A mineração dos ossos
Um dos venenos mais antigos, potentes e persistentes, o
arsênio – associado ao ouro e liberado na extração desse metal precioso
em rocha dura – acumula-se nos ossos e causa grave intoxicação.
Danos
não são instantâneos, nem evidentes.
Por:
Sergio Ulhoa Dani
Publicado em 16/12/2014
|
Atualizado em 16/12/2014
Cidade de Paracatu (MG), com 80 mil habitantes, aos pés de
uma mina de 'veneno', a arsenopirita. (foto: Cedida por Giorgio Palmera)
A maior mina de ouro do Brasil está situada em Paracatu, na região
noroeste de Minas Gerais, assentada sobre os escombros de um asteroide
que colidiu com a Terra há bilhões de anos, trazendo do espaço um
tesouro venenoso: grãozinhos de ouro incrustados em
arsenopirita, o
principal minério de arsênio. Este artigo aponta os efeitos retardados
dessa colisão ‘lucrativa’ e relata o descaso, no Brasil e no mundo, em
relação ao problema.
O arsênio é um elemento químico do grupo dos ‘metaloides’ ou
‘semimetais’ – os que apresentam algumas das propriedades físicas de um
metal.
O arsênio também é considerado um elemento ferrofílico, por ter a
propriedade de se associar ao ferro e às rochas. Além dos asteroides,
as erupções vulcânicas são importantes fontes naturais de emissão desse
elemento para a biosfera.
Para os seres vivos, o arsênio é um veneno. Ele
atua como substituto instável do fósforo em ampla gama de processos
bioquímicos e nutricionais, impedindo o funcionamento normal do
organismo e causando danos à saúde
Para os seres vivos, o arsênio é um veneno. Ele atua como substituto
instável do fósforo em ampla gama de processos bioquímicos e
nutricionais, provocando os chamados ‘ciclos metabólicos fúteis’, ou
ineficazes, que impedem o funcionamento normal do organismo e causam
danos à saúde. A existência de genes de resistência ao arsênio nos
genomas de quase todos os organismos é um indício forte da toxicidade
desse veneno e de sua presença nos ambientes terrestres nas épocas das
extinções em massa, causadas por colisões de asteroides e/ou por intensa
atividade vulcânica: os organismos que sobreviveram foram os que tinham
genes de resistência ao arsênio.
Não há dose segura para o arsênio, e não existe diferença de
toxicidade entre sua ingestão e sua inalação. Há, entretanto, diferenças
entre suas formas orgânicas e inorgânicas e entre os efeitos agudos e
crônicos. As formas inorgânicas são em geral mais tóxicas que as
orgânicas, embora umas possam se transformar nas outras.
Um dos compostos inorgânicos comuns do elemento, o trióxido de
arsênio, é um veneno inodoro e insípido, conhecido desde a Antiguidade e
usado como o ‘
pó da herança’ por alguns herdeiros impacientes.
Apenas
um grama desse veneno é suficiente para matar, em poucas horas, até sete
pessoas adultas. Estudos científicos revelam que a exposição, ao longo
de anos, a quantidades bem menores – poucas partes por bilhão (ppb), ou
seja, poucos microgramas por quilo (μg/kg) – causa um catálogo de
doenças e debilidades crônicas, de lesões de pele a doenças
hematológicas, imunológicas, metabólicas, respiratórias,
cardiovasculares, gastrointestinais, hepáticas, renais e neurológicas.
Isso inclui várias formas de câncer: o arsênio está no topo da lista dos
agentes carcinogênicos.

- A arsenopirita é
geralmente associada ao ouro (pontos dourados). Na mina de Paracatu, a
concentração média de ouro é de 0,4 g por tonelada; já a de arsênio é de
mais de 1 kg por tonelada. (foto: cedida por Ross Large/ Universidade
da Tasmânia)
Os envenenamentos agudos por arsênio são casos isolados,
caracterizados pela inibição da respiração celular, seguida de morte. O
uso desse elemento para cometer assassinatos é uma prática popularizada
em romances e filmes, como a comédia macabra
Este mundo é um hospício (
Arsenic and old lace,
no título original, de 1944), de Frank Capra. A intoxicação crônica é
menos conhecida, embora comum; ela afeta, no mundo, centenas de milhões
de pessoas, expostas às quantidades crescentes de arsênio liberadas
continuamente no ambiente por certas atividades humanas, entre elas a
mineração de ouro e a queima de combustíveis fósseis e o uso de águas
subterrâneas contaminadas.
O arsênio liberado em atividades humanas é chamado de
‘antropogênico’. Quantidades anormalmente altas de arsênio na água, em
alimentos e em material disperso na atmosfera (poeira e gás) quase
sempre indicam contaminação antropogênica. Em várias partes do mundo têm
sido constatadas intoxicações crônicas de populações humanas, mas em
geral os casos são negligenciados, em razão do longo período de latência
(tempo entre a exposição ao veneno e a manifestação das doenças) e por
conta de conveniências políticas e econômico-financeiras.
Questão mundial
Há séculos, o arsênio tem sido usado como veneno e como droga. Há
mais de 2,4 mil anos, esse elemento faz parte da farmacopeia tradicional
chinesa. O conhecimento científico dos seus efeitos sobre a saúde
humana foi impulsionado, a partir do século 18, pelos casos de
intoxicação de operários da indústria extrativa. Entre os estudos sobre
os efeitos do arsenato sobre as enzimas, destacam-se os trabalhos
pioneiros dos enzimologistas mais notáveis do século 20, entre os quais o
alemão Otto Warburg (1883-1970), o norte-americano Frank Weistheimer
(1912-2007) e o irlandês Henry B. F. Dixon (1928-2008).
Na Alemanha, entre 1920 e 1942, os chamados danos
tardios do arsênio foram notados após muitos anos de exposição ao
veneno e mesmo anos depois que esta terminou
Na Alemanha, a intoxicação crônica de milhares de pessoas por
arsênio, entre 1920 e 1942, nas regiões do Kaiserstuhl e vale do rio
Moselle, foi descrita detalhadamente em estudos científicos e relatórios
oficiais. A intoxicação foi causada pelo uso de inseticidas à base de
arsênio em plantações de uva dessas áreas vinícolas tradicionais do
sudoeste do país. Os chamados danos tardios do arsênio foram notados
após muitos anos de exposição ao veneno e mesmo anos depois que esta
terminou.
O período de latência variou de três a 50 anos (média: 26 anos),
dependendo principalmente da quantidade de arsênio absorvida. Em 2013,
atuando como médico na Alemanha, examinei dois pacientes idosos
sobreviventes dessa intoxicação em massa. O uso de inseticidas contendo
arsênio só foi proibido na Alemanha após o surgimento de inseticidas sem
esse elemento. Hoje, os sindicatos de viticultores alemães reconhecem a
intoxicação crônica e as vítimas têm direito a indenizações.
O arsênio também é a causa do maior envenenamento em massa da
história da humanidade: a atual epidemia de arsenicose em Bangladesh e
na região de Bengala Ocidental (Índia) afeta milhões de pessoas e mata
centenas de milhares por ano de diversos tipos de câncer e outras
doenças. Essa tragédia tem sido documentada em numerosos estudos
científicos e relatórios oficiais, publicados a partir da década de
1990. O gatilho foi a perfuração indiscriminada de cerca de 12 milhões
de poços tubulares de água em subsolo contendo depósitos minerais de
arsênio.