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quinta-feira, 9 de março de 2017

Mar Báltico

Estudo revela assentamento da Idade da Pedra no fundo no mar

Objetos encontrados a três quilômetros da atual costa da Suécia foram deixados por pescadores há 9 mil anos, quando local era uma lagoa próxima do oceano
09 Março 2017 | 03h00
Foto: Universidade de Lund
Estudo revela assentamento da Idade da Pedra no fundo no mar
Antigas armadilhas para peixes foram encontradas há sete anos no fundo do Mar Báltico, no sudoeste da Suécia
Há sete anos, mergulhadores encontraram antigas armadilhas para peixes no fundo do Mar Báltico, no sudoeste da Suécia. Desde então, pesquisadores da Universidade de Lund (Suécia) estudaram o local e descobriram que se trata de um assentamento humano da Idade da Pedra.

Agora, em um novo estudo publicado na revista científica Quaternary International, os pesquisadores comprovaram que o local era, há 9 mil anos, uma lagoa onde homens do Mesolítico passavam partes do ano e pescavam intensamente.

Uma das descobertas mais importantes feitas no local é um machado de quase 9 mil anos, esculpido em chifre de alce, surpreendentemente bem fabricado e bem preservado. Além disso, foram localizadas ao todo oito armadilhas fixas para peixes - as mais antigas conhecidas - feitas de hastes de aveleira trançadas.
Foto: Universidade de Lund
Estudo revela assentamento da Idade da Pedra no fundo no mar
Uma das descobertas mais importantes feitas no local do assentamento humano da Idade da Pedra é este machado de quase 9 mil anos
Segundo os cientistas, o local fica a cerca de três quilômetros da atual costa da Suécia, 20 metros abaixo da superfície atual da baía Hanö. Mas, há 9 mil anos, o perfil do litoral era bem diferente, já que o nível do mar era bem mais baixo. Se hoje está no fundo do mar, no Mesolítico o sítio onde foi descoberta a "área de pescaria" primitiva ficava na borda de uma lagoa próxima ao mar.

De acordo com o autor principal do novo estudo, Anton Hansson, que é pós-doutorando em Geologia na Universidade de Lund, é provável que diversos outros sítios arqueológicos da pré-História estejam submersos, como o da baía de Hanö.

"Se quisermos entender totalmente como os humanos se dispersaram depois de sua origem na África - e qual era seu modo de vida -, temos que procurar todos seus assentamentos. Hoje, vários deles estão submersos, já que o nível do mar é mais alto atualmente que durante a última glaciação. Os humanos sempre preferiram se estabelecer em áreas costeiras, como fazemos até hoje", disse Hansson.

Hansson acredita que o ambiente lacustre onde se situava o assentamento era cercado por uma floresta de pinheiros - e que os habitantes levavam ali "uma vida bastante satisfatória". "Havia muita comida e um clima razoavelmente quente, pelo menos nos verões. Como geólogos, queremos recriar essa área para entender como ela se parecia", afirmou.

Os cientistas perfuraram o solo marinho até três metros de profundidade e submeteram as amostras obtidas a datações de radiocarbono. Eles também estudaram o pólen e as diatomáceas - organismos unicelulares que fazem parte do fitoplâncton - coletados no local.
Foto: Universidade de Lund
Estudo revela assentamento da Idade da Pedra no fundo no mar
Linha tracejada mostra a linha costeira atual, os pontos coloridos indicam locais onde foram descobertos ossos e armadilhas para peixe.
Os pesquisadores produziram um mapa batimétrico - que mostra a profundidade de cada trecho da área -, utilizando para isso dados obtidos com ecossondas e a partir de amostras coletadas por mergulhadores.

De acordo com Hansson, antes da descoberta não se conhecia nenhum vestígio de pesca em rios e lagos na Suécia do Mesolítico. As estruturas costeiras também são as mais antigas já encontradas no norte da Europa, embora provavelmente não sejam as únicas.

"Sítios como esses já eram conhecidos, mas apenas por meio de descobertas esparsas. Agora nós temos as tecnologias necessárias para fazer interpretações mais detalhadas da paisagem", afirmou Hansson.

domingo, 10 de junho de 2012

O dente da preguiça gigante

Fóssil encontrado em Sergipe traz evidência direta da interação entre a nossa espécie e esses animais. A descoberta, tema da coluna deste mês de Alexander Kellner, suscita questões sobre como se comprova a alteração de um material pela ação humana e quando essa megafauna se extinguiu. 
 
Por: Alexander Kellner
Publicado em 10/06/2012 | Atualizado em 10/06/2012
O dente da preguiça gigante
Reconstituição da paisagem de Sergipe há 40 mil anos, com diversos representantes da megafauna que viviam na região, entre eles, a preguiça gigante. (arte: Marcelo e Tânia Viana; concepção: Mário Dantas)
Quando recebi de Mário Dantas (Universidade Federal de Minas Gerais) o trabalho que ele publicou com outros colegas no periódico Quaternary International sobre um dente de uma preguiça gigante extinta modificado pela ação humana, logo imaginei que esse assunto seria bem interessante para a coluna Caçadores de fósseis.

Quantas vezes se tem a chance de discutir a interação entre animais extintos há milhares de anos e as primeiras levas da nossa espécie que chegaram à América do Sul?
No entanto, logo percebi que a problemática é bem maior do que eu supunha. Não apenas por suscitar a questão de como se comprova que um dente ou algum fóssil foi realmente manuseado pelo homem há milênios, mas também por envolver temas complexos, como até quando viveram os integrantes de algumas espécies extintas.

Poço redondo

O exemplar pesquisado por Mário Dantas e colegas foi coletado em 2010 na fazenda São José, situada no município de Poço Redondo, em Sergipe. O depósito é do tipo tanque, uma depressão natural formada por processos físicos e erosão química a partir de fraturas preexistentes na região.
Os sedimentos que preenchem esse tipo de depressão foram carreados devido a chuvas que, quando bem intensas, geravam um fluxo de água que também podia transportar restos de animais mortos presentes nos arredores da depressão. Aliás, justamente nesse tipo de depósito encontra-se grande parte dos fósseis atribuídos à chamada megafauna, que vivia em diferentes regiões do nosso planeta, particularmente durante o Pleistoceno (entre 1,8 milhão e 11,5 mil anos atrás).
Depósito em Poço Redondo
O dente da preguiça gigante foi encontrado em um depósito em Poço Redondo (Sergipe) formado por uma depressão natural que abriga sedimentos carregados pela água da chuva. (foto: Mário Dantas)
Apenas para relembrar, a megafauna é composta por animais geralmente de grande proporção que conviveram com a espécie humana e se extinguiram ao final da última era do gelo, entre 12 mil e 10 mil anos atrás. Entre os grupos mais famosos se destacam os mamutes, as preguiças gigantes e os tatus de grandes dimensões.

Processos naturais ou ação humana?

Entre os diversos fósseis coletados em Poço Redondo, um chamou bastante a atenção dos pesquisadores: um dente. Ao se depararem com esse exemplar, Mário e colegas notaram que ele estava incompleto, sem, no entanto, apresentar uma quebra natural, que poderia ter resultado de diversos processos físicos antes mesmo da preservação do material.

Quebras poderiam ter ocorrido, por exemplo, durante o transporte do dente para dentro do tanque. Porém, quando isso acontece, as partes quebradas exibem uma superfície bem característica, bastante irregular, sem apresentar qualquer ranhura ou estrutura orientada.

Todo o dente é bastante liso, o que sugere que foi aplainado, algo incompatível com um processo natural
Ou então o dente poderia ter sofrido a ação de pisoteamento, devido ao confinamento de animais em uma pequena área. Sem espaço e com mortes ocorrendo, eles acabam pisando nas carcaças. Tal situação pode ser observada hoje em dia nas savanas africanas em períodos de seca, quando a fauna local acaba se concentrando perto de corpos d’água, com muitos indivíduos e pouco espaço. Esse tipo de quebra também exibe marcas características: ranhuras sem qualquer direção preferencial.

O dente de Poço Redondo, ao contrário, é marcado por sulcos paralelos situados na sua ponta e nas suas laterais. Além disso, todo o dente é bastante liso, o que sugere que foi aplainado, algo incompatível com um processo natural. Por último, foram encontrados junto com esse exemplar artefatos líticos, o que é evidência direta da ação humana.
Dente de preguiça gigante
Além de ser bastante liso, o que sugere que foi aplainado, o dente estudado é marcado por sulcos paralelos situados na sua ponta e nas suas laterais, como mostram os detalhes da figura. (foto: Mário Dantas)
Uma das questões intrigantes que Mario e seus colegas tiveram que desvendar é a qual espécie o dente pertencia. Apesar de o fóssil estar incompleto, os pesquisadores puderam identificar camadas com cimento, ortodentina e ortodentina modificada. A análise dessas camadas mostrou que o dente pertence ao grupo Megatheriidae, formado pelas preguiças gigantes.

Das duas espécies de preguiça gigante existentes em solo brasileiro, Eremotherium americanum foi registrada apenas na região Sul do país, enquanto Eremotherium laurillardi tem distribuição em todo o território nacional, incluindo o Nordeste. Logo, não é preciso pensar muito nos motivos que levaram aos autores a atribuir o material encontrado a Eremotherium laurillardi...
Mas a descoberta ainda tem outras implicações...

Idade do fóssil

Ao pesquisar sobre artefatos líticos encontrados no estado de Sergipe, os registros mais antigos são atribuídos à cultura Canindé. Com base em datações realizadas por meio do método do Carbono 14, foi estabelecido que essa cultura estava desenvolvida entre 8.950 e 5.570 anos atrás – idade estimada também para o dente.
A espécie de preguiça gigante pode ter vivido até o Holoceno e interagido com a população humana existente naquele tempo
 
Diante desses dados, Mário e colegas chegaram a duas alternativas. Ou a espécie de preguiça gigante viveu até o Holoceno (que se estende de 11,5 mil anos atrás aos dias atuais) e interagia com a população humana existente naquele tempo, ou então a chegada da espécie humana à América do Sul é mais antiga do que se supõe, devendo ter ocorrido há cerca de 15 mil anos – idade já proposta por alguns autores, mas não aceita pela maioria dos pesquisadores.

Sem querer me aprofundar nessa questão (que poderia ser o tema de outra coluna), o período exato da chegada da espécie humana à América do Sul tem sido foco de uma discussão intensa. As evidências físicas diretas são representadas por um crânio encontrado em Lagoa Santa (Minas Gerais). Esse exemplar, ao qual se deu o nome informal de Luzia e que se encontra exposto no Museu Nacional/UFRJ, teve sua idade determinada entre 11 mil e 11,5 mil anos.
Resta, agora, que os pesquisadores deem prosseguimento a essa escavação na região de Poço Redondo, em Sergipe. Se a burocracia deixar, eles certamente farão diversas novas descobertas, que podem elucidar essa interessante questão que é a interação entre a nossa espécie e a megafauna.
Obrigado ao Mário pelo envio do trabalho.

Alexander Kellner
Museu Nacional/UFRJ
Academia Brasileira de Ciências