Mostrando postagens com marcador diabetes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador diabetes. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Pistas da origem do diabetes tipo 1

Alterações na microbiota do intestino podem estar associadas ao surgimento da doença
Mucosa intestinal perfurada por bactérias que levam à destruição das células do pâncreas produtoras de insulina
CDC
Pesquisadores das universidades Federal de Minas Gerais (UFMG) e de São Paulo (USP) identificaram em modelos animais uma sequência de alterações orgânicas nas populações de bactérias que colonizam o intestino (microbiota) que pode desencadear o diabetes tipo 1, caracterizado pela destruição das células do pâncreas produtoras de insulina por outras células do organismo.

De acordo com esse estudo, publicado em julho na revista científica Journal of Leukocyte Biology, a produção de substâncias antimicrobianas e de anticorpos que protegem a membrana do intestino é muito baixa em uma linhagem especial de camundongos, que desenvolve diabetes espontaneamente e reproduz a evolução da doença em seres humanos. 

Diante de barreiras deficientes, bactérias que vivem no intestino sem causar doenças e as toxinas que produzem atravessam a membrana e se instalam nos gânglios linfáticos – ou linfonodos – que conectam o pâncreas e a porção inicial do intestino. Nos linfonodos, os microrganismos e as toxinas podem ativar um grupo de células brancas, os linfócitos T.

“O deslocamento de bactérias do intestino para os linfonodos precipita processos inflamatórios que poderiam ocorrer apenas mais tarde”, diz a médica imunologista Ana Maria Caetano Faria, do Instituto de Ciências Biomédicas da UFMG, que coordenou o estudo. Nos linfonodos, uma proteína da superfície de células brancas do sangue conhecida como NOD2 reconhece as bactérias e toxinas que migraram do intestino e geraram uma resposta inflamatória, ativando os linfócitos T, como descrito por uma equipe da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) em um artigo de 2016 na Journal of Experimental Medicine.

Os linfócitos T vão em seguida para o pâncreas e, incapazes de distinguir o que é do próprio organismo de microrganismos causadores de doenças, destroem as células beta, produtoras de insulina.

Mais comum nas duas primeiras décadas de vida, o diabetes tipo 1 acomete cerca de 1,1 milhão de pessoas e é tratado com reposição de insulina. O tipo 2, no qual a insulina é produzida, mas não utilizada pelo organismo, é o mais comum, com 90% dos casos diagnosticados, e atinge cerca de 11 milhões de pessoas no país. O diabetes tipo 1 é classificado como uma doença de predisposição genética, mas menos de 10% das pessoas suscetíveis desenvolvem o distúrbio. Fatores ambientais, como a dieta, exposição a agentes infecciosos e mudanças na composição da microbiota intestinal, também estão associados à doença. “A predisposição genética não age sozinha nem explica tudo. Entre irmãos gêmeos, um pode ter a doença mais cedo e o outro mais tarde”, comenta Faria.

Os camundongos do tipo diabetes não obeso (NOD), usados nos experimentos que levaram a essas conclusões, começam a desenvolver a doença quatro semanas após nascer, logo depois do desmame. “Identificamos processos inflamatórios no intestino anteriores ao primeiro sinal clínico do diabetes – a elevação das taxas de glicose no sangue –, que ocorre normalmente após a 20ª semana de vida”, relata Faria. Segundo ela, os animais dessa linhagem produzem poucos anticorpos, principalmente a imunoglobulina do tipo A (IgA), e pouco muco, gel com propriedades antimicrobianas que reveste a mucosa intestinal.

Na UFMG, os experimentos realizados pela bióloga Mariana Miranda registraram uma redução na produção de interleucina 10 (IL-10) no intestino dos camundongos, antes e durante o desenvolvimento do diabetes. A IL-10 é uma citocina anti-inflamatória na regulação do sistema de defesa na mucosa intestinal. Sua escassez facilita a progressão de inflamações e a migração de células através da mucosa intestinal.

“Uma das primeiras etapas do diabetes tipo 1 é uma mudança significativa no perfil da microbiota intestinal”, diz a bióloga Daniela Carlos Sartori, da FMRP-USP, que participou desse trabalho. “Bactérias não patogênicas com potencial probiótico, como Lactobacillus e Bifidobacterium, são substituídas por outras, patogênicas e pró-inflamatórias, como Escherichia coli”, diz.

No Instituto Científico São Rafael, em Milão, na Itália, a imunologista Chiara Sorini também verificou em camundongos que a colite, um tipo de inflamação intestinal, pode alterar a camada de muco, debilitar a barreira intestinal e levar ao diabetes tipo 1. Em um artigo publicado também em julho na revista PNAS, Sorini e outros pesquisadores da Itália e da Suécia argumentaram que o aumento da permeabilidade da mucosa intestinal é “diretamente responsável” pela destruição das células beta, que ocasiona o diabetes tipo 1. De acordo com esse trabalho, camundongos NOD, apesar de terem células T específicas para células beta, não se tornam diabéticos a menos que um evento, como a perda da barreira intestinal, dispare o processo de autoimunidade.

“Talvez a microbiota não seja a responsável direta pelo diabetes tipo 1, mas certamente é um dos fatores que desencadeiam a doença”, ressalva o endocrinologista Mário Saad, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que não participou desses estudos. “Os avanços no esclarecimento das causas do diabetes são muito importantes, mas ainda estamos longe da cura ou de novos tratamentos.” As causas poderiam ser ainda mais complexas. Em um artigo publicado em março de 2016 na Nature Reviews Endocrinology, Mikael Knip e Heli Siljander, da Universidade de Helsinque, na Finlândia, observaram que as alterações nas populações de bactérias, por começarem depois da produção de anticorpos que vão atacar as células beta, poderiam estar envolvidas na progressão da doença, mais do que em sua causa.

“A partir desses resultados, recomendamos evitar as dietas ricas em carboidratos refinados e gorduras, que facilitam esse processo, e avaliar intervenções nutricionais à base de fibras, ou de probióticos, com as próprias bactérias, para manter a microbiota intestinal saudável”, comenta Sartori.

Projeto
 
Estudo do perfil do microbioma intestinal e do potencial terapêutico de estratégias de intervenção na imunopatogenia do diabetes tipo 1 e 2 (nº 18/14815-0); Modalidade Jovem Pesquisador; Pesquisadora responsável Daniela Carlos Sartori (USP); Investimento R$ 2.416.301,71.

Artigos científicos
 
MIRANDA, M. C. G. et al. Abnormalities in the gut mucosa of non-obese diabetic mice precede the onset of type 1 diabetes. Journal of Leukocyte Biology. v. 106, n. 3, p. 513-29. 16 jul. 2019.

SORINI, C. et al. Loss of gut barrier integrity triggers activation of islet-reactive T cells and autoimmune diabetes. PNAS. v. 116, n. 30, p. 15140-9. 23 jul. 2019.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Bactérias do intestino podem ser gatilho para o diabetes tipo 1

Agosto de 2016

Karina Toledo | Agência FAPESP – Estudos recentes têm mostrado que portadores de diabetes frequentemente apresentam um desequilíbrio entre as bactérias benéficas e as patogênicas que compõem a microbiota intestinal – condição conhecida como disbiose, potencialmente maléfica ao organismo. Não está claro, contudo, se isso é uma das causas ou uma consequência dessa doença metabólica.

Novas evidências publicadas por pesquisadores brasileiros no Journal of Experimental Medicine sugerem que, quando bactérias intestinais conseguem escapar para os gânglios linfáticos localizados próximos ao pâncreas – devido a alterações de permeabilidade da parede do intestino causadas pelo processo de disbiose –, elas podem ativar certos receptores existentes em células do sistema imune inato (primeira linha de defesa do organismo), particularmente nos macrófagos e nas células dendríticas.
Bactérias do intestino podem ser gatilho para o diabetes tipo 1 Ilhota pancreática com reduzida marcação de insulina do grupo de roedores tratados com STZ, antibiótico e MDP, mostrando o processo de destruição contra as células beta produtoras de insulina (Imagem: Divulgação).
 
 Segundo os autores, essa ativação induziria uma condição pró-inflamatória no organismo e favoreceria o desenvolvimento de uma resposta imunológica direcionada (adaptativa) às células beta produtoras de insulina no pâncreas – processo que resulta no chamado diabetes tipo 1 ou autoimune.

“A fase final de desenvolvimento do diabetes tipo 1 já é bem compreendida. Sabe-se que o sistema imune, em um dado momento, passa a considerar as células beta do pâncreas como algo estranho ao organismo. Consequentemente, células específicas conhecidas como linfócitos T são ativadas e anticorpos são produzidos para destruir as produtoras de insulina. Porém, ainda não está claro quais são os gatilhos acionados no sistema imune inato para induzir a resposta imune adaptativa. Neste estudo, mostramos que há envolvimento de um receptor intracelular chamado NOD2”, contou Daniela Carlos, pesquisadora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), e coordenadora da pesquisa apoiada pela FAPESP.

As conclusões apresentadas no artigo são baseadas em experimentos com camundongos realizados durante o mestrado de Frederico R. C. Costa, sob orientação de Daniela e com a colaboração do professor da FMRP-USP João Santana Silva.

Nos ensaios, o grupo observou que camundongos modificados geneticamente para não expressar a proteína NOD2 eram resistentes ao desenvolvimento do diabetes tipo 1 mesmo quando desafiados com um estímulo químico.
“Para induzir diabetes em roedores sadios no laboratório é administrada uma droga chamada estreptozotocina, que é tóxica para as células beta do pâncreas. A morte dessas células funciona como um sinal inflamatório e outras células de defesa são ativadas e recrutadas para o local, reconhecem e atacam as células beta produtoras de insulina. Os animais recebem a substância durante cinco dias consecutivos e, após 15 dias, já estão diabéticos”, explicou Daniela.
A confirmação da doença é realizada por meio de testes como glicemia de jejum, tolerância à glicose e à insulina. Todos esses parâmetros clínicos, porém, se mantiveram inalterados nos animais que receberam estreptozotocina, mas não expressavam NOD2.

O perfil do suspeito

Conforme explicou Daniela, o papel desse receptor já está bem descrito na literatura científica. NOD2 está presente nas células de defesa e do epitélio intestinal, com a função de reconhecer um dos componentes bacterianos, o MDP (dipeptídeo muramil). Quando ativado, o receptor induz uma sinalização intracelular que resulta na expressão de peptídeos antimicrobianos e citocinas inflamatórias, como a interleucina 1 beta (IL-1β), a interleucina 6 (IL-6) e a interleucina 23 (IL-23) – substâncias envolvidas na ativação e migração de células de defesa para o intestino. Dessa maneira, NOD2 desempenha um papel essencial na imunidade local e sistêmica, mantendo a integridade da barreira intestinal e controlando a translocação bacteriana do lúmen (cavidade interna do intestino) para a mucosa.

“Decidimos investigar a participação da proteína NOD2 na patogênese do diabetes tipo 1 porque estudos anteriores descreveram a associação entre uma microbiota alterada e o desenvolvimento do diabetes autoimune em humanos e em modelos experimentais. No entanto, os mecanismos pelos quais as bactérias intestinais levam à patologia continuavam obscuros. Nesse contexto, o receptor NOD2, importante por auxiliar na manutenção da homeostase intestinal, apareceu como um alvo-chave a ser estudado”, explicou Daniela.
De acordo com a pesquisadora, todos os autoantígenos (próprios do organismo) estão constantemente sendo apresentados aos linfócitos T por células do sistema imune inato. Normalmente, isso acontece em um contexto “tolerogênico”, ou seja, o sistema imune inato sinaliza, por meio da interleucina10 (IL-10), para que os linfócitos T assumam um perfil regulador (imunossupressor).
No entanto, segundo a teoria do grupo de Ribeirão Preto, quando componentes bacterianos ativam o receptor NOD2 em células dendríticas e macrófagos, as citocinas inflamatórias liberadas induzem um ambiente inflamatório, ou seja, os linfócitos T passam a receber um sinal diferente e se convertem em células patogênicas, capazes de reconhecer e atacar as células beta produtoras de insulina.

Conforme já mencionado, é preciso haver também a morte celular das células beta pancreáticas e a subsequente liberação de autoantígenos para criar o contexto inflamatório. No animal de laboratório, a morte celular é induzida pela estreptozotocina. Em humanos, segundo Daniela, a causa pode ser um fator ambiental, como, por exemplo, uma infecção viral.

Validação

Para validar a importância dos receptores NOD2 na patogênese do diabetes tipo 1 e confirmar a participação das bactérias intestinais em sua ativação, um segundo experimento foi feito com camundongos.
Desta vez, um grupo de roedores teve a microbiota intestinal reduzida com o uso de um potente coquetel de antibióticos. Ao ser desafiado com a administração de estreptozotocina, o grupo mostrou-se resistente ao desenvolvimento da doença, mesmo sendo capaz de expressar NOD2. Para os pesquisadores, isso está relacionado com a eliminação de bactérias nos linfonodos pancreáticos.

Já um outro conjunto de animais também teve a microbiota intestinal reduzida, mas recebeu, além de estreptozotocina, injeções de MDP – molécula encontrada em várias bactérias e capaz de ativar NOD2. Nesse caso, os animais tornaram-se diabéticos.
“Esses resultados confirmam, portanto, que existe alguma bactéria reconhecida via NOD2 nos linfonodos pancreáticos que está envolvida no desenvolvimento do diabetes tipo 1. Não conseguimos descobrir qual exatamente é a espécie bacteriana, mas agora pretendemos realizar uma análise metagenômica mais abrangente para tentar identificá-la”, disse Daniela.

Segundo a pesquisadora, com base nessas evidências, o próximo passo será testar algumas intervenções preventivas ou terapêuticas, como a modulação da microbiota intestinal por meio de compostos probióticos e prebióticos, ou a inibição do receptor NOD2 com drogas farmacológicas.

Os resultados publicados no Journal of Experimental Medicine também foram apresentados por Daniela durante o FAPESP/EU-LIFE Symposium on Cancer Genomics, Inflammation & Immunity. O evento realizado entre os dias 7 e 9 de junho, na sede da FAPESP, teve como objetivo fomentar a colaboração entre cientistas do Estado de São Paulo e da Europa.

O artigo Gut microbiota translocation to the pancreatic lymph nodes triggers NOD2 activation and contributes to T1D onset (doi: 10.1084/jem.20150744) pode ser lido em jem.rupress.org/content/213/7/1223.abstract.
 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Tuberculose: origens, diagnóstico e diabetes

Três diferentes estudos apresentam avanços sobre a doença que mata 1,3 milhão de pessoas anualmente no mundo. 
 
Por: Cássio Leite Vieira
Publicado em 21/10/2014 | Atualizado em 21/10/2014
Tuberculose: origens, diagnóstico e diabetes
A infecção de focas e leões-marinhos pode explicar como a bactéria da tuberculose teria contaminado humanos que viveram no Peru quando a América ainda estava geograficamente isolada. (foto: Ricardo Batisda.
 
Três novidades sobre a tuberculose.

  • A primeira revela como ela pode ter chegado ao continente americano. 
  • A outra promete levar a um diagnóstico para o quadro em sua forma ‘adormecida’. 
  • A terceira mostra como o crescimento do diabetes pode inflar os números da epidemia mundial de tuberculose.

A equipe do paleogeneticista Johannes Krause, da Universidade de Tübingen (Alemanha), por meio da análise de restos de DNA de bactérias da tuberculose, mostrou que a doença pode ter chegado ao continente americano por meio de focas ou leões-marinhos.

O material genético analisado por Krause e colegas foi extraído de esqueletos humanos com cerca de mil anos de idade achados no Peru.

Krause e colegas, ao analisarem os genomas de três amostras de DNA da bactéria extraídas dos esqueletos, concluíram que elas são similares à Mycobacterium pinnipedii, adaptada a focas e leões-marinhos.
 
Sabe-se que as linhagens da Mycobacterium tuberculosis (bactéria que causa a doença em humanos) encontradas hoje em habitantes do continente americano são geneticamente muito semelhantes àquelas achadas na Europa – daí se pensar que a introdução do quadro por aqui ocorreu no século 16, com a chegada dos colonizadores espanhóis.

No entanto, Krause e colegas, ao analisarem os genomas de três amostras de DNA da bactéria extraídas dos esqueletos, concluíram que elas são similares à Mycobacterium pinnipedii, adaptada a focas e leões-marinhos. Com base nisso, os autores propõem que o contágio tenha ocorrido entre esses mamíferos marinhos e humanos. E só mais tarde é que essa linhagem teria sido substituída pela M. tuberculosis europeia, mais agressiva. O artigo está em Nature.

Outro desdobramento interessante (e intrigante) do estudo: o ancestral comum mais recente da M. tuberculosis teria apenas 6 mil anos de idade. Segundo Krause e colegas, foi nessa época que focas e leões-marinhos teriam sido infectados, nas costas africanas, por algum hospedeiro da bactéria.
No entanto, esse intervalo de tempo contrasta muito com os 70 mil anos que o conhecimento atual atribui à emergência dessa doença (Nature Genetics on-line). Acredita-se também que os humanos tenham adquirido o micro-organismo ainda antes de migrar da África para outros continentes.
Críticos dizem que seria preciso encontrar mais esqueletos antigos com a bactéria – principalmente, em outras localidades do continente americano – para que as conclusões de Krause e colegas sejam corroboradas.

‘Adormecida’ diagnosticada 

O segundo artigo traz a esperança de que, com base em seus resultados, seja desenvolvido um método para diagnosticar a chamada tuberculose latente – ou seja, a pessoa tem a bactéria, mas não manifesta os sintomas da doença.

Dennis Montoya, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (EUA), e colegas mostraram que a proteína IL-32 (interleucina-32) poderia ser a razão pela qual um paciente portador da M. tuberculosis não adoece. Segundo os autores, essa proteína (em níveis mais elevados que o normal) poderia ser a responsável por ativar o sistema de defesa do organismo contra a bactéria. O artigo está em Science Translational Medicine.
M. tuberculosis
A presença de grande quantidade da proteína IL-32 e de níveis adequados de vitamina D poderia ser a razão pela qual uma pessoa infectada com a 'Mycobacterium tuberculosis' não desenvolve a doença. (imagem: Divulgação/ Sanofi Pasteur)
Montoya e colegas mostraram ainda que o disparo da defesa contra a M. tuberculosis não depende só de altos níveis da IL-32, mas também de níveis adequados de vitamina D no organismo. Ou seja, proteína e vitamina devem agir conjuntamente (e em harmonia) para que a doença permaneça assintomática.
Isso explicaria por que populações com pele mais escura – que funciona como um filtro solar natural contra a radiação ultravioleta – seriam mais suscetíveis à tuberculose, como se vê com mais frequência na África e Ásia. A explicação é que a radiação solar é necessária para a fabricação dessa vitamina. Talvez, dizem os autores, níveis menores de vitamina D possam estar relacionados a índices mais elevados da doença. Se essas relações estiverem corretas, elas também poriam sob risco maior de desenvolver a doença pessoas com a pele muito branca que evitam tomar sol – no caso, para evitar o câncer de pele.
Os autores acreditam que medir os níveis sanguíneos da IL-32 poderia ser uma forma de diagnóstico para a presença da bactéria ou para fases ainda muito iniciais da doença. E que, talvez, a suplementação da vitamina D se mostre um modo eficaz de elevar as defesas contra o micro-organismo – trabalho anterior do mesmo grupo já havia mostrado que a vitamina D ajuda a matar a bactéria.

Para se ter ideia da importância desses resultados, basta lembrar que cerca de um terço do mundo está infectado com a M. tuberculosis. Mas só de 5% a 10% desse universo manifestam a doença. No estado latente, não há contágio da doença, que, antes do advento dos antibióticos, era tratada com repouso, alimentação reforçada e, preferencialmente, em lugares de clima seco e frio. No Brasil, a cidade de Campos de Jordão (SP) se tornou famosa por seus sanatórios.

Associação perigosa 

A edição de setembro do periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology  publicou uma série de três artigos que chamam a atenção para um problema que tem se agravado nos últimos anos: a relação perigosa entre diabetes do tipo 2 e tuberculose. E esse binômio é ainda mais preocupante em países em desenvolvimento.
A relação pode parecer, à primeira vista, estranha. Mas é procedente:

i) o diabetes aumenta os riscos de o portador da M. tuberculosis passar a manifestar os sintomas – ou seja, a doença se tornar ativa;

 ii) os resultados do tratamento da tuberculose são, em geral, piores em diabéticos;

iii) estes, por sua vez, têm mais dificuldades de controlar as taxas de açúcar no sangue em relação a um diabético sem tuberculose. A chance de um diabético morrer ao longo do tratamento de tuberculose é cerca de duas vezes maior, se comparada com a de um não diabético.

O diabetes do tipo 2 é a forma da doença que leva à resistência do organismo à insulina (hormônio que ajuda a controlar os níveis de açúcar no sangue). A principal causa é a obesidade, e essa forma representa cerca de 90% dos casos da doença. A do tipo 1 é dita autoimune, ou seja, o sistema de defesa, por motivo ainda desconhecido, ataca o pâncreas, órgão onde a insulina é fabricada, e, assim, o hormônio deixa de ser produzido. Ambas têm impacto negativo na tuberculose, mas a principal responsável é a do tipo 2.
Um dos artigos indica que cerca de 15% dos casos de tuberculose em adultos no mundo já são associados ao diabetes, que afeta cerca de 380 milhões de pessoas no planeta atualmente
Um dos artigos indica que cerca de 15% dos casos de tuberculose em adultos no mundo já são associados ao diabetes, que afeta cerca de 380 milhões de pessoas no planeta atualmente.

Surgem cerca de 1 milhão de novos casos dessa associação por ano, mais de 40% deles na Índia e China. A África do Sul tem 70 mil casos do binômio, mas tem as taxas mais altas de tuberculose entre os países: 1 mil casos por 100 mil habitantes, três vezes maiores do que o segundo lugar, Burma (377 casos/100 mil).
Se a tendência atual se mantiver, a redução dos casos de tuberculose sofrerá um declínio entre 3% e 8% por volta de 2035, apontam os autores. A meta (ambiciosa) das autoridades de saúde mundiais é chegar àquele ano com uma redução de 90% na incidência de tuberculose no mundo. A associação com o diabetes compromete esse objetivo.

A Federação Internacional de Diabetes estima que, nos próximos 20 anos, o número de casos de diabetes possa subir 21%, o que corresponderia a uma prevalência (sem dúvida, espantosa) de aproximadamente 10% da população adulta planetária.
Em conjunto, tuberculose e diabetes têm tudo para reforçar o qualificativo ‘mal do século’, como a primeira era conhecida há cerca de 100 anos. Talvez, mais apropriado fosse ‘males do século’.

Cássio Leite Vieira
Ciência Hoje/ RJ

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Diabetes Mellitus


Sinônimos:
Hiperglicemia, diabetes

Nomes populares:
Sangue doce, açúcar no sangue

O que é Diabetes mellitus?
Diabetes mellitus (DM) é uma condição na qual o pâncreas deixa de produzir insulina ou as células param de responder à insulina que é produzida, fazendo com que a glicose sangüínea não seja absorvida pelas células do organismo e causando o aumento dos seus níveis na corrente sangüínea.
Existem dois tipos principais da doença. O diabetes tipo 1 (DM1) e o tipo 2 (DM2).


Diabetes mellitus tipo 1. O que é?
O DM1 é o tipo de diabetes predominante na infância e na adolescência, a idade em que ela se inicia geralmente é de 10 aos 14 anos (pico de incidência). Porém, a incidência (número de casos novos) do DM2 está aumentando nesta faixa etária nos últimos anos.
O diabetes tipo 1 resulta da destruição das células beta do pâncreas – células produtoras de insulina. Esta destruição é mediada por respostas auto-imunes celulares. Ou seja, o próprio organismo destrói suas células, levando ao aumento da glicose no sangue por déficit absoluto de produção de insulina.
As manifestações clínicas na infância e na adolescência variam desde a cetoacidose – que muitas vezes é o evento inicial da doença, até uma hiperglicemia pós-prandial. As manifestações podem ser desencadeadas pela presença de infecção ou outra condição de estresse ao organismo. Apesar de rara na apresentação inicial, a obesidade não exclui o diagnóstico de DM1.
O DM1 associa-se com relativa freqüência a outras doenças auto-imunes como tireoidite de Hashimoto, doença celíaca, doença de Graves, doença de Adison, vitiligo e anemia perniciosa. Recomenda-se investigar rotineiramente a doença auto-imune da tireóide e, se possível, também a doença celíaca nas pessoas que têm DM1, devido a sua maior prevalência (número de casos existentes de determinada doença).

 Diabetes mellitus tipo 2. O que é?

O DM2 é considerado uma das grandes epidemias do século XXI e afeta quase 90% das pessoas que têm diabetes, sendo o tipo mais comum.
Ocorre quando o nível de glicose (açúcar) no sangue fica muito alto. A glicose é o combustível que as células do corpo usam para obter energia. O diabetes  tipo 2 ocorre quando não há produção suficiente de insulina pelo pâncreas  ou porque o corpo se torna menos sensível à ação da insulina  que é produzida - a chamada resistência à insulina. A insulina  ajuda o corpo a levar a glicose para dentro das células.
Os sintomas incluem aumento da freqüência urinária, letargia, sede excessiva e aumento do apetite – muitas vezes não acompanhado de ganho de peso.
É uma doença crônica que pode causar complicações à saúde; incluindo insuficiência renal, doenças do coração, derrame (acidente vascular cerebral) e cegueira.
Em termos mundiais, cerca de 240 milhões de indivíduos apresentam DM, com uma projeção de 366 milhões para o ano de 2030, dos quais dois terços serão habitantes de países em desenvolvimento. Infelizmente, cerca de metade das pessoas com DM desconhecem que são portadores desta condição e não podem, dessa forma, prevenir suas complicações.
No Brasil, o número estimado de portadores de DM é de aproximadamente 16 milhões de pessoas.

 Pré-diabetes. O que significa este conceito?
É uma condição em que os níveis de glicose são mais altos que o normal, mas não tão altos para dar o diagnóstico de DM2 (o tipo mais freqüente). Pessoas com pré-diabetes têm maiores riscos para desenvolver diabetes  tipo 2, doenças do coração e derrames (acidentes vasculares cerebrais). Uma vez cientes desta condição, podem iniciar medidas preventivas.

Quais são as causas do DM?
No DM1, a causa básica é uma doença auto-imune que lesa irreversivelmente as células beta do pâncreas (células produtoras de insulina). Nos primeiros meses após o início da doença, são detectados no sangue anticorpos - anticorpo anti-ilhota pancreática, anticorpo contra enzimas das células beta (anticorpos antidescarboxilase do ácido glutâmico - antiGAD, por exemplo) e anticorpos anti-insulina.
No DM2, ocorrem diversos mecanismos de resistência à ação da insulina. O estilo de vida moderno tem papel fundamental no desenvolvimento do diabetes, quando consiste em hábitos que levam ao acúmulo de gordura principalmente na região abdominal. Tipo de distribuição de gordura que é mais relacionado ao aumento do risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares.


O que se sente?
Os sintomas do aumento da glicemia são: sede excessiva, aumento do volume urinário e do número de micções, hábito de urinar durante a  noite, fadiga, fraqueza, tonturas, visão borrada, aumento de apetite e  perda de peso.
Estes sintomas clássicos do diabetes muitas vezes passam despercebidos ou não são valorizados pelos portadores desta condição.
Estes sintomas tendem a ir se agravando e podem levar a complicações severas e agudas como a cetoacidose diabética (no DM1) e o coma hiperosmolar (no DM2), caso a doença não seja diagnosticada, nem tratada.
Os sintomas das complicações que ocorrem a longo prazo, ou seja, aquelas decorrentes da hiperglicemia mantida ao longo dos anos, envolvem alterações visuais, circulatórias, digestivas, renais, urinárias, neurológicas, dermatológicas, ortopédicas e problemas cardíacos.


Como o médico faz o diagnóstico?
Além dos sintomas e sinais clássicos da doença, que podem não estar presentes precocemente, o diagnóstico laboratorial do Diabetes mellitus é estabelecido pela medida da glicemia no soro ou plasma, após um jejum de 8 a 12 horas e também pela dosagem da glicemia 2 horas após sobrecarga com glicose (glicemia 2 horas após-sobrecarga). O diagnóstico sempre deve ser confirmado com uma segunda medida.
Os parâmetros para o diagnóstico de diabetes são:

Critérios para a presença de anormalidades da tolerância à glicose, segundo a ADA-2005:

 Categoria
 Glicemia de Jejum
 Glicemia 2h pós-sobrecarga
 Normal
 <100 mg/dl
 <140 mg/dl
 Glicemia de jejum alterada (GJA)
 100-125 mg/dl
 -
 Tolerância à glicose diminuída (TGD)
 -
 140-199 mg/dl
 Diabetes*
 126 mg/dl
 200 mg/dl

Quando ambos os exames são realizados (glicemia de jejum e TOTG de 2h), GJA ou TGD podem ser diferenciados.

*O diagnóstico de diabetes requer confirmação em uma outra coleta.
(Adaptado da American Diabetes Association - ADA 2005)


Quais os objetivos do tratamento?
O objetivo principal é manter os níveis glicêmicos o mais próximo dos valores considerados normais. Também é importante manter os níveis adequados de colesterol, controlar a pressão arterial e o peso corporal de acordo com o que se segue:

Glicemia plasmática (mg/dl)*:

  • Jejum: 110 ou 100 (ADA, 2004)
  • Pós-prandial: 140-180
  • Glicohemoglobina (%)*: 1% acima do limite superior do método

Colesterol (mg/dl):
  • Total: < 200
  • HDL: > 45
  • LDL: < 100
  • Triglicérides: < 150

Pressão arterial (mmHg):
  • Sistólica: < 130**
  • Diastólica: < 80**

Índice de Massa Corporal - IMC*** (kg/m²): 20-25  kg/m².

* : Quanto ao controle glicêmico, deve-se procurar atingir valores os mais próximos do normal. Como muitas vezes não é possível, aceita-se, nesses casos, valores de glicose plasmática em jejum até 126 mg/dl e pós-prandial (duas horas) até 160 mg/dl, e níveis de glicohemoglobina até um ponto percentual acima do limite superior do método utilizado. Acima desses valores, é sempre necessário realizar intervenção para melhorar o controle metabólico.
** : The Seventh Report of the Joint National Committee on Prevention, Detectation, Evaluation and Treatment of High Blood Pressure (JNC 7). JAMA 2003; 289:2560-72.
***:  Índice de Massa Corporal – IMC. É a medida mais usada  na prática para saber se  uma pessoa é considerada obesa ou não. Ele é calculado dividindo-se o peso corporal em quilogramas pelo quadrado da altura em metros.


Quais são as complicações do DM?
O desenvolvimento das complicações crônicas está relacionado ao tempo de exposição à hiperglicemia.
As complicações do diabetes são divididas em dois grupos.
O primeiro deles se refere à elevação brusca da glicose no sangue, hiperglicemia. Ela pode levar o paciente a urinar excessivamente, sentir muita sede, emagrecer, desidratar e até perder a consciência, chegando ao coma diabético, mais freqüente em pessoas com DM1.
O segundo grupo de complicações são as decorrentes da glicemia aumentada e mantida durante meses ou anos, podendo levar a alterações vasculares no coração, nos olhos (retinopatia), nos rins (nefropatia) e nos nervos (neuropatia). Essas situações acontecem, principalmente, nos pacientes com o tipo 2 do diabetes.
A doença cardiovascular é a primeira causa de mortalidade nos indivíduos com DM2, a retinopatia a principal causa de cegueira adquirida, a nefropatia uma das maiores responsáveis pelo ingresso em programas de diálise e o pé diabético importante causa de amputações de membros inferiores.


Mesmo com a glicemia controlada, existem exames que devem ser feitos periodicamente pelos diabéticos?
Caso o diabetes esteja sendo bem controlado, existem exames que podem ser feitos para monitorar as complicações do diabetes e evitar sua progressão. São eles:
  • Dosagem de hemoglobina glicada (HbA1c): deve ser mantida sempre menor do que 7%
  • Exame de fundo de olho: faz a análise da retina do diabético
  • Dosagem da microalbuminúria: verifica a presença de pequenas quantidades de proteínas na urina que podem causar nefropatia
  • Aferição da pressão arterial
  • Lipidograma ou dosagem de colesterol
  • Exame dos pés: para evitar as lesões do pé diabético e amputações de membros inferiores


Perguntas que você pode fazer ao seu médico:
- O que muda na minha rotina após o diagnóstico de diabetes?
- Quais as minhas chances de ter um filho com diabetes?
- Devo usar produtos light ou diet? Qual a diferença entre eles?
- Além do açúcar, existem outros alimentos que não devo usar?
- Como aplicar corretamente a insulina?
- O diabetes implica em alguma mudança na minha vida profissional?
- O que é o cálculo de contagem de carboidratos? Posso usar isso para comer doces usando insulina de ação ultra-rápida para evitar a hiperglicemia?


Fontes:
Atualização Brasileira sobre Diabetes – 2006
Consenso Brasileiro sobre Diabetes – 2002
ABC.MED.BR, 2011. Diabetes Mellitus. Disponível em: . Acesso em: 18 ago. 2011.