A evolução precoce dos répteis diapsidas é marcada por um profundo contraste entre nosso conhecimento da origem e evolução precoce dos arquissauros (crocodilos, dinossauros aviários e não-aviários) ao dos lepidosauromorfos (escamos (lagartos, cobras) e esfenodoncianos (tuataras)). Considerando que as primeiras incluem centenas de espécies fósseis através de várias linhagens durante o período Triássico1, estes últimos são representados por um registro fóssil extremamente irregular que compreende apenas um punhado de fósseis fragmentários, a maioria dos quais têm afinidades filogenéticas incertas e estão confinados à Europa1,2,3. Aqui relatamos a descoberta de um crânio réptil tridimensionalmente preservado, atribuído comoTaytalura alcoberigen. et sp. nov., da época triássica tardia da Argentina que é robustamente inferido filogeneticamente como o primeiro lepidosauromorpha em evolução, usando vários tipos de dados e critérios de otimização.
Tomografias microcomputadas deste crânio revelam detalhes sobre a origem do crânio lepidosauriano a partir de diapsidas precoces, sugerindo que vários traços tradicionalmente associados com esfenodontas de fato se originaram muito antes na evolução do lepidosauromorpha.Taytalurasugere que a arquitetura do crânio fortemente conservada evolutivamente dos esfenodoncianos representa a condição plesiomórfica para todos os lepidosauros, que os lepidosauros de caule e coroa foram contemporâneos por pelo menos dez milhões de anos durante o Triássico, e que os lepidosauromorfos primitivos tinham uma distribuição geográfica muito mais ampla do que se pensava anteriormente.
domingo, 23 de fevereiro de 2020
Fóssil de réptil descoberto na Alemanha ajuda a entender origem de lagartos e tuataras
Anatomia
e dados moleculares indicam que ‘Vellbergia bartholomaei’ é um dos
poucos vínculos entre répteis primitivos e modernos; descoberta
divulgada na “Scientific Reports” é parte de estudo de ex-aluna da USP
Tuatara da espécie Sphenodon punctatus – Foto: PhillipC via Wikimedia Commons / CC BY 2.0Uma nova espécie pré-histórica de répteis acaba de ser descoberta. Batizada de Vellbergia bartholomaei,
ela possui características anatômicas que trazem informações sem
precedentes que ajudam a compreender a evolução dos lagartos, cobras, a
tuatara e todos os répteis fósseis mais proximamente relacionados a eles
do que a aves e jacarés (Lepidosauromorpha).
A novidade foi publicada em um artigo na revista Scientific Reports,
e tem como autora principal Gabriela Sobral, ex-aluna da USP e que
atualmente desenvolve pesquisa na Alemanha. Além dela, assinam Rainer
Schoch, do Museu Estadual de História Natural de Stuttgart, também na
Alemanha, e Tiago R. Simões, da Universidade Harvard, nos Estados
Unidos.
Os lepidossauromorfos formam um dos grupos mais diversos de
vertebrados terrestres atualmente, incluindo mais de 10.500 espécies. Os
ancestrais dos lagartos cobras e tuataras são encontrados em alguns
poucos locais pelo mundo, e pouco se sabe a respeito dos primeiros
estágios de evolução desses animais.
No artigo, Sobral e os demais pesquisadores revelaram ter descoberto o
fóssil de um réptil do período Triássico Médio (240 milhões de anos
atrás), em Vellberg, na Alemanha.
Trata-se de um fóssil de uma espécie
até então desconhecida, que possui características semelhantes tanto a
espécies mais antigas do grupo dos lagartos e da tuatara, quanto de
outros grupos de répteis mais primitivos. Como mostraram análises feitas
com dados anatômicos e moleculares, tais características indicam que a Vellbergia é um dos poucos vínculos entre os répteis primitivos e os modernos.
Conjunto
único de características anatômicas do fóssil ajuda a compreender como o
grupo evoluiu nos primeiros estágios de sua história. Imagens
digitalizadas do fóssil da Vellbergia – Reprodução/Scientific Reports
O fóssil também contribui para destacar a cidade de Vellberg como um local importante para compreender a evolução da família Lepidosauromorpha.
Uma vez que existem poucos registros de fósseis do período Triássico
Inferior, espécies do Triássico Médio são fundamentais para compreender
como os vertebrados se recuperaram depois da maior extinção em massa de
que se tem conhecimento, ocorrida entre os períodos Permiano e Triássico
(cerca de 252 milhões de anos atrás), e como se diversificaram até
chegar às espécies atuais.
“É um fóssil muito interessante porque mostra um conjunto único de
características anatômicas que nos ajuda a compreender como esse grupo
evoluiu nos primeiros estágios de sua história, especialmente na
linhagem dos tuatara”, diz Sobral.
“A fauna de Vellberg preserva um dos ecossistemas mais diversos do
Triássico”, diz Schoch. “Também vieram de lá o ancestral mais antigo da
tartaruga, assim como familiares dos crocodilos e alguns anfíbios de até
5 metros de comprimento.”
Simões acrescenta: “Vellberg é uma mina de ouro, revelando as fases
iniciais dos mais de 250 milhões de anos de história dos lagartos, que
culminaram em mais de 10 mil espécies modernas”.
Ciência e divulgação
A pesquisadora e divulgadora científica Gabriela Sobral – Foto: Reprodução/Dragões de Garagem
A trajetória de Gabriela Sobral demonstra, na prática, que produção
relevante de ciência e divulgação ao público leigo não são excludentes.
Formada em biologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
ela se voltou para a paleontologia já na graduação, e seguiu na área
durante o mestrado, na USP em Ribeirão Preto, com o professor Max
Langer. Depois, ela foi para a Alemanha desenvolver seu projeto de
doutorado.
Na volta ao Brasil, continuou produzindo pesquisa, com dois projetos
de pós-doutorado no Museu Nacional e no Museu de Zoologia (MZ) da USP, e
também foi professora na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
durante um período. Foi então que recebeu a proposta para ir a
Stuttgart, na Alemanha, onde está há cerca de um ano e meio trabalhando
com o professor Rainer Schoch, no Museu de História Natural.
Lá, a pesquisadora já participou de outros projetos que envolvem análise de fósseis, além do Vellbergia.
Como ela destaca, as descobertas que vêm aparecendo são suficientes
para colocar a região de Vellberg como uma das mais importantes do mundo
para o estudo desse grupo. A idade dos fósseis que são encontrados no
local, de até 240 milhões de anos, também é um fator importante, por ser
relativamente próxima ao momento em que ocorreu a extinção em massa do
período Permo-Triássico.
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“A extinção do Permo-Triássico tem recebido muita atenção porque é um
evento que de várias maneiras se assemelha ao que estamos passando hoje
com a crise climática e de biodiversidade”, diz. “Estudar essas coisas
se torna importante para entender como animais de vários grupos e
ambientes reagiram, sobreviveram e se recuperaram. Isso ajuda a refinar
os modelos atuais que nós temos e, quem sabe, ajuda a traçar
estratégias, como identificar comunidades prioritárias para conservação e
recuperação.”
Como divulgadora científica, Gabriela Sobral também tem um trabalho
extenso, tendo participado de projetos como palestras e feiras
temáticas, tanto no Brasil quanto na Alemanha. No período em que deu
aula na UFSC, ela foi convidada a fazer parte do Dragões de Garagem,
grupo que reúne textos, podcasts e conteúdo em vídeo e quadrinhos com
objetivo de popularizar a ciência. O grupo é parte da rede Science Vlogs
Brasil, junto com o Ciência USP. Mesmo na Alemanha, e com algumas
dificuldades com o idioma, ela não abre mão de continuar atuando na
divulgação, especialmente no museu. “Vou no meu alemão quebrado, na
mímica mesmo, e dá certo”, brinca.
Matheus Souza, com informações da Assessoria de Imprensa do Museu
Estadual de História Natural de Stuttgart. Colaborou: Luiza Caires
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