e África”, disse Teixeira.

Os resultados de análises de polimorfismo genético (microssatélites) sugerem que o parasita possa ter sido introduzido nas Américas a partir da África Ocidental, provavelmente em vários momentos nos últimos 500 anos. Os resultados dessa análise foram publicados em 2014 na revista Parasites & Vectors.

“Animais infectados com T. vivax podem ter sido trazidos nas caravelas dos colonizadores espanhóis e franceses a partir de suas colônias na África Ocidental”, disse Camargo.
Os primeiros casos de doença só foram descritos a partir de 1830, na Guiana Francesa, Caribe, Venezuela e Norte do Brasil.
“Os historiadores acreditam que o T. vivax encontrado no Brasil tenha vindo do Senegal, via Guiana Francesa. É possível, uma vez que há muita semelhança entre o nosso semiárido, o Senegal e o Sahel, em geral. Nessas regiões, o rebanho de jumentos é enorme e esses animais são altamente tripanotolerantes (infecção assintomática), servindo como reservatórios de T. vivax”, disse Camargo.
O pesquisador conta que foi pensando nisso que Carla Rodrigues começou a estudar a patologia dos surtos de T. vivax no semiárido e resolveu procurar T. vivax em jumentos abandonados nas estradas do Rio Grande do Norte, estado onde nasceu. Os resultados da pesquisa foram publicados em 2016 na Parasites & Vectors.

“Isso também ocorre na Etiópia, onde T. vivax é altamente prevalente. Analisando a diversidade genética dos tripanossomas. encontramos diferenças importantes em moscas tsé-tsé que capturamos lá recentemente. Aparentemente, seguindo rotas históricas de migrações humanas e seus rebanhos, T. vivax saiu do leste africano, chegou à África ocidental e daí foi trazido ao Novo Mundo. É uma longa viagem, mais uma das que começaram no Vale do Rift [complexo de falhas tectônicas criado há cerca de 35 milhões de anos com a separação das placas africana e arábica]. Ainda precisamos conhecer as rotas da viagem”, disse Camargo.

Surtos de alta mortalidade em bovinos no Brasil

A Amazônia e o Pantanal, assim como os Llanos venezuelanos são regiões endêmicas para T. vivax, de onde bois e búfalos assintomáticos são introduzidos em áreas livres desse parasita, desencadeando surtos de doença aguda: grande número de parasitas no sangue e graves distúrbios hematológicos e neurológicos, como observaram os pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.
“Nosso grupo acompanhou diversos surtos de T. vivax.

Quando começamos, uma grande dificuldade era o diagnóstico do tripanossoma. Desenvolvemos um método de PCR [reação em cadeia da polimerase], que tem sido utilizado na América do Sul e na África, e padronizamos novos marcadores e métodos moleculares para análises de diversidade e as relações filogenéticas”, disse Marta Teixeira.
“O primeiro surto de infecção aguda, com alta mortalidade, foi descrito em 2007 em gado leiteiro no Nordeste do Brasil (Paraíba), com a participação de nosso grupo. Desde então, surtos de infecção por T. vivax foram descritos no Ceará, Pernambuco, Minas Gerais, Tocantins, Rio Grande do Sul, Goiás e São Paulo”, disse.
A mortalidade pode ser grande se os animais não forem tratados rapidamente. Os animais que desenvolvem doença crônica apresentam alterações reprodutivas, abortos e redução da produção de leite.
“A situação atual é séria no Brasil, mas o número de animais doentes é subestimado porque os fazendeiros não notificam a doença. Porém, como observado por Herakles Garcia, muito pior é a situação na Venezuela onde búfalos, que são supertripanotolerantes, estão morrendo de infecção por T. vivax”, disse Teixeira.

Ela conta que foi para perseguir a história de T. vivax que o grupo de pesquisadores foi à África. “Mas lá encontramos muito mais, diversas descobertas importantes para estudos evolutivos de tripanossomas de crocodilos, lagartos, sapos, aves e morcegos. Descrevemos tripanossomas de morcegos africanos filogeneticamente relacionados com Trypanosoma cruzi. Mas essa é outra história, muito mais antiga e complicada, porque os morcegos voam”, disse Teixeira.

O artigo Remarkable richness of trypanosomes in tsetse flies (Glossina morsitans morsitans and Glossina pallidipes) from the Gorongosa National Park and Niassa National Reserve of Mozambique revealed by fluorescent fragment length barcoding (FFLB), de Herakles A. Garcia, Carla M. F. Rodrigues, Adriana C. Rodrigues, Dagmar L. Pereira, Carlos L. Pereira, Erney P. Camargo, P.B. Hamilton e Marta M. G. Teixeira, publicado na Infection, Genetics and Evolution, está disponível em https://doi.org/10.1016/j.meegid.2017.07.005.

O artigo New insights from Gorongosa National Park and Niassa National Reserve of Mozambique increasing the genetic diversity of Trypanosoma vivax and Trypanosoma vivax-like in tsetse flies, wild ungulates and livestock from East Africa (doi: https://doi.org/10.1186/s13071-017-2241-2), de Carla M.F. Rodrigues, Herakles A. Garcia, Adriana C. Rodrigues, André G. Costa-Martins, Carlos L. Pereira, Dagmar L. Pereira, Zakaria Bengaly, Luis Neves, Erney P. Camargo, Patrick B. Hamilton e Marta M.G. Teixeira, está publicado em: https://parasitesandvectors.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13071-017-2241-2.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Foto:Fabiano Cadioli
Negligenciada, tripanossomose se espalha
Veterinário da Unesp é especialista no assunto
[05/01/2017]
Uma doença que poucos conhecem, difícil de ser diagnosticada e para a qual não há medicamentos específicos disponíveis no mercado está se espalhando sorrateiramente pelos rebanhos. É a tripanossomose ou tripanossomíase bovina, enfermidade causada por várias espécies de protozoários do gênero Trypanosoma, o mesmo que provoca a doença de Chagas nos humanos, transmitida pelo inseto barbeiro.

No caso dos bovinos, o vilão é o Trypanossoma vivax, protozoário extremamente patogênico que causa estragos por onde passa, com a morte significativa de animais num curto espaço de tempo.

Os tabanídeos – insetos grandes e hematófagos conhecidos como mutucas – atuam como vetores da doença e se suspeita que também a mosca-dos-estábulos (Stomoxys calcitrans) tenha sua parcela de culpa. Mas tudo leva a crer que são as más práticas de manejo as principais responsáveis por sua rápida disseminação.

Registrada pela primeira vez no Brasil no início dos anos 1970, num rebanho de búfalos no Estado do Pará, a tripanossomose ficou restrita à Região Norte até 1995, quando um surto foi registrado em Poconé, no Pantanal do Mato Grosso.

De lá para cá, vem se espalhando e hoje encontra-se praticamente em todo o território nacional. Para se ter uma ideia da agressividade da doença, o Estado de São Paulo, que havia registrado o primeiro caso da enfermidade em 2008, somou nada menos do que 16 surtos de tripanossomose entre 2013 e 2015.

Em 15 dos 16 casos, a introdução do Tripanossoma vivax foi relacionada à compra de animais de outras propriedades. “Entre 30 e 45 dias depois de serem introduzidos no rebanho, esses animais, aparentemente saudáveis, apresentaram febre, apatia, aborto, icterícia e anemia. Muitos morreram”, afirma o veterinário Fabiano Antônio Cadioli, da Faculdade de Medicina Veterinária da Unesp/Araçatuba, especialista no assunto.

Nos casos relatados, a doença atingiu o rebanho de duas fazendas de gado de corte. Em um dos criatórios, voltado à produção de gado de elite, a suspeita é que a transmissão tenha sido feita por insetos, uma vez que a propriedade vizinha comercializava constantemente animais vindos de outras regiões. “O estresse do transporte muitas vezes deprime o sistema imunológico. Se o animal estiver infectado, a imunossupressão favorece o aparecimento da doença”, explica.
A outra fazenda conciliava a atividade leiteira com confinamento. As vacas haviam sido diagnosticadas com a tripanossomose e a doença chegou até os animais confinados. “Neste caso a utilização de seringas e agulhas em comum entre os rebanhos por ocasião da vacinação pode ter transmitido a doença para o gado de corte”, afirma.  
       
O fato de a tripanossomose ser uma doença mais comumente disseminada em rebanhos de leite está intimamente associado a uma prática rotineira de manejo na atividade leiteira: a aplicação da ocitocina nas vacas em lactação. “É um hormônio que facilita a descida (liberação) do leite e que muitos produtores aplicam todos os dias antes de cada ordenha”, explica o veterinário Thiago Souza Azeredo Bastos, veterinário da Universidade Federal de Goiás.
Bastos acompanhou o primeiro surto da doença no Estado, registrado em maio deste ano (veja quadro). A transmissão iatrogênica (por uso de agulhas infectadas, por exemplo) é considerada a principal forma de disseminação do Tripanossama vivax. “É mais eficiente do que qualquer mosca: 0,5 mililitro de sangue contidos numa seringa podem conter milhões de protozoários”, afirma Fabiano Cadioli, da FMV.

A tripanossomose tem sintomas semelhantes à tristeza parasitária bovina, complexo de doenças que envolve a babesiose e a anaplasmose. Esta condição tem levado os produtores a cometerem um grave equívoco. Inadvertidamente, tratam o animal como se ele estivesse acometido pela tristeza, aplicando para a tripanossomose a mesma dosagem do medicamento à base de aceturato de diminazeno prescrito para a doença transmitida pelos carrapatos.
O pesquisador chama a atenção para as consequências da medicação incorreta. “A subdosagem tem induzido a uma resistência do protozoário e dificultado muito os tratamentos nos rebanhos onde o diagnóstico inicial foi impreciso.” O problema se agravou e atualmente há protozoários resistentes ao princípio ativo.

Apesar de não debelar a doença, o aceturato de diminazeno destrói a maior parte dos protozoários na corrente sanguínea. Com a redução do Tripanossoma vivax circulante, o animal melhora rapidamente sua condição. O que o medicamento faz é eliminar os protozoários sensíveis. Sobram os resistentes. Mesmo assim, após uma ou duas aplicações, aparentemente sadio, mas infectado, o animal muitas vezes é vendido para outro produtor, que não tem ideia do seu histórico. “Basta uma situação de estresse, como uma viagem longa, para trazer a doença novamente à tona. E ela volta com força total”, afirma.

Com a resistência do Tripanossoma vivax ao aceturato de diminazeno, resta ao produtor recorrer ao cloreto de isometamídio. O problema é que não existem medicamentos à base do princípio ativo disponíveis para compra no Brasil. Sua importação é concedida pelo Ministério da Agricultura, somente em casos especiais, “de emergência”, mediante solicitação junto ao órgão feita por um médico veterinário. “O problema é que entre reunir toda a documentação pedida, enviar ao ministério, obter autorização e receber o medicamento leva de 30 a 60 dias e a doença é muito rápida”, diz Thiago Bastos.

No desespero, muitos produtores conseguem o medicamento ilegalmente, por meio de contrabando via Bolívia, Colômbia e Paraguai. Mas por que o governo não facilita a importação do medicamento? O próprio ministério responde, dizendo que havia um único produto à base de cloridrato de isometamídeo registrado no Brasil.

A licença, concedida em 2005, expirou em abril de 2008 e sua renovação não foi concedida por “força de impedimento de ordem legal vigente à época”, conforme o Departamento de Fiscalização de Insumos Agrícolas (DFIA), do Mapa. Em janeiro de 2015, a empresa solicitou a reemissão da licença anterior, que foi indeferida pela área jurídica do ministério. “Cabe esclarecer que desde 2005 nenhuma nova solicitação foi recebida pelo ministério”, diz o departamento, em nota.
Para o pesquisador Fabiano Cadioli, da Unesp, a liberação em si não resolve a questão e o uso indiscriminado pode agravar a situação. “A administração do cloreto de isometamídio é complexa e requer critério.” Ao contrário dos medicamentos a que os produtores estão habitua­dos a lidar, com a dosagem sendo calculada a partir do peso vivo do animal, no caso do cloreto de isometamídio a prescrição deve levar em conta o estágio da doença no rebanho e o “desafio epidemiológico” a que os animais estão submetidos.

Segundo ele, nos rebanhos em que há alta infestação por insetos hematófagos, uso de ocitocina, compartilhamento de agulhas e seringas, além da frequente introdução de animais comprados, é preciso utilizar dosagens mais altas. Além disso, o produtor deve resistir à tentação de restringir o tratamento aos animais com sintomatologia clínica nos rebanhos onde a doença se instalou. “Animais gordos, aparentemente sadios, podem estar infectados. É preciso tratar todo o plantel, do bezerro ao touro.”

Além disso, monitorar a evolução da doença por meio da sorologia a cada três meses ou uma vez a cada seis meses, dependendo da prevalência da tripanossomose. “É um procedimento essencial para saber como a doença está evoluindo”, afirma. O pesquisador acompanhou casos em que o surto foi controlado, mas a sorologia deixou de ser feita. “A doença voltou e tivemos que recomeçar o trabalho do zero.” Para Cadioli, a falta de conhecimento e de treinamento dos veterinários, que muitas vezes nem ouviram falar da doença na universidade, é um agravante.
A primeira medida para evitar a introdução da tripanossomose no rebanho é redobrar a atenção ao comprar animais de outra propriedade. A quarentena é uma estratégica recomendada, principalmente quando se adquirem animais de regiões endêmicas, como o Pantanal, Triângulo Mineiro ou noroeste Paulista, ou áreas onde a doença tenha sido ­diagnosticada.
Cadioli recomenda que os animais fiquem isolados por 30 dias e que sejam feitas, nos primeiros 15 dias, duas coletas de sangue, uma por semana, para análises sorológica e parasitológica.
Se o animal adquiriu a doença num período inferior a 20 dias, haverá grande quantidade de protozoários no sangue, detectados pelo exame parasitológico. “Caso a infecção seja mais antiga, o sistema imune do organismo teve tempo suficiente para produzir anticorpos, o que será denunciado por um exame sorológico”, diz Cadioli. Segundo ele, juntos, os exames se complementam, já que ambos têm suas limitações (veja quadro abaixo). “Dessa forma fechamos o cerco no diagnóstico ao parasita”, diz o veterinário.

É preciso também evitar o compartilhamento de seringas e agulhas. No caso do gado de leite, onde a doença é mais frequente, recomenda-se o uso de seringas e agulhas descartáveis, inclusive para a administrar a ocitocina e até mesmo vacinações.

Os cuidados devem se estender aos materiais usados durante as técnicas de inseminação artificial, como luvas e bainhas, que devem ser descartadas. Outra medida importante é o controle de vetores, como a mosca-dos-estábulos, além de morcegos hematófagos.

Doença assusta em Goiás

Bastaram apenas 20 dias para que a produção de leite de uma propriedade em Ipameri, GO, despencasse de 1.500 litros para 700 litros diários. Pouco tempo depois, outros sintomas se sucederam, como diarreia, letargia, lacrimejamento e perda progressiva de peso.

Não tardou para que algumas vacas doentes, em decúbito lateral, não conseguissem mais se levantar. De um plantel de 300 fêmeas, 24 morreram e 40 foram abatidas. “A princípio, pensamos se tratar de uma intoxicação por micotoxina ou até mesmo um caso de tristeza parasitária, mas os exames confirmaram que era tripanossomose”, relata Thiago Souza Azeredo Bastos, veterinário da Universidade Federal de Goiás.

Acredita-se que a doença tenha entrado no Estado vinda das bacias leiteiras de Minas Gerais, de onde saem fêmeas para reposição e muitos machos cruzados para confinamento. Segundo Maurício Velloso, presidente da Comissão de Pecuária de Corte da Faeg (Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás), o órgão está pleiteando junto ao Ministério da Agricultura e a Agrodefesa (Agência Goiana de Defesa Agropecuária) a obrigatoriedade de um atestado negativo para os animais que transitarem entre os Estados, como já é feito no caso da brucelose e tuberculose. “Estamos enfrentando um caso sério e difícil. Temos que tomar uma atitude”, diz.

Diagnóstico mais rápido e seguro

Um teste inovador promete dar mais agilidade e segurança ao diagnóstico da tripanossomose no Brasil. Trata-se do Lamp, um método molecular de análise concebido para detectar mais rapidamente a doença do sono, causada pelo Trypanossoma brucei, transmitida pela mosca tsé-tsé (Glossina SP), enfermidade relativamente comum em áreas rurais do continente africano.
Por aqui, os testes começam a ser utilizados a partir de 2016. “Em 30 minutos será possível saber se um animal está ou não infectado pelo agente da tripanossomíase”, diz Fabiano Cadioli. O pesquisador coordena a iniciativa, pioneira na América do Sul. Atualmente, há três categorias de análises realizadas no País para diagnóstico da doença. Além do PCR, que busca o DNA do protozoário, há os testes parasitológico e sorológico.

O primeiro é o mais utilizado a campo. Por meio da análise de sangue, vasculha-se o invasor. O problema é que, até 18 dias após o animal ter sido infectado, há uma grande quantidade de parasitas na corrente sanguínea, o que facilita sua detecção. Depois desse tempo, no entanto, a população do T. vivax tende a oscilar. “Tem dias em que aparecem (no sangue), tem dias que não, sem nenhuma ordem lógica. Isso compromete o resultado do exame”, diz.

O teste sorológico também tem suas restrições. Neste caso, a detecção da doença se dá pela presença de anticorpos no soro, líquido separado do sangue após sua coagulação. Na fase inicial da infecção, o organismo ainda não produziu as pro­teínas de defesa. Animais debilitados pela doença, por sua vez, tendem a não mais produzir ou produzir poucos anticorpos que não aparecem no teste.
Há muitos protozoários circulantes, mas o sistema imunológico já não consegue responder. “É o que chamamos de ‘falso negativo’. O animal está infectado, apesar de o teste não acusar”, diz Cadioli.

*Matéria originalmente publicada na edição 77 da Revista Mundo do Leite fevereiro/março 2016.

O texto está acessível em
http://www.portaldbo.com.br/Mundo-do-Leite/Noticias/Negligenciada-tripanossomose-se-espalha/19125
Fonte: Revista Mundo do Leite