BRASIL E ESTADOS UNIDOS ESTUDAM BIODIVERSIDADE DO BRASIL
Passo à frente
Parceria entre FAPESP e NSF une pesquisadores do Brasil e dos Estados
Unidos para conhecerem melhor os processos que afetam a biodiversidade
brasileira
RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE |
Edição 216 - Fevereiro de 2014
© LÉO RAMOS

Árvores da Amazônia…
A FAPESP e a National Science Foundation (NSF) deram um passo a mais
para fortalecer a parceria estabelecida em 2011 voltada ao estudo da
biodiversidade no Brasil. Em dezembro passado foi lançada a terceira
chamada de propostas de cooperação científica vinculadas às principais
linhas de financiamento de estudos sobre a diversidade biológica das
duas agências, os programas Biota-FAPESP e Dimensions of Biodiversity. O
objetivo é estimular a colaboração em pesquisa entre cientistas por
meio de projetos que contribuam para o avanço dos estudos em
biodiversidade no Brasil e Estados Unidos. Os projetos aprovados
receberão até US$ 2 milhões de cada fundação.
A ideia é que as propostas integrem as três dimensões da
biodiversidade — genética, taxonômica e funcional —, com o propósito de
tentar compreender como elas contribuem para a saúde, o funcionamento
dos ecossistemas e a adaptação biológica em resposta às mudanças
ambientais. “O caráter interdisciplinar que os projetos submetidos
precisam atender é um dos principais diferenciais dessa parceria”, diz
Regina Costa de Oliveira, diretora da área de biologia, agronomia e
veterinária da Diretoria Científica da FAPESP e coordenadora da chamada
de propostas. Segundo ela, a FAPESP preza as parcerias com grandes
instituições, como a NSF, porque envolvem muitos pesquisadores e intensa
produção científica.
A seleção de propostas integra uma chamada mais ampla, publicada
todos os anos pelo Dimensions of Biodiversity, voltada à participação de
pesquisadores de instituições americanas em projetos financiados pela
NSF ou lançados em parceria com outras fundações. De 2003 a 2007 houve
intensa troca de experiências entre a coordenação do programa Biota e a
administração da NSF. Esses contatos contribuíram para que, em 2010, a
NSF iniciasse um projeto de 10 anos de investimentos em pesquisa,
infraestrutura de tecnologia, força de trabalho, coleta e síntese de
dados, numa campanha de estudos integrados com o objetivo de
caracterizar a dimensão da diversidade biológica da Terra. Na mesma
época, a FAPESP renovou por mais 10 anos a continuidade do Biota-FAPESP.
Dentre os objetivos da segunda fase estão as parcerias internacionais, a
expansão da abrangência geográfica para além do estado de São Paulo, a
ampliação de pesquisas sobre a biodiversidade costeira e marinha e a
prioridade à vertente educacional, o que vem sendo feito.
© EDUARDO CESAR

… e da mata atlântica: projetos pretendem entender melhor a origem e evolução da biodiversidade vegetal
Em 2013, o programa organizou, em parceria com
Pesquisa FAPESP,
uma série de palestras para discutir os desafios ligados à conservação
dos principais ecossistemas brasileiros, como contribuição para a
melhoria da qualidade da educação científica e ambiental no país. Com 13
anos de história em caracterização, conservação, restauração e uso
sustentável da biodiversidade, o Biota-FAPESP já financiou mais de 120
projetos de pesquisa, cujos resultados têm contribuído para que
tomadores de decisão possam identificar e caracterizar melhor as áreas
prioritárias para conservação e restauração no estado de São Paulo.
“As relações entre pesquisadores brasileiros e americanos têm
promovido avanços importantes quanto a nossa compreensão dos processos
que regulam a diversificação, manutenção e perda de biodiversidade no
Brasil”, diz Simon Malcomber, coordenador do Dimensions of Biodiversity.
A expectativa, segundo ele, é que essas atividades colaborativas
promovam o desenvolvimento científico e econômico dos dois países,
gerando uma força de trabalho amplamente treinada e internacionalmente
engajada na pesquisa ambiental.
Projetos aprovados
O resultado da primeira chamada foi anunciado em setembro de 2012.
Um projeto ambicioso, coordenado pela bióloga Lúcia Lohmann, do
Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), pretende
entender o que levou a floresta amazônica a abrigar a maior variedade de
plantas e animais do mundo (
ver Pesquisa FAPESP nº 200).
Para isso, uma equipe multidisciplinar de 30 pesquisadores brasileiros e
americanos trabalha para tentar reconstruir o parentesco, história
evolutiva e distribuição espacial de grupos animais e vegetais, como as
Bignoniáceas, família de plantas que inclui os ipês e os jacarandás, e
as Lecythidaceae, grupo no qual está a castanheira-do-brasil.
© LÉO RAMOS

Flor da Amazônia…
Se o projeto avançar, os pesquisadores esperam poder identificar os
principais momentos de diversificação das espécies desses grupos e
reconstruir suas histórias biogeográficas. Com isso, pretendem entender
melhor a origem e evolução da biodiversidade da região. “Queremos
reconstruir a história da Amazônia nos últimos 20 milhões de anos”,
conta Lúcia. “Mas antes precisamos entender melhor a história da
biodiversidade da região, bem como as transformações que ocorreram no
ecossistema. Só assim conseguiremos entender a influência de eventos
geológicos específicos, como o surgimento dos Andes, na diversificação
de espécies na Amazônia.” A pesquisadora também planeja investigar se
esses eventos de diversificação estão associados a fenômenos climáticos e
ciclos biogeoquímicos, entre outros aspectos ambientais do passado.
Análises integradas
Os trabalhos estão bastante avançados e já resultaram em quatro
artigos publicados até agora, além de outros cinco que estão no prelo.
No ano passado, o projeto foi citado pela revista Science, que enfatizou seu potencial na produção de insights
ligados à biodiversidade amazônica. Os grupos ainda trabalham de forma
isolada, mas Lúcia pretende reuni-los entre os dias 16 e 21 de
fevereiro, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em
Manaus, para discutir os avanços deste primeiro ano de pesquisas e
estabelecer novas metas e protocolos de trabalho para 2014.
© EDUARDO CESAR

… e cogumelo da mata atlântica: objetivo é
identificar os principais picos de diversificação de espécies
Lúcia está paralelamente envolvida em outro projeto, este de
caracterização da distribuição e diversidade de espécies animais e
vegetais na mata atlântica. O projeto foi aprovado em 2013, na segunda
chamada de propostas FAPESP-NSF. Sob coordenação da bióloga Cristina
Miyaki, do Instituto de Biociências da USP, pesquisadores de diversas
áreas estão trabalhando para entender melhor a história do ecossistema,
um dos mais degradados do país. Em fevereiro, eles se reunirão em um
workshop
na sede da FAPESP em São Paulo. “O objetivo é juntar os pesquisadores
para delinear o que cada um está fazendo, de modo a começarmos a pensar
como os avanços de cada grupo podem ajudar a melhorar a documentação dos
padrões da biodiversidade na mata atlântica”, explica Cristina, que
também é uma das organizadoras do evento. Essa será a primeira vez que
as equipes estarão frente a frente, conta Regina Costa de Oliveira.
“Queremos promover esses encontros anualmente”, diz.
“Estamos animados com o potencial desse e de outros projetos
conjuntos de expandir nosso conhecimento sobre os processos que
influenciam a biodiversidade desses dois ecossistemas brasileiros”,
comenta Malcomber, do Dimensions of Biodiversity. Apesar de terem apenas
dois anos, ele diz estar satisfeito com a natureza colaborativa dos
trabalhos. “As equipes de pesquisadores têm feito progressos
significativos”, diz. “Esperamos que continuem a empurrar as fronteiras
da ciência da biodiversidade.” Para Regina Costa de Oliveira, parcerias
como essa aumentam a massa crítica pensante sobre os diversos temas
relacionados à biodiversidade. “Estamos usando a biodiversidade
brasileira como ponto de partida para uma análise envolvendo uma grande
mistura de especialidades, cujas pesquisas reverberarão por vários
outros países”, afirma.