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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

February 7, 2019

Triassic Cancer—Osteosarcoma in a 240-Million-Year-Old Stem-Turtle

JAMA Oncol. Published online February 7, 2019. doi:10.1001/jamaoncol.2018.6766 
 
A paleopatologia, o estudo das doenças antigas, é uma forma vital pela qual entendemos a evolução dos patógenos, do sistema imunológico, da fisiologia da cura e, em última análise, do ambiente.  
 
A pesquisa sobre o câncer concentrou-se em sua prevalência em vários organismos e descobriu que, embora alguns animais tenham alta propensão ao câncer, outros parecem ser resistentes. A prevalência do câncer na árvore da vida é certamente interessante, mas sua antiguidade deve ser considerado com igual interesse considerando o aumento do câncer humano, que tem sido relacionado a mudanças ambientais e genéticas, e a extrema raridade do câncer no registro fóssil.
 
https://jamanetwork.com/journals/jamaoncology/article-abstract/2723578#  

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Estudo destaca relação entre câncer de pênis e mutações no genoma das mitocôndrias Trabalho liderado por pesquisadores da USP e do Centro de Terapia Celular é o primeiro a estudar o genoma mitocondrial para verificar alterações relacionadas aos tumores penianos (ilustração: Molecular Biology Reports)

Estudo destaca relação entre câncer de pênis e mutações no genoma das mitocôndrias

17 de janeiro de 2019

Peter Moon  |  Agência FAPESP – Um estudo publicado por pesquisadores brasileiros na revista Molecular Biology Reports sugere a existência de mutações no genoma mitocondrial que podem favorecer a progressão do tumor peniano.

O câncer de pênis é um tumor raro nos países desenvolvidos, representando cerca de 0,4% das neoplasias malignas em homens, na Europa e nos Estados Unidos. No Brasil a incidência é bem maior. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), esse tipo de tumor corresponde a 2% de todos os casos de câncer que atingem o homem.
“É a primeira vez que se estuda o genoma mitocondrial para verificar alterações que possam estar relacionadas ao tumor peniano”, disse Wilson Araújo da Silva Junior, professor na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) e um dos autores principais do trabalho, que foi conduzido no âmbito do Centro de Terapia Celular (CTC), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) financiados pela FAPESP.

O tipo mais frequente do câncer de pênis é o carcinoma epidermoide, também denominado espinocelular ou escamoso, que representa 95% dos tumores malignos do pênis. Apesar de o câncer peniano ser uma doença com alto potencial de cura se identificada em estágios mais precoces, a demora no diagnóstico e na procura por tratamento específico é observada em mais de 50% dos casos.

O câncer peniano apresenta maior incidência em homens que vivem em regiões rurais e com idades a partir dos 50 anos, embora possa atingir os mais jovens. Está relacionado a baixas condições socioeconômicas e de instrução. A doença é causada principalmente pela falta de higiene íntima e tem forte prevalência em homens com fimose.

"Quem se submete à cirurgia de fimose tem menores chances de desenvolver a doença”, disse Rodolfo Borges dos Reis, professor na FMRP-USP e o autor principal do estudo.
O câncer de pênis inicialmente não apresenta sintomas, mas tem como causa principal o acúmulo de secreções na glande. Essa “sujeira” pode evoluir para uma lesão tumoral com possibilidade de progredir localmente ou a distância.
Em muitos casos, os doentes procuram ajuda quando o pênis já está muito acometido, muitas vezes com a lesão já infectada e invadindo as estruturas penianas. Infelizmente, nesse estágio, a terapia sistêmica é pouca efetiva. Desse modo, a cirurgia, amputação parcial ou total do órgão, ainda é o principal método terapêutico. Segundo o Datasus, são realizadas cerca de mil amputações penianas ao ano no Brasil. 

 DNA mitocondrial

Mitocôndrias são organelas que existem nas células eucarióticas, que têm como função realizar as reações de conversão de energia para as células. Estima-se que as mitocôndrias se originaram há mais de 2 bilhões de anos, quando alguns microrganismos desenvolveram uma simbiose com bactérias invasoras.
Em troca do fornecimento constante de alimento, aquelas antigas bactérias teriam passado a viver no interior das primeiras células eucarióticas, fornecendo energia. Com o passar das gerações, os descendentes daquelas bactérias invasoras se tornaram organelas celulares, ou seja, as mitocôndrias.
Por descenderem de uma bactéria ancestral, as mitocôndrias possuem uma particularidade: elas preservam em seu interior vestígios da bactéria independente que foram um dia.
O principal vestígio é o DNA mitocondrial, um tipo de genoma com cerca de 16,5 mil pares de bases que é particular às mitocôndrias – e que não se confunde com o genoma nuclear, que é constituído de 23 pares de cromossomos herdados dos parentais e, no caso dos humanos, possui cerca de 3 bilhões de bases.

A principal função da mitocôndria é fornecer a maior parte da energia útil das células, por meio do processo chamado de respiração celular. Em uma única célula humana, por exemplo, há cerca de 10 mil mitocôndrias, cada uma delas contendo milhares de cópias do DNA mitocondrial.
"A característica principal que define as células tumorais é o seu crescimento e multiplicação descontrolados, formando tumores. Para crescer, os tumores precisam de muita energia, e a fonte desta energia são as mitocôndrias. Logo, faz sentido pensar que a célula tumoral utilize mecanismos que possam preservá-las. Nesse contexto a mitocôndria e seu genoma tem um papel crucial”, disse Reis.

Segundo ele, alterações do genoma mitocondrial são comuns em muitos tipos de tumores e são descritas como reguladoras do metabolismo oxidativo com impacto direto na progressão tumoral.
"Foi demonstrado que a mitocôndria tem um papel importante na progressão de diversos tipos de tumores. No caso do tumor peniano, as alterações do genoma mitocondrial não haviam ainda sido descritas”, disse Reis.
Silva Junior destaca que os resultados do estudo demostraram um aumento da instabilidade do genoma mitocondrial no tecido tumoral. “Analisamos pela primeira vez o genoma mitocondrial no carcinoma peniano, com o objetivo de avaliar a heteroplasmia, a sua carga mutacional e o conteúdo de DNA mitocondrial em tumores penianos”, disse. Heteroplasmia é a presença de mais de um tipo de genoma mitocondrial em uma mesma célula.

Utilizando sequenciamento de nova geração, os pesquisadores analisaram o genoma mitocondrial de 13 tumores penianos (de 13 pacientes) e 12 amostras de tecido peniano saudável, o que permitiu identificar variantes de DNA mitocondrial e o grau de heteroplasmia.

O sequenciamento do genoma mitocondrial revelou a redução do número de cópias, juntamente com um aumento do número de variantes de DNA mitocondrial no tecido tumoral, confirmando o aumento da instabilidade do genoma mitocondrial nos tumores penianos.
"Descrevemos uma lista de variantes mitocondriais encontradas no tumor do pênis, incluindo cinco novas variantes encontradas especificamente no tecido tumoral. Avaliamos ainda a patogenicidade das variantes, ou seja, a capacidade das variantes em contribuir para a evolução da doença”, disse Reis.

“Também sugerimos que a redução do número de cópias e o aumento da instabilidade do genoma mitocondrial podem atuar em conjunto contribuindo para o desequilíbrio do metabolismo celular dos tumores penianos”, disse Silva Junior.

É a primeira vez que se estabelece um vínculo entre o câncer peniano e o genoma mitocondrial. O trabalho dos pesquisadores indica que a melhor compreensão da biologia mitocondrial pode, eventualmente, abrir um novo campo para a terapia no carcinoma peniano.

O artigo Mitochondrial genome analysis in penile carcinoma (doi: https://doi.org/10.1007/s11033-018-4197-5), de L.F. Araújo, A.T. Terra Jr., C.T.G. Sares, C.F.R. Sobreira, E.F.Faria, R.D. Machado, A.A. Rodrigues Jr., V.F. Muglia, W.A. Silva Jr. e R.B. Reis, pode ser lido em https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs11033-018-4197-5.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

O câncer contagioso pode ter eliminado os primeiros cães da América

O estudo do genoma antigo descobriu que os cães indígenas da América do Norte e do Sul se separaram de outros caninos domésticos há cerca de 15 mil anos.

NEWS
Ceramic sculptures, including this roughly 2,000-year-old figure from a burial in western Mexico, show the importance of dogs to ancient humans.Credit: The Walters Art Museum/CC0 1.0
Uma vasta população de cães domésticos indígenas já percorreu as Américas, conclui um dos maiores estudos já realizados sobre DNA antigo de cães, publicado na Science em 5 de julho. Hoje, quase nada resta desta família de cães, além de um câncer transmissível bizarro.

O mais antigo cão doméstico conhecido que permanece nas Américas são esqueletos de aproximadamente 9.900 anos de idade de um local em Illinois; eles foram deliberadamente enterrados, implicando que os animais eram importantes para seus donos2. Mas exatamente quando esses cães chegaram às Américas ou como eles se relacionam com cães domésticos em outros lugares não está claro, diz Angela Perri, arqueóloga da Universidade de Durham, no Reino Unido. Para descobrir, Perri e seus colegas analisaram o DNA de 71 cães antigos que viveram na América do Norte e na Sibéria nos últimos 10 mil anos. Com base nos genomas mitocondriais dos animais - que são herdados maternalmente - os pesquisadores descobriram que todos os antigos cães americanos pertenciam à mesma população, distintos dos modernos e antigos cães da Eurásia. A análise dos genomas nucleares de sete dos caninos confirmou isso.
 


População Isolada


A partir dos dados do genoma, os pesquisadores estimam que o último ancestral comum dos antigos cães americanos viveu cerca de 14.600 anos atrás - e que se separou dos cães da Sibéria cerca de 1.000 anos antes disso. Os humanos cruzaram o Alasca pela Ásia há cerca de 20 mil anos, e os cães podem ter sido importados por ondas posteriores de caçadores-coletores. Para estudar o legado dos primeiros cães americanos, os pesquisadores examinaram o DNA de mais de 5.000 cães modernos das Américas do Norte e do Sul. A equipe concluiu que esses animais traçaram apenas 2-4% de sua ancestralidade para cães indígenas americanos.

Os pesquisadores especulam que quando os europeus chegaram ao Novo Mundo no século 15, eles favoreceram seus próprios cães e os impediram de se reproduzir com os indígenas, e assim os cães indígenas morreram. Isso faria sentido, diz Elaine Ostrander, geneticista do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano, em Bethesda, Maryland. "Você vai acreditar que o que você traz consigo é melhor do que o que já está lá", diz ela.

Canine cancer

Elinor Karlsson, geneticista do Instituto Broad, em Cambridge, Massachusetts, não é persuadida. "Parece ridículo para mim, dada a escala de perda dos cães, argumentar que isso se resumia a preferência humana", diz ela. Em um ensaio3 que acompanha o trabalho de pesquisa, ela sugere que um câncer contagioso contribuiu para o desaparecimento dos cães indígenas.   O tumor venéreo transmissível canino (CTVT) é um dos poucos tipos de câncer contagioso conhecidos - mais famosas são as duas formas que ameaçam os demônios da Tasmânia com extinção. O CTVT é um clone parasitário de um tumor que surgiu em um único cão e se tornou global desde então, em grande parte devido ao contato entre os cães durante o acasalamento. Cria tumores grandes nos genitais de machos e fêmeas. A ideia de Karlsson emerge da descoberta do jornal de que o CTVT se originou a partir de 8.225 anos atrás, em um cão que estava mais relacionado aos cães indígenas americanos do que aos cães eurasianos modernos.

Apesar de seus estreitos laços genéticos com cães indígenas americanos, os pesquisadores acreditam que o tumor surgiu na Ásia em um parente da população de cães que havia entrado nas Américas vários milênios antes. Outras evidências sugerem que o tumor se diversificou em cães asiáticos, antes de se espalhar para a Europa e África nos últimos 2.000 anos4. Provavelmente chegou às Américas há apenas 500 anos, com a chegada dos europeus e seus cães.

Karlsson especula que a estreita relação genética entre o tumor e os cães indígenas americanos poderia explicar o desaparecimento dos cães. O CTVT não é fatal na maioria dos cães, porque o seu sistema imunitário reconhece as células tumorais como estranhas e limita os danos que causam. Talvez, diz Karlsson, o sistema imunológico dos cães indígenas americanos tenha negligenciado as células tumorais porque o DNA das células era tão semelhante ao deles. Os tumores poderiam, então, ter crescido de forma mais agressiva em cães indígenas, eventualmente matando-os ou impedindo-os de acasalar.

Elizabeth Murchison, geneticista da Universidade de Cambridge, Reino Unido, que liderou o estudo mais recente, considera que isso é uma explicação plausível para o desaparecimento de cães indígenas americanos. "O último vestígio remanescente do grupo desse cachorro pode ter contribuído para sua queda", diz ela.

doi: 10.1038/d41586-018-05645-5
 

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Where did America’s dogs come from—and why did they disappear?
Darya Ponomaryova/Alamy Stock Photo
Os primeiros cães da América viveram com as pessoas por milhares de anos. Então eles desapareceram.
"É realmente uma ótima pesquisa", diz Jennifer Raff, geneticista antropológica da Universidade do Kansas, em Lawrence, e especialista no povoamento da América do Norte.

O trabalho apoia a evidência emergente de que os primeiros americanos não trouxeram cães com eles. Em vez disso, diz Raff, os animais podem ter vindo milhares de anos depois. Nos anos 60 e 70, arqueólogos escavaram dois locais no oeste de Illinois, onde antigos caçadores-coletores coletavam moluscos de um rio próximo e perseguiam cervos em florestas vizinhas. Essas pessoas também parecem ter enterrado seus cães: um foi encontrado em um local conhecido como Stilwell II e quatro em um local chamado Koster, encolhido em poços de cascalho individuais.
A 10,000-year-old dog burial at the Koster site in western Illinois.
Del Baston, courtesy Center for American Archeology


Um segundo estudo, publicado hoje na Science, pode ter a resposta. Uma grande equipe internacional de pesquisadores sequenciou o DNA das mitocôndrias, ou usinas de energia celular, de 71 ossos de cães norte-americanos e siberianos - incluindo um dos cães de Koster - datados de cerca de 10 mil a mil anos atrás. Quando compararam esse material, que é passado apenas pela mãe, ao de 145 cães modernos e antigos, descobriram que os antigos cães americanos têm uma assinatura genética que não se encontra em nenhum outro cão.

"Eles formam seu próprio grupo que tem sua própria história", diz Perri, também um dos principais autores do artigo da Science. Isso significa que os cães lupinos que Audubon encontrou eram de fato geneticamente distintos dos europeus. Esses “cães pré-contatados”, como a equipe os chama, estão mais intimamente relacionados com cães de 9.000 anos da Ilha de Zhokhov, na Rússia, a centenas de quilômetros ao norte do continente siberiano. 

Ao assumir uma taxa de mutação de DNA relativamente constante e usá-la como um "relógio molecular", a equipe conclui que os dois grupos de cães podem ter compartilhado um ancestral há quase 16.000 anos. Ainda não está claro exatamente onde ou quando os cães surgiram, mas poderia ter sido nessa época.

Taken together with archaeological findings, the data suggest that the first dogs may have come to the Americas from Siberia thousands of years after the first people, says team leader Laurent Frantz, an evolutionary geneticist at the University of Oxford in the United Kingdom. Humans likely entered the Americas around 16,000 years ago over the Bering land bridge, which connected Siberia to Alaska. The bridge disappeared about 11,000 years ago—by which time dogs must have already made it over, Frantz says.

Tomados em conjunto com descobertas arqueológicas, os dados sugerem que os primeiros cães podem ter vindo da Américas para a Sibéria milhares de anos depois das primeiras pessoas, diz o líder da equipe Laurent Frantz, geneticista evolucionário da Universidade de Oxford, no Reino Unido. Os seres humanos provavelmente entraram nas Américas há cerca de 16.000 anos na ponte terrestre de Bering, que ligava a Sibéria ao Alasca. A ponte desapareceu há cerca de 11.000 anos - época em que os cães já devem ter feito isso, diz Frantz.Os cães podem ter saído com as pessoas no Alasca por um tempo, ou alguns podem ter viajado com humanos para o interior da América do Norte, onde acabaram em locais como Koster e Sitwell II. "As pessoas estavam se movimentando muito", diz Raff. Uma vez que viram como os cães eram úteis - para rastrear veados, transportar suprimentos e guardar campos - os humanos poderiam ter começado a trazer mais deles para a jornada.

“É uma história arrumada que adiciona alguma base para o que as pessoas achavam que estava acontecendo”, diz Melinda Zeder, arqueozoologista do Museu Nacional de História Natural da Smithsonian Institution, em Washington, DC Mas ela observa que relógios moleculares são apenas uma aproximação e outros ossos misteriosos Os encontrados na Sibéria e no Yukon podem pertencer a cães, possivelmente empurrando sua chegada às Américas mais cedo por milhares de anos. "É difícil chegar a uma conclusão firme."

Additional analysis of the nuclear genome—inherited from both parents—of seven precontact dogs supports the idea that they are genetically distinct. Their closest living relatives are Arctic breeds such as Alaskan malamutes and Siberian huskies. These modern dogs may have come from the same Siberian source population as the precontact dogs, but thousands of years later. “If you have an Arctic dog, you likely have an old dog,” Perri says. “If you have any other dog, it probably came from Europe or Asia a lot more recently.”

That goes even for supposedly ancient dogs like the hairless South AAnálises adicionais do genoma nuclear - herdadas de ambos os pais - de sete cães pré-contados corroboram a ideia de que são geneticamente distintas. Seus parentes vivos mais próximos são as raças do Ártico, como os malamutes do Alasca e os huskies siberianos. Esses cães modernos podem ter vindo da mesma população de origem siberiana que os cães pré-contato, mas milhares de anos depois. “Se você tem um cachorro do Ártico, provavelmente tem um cachorro velho”, diz Perri. “Se você tem outro cachorro, provavelmente veio da Europa ou da Ásia muito mais recentemente”.merican Xoloitzcuintli, which is believed to have been around for thousands of years. “Today’s dogs may look the same as those dogs,” Frantz says. But according to the samples taken so far, “their genetics are totally different.”

Na verdade, a equipe não encontrou quase nenhum traço genético de pré-contato em cães modernos. "Em geral, sua assinatura genética desapareceu", diz Perri. Tanto ela quanto Frantz especulam que, assim como os colonos europeus exterminaram um grande número de nativos americanos com suas doenças, os cães europeus podem ter devastado ainda mais os cães americanos. Os europeus também podem ter temido esses cães de aparência selvagem, como Audubon fez, e tentaram acabar com eles, diz Perri.

O único rastro desses cães primitivos pode sobreviver em um câncer canino sexualmente transmissível, que reteve a assinatura genética do primeiro cão que ele sofreu. Quando a equipe comparou os genomas de dois desses tumores a genomas de cães modernos e antigos, o DNA mais se assemelhava ao dos cães pré-contato, talvez um que viveu cerca de 8 mil anos atrás. 

"É fascinante", diz Frantz, "mas no momento não nos diz muito sobre a história dos primeiros cães da América."

Se as pessoas não trouxessem os cães imediatamente, poderia ser porque eles não sabiam o quão úteis eles seriam. Ou pode simplesmente ser que os cães ainda não existiam. Quando essa aliança se formou nas Américas, provavelmente se espelhou no mundo todo, onde os cães eram usados ​​para caça, guarda ou simples companhia. "É insano que tenhamos iniciado um relacionamento com um animal que poderia nos machucar e competir conosco", diz Perri. "Deve ter havido uma boa razão."


*Correction, 5 July, 7 p.m.: This story has been updated to reflect the fact that the first study is only available on bioRxiv. Angela Perri's affiliation has also been updated. 

Fonte: http://www.sciencemag.org/news/2018/07/america-s-first-dogs-lived-people-thousands-years-then-they-vanished?utm_campaign=news_daily_2018-07-05&et_rid=17136612&et_cid=2165423

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Lugar mais poluído mundo esconde história absurda do governo russo

 

Lugar mais poluído mundo esconde história absurda do governo russo

Por Yahoo notícias:
Apesar de belo, o Lago Karachay, na Rússia, é considerado o lugar mais poluído do planeta. Sua dose de radiação era tão alta em 1990 que apenas permanecer na beirada dele por uma hora faria com que um ser humano “consumisse” mais radiação do que o organismo suporta e, claro, isso causaria morte.
E por quê? O lago está localizado dentro da Mayak Production Association, uma das maiores instalações nucleares na Rússia.

O governo russo manteve Mayak secreta até 1990, e passou esse período de invisibilidade principalmente tendo fusões nucleares e despejando resíduos no rio. Quando a existência de Mayak foi oficialmente reconhecida, houve a divulgação de aumento de 21% na incidência de câncer, de 25% nos defeitos de nascimento, e crescimento de 41% na leucemia na região circundante de Chelyabinsk, onde o rio se localiza, a cerca de 200km da fronteira com o Casaquistão.

O rio Techa, que forneceu água para as aldeias próximas, estava tão contaminado que até 65% dos moradores ficaram doentes com radiação – que os médicos chamavam de “doença especial”, porque enquanto a instalação era secreta, eles não tinham permissão de mencionar a radiação em seus diagnósticos.

Obviamente que o complexo nuclear sombrio da Sibéria não estava muito preocupado com a segurança. Além de despejar material nuclear nos lagos e rios, Mayak também sofreu vários acidentes graves nos anos 50 e 60 – incluindo o tempo que o lago Karachay secou e poeira radioativa do leito soprava por toda parte nas aldeias vizinhas.

Mas como Mayak e a cidade que a serviu nem sequer aparecem nos mapas, ninguém ouviu falar disso, incluindo os moradores afetados. Algumas das pessoas que moravam nas proximidades foram evacuadas após esses acidentes, mas muitos foram deixados apenas para inalar poeira e beber água contaminada.
O lago Karachay é agora cheio do concreto para manter o sedimento radioativo longe da costa. A água a jusante no rio Techa não tem quase nenhum césio radioativo, embora você ainda não possa beber porque ela ainda será perigosa por centenas dos anos.
Agora, 20 anos depois de Mayak ter começado a aparecer novamente em mapas, é possível que você pudesse ficar nas margens do Lago Karachay e não morrer. Mas não nos arriscamos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Assassino da natureza: Glifosato não é água

Estudos revelam que os herbicidas à base de glifosato, o agrotóxico mais comercializado no Brasil e no mundo, têm efeitos adversos para a saúde humana e dos animais e para os ecossistemas. Na base desse problema, está a falta de rigidez na regulamentação de seu uso: leia o artigo da CH 332.
Por: Sonia Corina Hess e Rubens Onofre Nodari
Publicado em 18/01/2016 | Atualizado em 18/01/2016
Glifosato não é água
Herbicidas contendo glifosato são classificados como pouco tóxicos no Brasil e têm seu uso autorizado em vários cultivos. (foto: Andreas Levers / FreeImages.
 
Em 1969, a empresa Monsanto obteve a patente do composto químico glifosato para uso como herbicida.

O glifosato é o princípio ativo do produto comercial Roundup, que mata qualquer tipo de planta, exceto os vegetais transgênicos denominados RR (Roundup Ready), que foram desenvolvidos para serem resistentes ao referido produto.

Ao investigar a composição química de grãos de soja produzidos em Iowa, nos Estados Unidos, pesquisadores relataram, em trabalho publicado em 2014, que os grãos da soja geneticamente modificada Roundup Ready acumulavam glifosato, o que não foi observado em grãos de variedades não transgênicas. Além disso, foram encontradas diferenças substanciais na composição química dos grãos investigados, como os teores de proteínas, minerais e açúcares, evidenciando que a soja transgênica não tem o mesmo perfil químico e nutricional que a soja não transgênica produzida em sistema orgânico ou convencional. Não são, portanto, alimentos equivalentes.
Os grãos geneticamente modificados, contaminados com glifosato, são usados como alimento na criação de bois, porcos, ovelhas e frangos. Consequentemente, ovos, leite, manteiga, queijo e outros produtos animais são contaminados.
Desde 2005, também tem sido comum a aplicação de agrotóxicos à base de glifosato para secar plantas não transgênicas pouco antes da colheita de modo a facilitar esse processo, o que tem resultado no aumento de resíduos desses herbicidas em alimentos como trigo e cana-de-açúcar, entre outros.
No Brasil, herbicidas contendo glifosato e seus derivados são classificados como pouco tóxicos e têm uso autorizado nas culturas de algodão, ameixa, arroz, banana, cacau, café, cana­de­açúcar, citros, coco, feijão, fumo, maçã, mamão, milho, nectarina, pastagem, pera, pêssego, seringueira, soja, trigo e uva. Além do uso agrícola, esse agrotóxico é frequentemente aplicado em áreas urbanas para eliminar ervas em calçadas, ruas e jardins.
Glifosato usado em jardinagem
Além do uso agrícola, o glifosato é frequentemente empregado em jardinagem em áreas urbanas. (foto: Scot Nelson / Flickr / CC BY 2.0)
Em 2008, o Brasil se tornou o maior mercado mundial de agrotóxicos e, quatro anos depois, respondia por 19% das vendas desses produtos no mundo. Entre 2010 e 2012, os herbicidas à base de glifosato foram os mais vendidos no país, representando 29% do total das vendas. Em 2012, foram comercializadas, pelo menos, 187 mil toneladas desse produto e seus sais, quantidade equivalente a 920 gramas por habitante e que significa um aumento de 40% em relação a 2010 (ver ‘Paraíso dos agrotóxicos’, em CH 296).

Riscos à saúde humana e animal

Segundo seu fabricante, o glifosato age como herbicida ao interromper a síntese de aminoácidos essenciais à sobrevivência do vegetal. Estudos recentes feitos com bactérias presentes no trato intestinal de humanos e outros animais concluíram que o composto bloqueia a síntese de aminoácidos e outros processos metabólicos dos microrganismos benéficos, que deixam de fornecer ao seu hospedeiro aminoácidos, neurotransmissores, hormônios, vitaminas, enzimas, entre outras substâncias, levando ao desenvolvimento de doenças. Por outro lado, bactérias patogênicas se mostraram altamente resistentes ao herbicida.
Essas pesquisas apontam que herbicidas à base de glifosato têm sido responsáveis pelo desencadeamento de doenças cada vez mais comuns na população, como desordens gastrointestinais, obesidade, diabetes, doenças cardíacas, depressão, autismo, infertilidade, câncer, doença celíaca, de Alzheimer e de Parkinson e intolerância a glúten.

Pesquisas apontam que herbicidas à base de glifosato têm sido responsáveis pelo desencadeamento de doenças cada vez mais comuns na população, como desordens gastrointestinais, obesidade, diabetes...
Os riscos desses herbicidas para a saúde humana e animal vêm sendo demonstrados ao longo dos anos por uma série de estudos, alguns dos quais serão destacados a seguir. Pesquisadores franceses relataram, em 2007, que o Roundup causou danos às células embrionárias e da placenta de seres humanos e de equinos e, em 2009, o grupo mostrou que quatro formulações comerciais de glifosato (Roundup), em concentrações da ordem de miligramas por litro (mg/L), causaram morte de células humanas placentárias, umbilicais e embrionárias.

Outro trabalho de 2009 apontou que o glifosato desregula mecanismos endócrinos em células hepáticas humanas e, em 2012, demonstrou­se que o Roundup, em concentrações da ordem de miligramas por litro, induz a morte de células de testículos de ratos, entre outros efeitos indicativos de interferência hormonal nesses mamíferos. Coelhos brancos machos que receberam soluções de glifosato apresentaram diminuição do peso corporal, da libido, do volume das ejaculações e da concentração de esperma, além de aumento da quantidade de espermatozoides anormais ou mortos.
Em 2013, foi divulgado estudo que concluiu que o glifosato, na concentração de nanogramas por litro, induz a proliferação de células humanas de câncer de mama. Em 2014, pesquisadores inferiram que o aumento da incidência de problemas renais crônicos em uma região agrícola do Sri Lanka está associado à contaminação ambiental por herbicidas à base de glifosato, que resulta em acúmulo de sais nos rins das pessoas expostas.

Um estudo de longa duração divulgado em 2014 mostrou que ratos que beberam água contendo o herbicida Roundup (0,1 micrograma por litro) ou com milho transgênico tolerante a esse produto apresentaram cerca de 70 diferenças significativas em parâmetros sanguíneos, clínicos e urinários e no peso corporal e dos órgãos, além de modificação do consumo alimentar, se comparados com animais não expostos ao herbicida. Como resultado dessas alterações, aumentou o risco de desenvolvimento de câncer e danos nos rins, fígado e sistema gastrointestinal dos ratos, principalmente dos machos, e de câncer de mama nas fêmeas, assim como diminuiu o tempo de vida dos animais de ambos os sexos.


Sonia Corina Hess
Departamento de Ciências Naturais e Sociais,
Universidade Federal de Santa Catarina, campus de Curitibanos

Rubens Onofre NodariDepartamento de Fitotecnia, Centro de Ciências Agrárias,
Universidade Federal de Santa Catarina

segunda-feira, 27 de julho de 2015



As novas faces do câncer 

Aumenta a frequência de casos de tumores de cabeça e pescoço causados pelo HPV, transmitido por contato sexual, em pessoas jovens e não fumantes 

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 233 | JULHO 2015
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Antes mais comuns em homens com mais de 50 anos, fumantes e consumidores contumazes de bebidas alcoólicas, os tumores de língua, céu da boca, faringe, laringe e amígdala, genericamente chamados de tumores de cabeça e pescoço, estão aparecendo em pessoas mais jovens, entre 30 e 45 anos, que não fumam e não bebem ou bebem pouco. Médicos e pesquisadores concluíram que o papilomavírus humano, o HPV, microrganismo geralmente encontrado em qualquer pessoa em algum momento da vida, deve ser o causador de infecções que facilitam a formação desses tumores. Se há 10 anos o HPV respondia por 25% dos casos de câncer de amígdala, um dos mais frequentes nessa região, hoje está associado a 80% desses tumores, de acordo com estudos recentes realizados por especialistas do A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo, e reiterados por outros grupos de pesquisa.

Antes desses trabalhos, o HPV era mais conhecido como o principal agente causador de verrugas genitais e de câncer de colo do útero – o terceiro tipo de tumor mais comum em mulheres, depois do de mama e cólon e reto – e, raramente, de tumores de pênis e ânus, este último mais frequente em homossexuais e bissexuais. O fato de agora estar sendo associado a tumores na região da cabeça e do pescoço se deve possivelmente ao mesmo motivo: práticas sexuais, nesses casos principalmente sexo oral, sem proteção e com muitos parceiros. Mesmo o uso de preservativo pode não ser suficiente para evitar a contaminação, alertam os especialistas. O HPV é transmitido pelo contato direto com a pele infectada e, muitas vezes, pode se esconder em áreas não cobertas pela camisinha, como na bolsa escrotal. “A falta de higiene íntima e bucal aumenta o risco de transmissão do vírus e de desenvolvimento de tumores, sobretudo os de amígdala, orofaringe (parte da garganta logo atrás da boca) e língua”, diz o cirurgião Luiz Paulo Kowalski, diretor do Núcleo de Cabeça e Pescoço do A.C. Camargo.

Os tumores de cabeça e pescoço são o sexto grupo de câncer mais comum no mundo, originando cerca de 650 mil novos casos todos os anos. No Brasil, 32.130 pessoas foram diagnosticadas com algum desses tipos de câncer em 2014, segundo o Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro. O câncer nessas regiões do corpo costuma ser devastador porque implica transformações em uma área muito visível, o rosto, diretamente associado à identidade de cada pessoa. Muitas vezes, como parte do tratamento, é preciso remover a língua e outras partes da boca e da garganta tomadas pelos tumores. Como consequência da cirurgia, as pessoas costumam ter dificuldade para comer, falar e respirar.

© DESENHO REPRODUÇÃO DE ESTUDOS DE CABEÇA DE LEONARDO DA VINCI / LÂMINA LÉO RAMOS
Os primeiros sintomas que indicam a formação de tumores são pequenas feridas que sangram facilmente e crescem até chegar à musculatura e aos nervos, então causando dor. “Cerca de 80% das pessoas diagnosticadas com câncer de cabeça e pescoço em São Paulo têm tumores em estágio avançado porque não deram atenção aos primeiros sintomas, que são indolores”, diz Kowalski. Segundo ele, a dificuldade para mastigar e engolir, movimentar a língua ou a mandíbula são sintomas tardios. Nesses casos, as consequências são mais dramáticas: “Às vezes é preciso remover metade ou até mesmo toda a língua ou as cordas vocais”.

Muitos pacientes em tratamento entram em depressão. “Alguns não veem mais sentido na vida e precisam de acompanhamento psicológico”, diz a psicóloga Mariana Meloni, que há quatro anos coordena reuniões com pessoas com tumores de cabeça e pescoço prestes a serem operadas no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp). “O fato de terem de abrir mão de antigos hábitos, frequentemente associados à bebida e ao cigarro, e de não poderem voltar a trabalhar ou até mesmo se alimentar sozinhas faz com que se sintam como se tivessem perdido o controle de suas vidas.”

Além da necessidade de redesenhar a vida, emerge o sentimento de culpa, como descreveu a escritora norte-americana Susan Sontag no ensaio Doença como metáfora (1978), antes de ela própria morrer de câncer, em 2004, aos 71 anos: “O mito que ronda o câncer sugere que a pessoa é responsável por sua própria doença, sendo o câncer, então, visto como sinônimo de fracasso”. E mais adiante: “Tratar o câncer como um inimigo demoníaco faz dele não só uma doença letal, mas uma doença vergonhosa”.
© LÉO RAMOS
Não há estimativas concretas sobre o número de casos de tumores de cabeça e pescoço causados pelo HPV no país. Nos Estados Unidos, estima-se que 42.440 casos de tumores desse tipo tenham sido registrados em 2014, sendo 14.410 apenas de orofaringe, dos quais, calcula-se, 9 mil foram causados pelo vírus em homens e 2 mil em mulheres jovens, de acordo com a American Cancer Society. “Esses dados reforçam a hipótese de que o número de casos de tumores causados pelo HPV nessa parte do corpo deve superar os provocados pelo álcool e pelo cigarro até 2020 nos Estados Unidos”, diz Kowalski. “O Brasil provavelmente seguirá a mesma tendência.”

Os primeiros sinais de que pessoas mais jovens, não fumantes e de boa saúde – alguns atletas, inclusive – estavam tendo mais tumores de cabeça e pescoço foram percebidos nos Estados Unidos a partir da década de 2000, mudando o perfil epidemiológico da década anterior, associado a pessoas com mais de 50 anos que bebiam e fumavam assiduamente. Kowalski detectou essas mudanças no Brasil em 2011, quando, com sua equipe, comparou as análises moleculares de 114 amostras de tumores de boca de dois grupos de pessoas tratadas no A.C. Camargo: um formado por indivíduos com idade entre 30 e 45 anos, que não fumavam nem bebiam, e outro com pessoas com mais de 50 anos que fumavam e bebiam antes de terem a doença. Kowalski encontrou trechos do DNA do HPV em 68,2% das 47 amostras do grupo mais jovem e em 19,2% das 67 amostras do grupo que fumava e bebia, conforme descreveu em um artigo publicado em 2012 no International Journal of Cancer.
Álcool, cigarro e HPV
Os médicos do A.C. Camargo observaram que as pessoas mais jovens, cujo câncer estava associado ao HPV, respondiam melhor ao tratamento e apresentavam melhores taxas de sobrevida do que as com mais idade, cujos tumores eram em geral mais agressivos e resistentes. Segundo Kowalski, essas diferenças poderiam resultar do fato de os pacientes mais jovens serem mais saudáveis por não beberem nem fumarem. “Pessoas com tumores causados pelo álcool e pelo tabaco, além de terem mais idade, costumam sofrer de problemas pulmonares e cardiovasculares, e o diagnóstico geralmente é feito quando os tumores estão em um estágio mais avançado, o que dificulta o tratamento”, diz Kowalski. Em julho, ele presidirá a quinta edição do Congresso Mundial da Academia Internacional de Câncer Oral, realizado pela primeira vez no Brasil, que reunirá profissionais de diversas áreas para discutir estratégias que estimulem a prevenção e o diagnóstico precoce desses tumores.
Mesmo que existam sinais de que os tumores de cabeça e pescoço causados pelo HPV se comportem de modo diferente, eles são combatidos do mesmo modo, com químio e radioterapia e cirurgia, muitas vezes com sucesso, como no caso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acometido por um câncer na laringe, sem vinculação ao HPV, em 2011. Em outros casos, o tratamento pode não ser suficiente para conter a doença. Um dos criadores da psicanálise, Sigmund Freud morreu em 1939 em decorrência de um câncer de boca, contra o qual lutou por 16 anos, tendo substituído quase toda a mandíbula por próteses. Freud fumou até morrer, aos 83 anos.
Rossana López, pesquisadora do Icesp, encontrou outro indício de que o HPV pode ser a causa de tumores nessa região. Em 2011, ela avaliou a prevalência de infecções pelo vírus em 1.475 pessoas com câncer de cabeça e pescoço usando dados de dois estudos. O primeiro foi feito de 1998 a 2003 pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc) em cinco cidades brasileiras, embora ela tenha usado dados apenas de Goiânia, Rio de Janeiro e São Paulo, para restringir a amostra e poder compará-la com dados do segundo estudo, realizado entre 2003 e 2010 por uma rede internacional de pesquisa, o projeto Genoma do Câncer de Cabeça e Pescoço (Gencapo), de São Paulo. Por meio de análises de amostras dos tecidos com tumores, Rossana verificou que a prevalência do HPV do tipo 16, uma das 200 variedades conhecidas, aumentou de 1% entre os casos do estudo mais antigo, do final da década de 1990, para 6,7% no mais recente, dos anos 2000. Ela também identificou anticorpos contra o HPV-16 em 55% das amostras do estudo da Iarc e em 72% das do Gencapo.
Batalha interna
As pessoas infectadas, porém, nem sempre produzem anticorpos contra o vírus, verificou Luisa Villa, coordenadora do Instituto de Ciência e Tecnologia para o Estudo das Doenças Associadas ao HPV e pesquisadora do Centro de Medicina Nuclear do Departamento de Radiologia e Oncologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), que colabora com a equipe do A.C. Camargo. Um dos estudos de seu grupo indicou que apenas 50% das mulheres e 10% dos homens infectados produziram anticorpos específicos contra o vírus. “Sete em cada 10 mulheres pode contrair o HPV em algum momento da vida”, diz José Eduardo Levi, do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP. “O organismo da maioria delas consegue eliminar o vírus, enquanto o dos homens, não”, explica. Por esse motivo é que as mulheres podem readquirir o vírus, mesmo depois de já tê-lo eliminado várias vezes, ao serem reinfectadas por seus parceiros. Uma estratégia adotada no Brasil para evitar o contágio e reinfecções pelo HPV-16 tem sido a vacinação de meninas a partir dos 9 anos de idade (ver Pesquisa FAPESP nº 157). No entanto, para o controle mais eficiente da disseminação do HPV, ressalta Villa, seria preciso levar em consideração também os homens. “Se não os incluirmos nesse processo, é possível que a mesma mulher, depois de ter eliminado o vírus, volte a se infectar.”
Em estudos realizados no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP em 2013, uma substância candidata a vacina experimental de DNA fez as células de defesa de camundongos identificar e eliminar células de tumores causados pelo HPV-16. A vacina experimental age após a infecção causada pelo vírus – diferentemente das vacinas tradicionais, exclusivamente preventivas –, ativando células (linfócitos T CD8) que identificam esses sinais e lançam proteínas tóxicas que matam as células infectadas.
A ideia de que microrganismos podem causar câncer é antiga. Em 1901, o médico francês Eugène-Louis Doyen anunciou à Academia de Medicina de Paris, França, que havia isolado o microrganismo responsável pela doença: o Micrococcus neoformans. Não demorou para se verificar que ele estava equivocado. Quase 10 anos depois, no Instituto Rockefeller, em Nova York, o virologista Francis Peyton Rous, ao transplantar o tumor de uma galinha para outra, saudável, concluiu que tumores seriam causados por um minúsculo parasita. Nesse caso, ele estava certo. Sabe-se hoje que vírus como o Epstein-Barr e bactérias como a Helicobacter pylori são responsáveis por 15% do total dos casos de câncer. No caso do HPV, calcula-se que pelo menos metade das pessoas sexualmente ativas abrigue no mínimo uma das 200 variedades conhecidas do vírus, mas isso não quer dizer que o contágio evoluirá para um câncer. Algumas variedades de HPV são inofensivas e causam apenas saliências facilmente confundidas com verrugas. Os estudos da equipe de Levi sugerem que o HPV se aloja preferencialmente na base da língua e nas amígdalas. O vírus pode favorecer a formação de tumores ao interagir com genes das células humanas e inativar o processo de produção da proteína p53, a principal responsável pelo reparo do DNA. “Se o HPV inativa a p53, as células começam a se multiplicar descontroladamente”, diz ele. Uma estratégia para deter o vírus e a formação de células anormais seria, portanto, restaurar e fortalecer a ação da p53. Uma molécula conhecida como P-Mapa, desenvolvida pela rede de pesquisa Farmabrasilis, que conta com pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da USP e de universidades dos Estados Unidos – com apoio da FAPESP –, conseguiu restaurar a atividade da proteína p53 em ratos com câncer de bexiga urinária induzido, de acordo com um estudo publicado em 2012 na Infectious Agents and Cancer. Em testes em laboratório, a molécula mostrou-se capaz de reduzir em 95% os tumores desses animais, por meio da ativação de receptores celulares do sistema imune inato (receptores toll-like), favorecendo também a produção de um tipo de proteína que bloqueia o processo que leva à formação de vasos sanguíneos que nutrem os tumores e os ajudam a se espalhar por outros tecidos.

Um teste molecular não invasivo desenvolvido por pesquisadores e médicos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), do A.C. Camargo e do Hospital do Câncer de Barretos talvez possa ajudar na detecção precoce do risco de reaparecimento de tumores de cabeça e pescoço, em pessoas que já os tiveram, antes dos primeiros sinais clínicos, ampliando a eficácia do tratamento.

O teste consiste no exame molecular de células epiteliais encontradas na saliva. O DNA dessas células é extraído e se avalia se genes supressores de tumores apresentam um tipo específico de alteração, a hipermetilação. Pessoas cujos genes supressores sofreram essa alteração apresentaram um risco cinco vezes maior de reaparecimento dos tumores de cabeça e pescoço do que as pessoas cujos genes estavam inalterados. Os pesquisadores acreditam que o teste poderia ser usado também para identificar alterações genéticas prejudiciais em quem não teve a doença para saber se há risco de desenvolvê-la.

Projetos

1. Instituto de Ciência e Tecnologia para o Estudo das Doenças Associadas ao Papilomavírus (nº 2008/57889-1); Modalidade Projeto Temático; Pesquisadora responsável Luisa Lina Villa (FM-USP); Investimento R$ 4.949.181,38 (FAPESP).

2. Aspectos clinicopatológicos e moleculares do carcinoma epidermoide bucal em pacientes com idade menor ou igual a 40 anos (nº 2007/56117-2); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Luiz Paulo Kowalski (Hospital A.C. Camargo); Investimento R$ 224.989,95 (FAPESP).

3. Fatores ambientais, clínicos, histopatológicos e moleculares associados ao desenvolvimento e ao prognóstico de carcinomas epidermoides de cabeça e pescoço (nº 2010/51168-0); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Temático; Pesquisadora responsável Eloiza Helena Tajara da Silva (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto); Investimento R$ 1.644.520,00 (FAPESP).

Artigos científicos

LOPEZ, R. M. et al. Human papillomavirus (HPV) 16 and the prognosis of head and neck cancer in a geographical region with a low prevalence of HPV infection. Cancer Causes and Control. v. 25, n. 4, p. 461-71. 2014.

BETIOL, J., VILLA, L. L. e SICHERO, L. Impact of HPV infection on the development of head and neck cancer. Brazilian Journal of Medical and Biological Research. v. 46, n. 3, p. 217-26. mar. 2013.

FÁVARO, W. J. et al. Effects of P-Mapa immunomodulator on toll-like receptors and p53: Potential therapeutic strategies for infectious diseases and cancer. Infectious Agents and Cancer. v. 7, n. 1. jun. 2012.

KAMINAGAKURA, E. et al. High-risk human papillomavirus in oral squamous cell carcinoma of young patients. International Journal of Cancer. v. 130, n. 8, p. 1726-32. abr. 2012.

RIBEIRO, K. B. et al. Low human papillomavirus prevalence in head and neck cancer: results from two large case-control studies in high-incidence regions. International Journal of Epidemiology. v. 40, n. 2, p. 489-502. abr. 2011.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Um perigo a mais do Sol

A luz visível, além da radiação ultravioleta, também pode causar câncer de pele
GILBERTO STAM | ED. 227 | JANEIRO 2015

Esta é uma má notícia para quem gosta de tomar sol, mesmo que besuntado com protetor solar. Os filtros disponíveis no mercado protegem contra os efeitos da radiação ultravioleta, invisível ao olho humano, mas não evitam os danos causados pela luz visível. E esses danos podem ser intensos. Um estudo realizado por pesquisadores de São Paulo e do Paraná acaba de demonstrar que a luz visível também pode causar câncer de pele, o mais frequente no Brasil, que corresponde a 25% dos casos de tumores malignos, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer.

Maurício Baptista, bioquímico da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do estudo, não chega a se surpreen-der com esse resultado, publicado em novembro de 2014 na revista PLoS ONE. É que, do ponto de vista físico, a luz que o olho humano enxerga e os raios ultravioleta (UV) têm a mesma natureza. Ambos são a mesma forma de energia, a radiação eletromagnética, que de acordo com a intensidade recebe diferentes nomes – raios gama, raios X, luz visível, radiação infravermelha. “Para a pele, a divisão entre luz visível e invisível é arbitrária”, afirma Baptista, que é professor do Instituto de Química da USP e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Processos Redox em Biomedicina (INCT-Redoxoma).

Ele e sua equipe demonstraram que a luz visível pode causar danos no material genético (DNA) das células de modo indireto ao interagir com a melanina. Esse pigmento escuro, responsável pela coloração da pele, absorve parte da energia da luz visível e a transfere para moléculas de oxigênio, gerando formas altamente reativas – o chamado oxigênio singlete. Essa molécula de oxigênio excitado, por sua vez, reage com moléculas orgânicas, como o DNA, e as deteriora. Quando esse tipo de dano afeta um gene regulador da proliferação celular, a célula pode começar a se multiplicar descontroladamente, originando um câncer.
Esse resultado pode ajudar a entender melhor a origem de algumas formas de câncer de pele. “A contribuição do grupo, bastante rigorosa em termos científicos, ajuda a compreender os perfis de mutações que encontramos em melanomas humanos, nos quais frequentemente se observam evidências de eventos de oxidação do DNA”, diz Roger Chammas, professor da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo. “Antes esses eventos eram atribuídos à radiação UVA, mas, agora, como se mostrou, também podem ser efeito da luz visível.”

O mecanismo produtor dessas moléculas mais reativas registrado pelo grupo de Baptista confirma o papel duplo desempenhado pela melanina: esse pigmento protege a pele dos danos causados por certos tipos de luz, mas facilita os provocados por outros. Assim como o experimento atual, trabalhos anteriores já haviam revelado que a exposição aos raios ultravioleta tipo B (UVB) fazia os melanócitos, células produtoras de melanina, aumentarem a síntese do pigmento. Também haviam mostrado que uma proporção maior dessas células sobrevivia a essa forma de radiação. A taxa de mortalidade, porém, era muito mais elevada quando células mais pigmentadas eram submetidas à radiação ultravioleta tipo A (UVA), algo semelhante ao que aconteceu agora sob a luz visível.
A proteção que a melanina oferece contra os raios UVB, porém, não é suficiente para evitar o câncer de pele. Essa forma de radiação, associada à queimadura de sol, resposta inflamatória aguda à exposição excessiva à luz solar, foi a primeira que se demonstrou poder causar câncer. Ela penetra pouco na pele, mas o que não é absorvido pela melanina atinge diretamente o DNA – em especial dos melanócitos –, podendo danificá-lo e causar uma forma rara e muito agressiva de câncer: o melanoma, que é mais comum em adultos com tez clara e representa 4% dos tumores de pele malignos no Brasil.

Já a radiação UVA, que assim como a luz visível causa lesões no DNA por meio da produção de formas excitadas e mais reativas de oxigênio, penetra mais profundamente. Na década de 1980 se descobriu que os raios UVA provocavam outra forma de câncer – chamado de não melanoma, mais comum a partir dos 40 anos –, com origem nas chamadas células basais ou escamosas. Tempos depois da comprovação dos efeitos danosos dos raios UVA e UVB a indústria farmacêutica desenvolveu compostos que bloqueiam essas duas faixas de radiação com eficiência. Mas agora começa a se constatar que isso pode não ser suficiente. “Os filtros protegem apenas contra os raios ultravioleta, por isso a informação de que protegem a pele está incompleta”, explica Baptista. “Um aspecto importante é a regulamentação das embalagens e da propaganda, para não passar informação enganosa.” Essa, aliás, é uma questão relevante que costuma demorar a ser resolvida. Baptista lembra o caso da radiação UVA. Embora seu efeito danoso tenha sido comprovado há cerca de 30 anos, só em 2013 os fabricantes foram obrigados a especificar nas embalagens se o produto protegia contra um ou os dois tipos de radiação UV.

Baptista obteve os primeiros indícios de que a luz visível também podia ser prejudicial em 2011, em testes mostrando que, ao interagir com a melanina pura ou a melanina dos fios de cabelo, surgia o oxigênio singlete. “A descoberta da ação nociva do UVA algumas décadas atrás quebrou o dogma de que o UVB era a única faixa do espectro solar que causava danos na pele”, conta Baptista. “Agora é necessário quebrar o dogma de que esse efeito nocivo acontece apenas por causa dos raios UV.”

Para demonstrar de forma completa o efeito carcinogênico da luz visível, entretanto, ainda falta ao menos mais uma etapa. É preciso comprovar que a lesão no DNA provocada pela luz visível leva a alterações profundas (mutações) nos genes. “Será necessário fazer testes em animais e depois em seres humanos, mas, se confirmada, essa é uma descoberta importante”, diz João Duprat Neto, cirurgião oncológico e diretor do Núcleo de Câncer de Pele do A. C. Camargo Cancer Center. “É possível que esses dados estimulem o desenvolvimento de protetores de pele mais eficientes.”

Enquanto não surgem protetores que também filtrem a luz visível, a melhor forma de se proteger do câncer de pele é evitar a exposição excessiva ao sol. Mas, só a excessiva, porque há outro fator a ser considerado: a luz solar é fundamental para a pele sintetizar a vitamina D, importante contra a osteoporose e outras doenças dos ossos. Segundo o dermatologista Marco Antônio Oliveira, também do Núcleo de Câncer de Pele do A. C. Camargo, quem tem risco maior de desenvolver câncer de pele deve substituir a exposição ao sol pelo consumo de suplementos de vitamina D, cuja produção cai após os 40 anos com o envelhecimento da pele. “É importante lembrar que o uso de filtros solares é fundamental”, diz Oliveira. “Nas novas gerações, mais bem informadas sobre os efeitos do sol e que usam mais os protetores, a incidência de câncer caiu sensivelmente.”

Projetos

1. Fotossensibilização nas ciências da vida (nº 12/50680-5); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Maurício da Silva Baptista (Instituto de Química/USP); Investimento: R$ 3.067.571,88 (FAPESP).

2. Redoxoma (nº 13/07937-8); Modalidade Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); Pesquisador responsável Ohara Augusto (Instituto de Química/USP); Investimento R$ 20.674.781,25 (para todo o projeto) (FAPESP).

Artigo científico

CHIARELLI NETO, O. et al. Melanin photosensitization and the effect of visible light on epithelial cells. PLoS ONE. 18 nov. 2014.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Gene responsável por acumulação de arsênico em plantas é identificado (12/12/2014)
DNA

O arsênio é um elemento químico que pode provocar danos à saúde humana e está associado, inclusive, ao desenvolvimento de câncer. Quando um de seus compostos, a exemplo do arsênico, está presente no solo ou na água, naturalmente as plantas o absorvem e acumulam. Entretanto, os vegetais têm a habilidade de converter o arsênico em arsenito por meio de reações químicas que ocorrem nas raízes.

Essa conversão é a chave para eliminar a toxicidade da substância. Um grupo de cientistas da Universidade de Aberdeen (Reino Unido), da Academia Chinesa de Ciências (China), da Universidade Agrícola de Nanjing (China) e da Universidade Rothamsted (Reino Unido) estudou esse processo e encontrou o gene responsável por ele. O trabalho foi publicado na edição de dezembro da revista científica Public Library of Science (PLOS) Biology.

Por meio da análise do genoma da Arabidopsis thaliana, planta modelo muito usada em estudos científicos e cujo DNA é amplamente conhecido, os pesquisadores identificaram o gene que codifica a enzima responsável pela conversão e o denominaram High Arsenic Content 1 (HAC1). O estudo também revelou que a ausência desse gene fez com que o vegetal acumulasse arsênico em concentrações superiores às normais. Essa descoberta é importante para o processo de melhoramento genético das culturas que agora poderão gerar alimentos ainda mais saudáveis.

Autoridades de saúde asiáticas demonstram preocupação com o elevado nível de arsênico encontrado no arroz produzido por países como Bangladesh, China e India, onde o grão é um alimento básico para a população.

Fonte: PLOS, Dezembro de 2014

domingo, 14 de agosto de 2011

Mais risco para mulheres fumantes

11/08/2011
Agência FAPESP – Nova má notícia para os fumantes, especialmente mulheres. O aumento no risco de desenvolver doenças coronarianas por causa do hábito de fumar é 25% maior para mulheres do que para homens.

A afirmação é de um estudo publicado nesta quinta-feira (11/8) na revista The Lancet, por Rachel Huxley, da Universidade de Minnesota, e Mark Woodward, da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.
Os dois realizaram uma meta-análise de 86 estudos, que reúnem dados de 67 mil casos de doenças coronarianas em uma amostragem total de mais de 4 milhões de pessoas.

Os autores sugerem que o aumento no risco para o público feminino pode estar relacionado com diferenças fisiológicas entre os sexos, com toxinas presentes no cigarro tendo possivelmente efeitos mais potentes em mulheres do que nos homens.

“Mulheres podem extrair quantidades maiores de carcinógenos e de outros agentes tóxicos a partir do mesmo número de cigarros do que os homens. Isso poderia explicar por que mulheres que fumam têm duas vezes mais risco de desenvolver câncer de pulmão do que os homens”, disseram.
O cenário tende a piorar com o tempo. Segundo o estudo, para cada ano que uma mulher fumar há um aumento na relação ajustada de risco entre mulheres e homens. Isso significa que, quanto mais tempo uma mulher fumar, maior será o risco de desenvolver doenças coronarianas em comparação com um homem que tiver fumado durante o mesmo período.

“O cigarro é uma das principais causas de doenças coronarianas em todo o mundo e continuará a ser, uma vez que populações que até então não estavam sendo tão afetadas pela epidemia do fumo começaram a usar o cigarro em níveis até então presentes apenas em países mais ricos”, disseram os autores.
“Essa expectativa é especialmente preocupante para mulheres mais jovens, entre as quais a popularidade do cigarro, particularmente em países de menor renda per capita, pode estar aumentando”, destacaram.

O artigo Cigarette smoking as a risk factor for coronary heart disease in women compared with men: a systematic review and meta-analysis of prospective cohort studies (doi: 10.1016/S0140-6736(11)60781-2) pode ser lido por assinantes da The Lancet em www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(11)60781-2/abstract.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Pesquisa revela DNA de roedor imune a câncer
Fonte: O Estado de S.Paulo
Notícia publicada em: 18/07/2011
Autor: Alexandre Gonçalves

Pesquisadores anunciaram na semana passada o sequenciamento genético do rato-toupeira-pelado, um mamífero capaz de viver sete vezes mais do que outros roedores, sem nunca desenvolver câncer. A ciência quer encontrar nos genes do animal o segredo da longevidade e da resistência aos tumores.

O biólogo português João Pedro de Magalhães, da Universidade de Liverpool (Inglaterra), pesquisa o envelhecimento. Ao comparar a massa e a longevidade de vários animais, percebeu que três mamíferos eram pontos fora da curva: o rato-toupeira-pelado, a baleia-da-Groenlândia e o próprio homem.

Como não é prático estudar baleias-da-Groenlândia, que pesam 100 toneladas e vivem mais de 200 anos, optaram pelo roedor africano - 35 gramas e longevidade de 30 anos. Ratos e camundongos chegam a 4 anos.

Magalhães contou com a ajuda do argentino Mario Caccamo, do Centro de Análise Genômica (TGAC, na sigla em inglês). Caccamo realizou seu mestrado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O rato-toupeira-pelado habita o Chifre da África, no nordeste do continente. O roedor vive embaixo da terra, em túneis que dão razão ao seu nome, alimentando-se de raízes. Sua temperatura corporal gira em torno de 32°C, cinco graus a menos do que camundongos e seres humanos.

Além disso, possui uma organização social singular, que lembra muito a de colmeias, algo insólito para mamíferos. Há uma rainha fecundada por, no máximo, três machos. O resto da colônia - que pode ter até 300 membros - não se reproduz.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Genoma do câncer de mama

4/4/2011
Agência FAPESP – Em uma das maiores pesquisas genômicas já feitas sobre o câncer, um grupo de cientistas nos Estados Unidos sequenciou os genomas completos de tumores de 50 pacientes com câncer de mama e comparou os resultados com os DNAs de pessoas sem a doença.
A comparação permitiu identificar mutações que ocorrem apenas nas células cancerígenas. A pesquisa revela uma grande complexidade nos genomas dos tumores e poderá auxiliar no desenvolvimento de novas alternativas de tratamentos.
O trabalho foi apresentado no sábado (2/4) na 102ª Reunião Anual da Associação Norte-Americana de Pesquisa do Câncer, em Orlando, na Flórida.
No total, os tumores analisados apresentaram mais de 1,7 mil mutações, das quais a maior parte era única para cada mulher. “Genomas do câncer são extraordinariamente complicados, o que explica nossa dificuldade em prever consequências e encontrar novos tratamentos”, disse Matthew J. Ellis, professor da Escola de Medicina da Universidade de Washington em Saint Louis, um dos líderes da pesquisa.
Os cientistas sequenciaram mais de 10 trilhões de pares de base de DNA, repetindo as operações para cada tumor e para cada amostra dos voluntários sadios por em média 30 vezes para garantir a validade dos resultados.
Genoma do câncer de mama
Cientistas sequenciam tumores de 50 mulheres, comparam com os genomas de pessoas saudáveis e identificam mutações que ocorrem apenas nas células cancerígenas

“Os recursos computacionais utilizados para analisar tamanha quantidade de dados são semelhantes aos produzidos pelo Large Hadron Collider, usado para entender o funcionamento das partículas subatômicas”, disse Ellis.
As amostras de DNA vieram de pacientes que se submeteram a testes clínicos no Grupo de Oncologia do American College of Surgeons, liderado por Ellis. Todas as pacientes no estudo tinham o chamado câncer de mama positivo para receptor de estrógeno, no qual as células tumorais têm receptores que se ligam ao hormônio e ajudam os tumores a crescer.
A pesquisa confirmou que duas mutações são relativamente comuns em mulheres com câncer de mama. Uma deles é a PIK3CA, presente em cerca de 40% dos tumores do tipo que expressam receptores para estrógeno. Outra é a TP53, presente em cerca de 20% dos pacientes.
Ellis e colegas encontraram uma outra mutação, denominada MAP3K1, que controla a morte celular programada e não se encontra ativada em cerca de 10% dos cânceres de mama positivos para receptor de estrógeno.
Os cientistas também encontraram outros 21 genes que mostraram mutações significativas, mas em taxas inferiores e não apareciam em mais do que três pacientes.
Apesar da raridade dessas mutações, Ellis destaca sua importância. “Câncer de mama é tão comum que mesmo mutações que apareçam com frequência de 5% envolverão milhares de mulheres”, destacou.