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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Nova molécula interrompe ciclo de vida do parasita da malária

30 de agosto de 2019

 Nova molécula interrompe ciclo de vida do parasita da malária 
Composto inibe enzima importante para o protozoário, interrompendo seu ciclo de vida no organismo humano e impedindo a transmissão para o mosquito vetor; descoberta publicada na Science teve
participação de pesquisadores financiados pela FAPESP (foto: CQMED)

 André Julião | Agência FAPESP – Um grupo internacional de pesquisadores comprovou que uma molécula denominada TCMDC-135051 é capaz de inibir seletivamente uma proteína essencial para o ciclo de vida do Plasmodium falciparum, uma das espécies causadoras da malária.

Os resultados do estudo, publicados nesta sexta-feira (30/8) na Science, abrem caminho para o desenvolvimento de um novo fármaco contra a doença, que tem 200 mil novos casos e mata quase meio milhão de pessoas no mundo anualmente. Um dos obstáculos para a erradicação da malária, atualmente, é o fato de o parasita ter adquirido resistência aos medicamentos existentes.

Entre os autores estão integrantes do Centro de Química Medicinal (CQMED), sediado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob a coordenação do professor Paulo Arruda, e apoiado pela FAPESP por meio do Programa Parceria para Inovação Tecnológica (PITE). O grupo integra a rede do Structural Genomics Consortium (SGC) – consórcio internacional de universidades, governos e indústrias farmacêuticas para acelerar o desenvolvimento de novos medicamentos. O CQMED também é uma Unidade de Inovação da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).

Sintetizada pela farmacêutica GSK, a molécula TCMDC-135051 mostrou ação específica sobre a proteína quinase PfCLK3 (sigla para cyclin-dependent–like kinase), sem afetar proteínas humanas.
“A inibição da PfCLK3 afeta o parasita em diferentes estágios de desenvolvimento – tanto no que chamamos de fase assexuada, quando ele se prolifera dentro da célula humana e provoca os sintomas, quanto na fase sexuada, quando pode ser transmitido de volta para o inseto vetor e completa seu ciclo, podendo infectar outros seres humanos”, disse Paulo Godoi, que realizou o trabalho durante pós-doutorado no CQMED.

Também participou do estudo Dev Sriranganadane, que atualmente realiza estágio de pós-doutorado no mesmo centro. A pesquisa foi coordenada por Andrew Tobin, da Universidade de Glasgow, na Escócia.

“O grupo da Unicamp teve um papel essencial nesse projeto. Eles foram capazes de responder se nossa droga poderia ter outros efeitos além de inibir a PfCLK3. Sem essa informação, não poderíamos ter prosseguido com o estudo”, disse Tobin à Agência FAPESP.

Como os parasitas do gênero Plasmodium estão se tornando cada vez mais resistentes às drogas antimaláricas existentes, há uma preocupação crescente em encontrar novos compostos com potencial para serem transformados em fármacos.

“Esse inibidor da PfCLK3 é bastante promissor, pois é capaz de eliminar o parasita em todas as fases do seu ciclo de vida”, disse Godoi.

A PfCLK3 controla a atividade e a produção de outras proteínas importantes para a manutenção da vida do parasita. Ao bloquear sua atividade, a molécula mata o P. falciparum e não só previne a transmissão como pode tratar a doença em humanos.
A TCMDC-135051 foi selecionada entre 24.619 moléculas que poderiam ter efeito sobre a PfCLK3 e foi a que mostrou maior especificidade sobre a proteína do parasita.

O estudo sugere ainda que a molécula tem ação sobre outras espécies de Plasmodium. Segundo Godoi, o composto foi testado in vitro contra as enzimas CLK3 das espécies P. vivax e P. berghei e em cultura de células de P. knowlesi (similar a P. vivax) e P. berghei, mostando atividade para as duas espécies.
"Foi também feito um teste em camundongos infectados com  P. berghei. O resultado in vivo mostrou eliminação do parasita na corrente sanguínea após cinco dias de infecção", disse.

Contribuição brasileira

Para ser considerada segura, uma molécula candidata a se tornar um fármaco não pode interferir com proteínas humanas. Tanto parasitas do gênero Plasmodium quanto seres humanos possuem enzimas do tipo quinase. A quinase humana mais semelhante à proteína PfCLK3 de Plasmodium é a PRPF4B. Assim, para comprovar que a molécula TCMDC-135051 é segura, Tobin entrou em contato com o grupo do CQMED, um dos poucos que estudam a função da PRPF4B humana.

“Colocamos a PRPF4B para interagir com concentrações diferentes da nova molécula. E até a mais alta delas não foi capaz de inibir a enzima humana”, disse Godoi.
Para garantir que a molécula seria segura para um futuro medicamento, os pesquisadores precisavam provar que ela não afetaria a atividade de proteínas importantes para a funcionamento do organismo humano.

“Nós decidimos apostar em uma proteína pouco estudada e agora colhemos o fruto: tornar possível esse estudo com grande potencial para um novo medicamento”, disse Rafael Couñago, coordenador científico do CQMED.

Para se tornar um fármaco, porém, o inibidor ainda precisa passar por novos testes. “Precisamos melhorar ainda mais a segurança da molécula e, então, ela estará pronta para testes em humanos. Essa etapa deve levar de três a cinco anos”, disse Tobin.

O artigo Validation of the protein kinase PfCLK3 as a multistage cross-species malarial drug target (doi: 10.1126/science.aau1682), de Mahmood M. Alam, Ana Sanchez-Azqueta, Omar Janha, Erika L. Flannery, Amit Mahindra, Kopano Mapesa, Aditya B. Char, Dev Sriranganadane, Nicolas M. B. Brancucci, Yevgeniya Antonova-Koch, Kathryn Crouch, Nelson Victor Simwela, Scott B. Millar, Jude Akinwale, Deborah Mitcheson, Lev Solyakov, Kate Dudek, Carolyn Jones, Cleofé Zapatero, Christian Doerig, Davis C. Nwakanma, Maria Jesús Vázquez, Gonzalo Colmenarejo, Maria Jose Lafuente-Monasterio, Maria Luisa Leon, Paulo H. C. Godoi, Jon M. Elkins, Andrew P. Waters, Andrew G. Jamieson, Elena Fernández Álvaro, Lisa C. Ranford-Cartwright, Matthias Marti, Elizabeth A. Winzeler, Francisco Javier Gamo e Andrew B. Tobin, pode ser lido em: https://science.sciencemag.org/content/365/6456/eaau1682.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Biologia do solo: conceitos práticos que você precisa saber

Apesar de ser um termo popularmente dito, o solo é muito mais do que o chão que pisamos. Formado por um conjunto de materiais minerais, orgânicos, água e ar, além de ser suporte para a vida das plantas, o solo possui uma biologia própria que deve ser bem entendida por produtores que querem obter bons resultados.
Diego Pelizari, do canal Agro de Respeito, traz os principais conceitos da biologia do solo e sua influência sobre as plantas. Confira!  
  • O solo é formado por muitos componentes e um deles é a matéria orgânica, que são os materiais, em qualquer estágio de decomposição, inseridos no solo, além de materiais vivos. Saber identificar os tipos de solo é fundamental para o plantio de culturas adequadas a ele.
  • Esses materiais vivos são denominados e separados por categorias diferentes de acordo com o tamanho corporal. 
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  • Os  micro-organismos são menores de 0,2 mm e seus representantes mais importantes são os nematoides e os protozoários
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  • Os meso-organismos são animais que medem  entre 0,2 e 2,0 mm, como Acari e Collembola.
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  •  Os macro-organismos são aqueles maiores que 2,0 mm e visíveis a olho nu, como as minhocas.
  • Todos os organismos citados anteriormente têm uma função muito importante que é a decomposição. A decomposição consiste em um processo de separação dos elementos que formam os compostos orgânicos que estejam no solo, separando seus nutrientes e distribuindo-os para as plantas.  
  • O processo de distribuição dos nutrientes dos compostos orgânicos para o solo e plantas é chamado de mineralização.
  • Outro conceito interessante da biologia do solo é a fixação biológica do nitrogênio. Esse processo consiste em uma filtragem feita por bactérias existentes no solo que convertem o nitrogênio do ar em nitrogênio para as plantas.  
  • Os exsudatos radiculares são compostos orgânicos liberados pelas raízes das plantas durante o seu crescimento e servem de alimento para os micro-organismos. Cada planta libera compostos diferentes e a variedade de plantas em um mesmo solo garante alimento para grupos distintos de micro-organismos.  Por este motivo, eles são encontrados, em sua maioria, no entorno das raízes, deixando essa parte do solo mais saudável em relação às demais.
Todos os conceitos citados por Diego fazem parte de um universo muito maior, que é a biologia do solo. Entender a fundo esses conceitos pode trazer um diferencial para o seu agronegócio e a qualidade de sua produção agrícola. 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Grupo da USP descreve papel-chave de enzima contra o parasita da doença de Chagas

15 de junho de 2018


Karina Toledo  |  Agência FAPESP – Em artigo publicado recentemente na revista Nature Communications, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) descreveram o papel central de uma enzima – a fosfatidilinositol 3-quinase (PI3K) gama – na regulação da resposta imune contra o Trypanosoma cruzi, protozoário causador da doença de Chagas.

Grupo da USP descreve papel-chave de enzima contra o parasita da doença de Chagas Tecido cardíaco de roedores deficientes da proteína PI3K gama (à direita) apresenta quantidade significativamente maior de parasitas que os animais controle (à esquerda) 18 dias após a infecção (imagem: Nature Communications) 
 
O estudo foi conduzido no Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID), um dos CEPIDs apoiados pela FAPESP, durante o mestrado e o doutorado de Maria Claudia da Silva. A orientação foi feita pelos professores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) João Santana da Silva e Thiago Mattar Cunha.

“Nossos resultados indicam que durante a infecção pelo T. cruzi, tanto em camundongos como em humanos, ocorre um aumento na expressão de PI3K gama. Isso parece ser essencial tanto para evitar uma inflamação exacerbada e lesiva ao organismo como para controlar o parasitismo no coração”, contou Maria Claudia em entrevista à Agência FAPESP.

Na avaliação dos autores, moléculas capazes de modular a via de sinalização celular mediada por essa enzima poderão ser, no futuro, testadas no tratamento da enfermidade que atinge cerca de 7 milhões de pessoas na América Latina – entre 2 e 3 milhões somente no Brasil.

Geralmente transmitida pela picada do inseto conhecido como barbeiro (Triatoma infestans), pela transfusão de sangue de pacientes chagásicos ou pela ingestão de alimentos contaminados, a infecção pelo T. cruzi acompanha o paciente até o fim da vida. Apresenta uma primeira fase aguda, que pode ser assintomática ou causar febre, mal-estar, inflamação e dor nos gânglios, vermelhidão, inchaço nos olhos, aumento do fígado e do baço.
Anos depois podem surgir as complicações da fase crônica, sendo a mais comum o alargamento dos ventrículos do coração (condição que afeta cerca de 30% dos pacientes e costuma levar à insuficiência cardíaca) e a dilatação do esôfago ou o alargamento do cólon (que acomete até 10% dos infectados e pode levar à perda dos movimentos peristálticos e à dificuldade de funcionamento dos esfíncteres). A maioria permanece assintomática mesmo com uma reserva de parasitas no organismo.
“Em nosso modelo de estudo usamos uma linhagem do protozoário que tem preferência pelo tecido do coração. Logo nos primeiros experimentos, observamos que camundongos deficientes de PI3K gama desenvolviam já na fase aguda uma cardiopatia grave e morriam em pouco tempo. Mas não tínhamos a menor ideia de por que isso acontecia”, disse Santana da Silva.

Ao aprofundar as análises, a equipe do CRID percebeu que os camundongos geneticamente modificados para não expressar PI3K gama apresentavam a mesma quantidade de parasitas no sangue que os animais selvagens, ou seja, capazes de expressar a enzima e de sobreviver à infecção.
Segundo Santana da Silva, o esperado seria que os camundongos mortos em decorrência da infecção pelo T. cruzi apresentassem uma maior carga de parasitas no sangue do que aqueles que sobreviveram.

“Quando olhamos o coração, porém, percebemos que os camundongos deficientes de PI3K gama tinham uma carga parasitária muito maior no órgão e também uma inflamação [miocardite] muito mais severa. O sistema imune estava produzindo moléculas pró-inflamatórias de forma descontrolada, lesionando o tecido cardíaco, e mesmo assim não conseguia matar o parasita de forma eficiente”, contou Santana da Silva.

Defeito nos macrófagos

Durante o doutorado de Maria Claudia, o grupo se dedicou a investigar de que forma a resposta imune ao protozoário é modificada pela ausência de PI3K gama. De acordo com Cunha, já existiam estudos mostrando que a enzima participa de uma via de sinalização importante para a migração das células de defesa para locais do organismo em que há inflamação.
No caso da infecção pelo T. cruzi, em uma condição normal, certas substâncias chamadas quimiocinas são produzidas pelo parasita quando ele infecta as células do hospedeiro. Essas moléculas ativam macrófagos e células dendríticas – a linha de frente do sistema imune –, que migram para o local e matam o invasor.

Embora o mecanismo de defesa não seja 100% eficiente, explicam os pesquisadores, consegue manter baixa a carga parasitária, tanto que a maioria dos indivíduos não apresenta sintomas na fase aguda.

“Nossos resultados mostraram que, quando a via de sinalização mediada por PI3K gama não está ativa nos macrófagos, essas células perdem a capacidade de matar o parasita e de controlar a inflamação. Para provar que o problema estava especificamente nos macrófagos, usamos um modelo animal chamado nocaute condicional, que só não tem a PI3K gama nessas células de defesa”, explicou Cunha.
Embora o mecanismo ainda não tenha sido completamente elucidado, o grupo da USP conseguiu verificar que a falta da enzima faz com que o macrófago produza menor quantidade de óxido nítrico – molécula essencial para matar o protozoário e que atua em conjunto com uma citocina inflamatória chamada interferon gamma (IFNγ).
“Se o macrófago não expressa PI3K gama, mesmo na presença de IFNγ ele não consegue matar o protozoário”, disse Santana da Silva.

Evidências em humanos

Em parceria com o pesquisador Edecio Cunha Neto, da Faculdade de Medicina da USP em São Paulo (FMUSP), o grupo do CRID estudou tecidos de pacientes que desenvolveram cardiopatia na fase crônica da doença de Chagas e foram submetidos à biópsia ou a transplante de coração. Avaliaram ainda um banco de dados com informações de todas as moléculas expressas no tecido cardíaco.

As análises revelaram que os indivíduos com maior expressão de PI3K gama tinham uma menor quantidade de parasitas no coração que os que expressavam menor quantidade da enzima – embora ambos apresentassem miocardite. Além disso, todos eles tinham níveis mais elevados de PI3K gama e de todas as moléculas da via mediada por essa enzima quando comparados a pacientes cardíacos não chagásicos (portadores de uma condição conhecida como insuficiência congestiva crônica).

“Esses resultados sugerem que também em humanos essa enzima está envolvida no controle do parasita. Em experimentos in vitro, vimos que, ao infectar macrófagos humanos com o T. cruzi após tratamento com inibidor da PI3K, tais células falham em matar o patógeno intracelular. Como isso ocorre é algo que ainda precisamos entender”, disse Santana da Silva.

Dados preliminares do grupo também indicam que em pacientes que desenvolvem cardiopatia na fase crônica da infecção pelo T. cruzi é maior a incidência de um polimorfismo (variação no gene codificador da enzima) que talvez seja associado a uma menor atividade da enzima PI3K gama – em comparação a pacientes que desenvolvem doença crônica em outros órgãos, como baço ou intestino.
“Estamos agora escrevendo um segundo trabalho levantando a hipótese de que pessoas com um determinado polimorfismo no gene codificador da PI3K gama têm mais risco de desenvolver cardiopatia na fase crônica”, explicou Cunha.
Outra possível linha de investigação, segundo o pesquisador, é avaliar se os raros casos de pacientes que morrem de miocardite fulminante ainda na fase aguda da infecção estariam associados à menor expressão de PI3K gama, como foi observado em camundongos.

Santana da Silva também tem interesse em investigar as vias de sinalização que modulam a produção de PI3K gama no organismo humano.

“Hoje já temos drogas capazes de inibir a produção da enzima, mas não de estimulá-la. Agora temos de investigar as vias regulatórias mediadas pela PI3K gama em busca de moléculas capazes de induzir a liberação das mesmas substâncias. Já testamos no laboratório algumas moléculas que funcionam da mesma maneira. É um estudo de ciência básica, mas com possível aplicação direta no controle do parasitismo tanto na fase aguda quanto crônica”, disse o pesquisador.

Na avaliação de Cunha, ativar a enzima “não é tarefa simples” e pode ter implicações em outras condições de saúde. “Inibidores da via da PI3K gama já estão sendo testados no tratamento do câncer e de doenças inflamatórias”, contou.

O artigo Canonical PI3Kγ signaling in myeloid cells restricts Trypanosoma cruzi infection and dampens chagasic myocarditis, de Maria C. Silva, Marcela Davoli-Ferreira, Tiago S. Medina, Renata Sesti-Costa, Grace K. Silva, Carla D. Lopes, Lucas E. Cardozo, Fábio N. Gava, Konstantina Lyroni, Fabrício C. Dias, Amanda F. Frade, Monique Baron, Helder I. Nakaya, Florêncio Figueiredo, José C. Alves-Filho, Fernando Q. Cunha, Christos Tsatsanis, Christophe Chevillard, Edecio Cunha-Neto, Emilio Hirsch, João S. Silva e Thiago M. Cunha, pode ser lido em: 
 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Foto:Fabiano Cadioli
Negligenciada, tripanossomose se espalha
Veterinário da Unesp é especialista no assunto
[05/01/2017]
Uma doença que poucos conhecem, difícil de ser diagnosticada e para a qual não há medicamentos específicos disponíveis no mercado está se espalhando sorrateiramente pelos rebanhos. É a tripanossomose ou tripanossomíase bovina, enfermidade causada por várias espécies de protozoários do gênero Trypanosoma, o mesmo que provoca a doença de Chagas nos humanos, transmitida pelo inseto barbeiro.

No caso dos bovinos, o vilão é o Trypanossoma vivax, protozoário extremamente patogênico que causa estragos por onde passa, com a morte significativa de animais num curto espaço de tempo.

Os tabanídeos – insetos grandes e hematófagos conhecidos como mutucas – atuam como vetores da doença e se suspeita que também a mosca-dos-estábulos (Stomoxys calcitrans) tenha sua parcela de culpa. Mas tudo leva a crer que são as más práticas de manejo as principais responsáveis por sua rápida disseminação.

Registrada pela primeira vez no Brasil no início dos anos 1970, num rebanho de búfalos no Estado do Pará, a tripanossomose ficou restrita à Região Norte até 1995, quando um surto foi registrado em Poconé, no Pantanal do Mato Grosso.

De lá para cá, vem se espalhando e hoje encontra-se praticamente em todo o território nacional. Para se ter uma ideia da agressividade da doença, o Estado de São Paulo, que havia registrado o primeiro caso da enfermidade em 2008, somou nada menos do que 16 surtos de tripanossomose entre 2013 e 2015.

Em 15 dos 16 casos, a introdução do Tripanossoma vivax foi relacionada à compra de animais de outras propriedades. “Entre 30 e 45 dias depois de serem introduzidos no rebanho, esses animais, aparentemente saudáveis, apresentaram febre, apatia, aborto, icterícia e anemia. Muitos morreram”, afirma o veterinário Fabiano Antônio Cadioli, da Faculdade de Medicina Veterinária da Unesp/Araçatuba, especialista no assunto.

Nos casos relatados, a doença atingiu o rebanho de duas fazendas de gado de corte. Em um dos criatórios, voltado à produção de gado de elite, a suspeita é que a transmissão tenha sido feita por insetos, uma vez que a propriedade vizinha comercializava constantemente animais vindos de outras regiões. “O estresse do transporte muitas vezes deprime o sistema imunológico. Se o animal estiver infectado, a imunossupressão favorece o aparecimento da doença”, explica.
A outra fazenda conciliava a atividade leiteira com confinamento. As vacas haviam sido diagnosticadas com a tripanossomose e a doença chegou até os animais confinados. “Neste caso a utilização de seringas e agulhas em comum entre os rebanhos por ocasião da vacinação pode ter transmitido a doença para o gado de corte”, afirma.  
       
O fato de a tripanossomose ser uma doença mais comumente disseminada em rebanhos de leite está intimamente associado a uma prática rotineira de manejo na atividade leiteira: a aplicação da ocitocina nas vacas em lactação. “É um hormônio que facilita a descida (liberação) do leite e que muitos produtores aplicam todos os dias antes de cada ordenha”, explica o veterinário Thiago Souza Azeredo Bastos, veterinário da Universidade Federal de Goiás.
Bastos acompanhou o primeiro surto da doença no Estado, registrado em maio deste ano (veja quadro). A transmissão iatrogênica (por uso de agulhas infectadas, por exemplo) é considerada a principal forma de disseminação do Tripanossama vivax. “É mais eficiente do que qualquer mosca: 0,5 mililitro de sangue contidos numa seringa podem conter milhões de protozoários”, afirma Fabiano Cadioli, da FMV.

A tripanossomose tem sintomas semelhantes à tristeza parasitária bovina, complexo de doenças que envolve a babesiose e a anaplasmose. Esta condição tem levado os produtores a cometerem um grave equívoco. Inadvertidamente, tratam o animal como se ele estivesse acometido pela tristeza, aplicando para a tripanossomose a mesma dosagem do medicamento à base de aceturato de diminazeno prescrito para a doença transmitida pelos carrapatos.
O pesquisador chama a atenção para as consequências da medicação incorreta. “A subdosagem tem induzido a uma resistência do protozoário e dificultado muito os tratamentos nos rebanhos onde o diagnóstico inicial foi impreciso.” O problema se agravou e atualmente há protozoários resistentes ao princípio ativo.

Apesar de não debelar a doença, o aceturato de diminazeno destrói a maior parte dos protozoários na corrente sanguínea. Com a redução do Tripanossoma vivax circulante, o animal melhora rapidamente sua condição. O que o medicamento faz é eliminar os protozoários sensíveis. Sobram os resistentes. Mesmo assim, após uma ou duas aplicações, aparentemente sadio, mas infectado, o animal muitas vezes é vendido para outro produtor, que não tem ideia do seu histórico. “Basta uma situação de estresse, como uma viagem longa, para trazer a doença novamente à tona. E ela volta com força total”, afirma.

Com a resistência do Tripanossoma vivax ao aceturato de diminazeno, resta ao produtor recorrer ao cloreto de isometamídio. O problema é que não existem medicamentos à base do princípio ativo disponíveis para compra no Brasil. Sua importação é concedida pelo Ministério da Agricultura, somente em casos especiais, “de emergência”, mediante solicitação junto ao órgão feita por um médico veterinário. “O problema é que entre reunir toda a documentação pedida, enviar ao ministério, obter autorização e receber o medicamento leva de 30 a 60 dias e a doença é muito rápida”, diz Thiago Bastos.

No desespero, muitos produtores conseguem o medicamento ilegalmente, por meio de contrabando via Bolívia, Colômbia e Paraguai. Mas por que o governo não facilita a importação do medicamento? O próprio ministério responde, dizendo que havia um único produto à base de cloridrato de isometamídeo registrado no Brasil.

A licença, concedida em 2005, expirou em abril de 2008 e sua renovação não foi concedida por “força de impedimento de ordem legal vigente à época”, conforme o Departamento de Fiscalização de Insumos Agrícolas (DFIA), do Mapa. Em janeiro de 2015, a empresa solicitou a reemissão da licença anterior, que foi indeferida pela área jurídica do ministério. “Cabe esclarecer que desde 2005 nenhuma nova solicitação foi recebida pelo ministério”, diz o departamento, em nota.
Para o pesquisador Fabiano Cadioli, da Unesp, a liberação em si não resolve a questão e o uso indiscriminado pode agravar a situação. “A administração do cloreto de isometamídio é complexa e requer critério.” Ao contrário dos medicamentos a que os produtores estão habitua­dos a lidar, com a dosagem sendo calculada a partir do peso vivo do animal, no caso do cloreto de isometamídio a prescrição deve levar em conta o estágio da doença no rebanho e o “desafio epidemiológico” a que os animais estão submetidos.

Segundo ele, nos rebanhos em que há alta infestação por insetos hematófagos, uso de ocitocina, compartilhamento de agulhas e seringas, além da frequente introdução de animais comprados, é preciso utilizar dosagens mais altas. Além disso, o produtor deve resistir à tentação de restringir o tratamento aos animais com sintomatologia clínica nos rebanhos onde a doença se instalou. “Animais gordos, aparentemente sadios, podem estar infectados. É preciso tratar todo o plantel, do bezerro ao touro.”

Além disso, monitorar a evolução da doença por meio da sorologia a cada três meses ou uma vez a cada seis meses, dependendo da prevalência da tripanossomose. “É um procedimento essencial para saber como a doença está evoluindo”, afirma. O pesquisador acompanhou casos em que o surto foi controlado, mas a sorologia deixou de ser feita. “A doença voltou e tivemos que recomeçar o trabalho do zero.” Para Cadioli, a falta de conhecimento e de treinamento dos veterinários, que muitas vezes nem ouviram falar da doença na universidade, é um agravante.
A primeira medida para evitar a introdução da tripanossomose no rebanho é redobrar a atenção ao comprar animais de outra propriedade. A quarentena é uma estratégica recomendada, principalmente quando se adquirem animais de regiões endêmicas, como o Pantanal, Triângulo Mineiro ou noroeste Paulista, ou áreas onde a doença tenha sido ­diagnosticada.
Cadioli recomenda que os animais fiquem isolados por 30 dias e que sejam feitas, nos primeiros 15 dias, duas coletas de sangue, uma por semana, para análises sorológica e parasitológica.
Se o animal adquiriu a doença num período inferior a 20 dias, haverá grande quantidade de protozoários no sangue, detectados pelo exame parasitológico. “Caso a infecção seja mais antiga, o sistema imune do organismo teve tempo suficiente para produzir anticorpos, o que será denunciado por um exame sorológico”, diz Cadioli. Segundo ele, juntos, os exames se complementam, já que ambos têm suas limitações (veja quadro abaixo). “Dessa forma fechamos o cerco no diagnóstico ao parasita”, diz o veterinário.

É preciso também evitar o compartilhamento de seringas e agulhas. No caso do gado de leite, onde a doença é mais frequente, recomenda-se o uso de seringas e agulhas descartáveis, inclusive para a administrar a ocitocina e até mesmo vacinações.

Os cuidados devem se estender aos materiais usados durante as técnicas de inseminação artificial, como luvas e bainhas, que devem ser descartadas. Outra medida importante é o controle de vetores, como a mosca-dos-estábulos, além de morcegos hematófagos.

Doença assusta em Goiás

Bastaram apenas 20 dias para que a produção de leite de uma propriedade em Ipameri, GO, despencasse de 1.500 litros para 700 litros diários. Pouco tempo depois, outros sintomas se sucederam, como diarreia, letargia, lacrimejamento e perda progressiva de peso.

Não tardou para que algumas vacas doentes, em decúbito lateral, não conseguissem mais se levantar. De um plantel de 300 fêmeas, 24 morreram e 40 foram abatidas. “A princípio, pensamos se tratar de uma intoxicação por micotoxina ou até mesmo um caso de tristeza parasitária, mas os exames confirmaram que era tripanossomose”, relata Thiago Souza Azeredo Bastos, veterinário da Universidade Federal de Goiás.

Acredita-se que a doença tenha entrado no Estado vinda das bacias leiteiras de Minas Gerais, de onde saem fêmeas para reposição e muitos machos cruzados para confinamento. Segundo Maurício Velloso, presidente da Comissão de Pecuária de Corte da Faeg (Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás), o órgão está pleiteando junto ao Ministério da Agricultura e a Agrodefesa (Agência Goiana de Defesa Agropecuária) a obrigatoriedade de um atestado negativo para os animais que transitarem entre os Estados, como já é feito no caso da brucelose e tuberculose. “Estamos enfrentando um caso sério e difícil. Temos que tomar uma atitude”, diz.

Diagnóstico mais rápido e seguro

Um teste inovador promete dar mais agilidade e segurança ao diagnóstico da tripanossomose no Brasil. Trata-se do Lamp, um método molecular de análise concebido para detectar mais rapidamente a doença do sono, causada pelo Trypanossoma brucei, transmitida pela mosca tsé-tsé (Glossina SP), enfermidade relativamente comum em áreas rurais do continente africano.
Por aqui, os testes começam a ser utilizados a partir de 2016. “Em 30 minutos será possível saber se um animal está ou não infectado pelo agente da tripanossomíase”, diz Fabiano Cadioli. O pesquisador coordena a iniciativa, pioneira na América do Sul. Atualmente, há três categorias de análises realizadas no País para diagnóstico da doença. Além do PCR, que busca o DNA do protozoário, há os testes parasitológico e sorológico.

O primeiro é o mais utilizado a campo. Por meio da análise de sangue, vasculha-se o invasor. O problema é que, até 18 dias após o animal ter sido infectado, há uma grande quantidade de parasitas na corrente sanguínea, o que facilita sua detecção. Depois desse tempo, no entanto, a população do T. vivax tende a oscilar. “Tem dias em que aparecem (no sangue), tem dias que não, sem nenhuma ordem lógica. Isso compromete o resultado do exame”, diz.

O teste sorológico também tem suas restrições. Neste caso, a detecção da doença se dá pela presença de anticorpos no soro, líquido separado do sangue após sua coagulação. Na fase inicial da infecção, o organismo ainda não produziu as pro­teínas de defesa. Animais debilitados pela doença, por sua vez, tendem a não mais produzir ou produzir poucos anticorpos que não aparecem no teste.
Há muitos protozoários circulantes, mas o sistema imunológico já não consegue responder. “É o que chamamos de ‘falso negativo’. O animal está infectado, apesar de o teste não acusar”, diz Cadioli.

*Matéria originalmente publicada na edição 77 da Revista Mundo do Leite fevereiro/março 2016.

O texto está acessível em
http://www.portaldbo.com.br/Mundo-do-Leite/Noticias/Negligenciada-tripanossomose-se-espalha/19125
Fonte: Revista Mundo do Leite

domingo, 18 de outubro de 2015

Simbiose: Parceiros inseparáveis

Associação simbiótica entre protozoário e bactéria ajuda a entender a origem de organelas celulares
MARIA GUIMARÃES | ED. 236 | OUTUBRO 2015
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© CAROLINA CATTA-PRETA / UFRJ
Microscopia eletrônica de varredura mostra a divisão de Angomonas deanei, um protozoário com bactéria simbiótica
Microscopia eletrônica de varredura mostra a divisão de Angomonas deanei, um protozoário com bactéria simbiótica
Os protozoários tripanossomatídeos são famosos por atacar seres humanos, além de plantas e animais de interesse econômico. Destacam-se os parasitas Trypanosoma cruzi, responsável pela doença de Chagas, T. brucei, da doença do sono na África, e os do gênero Leishmania, que causam as leishmanioses. Mas para a parasitologista Cristina Motta, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), esse não é o aspecto mais interessante desses seres unicelulares. Alguns tripanossomatídeos albergam em seu interior uma bactéria sem a qual são incapazes de viver na natureza.


E vice-versa: a bactéria também não sobrevive sozinha. Essa relação de endossimbiose pode ajudar a entender a origem dos eucariotos (organismos com material genético compartimentalizado no núcleo da célula), cujas organelas – como a mitocôndria e o cloroplasto – resultam de associações com bactérias.
O que se observa nesses organismos é um passo intermediário na evolução das organelas. “São dois seres diferentes que se encontraram, viveram em harmonia e agora formam um só ser, já que um não existe sem o outro”, diz Cristina. Intrigante é o fato de cada protozoário conter apenas uma bactéria: elas se dividem mais depressa que o tempo de geração do hospedeiro, de seis horas, e poderiam ser numerosas dentro da célula.

“Mas isso não ocorre, o que indica fortemente que o protozoário controla a proliferação do endossimbionte.” Esse controle rigoroso é importante porque, sem ele, a bactéria pode tornar-se um parasita e dominar, ou até matar, o hospedeiro. Cristina e seus colegas vêm estudando esse controle, como mostram os resultados com as espécies Strigomonas culicis e Angomonas deanei, publicados em junho deste ano na revista Frontiers in Microbiology como parte da tese de doutorado defendida este ano por Carolina Catta-Preta. Usando compostos que inibem o ciclo celular do hospedeiro, mas normalmente não afetam bactérias, os pesquisadores mostraram que a divisão do endossimbionte também é impedida. É mais um indício de que a bactéria perdeu o controle da maquinaria que causa a sua fissão, agora a cargo do hospedeiro. Com o bloqueio feito em pontos diversos do ciclo celular do protozoário, em alguns casos o endossimbionte começa o processo de replicação do seu material genético, sem conseguir fazer a divisão final, formando assim um longo filamento que contém várias cópias do material genético bacteriano.
Normalmente, quando as bactérias se dividem, primeiro duplicam todo o seu conteúdo, inclusive o DNA. Depois se formam o septo e um anel que, por constrição, promovem a formação de duas células-filhas. No caso do simbionte estudado, essas estruturas típicas da divisão bacteriana não se formam. Com sua especialidade em microscopia, anos atrás Cristina já observara a ação coordenada da replicação de Angomonas deanei e da bactéria que vive dentro dele.

O primeiro DNA a se replicar no organismo composto é o do endossimbionte, que se alonga apoiado no núcleo do protozoário até dividir-se em dois. Segundo Cristina, o núcleo funciona como referência topológica e a bactéria precisa estar bem posicionada para se dividir e garantir que cada novo protozoário carregue um simbionte. Em seguida se divide o cinetoplasto, região especializada da mitocôndria que contém o DNA e está associada à estrutura locomotora do protozoário conhecida como flagelo. Quando o núcleo enfim se divide, o protozoário está pronto para se separar em dois com uma bactéria em cada um, conforme descrito em artigo de 2010 na PLoS One. Falta agora esmiuçar os mecanismos moleculares envolvidos nessa divisão sincronizada de estruturas. Cristina conta com o avanço tecnológico e dos conhecimentos científicos, que proporcionam o desenvolvimento de projetos com genomas, transcriptomas e mesmo com redes metabólicas. “É uma visão mais integrada, que nos permitirá entender mais profundamente essa relação simbiótica”, diz Cristina.
© CAROLINA CATTA-PRETA/UFRJ
O simbionte (verde) lidera o processo de divisão junto ao núcleo (azul). O cinetoplasto (vermelho,/em>) se divide em seguida
O simbionte (verde) lidera o processo de divisão junto ao núcleo (azul). O cinetoplasto (vermelho), se divide em seguida. Estruturas aparecem em reconstrução tridimensional…

Parcerias

A amplitude do trabalho exige a reunião de especialidades diferentes. No Rio de Janeiro, Cristina conta com colegas da UFRJ e do Instituto Oswaldo Cruz. Mas ela também ampliou os horizontes geográficos e mergulhou nos aspectos celulares e genéticos com a ajuda, em parte, de colaboradores de São Paulo, onde encontrou interlocutores interessados na questão evolutiva. Um deles é o parasitologista Erney Plessmann de Camargo, da Universidade de São Paulo (USP). Renomado por suas pesquisas com T. cruzi (ver entrevista em Pesquisa FAPESP nº 204), desde os anos 1980 ele se interessa pelo estudo da endossimbiose em tripanossomatídeos e mais recentemente empreendeu o sequenciamento de cinco espécies que contêm bactéria simbiótica em parceria com o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), em Petrópolis, na serra carioca. Em estudo publicado em 2013 na PLoS One, Cristina fez análises dos genomas de duas dessas espécies e mostrou perda de genes nas bactérias. “É um genoma reduzido, mas bastante funcional, capaz de completar vias biossintéticas essenciais do protozoário hospedeiro”, comenta, comparando a uma árvore bonsai.
Esses resultados ajudam a explicar algo que chamou a atenção de Cristina quando tinha 18 anos e começava um estágio no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho: a baixíssima exigência nutricional de um parasita de insetos quando comparada à de outros tripanossomatídeos. Já naquela época, o microscópio eletrônico ajudou a flagrar a bactéria simbiótica. Mais tarde, o genoma de protozoários e respectivos endossimbiontes corroborou dados obtidos em estudos nutricionais e bioquímicos, indicando uma intensa troca metabólica entre os dois organismos.

Graças à bactéria, o protozoário consegue produzir praticamente todos os aminoácidos necessários, enquanto os tripanossomatídeos sem simbionte precisam ter o meio de cultura suplementado. O mesmo vale para o heme, composto à base de ferro, que faz parte de proteínas como a hemoglobina do sangue. “As bactérias sintetizam heme, que acaba sendo importante para o crescimento do protozoário”, conta o biólogo Sergio Schenkman, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), coautor do artigo. “Os protozoários que causam doenças não fabricam heme, por isso precisam ser parasitas.” Para o pesquisador, essa lacuna cria neles um ponto fraco que pode ser usado como arma contra a doença ou para entendê-la.

A autossuficiência em relação aos nutrientes pode ser essencial nas sete espécies caracterizadas pela endossimbiose. Elas infectam apenas insetos, de nutrição inconstante. “Protozoários que parasitam vertebrados encontram um ambiente nutricional, no sangue ou no interior das células, mais rico”, compara Cristina. Sua associação com o grupo de Schenkman e o da bióloga Carolina Elias, do Instituto Butantan, tem cerca de uma década e busca elucidar aspectos do ciclo celular do protozoário e entender como a bactéria pode coevoluir com a célula hospedeira. “O ciclo celular só era conhecido em T. brucei, que não tem endossimbionte”, lembra o pesquisador da Unifesp. Em sua visão, só é possível compreender um organismo quando se detalha o seu processo de divisão celular para reprodução, a mitose, e quais moléculas o regulam. No caso dos protozoários e seus endossimbiontes, eles ainda não chegaram lá. “Não sabemos como o hospedeiro controla a formação do anel que provoca a divisão das bactérias.”
O objetivo é refinar cada vez mais a compreensão desse sistema integrado. Um enfoque na parceria com Schenkman, parte do trabalho de Carolina Catta-Preta, é usar o sistema de interferência de RNA, o RNAi, para influir no ciclo celular de A. deanei. É uma ferramenta mais precisa para manipular pontos exatos do controle da divisão celular, uma vez que sejam identificadas as sequências-alvo no organismo. Resultados ainda não publicados mostram que esse é um caminho promissor para corroborar e aprofundar o que já foi descrito com a ajuda de drogas que bloqueiam a divisão das bactérias, entre outros aspectos.
Em colaboração com colegas franceses, das universidades de Lyon e de Bordeaux e do LNCC, Cristina também está detalhando a rede metabólica e o metabolismo energético desses organismos por meio de análises em computador das sequências genéticas identificadas.
© MODIFICADA DE CATTA-PRETA ET AL., 2015, FRONTIERS IN MICROBIOLOGY
Estruturas aparecem em reconstrução tridimensional e ao microscópio eletrônico de transmissão
… e ao microscópio eletrônico de transmissão

Origem

Ainda há um longo caminho a trilhar para compreender esses organismos compostos, mas o olhar de Cristina vai muito além deles. “Usamos a endossimbionte em tripanossomatídeos para entender como surgiram as organelas na célula eucariota e também a sua estrutura e funcionamento otimizados”, conta. “Estabelecer como o protozoário controla a divisão da bactéria tem relação direta com a origem da mitocôndria na célula eucariota.”

Os estudos evolutivos mostram que as bactérias simbióticas das diferentes espécies de tripanossomatídeos têm um único ancestral, conforme mostra o estudo de 2013 na BMC Evolutionary Biology, cujo primeiro autor é o biólogo João Alves, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. O estudo indica ainda a transferência de genes de bactérias para o núcleo da célula hospedeira – tanto das endossimbiontes como de outras já perdidas. Algumas dessas transferências gênicas completam vias de síntese de aminoácidos essenciais para o protozoário.

A origem única do endossimbionte em tripanossomatídeos é mais um paralelo com o surgimento das organelas, como a mitocôndria, que deriva de um único encontro entre microrganismos. A teoria conhecida como endossimbiótica, que descreve esse acontecimento, se popularizou a partir dos anos 1970, com a publicação do livro Origem das células eucariotas, da evolucionista norte-americana Lynn Margulis, mas é bem mais antiga que isso. Em 1905, o biólogo russo Konstantin Mereschkowski propôs que estruturas de células vegetais teriam surgido de uma cianobactéria.

De lá para cá uma infinidade de estudos corrobora essa ideia, mas investigar e descobrir como esse processo pode ter acontecido é um privilégio de poucos. Os endossimbiontes dos tripanossomatídeos estão no meio do caminho evolutivo entre bactérias de vida livre e organelas. Tendo perdido a maior parte do seu material genético e da sua parede celular, eles não têm existência autônoma na natureza. Na prática, a associação já funciona como um organismo único, embora seja possível “curar” o protozoário por meio de tratamento com antibióticos. Uma cura útil na pesquisa, mas pouco desejável do ponto de vista do organismo, já que o condena a uma vida em laboratório, com nutrientes fornecidos pelos pesquisadores.

“Vejo a endossimbiose em tripanossomatídeos como um caso de amor eterno e isso sempre me incentivou a estudar essa história”, diz Cristina, comparando o casamento entre os dois microrganismos ao interesse que a move.

Mesmo dedicando a maior parte de seu tempo ao microscópio, ao laboratório e a análises em computador, Cristina afirma que sua ferramenta principal de trabalho é o pensamento. Por isso, há mais de 10 anos ela também se dedica a cursar especializações em filosofia e até ministra disciplinas de filosofia para a pós-graduação em biofísica. Esse olhar multidisciplinar vai além da ciência de bancada e lhe dá uma visão ampla. “O parasitismo também é uma forma de simbiose, porque o termo simbiose significa viver junto”, afirma, tornando mais abrangente o fascínio por seu objeto de estudo. “São dois lados da moeda em um único ser: o protozoário é ao mesmo tempo parasita do inseto e hospedeiro do endossimbionte.”

Artigos científicos

CATTA-PRETA, C. M. et al. Endosymbiosis in trypanosomatid protozoa: the bacterium division is controlled during the host cell cycle. Frontiers in Microbiology. v.6, artigo 520. 2 jun. 2015.

ALVES, J. M. P. et al. Endosymbiosis in trypanosomatids: the genomic cooperation between bacterium and host in the synthesis of essential amino acids is heavily influenced by multiple horizontal gene transfers. BMC Evolutionary Biology. v. 13, p. 190. 9 set. 2013.

MOTTA, M. C. M. et al. Predicting the proteins of Angomonas deanei, Strigomonas culicis and their respective endosymbionts reveals new aspects of the Trypanosomatidae family. PLoS One. v. 8, n. 4, e60209. 2 jun. 2013.

MOTTA, M. C. M. et al. The bacterium endosymbiont of Crithidia deanei undergoes coordinated division with the host cell nucleus. PLoS One. v. 5, n. 8, e12415. 26 ago. 2010.

domingo, 27 de setembro de 2015

A Biologia da Diarreia

Por Marcus V. Cabral

As principais características da diarreia são o aumento do número de evacuações e a perda de consistência das fezes, que se tornam aguadas.Uma das piores complicações da diarreia é a desidratação. Adultos são mais resistentes, mas bebês, crianças e idosos desidratam-se com facilidade. Boca seca, lábios rachados, letargia, confusão mental e diminuição da urina são sintomas de desidratação que, além de diminuir as reservas de água do corpo humano constituído por cerca de 75% de água, reduzem os níveis de dois importantes minerais: sódio e potássio.

Causas

* Toxinas bacterianas como a do estafilococus;
* Infecções por bactérias como a Salmonella e a Shighella;
* Infecções virais;
* Disfunção da motilidade do tubo digestivo;
* Parasitas intestinais causadores de amebíase e giardíase;
* Efeitos colaterais de algumas drogas, por exemplo, antibióticos, altas doses de vitamina C e alguns medicamentos para o coração e câncer;
* Abuso de laxantes;
* Intolerância a derivados do leite pela incapacidade de digerir lactose (açúcar do leite);
* Intolerância ao sorbitol, adoçante obtido a partir da glicose.

Tipos de diarreia 

a) Diarreia comum: caracteriza-se normalmente por provocar apenas fezes soltas e aguadas. Ocorre mais em crianças. Pode estar associada a uma combinação de estresse, remédios e alimentos. Por exemplo, excesso de gorduras, de cafeína, mudança do tipo de água ingerida ou mesmo ansiedade diante de acontecimentos importantes podem provocar esse tipo de diarréia;

b) Diarreia infecciosa – comum em crianças, provoca além dos sintomas da diarréia comum, febre, perda de energia e de apetite. É causada por viroses e bactérias. Se não for convenientemente tratada, pode demorar até uma semana os sintomas desaparecerem;

c) Amebíase – pode ocasionar desde leve dor de estômago e flatulência até febre, prisão de ventre, debilidade física e fezes aguadas com manchas de sangue. É causada por um protozoário que invade o sistema gastrintestinal transportado por água ou comida contaminada. Infecção típica dos trópicos, manifesta-se também nos habitantes de regiões de clima temperado;

d) Giardíase – causada pela giárdia, um protozoário, seus sintomas variam da simples dor estomacal à diarréia persistente ou à presença de fezes pastosas. Outros sintomas também podem aparecer: desconforto abdominal, eructação (arroto), dor de cabeça e fadiga. A giárdia espalha-se no aparelho digestivo através da ingestão de água e alimentos contaminados. Também pode ser transmitida por relações sexuais ou por excrementos;

e) Intolerância à lactose – algumas pessoas não conseguem digerir a lactose, açúcar encontrado no leite e seus derivados, porque não produzem uma enzima chamada lactase. Entre seus sintomas, destacam-se tanto diarreia quanto prisão de ventre, desarranjos estomacais e gases.

Recomendações

* Beba muito líquido, de 2 a 3 litros por dia. Como a água não repõe a perda de sódio e potássio, procure suprir essa necessidade com soro caseiro ou outros líquidos que contenham tais substâncias. Pessoas com pressão alta, diabetes, glaucoma, doenças cardíacas ou com histórico de derrames devem consultar o médico antes de ingerir bebidas que contenha sódio porque correm o risco de elevar a pressão;
* Não deixe de comer. Em geral, pessoas com diarréia associam comida à disfunção gastrintestinal e suspendem toda a alimentação. Tal medida, além de agravar o quadro de desidratação, suspende o fornecimento dos nutrientes necessários para o organismo reagir. Prefira ingerir arroz, caldos de carne magra, bananas, maçãs e torradas. Esses alimentos dão mais consistência às fezes e a banana, especialmente, é rica em potássio;
* Suspenda a ingestão de alimentos com resíduos: saladas, bagaço de frutas e fibras;
* Chás de camomila, erva-doce e hortelã, por exemplo, podem ajudar;
* Evite café, leite, sucos de frutas e álcool que é um desidratante poderoso;
* Evite alimentos muito temperados ou com alto teor de gordura (frituras, alguns cortes de carne, embutidos, etc.) até que as fezes voltem ao normal;
* Não faça uso de adoçantes à base de sorbitol;
* Não se esqueça de lavar bem as mãos várias vezes por dia e, especialmente, antes das refeições ;
* Não deixe de ferver a água de rios, lagos, riachos ou mesmo a de torneiras nos locais em que não seja tratada, se tiver necessidade de bebê-la;
* Não beba refrigerantes ou outra bebida qualquer no próprio vasilhame. Use um copo limpo;
* Faça gelo com água tratada ou fervida;
* Evite consumir leite e derivados, se tiver intolerância à lactose. Lembre-se, porém, de suprir a necessidade de cálcio ingerindo alimentos como salmão, tofu, etc.

Advertência

Diarreia pode ser sintoma inicial de várias doenças sérias: úlcera gastrintestinal, alguns tipos de câncer, AIDS e de patologias que acarretam a má absorção dos nutrientes. Não se descuide e procure assistência médica imediatamente:
* Se os sintomas não passarem em um ou dois dias. Crianças e idosos desidratam muito depressa. É preciso estar alerta;
* Se houver presença de sangue nas fezes que adquirem coloração preta ou avermelhada;
* Se as fezes adquiriram aspecto volumoso e com traços evidentes de gordura indicativos de má absorção;
* Se os episódios de diarréia forem repetidos e, principalmente, se eles se alternarem com crises de prisão de ventre (sintomas sugestivos de tumores intestinais).

sábado, 30 de maio de 2015

Reino Protista 1


O Reino Protista, ou Protozoa, é formado pelos eucariotos mais simples existentes no planeta, sendo unicelulares, geralmente microscópicos, heterotróficos, podendo formar colônias. Vivem em variados tipos de habitat, desde aquático até terrestre. Neste grupo também se encontram as algas eucariontes, que no caso são autotróficas. Nesta aula iremos focar no primeiro grupo de organismos citados.
A complexidade da célula de um protozoário é tão grande que desempenha todas as funções que tecidos e órgãos realizam em um ser pluricelular complexo. Por exemplo, esses organismos são capazes de locomoção, respiração, excreção, reprodução e relacionamento com o ambiente. Muitos representantes deste filo adotam a vida parasitária, mas há também os de vida livre e os que vivem em simbiose. 
Os protozoários são divididos em Classes de acordo com seu tipo de locomoção: 

Alguns protozoários, como as amebas, possuem um vacúolo pulsátil, que apresenta função osmorreguladora, removendo o excesso de água que entra na célula. Nos ciliados, há dois vacúolos pulsáteis, que funcionam alternadamente e efetuam a regulação osmótica do organismo.
Os ciliados já apresentam sulco oral para ingestão de alimentos, e poro anal para a expulsão dos restos alimentares.
A reprodução é por divisão binária na maioria dos protozoários, mas também pode ocorrer a conjunção em ciliados, onde o micronúcleo é transmitido entre indivíduos, um processo semelhante a conjungação das bactérias. 
Dentro desse reino também se encontram protozoários com esqueleto constituído de calcário, denominados foraminíferos, que apresentam muitas formas variadas, como ilustrado na figura abaixo:



quarta-feira, 11 de março de 2015

Pesquisa calcula em 8,7 milhões número de espécies existentes

Atualizado em  24 de agosto, 2011
Espécie de arroz selvagem recentemente catalogado
A maioria das espécies já catalogadas são terrestres

O mundo tem cerca de 8,7 milhões de espécies de seres vivos, segundo uma nova estimativa descrita por cientistas como a mais precisa já feita.
O estudo, publicado na revista científica PLoS Biology, observa que a grande maioria dessas espécies ainda não foi identificada e estima que a catalogação de todas elas poderia levar mais de mil anos.
Os pesquisadores advertem ainda que muitas das espécies serão extintas antes de poderem ser estudadas.
Apesar de o número total de espécies no planeta ser um dado exato para ser buscado, seu cálculo com precisão tem se mostrado complicado.
Em um comentário também publicado na PLoS Biology, o ex-presidente da Sociedade Real britânica, Robert May, observa: "É uma indicação notável do narcisismo da humanidade que saibamos que o número de livros na Biblioteca do Congresso americano no dia 1º de fevereiro de 2011 era 22.194.656, mas que não podemos dizer - dentro de uma ordem de magnitude - com quantas espécies de plantas e animais nós divimos o mundo".

Segundo o novo estudo, porém, essa dúvida está respondida. "Estivemos pensando sobre isso por vários anos, com vários métodos diferentes, mas não tivemos nenhum sucesso. Então essa era basicamente nossa última chance, a última coisa que tentamos, e parece ter funcionado", disse o pesquisador Derek Tittensor à BBC.

Tittensor, que trabalha para o Centro de Monitoramento e Preservação Mundial do Programa Ambiental da ONU (Unep-WCMC) e para a Microsoft Research, em Cambridge, na Grã-Bretanha, realizou a pesquisa em conjunto com colegas da Universidade Dalhousie, no Canadá, e da Universidade do Havaí, nos Estados Unidos.

Segundo o estudo, a grande maioria das 8,7 milhões de espécies são animais, com números progressivamente menores de fungos, plantas, protozoários (grupos de organismos unicelulares) e cromistas (grupo que inclui algas e outros microorganismos).
O número exclui bactérias e outros tipos de microorganismos.

Cerca de 1,2 milhão de espécies já foram formalmente descritas, em sua maioria criaturas terrestres.

Taxonomia
Gorilas
Sistema de classificação de espécies usado ainda hoje foi criado em 1758
O método que os pesquisadores usaram para calcular o número total de espécies foi analisar a relação entre as espécies e os grupos mais amplos aos quais pertencem.
Em 1758, o biológo sueco Carl Linnaeus desenvolveu um amplo sistema de taxonomia (a ciência de classificação dos seres vivos), que ainda é usado hoje, com poucas modificações.
Grupos de espécies mais proximamente relacionadas pertencem ao mesmo gênero, que por sua vez são agrupadas em famílias, depois em ordens, em classes, em filos e, finalmente, em reinos (como o reino animal).
Quanto mais alto se olha nessa árvore hierárquica da vida, mais raras se tornam as novas descobertas - o que é pouco surpreendente, já que a descoberta de uma nova espécie será muito mais comum do que a descoberta de um filo ou de uma classe totalmente nova.
Os pesquisadores quantificaram a relação entre a descoberta de novas espécies e a descoberta de grupos mais amplos como filos ou ordens, e então usaram esse dado para prever quantas espécies existem no mundo.

"Descobrimos que, usando números dos grupos taxonômicos mais altos, podemos prever o número de espécies", disse a pesquisadora Sina Adl, da Universidade Dalhousie.
"Esse método previu com precisão o número de espécies em vários grupos bem estudados como mamíferos, peixes e pássaros, indicando a sua confiabilidade", disse.
Com isso, eles chegaram ao número de 8,7 milhões, com uma margem de erro de um milhão para mais ou para menos.

Se isso for correto, então somente 14% das espécies do mundo já foram identificadas - e somente 9% das espécies dos oceanos.

"O resto será principalmente de organismos menores, e uma grande proporção deles estará em lugares de difícil acesso ou onde é difícil de tomar amostras, como os oceanos profundos", afirma Tittensor.
"Quando pensamos em espécies, temos a tendência de pensar em mamíferos ou em pássaros, que são bem conhecidos. Mas se você vai a uma floresta tropical, é fácil encontrar novos insetos, e quando vai para o fundo do mar e colhe material, 90% do que você encontra são espécies desconhecidas", diz.
No atual ritmo de descobertas, a catalogação total seria completada em mais de mil anos, mas novas técnicas como o sequenciamento do DNA podem acelerar esse processo.
Os pesquisadores dizem que não esperam que seus cálculos signifiquem o fim das pesquisas sobre o número de espécies e pedem aos colegas cientistas que refinem os métodos e a conclusão da pesquisa

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Espécie do parasita é determinante na resposta imune à leishmaniose cutânea

15/09/2014
Por Elton Alisson
Agência FAPESP – Profissionais de saúde que atuam na região amazônica deparam-se frequentemente com pacientes com leishmaniose tegumentar (ou cutânea). Esses pacientes podem apresentar desde lesões na pele – que, em alguns imunologicamente resistentes, se curam de forma espontânea – até úlceras nas mucosas que atingem a cartilagem do nariz e o palato, além de nódulos e placas eritematosas infiltradas, incuráveis pelo corpo.


Interação com o hospedeiro varia de acordo com o subgênero e a espécie do protozoário, apontam estudos feitos na USP e em instituições do Pará e do Maranhão (imagem: FMUSP)

“Acompanhamos por mais de 20 anos um paciente com leishmaniose tegumentar cheio de lesões espalhadas pelo corpo que não curaram”, disse Carlos Eduardo Pereira Corbett, professor do Departamento de Patologia e chefe do Laboratório de Patologia de Moléstias Infecciosas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), à Agência FAPESP. “Nesse caso, indicamos ações paliativas, para que o paciente não sofra muito.”
Um grupo de pesquisadores da instituição, em colaboração com colegas do Instituto Evandro Chagas, em Belém (PA), e da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), descobriu, durante pesquisas desenvolvidas no âmbito de um Projeto Temático, que, além de ser influenciada pelo perfil genético e imunológico do hospedeiro, a resposta imune à leishmaniose tegumentar também é determinada pela espécie do parasita.
Alguns dos principais resultados do estudo, coordenado por Corbett, foram publicados nas revistas Archives of Dermatological Research, The Journal of Federation of American Societies for Experimental Biology – Faseb Journal, Parasite Immunology e Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene.
“Constatamos que alguns tipos de lesões cutâneas de leishmaniose tegumentar estão mais relacionados a uma espécie de parasita que modula a resposta imune do paciente infectado para desenvolver resistência ou suscetibilidade à doença”, afirmou Corbett.
A constatação foi feita por meio de estudos realizados pelos pesquisadores com pacientes de áreas endêmicas de leishmaniose no Pará e no Maranhão, diagnosticados e acompanhados por eles, em alguns casos, há cerca de 20 anos.

De acordo com Corbett, a leishmaniose tegumentar é transmitida para os humanos – e para animais silvestres como roedores, marsupiais, edentados e primatas – pela picada de fêmeas de insetos flebotomíneos (Diptera: Psychodidae) infectados por Leishmania. Os pesquisadores estimam que tenha ocorrido, nos últimos cinco anos, cerca de 30 mil casos da doença por ano no Brasil.
Na Amazônia brasileira – que tem a maior variedade de espécies do parasita no mundo e o maior número de casos de infecção no país e na América Latina –, a doença é causada por sete espécies do protozoário, sendo seis do subgênero VianniaL. braziliensis, L. guyanensis, L. shawi, L. lainsoni, L. naiffi e L. lindenbergi – e uma do subgênero Leishmania, a L. amazonensis.

Ao ser infectado por uma dessas espécies de parasita intracelular – que ataca células macrofágicas (hospedeiras) –, o sistema imune do hospedeiro aciona uma série de células de defesa e anticorpos, entre outros mecanismos, que interagem com o protozoário e determinam sua destruição ou sobrevivência e, consequentemente, a resistência ou a suscetibilidade à doença.
Em caso de resistência à doença o hospedeiro pode desenvolver lesões na pele que são curadas espontaneamente. Em casos mais graves de infecção por L. braziliensis, nos quais a resposta imune do organismo ao parasita é muito agressiva, podem ser desencadeadas úlceras nas mucosas.
Já no caso da suscetibilidade, o hospedeiro pode desenvolver, na forma mais grave, lesões cutâneas incuráveis em todo o corpo – em um quadro denominado de leishmaniose alérgica difusa –, como um paciente atendido durante mais de 20 anos pelo pesquisador Fernando Silveira, do Instituto Evandro Chagas de Belém (PA), e um dos pesquisadores principais do projeto.
“A Leishmania tem 250 milhões de anos e foi se adaptando ao longo desse tempo”, disse o pesquisador. “A compreensão dos mecanismos de interação do parasita com o hospedeiro – foco do nosso grupo de pesquisa – ainda representa um grande desafio”, disse.

Papel do parasita

Até agora se sabia que a variação da resposta clínica e imunológica à infecção por Leishmania estava relacionada, principalmente, com o perfil genético e imunológico dos hospedeiros.
Os pesquisadores desse projeto demonstraram que a espécie do parasita também exerce um papel fundamental na determinação do tipo de resposta imune.

As espécies do protozoário do subgênero Viannia, como a L. braziliensis e a L. guyanensis, induzem a produção de duas citocinas (proteínas que modulam a função de células) – IFN-γ e TNF-α – que fazem as células macrofágicas infectadas produzir óxido nítrico (NO) e eliminar o parasita. O hospedeiro, nesse caso, desenvolve resistência à infecção.

Em contrapartida, as espécies do subgênero Leishmania, como a L. amazonensis, estimulam a produção das citocinas como a interleucina-4 (IL-4), interleucina-10 (IL-10) e TGFβ1, que têm capacidade de suprimir a função da citocina IFN-γ e, consequentemente, desativar o macrófago, favorecendo a multiplicação do parasita e a suscetibilidade do hospedeiro à doença.
“É claro que o perfil imunogenético é importante na resposta imune do hospedeiro contra a infecção”, disse Cláudia Maria de Castro Gomes, pesquisadora da FMUSP e uma das pesquisadoras principais do projeto. “Mas observamos por meio de análises de células e tecidos dos pacientes que a espécie do parasita também ajuda a polarizar a resposta ao modulá-la”, avaliou.
Infecção experimental
Para verificar se os resultados poderiam ser observados experimentalmente, os pesquisadores usaram modelos animais. Em um dos estudos, publicado nas revistas Parasite Immunology e Parasitology Research, eles infectaram camundongos com parasitas L. amazonensis e L. braziliensis.
A infecção por L. amazonensis levou à progressão da doença, com aumento do tamanho de lesões e da carga parasitária no animal. Já a infecção por L. braziliensis causou um discreto aumento de lesões entre a sexta e a sétima semana de inoculação do parasita, com posterior regressão e redução da carga parasitária.
“Conseguimos reproduzir e corroborar no modelo experimental os resultados observados na infecção em humanos”, disse Marcia Dalastra Laurenti, professora da FMUSP, que também é uma das pesquisadoras principais do projeto.
Os pesquisadores também realizaram um estudo experimental com cinco espécies de macacos neotropicais – Callithrix jacchus, Callithrix penicillata, Saimiri sciureus, Aotus azarae infulatus e Callimico goeldii –, do Centro de Primatas do Instituto Evandro Chagas em Belém, no Pará.
As células macrofágicas do peritônio dos animais foram infectadas com parasitas das espécies L. braziliensis e L. amazonensis, além da L. infantum chagasi, causadora de leishmaniose visceral, que atinge órgãos como o fígado e baço.

Os resultados do experimento, publicados na Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, indicaram que, apesar de infectadas, as células macrofágicas dos animais controlaram a infecção.
“Observamos que, após 48 horas de infecção, a presença do parasita no interior das células diminuía e tendia a desaparecer”, disse Laurenti. “As células produziam citocinas, reagentes de oxigênio e nitrito que são capazes de controlar o crescimento e destruir o parasita”, explicou.


A fim de aprofundar os estudos e buscar outro modelo experimental de primata suscetível à infecção por Leishmania, os pesquisadores infectaram macacos-prego (Sapajus apella) por via intradérmica na cauda também com parasitas das espécies L. braziliensis e L. amazonensis.
Os resultados do estudo, publicado no fim de agosto na revista BioMed Research International, apontaram que, a exemplo das outras cinco espécies de primatas neotropicais, os macacos-prego também foram capazes de controlar a infecção por Leishmania.

A infecção por L. braziliensis durou, aproximadamente, 300 dias e causou lesões no animal que foram naturalmente cicatrizadas. Já a infecção por L. amazonensis durou menos – por volta de 180 dias – e também foi curada espontaneamente.
“Vimos que o primata é um bom modelo para estudar evolutivamente a forma localizada da doença, que culmina na cura espontânea e resistência”, disse Laurenti. “Das seis espécies de primatas que estudamos experimentalmente nenhuma apresentou suscetibilidade à leishmaniose visceral”, afirmou.