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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Projeto de termelétrica no litoral de SP gera preocupações ambientais


Reprodução
Maquete virtual do Projeto Verde Atlântico Energias

 
O plano de construção de um complexo termelétrico em Peruíbe, na Baixada Santista, tem gerado controvérsia na cidade, alarmado biólogos e ambientalistas, preocupado o Ministério Público e movimentado deputados estaduais de São Paulo.

Ainda em fase de licenciamento ambiental, o projeto é composto de uma termelétrica de gás natural, mais de 90 km de linha de transmissão, um terminal offshore de gás natural e 80 km de gasodutos. O orçamento previsto é de R$ 5 bilhões.

Os possíveis impactos ambientais do empreendimento, que pode vir a afetar estações ecológicas, áreas de proteção e aldeias indígenas levou, há duas semanas, à formação de uma frente parlamentar na Assembleia Legislativa de São Paulo.
"O projeto é uma aberração", diz o deputado Luiz Fernando Teixeira (PT), coordenador da frente, que também conta com um membro do PSDB. "Querem transformar um paraíso ecológico como Peruíbe, um dos poucos lugares que ainda possui partes intocadas da mata atlântica, em uma Cubatão", diz Teixeira.

Além disso, o Ministério Público Federal (MPF) manifestou preocupação a respeito da rapidez com que vem sendo conduzido o licenciamento ambiental do empreendimento. No começo de agosto o MPF instaurou um inquérito civil público para fiscalizar o processo.

NO MAR E NA MATA
 
As inquietações com relação aos impactos ambientais do projeto são corroboradas por biólogos e ambientalistas.
Segundo Fabrício Gandini, do Instituto Maramar, o projeto ignora as normas do Zoneamento Ecológico e Econômico do Setor Costeiro da Baixada Santista (ZEE), uma das principais legislações ambientais do Estado.

"O ZEE proíbe a construção de um porto no litoral de Peruíbe, como o previsto no projeto", afirma Gandini. Após analisar o EIA-Rima (Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto Ambiental) do empreendimento, o instituto, que integra o Conselho Consultivo das Áreas de Proteção Ambiental Marinhas, identificou a "existência de vícios de procedimentos insanáveis" e pediu formalmente a suspensão do processo de licenciamento.

Os possíveis problemas não se limitam ao mar. A linha de transmissão que ligará a usina de Peruíbe à central de Cubatão atravessará áreas que concentram espécies ameaçadas, de acordo com o ornitólogo (especialista em aves) Bruno Lima, que estuda a região há mais de dez anos.
"Espécies de aves descem da Serra do Mar para a planície no inverno e regressam após o período de frio. Ao longo desse percurso, elas vão dispersando sementes de árvores", explica Lima, responsável pelo primeiro levantamento das aves da região.
Segundo o ornitólogo, as linhas de transmissão têm o potencial de impedir esse fluxo de sementes, o que resultaria no empobrecimento dessas florestas.

Existem, além disso, questionamentos acerca da concepção do complexo. O químico e engenheiro Elio Lopes, que trabalhou por 25 anos na Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) e foi gerente da companhia em Cubatão, esteve numa apresentação recente do projeto na Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Santos, onde contestou diversos pontos.
Um deles é o sistema de refrigeração da usina –aberto, e não fechado–, que utiliza a água do mar para arrefecer o maquinário, e é considerado não só ultrapassado como também "frágil do ponto de vista ambiental". "Se houver qualquer acidente ou vazamento, os produtos da usina vão direto para o mar".
De acordo com Lopes, o projeto também não detalha como se dará o controle das fontes de poluição do ar. "O parâmetro mais importante nesse tipo de discussão é a capacidade da turbina. Quando questionei o representante da empresa sobre isso, ele me disse que o modelo ainda não estava escolhido".

"Não é possível saber o impacto na qualidade do ar sem que você saiba qual turbina será utilizada", diz Lopes.
Tais questões têm gerado em Peruíbe resistência à instalação do complexo. No final de agosto, uma audiência pública para discutir o projeto teve de ser cancelada após um protesto de moradores, índios e ambientalistas.

O prefeito de Peruíbe, Luiz Maurício (PSDB), por sua vez, prefere não tomar partido na questão. "A oposição ao empreendimento tem ganhado corpo na cidade, mas a atual fase de licenciamento ambiental compete ao Estado. Neste momento, a obrigação da prefeitura é acompanhar o processo para garantir sua lisura e ficar atenta aos impactos que a eventual instalação da usina pode trazer."
A favor do projeto, de acordo com Maurício, estão a associação comercial da cidade e os setores de construção civil e imobiliário.

OUTRO LADO
Procurada pela reportagem, a Gastrading, empresa responsável pelo Projeto Verde Atlântico Energias ressalta que a geração de energia elétrica pode chegar a 1,7 gigawatt e 20 milhões de metros cúbicos de gás natural podem ser transportados diariamente, "energia suficiente para abastecer 1,7 milhão de moradores da região".
O incremento seria relevante para a matriz energética do estado, que atualmente produz 8,1 gigawatts e que precisa importar de outros estados até completar os 14,5 gigawatts que, em média, são necessários, informa a nota.

Sobre a frente parlamentar contrária ao empreendimento, a empresa afirma que estão à disposição para esclarecer quaisquer dúvidas sobre o projeto e que "em nenhum momento os representantes da frente nos convocaram [para apresentá-lo]".

"O gás natural é uma alternativa a outras matrizes energéticas mais poluidoras, como as térmicas movidas a carvão e óleo", diz a nota.
Em relação ao inquérito instaurado pelo Ministério Público Federal para fiscalizar o processo de licenciamento ambiental, a Gastrading diz que teve sua atuação autorizada pelos órgãos responsáveis e que já realizou mais de 70 reuniões e encontros com entidades da sociedade civil, "nos quais a empresa apresentou o projeto e tirou dúvidas da população, além das quatro audiências públicas já realizadas". "O estudo de impacto ambiental [...] atende a todas as normas e exigências legais em vigor."
A respeito das acusações sobre estar descumprindo o Zoneamento Ecológico e Econômico, segundo a Gastrading, o projeto da termelétrica "segue rigorosamente a legislação e está em conformidade com o plano diretor do município de Peruíbe".
A empresa também diz que a implantação da linha de transmissão entre Peruíbe e Cubatão não irá interferir nas rotas dos animais, "pois o projeto considera a manutenção da vegetação existente entre as torres", as quais contarão com sinalizadores para alertar os animais.
"Além disso, o lançamento dos cabos das linhas de transmissão será realizado por drones, técnica que evita fragmentação destes ambientes, ou seja, é mais moderna e mais sustentável."
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Raio-X do Projeto

Nome
Projeto Verde Atlântico Energias –Terminal de Recepção e Regaseificação de Gás Natural Liquefeito (GNL) e Usina Termoelétrica a gás natural em Peruíbe

Município
Peruíbe, na Baixada Santista,

Área ocupada
42 hectares, além dos gasodutos (um de 10 km e outro de 81,5 km) e das linhas de transmissão (92,5 km) e um terminal offshore a 10 km da praia

Geração de eletricidade
1,7 gigawatt, o equivalente a um aumento de 21% na produção energética estadual

Área de Influência da Termelétrica

Benefícios

4.590 empregos, maior arrecadação de impostos, maior oferta de gás natural na região, estímulo às indústrias, redução da importação de energia pelo Estado de SP

Riscos

No Mar
A construção do terminal offshore e do gasoduto no mar podem alterar o ecossistema marinho na região
Na Mata
Linhas de transmissão passam em áreas habitadas por espécies ameaçadas e podem prejudicar o fluxo migratório de aves

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Unesp
Grupo de pesquisadores e estudantes mapeou todo o litoral de SP
Projeto foi coordenado pela professora Paulina Setti Riedel, da Unesp
[22/08/2015]
Um grupo de pesquisadores e estudantes mapeou todo o litoral de São Paulo e descobriu que a Baixada Santista é altamente sensível ao derramamento de petróleo. Isso significa que a região seria muito impactada no âmbito social, ambiental e econômico, caso ocorresse um vazamento de óleo de grandes proporções.

O projeto foi coordenado pela doutora Paulina Setti Riedel, docente do Departamento de Geologia da Unesp de Rio Claro, no interior paulista. Dezenas de alunos de graduação e pós-graduação, de vários cursos, participaram do mapeamento das áreas litorâneas. A coleta de dados, feita por meio terrestre e aquático, e a análise das informações foram realizadas entre 2006 e 2014. "Como São Paulo é o estado mais impactado pelo derramamento de óleo, a ideia era fazer uma pesquisa diferenciada, detalhada. O litoral é muito recortado e o material pode parar em qualquer prainha", diz Paulina.

O estudo deu origem ao "Atlas de Sensibilidade Ambiental ao Óleo no Litoral Paulista", lançado em 2014, e a 128 "Cartas de Sensibilidade Ambiental a Derramamento de Óleo". O atlas aponta os locais onde há maior ou menor sensibilidade ao derramamento de petróleo.

Para a classificação dos ambientes, os pesquisadores utilizaram o Índice de Sensibilidade do Litoral (IsL), baseado em um padrão estabelecido pelo Ministério do Meio Ambiente, que segue normas internacionais. O IsL 1 representa baixa sensibilidade e o IsL 10, alta.

Os dados mostram que a Baixada Santista apresenta um litoral com alta sensibilidade a derramamentos de óleo. Cerca de 65,5% da região encontra-se sob IsL 9 ou 10, incluindo manguezais (58,6%), lagunas e margens de rio (1,3%) e planícies de maré lamosas e abrigadas (5,5%). Os costões rochosos abrigados ocorrem em apenas 10,8 quilômetros do litoral da Baixada Santista, porém, esses ambientes são considerados prioritários, devido à sua maior biodiversidade e menor capacidade de se recuperar ou restabelecer.

Atualmente, 78,3% da área de Cubatão, 73,4% de Santos, 64,8% de São Vicente, 60,1% de Bertioga, 52,6% de Peruíbe, 51,6% de Praia Grande, 42% de Guarujá e 25,4% de Itanhaém e Mongaguá são consideradas de alta sensibilidade.

O Polo Industrial de Cubatão e do Porto de Santos fazem da região um dos locais mais suscetíveis a vazamentos de óleo, tanto crônicos como acidentais. "Existe um grande trânsito de navios, o que aumenta a probabilidade de um acidente. Essa área fica muito exposta a riscos”, explica Paulina.

A partir das informações do atlas e das cartas, é possível planejar melhor as ações de contenção, em caso de incidentes. Dessa forma, pode-se utilizar melhor os recursos disponíveis, para agilizar a limpeza e diminuir os danos ambientais. "Quando acontece uma situação de emergência, você tem de agir o mais rápido possível, priorizar as regiões mais sensíveis para controlar o problema", afirma.

Ainda de acordo com a coordenadora da pesquisa, é recomendável que empresas da região tomem medidas para evitar incidentes. "A sensibilidade de uma praia composta por areia grossa sempre será maior do que a de uma praia com areia fina. Se é inevitável o trânsito de navios, que eles sejam mantidos da melhor maneira possível, para evitar vazamentos", diz.

Litoral Sul
Menos recortado que o Litoral Norte e a Baixada Santista, o Litoral Sul paulista apresenta predominância de ambientes sensíveis, com IsL 10. Os manguezais representam 66,8% da linha da costa, seguidos pelas planícies de maré lamosas e abrigadas, com 13,2% da linha costeira, também bastante sensíveis, de IsL 9. Juntos, os IsL 9 e 10 somam 80% da faixa litorânea Sul.

Os manguezais constituem o principal ambiente nos três municípios do litoral sul. Cananéia representa 69,2% do litoral, seguido por Iguape, com 63,7%, e Ilha Comprida, com 57%. Em Ilha Comprida, as praias de areia fina e expostas são bastante representativas, com 31,6%. Em Cananéia, as planícies de maré (IsL 9) representam 15,7%. Já Iguape apresenta praias em 26,3% de seu litoral, 14,2% são de areia fina e expostas (IsL 3), e 12,1% são de areia fina. Como há limitações para a limpeza nesses ambientes, por sua elevada sensibilidade, o litoral sul de São Paulo pode ser considerado uma área estratégica para ações preventivas.

O atlas completo, que abrange também o litoral norte, bem como cada carta, separadamente, estão disponíveis para download, em português, na biblioteca digital da Unesp. Há previsão para a versão em inglês, ao final do segundo semestre de 2015.
Mariane Rossi, do G1 Santos