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quarta-feira, 25 de abril de 2018

Taxonomia E Conservação

Taxonomia é necessária para a conservação das espécies

Em um artigo publicado na PLoS Biology em 14 de março de 2018 (Taxonomy based on science is necessary for global conservation), 184 taxonomistas (incluindo pesquisadores e professores da Unicamp, Unesp, UFSM, USP, UFPR, UFRB, UnB, FioCruz, Instituto de Botânica/SP & UFMS) de 37 países escreveram sobre suas preocupações em relação a uma recente proposta sobre uma revisão radical da maneira como os animais e as plantas são nomeados e definidos.

A proposta, detalhada em um artigo na revista Nature  de autoria de Stephen T. Garnett e Les Christidis, argumenta que as abordagens tradicionais para classificar a biodiversidade prejudicam seriamente os esforços de conservação. Eles propõem que, ao contrário de outras disciplinas científicas onde as hipóteses são propostas e testadas sem governança externa, as hipóteses taxonômicas devem estar sujeitas a diretrizes uniformes e sob governança internacional. Em sua proposta, os não cientistas que se apossam das consequências da mudança taxonômica – como advogados, antropólogos e sociólogos – devem compor um órgão de governo internacional encarregado de minimizar as rupturas que as mudanças taxonômicas “arbitrárias” ou “mal justificadas” podem causar aos esforços de conservação.

De uma certa maneira, pode-se considerar que as espécies são as unidades fundamentais da vida e suas nomeações e definições confiáveis são fundamentais para os cientistas e gestores que estudam e conservam a biodiversidade. A conservação das espécies – incluindo o manejo das plantas e dos animais nos quais os seres humanos dependem – exige uma compreensão clara de quem são as espécies e o que as distingue umas das outras.

A clareza na taxonomia também é essencial para definir leis sobre quais espécies são protegidas. Globalmente, espécies descritas de forma imprecisa levam a uma má gestão da pesca, ao desperdício de recursos para a conservação e podem proteger equivocadamente espécies não ameaçadas.

Atualmente, a perda de espécies está se acelerando, a distribuição da maioria está diminuindo e ainda assim, cerca de 85% das espécies terrestres e 90% das espécies marinhas permanecem sem nome. Em uma recente publicação no New York Times, o famoso biólogo evolutivo Edward O. Wilson, com razão, define este como um problema de suma importância para a humanidade.

A comunidade taxonômica do mundo todo está preocupada com o fato de que uma governança não-científica levará à diminuição na precisão taxonômica e deve retardar o progresso taxonômico quando este precisa ser urgentemente acelerado. Os críticos da proposta de Garnett e Christidis afirmam que, porque as espécies não são entidades fixas, mas grupos de organismos vivos e em evolução, o processo de definição de espécies deve permanecer flexível e aberto para incorporar novos dados para ser o mais preciso possível. Eles acreditam que a descoberta taxonômica, como outros empreendimentos científicos, avançará de forma mais rápida e eficiente por meio de testes de hipóteses iterativos, revisão pelos pares acadêmicos e sendo internamente arbitrado, visando o consenso sobre a validade das propostas taxonômicas.

Ambos os lados deste debate concordam que a conservação da biodiversidade requer pesquisa taxonômica robusta e que a falta desta pesquisa está afetando gravemente a conservação. No entanto, os taxonomistas acreditam que a falta de governança externa não é uma das causa dessa crise. Em vez disso, os taxonomistas argumentam que os verdadeiros problemas para esta disciplina são os apoios insuficientes das grandes agências de financiamento e oportunidades inadequadas de treinamento para novos profissionais na área. Enquanto isso, os taxonomistas mais experientes estão envelhecendo, se aposentando e não estão sendo substituídos na mesma proporção.

Assim, a proposta de Garnett e Christidis iria somente limitar a liberdade taxonômica, agravando ainda mais esses problemas.

sábado, 6 de junho de 2015

Análise em crânio revela assassinato brutal há 430 mil anos

  • Javier Trueba/Madrid Scientific Films/Reuters
    Detalhes da fratura mostram que elas foram feitas pelo mesmo objeto em um conflito com vários ataques Detalhes da fratura mostram que elas foram feitas pelo mesmo objeto em um conflito com vários ataques
Uma caverna no norte da Espanha, que há anos vem sendo estudada por arqueólogos, pode ter sido uma cena de um crime. Mais precisamente, de um assassinato acontecido há 430 mil anos.
Um grupo de pesquisadores espanhóis, americanos e chineses estudou dois ferimentos no crânio de um ancestral encontrado na Sima de los Huesos (na Serra de Atapuerca) e concluiu que ele foi assassinado por outro hominídeo.

Segundo a pesquisa, o tipo, a posição das fraturas e o fato de serem quase idênticas sugerem que elas "foram produzidas pelo mesmo objeto em um conflito interpessoal com vários ataques".
Como ambas as fraturas eram potencialmente fatais, os pesquisadores concluíram que a presença delas indica que havia a intenção de matar e que essa descoberta mostra que a violência letal interpessoal é um comportamento humano ancestral.

Os cientistas afirmam que o estudo traz evidências assustadoras de que a violência era parte intrínseca da cultura humana nos seus primórdios.
Eles afirmam ainda que a violência interpessoal (letal ou não letal) na pré-história é como uma janela das relações humanas no passado e que a disputa pode ter ocorrido por fatores como competição por recursos escassos ou defesa de território.

Publicada na revista científica "PLOS One", o estudo "Lethal Interpersonal Violence in the Middle Pleistocene" (Violência interpessoal legal no Pleistoceno Médio) traz as tomografias do crânio que foram usadas pelos pesquisadores.

"Não há sinais de que as fraturas se cicatrizaram e o ângulo dos ferimentos indicam que eles foram feitos quando o osso ainda estava fresco (ou seja, de um humano vivo), o que nos leva a acreditar em assassinato", afirmou Rolf Quam, da universidade americana de Binghamton, em entrevista à rádio NPR.

Hábitos funerários

A pesquisa também joga luz sobre como os hominídeos da época (período Pleistoceno, entre 2.588 milhões e 11,5 mil anos atrás) enterravam seus mortos.
Os pesquisadores afirmam que parte da caverna poderia ter sido usado como depósito para cadáveres, no que pode ser considerado um dos primeiros indícios já registrados sobre o comportamento funerário dos nossos primeiros ancestrais.

A antropóloga Debra Martin, da Universidade de Nevada, é especialista em culturas pré-históricas, incluindo violência.
"Os resultados são muito convincentes. Eu acredito que quanto mais a gente pesquisa e obtém evidências forenses como essas, mais vamos comprovar que a violência é algo que está entre nós desde que a cultura em si tem estado entre nós."

quarta-feira, 11 de março de 2015

Pesquisa calcula em 8,7 milhões número de espécies existentes

Atualizado em  24 de agosto, 2011
Espécie de arroz selvagem recentemente catalogado
A maioria das espécies já catalogadas são terrestres

O mundo tem cerca de 8,7 milhões de espécies de seres vivos, segundo uma nova estimativa descrita por cientistas como a mais precisa já feita.
O estudo, publicado na revista científica PLoS Biology, observa que a grande maioria dessas espécies ainda não foi identificada e estima que a catalogação de todas elas poderia levar mais de mil anos.
Os pesquisadores advertem ainda que muitas das espécies serão extintas antes de poderem ser estudadas.
Apesar de o número total de espécies no planeta ser um dado exato para ser buscado, seu cálculo com precisão tem se mostrado complicado.
Em um comentário também publicado na PLoS Biology, o ex-presidente da Sociedade Real britânica, Robert May, observa: "É uma indicação notável do narcisismo da humanidade que saibamos que o número de livros na Biblioteca do Congresso americano no dia 1º de fevereiro de 2011 era 22.194.656, mas que não podemos dizer - dentro de uma ordem de magnitude - com quantas espécies de plantas e animais nós divimos o mundo".

Segundo o novo estudo, porém, essa dúvida está respondida. "Estivemos pensando sobre isso por vários anos, com vários métodos diferentes, mas não tivemos nenhum sucesso. Então essa era basicamente nossa última chance, a última coisa que tentamos, e parece ter funcionado", disse o pesquisador Derek Tittensor à BBC.

Tittensor, que trabalha para o Centro de Monitoramento e Preservação Mundial do Programa Ambiental da ONU (Unep-WCMC) e para a Microsoft Research, em Cambridge, na Grã-Bretanha, realizou a pesquisa em conjunto com colegas da Universidade Dalhousie, no Canadá, e da Universidade do Havaí, nos Estados Unidos.

Segundo o estudo, a grande maioria das 8,7 milhões de espécies são animais, com números progressivamente menores de fungos, plantas, protozoários (grupos de organismos unicelulares) e cromistas (grupo que inclui algas e outros microorganismos).
O número exclui bactérias e outros tipos de microorganismos.

Cerca de 1,2 milhão de espécies já foram formalmente descritas, em sua maioria criaturas terrestres.

Taxonomia
Gorilas
Sistema de classificação de espécies usado ainda hoje foi criado em 1758
O método que os pesquisadores usaram para calcular o número total de espécies foi analisar a relação entre as espécies e os grupos mais amplos aos quais pertencem.
Em 1758, o biológo sueco Carl Linnaeus desenvolveu um amplo sistema de taxonomia (a ciência de classificação dos seres vivos), que ainda é usado hoje, com poucas modificações.
Grupos de espécies mais proximamente relacionadas pertencem ao mesmo gênero, que por sua vez são agrupadas em famílias, depois em ordens, em classes, em filos e, finalmente, em reinos (como o reino animal).
Quanto mais alto se olha nessa árvore hierárquica da vida, mais raras se tornam as novas descobertas - o que é pouco surpreendente, já que a descoberta de uma nova espécie será muito mais comum do que a descoberta de um filo ou de uma classe totalmente nova.
Os pesquisadores quantificaram a relação entre a descoberta de novas espécies e a descoberta de grupos mais amplos como filos ou ordens, e então usaram esse dado para prever quantas espécies existem no mundo.

"Descobrimos que, usando números dos grupos taxonômicos mais altos, podemos prever o número de espécies", disse a pesquisadora Sina Adl, da Universidade Dalhousie.
"Esse método previu com precisão o número de espécies em vários grupos bem estudados como mamíferos, peixes e pássaros, indicando a sua confiabilidade", disse.
Com isso, eles chegaram ao número de 8,7 milhões, com uma margem de erro de um milhão para mais ou para menos.

Se isso for correto, então somente 14% das espécies do mundo já foram identificadas - e somente 9% das espécies dos oceanos.

"O resto será principalmente de organismos menores, e uma grande proporção deles estará em lugares de difícil acesso ou onde é difícil de tomar amostras, como os oceanos profundos", afirma Tittensor.
"Quando pensamos em espécies, temos a tendência de pensar em mamíferos ou em pássaros, que são bem conhecidos. Mas se você vai a uma floresta tropical, é fácil encontrar novos insetos, e quando vai para o fundo do mar e colhe material, 90% do que você encontra são espécies desconhecidas", diz.
No atual ritmo de descobertas, a catalogação total seria completada em mais de mil anos, mas novas técnicas como o sequenciamento do DNA podem acelerar esse processo.
Os pesquisadores dizem que não esperam que seus cálculos signifiquem o fim das pesquisas sobre o número de espécies e pedem aos colegas cientistas que refinem os métodos e a conclusão da pesquisa