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domingo, 29 de abril de 2018

Human breeding practices found to be likely reason for lack of paternal DNA diversity in modern horses

Práticas de reprodução humana são provavelmente a razão para a falta de diversidade de DNA paterno em cavalos modernos

April 19, 2018 by Bob Yirka, Phys.org report
Credit: CC0 Public Domain
A team of researchers from across Europe has found that human breeding practices, particularly during the Iron Age, are likely the cause of a lack of variability in paternally inherited DNA in modern horses. In their paper published on the open access site Science Advances, the group describes the DNA study they undertook to better understand the genetic history of the modern horse and what they found. 
It has been known for some time that modern horses are genetically diverse, maternally speaking, but have a distinct lack of variability on the paternal side. The prevailing theory regarding this state of affairs is that during the time when horses were first being domesticated there were many more mares than stallions. In this new effort, the researchers suggest a different reason—they believe it is due to selective breeding, particularly during the Iron Age. The group came to this conclusion after conducting an extensive DNA analysis of both modern and ancient horses.

The study consisted of gathering DNA samples from 350 horses covering the past 5,000 years and attempting to genotype them—in the end they were able to genotype just 86 of the samples, but that was enough to provide the team with a means for creating a timeline for four major haplotypes: Y-HT-1 through 4. Y-HT-1, the team notes, is dominant in modern horses. 

To create the timeline, the team divided the DNA samples into four time periods: earlier than 2,200 BC, between 2,200 BC and 900 BC, between 900 BC to 400 AD and from 400 AD till today. In looking at the haplotypes, the researchers found all but Y-HT-1 were heavily represented in the first period, but over time Y-HT-1 became increasingly prominent as the other three became less so.

The researchers note that Y-HT-1 began its progression to dominance during the Bronze Age, a time during which humans were migrating across Eurasia. But the Iron Age was when Y-HT-1 really began to assert itself, a period during which the Roman Empire was reaching across Europe and changing ideas about how horses should be bred by focusing on males instead of females. This, the researchers claim, suggests that the lack of paternal diversity is very likely due to human breeding practices.

More information: Saskia Wutke et al. Decline of genetic diversity in ancient domestic stallions in Europe, Science Advances (2018). DOI: 10.1126/sciadv.aap9691

Abstract
 
Present-day domestic horses are immensely diverse in their maternally inherited mitochondrial DNA, yet they show very little variation on their paternally inherited Y chromosome. Although it has recently been shown that Y chromosomal diversity in domestic horses was higher at least until the Iron Age, when and why this diversity disappeared remain controversial questions. We genotyped 16 recently discovered Y chromosomal single-nucleotide polymorphisms in 96 ancient Eurasian stallions spanning the early domestication stages (Copper and Bronze Age) to the Middle Ages.

Using this Y chromosomal time series, which covers nearly the entire history of horse domestication, we reveal how Y chromosomal diversity changed over time. Our results also show that the lack of multiple stallion lineages in the extant domestic population is caused by neither a founder effect nor random demographic effects but instead is the result of artificial selection—initially during the Iron Age by nomadic people from the Eurasian steppes and later during the Roman period. Moreover, the modern domestic haplotype probably derived from another, already advantageous, haplotype, most likely after the beginning of the domestication. In line with recent findings indicating that the Przewalski and domestic horse lineages remained connected by gene flow after they diverged about 45,000 years ago, we present evidence for Y chromosomal introgression of Przewalski horses into the gene pool of European domestic horses at least until medieval times.


Journal reference: Science Advances search and more info website

domingo, 20 de dezembro de 2015

Modos de restaurar as florestas

Iniciativas testam soluções para recuperar a vegetação de áreas degradadas
BRUNO DE PIERRO | ED. 238 | DEZEMBRO 2015
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Os primeiros resultados de um projeto de restauração ecológica da fazenda Marupiara, no município de Paragominas, no Pará, começam a aparecer quatro anos depois de isoladas as áreas degradadas e plantadas as primeiras mudas de espécies nativas, como açaí e andiroba.

Com emprego de técnicas como o enriquecimento artificial de florestas, que acrescenta novas espécies à vegetação em crescimento, conseguiu-se recuperar cerca de 60% do território parcialmente destruído pela exploração madeireira realizada nas últimas décadas. Dedicada à pecuária de corte, a propriedade tinha 17 hectares em situação irregular em 2011. Essas terras deveriam funcionar como áreas de preservação permanente (APPs), protegendo os rios, o solo e a biodiversidade local. O programa de recuperação também ajudou a diversificar a produção da fazenda: açaí e madeira serão comercializados em breve.
Casos como esse têm potencial para se multiplicar nos próximos anos. Em maio de 2014, o governo federal regulamentou o Cadastro Ambiental Rural (CAR), instrumento criado para regularizar e monitorar cerca de 5,6 milhões de propriedades rurais. Com a conclusão do cadastro, prevista para 2016, terá início o Programa de Regularização Ambiental, que obrigará proprietários rurais a restaurar áreas desmatadas ilegalmente no passado. “Isso deverá aumentar a demanda por projetos de restauração de formação natural no país”, diz o biólogo Ricardo Ribeiro Rodrigues, professor
da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP).
Um dos principais polos da pecuária na Amazônia, Paragominas encabeçou a lista negra do desmatamento do Ministério do Meio Ambiente entre 2008 e 2010. Após pressões do Ministério Público, a cidade conseguiu sair da lista com o apoio da organização não governamental norte-americana The Nature Conservancy, que ajudou a registrar 80% das propriedades no cadastro ambiental rural do estado do Pará. Fora da lista, o dilema passou a ser outro: como evitar que o município voltasse para o rol dos grandes desmatadores? “A resposta não poderia ser outra: deveríamos adotar técnicas modernas capazes de transformar a pecuária praticada na região”, recorda-se Mauro Lucio Costa, dono da fazenda Marupiara e ex-presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas.

O sindicato pediu ajuda a pesquisadores da Esalq-USP, que acumula experiência em estudos de restauração florestal. “Nossos resultados de pesquisa são oriundos de estudos feitos no âmbito do programa Biota-FAPESP”, diz Ricardo Ribeiro Rodrigues, referindo-se à iniciativa lançada em 1999 para mapear a biodiversidade paulista. Rodrigues foi o coordenador do programa entre 2004 e 2009. Um dos resultados foi um documento de 2008 que apresenta diretrizes para conservação e restauração da biodiversidade no estado de São Paulo, tendo como base o conhecimento produzido pelo Biota-FAPESP. O trabalho recomenda, por exemplo, que os fragmentos remanescentes de vegetação nativa sejam considerados em projetos de recuperação, enfatizando as matas ciliares – a vegetação localizada às margens de nascentes, rios, córregos, lagos e represas que protege as águas do assoreamento causado principalmente pela erosão, além de atuar como núcleo de dispersão de sementes e corredores ecológicos.

© REPRODUÇÃO DO LIVRO RESTAURAÇÃO FLORESTAL / EDITORA OFICINA DE TEXTOS
Com pecuária intensiva, foi possível liberar mais espaço para a restauração florestal em áreas degradadas há décadas em Paragominas, no Pará
Com pecuária intensiva, foi possível liberar mais espaço para a restauração florestal em áreas degradadas há décadas em Paragominas, no Pará.

Havia um desafio extra: convencer os produtores de Paragominas avessos a mudanças. “O engajamento da maioria só aconteceu quando se viu que os projetos de restauração eram viáveis e poderiam diversificar a produção, gerando lucro”, diz Costa. Na fazenda Marupiara foram plantadas 12 espécies nativas em áreas de reserva legal, nas quais é permitido o manejo sustentável para o aproveitamento econômico. Entre elas estão o ipê, o freijó, o jatobá, plantas medicinais e também madeireiras, como a andiroba. Também foi realizado um trabalho de melhoramento das áreas de pastagem, que abrigam cerca de 2 mil cabeças de gado. O pasto foi melhorado e adensado nos terrenos mais planos e férteis. Com isso, foi possível colocar mais bois em menos espaço. Enquanto em 2003 a propriedade registrou 0,9 cabeça de gado por hectare, em 2015 a taxa subiu para 3 cabeças por hectare.

Atualmente, Ricardo Rodrigues comanda um projeto de restauração de florestas ciliares, florestas nativas de produção econômica e fragmentos florestais degradados. O objetivo é simular e compreender os efeitos da aplicação do novo Código Florestal. O estudo quer, por exemplo, identificar o potencial de utilização e comercialização de produtos madeireiros e não madeireiros de espécies nativas e desenvolver métodos de baixo custo para a restauração. Paralelamente aos estudos acadêmicos, grupos de pesquisa, como o da Esalq, também se esforçam para testar na prática diversas técnicas disponíveis. Parte do que vem sendo feito no país está reunida no livro Restauração florestal, organizado por Rodrigues junto com Sergius Gandolfi e Pedro Brancalion, também professores da Esalq-USP. O livro foi lançado na 6ª edição do Simpósio de Restauração Ecológica realizado entre os dias 9 e 13 de novembro em São Paulo.
A obra atualiza o referencial teórico elaborado em 2010 para dar suporte técnico ao Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, esforço que reúne 350 instituições públicas e privadas, empresas, órgãos de governos e proprietários. A meta é restaurar 15 milhões de hectares de Mata Atlântica até 2050. “Muitas iniciativas não tinham garantias de sucesso, em função de os projetos estarem sendo implementados de maneira equivocada”, diz Ricardo Rodrigues.

A recuperação florestal em fazendas do interior paulista é uma das iniciativas realizadas no âmbito do Pacto. Em 2012, foram selecionadas três fazendas em Itu, nas quais têm sido feitas ações de restauração voltadas para a compensação ambiental. Funciona assim: o proprietário de uma plantação de cana-de-açúcar que não tenha áreas nas quais possa fazer recuperação florestal em reserva legal pode, por exemplo, investir em áreas naturais remanescentes localizadas em outra propriedade. “Também estamos colocando à venda terrenos de 10 mil metros quadrados em parte das fazendas. Metade da área é de vegetação nativa restaurada. O objetivo é formar um corredor de florestas em meio às construções”, diz a empresária e socióloga Neca Setubal, proprietária de duas fazendas na região.

© REPRODUÇÃO DO LIVRO RESTAURAÇÃO FLORESTAL / EDITORA OFICINA DE TEXTOS
Riacho protegido pela mata ciliar em Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso...
Riacho protegido pela mata ciliar em Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso…

O atual Código Florestal permite a exploração controlada de APPs em pequenas propriedades, desde que sejam utilizadas espécies da região. Já em áreas em que é permitido o manejo sustentável, a lei autoriza o plantio de até 50% de espécies exóticas, como o eucalipto, em meio às nativas. No estado de São Paulo, a primeira resolução editada pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente indicava 247 espécies de árvores para serem usadas em projetos de restauração. O Instituto de Botânica, entidade responsável pela catalogação, anunciou recentemente a lista revisada e ampliada para 2.315 espécies, incluindo não só árvores, mas também samambaias, arbustos, lianas, ervas, entre outros. “A floresta não é feita apenas de árvores. O sucesso da restauração depende da biodiversidade envolvida e da variabilidade genética”, diz Luiz Mauro Barbosa, diretor do instituto. Em 2001, a maioria das áreas de recuperação utilizava no máximo 30 espécies, quase sempre as mesmas. E os viveiros concentravam a produção em poucos tipos de árvores.
Atualmente, há no estado 207 viveiros responsáveis pela produção anual de cerca de 40 milhões de mudas de 800 espécies arbóreas.

A ampliação da lista de espécies será estratégica para o Programa Nascentes, iniciativa de conservação de rios a partir da restauração florestal lançada pelo governo do estado de São Paulo em 2015. O objetivo é proteger 6 mil quilômetros de cursos d’água e restaurar cerca de 20 mil hectares de matas ciliares. Três plantios já foram realizados nas cidades de Joanópolis, Piracaia e Jacareí, utilizando mais de 270 mil mudas. A organização não governamental Iniciativa Verde, que participará de projetos do programa paulista, é uma das entidades que já atuam na região do sistema Cantareira, que abastece parte da capital paulista e outras cidades. A participação da ONG se dá pelo Programa Produtor de Água, da Agência Nacional de Águas (ANA), por meio do edital Iniciativa BNDES Mata Atlântica. “Em três anos, conseguimos perceber que o plantio de mudas melhorou a qualidade da água”, diz Pedro Barral de Sá, diretor florestal da Iniciativa Verde.

O município de Machadinho, no Rio Grande do Sul, também desenvolve há três anos um programa para aumentar a qualidade e a produção da água por meio da proteção de nascentes. Parte da iniciativa consiste em associar a produção de erva-mate com florestas em nascentes de rios e córregos. O projeto mobiliza diversos atores, entre eles a prefeitura da cidade e a Embrapa Florestas. “São mais de 50 propriedades envolvidas. Já conseguimos recuperar algumas nascentes e o caso se tornou uma referência para a proteção de nascentes e restauração ecológica, inclusive com a capacitação de técnicos”, diz Emiliano Santarosa, analista da Embrapa Florestas, responsável por ações de transferência de tecnologia na região.
© REPRODUÇÃO DO LIVRO RESTAURAÇÃO FLORESTAL / EDITORA OFICINA DE TEXTOS
...e outro desprotegido em Piracicaba, no interior paulista: vegetação impede assoreamento dos cursos d’água
…e outro desprotegido em Piracicaba, no interior paulista: vegetação impede assoreamento dos cursos d’água.

Outro método de recuperação implementado pela Embrapa é o sistema agrossilvipastoril, que integra lavoura, pecuária e florestas e é capaz de aumentar a produtividade no campo sem necessidade de expansão da área agrícola sobre a mata virgem. A Embrapa desenvolve projetos desse tipo principalmente com pecuaristas de leite ou de corte, que plantam árvores no pasto. O sombreamento parcial oferece conforto aos animais e, quando bem planejado, resulta em ganhos de produtividade de leite, por exemplo. No Paraná, há mais de 40 propriedades que são referência no uso desse sistema em trabalhos realizados pela Embrapa em parceria com o Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural do Paraná.

Em São Paulo, experiências que integram plantio de cana-de-açúcar com preservação de mata nativa indicam uma via para que a produção de bioenergia e florestas convivam no mesmo espaço. Um estudo feito em 2012 por pesquisadores brasileiros e norte-americanos mostrou que a mata nativa tem capacidade de armazenar 18 vezes mais carbono do que a cana. Já em um levantamento mais recente, pesquisadores da USP junto com colegas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostraram que o estado de São Paulo tem um déficit de 800 mil hectares de florestas que deveriam ser recuperadas. “Uma saída é fazer o plantio da cana no entorno de florestas, ou vice-versa”, sugere Marcos Buckeridge, um dos autores da pesquisa e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) do Bioetanol. “Em restauração florestal, as dificuldades são no sentido de fazer as experiências ganharem escala”, observa.
Ricardo Rodrigues, da Esalq-USP, concorda com esse diagnóstico. “Os projetos colocados em prática no país até agora ainda são muito pontuais”, avalia. A ampliação das iniciativas, afirma Rodrigues, depende de estratégias para reduzir os custos dos projetos de restauração florestal e permitir ganhos econômicos. Em Itu, por exemplo, a recomposição florestal nas três fazendas custou cerca de R$ 20 mil por hectare. Em função do elevado grau de degradação foi necessário fazer o plantio total de sementes ou mudas. “São projetos caros, que precisam ser barateados com uso do conhecimento científico”, diz Rodrigues.

Projeto
 
Restauração ecológica de florestas ciliares, de florestas nativas de produção econômica e de fragmentos florestais degradados (em APP e RL), com base na ecologia de restauração de ecossistemas de referência, visando testar cientificamente os preceitos do Novo Código Florestal Brasileiro (nº 2013/50718-5); Modalidade  Auxílio à Pesquisa – Programa Biota – Projeto Temático; Pesquisador responsável Ricardo Ribeiro Rodrigues (Esalq-USP); Investimento R$ 1.115.645,02.

domingo, 7 de setembro de 2014

Células-tronco ajudam a entender evolução do cérebro de primatas

18/08/2014
Por Karina Toledo, de Campinas
Agência FAPESP – Entender o que ocorreu durante o processo evolutivo que conferiu ao cérebro humano poder cognitivo superior ao dos demais primatas é o objetivo de um grupo de pesquisadores do Salk Institute for Biological Studies, dos Estados Unidos.

Com auxílio da tecnologia que permite criar células-tronco pluripotentes induzidas (IPS, na sigla em inglês) a partir de células da pele e depois transformá-las em neurônios, os cientistas do grupo, liderados por Fred Gage, estão comparando o padrão de expressão dos genes no cérebro de humanos com o de seus parentes evolutivos vivos mais próximos: chimpanzés e bonobos. Também estão investigando como isso se reflete no desenvolvimento das células cerebrais.

Maria Carolina Nasser Marchetto integra grupo de cientistas que tenta desvendar os fatores que conferiram ao cérebro humano poder superior de cognição, com auxílio da tecnologia que permite criar células-tronco pluripotentes induzidas a partir de células da pele e depois transformá-las em neurônios (foto: Salk Institute)

Resultados preliminares foram apresentados pela brasileira Maria Carolina Nasser Marchetto, ex-bolsista da FAPESP que desde 2005 integra a equipe do Salk Institute, durante o evento “Advanced Topics in Genomics and Cell Biology”, realizado entre os dias 4 e 6 de agosto na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) com apoio da FAPESP.

Em entrevista à Agência FAPESP, Marchetto afirmou que os conhecimentos gerados por esse tipo de estudo podem ajudar a identificar os genes importantes para a cognição, que seriam alvos terapêuticos para doenças como autismo, esquizofrenia e Alzheimer.

Agência FAPESP – Que pesquisa você apresentará neste evento?

Maria Carolina Nasser Marchetto – O projeto usa a tecnologia IPS para entender quais são as diferenças entre nós, humanos, e nossos parentes evolutivos mais próximos ainda vivos – os chimpanzés e os bonobos. Em vez de usar essa tecnologia para responder a dúvidas sobre uma doença, tentamos responder a dúvidas sobre a evolução.

Agência FAPESP – Que tipo de dúvidas?

Marchetto – Sob o ponto de vista da conservação genética, somos muito parecidos. Há cerca de 98% de semelhança entre o genoma humano e o de primatas não humanos. A pergunta que tentamos responder é: o que nos torna diferentes? Como somos neurocientistas, acreditamos que grande parte dessa diferença esteja no cérebro, uma vez que a fisiologia dos demais órgãos é muito conservada nos mamíferos. Estudos que comparam cérebros de humanos e de chimpanzés apontam para diferenças em relação ao número de neurônios, aos tipos de neurônios existentes e ao grau de arborização dos dendritos. Algumas estruturas presentes no cérebro dos humanos não estão no de chimpanzés, principalmente no córtex. Como a área de Broca, ligada à linguagem. Então nossa ideia é comparar a morfologia e o funcionamento de neurônios humanos com a de neurônios de chimpanzés e bonobos – em ambos os casos os neurônios são obtidos com a tecnologia IPS. É um projeto exploratório, cuja ideia inicial é investigar o que existe de diferente entre esses dois sistemas.

Agência FAPESP – E quais os resultados até o momento?

Marchetto – Ainda na fase de pluripotência – antes de induzir a diferenciação em células progenitoras – já vimos diferença na expressão de duas proteínas: a APOBEC-3B e a PIWIL2. Esses dois fatores, que atuam como freios que limitam o pulo de elementos móveis no genoma – também chamados genes saltadores –, estão aumentados nas IPS humanas. Isso significa que humanos têm controle maior na mobilização de elementos geradores de variabilidade genética. Já em chimpanzés e bonobos essas proteínas estão pouco expressas e, portanto, eles têm um genoma mais variado geneticamente. Ou seja, se compararmos dois chimpanzés de regiões vizinhas na África, eles terão mais diferenças genéticas entre si do que eu, na América, e uma pessoa da África. Publicamos em um artigo na Nature a hipótese de que para a evolução cultural humana acontecer nós abrimos mão de um excesso de evolução genética. Ou seja, durante o processo evolutivo, o genótipo humano foi ganhando variabilidade até um momento em que se atingiu um ponto ideal e, então, surgiram mecanismos para conter a evolução genética e, paralelamente, começou a acontecer a evolução cultural.

Agência FAPESP – Vocês já chegaram ao ponto de induzir a diferenciação em neurônios e comparar células humanas com as de primatas não humanos?

Marchetto – Sim. Partimos da premissa de que se há 98% de similaridade entre humanos, chimpanzés e bonobos, haverá um ou outro gene codificador de proteína diferente, mas não serão muitos. A grande diferença estaria na dinâmica de expressão dos genes. Estudos feitos com tecido cerebral post-mortem mostraram que os genes expressos no córtex pré-frontal em humanos e chimpanzés são muito parecidos durante os primeiros anos de desenvolvimento. Ao que tudo indica, a expressão de vários genes começa mais cedo em chimpanzés e vai diminuindo com o tempo, enquanto em humanos ela tem início mais demorado, mas continua evoluindo e os neurônios continuam a adquirir características de maturidade por mais tempo. Nós estamos investigando por meio de experimentos in vitro e in vivo como isso ocorre.

Agência FAPESP – De que forma?

Marchetto – Transplantamos células progenitoras de neurônios humanos e de chimpanzé no cérebro de camundongos e avaliamos o estágio de desenvolvimento dos neurônios após duas, quatro, seis, oito, 19 e 26 semanas. Comparamos, ao longo do tempo, características morfológicas que demonstram o grau de maturidade, como o tamanho do corpo da célula, o comprimento do dendrito e o grau de arborização. Olhamos também para a densidade de spines, que são os locais onde ocorre a liberação de neurotransmissores – o que permite a comunicação entre os neurônios. Quanto mais maduro é o neurônio, maior é o número de spines. As análises feitas na segunda semana revelaram que o neurônio humano está menos desenvolvido que o do chimpanzé. Entre a sexta e a oitava semana a relação começa a se inverter. Os neurônios de chimpanzé permanecem no estágio de desenvolvimento em que estavam, às vezes até regridem, enquanto as células humanas continuam se desenvolvendo até a 26ª semana.

Agência FAPESP – E quais são os resultados in vitro?

Marchetto –Acabamos de receber os resultados dos testes e ainda vamos analisar. Mas estamos olhando a expressão de RNA mensageiro – que é o que vai dar origem às proteínas – para ver se há diferença. In vitro é mais difícil analisar por um período prolongado, pois os neurônios não têm suporte suficiente para sobreviver até 26 semanas. Mas conseguimos chegar até oito semanas. Também é mais difícil avaliar morfologia in vitro porque temos uma salada mista celular. Já in vivo estamos comparando apenas os neurônios piramidais do córtex.

Agência FAPESP – Qual é o passo seguinte?

Marchetto – Esses dados preliminares abrem diversos caminhos a serem investigados. Na parte de células pluripotentes, por exemplo, pretendemos descobrir por que aquelas duas proteínas estão menos expressas em chimpanzés e bonobos. O que está regulando esse processo? Também estamos estudando células de um grupo de pacientes brasileiros descoberto recentemente que apresentam uma mutação e não expressam a proteína APOBEC-3B. Vamos criar células IPS desses pacientes para estudar o que acontece com esses elementos móveis do genoma sem essa proteína.

Agência FAPESP – Que tipos de benefícios esse conhecimento sobre a diferença entre cérebro humano e de primatas não humanos pode oferecer?

Marchetto – Se conseguirmos entender como ocorreu a evolução e quais são as diferenças entre humanos e chimpanzés, fica mais claro quais são os genes importantes para a cognição. Isso ajuda a identificar alvos terapêuticos para doenças que afetam a cognição. É um conhecimento de ciência básica que facilita, por exemplo, o processo de desenvolvimento de novas drogas.

Agência FAPESP – Além disso, vocês utilizam a tecnologia de células IPS para estudar as doenças que afetam o cérebro?

Marchetto – A grande dificuldade que enfrentamos ao estudar doenças neurodegenerativas, neuropsiquiátricas ou doenças do desenvolvimento – como autismo – é não saber com exatidão qual é a mutação envolvida. Isso dificulta, por exemplo, a criação de modelos animais para estudo de mecanismos ou para testes de novas drogas. Mas a tecnologia IPS permite usar células do próprio paciente como modelo de estudo e, portanto, a mutação certamente estará presente – ainda que não saibamos aonde. Pegamos uma célula da pele do paciente, induzimos a pluripotência e depois a diferenciação em célula progenitora de neurônio e, em seguida, neurônio. Isso permite, por exemplo, comparar neurônios de um grupo de voluntários com uma forma grave de autismo – pacientes que não falam e que têm o cérebro aumentado ao longo do desenvolvimento – com células de um grupo controle, considerado neurotípico.

Agência FAPESP – Quais características são comparadas?

Marchetto – O número de conexões de cada neurônio, o número de divisões celulares e o padrão de comunicação neuronal são alguns exemplos.