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domingo, 17 de junho de 2012

CABEÇA DINOSSAURO

O crânio do Tapuiassauro, com as mãos dos pesquisadores que o descobriram. (FOTO: Tiago Queiroz/AE)
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Dinossauros … De todos os seres vivos que já habitaram este planeta nos últimos 4 bilhões de anos, certamente nenhum conseguiu ser mais popular do que esses “grandes répteis”.
“Grandes e pequenos”, na verdade, pois havia dinossauros do tamanho de uma galinha, também. Aliás, a diversidade morfológica desses animais, demonstrada pela descoberta de centenas de novas espécies nos últimos anos, é algo inacreditável e, muitas vezes, pouco apreciado pelo público em geral, que costuma focar suas atenções apenas nos dinossauros maiores, mais sanguinolentos e hollywoodianos, tipo Tyrannosaurus rex.
Realmente, o T. rex era um animal impressionante … e eu me lembro bem de quando o vi “ao vivo” no cinema pela primeira vez, em Jurassic Park. Assustador! (obrigado Spielberg) Mas os dinossauros eram muito mais do que simples lagartos gigantes cheios de unhas e dentes … Eles dominaram a Terra por 165 milhões de anos! Você tem ideia do que é isso?

Vamos colocar em perspectiva: Nós, seres humanos modernos (espécie Homo sapiens), só aparecemos no registro fóssil cerca de 200 mil anos atrás. (“mil” … e não “milhões”) E isso, ainda, considerando “moderno” apenas do ponto de vista morfológico. Ou seja: os fósseis mais antigos de pessoas que tinham uma anatomia igual à nossa (“moderna”) têm cerca de 200 mil anos de idade. Antes disso só havia Homo erectus, australopitecinos e outras formas mais primitivas de hominídeos caminhando por aí.
Do ponto de vista “intelectual/cultural”, a história do homem moderno é ainda mais recente. Nossa civilização tem apenas 10 mil anos de idade, a contar da invenção da agricultura (que permitiu ao ser humano abandonar os hábitos nômades e produzir comida suficiente para sustentar populações maiores e construir cidades, dando origem a organizações sociais mais complexas, etc).

Em resumo, no fim das contas, os dinossauros reinaram sobre a Terra nada menos do que 825 vezes mais tempo do que o ser humano moderno – 165 milhões vs. 200 mil anos. Então, imagine tudo que aconteceu em 200 mil anos de história da humanidade, desde os homens das cavernas até a invenção do iPad, e multiplique isso por 825. Esse é o tempo que os dinossauros tiveram para se multiplicar e se diversificar, desde as suas formas mais primitivas até as milhares de espécies, de todos os tipos, hábitos e tamanhos, que se desenvolveram e foram dizimadas pelo impacto de um asteroide, 65 milhões de anos atrás. Por isso há tantos deles por aí! 165 milhões de anos é muita coisa! Suficiente para muitas espécies terem evoluído e se extinguido naturalmente, mesmo antes do cataclisma meteórico.

Hoje há cerca de 1 mil espécies de dinossauros conhecidas no mundo. E pode ter certeza de que isso é apenas uma micro-amostra da real biodiversidade de dinos que existiu naqueles 165 milhões de anos, entre o início do Triássico e o fim do Cretáceo. É só o que tivemos sorte de encontrar, graças a alguma combinação inacreditável de fatores ambientais e geológicos que preservaram esses ossos debaixo da terra e os trouxeram de volta à superfície agora, milhões e milhões de anos mais tarde.

Enter os países com maior abundância de fósseis estão os Estados Unidos, a China e a Argentina. Não necessariamente porque lá tinha mais dinossauros no passado, mas porque lá tem mais pesquisadores no presente … e as condições ambientais são mais propícias tanto para a preservação quanto para o afloramento de fósseis. Mas não se engane: os dinossauros viveram e morreram por toda a parte. E o Brasil não é exceção. (lembrando, claro, que naquela época não existiam países e os continentes atuais estavam, inicialmente, todos conectados numa única grande massa terrestre chamada Pangeia)
O número de espécies descobertas no Brasil ainda é pequeno (17). Mas a tendência é que esse número aumente bastante no futuro próximo, com a intensificação das pesquisas e o fortalecimento da paleontologia nacional. Os fósseis estão por aí, escondidos debaixo da terra … só precisamos encontrá-los e pesquisá-los.

A descoberta mais recente do País é o chamado Tapuiassauro, um gigante pescoçudo de 4 metros de altura e 13 metros de comprimento, cujo fóssil será exposto ao público a partir deste dia 8 no Museu de Zoologia da USP, no Ipiranga. Vale muito a pena conferir! O crânio do bicho está super bem preservado, completo com a mandíbula e todos os dentes na boca. E tem ainda uma réplica em tamanho real do dinossauro, que certamente vai deixar muita criança de boca aberta e olhos arregalados (clique aqui para ver um infográfico interativo com mapas do museu e da exposição).

O Tapuiassauro foi descoberto no interior de Minas Gerais e eu tive o privilégio, como jornalista, de acompanhar boa parte dos trabalhos de pesquisa e descrição do fóssil ao longo dos últimos dois anos. Em setembro do ano passado, o Estadão publicou um caderno especial de 8 páginas sobre o projeto, acompanhado de uma série de vídeos e infográficos que podem ser acessados neste link. Tomara que seja só a primeira de muitas descobertas e muitas reportagens sobre dinossauros brasileiros nos próximos anos.
Imagine só: 120 milhões de anos atrás (idade estimada do Tapuiassauro), esse crânio da foto cima era a cabeça de um dinossauro de verdade, caminhando pelo interior de Minas Gerais! Certamente com muitos outros dinossauros ao redor dele!

O trabalho oficial de descrição científica da espécie, coordenado pelo professor Hussam Zaher, acaba de ser publicado online pela revista PLoS One. E o nome científico do bicho é Tapuiasaurus macedoi! Finalmente!
Abraços a todos.

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